Escaravelhos carnívoros no Egito Antigo? Entenda!

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Quando o filme “A Múmia” (1999) estreou arrecadou milhares de fãs ao redor do mundo e junto com a fama veio alguns estereótipos: foi graças a esta obra de aventura que muitos dos amantes da antiga cultura egípcia vieram a se familiarizar com a imagem dos escaravelhos sagrados que, apesar de pequenos, eram extremamente mortais: em todos os seus momentos de tela eles aparecem devorando carne humana viva.

Entretanto, este animal jamais existiu!

Escaravelho sagrado egípcio.

Existem várias espécies de escaravelhos, com diferentes colorações e formatos. E algumas de fato comem carne humana, mas somente em decomposição. No caso do Egito além de ser insetos inofensivos, possuíam um papel extremamente importante, sendo considerados uma das imagens de uma importante divindade criadora, o Khepri.

Neste vídeo explico melhor sobre os escaravelhos sagrados, suas múmias — sim, foram encontradas múmias de escaravelhos — e como você pode estudá-los:

Sarcófagos e múmias de escaravelhos. Foto: Ministério das Antiguidades do Egito

Khepri era tido como a manifestação do sol nascente, ou seja, ele era uma divindade solar e uma das formas do deus Rá. Para variar, os antigos egípcios achavam que não existiam fêmeas entre os escaravelhos e que eles nasciam “do nada” de dentro das bolas de estrume que eles carregam de um lado para o outro. Este seria um dos motivos para os egípcios adotar Khepri como um deus criador.  

Escaravelho com uma bola de estrume.

Deus Khepri.

Fontes:

DAVID, Rosalie. Religião e Magia no Antigo Egito (Tradução de Angela Machado). Rio de Janeiro: Difel, 2011.

IKRAM, Salima. Divine Creatures: Animal Mummies in Ancient Egypt. Cairo: The American University in Cairo, 2005.

SHAFER, Byron. Sociedade, moralidade e práticas religiosas (Tradução de Luis Krausz). São Paulo: Nova Alexandria, 2002.

Ancient Egyptian tombs yield rare find of mummified scarab beetles. < https://www.reuters.com/article/us-egypt-archaeology-discovery/ancient-egyptian-tombs-yield-rare-find-of-mummified-scarab-beetles-idUSKCN1NF0KY >. Acesso em 10 de novembro de 2018.

Descubra como eram feitas as múmias egípcias

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Certamente as múmias são um dos elementos mais reconhecíveis da cultura da Era dos Faraós. Elas são tão queridas e instigantes que acabaram se tornando o tema de muitos documentários. Além de muito presentes na cultura popular: nós as vemos em filmes, séries, literatura, histórias em quadrinhos, games, brinquedos e revistas.

E não é difícil encontrá-las em alguns museus de antiguidades. Até no nosso Brasil possuíamos algumas. A maioria estava no Museu Nacional e foram destruídas no incêndio ocorrido no dia 2 de setembro de 2018. Incêndio este que arrasou todo o interior do edifício. E em Curitiba, no Museu Egípcio e Rosacruz, possuímos uma cabeça feminina que foi apelidada pelos pesquisadores como Thotmea.

Mas, como é que eram feitas as múmias egípcias? Quais ingredientes eram utilizados? E por que os egípcios passaram a mumificar? Estas e outras perguntas são respondidas neste vídeo exclusivo produzido pelo Arqueologia Egípcia:

As múmias egípcias significam várias coisas. Desde um dos passos necessários do morto para alcançar a eternidade a um vínculo do falecido com o mundo dos vivos. Porém, a mumificação foi muito além.

O aperfeiçoamento da sua prática acabou possibilitando notáveis avanços na medicina nos tempos dos faraós. Já que o conhecimento do corpo tornou possível que os médicos egípcios pudessem ter uma visão mais geral dos ferimentos e enfermidades.

Clique aqui para conferir a imagem colecionável “A Mumificação” da Del Prado.

E graças às pesquisas arqueológicas nós conhecemos alguns dos artefatos utilizados durante a mumificação. Na imagem abaixo é possível ver uma cama para o descanso do corpo no natrão, uma máscara do deus Anúbis e uma paleta de mumificador.

