Há cerca de seis meses, comentei no Arqueologia pelo Mundo sobre as denúncias de que o Museu Nacional do Sudão, localizado em Cartum, estava sendo sistematicamente furtado enquanto o país enfrentava uma guerra devastadora. Hoje, trago a confirmação dessa tragédia.
Desde 2023, o Sudão vive uma guerra civil resultado de uma disputa de poder entre as Forças Armadas Sudanesas e as Forças de Apoio Rápido, que buscam controlar o país após a queda do ditador Omar al-Bashir. Além do alto número de mortes, incluindo aldeões inocentes atacados por saqueadores, o conflito gerou uma das maiores crises humanitárias do mundo. O Sudão, hoje, é o país com o maior número de deslocados internos, pessoas obrigadas a abandonar suas casas e vagar sem destino.

E neste meio tempo, o Museu Nacional do Sudão, localizado em Cartum, ficou sob ocupação das Forças de Apoio Rápido. Foi quando no ano passado lancei um vídeo alertando que havia suspeitas de que o museu estava sendo saqueado por esse grupo. De acordo com a denúncia, imagens de satélite mostravam caminhões sendo carregados e deixando o local rumo ao Sudão do Sul. Na época, a Unesco fez um apelo internacional para monitorar o tráfico ilegal de antiguidades, e uma emissora sudanesa denunciou saques em larga escala. No entanto, as informações ainda eram tratadas como suposições.
Agora, em março de 2025, imagens confirmam o pior: de fato o museu foi invadido e saqueado.


O valor histórico perdido
O Museu Nacional do Sudão é de extrema importância para a arqueologia. Ele abrigava muitos dos objetos resgatados durante a construção da grande represa de Aswan. Inaugurado em 1971, possuía um acervo com mais de 100 mil peças arqueológicas, abrangendo desde o período neolítico até a era islâmica. Entre os artefatos estavam objetos da ocupação egípcia na Núbia, relíquias dos faraós kushitas e imagens cristãs da Catedral de Faras.

De acordo com relatos divulgados para a imprensa em 22 de março, praticamente todo o acervo foi saqueado pelas Forças de Apoio Rápido. O que não pôde ser transportado foi destruído. Segundo a egiptóloga Federica Pancin, poucas peças permaneceram no local, incluindo os leões de Basa, os colossos de Tabo, o colosso de Taharqa (um faraó kushita) e o sarcófago de Anlamani. Elas só não foram levadas porque eram grandes demais para serem carregadas. Todos os artefatos do Salão Dourado foram roubados, e até a Sala de Antropologia, onde ficavam restos mortais, foi saqueada e destruída.
O silêncio da comunidade internacional
Enquanto isso, jornais ao redor do mundo davam espaço para boatos sobre “superestruturas” subterrâneas sob as pirâmides, ignorando completamente um dos maiores saques a um museu em tempos recentes. A destruição desse patrimônio histórico e cultural passou praticamente despercebida pela mídia global. Eu mesma só soube da confirmação dessa tragédia por uma newsletter que recebi neste final de semana.
O que aconteceu com o Museu Nacional do Sudão é um golpe para a história e para a humanidade. Enquanto o mundo vira os olhos para teorias fantasiosas, o verdadeiro passado se esvai, carregado por saqueadores e destruído pela indiferença.
Fontes:
Quem está por trás do que pode ter sido o dia mais sangrento da guerra no Sudão? Disponível em < https://www.bbc.com/portuguese/articles/c93pp8qn2eko >. Acesso em 30 de março de 2025.
La guerra en Sudán dispara las violaciones contra niños, algunos de tan solo un año. Disponível em < https://elpais.com/planeta-futuro/2025-03-07/la-guerra-en-sudan-dispara-las-violaciones-contra-ninos-algunos-de-tan-solo-un-ano.html >. Acesso em 30 de março de 2025.
Depredato il Sudan National Museum di Khartoum. Disponível em < https://www.djedmedu.com/depredato-sudan-national-museum/ >. Acesso em 30 de março de 2025.
Videos showing the destruction and looting of the Sudan National Museum by RSF mercenaries. Disponível em < https://x.com/Sudan_tweet/status/1904416205542183114 >. Acesso em 30 de março de 2025.
All the artifacts from the Gold Room, one of the rarest museum collections from the Kushite Empire, were systematically stolen. Disponível em < https://x.com/Sudan_tweet/status/1904626617001124281 >. Acesso em 30 de março de 2025.