O Museu Nacional em chamas: o que esperar do futuro?

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

O dia 02 de setembro agora ficará marcado na memória do país. O Museu Nacional, localizado na Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro, aquele mesmo que poderia ser o orgulho da nação, mas que permaneceu esquecido durante anos pelo poder público, irrompeu em chamas que destruíram em poucas horas mais de 20 milhões de artefatos científicos catalogados. Não se sabem ainda quais as causas do incêndio: alguns especulam que foi um curto circuito, já uma testemunha ocular declarou ao O Globo que viu um balão sobrevoar a Quinta da Boa Vista e cair no quintal do museu. Independente das causas, o fato inadmissível é que a região não estava preparada para o incidente. Os bombeiros chegaram com um caminhão tanque plenamente abastecido, mas quando ele esvaziou eles tentaram usar os hidrantes da área, entretanto, estavam secos, o que os levou a esperar por abastecimentos.

Foto: Uanderson Fernandes; Agência O Globo

Então, todos na região assistiram incrédulos ao museu ser consumido até ruir, levando consigo artefatos arqueológicos da pré-história brasileira, múmias pré-colombianas, acervos linguísticos raros, múmias egípcias únicas, coleções biológicas notáveis e, dentre centenas de muitos outros exemplos, o crânio da nossa brasileira mais antiga, a Luzia, datado com mais de 11,5 mil anos. Ou seja, não foi uma tragédia somente para o Brasil, mas para o mundo.

No canal do Arqueologia Egípcia comentei o ocorrido. Este vídeo foi gravado assim que cheguei na cidade, mas foi postado no dia seguinte.

Enquanto alguns dos nossos políticos tratam o assunto com desdém falando frases controversas como “Já pegou fogo, quer que eu faça o quê?” ou “Agora que aconteceu tem muita viúva chorando”, representantes governamentais de outros países, a exemplo da Alemanha e da França, prometeram ajuda financeira para recuperar alguma coisa dos escombros. A National Geographic também prometeu auxilio, assim como a UNESCO.

Foto: Tânia Rêgo/ABr

Contudo, agora que a tragédia ocorreu, o que seria certo nesta situação? Erguer um novo museu a partir da carcaça do Museu Nacional? “Recriar” o Museu Nacional imitando a sua arquitetura? De qualquer forma o que teríamos seria uma ilusão de um discurso de superação, já que um prédio novo não apagará a mancha da vergonha de mostrar internacionalmente que nós, um país que não está em guerra — que é uma das principais causa de destruições de museus e sítios arqueológicos —, assistimos a destruição de museus e permanecemos alheios da gravidade disto.

Múmia egípcia raríssima do Período Romano que foi destruída durante o incêndio do Museu Nacional. Foto: Lélio D. Facó.

 


*As fontes das notícias encontram-se ao longo do texto.

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro "Uma viagem pelo Nilo". [Leia seu perfil]