A análise da múmia de Seqenenre-Tao II: os aterrorizantes minutos finais de um faraó

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Essa foi uma notícia quente nas minhas redes sociais e a qual só estou trazendo agora para vocês aqui no Arqueologia Egípcia. Essa pesquisa foi iniciada em 2019, mas concluída agora no início de 2021. A questão é que finalmente saiu o resultado da tomografia da múmia do faraó Seqenenre-Tao II (tanto faz você escrever “Tao” ou “Taa”). E ela confirma o que já sabíamos, que ele teve uma morte muito violenta. Contudo, existe um adendo nessa história: ele foi executado enquanto indefeso!

Vamos por partes!

Seqenenre-Tao II foi esposo da rainha Ahhotep I e ambos governaram o sul do Egito, a partir de Tebas, durante o Segundo Período Intermediário, na 17ª Dinastia. O Segundo Período Intermediário é uma época histórica conhecida por dinastias que reinaram concomitantes. No caso da época de Seqenenre-Tao II, o qual pertencia a uma dinastia tebana, ele reinou ao mesmo tempo que uma dinastia de estrangeiros conhecidos como “heqau-khasut”.

“Heqau-khasut’ é um termo do egípcio antigo que significa “governantes das terras estrangeiras”. Essa palavra, séculos mais tarde, foi transformada pelos gregos em “hicso”. Os hicsos eram povos asiáticos, possivelmente pastores, que ocuparam o norte do Egito, especificamente Avaris, assumindo-a como capital do seu reino.

— Vocês podem conhecer um pouco sobre os Períodos Intermediários através desse vídeo:


Devido a força militar de seus oponentes, os governantes de origem egípcia deveriam pagar tributos aos hicsos. E sabemos, graças a um papiro chamado “The Sallier I; Papyrus I”, que existiam grandes hostilidades entre o rei hicso Apófis e o Seqenenre-Tao II. De acordo com o texto, o Apófis enviou uma mensagem agressiva para Seqenenre-Tao II insinuando que os hipopótamos da piscina de Tebas eram muito barulhentos e perturbavam seu sono em Aváris (a 644 km de distância). Na mensagem ele também exigia que a piscina fosse destruída.

Não sabemos como texto acaba (a parte final nunca foi encontrada), mas sabemos que Seqenenre-Tao II reuniu seu conselho e juntos decidiram que declarariam guerra aos hicsos.

Temos pouco, mas bons registros arqueológicos da época que relatam os passos dados pelos egípcios, pelos dos hicsos e até pelos núbios, que também se envolveram na guerra.

Entretanto, os textos históricos não nos dão uma luz acerca do que ocorreu exatamente com o Seqenenre-Tao II. Ele simplesmente some dos dados históricos, o que geralmente significa morte. E isso fica comprovado pelo fato de que o seu filho mais velho, Kamose, assume o trono, mas ele também não vive por muito tempo. Foi então que um outro filho de Seqenenre-Tao II, Ahhmose, subiu ao o trono, mas, devido a sua idade, é a rainha Ahhotep I quem assumiu o governo como regente e expulsa por fim os hicsos do Egito, abrindo assim o Novo Império.

O destino de Seqenenre-Tao II foi um completo mistério até 1881, quando o governo egípcio, após uma longa investigação acerca de uma família de saqueadores de tumbas, chega ao esconderijo de Deir el-Bahari, em Tebas, onde mais de 40 múmias foram encontradas, dentre elas, essa aqui:

Essa múmia foi desembrulhada anos mais tarde, em 9 de julho de 1886 por um arqueólogo chamado Gaston Maspero, que na época era diretor do Serviço de Antiguidades. Na ocasião ele estava acompanhado por um médico cirurgião chamado Daniel Fouquet.

Foi durante esse desenfaixamento que Maspero descobriu que essa múmia era ninguém mais, ninguém menos que Seqenenre-Tao II, porque o seu nome estava escrito entre as bandagens, as quais ainda eram as originais. E um detalhe importante foi relatado pelos dois: tanto Maspero como Fouquet relataram um odor de decomposição saindo da múmia, assim como lesões graves na cabeça.

— Sobre a descoberta das múmias no esconderijo de Deir el-Bahari:

Em 1906 a múmia foi analisada mais uma vez, porém agora por Grafton Elliot Smith, um professor de anatomia. Ele também pontuou a presença das terríveis feridas na cabeça, mais, complementou as informações alertando para a ausência de ferimentos nos braços e no resto do corpo.

