Quem é o real Rei Múmia aqui?

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Várias pessoas se questionam (e com razão) sobre qual a importância de se entender o Egito Antigo. Uma vez que esta civilização, embora extremamente famosa, não tem muito a ver com a nossa identidade. Contudo, graças a Egiptomania — reinterpretação dos artefatos egípcios — a vemos o tempo todo, seja no cinema, em games, nas propagandas do jornal e brinquedos.

Este é o caso do “Rei Múmia” da Imaginext (Fisher-Price). Nele podemos observar alguns pontos de Egiptomania tais como na ideia de um morto-vivo, no caso a própria múmia. Outro ponto é ela estar usando uma máscara de Anúbis, enquanto que este artefato originalmente era utilizado por um sacerdote no momento do embalsamamento.

Na embalagem do brinquedo podemos ler o seguinte questionamento, “Quem é o real Rei Múmia aqui?”. Isso porque o boneco possui um mecanismo que faz a sua máscara se erguer mostrando o seu rosto, que por sua vez se move revelando um espaço vazio em seu interior (onde ele engole seus inimigos).

Além do Rei Múmia a franquia possui outros personagens também inspirados no Egito Antigo. Inclusive uma grande cabeça de faraó que quando aberta revela uma serpente.

Conheça mais sobre estes brinquedos nos vídeos abaixo (em espanhol):

 

A Múmia (2017): poder antigo e a sexualização de um monstro (Comentários com SPOILER)

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Este é o primeiro filme da Dark Universe, da Universal Studios, que nada mais é que uma franquia de filmes inspirados nos Monstros Clássicos da própria Universal e que incluem “A Múmia”, Drácula, Lobisomem e etc. “A Múmia”, por exemplo, teve o seu primeiro filme em 1932, e que foi a base para os demais onde estão inclusos os grandes sucessos “A Múmia” (1999) e “O Retorno da Múmia” (2001). Ambos estrelando Brendan Fraser.

Todos os “A Múmia” se aproveitaram da ideia de um arqueólogo ou egiptólogo que em busca de conhecimentos acaba despertando um mal antigo. Porém, aqui não existe tempo para acadêmicos: a nossa nova múmia não é desperta por meio de encantamentos lidos por um profissional, mas por um soldado, o Nick Morton (Tom Cruise), que faz bico como contrabandista e que de modo pouco sutil retira o ataúde — ou melhor: a prisão — de uma princesa egípcia maligna, a Ahmanet (Sofia Boutella), de um poço de mercúrio.

A história do nosso novo monstro é simples: Ahmanet era a herdeira do trono do Egito, mas com o nascimento de um menino vê seu futuro como faraó arruinado. Então, ela toma como única solução fazer um pacto com o deus Set (Seth) pedindo por poder e assassina a sua própria família, inclusive o recém-nascido. No entanto, para que o pacto seja válido, ela ainda precisa entregar um homem em sacrifício, que deve ser morto com a Adaga de Set[1], para que ele receba o poder do deus. É aí que tudo dá errado: Na fase final do ritual a princesa é impedida por guardas, o rapaz escolhido para o sacrifício executado e ela sepultada viva.

Ahmanet. Foto: Divulgação.

Foto: Divulgação.

A personagem da Ahmanet despertou a curiosidade de uma parcela do público, que ficou ansiosa em saber se ela de fato existiu. A resposta é curta e simples: não. Entretanto, o seu nome parece ser inspirado no da deusa Amonet, a contraparte feminina do deus Amon.

 

Os equívocos:

E como era de se esperar, uma série de equívocos foram realizados, como a afirmação de que o mercúrio era utilizado pelos antigos egípcios para afastar os “maus espíritos” — isso é irreal [2]— ou que o deus Set é a divindade da morte; em verdade era do caos e do deserto. E ao contrário dos demais filmes que fizeram algum esforço para se inspirar em artefatos egípcios, aqui inspiração é a mínima possível. A Egiptomania ganha destaque e a Egiptologia é pouco levada a sério.

