FAQ: As perguntas frequentes realizadas pelos leitores do A.E.

Criei este FAQ inspirada em algumas das questões que já recebi de algumas (ns) leitoras (es) do A.E.. Caso seja necessário farei up-dates.
As respostas que coloquei aqui são superficiais. Não procurei destacar as visões e contribuições de escolas teóricas porque o intuito desta lista é sanar dúvidas iniciais acerca da Arqueologia, especialmente para aquelas (es) que não possuem muita noção da disciplina.

  1. O que é Arqueologia?

Ela encontra-se na enseada das Ciências Humanas. A definição varia de acordo com a escola teórica ou a política de gestão do artefato. A que eu sigo a define como o estudo do passado humano através da sua Cultura Material e Imaterial. A ideia de “passado” também varia com a escola, para alguns é válido somente aquele de cem (100) anos atrás, mas na minha definição, como de muitos outros colegas, o “passado” se constrói a cada segundo, assim, deste ponto de vista, não é feita uma distinção onde “o mais antigo é o mais importante”, mas que devemos tratar todos os artefatos com respeito e dedicação.

Limpeza de urnas funerárias egípcias. Imagem disponível em . Acesso em 21 de setembro de 2013.

Limpeza de urnas funerárias egípcias. Imagem disponível em < http://minufiyeh.tumblr.com/post/30410299584/a-good-days-work >. Acesso em 21 de setembro de 2013.

Uma das coisas que o interessado na Arqueologia precisa manter clara é que esta ciência estuda as relações humanas, ou seja, tudo o que tem a ver/esteve em contato com o ser humano entra no campo de estudo da Arqueologia.

  1. O que são artefatos?

Eles são os produtos das mãos e mente humanas e as principais evidências utilizadas para as análises (as quais se espera que sejam sistemáticas). Não é totalmente aceito, mas algumas escolas teóricas definem como artefatos ossos trabalhados (que foram pintados, raspados, etc), múmias e paisagens (fisicamente modificadas ou que atendem um propósito simbólico).

  1. O que são sítios arqueológicos?

São os lugares onde estão os artefatos, mas embora pareça simples defini-los, o seu conceito, assim como a Arqueologia, depende da escola teórica e também da política de gestão de artefatos do país. A UNESCO só considera sítios arqueólogos os espaços que tenham se formado em um intervalo anterior a cem (100) anos, o que é um problema, uma vez que auxilia nas atividades de Caçadores de Tesouros. Um exemplo foi o que sofreu o Titanic que antes do naufrágio ser transformado em um sítio arqueológico recebia visitas de saqueadores. No próprio filme “Titanic”, de 1997, os homens que estão atrás do colar “Coração do Oceano” são saqueadores de sítios (existe inclusive um pequeno debate moral no filme do personagem do caçador Brock Lovett que se mostrava somente interessado na joia que procurava, mas nunca tinha parado para pensar na história das pessoas que tinham morrido no naufrágio).

Sítio arqueológico submerso em Alexandria (Egito). Imagem disponível em . Acesso em 21 de setembro de 2013.

Sítio arqueológico submerso em Alexandria (Egito). Imagem disponível em < https://www.facebook.com/photo. php?fbid=151769511413&set=a. 151764136413.141030.150542331413 &type=3&theater >. Acesso em 21 de setembro de 2013.

Sítio arqueologico na área de Quesna (Egito). Imagem disponível em . Acesso em 21 de setembro de 2013.

Sítio arqueologico na área de Quesna (Egito). Imagem disponível em < http://minufiyeh.tumblr.com/post/30264937911/walkabout-at-quesna >. Acesso em 21 de setembro de 2013.

O senso comum considera sítios arqueológicos espaços de amplas necrópoles como o platô de Gizé, mas isto é um erro comum. A presença de somente um artefato já define o local como um sítio arqueológico.

  1. Arqueólogos (as) escavam dinossauros?

Sinto muito, mas não escava dinossauros, este é o trabalho dos (as) Paleontólogos (as). Felizmente eu raramente escuto/leio esta pergunta, na verdade como estou estudando tudo voltado mais para o Antigo Egito a pergunta mais corriqueira é se “Ainda tem o que se descobrir?”, mas os meus colegas das demais Arqueologias são sempre questionados acerca dos dinossauros. Eu até que gosto de ossos de dinossauros, mas o máximo que cheguei perto foi em um museu. Definitivamente não faz parte da enseada da Arqueologia.