Damos então um salto na história para a década de 1960, quando a múmia passou por um exame de raio-x, que confirmou cinco ferimentos graves na cabeça.

Olhando somente para essas informações, estava claro que algo terrível tinha ocorrido com ele, mas, o estado de suas mãos sempre foi uma incógnita.

Então, em 2019, o arqueólogo egípcio Zahi Hawass anunciou que estava trabalhando em uma análise da múmia, que passaria por uma tomografia computadorizada. Essa tomografia, esperava-se, daria uma visão mais ampla do estado da múmia, além das circunstâncias que circundam sua morte.

Atualmente a múmia está no Museu do Cairo e em breve será transferida para o Museu Nacional da Civilização Egípcia de Fustat. Um detalhe que pouca gente sabe é que por baixo do tecido que a cobre, a múmia está totalmente desarticulada. Ela foi destruída provavelmente na época de Maspero.

Ela passou pelo tomógrafo no dia 4 de maio de 2019, tomógrafo esse que estava em um caminhão estacionado no jardim do Museu Egípcio. Paralelamente, como já existia a desconfiança de que o rei tinha falecido em um contexto de batalha, por conta da aparência da sua múmia e o histórico da sua época, a equipe separou algumas armas que foram encontradas em um sítio arqueológico hicso no Egito e cuja a datação é de justamente da época de Seqenenre-Tao II.

Essas armas, que foram descobertas por uma equipe de arqueologia austríaca, e que hoje estão no Museu Egípcio do Cairo, são provenientes de Tell el Dabaa. Elas foram medidas e seus formatos foram analisados. O intuito era fazer um comparativo com as feridas do rei. Foram três punhais, um machado de batalha e uma ponta de lança. Vamos aos pontos principais descobertos pela pesquisa:

  • A tomografia aponta que ele tinha cerca de 40 anos quando morreu;
  • Alguns ferimentos do crânio já eram conhecidos, mas, com as imagens obtidas através da tomografia foram identificados outros ferimentos. Eles estavam ocultos por camadas de material de mumificação, os quais foram aplicados pelos embalsamadores para esconder as feridas;
  • A análise da posição e ângulo dos ferimentos possibilitou identificar que mais de uma pessoa atacou o rei e que em um dado momento ele estava sentado ou ajoelhado;
  • Os pesquisadores não conseguiram definir exatamente todas as armas usadas durante o ataque. Mas, ao menos a ferida da bochecha esquerda e a que está acima da sobrancelha direita, foram provocadas por um machado de batalha hicso; O ferimento da testa teria sido causado por uma arma com uma lâmina bem larga. Mas, essa não seria uma arma hicsa, mas, egípcia; O trauma no nariz do rei teria sido causado por uma vara grossa; Já a lesão no processo mastoide esquerdo e na base do crânio poderia ter sido causada por uma lança;
  • Embora tenha sido mais de um agressor, Seqenenre-Tao II não se defendeu dos ataques;
  • As mãos deformadas não seria nenhum problema congênito: a sua aparência seria um indicativo de que ele foi preso com elas atadas as suas costas e na hora da morte sofreu um “espasmo cadavérico”;
  • Alguns veículos de imprensa sugeriam que tratou-se de uma “execução cerimonial”, o que não é sugerido em momento algum no artigo original da pesquisa. A hipótese de “execução cerimonial” provavelmente surgiu por conta do contexto histórico: ela era amplamente propagada pela história do Egito (inclusive é representada na Paleta de Narmer) e tinha o intuito de demonstrar poder. Porém, reitero que em nenhum momento o artigo sugere isso;
  • Os embalsamadores só evisceraram o corpo, não removeram o cérebro;
  • Isso ocorreu porque o corpo, quando recuperado, já estava em meio ao processo de decomposição. O cérebro, por exemplo, estava desidratado e deslocado para o lado esquerdo: isso é um indício de que o corpo ficou deitado sobre o lado esquerdo por muito tempo, antes de recuperado pelos egípcios;
  • A sugestão é de que o rei morreu longe de casa, possivelmente em campo de batalha, por isso da demora para ser recuperado;
  • Porém, apesar de um cenário caótico de um campo de batalha, o rei não foi mal mumificado, pelo contrário, os indícios apontam que a mumificação foi realizada em uma oficina de mumificação da realeza.