A Arqueologia também não tem muito espaço: o filme é aberto com uma imagem que está cada vez mais comum, que é a de radicais destruindo artefatos arqueológicos. Neste sentido a arqueóloga Jenny Halsey (Annabelle Wallace) era quem supostamente deveria catalogar estes objetos e salvar o que pudesse para manter ao menos algum registro histórico. Contudo, ela só tem olhos para o sarcófago de Ahmanet — o que perpetua a ideia de que o profissional arqueólogo está sempre em busca de coisas particulares que são, em poucas palavras, “a pesquisa da sua vida” — e ainda o transporta da forma mais questionável possível, com o uso de cabos e um helicóptero.

As roupas, penteados e maquiagem têm um apelo estético levemente voltado para a antiguidade egípcia. Nós entendemos que o Egito Antigo está ali, mas ele foi modificado para hora parecer visualmente mais agradável ao espectador (como é o caso da maquiagem da princesa que apesar de linda seu design só tenta se associar a antiguidade egípcia), hora para parecer grotesco (como as cabeças com um toucado nemes[3] que estão no topo da prisão de Ahmanet).

Foto: Divulgação.

Foto: Divulgação.

Foto de bastidor: Divulgação.

Os acertos:

Apesar de terem errado ao classificar Set como deus da morte, acertaram ao associar o poder de Ahmanet com pragas, a exemplo do bando de aves que atacam o avião ou os ratos em Londres da alucinação do Nick.

Personagens Jenny e Nick. Foto: Divulgação.

Figura feminina egípcia com marcas que provavelmente são tatuagens. Museu do Louvre.

Já quando Ahmanet recebe o poder de Set tatuagens passam a cobrir o seu corpo. Em entrevista um dos membros da equipe de gravação afirmou que isso era para dar um ar mais bizarro para a personagem, mas, tatuagens muito parecidas eram utilizadas por mulheres na antiguidade egípcia. Existem registros arqueológicos que retratam corpos femininos com pontinhos espalhados pelo corpo, figuras geométricas, imagens de deuses ou formas amuléticas. Tatuagens no Egito Antigo é um tema um pouco nebuloso, mas, caso queira saber mais sobre este assunto assista ao vídeo “Tatuagens no Egito Antigo” clicando aqui.

Outro ponto são os cruzados possuírem um artefato egípcio. O Egito era um ponto estratégico para o domínio do Levante, então é plausível que esses soldados carregassem consigo algo do país.

E por fim existem casos de mulheres ter o poder supremo do Egito, no vídeo Mulheres Faraós comento brevemente sobre elas. Se a personagem Ahmanet não fosse inclinada para o mal ela provavelmente teria tornando-se regente do irmão e se tivesse uma boa rede política assumiria como faraó tendo o seu irmão como herdeiro. Foi esse o caso da Hatshepsut, a diferença é que o seu herdeiro foi o seu enteado, Tutmés III.

 

Referências aos demais filmes:

A Múmia é uma franquia com quase 100 anos com um filme inspirando ou alimentando os outros. Neste de 2017 as maiores inspirações vieram dos de 1999 e 2001. Desta forma, fiquem de olho nas cenas de luta, porque ao menos duas delas foram inspiradas nas desses dois títulos. Prestem também atenção no som emitido pelas múmias, são os mesmos das que aparecem nesses dois filmes. O rosto do monstro na tempestade de areia foi novamente utilizado e os famosos escaravelhos carnívoros foram substituídos por aranhas-camelos venenosas. Mas, a melhor referência, sem dúvida, foi o aparecimento do Livro de Ouro de Amon-rá.

O Livro de Ouro de Amon-Rá no filme de 1999. Captura.

Ser sepultada viva é um ingrediente presente em todos os outros filmes. A única diferença, como já foi citado, foi ela não ser despertada por meio de encantamentos.

Ser sepultado vivo faz parte de todas as tramas do monstro “A Múmia” da Universal.

A tempestade de areia: uma das referências a outros dois títulos da franquia.