  1. Onde posso estudar Arqueologia?

Aqui no Arqueologia Egípcia disponibilizei uma lista de Universidades onde é possível cursar. Não coloquei um link direto para os Núcleos e Departamentos porque não é incomum que os endereços mudem: http://arqueologiaegipcia.com.br/category/onde-estudar/cursos-de-arqueologia%E3%80%8C-brasil-%E3%80%8D/

  1. Como faço para entrar nestas Universidades?

Depende. Na página de cada uma delas provavelmente existe uma explicação acerca do meio de ingresso e se elas são pagas.

  1. Qual a melhor Universidade para se estudar Arqueologia no Brasil?

Depende do que você planeja estudar. Naturalmente não conheço o nível de todas as Universidades e não sei dizer qual é a melhor porque é relativo. Acho a Universidade onde estudei maravilhosa, mas outros acreditam que ela é horrível, então é subjetivo.

  1. O que precisamos fazer para ser um (a) bom (boa) arqueólogo (a)?

Isto também é subjetivo. Particularmente acredito que para ser um (a) bom (a) arqueólogo (a) primeiramente tem que ter ética, já que na maioria das vezes somos as vozes de pessoas que já morreram. Em segundo tem que estudar muito porque a Arqueologia não é somente escavar, é todo um trabalho que envolve conhecimentos de bases legais, teóricas, metodológicas e técnicas. Por último tem que ter engajamento para aprender com os seus próprios erros e os erros dos outros.

Mohamed Abd el-Maguid em sua palestra acerca das escavações em Alexandria. Imagem disponível em . Acesso em 21 de setembro de 2013.

Mohamed Abd el-Maguid em sua palestra acerca das escavações em Alexandria. Imagem disponível em < http://deltasurvey.tumblr.com/post/46073975675/the-problems-of-archaeology-in-alexandria >. Acesso em 21 de setembro de 2013.

  1. Qual a diferença entre Egiptologia e Arqueologia?

Já expliquei isto neste texto: http://arqueologiaegipcia.com.br/2013/08/31/egiptologia/

  1. Preciso cursar uma Universidade para me especializar em Egiptologia?

Claro, caso contrário você será considerado um (a) amador (a). No Brasil não existe uma cadeira de Egiptologia, mas é possível se especializar na área apresentando uma conclusão de curso com um assunto da Egiptologia.

  1. E no Brasil existem sítios Arqueológicos?

Naturalmente qualquer lugar que foi ou é habitado por humanos possuem sítios arqueológicos.

  1. Quanto ganha um profissional da Arqueologia?

De uma forma generalista entre R$1.300,00 a R$3.000,00.

  1. Devo estudar História primeiro para depois cursar Arqueologia?

Antigamente era assim porque não existiam graduações em Arqueologia (exceto o extinto curso da Estácio de Sá), mas a verdade era que um (a) graduado (a) em qualquer área poderia ingressar em uma Pós-Graduação em Arqueologia. História era o comumente escolhida devido ao objeto de estudo em comum, o passado. Porém é mito acreditar que ambas estas disciplinas são iguais. História e Arqueologia são diferentes, especialmente nos métodos de trabalho. Somado a isto atualmente com as graduações não existem mais justificativas em se adentrar em um curso aleatório para somente depois ir para a Arqueologia.

  1. Só homens podem estudar Arqueologia?

Este é mais um mito. Qualquer um pode estudar Arqueologia. Além do mais é surpreendente notar que a maioria dos profissionais da Arqueologia costuma ser do sexo feminino (muito se comenta acerca, mas isto é dedução, seria interessante a realização de uma pesquisa), mas mesmo assim é considerada pelo senso comum uma profissão exclusivamente masculina.

Lisa Yeomans (zooarqueologa). Exploration Society's Expedition. Imagem disponível em . Acesso em 21 de setembro de 2013.

Lisa Yeomans (zooarqueologa). Exploration Society’s Expedition. Imagem disponível em < http://minufiyeh.tumblr.com/post/31815542135/a-busy-first-week >. Acesso em 21 de setembro de 2013.

