Um passeio pela tumba da rainha Nefertari

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Este ano a empresa Experius VR lançou um passeio virtual para que o público possa “caminhar” pela tumba de Nefertari, rainha que reinou no Egito durante o Novo Império, na 19ª Dinastia. Não se sabe qual a sua origem, mas é certo que ela se casou com o faraó Ramsés II antes da coroação dele e que possivelmente foi mãe de quatro meninas e quatro meninos.

Foto via.

Alguns egiptólogos acreditam que ela faleceu no 25º ano do reinado de Ramsés II, contudo, as circunstâncias são um mistério. Porém, ao menos se sabe que ela foi sepultada em uma necrópole que fica ao lado do Vale dos Reis, o chamado atualmente de Vale das Rainhas. A sua tumba foi encontrada por um arqueólogo italiano chamado Ernesto Schiaparelli (1856 – 1928) em 1904 e foi tombada como a QV-66. Infelizmente ela já tinha sido saqueada ainda na antiguidade e a múmia da governante possivelmente destruída [1].

Por ser ricamente decorada a QV-66 chamou a atenção de vários visitantes, mas, tragicamente alguns vandalizaram as imagens. Isso levou o Serviço de Antiguidades do Egito (atualmente o Ministério das Antiguidades) a permitir que 1986 fosse realizado um trabalho de restauro por parte do Instituto Getty de Conservação de Los Angeles. Ele se seguiu por cinco anos e a equipe recusou-se a fazer, por mais mínima que fosse, uma intervenção moderna nas pinturas (completar desenhos faltosos, por exemplo) para não abalar a integridade delas.

Entretanto, para preservá-las pós-restauro, a tumba foi fechada para visitações por alguns anos. Mas, atualmente ela se encontra aberta, porém a visita pode durar somente alguns minutos.

Já aqueles que não podem ir ao Egito tem outras alternativas para “conhecer” o lugar. São os passeios virtuais tais como da Experius VR (que exige o uso de óculos de realidade virtual HTC Vive) ou do Patola Games, um site de jogos educacionais hoje inexistente, mas, cujo arquivo do passeio ainda pode ser rodado mesmo em sistemas operacionais mais novos, tais como Windows 10. Saiba mais sobre ele no vídeo a seguir:

As imagens na tumba de Nefertari são belíssimas e totalmente dignas da esposa mais amada de Ramsés II, cujo nome significa “A Mais bela de Todas”. Mas, estas ilustrações não foram desenhadas sozinhas. Várias pessoas precisaram trabalhar nelas durante dias.

Então, se você quiser rememorar este momento e for um ávido colecionador de imagens a Coleções DelPrado possui uma cena que retrata os antigos pintores egípcios durante um trabalho em uma tumba. Tem alguns homens fazendo rabiscos na parede, preenchendo alguns hieróglifos com tinta e uma mesinha próxima com uns potinhos. Confiram clicando aqui.

Leia outros textos sobre a rainha Nefertari:

[1] A múmia da Rainha Nefertari foi mesmo encontrada?

http://arqueologiaegipcia.com.br/2016/12/03/a-mumia-da-rainha-nefertari-foi-mesmo-encontrada/

A restauração na tumba de Nefertari

http://arqueologiaegipcia.com.br/2010/10/13/a-restauracao-na-tumba-de-nefertari/

Veja estas fotos impressionantes da tumba da rainha Nefertari

http://arqueologiaegipcia.com.br/2017/04/21/veja-estas-fotos-impressionantes-da-tumba-da-rainha-nefertari/

Antigas fotografias dos templos de Ramsés II e Nefertari em Abu Simbel

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Dois dos maiores templos do Egito, aqueles pertencentes aos famosos Ramsés II e Nefertari, governantes da 19ª Dinastia, estão localizados em Abu Simbel. Mas não é somente a sua magnitude que chama a atenção, mas o fato que entre as décadas de 1960 e 1970 eles foram movidos de seu lugar original para o espaço que se encontram hoje.