Um monstro mulher foi o grande trunfo, mas sua sexualização o desvinculou do restante da franquia. Enquanto tínhamos um Imhotep ou um Kheris com o objetivo de despertar a amada, Ahmanet vê em seu “escolhido” a chave para o poder com um discurso sexual nas entrelinhas. Mas, isso não para aí: enquanto que o Imhotep de 1999 e 2001 suga a vida das suas vítimas pelo ar a Ahmanet se utiliza do beijo. Isso nos remonta ao texto de Craig Barker, Friday essay: desecration and romanticisation – the real curse of mummies — que foi traduzido aqui no A.E. — onde ele faz a seguinte pontuação:

Um número de estudiosos, especialmente Jasmine Day, têm investigado o papel das múmias na ficção do século XIX e um aspecto interessante é o número de escritoras femininas desses contos.

Uma das, se não a mais antiga, história de múmia é The Mummy!: Or a Tale of the Twenty Second Century (1827) de Jane Webb (Loudon), que mostra o avivamento de Quéops no ano 2126. Outras escritoras apresentaram um interessante subtexto e perspectiva.

Os túmulos de múmias egípcias da realeza haviam sido violados e explorados por saqueadores, e uma analogia com o estupro é clara dentre as antigas ficções de maldição de múmias escritas por mulheres. Em contraste, escritores masculinos, como o Gautier, apresentavam muitas visões mais romantizadas ou eróticas dos mortos.

E de fato. “A Múmia” passou pelas mãos de quatro roteiristas, todos homens: Jon Spaihts, Christopher McQuarrie, David Koepp e Dylan Kussman.

Ahmanet e o seu “escolhido”.

O futuro da Dark Universe e de “A Múmia”:

O futuro para a franquia parece incerto, ao menos para alguns veículos de imprensa que apontam o “fracasso” e o prejuízo financeiro gerado pela bilheteria baixa. O objetivo do A.E. é falar principalmente da Arqueologia, Egiptologia e o uso do Egito Antigo em obras de ficção e não de questões que envolvam roteiro, efeitos especiais, etc. Entretanto, observando com um olhar mais crítico, não é difícil notar as grandes falhas de “A Múmia” em parte do seu roteiro e construção de alguns dos seus personagens. Especialmente como fã da franquia este é um filme divertido, mas com problemas que podem comprometer suas futuras continuações… Se existirem.

Tenha em casa: A Edições Del Prado, uma editora especializada em vendas de fascículos com imagens colecionáveis, possui uma coleção intitulada “Cenas do Egito Antigo”. Uma delas recria um momento durante a mumificação.

Clique aqui para conferir a peça ou aqui para ver as demais cenas.

 


Notas:

[1] A Adaga de Set é um artefato plenamente fictício inventado unicamente para o enredo do filme.

[2] Para quem tem curiosidade: existe um pequeno verbete sobre o raro uso de mercúrio no Egito no livro “Ancient Egyptian Materials and Technology” editado por Paul T. Nicholson e Ian Shaw (Cambridge University Press).

[3] Nemes: toucado listrado representado na cabeça de faraós.

Algumas músicas de Rock inspiradas no Egito Antigo

O Egito Antigo inspirou de várias maneiras a cultura popular e claro que a música não poderia ficar de fora. Um dos gêneros que mais bebeu desta inspiração foi o Rock, estilo musical surgido do Rock and Roll e que tem complementos advindos do Blues, Country e Jazz [1].

Claro que infelizmente a maioria das composições fizeram uso da Egiptomania e de idéias orientalistas. São letras que tratam do misticismo e que por vezes categorizam deuses em funções que não são deles ou citam divindades de outras culturas como pertencentes ao Egito Faraônico.

Há exatamente um ano eu pedi para que os leitores do A.E. que me seguem no Facebook indicassem algumas músicas do gênero e agora elas, ao lado das minhas próprias sugestões, estão compondo este post:

☥ Mercyful Fate – Curse of the Pharaohs

A letra fala sobre a “maldição do faraó”, que tinha o intuito de atingir aqueles que ousassem saquear as tumbas reais. Clique aqui para ler a tradução.

☥ Mercyful Fate – Egypt

Aqui o tema é o julgamento da alma no tribunal de Osíris. Clique aqui para ler a tradução.