E nos dias de hoje é graças à boa conservação de muitas múmias que nós arqueólogos podemos arrecadar dados que nos possibilitam ler detalhes sobre a vida no Antigo Egito como doenças, alimentação, idade média de vida e causas comuns de morte em uma determinada comunidade.

Fontes do vídeo:

AUFDERHEIDE, Arthur. The Scientific Study of Mummies. Nova York: University of Cambridge, 2010.
BAINES, John; MALEK, Jaromir. Deuses, templos e faraós: Atlas cultural do Antigo Egito (Tradução de Francisco Manhães, Maria Julia Braga, Michael Teixeira, Carlos Nougué). Barcelona: Folio, 2008.
BIERBRIER, Morris L. Historical dictionary of Ancient Egypt. Maryland: The Scarecrow Press, Inc, 2008.
HARRIS, James. “Scientific study of mummies”.In: BARD, Kathryn. Encyclopedia of the Archaeology of Ancient Egypt. London: Routledge, 1999.
JIRÁSKOVÁ, L. Damage and repair of the Old Kingdom canopic jars: the case at Abusir. PES XV, 2015.
MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto (Tradução de Maria da Graça Crespo). Lisboa: Taschen, 1999.
STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007.

Site:
A Pigment from the Depths: https://www.harvardartmuseums.org/article/a-pigment-from-the-depths

Objetos perdidos de Tutankhamon são encontrados

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

A arqueologia é uma ciência cheia de surpresas, em especial graças aos momentos e lugares inusitados em que podem ocorrer descobertas arqueológicas. E foi isto o que ocorreu há algumas semanas no Museu de Luxor: em seu depósito foi encontrada uma misteriosa caixa e dentro dela estavam partes de um dos artefatos encontrados na KV-62, tumba do faraó Tutankhamon. A tumba deste rei foi descoberta em 1922 praticamente intacta e em seu interior foram encontrados mais de 5.300 objetos.

Foto: Museu de Luxor.

Quem encontrou a caixa foi o diretor de arqueologia e comunicação do museu, Mohamed Atwa. Em um comunicado à imprensa ele relatou o seu susto e a emoção de ter a encontrado:

“É a descoberta mais empolgante da minha carreira. É incrível que depois de todos esses anos ainda temos novas descobertas e novos segredos para este rei dourado, Tutankhamon.”

— Saiba mais: Importantes descobertas de embarcações em tumbas egípcias

Ele ainda explicou que encontrou a caixa enquanto estava separando alguns artefatos pertencentes a Tutankhamon e que seriam enviados para o Grande Museu Egípcio. O qual, espera-se, seja inaugurado ano que vem.

Foto: Museu de Luxor.

Dentre os objetos dentro da caixa estava um mastro de madeira, um conjunto de cordinhas e uma cabeça de madeira em miniatura coberta por folhas de ouro. Veja o vídeo abaixo para conhecer mais sobre este artefato e para entender os motivos que levaram os egípcios antigos a colocar embarcações dentro de tumbas:

Outra curiosidade é que estes objetos estavam embrulhados dentro de um jornal datado do dia 5 de novembro de 1933, um domingo. Porém, o museu deu a caixa como desaparecida desde 1973.

As embarcações eram extremamente importantes para os antigos egípcios, tão importantes que eram representadas em tumbas em forma de maquetes ou pinturas parietais. Até o deus sol Rá utilizava uma embarcação para cruzar o céu. Então confira a imagem colecionável “A Barca Solar de Quéops” da Coleções DelPrado. Comprando através do nosso link o Arqueologia Egípcia ganha uma comissão. Clique aqui para adquirir a sua ou aqui para ver mais colecionáveis.

Fontes:
This Miniature Boat Was Meant for King Tut’s Fishing Trips in the Afterlife
https://www.livescience.com/64922-lost-king-tut-boat-found.html

Encuentran en el Museo de Luxor una caja con objetos perdidos de la tumba de Tutankamón
https://www.abc.es/cultura/abci-encuentran-museo-luxor-caja-objetos-perdidos-tumba-tutankamon-201903071347_noticia_amp.html?__twitter_impression=true

Hawass e Cleópatra: a notícia era uma mentira!

