O casal Ankhesenamon e Tutankhamon

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Ankhesenamon e Tutankhamon viveram durante o Período Amarniano (Novo Império; 18ª Dinastia), época iniciada pelo faraó Akhenaton e que se destaca pela criação de uma capital chamada Aketaton — destituindo assim Tebas — e a tentativa do faraó de tentar diminuir o poder econômico e influência religiosa do clero tebano do deus Amon. Para tal, ele adotou uma das formas do deus sol, o Aton, como divindade suprema.

Akhenaton, com a sua esposa principal, Nefertiti, teve seis filhas: Meritaton, Meketaton, Ankhesenpaaton, Neferneferuaton, Neferneferura e Setepenra. A segunda faleceu ainda da infância, levando Akhesenpaaton a virar a segunda princesa na linha de sucessão real e mais tarde rainha ao lado do seu provável meio-irmão, Tutankhaton.

Foi depois de alguns anos coroados que ambos trocaram de nome em honra ao deus Amon. Para saber mais sobre esse casal compartilho abaixo o vídeo “Ankhesenamon e Tutankhamon”, que postei no canal do Arqueologia Egípcia no Youtube (clique aqui para se inscrever). Nele faço um passeio sobre alguns acontecimentos que ocorreram — ou pode ter ocorrido — com esse casal:

Alguns exemplos iconográficos:

Para a boa sorte de nós arqueólogos e deleite dos fãs da Antiguidade egípcia, ótimas imagens desse casal chegou até o nosso tempo. A maioria saiu da KV-62, tumba tebana de Tutankhamon. Abaixo estão alguns exemplos:

Nesta primeira imagem que separei podemos observar o encosto de um trono dourado. Nele a rainha passa o que pode ser um unguento no rei. Esse artefato é interessante por diferentes motivos, mas o principal é que nele foi registrado não somente os nomes “Tutankhamon” e “Ankhesenamon”, mas igualmente os nomes anteriores deles: “Tutankhaton” e “Ankhesenpaaton”.

Fonte: STROUHAL, 2007.

Já este artefato é uma lamparina que quando acesa revela o desenho oculto do rei sentado em seu trono enquanto recebe duas ramas de palmeira de sua esposa, significando que ela desejava a ele um reinado de milhões de anos.

Fonte: JAMES, 2005.

As duas imagens seguintes foram retiradas do feretro dourado de Tutankhamon. Nele Ankhesenamon exerce diferentes papeis, seja guiando Tutankhamon, auxiliando-o ou em um momento de lazer.

Fonte: JAMES, 2005.

O próximo objeto provavelmente é a fivela de uma faixa que servia como cinto. Ankhesenamon aproxima-se do esposo com um pequeno buquê de flores.

Fonte: JAMES, 2005.

Ankhesenamon mais uma vez oferece flores para Tutankhamon, que faz um gesto com uma das mãos, indicando recebimento da oferta. Observando a imagem em um contexto geral a impressão que dá que eles estão em um jardim.

Fonte: STROUHAL, 2007.

Estas grandes estátuas dos dois está disponível para a visitação em Karnak, na área onde foi retratado o Festival Opet deles.

Referências:

JAMES, Henry. Tutancâmon (Tradução de Francisco Manhães). Barcelona: Folio, 2005.

STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007.

Sobre a teoria de câmaras ocultas na tumba de Tutankhamon

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Desde meados de 2015 a tumba do faraó Tutankhamon (KV-62) tem sido alvo de pesquisas não invasivas realizadas pelo Ministério das Antiguidades do Egito. São estudos que buscam por evidências de que a sepultura, que possui somente quatro cômodos, em verdade possuiria câmaras ocultas por trás de duas das paredes da câmara funerária (Imagem 01).

Imagem 01: KV-62. As partes amareladas são sugestões do que existiria atrás das paredes. Imagem: Theban Mapping Project (com adições).

Essa busca foi influenciada pelo o artigo do egiptólogo Nicolas Reeves, The burial of Nefertiti, que após observar fotos em alta resolução das paredes da sepultura salientou que o local contém ranhuras e rebocos grosseiros que apontariam que o túmulo possui uma continuação. Ainda de acordo com a sua interpretação, em verdade a KV-62 não pertencia a princípio ao Tutankhamon, mas à rainha Nefertiti, a qual Reeves acredita que teria governado como faraó.

— Leia mais em “Dossiê: Bastidores da procura por câmaras escondidas na tumba de Tutankhamon”.

Apesar da crença de que a KV-62 seja a sepultura de Nefertiti não seja aceita por muitos acadêmicos, a sugestão de que existiriam câmaras ocultas chamou a atenção do Ministério das Antiguidades, que nos dias 28 e 29 de setembro (2015) levou Reeves para dar uma olhada pessoalmente no local. Ocasião em que o ministro anunciou que existia uma grande possibilidade de haver câmaras secretas na tumba (uma chance de 70% em suas palavras).