— Alinhamento solar no templo de Abu Simbel: 22 de fevereiro e 22 de outubro

Para tal, uma missão milionária movimentou vários países e os templos foram cortados em 1030 pedaços e remontados de tal forma que lembrassem a sua disposição original. Inclusive com a iluminação do seu interior duas vezes no ano pelos raios solares: 22 de fevereiro e 22 de outubro; no nosso canal possuímos um vídeo sobre o assunto:

Mas, que tal conhecer os templos de Abu Simbel antes desta transposição? Abaixo estão algumas fotografias antigas deles:

Templo de Ramsés II antes de 1923

Templo de Ramsés II antes de 1923

Foto do Templo de Ramsés II tirada por William Henry Goodyear antes de 1923

Templo de Nefertari antes de 1923

Interior do Templo de Ramsés II antes de ser limpo. Note a areia cobrindo os pés das estátuas

Foto do templo de Ramsés II tirada por John Beasley Greene em 1854

Foto do templo de Ramsés II tirada por John Beasley Greene em 1854

Gostou deste post? Compartilhe com os seus amigos!

Veja estas fotos impressionantes da tumba da rainha Nefertari

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Nefertari foi uma rainha que governou o Egito durante a 19ª Dinastia (Novo Império) ao lado do seu esposo a Ramsés II. Ela possuiu tanta importância que sua memória foi honrada em um templo dedicado a ela mesma em Abu Simbel, que fica na fronteira entre o Egito e o Sudão, Antiga Núbia.

Ela foi sepultada em uma grande e lindamente decorada tumba no Vale das Rainhas, que foi descoberta por Ernesto Schiaparelli em 1904 e desde então identificada como QV-66.

A exemplo de outras sepulturas da antiguidade egípcia, a sua já tinha sido roubada em algum momento no passado e sofreu severos ataques de vandalismo. Isso culminou em um extenso programa de restauro das suas pinturas em 1986, sob a coordenação do Instituto Getty.

— Saiba mais:  A restauração na tumba de Nefertari

A sua múmia jamais foi identificada, embora no momento da descoberta da sua tumba Schiaparelli tenha encontrado um par de pernas mumificadas, que ele levou para o Museu Egípcio de Turim. Em 2016 um grupo de pesquisadores analisou esses restos mortais e como conclusão eles alertaram que não existe certeza absoluta de que essas pernas teriam sido outrora de Nefertari, embora eles considerem ela como o cenário mais provável.

— Saiba mais: A múmia da Rainha Nefertari foi mesmo encontrada?

Veja algumas fotos de como o túmulo está hoje:

Tomb of Nefertari, QV66, Valley of the Queens

Tomb of Nefertari, QV66, Valley of the Queens

Tomb of Nefertari, QV66, Valley of the Queens

Tomb of Nefertari, QV66, Valley of the Queens

Tomb of Nefertari, QV66, Valley of the Queens

Tomb of Nefertari, QV66, Valley of the Queens

Tomb of Nefertari, QV66, Valley of the Queens

Tomb of Nefertari, QV66, Valley of the Queens

Tomb of Nefertari, QV66, Valley of the Queens

Tomb of Nefertari, QV66, Valley of the Queens

Tomb of Nefertari, QV66, Valley of the Queens

Tomb of Nefertari, QV66, Valley of the Queens

Tomb of Nefertari, QV66, Valley of the Queens

Tomb of Nefertari, QV66, Valley of the Queens

Tenha em casa: Quer ter uma imagem que remeta aos antigos artistas egípcios? A Edições Del Prado, uma editora especializada em vendas de fascículos com imagens colecionáveis, possui uma coleção intitulada “Cenas do Egito Antigo”. Uma delas é justamente a de artistas desenhando uma imagem parietal tal como devem ter feito na tumba desta rainha.

Clique aqui para conferir a peça ou aqui para ver as demais cenas.

A múmia da Rainha Nefertari foi mesmo encontrada?