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Em janeiro saiu uma matéria anunciando que o arqueólogo Zahi Hawass estava prestes a encontrar a tumba da rainha Cleópatra VII. Inclusive esta notícia foi veiculada aqui no Arqueologia Egípcia. De acordo com a fonte o arqueólogo teria dito durante uma conferência na Universidade de Palermo (Itália) que “Espero encontrar em breve o túmulo de Antônio e Cleópatra. Eu acredito que eles estão enterrados no mesmo túmulo”. O local de sepultamento seria Taposiris Magna.

Zahi Hawass e Kathleen Martinez

Entretanto, de acordo com o próprio Hawass, esta notícia é falsa. Veja o vídeo para saber sobre o desdobramento desta história:

O faraó Ramsés II tirou um passaporte 3.000 anos após sua morte?

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Ramsés II. Foto: Creative Commons

O Egito Antigo parece possuir um dom, que é sempre nos abrilhantar com notícias de teor no mínimo… Único. Perto do final do ano passado, por exemplo, viralizou, juntamente com a imagem abaixo, a notícia de que o faraó Ramsés II teria um passaporte. Na imagem em questão podemos ver o nome “Ramsés II”, ao lado de uma fotografia da múmia do rei. Ambos acompanhados por outros dados como nacionalidade, data de aniversário (1303 Antes da Era Cristã) e ocupação, que aqui é descrita como “Rei (morto)”.

Naturalmente as redes sociais do Arqueologia Egípcia receberam várias e várias vezes esta imagem, o que me levou a publicar o seguinte vídeo (onde, inclusive explico um pouco sobre quem é Ramsés II:

Bom, a questão é que juntamente com o viral surgiu uma outra imagem do suposto passaporte do faraó, que é a seguinte:

Esta é muito mais convincente contendo alguns códigos e marca d’água. Entretanto, esta imagem, como bem explico no vídeo, é falsa.

Contudo, a história de que Ramsés II teria um passaporte é verdadeira. Ele recebeu um quando a múmia do rei precisou ser enviada para França em 26 de setembro de 1976. Isso porque corpos transportados por empresas aéreas precisam de uma identificação e múmias, antes de curiosidades históricas que vocês visitam em museus, são corpos de pessoas mortas.

Múmia de Ramsés II. Fotos: G. Elliot Smith

O motivo da tal viagem é porque a múmia estava se decompondo e exalando um mau cheiro, coisas que não são muito comuns em múmias egípcias. Em sua chegada ao Museu do Homem de Paris foi descoberto que o que estava causando este transtorno era uma colônia de fungos que foram devidamente exterminados com raios gama. A causa da morte rei também foi descoberta, assim como o estado de saúde dele. Estas e outras curiosidades vocês podem conferir em nosso vídeo.

Uma forma de encarar a morte: O que são múmias?

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

As milhares de comunidades espalhadas pelo mundo — do presente ou do passado mais remoto — tinham cada uma a sua própria forma de tentar entender a morte. Muitas sociedades ocidentais atuais, por exemplo, tentam torná-la “invisível”, excluindo-a do dia a dia, tratando, consequentemente, os assuntos relacionados com ela como um tabu.

Contudo, este não é um pensamento unânime e em algumas sociedades a dor da separação pode ser contornada ou aliviada através de práticas funerárias distintas. Uma delas é a mumificação de cadáveres.

Múmia do faraó Ramsés II. Fotografo desconhecido (Wikimedia Commons).

A adoção de estruturas funerárias tais como pirâmides ou jazigos costuma apontar para uma resistência à morte e a tentativa de perpetuar, mesmo que simbolicamente, a existência do falecido como uma figura social (SOUZA, 2015). E a mumificação entra aqui como uma destas tentativas de permanência (RADLEY, 1992 apud SOUZA, 2015).