Imagem 02: Hirokatsu Watanabe. Foto: Brando Quilici. 2016.

Um mês depois desta visita o pesquisador Hirokatsu Watanabe passou um radar na sepultura e anunciou que nos locais apontados por Reeves “Obviamente é uma entrada para alguma coisa”, complementando que “É muito profundo”[1]. Tempos depois, em 17 de março (2016) foi realizada uma conferência de imprensa onde foram liberadas as seguintes imagens:

Imagem 03: Dados produzidos pelas curvas do radar de penetração. Imagem disponibilizada pela assessoria de imprensa do MSA. 2016.

Imagem 04:  Área 1 e 2: O radar sugere que sejam espaços vazios; W e X o radar sugere que sejam metais; Y e Z o radar sugere que sejam materiais orgânicos. Imagem disponibilizada pela assessoria de imprensa do MSA. 2016.

Foi após este período que começou a crescer cada vez mais a desconfiança por parte de acadêmicos e não acadêmicos de que talvez a forma como esta pesquisa estava sendo levada era só uma tentativa de fascinar as pessoas e fazê-las visitar o país, cujo turismo não está em seus melhores anos.

— Leia mais em “Câmaras ocultas na tumba de Tutankhamon ou uma forma de chamar a atenção dos turistas para o Egito?

Uma segunda análise com um scaner foi realizada, mas ao contrário da primeira o Ministério das Antiguidades não liberou nenhuma imagem. O que foi particularmente estranho. Se vocês observarem eu nem sequer cito aqui no Arqueologia Egípcia o que ocorreu neste período porque alguma coisa realmente não estava se encaixando. E eu não estava interessada em encher o A.E. com notícias incompletas sobre uma pesquisa que estava cada vez mais parecendo ter intenções questionáveis.

Paralelamente, pesquisadores não vinculados ao projeto começaram a pedir por mais dados da análise feita pelo o Watanabe, afinal, o Ministério só tinha liberado imagens verticais e não horizontais. E de fato, com um corte assim não é possível ter muita certeza do que ele conseguia ver.

Conferência sobre o Tutankhamon:

Ocorreu entre os dias 06 a 08 de maio (2016) uma conferência no Egito para mostrar as últimas pesquisas realizadas sobre o faraó Tutankhamon e a última mesa do evento foi dedicada justamente para discutir a busca por câmaras ocultas. E nesta mesma mesa participaram Mamdouh Eldamaty (que era ministro na época em que os trabalhos tiveram início), o Nicholas Reeves, Hirokatsu Watanabe, Yasser El Shayb e Zahi Hawass.

Um dos meus contatos estava presente e pelas informações passadas ocorreu um notável debate acadêmico. Incrivelmente, horas mais tarde, a imprensa internacional e nacional (Egito) teve mais interesse em veicular sobre o breve bate-boca entre Hawass e Eldamaty e não se preocupou em noticiar para seus leitores que Watanabe, que meses antes tinha tanta certeza de que existia uma câmara oculta na tumba,  desta vez falou que os seus dados são inconclusivos. Ele ainda complementou que o seu aparelho foi customizado por ele e que por isso só ele conseguia ler os dados obtidos [2].

Imagem 05: Trabalho realizado pela National Geograhic. Foto: Kenneth Garrett. 2016.

Dias seguintes, 11 de maio (2016), saiu uma notícia escrita pelo jornalista e bacharel em Arte, Owen Jarus, no site Live Science [3] onde foi mencionado que os dados coletados pela equipe da National Geographic não foram liberados para o público porque eles simplesmente não tinham encontrado nada no local, mas que o Ministério queria continuar a manter a história. De acordo com a sua matéria ele tinha solicitado para a National Geographic os dados de sua pesquisa e como resposta foi dito que ela estava proibida de liberar qualquer informação sobre o assunto.

Quais são os passos futuros?

Tempos depois da mesa redonda do dia 08 o atual ministro anunciou que ia montar uma nova comissão para definir quais novas pesquisas serão realizadas. Particularmente não faço ideia de qual técnica eles planejam utilizar agora já que eles já fizeram uso do GPR, que de acordo com o pesquisador Lawrence Conyers (especialista na área e que foi entrevistado pelo Owen) é a ferramenta mais confiável.

Por hora só nos resta esperar.

Fontes:

[1] Will a New Bout of King Tut Fever Bring Visitors Back to Egypt?. Disponível em <http://news.nationalgeographic.com/2015/10/151002-tutankhamun-valley-of-the-kings-nefertiti-hidden-burial-rooms-archaeology-howard-carter-nicholas-reeves/ >. Acesso em 28 de novembro de 2015.

[2] In Egypt, Debate Rages Over Scans of King Tut’s Tomb. Disponível em < http://news.nationalgeographic.com/2016/05/160509-king-tut-tomb-chambers-radar-archaeology/ >. Acesso em 09 de maio de 2016.

