Tutankhamon, Zahi Hawass e Nicholas Reeves: quais são as últimas novidades sobre a tumba do faraó

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

O Ministro das Antiguidades do Egito, Jaled al Anani, deu no início de fevereiro uma entrevista para o jornal El Mundo falando sobre a nova fase das pesquisas na tumba do faraó Tutankhamon (KV-62), cujo objetivo é procurar por espaços vazios que estariam atrás de suas paredes. A possibilidade da existência desses espaços foi sugerida pelo egiptólogo britânico, Nicholas Reeves, em um artigo acadêmico que pontuava sinais que indicariam lugares ocos por trás de duas paredes da câmara funerária do rei, e que eles seriam um segundo túmulo. Ele ainda declarou que o proposto sepulcro poderia pertencer a ninguém menos que a rainha Nefertiti, figura celebre do Período Amarniano.

— Saiba mais sobre essa governante: Nefertiti e Akhenaton: Rainha e faraó

Tutankhamon, Hawass e Reeves.

Embora tais indícios sejam circunstanciais, o anterior Ministro das Antiguidades, Mamdouh al-Damaty, resolveu averiguar, dando início a um verdadeiro hype, deixando a imprensa internacional em polvorosa. Nesse período duas inspeções com radar foram realizadas: a primeira, feita por um pesquisador chamado Hirokatsu Watanabe no início de 2016, apontou a certeza da existência de câmaras ocultas, porém a apresentação do resultado dos seus estudos não convenceu arqueólogos e especialistas em radar ao redor do mundo. Então uma segunda equipe, organizada pela National Geographic, foi averiguar a tumba. Porém, ao contrário do Watanabe, eles foram proibidos de liberar seus resultados.

golden mask king tutMáscara mortuária de Tutankhamon.

Foi nesse meio tempo que o Ministro das Antiguidades foi mudado e dessa vez a pesquisa entrou nos eixos. Isso porque o atual exerceu o seu papel como cientista, pensando como um arqueólogo e não como um correspondente para a imprensa.

Tempos depois uma mesa em um evento de arqueologia foi realizada no Cairo para debater o assunto. Nela participaram o próprio Watanabe, o ex-ministro, Yasser El Shayb, Nicholas Reeves e Zahi Hawass. Na ocasião Watanabe acabou expondo que o seu aparelho tinha sido customizado e por isso os seus pares não seriam capazes de analisar as informações coletados por ele. Esse tipo de comentário no meio cientifico é impensável. Não é análise científica se somente uma pessoa é capaz de ler os dados. Isso é um quesito básico na nossa profissão: desenvolver métodos e técnicas que sejam possíveis de serem utilizados e entendidos por outros profissionais.

Tomb of TutEntrada para a tumba do faraó.

A situação ficou mais complicada quando dias após o evento o jornalista Owen Jarus lançou uma matéria explicando que os dados da National Geographic não tinham sido liberados porque a analise deles apontou que não existia espaços ocos algum. No vídeo abaixo fiz um resumo de tudo isso o que falei aqui, utilizando, inclusive, algumas imagens:

Agora em 2017, meses após essa conferência, foi anunciada que uma equipe italiana iria investigar também a tumba. Outra novidade é a de que Reeves não fará parte desse novo estudo. “A teoria foi elaborada por Reeves, mas a tumba de Tutankhamon pertence ao Egito”[1], declarou o ministro acerca desse assunto. “O projeto não foi cancelado, mas prefiro tratar com instituições científicas. Nos chegou uma proposta séria da Itália. O comitê permanente a estudou e ela foi aprovada” [1]. E ele continuou “Tem que se diferenciar entre a teoria e a pessoa que a formulou. Estamos trabalhando sobre a tese de que pode existir algo”[1], ainda expôs “O senhor Reeves não está relacionado com o novo projeto e não está desenvolvendo nenhuma investigação sobre a tumba no momento, mas, como qualquer outro especialista, pode enviar uma solicitação e será examinada. Até o momento não recebemos nenhuma proposta de uma instituição que leve o nome de Reeves. Para nós é crucial tratar com instituições”.[1]

O ministro também confirmou que a pesquisa teria início no final de fevereiro e começo de março (2017) e ela realizará uma varredura com um radar nas paredes da tumba.

Inside the tomb of the boy king, TutankhamenCâmara funerária da KV-62.