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

A rainha Nefertari (Novo Império; 19ª Dinastia) foi uma das esposas do faraó Ramsés II. Ficou famosa graças ao templo dedicado a ela em Abu Simbel e a sua tumba, uma das mais ricamente decoradas do Egito.

Saiba mais: Lindas imagens dos templos de Ramsés II em Abu Simbel

Nefertari

Rainha Nefertari

Descoberta no Vale das Rainhas por Ernesto Schiaparelli em 1904, a QV-66, sua sepultura, foi saqueada ainda na antiguidade. Contudo, foi possível encontrar no lugar alguns objetos quebrados, inclusive um par de pernas mumificadas, que foram levadas para o Museu Egípcio de Turim. Por estarem no sepulcro da governante, foi subentendido que pertenciam a própria rainha (HABICHT, 2016).

Leia também: A restauração na tumba de Nefertari

Quem foi Nefertari?

Existe muita especulação acerca da sua origem, mas é certo que ela se casou com Ramsés II antes da coroação do mesmo. Possivelmente foi mãe de quatro meninas e quatro meninos. Participou da inauguração dos trabalhos em Abu Simbel no 24º ano de reinado de Ramsés II e provavelmente faleceu no mesmo ano ou no seguinte (O’CONNOR et al, 2007; HABICHT et al, 2016).

Nefertari 4

Templo de Nefertari em Abu Simbel

Dentre os seus títulos estavam os “Esposa do Deus”, “Mãe do Deus”, “Dama Adorável”, “Digna de Louvor”, “Bela de Rosto” e “Doce Amor”. E entre os seus deveres estavam os de cumprir papeis relacionados com a política e a religião (O’CONNOR et al, 2007).

A análise dos restos humanos

Esse ano, 2016, um grupo de pesquisadores (Michael E. Habicht, Raffaella Bianucci, Stephen A. Buckley, Joann Fletcher, Abigail S. Bouwman, Lena M. Öhrström, Roger Seiler, Francesco M. Galassi, Irka Hajdas, Eleni Vassilika, Thomas Böni, Maciej Henneberg, Frank J. Rühli) publicou um artigo na Plos One onde apresentaram os resultados de uma pesquisa realizada com as pernas encontradas na QV-66, com a finalidade de tentar descobrir se, de fato, elas são remanescentes da governante. Os restos foram radiografados, medidos e passaram por uma datação em Carbono 14 (HABICHT et al, 2016).

As pernas mumificadas. Foto: Museo Egizio Turin.

Atualmente em exposição no Museu Egípcio de Turim, as pernas foram catalogadas com o tombo Suppl. 5154 RCGE 14467 e consiste em três partes (HABICHT et al, 2016):

  • Uma parte do fêmur, patela e parte da tíbia;
  • Parte de uma tíbia;
  • Pequena parte de um fêmur.

Foi constatado que os restos pertencem a um adulto do sexo feminino e que, inclusive, fez poucos esforços em vida. Por conta das condições clínicas dos ossos a equipe considerou que essa pessoa possuía entre 40 e 60 anos de idade no momento da sua morte. E através da reconstrução antropométrica foi considerado que possuía de 1,65 a 1,68 cm de altura (HABICHT et al, 2016).

Em relação ao exame de DNA, não foi possível tirar amostras viáveis e a datação por Carbono 14 foi inconclusiva (HABICHT et al, 2016).

Afinal, a quem pertenceu essas pernas?

Ao contrário do que alguns sites estão veiculando, na conclusão do artigo a equipe deixa claro que não existe certeza absoluta de que essas pernas pertenceram a Rainha Nefertari, embora os pesquisadores participantes considerem ser ela o cenário mais provável. Ou seja, o caso ainda está em aberto.

Referências bibliográficas:

HABICHT, Michael E.; BIANUCCI, Raffaella; BUCKLEY, Stephen A.; FLETCHER, Joann; BOUWMAN, Abigail S.; ÖHRSTRÖM, Lena M.; SEILER, Roger; GALASSI, Francesco M.; HAJDAS, Irka; VASSILIKA, Eleni; BÖNI, Thomas; HENNEBERG, Maciej; RÜHLI, Frank J. Queen Nefertari, the Royal Spouse of Pharaoh Ramses II: A Multidisciplinary Investigation of the Mummified Remains Found in Her Tomb (QV66) Published: November 30, 2016 http://dx.doi.org/10.1371/journal.pone.0166571

O’CONNOR, David; FREED, Rita; KITCHEN, Kenneth (b). Ramsés II (Tradução de Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Fólio, 2007.

RICE, Michael. Who’s Who in Ancient Egypt. Londres: Routledg. 1999

(Comentários) Novela “Os 10 Mandamentos” (Brasil)

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Desde o início deste ano a Rede Record está veiculando a novela “Os Dez Mandamentos”, cujo enredo baseia-se no mito bíblico do êxodo hebreu, que narra os passos de Moisés, um escravo hebreu que é adotado por uma princesa egípcia e que anos depois liberta o seu povo e os lidera em uma fuga pelo Deserto Oriental. Eu assisti a obra em suas primeiras semanas e ao contrário de “José do Egito” o roteiro me agradou muito, ocorreram até alguns momentos de piadas com termos egípcios, misturando com os nossos, como uma fala da personagem de Yunet, “eu não nasci quando Rá nasceu na manhã de ontem”. Entretanto, com o tempo a história ficou um pouco massante e se estava difícil acompanhar tantos erros históricos, pior ainda estava ter que ver o núcleo feminino dos hebreus falando da importância de casar… Todo o tempo. Abandonei a novela e desde então não tive vontade de voltar a assistir.

Cena da coroação do personagem Ramsés II, interpretado por Sergio Marone. Imagem: Reprodução.

Porém, resolvi escrever este post porque a novela está fazendo um grande desserviço para a Egiptologia; é impressionante o número de gente que está escrevendo para mim com as mais variadas perguntas, algumas sem muito sentido. Vale lembrar que esta novela, assim como “José do Egito” trata-se de uma obra de ficção e que muita coisa apresentada não corresponde com a realidade do Egito faraônico. O próprio mito do Êxodo já é um ponto complicado, porque há alguns anos alguns pesquisadores e teólogos resolveram encaixa-lo no início da 19ª Dinastia, porém esta proposta trata-se de especulação, arqueologicamente falando não existe indícios de escravidão hebreia no Egito (para saber mais leia o texto Êxodo hebreu no Egito: aconteceu ou não?). Mas, ignorando a ausência de indícios, entre esses pesquisadores convencionou-se a encaixar a vida de Moisés no reinado de Seti I e Ramsés II, ponto de vista que foi popularizada por obras cinematográficas, inclusive a própria novela em questão.

Então, para fazer um resumo simples, abaixo estão as atrizes e os atores e os respectivos personagens inspirados em figuras históricas que estão representando (por favor, não caiam no erro da achar que todos os atos deles na trama realmente aconteceram):

Com o enredo planejado com a 19ª Dinastia como plano de fundo, vemos então em “Os Dez Mandamentos” uma série de equívocos na trama, são alguns deles:

☥ Coroação de Seti I: no início da novela temos Seti I reinando enquanto, se não me falha a memória, Ramsés era só uma criança de colo. A realidade é que quando ele foi coroado o príncipe já tinha cerca de nove anos de idade;

☥ Filhas de Seti I: Henutmire não é filha única do casal real (embora alguns pesquisadores nem sequer achem que ela era de fato filha deles), existia ainda outra conhecida, Tyie;

☥ Os pais de Nefertari: Este foi mais um devaneio da obra, já que não conhecemos os nomes e os cargos dos seus pais. Esclarecendo: os personagens Yunet e Paser não existiram;

☥ Dança do Ventre: Esta é uma visão orientalista e anacrônica, totalmente irreal. A Dança do Ventre não tem relação alguma com a antiguidade egípcia;

☥ A Grande Esposa Real e a coordenação de trabalhos domésticos: Checar se a limpeza do quarto do rei estava em ordem não era o trabalho de uma rainha.

☥ Coroação e casamento de Ramsés II: Antes de ser coroado faraó, Ramsés II já possuía duas esposas e vários filhos. Inclusive já era casado com Nefertari.

☥ Quando ocorria o casamento real? O Casal Real casava no dia da coroação.

Outra questão problemática são as roupas, as quais a maioria são casos anacrônicos (não esquecerei tão cedo os biquínis e as roupas de Dança do Ventre), com cores que não eram usadas, cortes e costuras inexistentes na época. Acredito que estes erros grosseiros relacionados com o vestuário tem uma explicação: acho que a ideia era criar uma variedade de imagens, “Os Dez Mandamentos” nunca teve uma finalidade educativa, esta é a realidade, os produtores não estão servindo a um propósito de Educação Patrimonial, é entretenimento. Entretanto, por mais que as roupas egípcias ao longo do faraônico não tenham tido uma variedade de cores, existia uma boa variedade de cortes que poderiam ter sido aproveitados, mas que ironicamente nem sequer aparecem na obra. Uma pena, porque esta seria uma ótima oportunidade de mostrar para as pessoas que a moda egípcia não era monótona. Abaixo alguns exemplos absurdos:

A personagem Nefertari (Camila Rodrigues) e sua mãe Yunet (Adriana Garambone). A roupa da Nefertari tem um corte irreal, mas a da Yunet desconsidere totalmente; do corte a cor, nada disso existia. Imagem: Reprodução.

A princesa Henutmire (Vera Zimmermann) e seu pai e faraó Seti I (Zécarlos Machado). Principalmente nela: ignore toda a roupa. Imagem: Reprodução.

Yunet e Seti I. A roupa dele ainda vai, mas a roupa dela é totalmente século XX, desde a roupa de Dança do Ventre ao chador. Puro orientalismo. Imagem: Reprodução.

Um segurança da guarda real e Seti I. Ainda não sei porque insistem em por armaduras nos soldados, enfim. Já a roupa de Seti I… Esta capa já diz tudo. Imagem: Reprodução.

Mais uma vez tudo errado. Sem brincadeira, o que se salva mesmo aí são os leques de pena. Imagem: Reprodução.

Mais uma vez uma capa, mas não bastava, tinha que ser azul. Meus olhos de arqueóloga verteram lágrimas de sangue. Destaque também para estes arbustos que me lembram árvores de festa natalina. Imagem: Reprodução.

As maquiagens femininas também deprimem. O uso de sombras coloridas provavelmente foi inspirado no Egito Hollywoodiano do filme “Cleópatra” de 1963.

Em relação as joias eu devo tecer alguns elogios; nos primeiros dias da novela eu senti uma pobreza em termos de ligação com a antiguidade e até um erro no mínimo engraçado, onde Seti I aparece usando uma tiara igual ao do Tutankhamon, o que é irônico, visto que Seti I o excluiu da lista de faraós, e ver a personagem do faraó usando um artefato réplica de alguém que ele desvinculou da linhagem real é até cômico. Contudo, com o passar da trama a produção começou a por mais elementos ricos, como peitorais com imagens de deuses, tiaras representando flores, etc. Nesse sentido até que fizeram um bom trabalho.

Esse peitoral usado pelo Ramsés II é perfeito. Ele representa o deus Hórus segurando o símbolo “ouro” em ambas as suas patas. Imagem: Reprodução.

Outro aspecto que foi modificado e para o qual também deixo o meu elogio é sobre a tolerância religiosa: No início era retratado um maniqueísmo entre o povo egípcio e os hebreus, mas com o passar da trama o enredo começou a ficar mais brando e até a explicar um pouco sobre a religião egípcia. Achei ótimo, isto mostra para o público deles que nem todos seguem a mesma religião e que isso não é justificativa para destratar uns aos outros.