[3] Nefertiti Still Missing: King Tut’s Tomb Shows No Hidden Chambers. Disponível em < http://www.livescience.com/54708-nefertiti-missing-no-chambers-in-king-tut-tomb.html >. Acesso em 11 de maio de 2016.

Lá no canal do Arqueologia Egípcia no YouTube irá sair um vídeo onde respondi algumas questões sobre esta pesquisa. O vídeo sairá aqui no site em uma próxima postagem, mas caso queira se inscrever no canal é só clicar aqui.

São revelados os resultados das buscas por câmaras ocultas na tumba de Tutankhamon

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Estando na lista das descobertas arqueológicas mais esperadas de 2016, organizada pelo site Discovery News, a busca por supostas câmaras ocultas na KV-62, tumba do faraó Tutankhamon, gerou um grande hype nos meios de comunicação, resultando em várias teorias do que estaria por trás das paredes do sepulcro.

Planta da KV-62. Imagem: Theban Mapping Project.

Tudo começou quando o egiptólogo Nicolas Reeves sugeriu, após ver fotografias em alta resolução do túmulo, que por trás das paredes norte e oeste da KV-62 existiriam passagens secretas.

Tutankhamon na KV-62. Foto: Factum Arte.

Na Arqueologia devemos apresentar uma série de indícios palpáveis que corroborem nossas interpretações e tudo isso deve seguir uma metodologia confiável. Desta forma, o que começou como um artigo divulgado na internet findou em um convite do Ministério das Antiguidades do Egito para o próprio Reeves analisar a sepultura pessoalmente, para ver se seria possível encontrar mais coisas que pudessem apoiar a sua suposição.

Escrevi aqui no Arqueologia Egípcia dois posts bem detalhados sobre o assunto. Vocês poderão lê-los clicando nas seguintes chamadas:

— Dossiê: Bastidores da procura por câmaras escondidas na tumba de Tutankhamon.

— Câmaras ocultas na tumba de Tutankhamon ou uma forma de chamar a atenção dos turistas para o Egito?

No dia 21 de fevereiro deste ano (2016), anunciei na página do AE no Facebook que os resultados das análises seriam liberados em abril (2016):

Hoje foi anunciado que os resultados sobre a busca por câmaras na KV-62 (tumba de Tutankhamon) serão liberados em abril. De acordo com o Ministro do Turismo, Hisham Zaazou, não tratam-se de câmaras vazias…

Publicado por Márcia Jamille – Arqueologia Egípcia em Domingo, 21 de fevereiro de 2016

Contudo, fui surpreendida no meio desta semana por um dos meus contatos que comentou que parte do anúncio iria ser apresentado no dia de hoje, 17 de março de 2016.

De acordo com o anúncio, realizado esta manhã durante uma conferência de imprensa do Ministério das Antiguidades, o que parecem ser duas câmaras foram reveladas pelos exames do radar de penetração (GPR). Elas encontram-se nas paredes norte e leste da sepultura e foi possível identificar o que parece ser a presença de metal e material orgânico. As curvas do GPR também podem ter identificado linteis de portas acima das cavidades detectadas.

Dados produzidos pelas curvas do radar de penetração. Imagem disponibilizada pela assessoria de imprensa do MSA. 2016.

Área 1 e 2: O radar sugere que sejam espaços vazios; W e X o radar sugere que sejam metais; Y e Z o radar sugere que sejam materiais orgânicos. Imagem disponibilizada pela assessoria de imprensa do MSA. 2016.

Novos exames serão realizados no final desse mês de março, para poder determinar as dimensões exatas​ de tais câmaras. Igualmente outra conferência de imprensa será realizada no dia 01 de abril para mostrar os resultados de forma mais precisa.

Fontes:

Results of Tut tomb scan to be revealed Thursday: Damaty. Disponível em < http://thecairopost.youm7.com/news/199426/news/results-of-tut-tomb-scan-to-be-revealed-thursday-damaty >. Acesso em 16 de março de 2016.

Hidden Chambers Discovered in King Tutankhamun’s Tomb by Scans. Disponível em < http://egyptianstreets.com/2016/03/17/hidden-chambers-discovered-by-scans-in-king-tutankhamuns-tomb/ >. Acesso em 17 de março de 2016.

Scans of King Tut’s Tomb Reveal New Evidence of Hidden Rooms. Disponível em < http://news.nationalgeographic.com/2016/03/160317-king-tut-tomb-hidden-chambers-radar-egypt-archaeology/ >. Acesso em 17 de março de 2016.

(Vídeo) #TutEOValeDosReis: Quem apagou o nome de Tutankhamon das Listas Reais?

Por Márcia Jamille | Instagram | @MJamille

A intenção deste vídeo não é realizar um inventário de todas as Listas Reais de Faraós, mas explicar quem, de acordo com alguns profissionais da Arqueologia, seria o responsável por excluir o nome de Tutankhamon da história no Período Faraônico.

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