☥ Xandria – Isis Osiris

Como na letra é citado o poder de cura e a estrela “Sothis” (Sírios) – que no faraônico era chamada de Sopdet – creio que a música está falando especificamente da deusa Ísis. Clique aqui para ler a tradução.

☥ Karl Sanders – Slavery Unto Nitokris

Na pegada da banda “Nile”, esta música é um instrumental, mas o título é que chama a atenção: Nitokris (Nitócris) foi uma faraó que governou durante o Antigo Reino, 6ª Dinastia.

☥ Septic Flesh – Anubis

Aqui temos a alma de uma pessoa indo para a pesagem do coração no Tribunal de Osíris. O interessante é que não só cita Anúbis, mas a pena de Maat e inclusive o uso de uma máscara mortuária. Clique aqui para ler a tradução.

☥ The Bangles – Walk Like an Egyptian

Já falei sobre elas aqui em outro post. A letra (e o clipe) são um grande exemplo do uso da Egiptomania já que o “caminhar como egípcio” (esta posição aqui) é uma invenção dos dias de hoje para satirizar o estilo artísticos do Período Faraônico. Clique aqui para ler a tradução.

☥ Kent – Isis & Bast

A banda é sueca, então não foi fácil encontrar uma boa tradução da letra, mas aparentemente a inspiração está mais só no uso do nome de ambas estas divindades (Ísis e Bastet) e da palavra “pirâmide”.

☥ Iron Maiden – Powerslave

A letra fala da morte inerente e uma estrofe até nos dá uma dica de quem é o personagem principal: “Eu não quero morrer, eu sou um Deus”. Clique aqui para ler a tradução.

☥ Nightwish – Tutankhamen

Esta eu tenho no meu smartphone. A personagem da letra é uma mulher apaixonada pelo Tutankhamon, mas não deixa claro se é a Ankhesenamon. Clique aqui para ler a tradução.

☥ Metallica – Creeping Death

Na minha humilde opinião esta é uma das melhores composições do gênero com este tema. Fala sobre o mito do Êxodo hebreu no Egito. Clique aqui para ler a tradução.

☥ Therion – Son of the Sun 

Está música é levemente inspirada pelo Período Amarniano, quando Akhenaton instaurou em sua corte o deus Aton como a divindade principal. Escrevo “levemente” porque fala sobre rompantes de loucura e perda da fé por parte do faraó. Clique aqui e leia a tradução.

☥ Nile – Sacrifice Unto Sebek

O interessante desta banda é que eles usam vários exemplos reais e encaixam perfeitamente em suas letras. Nesta, Sacrifice Unto Sebek, tem o trecho “Una novamente seus ossos.” que faz parte do “Texto das Pirâmides”. Claro que rola umas viagens também, mas as músicas são uma verdadeira imersão no mundo do Egito Antigo e é divertido reconhecer uma série de elementos. Clique aqui para ler a tradução.


[1] Não sou especialista no gênero, meu conhecimento é totalmente genérico, por isso irei me ater somente a estas informações.

(TCC) Entre a egiptomania e a egiptologia: Um estudo das representações do Faraó Akhenaton no Brasil. 

Entre a egiptomania e a egiptologia: um estudo das representações do Faraó Akhenaton no Brasil – Raisa Barbosa Wentelemm Sagredo | Português |

Esta pesquisa se propõem a identificar e analisar algumas  representações do faraó Amenothep IV, mais conhecido na História como Akhenaton, mostrando como é possível encontrar o mesmo homem cuja trajetória é rodeada de mistérios e polêmica, servindo a diferentes discursos. Tendo em vista que o material acerca das representações de Akhenaton é muito abundante e diversificado, optou-se por um recorte que abrangesse um tempo atual, cujos discursos das fontes fossem de naturezas distintas, pelo menos em teoria. Partindo do conceito de Egiptomania proposto pela egiptóloga brasileira Margaret Bakos, como re-interpretação e re-uso de aspectos da cultura do antigo Egito, dialogando com o conceito de Egiptologia, a ciência encarregada de estudar o Egito dos faraós. Logo, busca-se nas representações de Akhenaton, entender como se constrói essa relação, respondendo à questão: estariam distantes, na prática, os discursos da egiptomania e da egiptologia?