Eu tentei assistir a novela mais algumas vezes, mas sinceramente não dá mais. O enredo começou a ficar tolo e nem mesmo os personagens mais cômicos salvam do desastre que são os diálogos sexistas, figurinos e cenários que parecem ter saído de algum filme de gosto duvidoso da década de 1930 a 60 e tantas idéias orientalistas que merecem serem analisadas em algum artigo científico.

Faraó Merenptah: O 13º filho de Ramsés II

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

Ramsés II morreu aos 90 anos, após um reinado de 67, sobrevivendo a doze dos seus filhos mais velhos. Embora sua esposa favorita fosse Nefertari, nenhum dos filhos dela viveram para ter a oportunidade de assumir o trono. Desta forma foi o 13º herdeiro, Merenptah (ou Merneptah) (Novo Império; XIX Dinastia), dos cerca de noventa filhos do faraó, quem recebeu o direito de reinar quando tinha entre cinquenta e sessenta anos de idade. Sua mãe era a rainha Ísis-Nofret (DAVID; DAVID, 1992; O’CONNOR et al, 2007).

 

Faraó Merenptah. Imagem disponível em < http://www.absolutegipto.com/merenptah-el-rey-anciano/ >. Acesso em 03 de junho de 2013.

 

O reinado de Ramsés II é conhecido pelas incursões militares nos primeiros anos do seu governo e a uma aparente paz nos anos tardios, porém, após assumir o trono, Merenptah precisou enfrenta uma ameaça a autoridade egípcia no Canaã e sul da Síria, a qual abafou com o auxilio do exército. Com a sua vitória celebrou o feito em vários relevos nos muros de Karnak (O’CONNOR et al, 2007).

No seu 5º ano de reinado, os líbios (que já tinham tentado tomar o país no reinado de Seti I) e os Povos do Mar (que posteriormente dominariam parte das sociedades do Mediterrâneo) ultrapassaram a fronteira egípcia ocidental, planejando manter assentamento, levando consigo familiares e posses. Eles foram encontrados no Delta (o local especifico não se sabe – ver mapa) pelo exercito do faraó e durante seis horas os estrangeiros sofreram um massacre cujo número de vítimas fatais contou-se cerca de 6 000, de acordo com as fontes egípcias, que levantavam os dados através das mãos cortadas dos circuncisos ou pelos pênis coletados dos incircuncisos (DAVID; DAVID, 1992; O’CONNOR et al, 2007; BAINES; MALEK, 2008).

 

Provável local de confronto do faraó Merenptah contra os líbios e os Povos do Mar. Mapa: Márcia Jamille Costa. 2013.

 

De acordo este mesmo relato o líder líbio, Merire, conseguiu escapar. As fontes descrevem o que teria ocorrido:

O miserável chefe dos líbios tinha o coração paralisado pelo medo, parou, ajoelhou-se e deixou o arco, a alijava e suas sandálias para trás (O’CONNOR et al, 2007).

Aproveitando desta batalhavam no norte, os servos núbios ao sul, que permaneceram acalmados nas últimas décadas por Ramsés II, se rebelaram contra o faraó (O’CONNOR et al, 2007). Os povos núbios da antiguidade eram descritos como exímios soldados, especialmente graças aos kermanos. Foi esta tradição bélica e as frequentes rebeliões contra os seus mestres egípcios que levaria estes povos sulistas a tomar o poder das duas terras posteriormente, durante o chamado Terceiro Período Intermediário.

 

Esfinge do faraó Merenptah no Penn Museum. Imagem disponível em < http://edtrayes.com/2011/03/lower-egyptian-gallery-penn-museum-philadelphia-pennsylvania-usa/dsc_9883-original-exposure-slphinx-lion-with-human-head-palace-of-merenptah-memphis-egypt-penn-museum-philadelphia-pennsylvania-usa/ >. Acesso em 03 de junho de 2013.