Fonte:

Computed Tomography Study of the Mummy of King Seqenenre Taa II: New Insights Into His Violent Death. https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fmed.2021.637527/full?utm_source=fweb&utm_medium=nblog&utm_campaign=ba-sci-fmed-pharaoh-seqenenre-taa-CT-scan-cause-of-death

RICE, Michael. Who’s Who in Ancient Egypt. Londres: Routledg. 1999.

Múmia egípcia de 2,5 mil anos chama atenção de cientistas no Brasil

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

A identificação de uma cabeça de uma múmia egípcia no Brasil em 2017 chamou a atenção de pesquisadores. Apelidada de a “Múmia de Cerro Largo” (ou Ireti-Neferet, como os responsáveis pela pesquisa decidiram nomeá-la), esta cabeça permaneceu anônima no museu Centro Cultural 25 de Julho em Cerro Largo, no Rio Grande do Sul. Entretanto, ela foi notada pelo historiador Édison Hüttner, que conseguiu permissão para estudá-la na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

Foto: Bruno Todeschini

Durante um ano ela passou por diferentes tipos de pesquisas, uma delas foi uma análise por radiocarbono feita nos Estados Unidos (no laboratório Beta Analytic). Ela também passou por uma tomografia computadorizada no Instituto do Cérebro da PUCRS. Já a parte da arqueologia ficou por conta do arqueólogo Moacir Elias Santos.

Graças as análises, foi possível descobrir que o crânio pertence a uma mulher que morreu com cerca de 40 anos e que viveu no Egito entre 768 a 476 a.E.C, época situada entre o final do Terceiro Período Intermediário e o início do Período Tardio. 

Também sabe-se que ela não teve uma mumificação de qualidade — ao menos levando em consideração o padrão egípcio — já que não ocorreu a conservação total dos tecidos moles e não foram encontrados resquícios de resina dentro da caixa craniana. 

Outro detalhe importante é que foi descoberto que ela possuía uma incrustação feita em pedra no lugar de um dos olhos, assim como chumaços de linho preenchendo a área dos glóbulos oculares. 

Um rosto milenar

E as pesquisas continuam a avançar: em 2019 o crânio recebeu uma reconstituição facial realizada pelo artista forense Cícero Moraes — responsável também pela reconstituição da face da múmia Thotmea —. 

Reconstituição facial da “Múmia de Cerro Largo”

O resultado foi então apresentado para o público em agosto de 2019, durante o evento “Achados sobre a múmia Ireti-Neferet”, no auditório Ir. José Otão do Hospital São Lucas da PUCRS. E espera-se que em breve uma cópia da reconstituição seja feita e posta em exposição. 

Tem curiosidade em saber como esta múmia veio parar no Brasil? Assista o vídeo abaixo:

Por que as pessoas do passado mumificavam?

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

As múmias mais famosas do mundo certamente são as egípcias. Graças a elas sabemos detalhes sobre a vida no Egito Antigo, tais como dieta, meio ambiente, causas de morte comuns e taxas de mortalidade. E estas múmias só existem pelo simples e puro fato de que os antigos egípcios acreditavam na vida após a morte e que os corpos mumificados seriam uma “parte da existência” necessária para tornar esta “continuação da vida” possível. A propósito: as múmias no Egito eram chamadas de “Sah”.

Múmia egípcia

Mas, não existiram múmias somente no Egito, certo? Em vários lugares pelo mundo múmias foram encontradas e as finalidades delas nem sempre eram parecidas as dos egípcios — ou seja, vida após a morte —. Algumas não possuíam finalidade alguma, sendo somente acidentes da natureza.

É onde entra aqui o que nós arqueólogos chamamos de “mumificação antrópica” — também chamada de cultural — e “mumificação natural”. O primeiro tipo é aquele que foi construído por pessoas e o segundo tipo o que foi feito pela natureza. Exemplo:

As antrópicas são aquelas múmias feitas com o uso de artifícios que visam preservar o corpo tais como o “banho” de natrão, banho de vapor, etc… Onde pessoas pensaram em alternativas para a conservação. Ótimos exemplos são algumas egípcias, chinesas e amazônicas.

Múmia de Papua Nova Guiné

As naturais são aquelas que se formaram de forma acidental, porque o corpo foi colocado em um ambiente propício para a conservação, ou seja, não existia um desejo pela mumificação, ela simplesmente ocorreu. Alguns exemplos são as do Everest, as de San Bernado e Otzi.

Homem de Tollund

Múmia de San Bernado

Já teve curiosidade em saber os motivos das pessoas terem mumificado seus entes queridos ao longo dos séculos? Ou quantos tipos de múmias existiram? Assista a este vídeo: