Espaço vazio dentro da Grande Pirâmide do Egito: Entenda!

Por Márcia Jamille | Instagram @MJamille

Em novembro, a revista científica Nature publicou uma notícia anunciando a descoberta de “espaços vazios” dentro da pirâmide do faraó Khufu (Quéops), a maior do Platô de Gizé.

Aqui no Arqueologia Egípcia possuímos um dossiê sobre o assunto, mas você pode encontrar comentários em vídeo também no nosso canal. Nele falo um pouco sobre esta pesquisa e a controvérsia em que ela está envolvida:

E caso tenha curiosidade de conhecer um pouco mais sobre a arquitetura egípcia acesse o nosso vídeo sobre o assunto: Arquitetura egípcia | Pirâmides, moradias e o Vale dos Reis.

Tenha em casa: A Edições Del Prado, uma editora especializada em vendas de fascículos com imagens colecionáveis, possui uma coleção intitulada “Cenas do Egito Antigo”. Uma delas é a construção das pirâmides.

Clique aqui para conferir a peça ou aqui para ver as demais cenas.

A controvérsia diante do anúncio da descoberta de “espaços vazios” na Grande Pirâmide

Por Márcia Jamille | Instagram @MJamille

No último dia 02/11 a Nature publicou uma matéria anunciando que físicos descobriram um espaço vazio dentro da Grande Pirâmide de Gizé, a última das 7 Maravilhas do Mundo Antigo de pé. De acordo com a matéria, esse espaço foi encontrado através da detecção de múons (MARCHANT, 2017).

Imagem 01: Pirâmide de Khufu. Foto: Nina Aldin Thune via Wikimedia Commons.

A Grande Pirâmide foi o túmulo do faraó Khufu (Queóps), que reinou durante a IV Dinastia (há cerca de 4500 anos) e foi feita com pedra calcária e granito. Em seu interior foram encontradas câmaras, que foram descobertas, na contemporaneidade, no século 19. Elas compreendem a “Câmara da Rainha” e a “Câmara do Rei” que fica abaixo de uma série de saletas chamadas de “câmaras de descarga” ou “câmaras de alívio”, feitas justamente para aliviar o peso da construção (Imagem 02).

Imagem 02: Planta lateral da Grande Pirâmide (Khufu). Foto: DODSON, Aidan. As Pirâmides do Antigo Império (Tradução de Francisco Manhães, Maria Julia Braga, Carlos Nougué). Barcelona: Folio, 2007. pág. 78.

Não se sabe exatamente como esta estrutura de 138 ou 139 metros foi construída, mas indícios arqueológicos, inclusive um papiro encontrado em 2013 e exposto no Museu Egípcio do Cairo, dão algumas dicas.

— Saiba mais: Foi descoberta documentação que comenta construção da Grande Pirâmide

A pesquisa que encontrou esse espaço vazio foi realizada pelo Scan Pyramids Mission, um grupo de cooperação Internacional que entrou em ação no Egito no final de 2015.

— Saiba mais: Conheça a “Scan Pyramids Mission”

Em outra ocasião foi comentada aqui no AE que anomalias já tinham sido identificadas na Grande Pirâmide. Mas, que talvez não fosse uma nova câmara, como muitos gostariam, podendo ser uma rampa ou uma grande rachadura, na pior das hipóteses [1]. Por esse motivo o Ministério das Antiguidades do Egito deu a permissão para continuidade dos estudos:

A primeira fase do projeto já passou, onde os pesquisadores fizeram a calibragem dos equipamentos e identificaram algumas anomalias térmicas. Porém, não é possível interpretar corretamente o que são tais anomalias que tanto podem se tratar de uma possível câmara, talvez uma rachadura e ou até mesmo nada. É exatamente por este motivo que a equipe está empregando a união de diferentes ferramentas, pois, uma poderá complementar o “defeito” da outra, ou seja, unidas poderão disponibilizar dados mais consistentes (e consequentemente mais fáceis de interpretar) do que se fosse utilizado somente um equipamento.

Lembrando que já são conhecidas câmaras nas pirâmides, mas a ideia deste projeto é conhecer detalhes estruturais do edifício e se existem salas isoladas.

Conheça a “Scan Pyramids Mission”

 

No caso desse “grande vazio” identificado ser mesmo uma câmara dificilmente ela estaria abarrotada de artefatos arqueológicos. Entretanto, essa talvez seja uma oportunidade de saber mais sobre a construção das pirâmides do Platô de Gizé.

 

Como esta pesquisa foi realizada

Múons são partículas subatômicas semelhantes ao elétron, porém com uma massa maior. A identificação deles no ambiente que envolve uma estrutura arqueológica permite localizar espaços vazios. Isto porque as partículas de múons são parcialmente absorvidas pelas pedras, ou seja, seriam identificadas uma grande concentração de múons em um espaço como o de uma rachadura ou uma sala escondida desconhecida.

E foi esse tipo de concentração notada sobre o “Grande Corredor” (Também chamada de “Grande Galeria”), próximo a um condutor de ar (Imagem 03). A sugestão dada no artigo da Nature é que este espaço possui cerca de 30 metros de comprimento e que teria sido identificado por três análises diferentes.