Na ordem: Joanne Rowland, Salima Ikram e Lisa Yeomans. Todas arqueólogas. Imagem disponível em . Acesso em 21 de setembro de 2013.

Na ordem: Joanne Rowland, Salima Ikram e Lisa Yeomans. Todas arqueólogas. Imagem disponível em < http://minufiyeh.tumblr.com/post/32825953749/the-last-week >. Acesso em 21 de setembro de 2013.

  1. Encontrei um artefato que acredito ser antigo. O que devo fazer?

Entrar em contato com o órgão responsável pela fiscalização dos sítios arqueológicos do país. No Brasil é o IPHAN, no Egito é o MSA.

  1. Mas o meu interesse é vender este artefato.

O comércio e posse de artefatos arqueológicos é um crime previsto por lei tanto no Brasil, como no Egito. Por tanto, quando você encontrar pessoas em sites de compras tentando vender o que alega ser um artefato deve denunciar o mesmo. Sites como Ebay e Mercado Livre possuem tópicos para denúncia mais ou menos assim: “Tentativa de venda de objetos cujo comércio é proibido”. No MASP (São Paulo) possuem feiras que alegam ser de antiguidades, o que é antiético. Eu ainda não entendo qual o motivo delas ainda serem permitidas, e justamente em um dos cartões postais da cidade.

  1. Mas quero muito vender artefatos, comprei até um detector de metais. Eu assisti programas na TV em que as pessoas comercializam coisas antigas.

O comércio de artefatos arqueológicos é considerado amoral. Eles fazem parte da história de toda uma comunidade, desta forma é egoísmo comprá-los e mantê-los como um objeto de apresso pessoal. Além do mais, estes artefatos costumam ser frutos de roubos ou lavagem de dinheiro. Para variar os saqueadores (Caçadores de Souvenir ou Caçadores de Tesouros) sempre deixam um rastro de destruição em sítios arqueológicos e comprometem parcialmente ou totalmente a interpretação do passado. Tanto os saqueadores, como os compradores fazem um desfavor para a Ciência e para a Humanidade.

Porém existem casos em que as peças faziam parte de um acervo adquirido antes da Convenção da UNESCO de 1972, o que permite seu comércio. Alguns colecionadores responsáveis e de acordo com a lei são capazes de manter a integridade de um artefato arqueológico.

Existem pessoas que se entregam ao fascínio de ter uma peça antiga em casa, mas raramente se dão conta de que alguns objetos necessitam de uma manutenção constante e não dificilmente cara, uma vez que deve ser realizada por profissionais.

 18. Tenho uma graduação em outra área, mas eu quero trabalhar com Arqueologia. Devo fazer vestibular novamente?

Depende:

a)      Você pode optar por uma formação base em Arqueologia, então naturalmente tem que prestar vestibular para cursar Arqueologia.

b)      Ou você observa nos editais dos cursos de Pós-graduação se é possível se inscrever mesmo sendo de outra área. No entanto, alguns cursos pedem que o aluno apresente um projeto de pesquisa no ato da matrícula, desta forma, um conhecimento prévio de Arqueologia se faz necessário.

 

Meroe é agora Patrimônio da Humanidade

Na 35 ª reunião do Comitê da UNESCO em Paris, que ocorreu neste mês, foi decidido que os sítios arqueológicos da Ilha de Meroe (Meroé), que fica ao norte de Cartum, devem ser declarados Patrimônio da Humanidade.

Sítios arqueológicos da Ilha de Meroe – Sudão. Foto BBC Brasil. Disponível em < http://noticias.br.msn.com/fotos/galeria-bbc.aspx?cp-documentid=29312472&page=2 >Acesso em 30 de Junho de 2011.

A Ilha fica entre os rios Nilo e Atbara e foi na antiguidade o centro do reino de Kush que chegou a rivalizar fortemente com os egípcios. Para saber mais sobre este povo está abaixo uma matéria que saiu na revista Planeta em Novembro de 2010:

O mistério dos faraós negros

Uma civilização africana que rivalizou com os antigos egípcios e, por um século, chegou a dominá-los: eis o império kush, localizado na região da Núbia, atual Sudão. Construtores de pirâmides e criadores de uma língua ainda não decifrada, os kushitas são hoje em dia um dos mais fascinantes desafios da arqueologia.

