Em setembro de 2025, um episódio lamentável para a Arqueologia Egípcia ocorreu dentro dos laboratórios de restauro do Museu Egípcio do Cairo, quando uma pulseira de ouro pertencente ao faraó Amenemope desapareceu. O caso, que mobilizou autoridades, investigadores e especialistas, acabou revelando não apenas um crime, mas também falhas profundas nos mecanismos de proteção do patrimônio cultural.
Eu não cheguei a escrever sobre esse caso aqui no site quando ele estourou, mas na época reuni informações que apresentei em um vídeo completo no meu canal de Egiptologia. Porém, recentemente este caso recebeu uma conclusão. Mas, antes, claro, preciso fazer um resumo de tudo o que ocorreu anteriormente.
Tudo começou com uma denúncia feita nas redes sociais, onde uma pulseira de ouro, pertencente ao faraó Amenemope (governante da XXI Dinastia, no Terceiro Período Intermediário do Egito) havia desaparecido do laboratório de restauração do Museu Egípcio do Cairo, na Praça Tahrir. A peça estava sob a guarda da própria instituição e havia sido retirada do cofre em algum momento durante os preparativos para a exposição “Tesouros dos Faraós”, que aconteceria em Roma. Situação que seria, a princípio, denunciada por um ativista em prol do patrimônio cultural em uma página do Facebook.

Poucos dias depois, o Ministério das Antiguidades confirmou o desaparecimento e tratou oficialmente o caso como roubo. Funcionários foram interrogados, o laboratório foi fechado, telefones confiscados e imagens da pulseira começaram a circular em aeroportos, portos e fronteiras, numa tentativa de impedir que o objeto fosse contrabandeado para fora do país. Ao mesmo tempo, um comitê foi criado para revisar o inventário do laboratório, temendo que outras peças também tivessem sido removidas.
Quando um artefato arqueológico é roubado, os desfechos costumam não ser dos melhores: ou ele desaparece em uma coleção privada, ou ressurge anos depois em um leilão com documentação falsificada. No caso de objetos de ouro, existe ainda a possibilidade mais devastadora: o derretimento. Quando isso acontece, não há retorno possível. O objeto deixa de existir como fonte histórica.

Durante alguns dias, tudo indicava que essa pulseira teria exatamente esse destino. E isso se confirmou através de prisões que foram anunciadas em 18 de setembro. O que foi anunciado é que a pulseira havia sido furtada por uma técnica de restauração do próprio museu, alguém que tinha acesso direto ao laboratório e aos cofres. A peça foi repassada a comerciantes do mercado de metais preciosos do Cairo e, em seguida, derretida em uma fundição para ser transformada em ouro comum.

E a novidade para este caso é que o julgamento, concluído agora, trouxe um desfecho jurídico claro. Asmaa Zeinhom, é o nome da funcionária do Museu Egípcio e principal ré. Ela foi condenada a 15 anos de prisão em regime fechado e ao pagamento de uma multa de 2 milhões de libras egípcias. Ela confessou o crime, alegando dificuldades financeiras, e afirmou ter vendido a pulseira como se fosse um bem pessoal. O joalheiro Mahmoud Ali Emam também recebeu uma pena de 15 anos de prisão. Os outros dois envolvidos foram multados, após o tribunal reconhecer que não sabiam que estavam lidando com uma antiguidade.
Do ponto de vista da justiça, o caso foi encerrado. Do ponto de vista da arqueologia, não.

As investigações paralelas revelaram falhas graves nos protocolos do museu: transferências de artefatos sem assinatura formal, cofres sem verificação regular e um controle de segurança claramente insuficiente. Medidas corretivas foram anunciadas, como a revisão dos registros, restrições ao porte de objetos pessoais em áreas sensíveis e a instalação de câmeras.
A pulseira de Amenemope sobreviveu por mais de três mil anos de história, a saques antigos, a deslocamentos de tumbas e a mudanças políticas profundas. Ainda assim, foi destruída em poucos dias, não por traficantes internacionais ou por escavações clandestinas no deserto, mas por alguém “de dentro”.
Fonte da notícia:
15 years jail, 2 LE million fine in the Egyptian Museum bracelet theft case. Disponível em < https://egyptindependent.com/15-years-jail-2-le-million-fine-in-the-egyptian-museum-bracelet-theft-case/ >. Acesso em 16 de janeiro de 2026.