Obtenha o TCC Entre a egiptomania e a egiptologia: um estudo das representações do Faraó Akhenaton no Brasil.

(Comentários) Novela “Os 10 Mandamentos” (Brasil)

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Desde o início deste ano a Rede Record está veiculando a novela “Os Dez Mandamentos”, cujo enredo baseia-se no mito bíblico do êxodo hebreu, que narra os passos de Moisés, um escravo hebreu que é adotado por uma princesa egípcia e que anos depois liberta o seu povo e os lidera em uma fuga pelo Deserto Oriental. Eu assisti a obra em suas primeiras semanas e ao contrário de “José do Egito” o roteiro me agradou muito, ocorreram até alguns momentos de piadas com termos egípcios, misturando com os nossos, como uma fala da personagem de Yunet, “eu não nasci quando Rá nasceu na manhã de ontem”. Entretanto, com o tempo a história ficou um pouco massante e se estava difícil acompanhar tantos erros históricos, pior ainda estava ter que ver o núcleo feminino dos hebreus falando da importância de casar… Todo o tempo. Abandonei a novela e desde então não tive vontade de voltar a assistir.

Cena da coroação do personagem Ramsés II, interpretado por Sergio Marone. Imagem: Reprodução.

Porém, resolvi escrever este post porque a novela está fazendo um grande desserviço para a Egiptologia; é impressionante o número de gente que está escrevendo para mim com as mais variadas perguntas, algumas sem muito sentido. Vale lembrar que esta novela, assim como “José do Egito” trata-se de uma obra de ficção e que muita coisa apresentada não corresponde com a realidade do Egito faraônico. O próprio mito do Êxodo já é um ponto complicado, porque há alguns anos alguns pesquisadores e teólogos resolveram encaixa-lo no início da 19ª Dinastia, porém esta proposta trata-se de especulação, arqueologicamente falando não existe indícios de escravidão hebreia no Egito (para saber mais leia o texto Êxodo hebreu no Egito: aconteceu ou não?). Mas, ignorando a ausência de indícios, entre esses pesquisadores convencionou-se a encaixar a vida de Moisés no reinado de Seti I e Ramsés II, ponto de vista que foi popularizada por obras cinematográficas, inclusive a própria novela em questão.

Então, para fazer um resumo simples, abaixo estão as atrizes e os atores e os respectivos personagens inspirados em figuras históricas que estão representando (por favor, não caiam no erro da achar que todos os atos deles na trama realmente aconteceram):

Com o enredo planejado com a 19ª Dinastia como plano de fundo, vemos então em “Os Dez Mandamentos” uma série de equívocos na trama, são alguns deles:

☥ Coroação de Seti I: no início da novela temos Seti I reinando enquanto, se não me falha a memória, Ramsés era só uma criança de colo. A realidade é que quando ele foi coroado o príncipe já tinha cerca de nove anos de idade;

☥ Filhas de Seti I: Henutmire não é filha única do casal real (embora alguns pesquisadores nem sequer achem que ela era de fato filha deles), existia ainda outra conhecida, Tyie;

☥ Os pais de Nefertari: Este foi mais um devaneio da obra, já que não conhecemos os nomes e os cargos dos seus pais. Esclarecendo: os personagens Yunet e Paser não existiram;

☥ Dança do Ventre: Esta é uma visão orientalista e anacrônica, totalmente irreal. A Dança do Ventre não tem relação alguma com a antiguidade egípcia;

☥ A Grande Esposa Real e a coordenação de trabalhos domésticos: Checar se a limpeza do quarto do rei estava em ordem não era o trabalho de uma rainha.

☥ Coroação e casamento de Ramsés II: Antes de ser coroado faraó, Ramsés II já possuía duas esposas e vários filhos. Inclusive já era casado com Nefertari.

☥ Quando ocorria o casamento real? O Casal Real casava no dia da coroação.