 

Aparentemente Merenptah teve sucesso em sufocar todos os motins que precisou enfrentar em sua gestão, mas embora viesse a ser conhecido como o faraó que liquidou os invasores do norte ele fez questão de deixar registrado um ato de caridade, ao realizar uma doação de cereal aos hititas durante um período de fome (BAINES; MALEK, 2008).

Um dos seus palácios encontrava-se em Mit Rahina, na colina Kom el-Qala, o qual atualmente só existem ruínas. Ele foi escavado por Clarence Stanley Fisher (1876 – 1941) e a missão de arqueologia do University Museum, da Filadélfia (BAINES; MALEK, 2008).

 

Sucessão:

Merenptah reinou por dez anos e foi substituído por Amenemés, que possivelmente não era seu herdeiro direto, mas um dos filhos ainda vivos de Ramsés II ou descendente dos mesmos. De todo modo uma das características do governo de Amenemés foram as constantes lutas familiares e após quatro anos de administração ele foi substituído por Seti-Merenptah, coroado como Seti (II), cujo trono foi herdado por sua esposa Tauseret, que foi coroada faraó (DAVID; DAVID, 1992; O’CONNOR et al, 2007; BAINES; MALEK, 2008).

 

Sepultamento:

Originalmente Merenptah teria sido sepultado em Tebas, na KV-8, mas a sua múmia foi encontrada pelo arqueólogo francês Vitor Loret (1859-1946) em 1898 no esconderijo real locado na tumba do faraó Amenhotep II, no Vale dos Reis (DAVID; DAVID, 1992). Um dos seus sarcófagos foi reutilizado por Psusene I e só foi identificado porque dentre os seus cartuchos apagados somente um na tampa ainda possuía o nome do antigo dono (O’CONNOR et al, 2007).

 

Fragmentos do sarcófago de granito vermelho do faraó Merenptah. Foto disponível em O’CONNOR, David; FREED, Rita; KITCHEN, Kenneth. Ramsés II (Tradução de Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Fólio, 2007. Pág. 138.

 

A “Estela de Merenptah”:

Em seu templo mortuário foi encontrada uma estela comemorativa enaltecendo as vitórias do faraó em batalhas contra países estrangeiros. Presunçosamente ela é chamada de “Estela de Israel” devido a imagem de dois hieróglifos que representam um homem e uma mulher caminhando e foi deduzido que se trataria de uma comunidade nômade. Permanecendo no caráter subjetivista, foi sugerido que poderia se tratar do povo de Israel, porém a teoria permanece uma especulação.

 

Estela de Merenptah. Retirado de Merneptah Stele. Disponível em < http://www.flickr.com/photos/frankrytell/2155909119/ > Acesso em 24 de Abril de 2011.

 

Originalmente esta estela pertencia ao faraó Amenhotep III (Amenofis III), da XVIII dinastia.

 

Referências:

BAINES, John; MALEK, Jaromir. Deuses, templos e faraós: Atlas cultural do Antigo Egito (Tradução de Francisco Manhães, Maria Julia Braga, Michael Teixeira, Carlos Nougué). Barcelona: Fólio, 2008.

DAVID, Rosalie; DAVID, Antony. A Biographical Dictionary of Ancient Egypt. London: Steaby, 1992.

O’CONNOR, David; FREED, Rita; KITCHEN, Kenneth. Ramsés II (Tradução de Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Fólio, 2007.

A restauração na tumba de Nefertari

Para “A mais bela de todas”: o trabalho de restauro na tumba da rainha Nefertari

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille 

“Quando um conservador encontra algo em más condições deve tentar devolvê-lo a seu estado original. Trata-se de fazer as coisas bem”, assim falou Paolo Mara, chefe responsável pela a restauração da tumba da rainha Nefertari da XIX Dinastia (Novo Império). Descoberto em 1904 pelo o arqueólogo italiano Ernesto Schiaparelli o túmulo estava em um lamentável estado de conservação além de vazio e desprovido da múmia da rainha. Os artistas do faraó revestiram os muros de pedra calcária com gesso polido utilizado como base para os lindos murais que retratam a rainha e sua passagem pelo o além. Schiaparelli organizou então um informe fotográfico do local com a ajuda de Michele Pizzio e Francesco Ballerini realizando então 132 imagens tanto do interior como do exterior da tumba, uma documentação importante para mostrar-nos hoje qual era o estado do sepulcro em 1904.