Maroe. Foto: O mistério dos faraós negros. Disponível em < http://www.terra.com.br/revistaplaneta/edicoes/458/artigo193222-1.htm> Acesso em 30 de Junho de 2011.

País dilacerado pela guerra civil, comandado por um presidente – Omar al-Bashir – condenado pelo Tribunal Penal Internacional de Haia e eventual abrigo de militantes da rede terrorista islâmica Al-Qaeda, o Sudão não cativa muitos turistas para visitar suas atrações. Isso ajuda a fazer daqueles que conseguem assistir ao pôr do sol nas pirâmides de Meroe, a última capital do império Kush (a antiga Núbia), a 200 quilômetros a nordeste de Cartum, privilegiados espectadores de uma paisagem única e preciosa.
Guillemette Andreu, chefe de antiguidades do Museu do Louvre, na França, disse à agência de notícias AFP que o que diferencia as pirâmides egípcias das núbias é que, no Egito, boa parte da beleza desses monumentos é ofuscada pelas multidões de turistas. As tumbas no Sudão, por outro lado, não foram totalmente exploradas e ainda não ganharam muita atenção do público.

Uma das mais antigas civilizações do vale do Nilo, Kush tinha seu núcleo principal na confluência dos rios Nilo Azul, Nilo Branco e Atbara, mas se estendia por 1.200 quilômetros às margens do maior curso d’água da África. Inicialmente, a região era dominada pelos egípcios. Os kushitas conseguiram a independência e, no auge de seu poderio, conquistaram o Egito no século 8 d.C. Durante um século eles imperaram em todo o vale do Nilo, até serem obrigados a retroceder às terras do atual Sudão. A dinastia de Meroe foi a última numa linhagem de “faraós negros” que governou Kush por mais de um milênio, até 350 d.C., quando o império, já enfraquecido pelas guerras contra o Egito, então sob domínio romano, foi invadido e subjugado pelas tropas de Ezana, rei de Axum (a atual Etiópia).

As pirâmides núbias são mais baixas que as egípcias – a maior possui 30 metros de altura – e mais pontudas, com ângulos de aproximadamente 70 graus de inclinação. Em Meroe foram encontrados três cemitérios, com mais de 100 pirâmides. Embora essas edificações tivessem sido cuidadosamente escavadas, revelando diversos objetos que expandem o conhecimento sobre a cultura kushita, muitos aspectos dessa civilização permanecem envolvidos em mistério. Até mesmo a cronologia dos fatos ainda não é precisa, ressaltou à AFP Salah Mohammed Ahmed, diretor assistente de antiguidades do Sudão.

Vista parcial do Templo de Amon (antigo Templo de Naga), erguido pelo povo kush. Foto: O mistério dos faraós negros. Disponível em < http://www.terra.com.br/revistaplaneta/edicoes/458/artigo193222-1.htm> Acesso em 30 de Junho de 2011.

Os arqueólogos também descobriram na região um grande número de pilares de pedras com inscrições, denominados estelas. Seu conteúdo ainda não foi decifrado, pois os pesquisadores conhecem o significado de apenas 50 palavras meroítas e calcula-se que esse número precisa chegar a pelo menos mil para se conseguir uma tradução adequada. Julie Anderson, arqueóloga do Museu Britânico e co-diretora, com Ahmed, responsável pelas escavações em Dangeil, no norte do Sudão, afirmou à AFP: “Se conseguirmos decifrar essa linguagem, um novo mundo se abrirá para nós, como se os kushitas antigos estivessem conversando conosco.” Sua equipe descobriu no início deste ano uma estátua de uma tonelada do rei Taharqa, o mais famoso dos faraós negros, que governou por volta do ano 7 a.C.

Baixo-relevo do sítio arqueológico de Meroe, a 300 quilômetros da capital sudanesa, Cartum. Foto: O mistério dos faraós negros. Disponível em < http://www.terra.com.br/revistaplaneta/edicoes/458/artigo193222-2.htm> Acesso em 30 de Junho de 2011.