Outra questão problemática são as roupas, as quais a maioria são casos anacrônicos (não esquecerei tão cedo os biquínis e as roupas de Dança do Ventre), com cores que não eram usadas, cortes e costuras inexistentes na época. Acredito que estes erros grosseiros relacionados com o vestuário tem uma explicação: acho que a ideia era criar uma variedade de imagens, “Os Dez Mandamentos” nunca teve uma finalidade educativa, esta é a realidade, os produtores não estão servindo a um propósito de Educação Patrimonial, é entretenimento. Entretanto, por mais que as roupas egípcias ao longo do faraônico não tenham tido uma variedade de cores, existia uma boa variedade de cortes que poderiam ter sido aproveitados, mas que ironicamente nem sequer aparecem na obra. Uma pena, porque esta seria uma ótima oportunidade de mostrar para as pessoas que a moda egípcia não era monótona. Abaixo alguns exemplos absurdos:

A personagem Nefertari (Camila Rodrigues) e sua mãe Yunet (Adriana Garambone). A roupa da Nefertari tem um corte irreal, mas a da Yunet desconsidere totalmente; do corte a cor, nada disso existia. Imagem: Reprodução.

A princesa Henutmire (Vera Zimmermann) e seu pai e faraó Seti I (Zécarlos Machado). Principalmente nela: ignore toda a roupa. Imagem: Reprodução.

Yunet e Seti I. A roupa dele ainda vai, mas a roupa dela é totalmente século XX, desde a roupa de Dança do Ventre ao chador. Puro orientalismo. Imagem: Reprodução.

Um segurança da guarda real e Seti I. Ainda não sei porque insistem em por armaduras nos soldados, enfim. Já a roupa de Seti I… Esta capa já diz tudo. Imagem: Reprodução.

Mais uma vez tudo errado. Sem brincadeira, o que se salva mesmo aí são os leques de pena. Imagem: Reprodução.

Mais uma vez uma capa, mas não bastava, tinha que ser azul. Meus olhos de arqueóloga verteram lágrimas de sangue. Destaque também para estes arbustos que me lembram árvores de festa natalina. Imagem: Reprodução.

As maquiagens femininas também deprimem. O uso de sombras coloridas provavelmente foi inspirado no Egito Hollywoodiano do filme “Cleópatra” de 1963.

Em relação as joias eu devo tecer alguns elogios; nos primeiros dias da novela eu senti uma pobreza em termos de ligação com a antiguidade e até um erro no mínimo engraçado, onde Seti I aparece usando uma tiara igual ao do Tutankhamon, o que é irônico, visto que Seti I o excluiu da lista de faraós, e ver a personagem do faraó usando um artefato réplica de alguém que ele desvinculou da linhagem real é até cômico. Contudo, com o passar da trama a produção começou a por mais elementos ricos, como peitorais com imagens de deuses, tiaras representando flores, etc. Nesse sentido até que fizeram um bom trabalho.

Esse peitoral usado pelo Ramsés II é perfeito. Ele representa o deus Hórus segurando o símbolo “ouro” em ambas as suas patas. Imagem: Reprodução.

Outro aspecto que foi modificado e para o qual também deixo o meu elogio é sobre a tolerância religiosa: No início era retratado um maniqueísmo entre o povo egípcio e os hebreus, mas com o passar da trama o enredo começou a ficar mais brando e até a explicar um pouco sobre a religião egípcia. Achei ótimo, isto mostra para o público deles que nem todos seguem a mesma religião e que isso não é justificativa para destratar uns aos outros.

Eu tentei assistir a novela mais algumas vezes, mas sinceramente não dá mais. O enredo começou a ficar tolo e nem mesmo os personagens mais cômicos salvam do desastre que são os diálogos sexistas, figurinos e cenários que parecem ter saído de algum filme de gosto duvidoso da década de 1930 a 60 e tantas idéias orientalistas que merecem serem analisadas em algum artigo científico.

Leggings com tema Antigo Egito – Hieróglifos

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Postei no dia 06/09/2013 a fotografia de uma legging com um tema baseado na antiguidade egípcia, no mesmo dia a leitora Franciele Righêz indicou outro link onde outros dois modelos estão disponíveis, mas desta vez no lugar de imagens que lembram desenhos saídos de um papiro estão hieróglifos:

Legging com tema Antigo Egito.