Imagem 03: “Scan Pyramids Mission”

Controvérsia nos meios de comunicação

Após o artigo da Nature a mídia, em vários países, veiculou erroneamente que este achado se trata de uma “câmara oculta”. Entretanto, o Ministério das Antiguidades demostrou seu descontentamento com o artigo através de um comunicado de imprensa. A queixa é que os pesquisadores tinham dado o anúncio precipitadamente sem consultar o comitê científico do órgão: a preocupação tem relação com a forma desleixada do anuncio ser dado, já que espaços ocos na Grande Pirâmide há anos não é uma novidade (FORSSMANN, 2017).

De acordo com o arqueólogo Zahi Hawass, por exemplo, a Grande Pirâmide por si só é cheia de vazios. E a arqueóloga Kate Spencer, da Universidade de Cambridge, salientou que esse vazio identificado pela a equipe do Scan Pyramids Mission poderia ser uma rampa interna para mover os blocos na época da construção. Essas rampas já são conhecidas na Grande Pirâmide e elas tanto poderiam ser vazias ou ligeiramente preenchidas (FORSSMANN, 2017). Por isso, é precipitado lançar um anúncio sobre o que certamente já existiria como se fosse uma grande novidade e pior ainda já pressupor que são câmaras.

A pesquisa é real, os dados são reais, mas a mídia está criando uma situação desnecessária desenvolvendo a ilusão de que esta é a descoberta do século, única e revolucionária. Na mesma medida a pseudociência tem encarado isso como uma prova de que “câmaras ocultas” juntamente com “mistérios místicos” serão reveladas (KILLGROVE, 2017). Contudo, é uma ideia que sugere a existência de um “mistério” onde provavelmente não existe.

Em uma época de pós-verdade, em que cada usuário da internet cria suas próprias teorias sem se preocupar com as pesquisas feitas durante anos, muitos são os egiptólogos que salientaram sobre a existência de espaços vazios na Grande Pirâmide. Porém, escrever “espaços vazios” é menos instigante para o público do que “câmaras ocultas”.

Desta forma, o grande mérito dessa pesquisa não é a descoberta em si, mas o avanço das ferramentas que proporcionam estudos mais avançados em sítios arqueológicos (KILLGROVE, 2017).

Tenha em casa: A Edições Del Prado, uma editora especializada em vendas de fascículos com imagens colecionáveis, possui uma coleção intitulada “Cenas do Egito Antigo”. Uma delas é a construção das pirâmides.

Clique aqui para conferir a peça ou aqui para ver as demais cenas.

Fontes:

MARCHANT, Jo. Cosmic-ray particles reveal secret chamber in Egypt’s Great Pyramid. In: Nature. Disponível em < https://www.nature.com/news/cosmic-ray-particles-reveal-secret-chamber-in-egypt-s-great-pyramid-1.22939#/graphic >. Publicado em: 02 de Novembro de 2017. Acesso em 2 de novembro de 2017.

FORSSMANN, Alec. Controversia ante el hallazgo de “un gran vacío” en la Gran Pirámide de Gizeh. In: National Geographic España. Disponível em < http://www.nationalgeographic.com.es/historia/actualidad/controversia-ante-hallazgo-un-gran-vacio-gran-piramide-gizeh_12060 >. Publicado em: 03 de Novembro de 2017. Acesso em 3 de novembro de 2017.

KILLGROVE, Kristina. What Archaeologists Want You To Know About The Great Pyramid Void. In: Forbes. Disponível em < https://www.forbes.com/sites/kristinakillgrove/2017/11/04/what-archaeologists-want-you-to-know-about-the-great-pyramid-void/#3bc1e68baf9e >. Publicado em: 04 de Novembro de 2017. Acesso em 5 de novembro de 2017.


[1] Possibilidade não muito provável, dado ao tamanho, mas não impossível.

Resultados do escaneamento da Pirâmide Romboidal

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Ontem, 26 de abril de 2016, a equipe do Scan Pyramids Mission (Missão para Escanear as Pirâmides) apresentou ao atual Ministro das Antiguidades Dr. Khaled El-Enany e ao ex-Ministro das Antiguidades Dr. Mamdouh Eldamaty os resultados do escaneamento da pirâmide Romboidal (localizada em Dashur) através da detecção de múons.

A Pirâmide Romboidal de Senefru. Imagem disponível em < http://richard-seaman.com/Wallpaper/Travel/Egypt/index.html#BentPyramidFromTheWest >. Acesso em 26 de junho de 2013.

— Leia mais: Conheça a “Scan Pyramids Mission”

Em 2015 os pesquisadores responsáveis pelo projeto depositaram na primeira câmara da pirâmide placas capazes de realizar esta detecção. Elas foram retiradas do local agora em 2016 após 40 dias, tempo suficiente para se adaptar as condições do edifício e recolher dados mais precisos.

O número “1” aponta a câmara onde foram postas as placas. Fonte: Scan Pyramids Mission.