As experiencias anteriores deixaram o público empolgado, mas, muitos arqueólogos preocupados. A arqueologia é uma ciência social que trata do passado da humanidade e não deve ser tratada como uma notícia caça-níquel; ela requer muita paciência e cuidado em suas análises, algo que pode durar meses ou anos e esse foi o erro crucial no caso dessas buscas por câmaras ocultas na tumba de Tutankhamon. Misturar a pressa e até mesmo o sensacionalismo com a Arqueologia pode acabar enterrando carreiras. Essa parece ser uma preocupação semelhante a do atual ministro, que na mesma entrevista salientou: “Temos que dar tempo para a ciência e seus métodos. As expectativas ou os sentimentos não funcionam aqui. Minha esperança é encontrar algo na [tumba] de Tutankhamon e em qualquer outra sepultura do Egito, mas tem que se distinguir entre esperanças e emoções. É tão possível que existam essas cavidades como não ter nada” e continuou “Eu sou um acadêmico. Primeiro teremos que certificar que existe cavidade e, se existe, devemos especificar se é simplesmente um espaço vazio ou uma tumba. No caso do segundo, o seguinte seria investigar a quem pode pertencer”[1].

ToutânkhamonReconstituição da localização dos artefatos encontrados na tumba de Tutankhamon, que foi descoberta em 1922 praticamente intacta pelo arqueólogo inglês Howard Carter.

Ele ainda falou do seu antecessor e suas afirmativas sobre a sua certeza acerca da existência de uma segunda sepultura na KV-62: “Eu sou somente responsável por minhas palavras, mas creio que existe uma diferença entre o que ele disse e o que se entendeu. Al Damati me disse que jamais havia dito dos 90% nesses termos. Simplesmente se limitou a informar de que o especialista do radar afirmava que tinha essa porcentagem de probabilidades de existir algo”[1]. Por fim ele deixou um recado sensato “os procedimentos científicos devem ser respeitados e seguidos com cuidado porque teremos uma credibilidade no mundo”[1].

O jornal El Mundo ainda tentou contato com o professor Reeves, mas não obteve resposta. Fui averiguar no site do pesquisador, mas desde a minha consulta no dia 11 de fevereiro (2017) até o momento ele permanece fora do ar.

Zahi Hawass:

O mundialmente famoso arqueólogo egípcio Zahi Hawass nos últimos dias teceu em sua página no Facebook algumas palavras acerca da possibilidade de existir câmaras ocultas na tumba de Tutankhamon. Abaixo sua mensagem na integra (tradução nossa):

Ancient Egypt Dr. zahi HawassZahi Hawass

Você acredita que a múmia de Nefertiti está no Museu do Cairo, nas câmaras ocultas no túmulo do rei Tut, ou ainda está para ser descoberta?

Eu realmente não acho que a rainha Nefertiti está na KV-62 — o túmulo de Tutankhamon — por muitas razões: um, eu não acho que os sacerdotes de Amon jamais deixariam a rainha que seguiu seu marido Akhenaton ao adorar o Aton ser enterrada no Vale dos Reis; Dois, por que o rei Tut seria enterrado em um túmulo que pertencia à sua mãe? E três: o estilo do túmulo e a cena do Imyduat é exatamente o mesmo estilo encontrado no túmulo de Ay; isto poderia provar que este túmulo foi feito originalmente para Ay e quando Tutankhamon morreu repentinamente, ele deu-lhe essa tumba. Além disso, por que alguém entraria no túmulo e bloquearia o que estava por trás? — isso nunca aconteceu. A evidência mais importante que refuta esta teoria é que quando eu peguei as leituras de radar japonês e as dei a um especialista em radar americano, ele me escreveu oficialmente dizendo que essa leitura não mostra nada. Eu realmente acredito que Nefertiti foi originalmente enterrada em Amarna, e assim como o esqueleto na KV-55 — que descobrimos ser Akhenaton — foi movida, sua múmia poderia ter sido movida mais tarde para algum lugar no Vale dos Reis. Talvez eu esteja certo, talvez eu esteja errado, mas acho que a múmia com uma cabeça encontrada na KV-21 poderia ser Nefertiti. Por quê? Porque os egípcios sempre enterraram uma mãe e uma filha, como na KV-35 onde a múmia da rainha Tiye foi enterrada ao lado de sua filha, a mãe de Tutankhamon. Encontramos algumas evidências de que a múmia sem cabeça na KV-21 poderia ser Ankhesenamon. Portanto, talvez a outra múmia seja Nefertiti.

Para saber o que mais publiquei aqui no Arqueologia Egípcia sobre o assunto clique aqui.

Fontes:

[1] Egipto aparta al arqueólogo Reeves de la investigación de la tumba de Tutankamón. Disponível em < http://www.elmundo.es/ciencia/2017/02/10/589c9bf7ca4741f1318b4639.html >. Acesso em 10 de fevereiro de 2017.

[2] Question 10 – Do you believe Nefertiti’s mummy is in the Cairo Museum, in the hidden chambers in King Tut’s tomb, or it is yet to be discovered? Disponível em < https://www.facebook.com/112384738789408/photos/a.195047590523122.52414.112384738789408/1538410116186856/?type=3&theater >. Acesso em 10 de fevereiro de 2017.

 

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro "Uma viagem pelo Nilo". [Leia seu perfil]