A mumificação pode ser definida como a paralisação do processo cadavérico antes da esqueletização total ou parcial. A intenção de preservar os cadáveres é manter a individualidade depois da morte e ter a pessoa falecido mais próximo do mundo dos vivos.

Embora tenham se popularizado em filmes hollywoodanos e mesmo em documentários como peças de curiosidades, as múmias, quando analisadas do ponto de vista biológico, podem contribuir para o conhecimento arqueológico, proporcionando informações sobre condições de vida, dieta, saúde, modificações corporais (utilização de alargadores, tatuagens, estilos de cortes de cabelos ou penteados, etc), ou sobre produtos de origem animal ou vegetal usados como ornamentos ou vestimenta (cores de tecidos, padrões de costuras, padrões de desenhos, tampões vaginais, sapatos, etc) que por ventura tenham sido conservados com o corpo.

Corpo com mais de 5.000 anos encontrado nos Alpes de Venoste. Estas marcas são tatuagens. Foto: The South Tyrol Museum of Archeology.
Os envólucros de múmias egípcias, por exemplo, dão detalhes da manufatura têxtil. Fotografo desconhecido (Wikimedia Commons).

Em termos simples, os tipos de múmias são divididos em dois grupos: múmias naturais e múmias antrópicas (AUFDERHEIDE, 2010).

Múmias naturais:

Nesse grupo de múmia entram os corpos preservados total ou parcialmente de forma natural devido a diferentes fatores que podem ter relação com o clima, o tipo de solo, o tipo de morte ou mesmo o tipo de involucro. Alguns exemplos são as múmias de Palermo (Itália), Otzi (Itália), as múmias do vulcão Llullaillaco (Argentina e Chile), múmias Pré-dinásticas do Egito e as Sokushinbutsu (Japão).


O “Homem de Tollund” é um exemplo de múmia natural. Foto: Robert Clark; National Geographic.

Múmias culturais ou antrópicas:

Tendo em vista que a própria denominação “cultura material” tem como objetivo ressaltar os artefatos como resultado do trabalho humano (MATTHEW, 2004 apud SOUZA, 2015), as múmias culturais são consideradas artefatos arqueológicos, já que para serem criadas necessitaram da manipulação humana (AUFDERHEIDE, 2010). São várias as formas de se criar múmias culturais, mas os espécimes mais populares indiscutivelmente advêm do Egito.

A confecção de múmias possui vários motivos que vão desde o religioso ao prático, como foi o caso de alguns dos corpos resgatados da área do naufrágio do Titanic, que foram embalsamados para que pudessem ficar reconhecíveis o maior tempo possível, facilitando assim a sua identificação. Ou dos soldados mortos durante a Guerra Civil Norte-americana.

Homem da época da Guerra Civil Norte-americana sendo embalsamado. Foto: Library Congress.

E nos dias atuais a mumificação ainda é empregada, seja para fins científicos — as múmias feitas durante as pesquisas de Arqueologia Experimental —, para uso estético ou higiênico — fazendo uso da Tanatopraxia — ou para manter a memória do falecido viva, a exemplos de líderes políticos ou religiosos.


Evita Peron. Foto: Getty Images.

Referências bibliográficas:

AUFDERHEIDE, Arthur. The Scientific Study of Mummies. Nova York: University of Cambridge, 2010.

SOUZA, Camila Diogo de. As práticas mortuárias na região da Argólida entre os séculos XI e VIII a. C. Tese (Doutorado em Arqueologia) – Museu de Arqueologia e Etnologia, USP, São Paulo, 2010.

SOUZA. Camila Diogo de. Aportes arqueológicos na produção do conhecimento histórico. Vol. XII | n°24 | 2015.

VIDAL, Irma Ason; OLIVEIRA, Claudia; VERGNE, Cleonice. SOUZA, Sheila Maria Ferraz Mendonça de. Mumificação natural na Toca da Baixa dos Caboclos, sudeste do Piauí: uma interpretação integrada dos dados. Canindé, Aracaju, v. 2, p. 83-102, 2002.

Uma entidade maligna do Egito Antigo na série “Penny Dreadful”?

