A análise da múmia de Seqenenre-Tao II: os aterrorizantes minutos finais de um faraó

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Essa foi uma notícia quente nas minhas redes sociais e a qual só estou trazendo agora para vocês aqui no Arqueologia Egípcia. Essa pesquisa foi iniciada em 2019, mas concluída agora no início de 2021. A questão é que finalmente saiu o resultado da tomografia da múmia do faraó Seqenenre-Tao II (tanto faz você escrever “Tao” ou “Taa”). E ela confirma o que já sabíamos, que ele teve uma morte muito violenta. Contudo, existe um adendo nessa história: ele foi executado enquanto indefeso!

Vamos por partes!

Seqenenre-Tao II foi esposo da rainha Ahhotep I e ambos governaram o sul do Egito, a partir de Tebas, durante o Segundo Período Intermediário, na 17ª Dinastia. O Segundo Período Intermediário é uma época histórica conhecida por dinastias que reinaram concomitantes. No caso da época de Seqenenre-Tao II, o qual pertencia a uma dinastia tebana, ele reinou ao mesmo tempo que uma dinastia de estrangeiros conhecidos como “heqau-khasut”.

“Heqau-khasut’ é um termo do egípcio antigo que significa “governantes das terras estrangeiras”. Essa palavra, séculos mais tarde, foi transformada pelos gregos em “hicso”. Os hicsos eram povos asiáticos, possivelmente pastores, que ocuparam o norte do Egito, especificamente Avaris, assumindo-a como capital do seu reino.

— Vocês podem conhecer um pouco sobre os Períodos Intermediários através desse vídeo:


Devido a força militar de seus oponentes, os governantes de origem egípcia deveriam pagar tributos aos hicsos. E sabemos, graças a um papiro chamado “The Sallier I; Papyrus I”, que existiam grandes hostilidades entre o rei hicso Apófis e o Seqenenre-Tao II. De acordo com o texto, o Apófis enviou uma mensagem agressiva para Seqenenre-Tao II insinuando que os hipopótamos da piscina de Tebas eram muito barulhentos e perturbavam seu sono em Aváris (a 644 km de distância). Na mensagem ele também exigia que a piscina fosse destruída.

Não sabemos como texto acaba (a parte final nunca foi encontrada), mas sabemos que Seqenenre-Tao II reuniu seu conselho e juntos decidiram que declarariam guerra aos hicsos.

Temos pouco, mais bons registros arqueológicos da época que relatam os passos dados pelos egípcios, pelos dos hicsos e até pelos núbios, que também se envolveram na guerra.

Entretanto, os textos históricos não nos dão uma luz acerca do que ocorreu exatamente com o Seqenenre-Tao II. Ele simplesmente some dos dados históricos, o que geralmente significa morte. E isso fica comprovado pelo fato de que o seu filho mais velho, Kamose, assume o trono, mas ele também não vive por muito tempo. Foi então que um outro filho de Seqenenre-Tao II, Ahhmose, subiu ao o trono, mas, devido a sua idade, é a rainha Ahhotep I quem assumiu o governo como regente e expulsa por fim os hicsos do Egito, abrindo assim o Novo Império.

O destino de Seqenenre-Tao II foi um completo mistério até 1881, quando o governo egípcio, após uma longa investigação acerca de uma família de saqueadores de tumbas, chega ao esconderijo de Deir el-Bahari, em Tebas, onde mais de 40 múmias foram encontradas, dentre elas, essa aqui:

Essa múmia foi desembrulhada anos mais tarde, em 9 de julho de 1886 por um arqueólogo chamado Gaston Maspero, que na época era diretor do Serviço de Antiguidades. Na ocasião ele estava acompanhado por um médico cirurgião chamado Daniel Fouquet.

Foi durante esse desenfaixamento que Maspero descobriu que essa múmia era ninguém mais, ninguém menos que Seqenenre-Tao II, porque o seu nome estava escrito entre as bandagens, as quais ainda eram as originais. E um detalhe importante foi relatado pelos dois: tanto Maspero como Fouquet relataram um odor de decomposição saindo da múmia, assim como lesões graves na cabeça.

— Sobre a descoberta das múmias no esconderijo de Deir el-Bahari:

Em 1906 a múmia foi analisada mais uma vez, porém agora por Grafton Elliot Smith, um professor de anatomia. Ele também pontuou a presença das terríveis feridas na cabeça, mais, complementou as informações alertando para a ausência de ferimentos nos braços e no resto do corpo.

Damos então um salto na história para a década de 1960, quando a múmia passou por um exame de raio-x, que confirmou cinco ferimentos graves na cabeça.

Olhando somente para essas informações, estava claro que algo terrível tinha ocorrido com ele, mas, o estado de suas mãos sempre foi uma incógnita.

Então, em 2019, o arqueólogo egípcio Zahi Hawass anunciou que estava trabalhando em uma análise da múmia, que passaria por uma tomografia computadorizada. Essa tomografia, esperava-se, daria uma visão mais ampla do estado da múmia, além das circunstâncias que circundam sua morte.

Atualmente a múmia está no Museu do Cairo e em breve será transferida para o Museu Nacional da Civilização Egípcia de Fustat. Um detalhe que pouca gente sabe é que por baixo do tecido que a cobre, a múmia está totalmente desarticulada. Ela foi destruída provavelmente na época de Maspero.