Meroe é apenas o reduto mais conhecido de um império que, pouco a pouco, começa a revelar outros segredos. Um sítio arqueológico a 300 quilômetros ao norte de Cartum abriga as ruínas de cerca de 50 pequenas pirâmides, datadas desde 250 a.C até 350 d.C., que serviram de tumbas para governantes de Kush. Assentadas no topo de duas cadeias de montanhas cobertas por dunas de areia a aproximadamente cinco quilômetros a leste do Rio Nilo, essas pirâmides compõem uma das vistas mais espetaculares do território sudanês. Alguns anos atrás, uma equipe do Louvre começou a trabalhar em Al-Muweis, um local intocado por muitos anos e localizado a 200 quilômetros ao norte de Cartum. Foram encontrados ali templos, palácios gigantescos e casas.

Localizadas a 300 quilômetros de cartum, cerca de 50 pirâmides serviram de tumbas para governantes de kush

A região pode guardar ainda muitas outras surpresas. Recentemente, o arqueólogo suíço Mattieu Honeggar descobriu em Wadi Al-Arab, um sítio no norte do Sudão, vestígios de que o local foi habitado mais ou menos 10 mil anos atrás, muitos milênios antes dos faraós negros. As escavações poderiam permitir um entendimento melhor da transição do homem para a vida sedentária.

Cerca de 50 pequenas pirâmides estão distribuídas no sítio de Meroe. Elas foram construídas durante um intervalo de tempo de 600 anos, entre 250 a.C. e 350 d.C., quando o império kushita foi subjugado pelos etíopes do reino de Axum. Foto: O mistério dos faraós negros. Disponível em < http://www.terra.com.br/revistaplaneta/edicoes/458/artigo193222-2.htm> Acesso em 30 de Junho de 2011.

Em 2007, pesquisadores do Instituto de Estudos Orientais da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, descobriram 55 pedras que seriam usadas para moer minério com ouro, a fim de extrair o metal, na região de Hosh el-Geruf, a 350 quilômetros de Cartum, perto da quarta catarata do Nilo. As escavações mostram que Kush era um rico centro de minérios. Segundo GeoffEmberling, do Instituto de Estudos Orientais da Universidade de Chicago, a Núbia era conhecida por seus depósitos de ouro. O Egito dominou a região entre 1539 a.C e 1075 a.C. e retirou de lá muito ouro.
No entanto, boa parte das riquezas arqueológicas a serem descobertas nessa região corre o risco de permanecer em segredo por causa da construção da hidrelétrica de Meroe, que inclui um lago de mais ou menos 160 quilômetros de comprimento. Infelizmente para arqueólogos e historiadores, o progresso industrial e os conflitos armados no Sudão podem enterrar para sempre muitos tesouros do país.

Vista parcial das pirâmides que serviram de sepultura para governantes kushitas. Foto: O mistério dos faraós negros. Disponível em Acesso em 30 de Junho de 2011.

Herança egípcia

Muito antes de os faraós negros governarem o Egito, os soberanos da 18ª dinastia egípcia (1539-1292 a.C.) conseguiram dominar a Núbia, que era conhecida por sua riqueza em recursos minerais. Submetida aos egípcios, a elite núbia começou a adotar seus costumes culturais e espirituais, como a veneração a deuses, a língua, os ritos de funeral e enterro e, mais tarde, as pirâmides.
Durante esse período de dominação egípcia, os núbios forneciam ao ocupante outros materiais de valor, como peles de animais, marfim, ébano, gado e cavalos. Com isso, muitos egípcios foram morar na região de Kush e muitos kushitas se mudaram para o norte. Os egípcios também construíram grandes templos e monumentos no local. Um dos centros religiosos de Kush, próximo à terceira catarata do Nilo, era dedicado à estátua do deus egípcio Amon. Outra herança cultural notável foram as pirâmides. O primeiro a querer ser enterrado em uma foi o segundo faraó núbio, Piye. Porém, as pirâmides das duas nacionalidades são diferentes. As dos kushitas são mais baixas e mais pontudas.