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

“Penny Dreadful” é uma série de terror e fantasia que se passa durante a Era Vitoriana. Seu enredo faz várias analogias a personagens de histórias literárias clássicas de horror tais como “Drácula” de Bram Stoker, “Frankenstein” de Mary Shelley e “O Retrato de Dorian Gray” de Oscar Wilde. O seu nome vem de publicações de terror e horror que eram vendidas no século XIX na Inglaterra por centavos; Penny Dreadfuls: “centavos do horror” (DAVINO, 2014; MOREIRA, 2017).

Mas, além de tirar inspirações nestas publicações, a produção também se inspirou em algumas das coisas que eram vistas como instigantes para os ricos da Era Vitoriana, como era o caso do ocultismo, onde a ele poderia ser misturado um pouco de mitologia egípcia, isto graças a Egiptomania.

 

Egiptomania e o ocultismo:

São várias as formas de apropriação do passado egípcio. Algumas delas são através de movimentos sociais, outras por meio da espiritualidade. Esta insistência em se ter um pedaço do passado egípcio para si têm levado muitas pessoas desde o século XIX a criar narrativas onde os antigos mitos egípcios se encaixavam com suas crenças pessoais. Nisso criaram novas roupagens para o Egito Antigo. Estas novas roupagens são tema de estudo da Egiptomania a qual, falando de forma bem básica, é a apropriação de elementos das antigas sociedades egípcias — tais como imagens, gramática, mitos, etc — mas, dando a ela uma nova vida ou um novo uso (BAKOS, 2004).

Fotos: Penny Dreadful (Divulgação)

E é um dos ramos da Egiptomania que estuda o fascínio dos ocultistas em se misturar em suas sessões elementos da antiga civilização egípcia. Durante o século XIX essas sessões costumavam ocorrer em salões particulares ou em gabinetes de pessoas ricas. E é em um desses salões que os personagens principais de Penny Dreadful se depararam com o nome Amonet. Referida no enredo como “A Oculta”, Amonet é tomada como um demônio bastante perigoso e que se cujo poder foi libertado trará catástrofe. Mas, será que era isto mesmo?

 

Amonet: um demônio egípcio?

No Egito Antigo uma das tradições que existia era empregar a dualidade. O deserto versus o Nilo, a ordem versus o caos, a vida versus a morte. E também algumas divindades possuíam sua contraparte. É o caso dos deuses da “Ogdóade de Hermópolis”. Este grupo de deuses têm esse nome porque o “ogdóade” refere-se ao número 8 (LESKO, 2002).

Assim temos Nun e Naunet representando as águas primordiais, Kuk e Kauket a escuridão, Hu e Hauhet a ausência de forma e Amon e Amonet que representavam o ocultamento. O “ocultamento” de Amon e Amonet não é porque eles eram demônios que espreitavam no escuro, mas, pelo motivo de serem divindades cuja natureza expressava conceitos da criação de acordo com a concepção religiosa egípcia (LESKO, 2002).

 

Fontes:

BAKOS, Margaret. Egiptomania. O Egito no Brasil. 1a.. ed. São Paulo: Paris (Contexto), 2004.

DAVINO, Vanessa. Penny Dreadful: Rastros de clássicos góticos em palimpsesto televisivo de horror; Davino (UFBA); BABEL: Revista Eletrônica de Línguas e Literaturas Estrangeiras; ISSN: 2238-5754 – n.07, ago/dez de 2014.

LESKO, Leonard. “Cosmogonias e Cosmologia do Antigo Egito”. In: SHAFER, Byron; BAINES, John; LESKO, Leonard; SILVERMAN, David. As religiões no antigo Egito (Tradução de Luis Krausz). São Paulo: Nova Alexandria, 2002.

MOREIRA, Maria Elisa Rodrigues. Penny Dreadful: a literatura e o cinema nas telas da TV. In: Anais do XV Congresso Internacional da Associação Brasileira de Literatura Comparada. ABRALIC. Rio de Janeiro: UERJ, 2017. v. 3. p. 5324-5332.