Ilustração 3D demonstrando onde as placas foram depositadas. Fonte: Scan Pyramids Mission.

Placas já posicionadas dentro da pirâmide. Fonte: Scan Pyramids Mission.

Análise dos dados em laboratório. Fonte: Scan Pyramids Mission.

Apesar de em seu comunicado oficial o ministério sugerir que o resultado é “espetacular”, as estatísticas disponibilizadas por essas placas não foram suficientes para mostrar alguns espaços já conhecidos da pirâmide. Contudo, várias simulações foram feitas para tentar detectar novas câmaras e a conclusão é a de que não existem novas seções no entorno.

Ainda neste comunicado não foram relatadas informações sobre as condições estruturais do edifício. Provavelmente essa informação e outras mais especificas e técnicas serão publicadas em um artigo acadêmico futuro (ao menos espero). No vídeo a seguir a equipe aponta os passos da pesquisa:

A Pirâmide Romboidal, também conhecida como “Pirâmide Curva”, foi a primeira construída pelo faraó Senefru, que viveu durante o Antigo Reino. É um exemplo de “tentativa e erro” da antiguidade, uma vez que não contente com o resultado da Romboidal, esse governante ainda mandou que fossem edificadas mais duas pirâmides. Todas são antecessoras das pirâmides do platô de Gizê.

Dicas de links:

As mudanças no formato das pirâmides egípcias ao longo do antigo império. Disponível em < http://www.marciajamille.com.br/2014/10/as-mudancas-no-formato-das-piramides.html >. Acesso em 27 de abril de 2016.

Scan Pyramids Mission. Disponível em < http://www.scanpyramids.org/ >. Acesso em 27 de abril de 2016.

Conheça a “Scan Pyramids Mission”

Por Márcia Jamille | Instagram | @MJamille

Endossados pelo Egyptian Ministry of Antiquities (Ministério das Antiguidades do Egito) e sob a coordenação da Faculty of Engineering of Cairo (Faculdade de Engenharia do Cairo) e o instituto Heritage Innovation Preservation (Inovação na Preservação do Patrimônio), um grupo de pesquisadores egípcios, canadenses, franceses e japoneses anunciaram em outubro de 2015 uma iniciativa para investigar as pirâmides de Khafre e Khufu, do platô de Gizé, e a Vermelha e a Romboidal em Dashur.

Pirâmide de Khufu. Foto: Nina Aldin Thune via Wikimedia Commons.

O projeto chama-se Scan Pyramids Mission (Missão para Escanear as Pirâmides) e como o nome indica a proposta é usar drones com scanners de tecnologia 3D, termografia infravermelha, termografia modulada, fotogrametria e laser e uma ferramenta que torna possível a detecção de múons. Esta última é capaz de modelar áreas internas e inclusive já foi utilizada para observar o interior de vulcões e edifícios contemporâneos (a exemplo da usina de Fukushima, no Japão).

Estas técnicas não são invasivas, ou seja, não será necessário realizar perfurações nas pirâmides, o que não compromete a integridade dos edifícios analisados.

A detecção de múons já foi empregada no Egito em outra ocasião, na década de 1960, pelo pesquisador Luis Walter Alvarez (1911 – 1988), que a aplicou na pirâmide de Khufu. Ele foi capaz de identificar alguns espaços vazios, mas não pôde ter uma noção abrangente do que se tratava, deixando a questão em aberto para as gerações seguintes. Por isso, graças as inovações tecnológicas poderemos ter mais respostas do que o pioneiro Alvarez.

A primeira fase do projeto já passou, onde os pesquisadores fizeram a calibragem dos equipamentos e identificaram algumas anomalias térmicas. Porém, não é possível interpretar corretamente o que são tais anomalias que tanto podem se tratar de uma possível câmara, talvez uma rachadura e ou até mesmo nada. É exatamente por este motivo que a equipe está empregando a união de diferentes ferramentas, pois, uma poderá complementar o “defeito” da outra, ou seja, unidas poderão disponibilizar dados mais consistentes (e consequentemente mais fáceis de interpretar) do que se fosse utilizado somente um equipamento.

Lembrando que já são conhecidas câmaras nas pirâmides, mas a ideia deste projeto é conhecer detalhes estruturais do edifício e se existem salas isoladas.

Planta lateral da Grande Pirâmide (Khufu). Foto: DODSON, Aidan. As Pirâmides do Antigo Império (Tradução de Francisco Manhães, Maria Julia Braga, Carlos Nougué). Barcelona: Folio, 2007. pág. 78.

Os primeiros resultados provavelmente sairão nas primeiras semanas de 2016 e futuramente o projeto será estendido para a tumba de Tutankhamon.

Fonte:

A New High-Tech Project Aims to Unearth the Secrets of the Pyramids. Disponível em < http://magazine.good.is/articles/cosmic-ray-muons-pyramids >. Acesso em 27 de dezembro de 2015.

Scan Pyramids Mission. Disponível em < http://www.scanpyramids.org/ >. Acesso em 27 de dezembro de 2015.