Império poderoso

Estabelecido por volta de 2500 a.C., o império de Kush era reconhecido pelo antigo Egito e pelos textos bíblicos. Acredita-se que os kushitas vieram de civilizações africanas que habitavam o sul do Nilo. Os moradores de Kush desenvolveram reinos poderosos. O primeiro foi centrado em Kerma (2000-1650 a.C). As últimas capitais foram Napata (800- 270 a.C) e Meroe (270 a.C.-370 d.C).
Por quase um século, os kushitas governaram seu vizinho do norte, o Egito. Conhecidos também como “faraós negros”, os soberanos da Núbia contribuíram muito para a civilização egípcia. Arqueólogos encontraram evidências de que os faraós de Kush, que representam a 25ª dinastia no poder do Egito, mandaram construir e restaurar muitos monumentos dos dois reinos. Algumas representações, principalmente as dos faraós, mostram novas formas originadas da mistura da cultura dos dois povos.
Numerosas representações faraônicas têm características faciais de kushitas, bem como alguns dos artefatos usados pelos soberanos. Os faraós kushitas conseguiram reunificar um Egito desgastado, criando um império que se estendia da fronteira sul, onde hoje é Cartum, até o Mar Mediterrâneo.

Solução polêmica

A represa hidrelétrica de Meroe, inaugurada em maio deste ano, tem causado muita discussão: as obras levaram ao desaparecimento de alguns artefatos antigos que ainda podiam ser encontrados na região. Mas, segundo os mentores do projeto, a hidrelétrica foi um grande passo para o desenvolvimento econômico e social do Sudão, pois traz benefícios como energia elétrica mais barata para melhorar a agricultura irrigada, indústria pesqueira no lago da hidrelétrica e proteção contra a enchente destrutiva em áreas vizinhas.

Artigo retirado na integra de:  O mistério dos faraós negros. Disponível em < http://www.terra.com.br/revistaplaneta/edicoes/458/artigo193222-1.htm> Acesso em 30 de Junho de 2011.

Fonte da reportagem:

Archaeological sites of Meroe Island inscribed on World Heritage List. Disponível em <http://archaeologynewsnetwork.blogspot.com/2011/06/archaeological-sites-of-meroe-island.html> Acesso em 30 de Junho de 2011.

UNESCO quer resgatar peças roubadas

Texto retirado na integra do site defender.org.br. Recebido via twitter @patrimonio)

Unesco vai atuar com parceiros internacionais para resgatar peças roubadas de museu no Egito

 

Por  Silvana Losekann

 

A  Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) apelou ontem (15) para que o mundo preserve a herança cultural da humanidade presente no Egito. A reação é uma resposta aos roubos de pelo menos 18 peças do Museu Egípcio do Cairo, registrados durante a onda de protestos contra o governo. A Unesco informou que será feita uma força-tarefa com parceiros internacionais na tentativa de resgatar as peças roubadas.

A Unesco pretende atuar em conjunto com a Organização Internacional de Polícia Criminal (a Interpol), a Organização Mundial das Alfândegas, o Centro Internacional para Estudo e Restauração de Propriedade Cultural e o Conselho Internacional de Museus.

“[Apelamos para que] autoridades, comerciantes de arte e colecionadores de todo o mundo estejam atentos às relíquias desaparecidas”, diz o comunicado.

Na relação de peças roubadas do museu estão uma estatueta de madeira coberta de ouro do faraó Tutankhamon transportado por uma deusa, os braços e o dorso de uma estátua do rei Akneton, a cabeça de uma estátua de Aremisca, entre outras obras. As autoridades acreditam que o roubo ocorreu na noite do último dia 11.

“É particularmente importante verificar a origem da propriedade cultural que pode ser importada, exportada ou oferecida para venda, sobretudo na internet”, afirmou a diretora-geral da Unesco, Irina Bokova,

“Essa herança é parte da história da humanidade e da identidade do Egito. Não podemos permitir que desapareça em mãos sem escrúpulos ou corra o risco de ser danificada ou mesmo destruída”, acrescentou.

Segundo a diretora, é fundamental que colecionadores e comerciantes colaborem no esforço de resgatar as peças. “Mas também chamo a atenção das forças de segurança, dos agentes aduaneiros, dos comerciantes de arte, dos colecionados e das populações locais para fazerem tudo para recuperar essas peças de valor inestimável”, afirmou Bokova.

 

Retirado de: Unesco vai atuar com parceiros internacionais para resgatar peças roubadas de museu no Egito. Disponível em < http://www.defender.org.br/unesco-vai-atuar-com-parceiros-internacionais-para-resgatar-pecas-roubadas-de-museu-no-egito/> Acesso em 16 de Fevereiro de 2011.