 

Um passeio pela tumba da rainha Nefertari

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Este ano a empresa Experius VR lançou um passeio virtual para que o público possa “caminhar” pela tumba de Nefertari, rainha que reinou no Egito durante o Novo Império, na 19ª Dinastia. Não se sabe qual a sua origem, mas é certo que ela se casou com o faraó Ramsés II antes da coroação dele e que possivelmente foi mãe de quatro meninas e quatro meninos.

Foto via.

Alguns egiptólogos acreditam que ela faleceu no 25º ano do reinado de Ramsés II, contudo, as circunstâncias são um mistério. Porém, ao menos se sabe que ela foi sepultada em uma necrópole que fica ao lado do Vale dos Reis, o chamado atualmente de Vale das Rainhas. A sua tumba foi encontrada por um arqueólogo italiano chamado Ernesto Schiaparelli (1856 – 1928) em 1904 e foi tombada como a QV-66. Infelizmente ela já tinha sido saqueada ainda na antiguidade e a múmia da governante possivelmente destruída [1].

Por ser ricamente decorada a QV-66 chamou a atenção de vários visitantes, mas, tragicamente alguns vandalizaram as imagens. Isso levou o Serviço de Antiguidades do Egito (atualmente o Ministério das Antiguidades) a permitir que 1986 fosse realizado um trabalho de restauro por parte do Instituto Getty de Conservação de Los Angeles. Ele se seguiu por cinco anos e a equipe recusou-se a fazer, por mais mínima que fosse, uma intervenção moderna nas pinturas (completar desenhos faltosos, por exemplo) para não abalar a integridade delas.

Entretanto, para preservá-las pós-restauro, a tumba foi fechada para visitações por alguns anos. Mas, atualmente ela se encontra aberta, porém a visita pode durar somente alguns minutos.

Já aqueles que não podem ir ao Egito tem outras alternativas para “conhecer” o lugar. São os passeios virtuais tais como da Experius VR (que exige o uso de óculos de realidade virtual HTC Vive) ou do Patola Games, um site de jogos educacionais hoje inexistente, mas, cujo arquivo do passeio ainda pode ser rodado mesmo em sistemas operacionais mais novos, tais como Windows 10. Saiba mais sobre ele no vídeo a seguir:

As imagens na tumba de Nefertari são belíssimas e totalmente dignas da esposa mais amada de Ramsés II, cujo nome significa “A Mais bela de Todas”. Mas, estas ilustrações não foram desenhadas sozinhas. Várias pessoas precisaram trabalhar nelas durante dias.

Então, se você quiser rememorar este momento e for um ávido colecionador de imagens a Coleções DelPrado possui uma cena que retrata os antigos pintores egípcios durante um trabalho em uma tumba. Tem alguns homens fazendo rabiscos na parede, preenchendo alguns hieróglifos com tinta e uma mesinha próxima com uns potinhos. Confiram clicando aqui.

Leia outros textos sobre a rainha Nefertari:

[1] A múmia da Rainha Nefertari foi mesmo encontrada?

http://arqueologiaegipcia.com.br/2016/12/03/a-mumia-da-rainha-nefertari-foi-mesmo-encontrada/

A restauração na tumba de Nefertari

http://arqueologiaegipcia.com.br/2010/10/13/a-restauracao-na-tumba-de-nefertari/

Veja estas fotos impressionantes da tumba da rainha Nefertari

http://arqueologiaegipcia.com.br/2017/04/21/veja-estas-fotos-impressionantes-da-tumba-da-rainha-nefertari/

Saiba como as crianças se divertiam no tempo dos faraós

A infância é uma época lúdica, mesmo no Egito Antigo onde existia uma separação tênue entre a tenra idade e a idade adulta, esta normalmente estabelecida a partir do momento em que a criança casava ou tinha forças para trabalhar. Esta transição era pronunciada pelo corte da trança lateral, símbolo dos infantes.

 

Porém, as brincadeiras geralmente não tinham idade. É tanto que podemos ver em relevos mesmo adultos participando de folguedos.

E tal como outras sociedades, nos sítios arqueológicos do Egito foram encontrados brinquedos e no vídeo abaixo vocês poderão conferir alguns deles.