Expedição do Museu Metropolitano. Foto: Harry Burton. 1920

Diga-se de passagem que Nefertari foi a mais mimada dentre as esposas de Ramsés II, a única que teve o privilégio de ter um templo em Abu Simbel, um dos feitos mais geniosos deste faraó, o que permitiu que não somente ele, mas ela também fosse alvo de culto. A sua tumba é uma das mais decoradas do Vale das Rainhas, mas as visitas que recebia e os atos de vandalismo aceleraram o processo de degradação das pinturas murais o que levou ao Serviço de Antiguidades do Egito a permitir o trabalho de restauração pelo o Instituto Getty de Conservação de Los Angeles em 1986 comandado então por Paolo Mora e sua esposa (co-coordenadora).

Com o trabalho a equipe detectou a presença de algas microscópicas e contaminação bacteriológica, além do real estado das pinturas que estavam literalmente se desgrudando da parede devido a presença de sal cristalizado na pedra calcária. O sal sofria tal processo justamente devido ao ar quente emitido pelos os visitantes. Para proteger as seções mais deterioradas os integrantes da equipe colaram tiras de papel de amoreira, assim como gazes, nas pinturas. Para que o processo de limpeza não degradasse os desenhos foi empregada uma pistola de ar comprimido de baixa pressão para a eliminação do sebo de trás do gesso descolado.

Para fixar as imagens deterioradas os conservadores usaram tiras de papel de amoreira japonesa. A ausência de produtos químicos neste papel o torna perfeito para os trabalhos de restauração. Foto: Instituto Getty de Conservação.

Foi feito o uso de uma argamassa sem sal feita de areia e gesso – seguindo os métodos faraônicos – para colar o gesso antigo de volta a parede. O trabalho durou cinco anos e a equipe recusou-se a fazer, por mais mínima que fosse, uma intervenção moderna nas pinturas (completar desenhos faltosos, por exemplo) para não abalar a integridade original da tumba.

Imagem de um dos murais da tumba apos o trabalho da equipe do GCI. A primeira antes da restauração e a segunda após a limpeza em 1992. Foto: Instituto Getty de Conservação.

Apesar dos esforços são poucos os privilegiados que podem visitar o sepulcro, mas isto para proteger as pinturas dos vapores que lhes são tão nocivos. Durante a restauração foram encontrados traços daqueles que trabalharam na tumba na época em que Ramsés II era vivo e provavelmente a própria rainha Nefertari: cerdas dos pinceis e até digitais.

O nome de Nefertari significa “A mais bela de todas” e o seu túmulo não merecia menos. Tal denominação é perfeita para aquela que é a tumba mais bela do Vale das Rainhas e que hoje graças a intervenção moderna permanecerá para o nosso deleite e reflexão por mais algumas décadas como a mais linda.

Curiosidades:

– A restauração realizada pelo o Instituto Getty de Conservação não foi a primeira na tumba, ocorreram outras onde foi utilizado inclusive cimento (que foi tirado posteriormente em 1986);

– Os conservadores retiraram também as pinturas modernas postas no local durante as tentativas de restauro anteriores;

– O que tornou o resultado do trabalho um sucesso foi a multidisciplinaridade da equipe que contava com profissionais ligados a área da hidrografia, geologia, dentre outros;

Quer fazer uma viajem em 3D pela a tumba? Clique aqui.

Foto: Instituto Getty de Conservação (GCI).

Referência: Biblioteca Egito: Ramsés II. Barcelona: Folio, 2007.