Quase 600 sepulturas de gatos e cães são encontradas próximas de porto egípcio no Mar Vermelho

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Recentemente foi a anunciada no Egito a descoberta de mais de 600 covas onde estavam sepultados cães e gatos. Para alguns leitores isso pode soar estranho e talvez até cruel, já que não é um pensamento incomum relacionar sepultamentos de tantos animais com sacrifícios. Porém, esse não é o caso.

Uma equipe de arqueologia da Academia de Ciências da Polônia, que estava trabalhando no porto romano de Berenice, costa do Mar Vermelho, desenterrou 585 animais, que compreendem principalmente cães e gatos.

O destaque em vermelho aponta a área do cemitério.

Eles já tinham encontrado esse cemitério sob um lixão romano, fora dos muros da cidade, em 2011. O que descobriram na época foi que o cemitério parece ter sido usado entre os séculos I e II d.E.C, quando o porto de Berenice era utilizado pelos romanos para o transporte e comércio de marfim, tecidos e outros produtos de luxo da Índia, Arábia e Europa.

O que se sabe atualmente é que essas sepulturas tratam-se de túmulos individuais para cada bichinho e vários deles estavam cobertos com tecidos ou pedaços de cerâmica, “que formavam uma espécie de sarcófago”, esclareceu a arqueóloga Marta Osypinska, coordenadora da equipe, ao portal Science. Outro detalhe é que nenhum dos animais foi mumificado: vale lembrar que a partir do século I o Egito já tinha saído da era dos faraós e muitos costumes estavam sendo deixados para trás.

As pesquisas arqueológicas foram conduzidas de 2011 a 2020 e no total foram descobertos 536 gatos, muitos usando colares de ferro ou colares com rosca de vidro e conchas. Um felino em especial foi colocado na asa de um grande pássaro. Já 32 são cães e o restante são restos de outros animais, especialmente dois macacos de espécies distintas (inclusive um deles, que foi sepultado na seção central do cemitério, foi acompanhado pelos corpos de três gatos).

(a) esqueleto de um cachorro; (b) gato; (c) macaco.

A forma de sepultamento foi praticamente semelhante: uma característica clara foi a colocação intencional do animal em uma posição que parecesse que ele estivesse dormindo.

Alguns gatos têm ossos fraturados o que pode ter sido causado por quedas ou por serem chutados por cavalos ou pessoas, por exemplo. Essas fraturas foram medicadas e saradas. Outros morreram jovens, possivelmente de doenças infecciosas. Já dentre os cães têm aqueles que padeceram graças a velhice, se encontrando sem a maioria dos dentes ou sofrido degeneração articular. Essa ausência dos dentes junto com idades tão avançadas são detalhes muito interessantes, uma vez que esses animais precisariam receber alimentos amassados ou líquidos para poder se alimentar. Ou seja, alguém, há mais de 2000, se preocupou em separar alguns minutos do seu dia para preparar a comida do seu bichinho idoso.

Coleiras e contas encontradas ao lado de gatos, bem como os acessórios de um enterro de macaco.

Outro detalhe interessante é que os cães descobertos até o momento eram de tamanho médio, corpo esguio e um crânio longo. Porém, uma descoberta única foi feita: um deles, o menor de todos, foi uma cadelinha de pequeno porte de tipo maltês. O “maltês” de Berenice foi a única cachorrinha de colo descoberta até hoje no Egito. Ela possivelmente veio de outro continente.

O arqueólogo Wim Van Neer, do Instituto Real Belga de Ciências Naturais, que estudou a relação entre pessoas e animais no mundo antigo, inclusive em Berenice, fez alguns adendos. Ele explicou ao Science que é possível que o povo de Berenice valorizasse seus cães e gatos por razões não sentimentais. Como pontuou, um porto com um forte comércio e trânsito de pessoas estaria repleto de ratos, tornando os gatos necessários. E embora alguns dos filhotes no local fossem cães médios, os maiores poderiam ter servido para a guarda. “Não acredito que tenha sido apenas um relacionamento amoroso”, explicou o pesquisador.

O conceito de animais de estimação é algo moderno, mas o sentimento de estima para com uma variedade de animais tem longa história. Sabemos que a relação de estima com os gatos e principalmente com os cães é longa, mas poder vê-la refletida nos cemitérios é como ver uma peça de um grande quebra-cabeças perdido há milênios. A descoberta de cada vez mais indícios antigos dessa relação é um retrato a mais para nós conhecermos e entendermos os nossos antepassados.

Fontes:

Graves of nearly 600 cats and dogs in ancient Egypt may be world’s oldest pet cemetery. Disponível em < https://www.sciencemag.org/news/2021/02/graves-nearly-600-cats-and-dogs-ancient-egypt-may-be-world-s-oldest-pet-cemetery >, acesso em 28 de fevereiro de 2021.

ANCIENT PETS. The health, diet and diversity of cats, dogs and monkeys from the Red Sea port of Berenice (Egypt) in the 1st-2nd centuries AD Disponível em < https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/00438243.2020.1870545 >, acesso em 3 de março de 2021.

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro "Uma viagem pelo Nilo". [Leia seu perfil]