Ou você poderá conferir no post 10 brinquedos do Egito Antigo que você precisa conhecer.

Como foi o evento da “Lua de Sangue” no Egito

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

No início da noite de ontem (27/07) muitos brasileiros puderam presenciar um eclipse lunar total (o segundo do ano no Brasil) e a oposição do planeta Marte (ou seja, ele ficou bem mais visível no nosso céu noturno). Já outros não tiveram tanta sorte, devido ao tempo nublado em uma grande porção do país.

O grande chamariz desta ocorrência é que durante o eclipse a Lua assumiu um tom avermelhado, por isso que entre a imprensa ela tem sido chamada vulgarmente de “Lua Sangrenta” ou “Lua de Sangue”.

Os sortudos conseguiram registrar o ocorrido através de vídeos e fotografias e outros, mesmo com o tempo fechado, puderam assistiram ao evento através de lives tais como da NASA ou do canal Ciência e Astronomia (que comentou o eclipse e retirou várias dúvidas da audiência).

Mas, naturalmente, o eclipse não esteve visível somente no Brasil: em vários outros países foi possível acompanhar o fenômeno. Um deles foi o Egito, que, por não possuir muitas nuvens, basicamente teve um show no céu. E para nossa boa sorte algumas pessoas registraram. Alguns destes registros compartilho com vocês:

Fotografias tiradas no Platô de Gizé. Fonte: ADÓN // Scientific Investigations (não foi possível confirmar se o crédito das imagens de fato é da página)

O pontinho amarelo é o planeta Marte.

Publicado por ADÓN // Scientific Investigations em Sexta, 27 de julho de 2018

Vídeo feito no Cairo.

Mas atenção! Algumas das fotos que estão rondando pela internet são falsas. Cuidado especialmente com aquelas que mostram templos egípcios com luas gigantes do lado.

 

O significado dos eclipses para os antigos egípcios:

Embora sejam eventos incríveis e muitas vezes visíveis a olho nu, como foi o caso do de ontem, eclipses no Egito Antigo não parecem ter sido algo muito digno de nota nos registros oficiais do país. Ao menos não foram encontrados textos muito explícitos advindos das épocas mais antigas[1]. O que é irônico, vindo de uma civilização que tirava inspiração de muitos aspectos da natureza e que tomava eventos astronômicos (como é o caso do surgimento da estrela Sirius) para organizar seu calendário.

Quando vemos citações de eclipses durante a antiguidade egípcia elas eram escritas em demótico e com certa associação com alguma tradição estrangeira tal como a babilônica ou a grega (RIHLL, 2010 ; RYHOLT, 2010). Contudo, existem sim tentativas de egiptólogos de se identificar termos relacionados com tais eventos, entretanto, este ainda é um campo nebuloso. Quem estiver mais curioso acerca do tema pode consultar o texto “Total solar eclipses in Ancient Egypt – a new interpretation of some New Kingdom texts” de David G. Smith.

Tenha em casa: A Edições Del Prado, uma editora especializada em vendas de fascículos com imagens colecionáveis, possui uma coleção intitulada “Cenas do Egito Antigo”. Uma delas é a “barca solar de Quéops. Para os antigos egípcios as estrelas seriam, em verdade, embarcações.

Clique aqui para conferir a peça ou aqui para ver as demais cenas.

Fontes:

Morenz, Ludwig D. Popko, Lutz. The Second Intermediate Period and the New Kingdom. In: LLOYD, Alan, B (Ed). A Companion to Ancient Egypt. England: Blackwell Publishing, 2010.

Rihll, T. E. Science and Technology: Alexandrian. In: LLOYD, Alan, B (Ed). A Companion to Ancient Egypt. England: Blackwell Publishing, 2010.

Ryholt, Kim. Late Period Literature. In: LLOYD, Alan, B (Ed). A Companion to Ancient Egypt. England: Blackwell Publishing, 2010.

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[1] Durante o Período Romano um estudioso chamado Heron registrou a ocorrência de um eclipse no ano 62 durante a Era Cristã (RIHLL, 2010).