Legging com tema Antigo Egito.

Legging com tema Antigo Egito.

É… O Egito Antigo está em todos os lugares.

 

O final de 2014 é o momento do Egito Antigo nos cinemas

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Quem é egiptomaniaco não tem o que reclamar deste final do ano de 2014. Ao todo três produções inspiradas na temática da antiguidade egípcia estão (ou em breve estarão) nos cinemas mundiais. São filmes que vão desde comédia, drama até terror. Todos já foram citados individualmente aqui anteriormente, mas não custa nada recapitular:

“The Pyramid” (2014)

Produzido por Alexandre Aja e dirigido por Grégory Levasseur, “The Pyramid” (2014) é um filme de terror cuja trama apresenta uma expedição de arqueólogos norte-americanos que descobrem uma pirâmide totalmente diferente de todas as outras que já foram encontradas no Egito. Ao entrarem no monumento tudo indica que as pesquisas no local seriam como outra qualquer, até que coisas estranhas começam a ocorrer, como o desaparecimento de membros da equipe.

O título não possui ainda tradução para o português e não tem previsão de estréia no Brasil, mas já está rodando nos EUA.

 

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“Êxodo: Deuses e Reis” (2014)

Seguindo a onda de filmes épicos bíblicos, Ridley Scott, diretor de Gladiador, está com a responsabilidade da direção de “Êxodo: Deuses e Reis”, que nada mais é que uma adaptação do mito de Moisés (narrado no Antigo Testamento). Infelizmente o filme seguiu algumas inspirações orientalistas e apesar de afirmar que contou com a consultoria de egiptólogos os figurinistas cometeram erros bem gritantes.

A estréia está marcada para o dia 25 de dezembro.

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“Uma Noite no Museu 3: O Segredo da Tumba” (2014)

O vigilante noturno Larry Daley (Ben Stiller) tentará desvendar o segredo da Placa Dourada do Faraó Ahkmenrah que dá a vida para as peças do Museu de História Natural, mas que está sendo corroída por forças misteriosas, o que consequentemente irá impedir que os personagens do museu possam despertar todas as madrugadas. Para tentar resolver o enigma Larry viaja para Londres e desperta também as peças do Museu Britânico.

O filme já está disponível nos cinemas dos EUA, mas a estréia no Brasil está prevista somente para 2015.

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De todos o que planejo assistir no cinema é com certeza “Uma noite no museu”. Sou fã da franquia e quero ver o filme logo. Quanto aos demais estou totalmente confortável em esperar ver somente quando sair em DVD.

Filme “A Pirâmide” estreia hoje nos EUA

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Produzido por Alexandre Aja e dirigido por Grégory Levasseur, “The Pyramid” (2014) é um filme de terror cuja trama apresenta uma expedição de arqueólogos norte-americanos que descobrem uma pirâmide totalmente diferente de todas as outras que já foram encontradas no Egito. Ao entrarem no monumento tudo indica que as pesquisas no local seriam como outra qualquer, até que coisas estranhas começam a ocorrer, como o desaparecimento de membros da equipe.

O trailer (em inglês):

Curiosidades vistas no trailer:

Naturalmente ainda não assisti ao filme, mas pelo trailer já é possível ver algumas coisas interessantes. São elas:

São feitas referências a maldições que foram criadas pelo roteiro do filme, mas entre elas é citada a “Maldição de Tutankhamon” que de fato foi propagandeada pelos jornais ingleses na década de 1922 após a descoberta da tumba.

Realmente existe uma possibilidade de pessoas serem contaminadas por fungos provenientes de múmias e chegarem a óbito. Alguns pesquisadores acreditam que problemas de saúde contraídos por arqueólogos menos precavidos e turistas (contaminados porque insistem em tocar nas paredes de sepulturas etc) são advindos de tais fungos.

Uma das personagens comenta sobre a existência de “gases tóxicos”. Algumas sepulturas fechadas há muito tempo de fato podem possuir gases que podem fazer mal a saúde, pois contém colônias de fungos.

O filme estreia dia 05 de dezembro nos Estados Unidos, entretanto ainda não tem data de estreia aqui no Brasil.

Um time de Roller Derby e o antigo Egito

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Já ouviram falar do Roller Derby? Trata-se de um esporte de contato muito popular nos Estados Unidos e que põe dois grupos de jogadoras se locomovendo com patins umas contra as outras.

A aceitação deste esporte foi tão notória que ganhou adeptos e times em outros países, a exemplo do Egito, onde foi criada a a liga CaiRollers, que foi fundada em 2011 por dois expatriados americanos e que atualmente tem como maioria mulheres egípcias.

As “CaiRollers” receberam muitas repreensões no início, os críticos falavam que este era um esporte perigoso para as mulheres e outros usavam questões religiosas para tentar desestimular a atividade. Entretanto, as opiniões não têm afetado a escolha de algumas dessas moças que estão se candidatando para poder participar do time.

Ver uma liga de esporte feminina é extremamente positivo, principalmente quando rememoramos que o país tem um histórico preocupante de repressão à mulher e de assédios sexuais (inexistentes na cabeça dos próprios assediadores, de alguns políticos egípcios e dos turistas mais sonhadores). A liga tem ajudado as jogadoras a perceberem que se elas possuem força e coragem para competir em um time de Roller Derby elas são capazes de vencer em outros campos de suas vidas.

A escolha do símbolo da equipe é outro ponto interessante. Como pode ser conferido abaixo trata-se de uma mulher representada ao estilo egípcio antigo patinando.

Outro quesito inspirado até certo ponto na antiguidade egípcia é o lema delas, “Block like an Egyptian” (Bloqueando como uma egípcia), uma referência a frase “Walk Like an Egyptian” (Caminhando como um egípcio), que seria o andar de frente frequentemente representado nas paredes de tumbas e templos. Essa frase foi popularizada pela música do grupo The Bangles, Walk Like an Egyptian.

Para conhecer mais sobre a liga:

Site Official: www.cairollers.com/

Página no Facebook: www.facebook.com/CaiRollergirls

Mostra das Nações no Colégio Amadeus: Sala “Egito”

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

No dia 07/11 ocorreu no colégio Amadeus (SE) a “Mostra das Nações” que teve como proposta apresentar os aspectos principais de alguns países, entre eles o Egito. Dei uma passada na sala e tirei algumas fotografias para vocês. Infelizmente cheguei um pouco tarde e as crianças responsáveis em apresentar já estavam cansadas e dispersas, mas já deu para ter uma ideia do que rolou.

Esta caixinha imitando uma pirâmide foi o brinde dos visitantes (o que foi o meu caso). Dentro veio um chocolate:

E estes foram os brindes dos pais (não faço a menor ideia do que tinha dentro):

A dançarina Sandrine, que tinha apresentado-se horas antes na sala Marrocos, visitou comigo esta parte do evento, mas foi a única que tirou foto lá, esqueci completamente de tirar uma fotografia minha:

Iniciativas como esta ajudam as crianças (e alguns adultos) a se aproximarem um pouquinho mais do universo de outras culturas. Claro que neste caso a proposta foi um pouco lúdica e em alguns casos irreal reafirmando até mesmo estereótipos (a exemplo da existência de camelos no Egito Antigo, o que não corresponde a realidade), mas é uma aproximação válida com elementos da antiga cultura faraônica como pirâmides e o estilo de vida dos governantes.

Esta mesa abaixo tinha como proposta “reproduzir” algumas das comidas da época faraônica. Contudo, para mim o detalhe tão legal quanto é o painel com a imagem do Ba (esqueci de perguntar onde eles o conseguiram).

Infelizmente o Egito contemporâneo só estava representado através da atual bandeira, o que foi uma pena, já que em tempos de tanto preconceito contra os povos fortemente vinculados com a cultura muçulmana seria uma boa maneira de tentar desvincular a imagem negativa que muitos possuem das sociedades egípcias atuais.