Ela passou pelo tomógrafo no dia 4 de maio de 2019, tomógrafo esse que estava em um caminhão estacionado no jardim do Museu Egípcio. Paralelamente, como já existia a desconfiança de que o rei tinha falecido em um contexto de batalha, por conta da aparência da sua múmia e o histórico da sua época, a equipe separou algumas armas que foram encontradas em um sítio arqueológico hicso no Egito e cuja a datação é de justamente da época de Seqenenre-Tao II.

Essas armas, que foram descobertas por uma equipe de arqueologia austríaca, e que hoje estão no Museu Egípcio do Cairo, são provenientes de Tell el Dabaa. Elas foram medidas e seus formatos foram analisados. O intuito era fazer um comparativo com as feridas do rei. Foram três punhais, um machado de batalha e uma ponta de lança. Vamos aos pontos principais descobertos pela pesquisa:

  • A tomografia aponta que ele tinha cerca de 40 anos quando morreu;
  • Alguns ferimentos do crânio já eram conhecidos, mas, com as imagens obtidas através da tomografia foram identificados outros ferimentos. Eles estavam ocultos por camadas de material de mumificação, os quais foram aplicados pelos embalsamadores para esconder as feridas;
  • A análise da posição e ângulo dos ferimentos possibilitou identificar que mais de uma pessoa atacou o rei e que em um dado momento ele estava sentado ou ajoelhado;
  • Os pesquisadores não conseguiram definir exatamente todas as armas usadas durante o ataque. Mas, ao menos a ferida da bochecha esquerda e a que está acima da sobrancelha direita, foram provocadas por um machado de batalha hicso; O ferimento da testa teria sido causado por uma arma com uma lâmina bem larga. Mas, essa não seria uma arma hicsa, mas, egípcia; O trauma no nariz do rei teria sido causado por uma vara grossa; Já a lesão no processo mastoide esquerdo e na base do crânio poderia ter sido causada por uma lança;
  • Embora tenha sido mais de um agressor, Seqenenre-Tao II não se defendeu dos ataques;
  • As mãos deformadas não seria nenhum problema congênito: a sua aparência seria um indicativo de que ele foi preso com elas atadas as suas costas e na hora da morte sofreu um “espasmo cadavérico”;
  • Alguns veículos de imprensa sugeriam que tratou-se de uma “execução cerimonial”, o que não é sugerido em momento algum no artigo original da pesquisa. A hipótese de “execução cerimonial” provavelmente surgiu por conta do contexto histórico: ela era amplamente propagada pela história do Egito (inclusive é representada na Paleta de Narmer) e tinha o intuito de demonstrar poder. Porém, reitero que em nenhum momento o artigo sugere isso;
  • Os embalsamadores só evisceraram o corpo, não removeram o cérebro;
  • Isso ocorreu porque o corpo, quando recuperado, já estava em meio ao processo de decomposição. O cérebro, por exemplo, estava desidratado e deslocado para o lado esquerdo: isso é um indício de que o corpo ficou deitado sobre o lado esquerdo por muito tempo, antes de recuperado pelos egípcios;
  • A sugestão é de que o rei morreu longe de casa, possivelmente em campo de batalha, por isso da demora para ser recuperado;
  • Porém, apesar de um cenário caótico de um campo de batalha, o rei não foi mal mumificado, pelo contrário, os indícios apontam que a mumificação foi realizada em uma oficina de mumificação da realeza.

Fonte:

Computed Tomography Study of the Mummy of King Seqenenre Taa II: New Insights Into His Violent Death. https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fmed.2021.637527/full?utm_source=fweb&utm_medium=nblog&utm_campaign=ba-sci-fmed-pharaoh-seqenenre-taa-CT-scan-cause-of-death

RICE, Michael. Who’s Who in Ancient Egypt. Londres: Routledg. 1999.

Templo funerário de rainha egípcia foi descoberto em Saqqara; na região também estavam sarcófagos lacrados e Livro dos Mortos

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Nos últimos meses os sítios arqueológicos de Saqqara (Egito) têm ganhado a mídia internacional. O motivo? A descoberta de uma centena de sarcófagos lacrados encontrados na região. Para variar ainda rolou a estreia do documentário da Netflix, os “Segredos de Saqqara” (2020).

Máscaras de cartonagem descobertas por Hawass. Foto: Ministério de Turismo e Antiguidades.

Não bastasse tudo isso, no final de 2020 foi anunciada que mais uma “grande descoberta” foi feita na região, dessa vez durante os trabalhos de escavações coordenados pelo famoso arqueólogo Zahi Hawass. Também foi dito que o comunicado oficial da descoberta seria feito agora no início de 2021.

Antes do anúncio oficial, o que se sabia é que a equipe liderada por Hawass estava trabalhando ao lado da pirâmide do rei Teti, que reinou durante a 6ª Dinastia (Antigo Reino). E que eles encontraram poços funerários contendo ataúdes (sarcófagos) ainda com suas respectivas múmias. Ataúdes esses que são datados do Novo Império.

Teti foi o sucessor de Unas e reinou por, pelo menos, doze anos. Pouco sabemos sobre o reinado dele: possivelmente comandou uma expedição para a terra de Punt (a qual a arqueologia ainda não descobriu sua real localização) e de acordo com um biógrafo da antiguidade, Manetho, ele foi assassinado; afirmativa essa nunca confirmada (RICE, 1999).

A descoberta de Hawass:

Com a chegada da manhã do dia 16 de janeiro (2021) o Ministério de Turismo e Antiguidades anunciou para a imprensa local e internacional que a missão de Hawass não só tinha encontrado poços funerários, mas também os restos faltantes do templo funerário da rainha Nearit, esposa do Rei Teti. Esse templo já tinha sido identificado em anos anteriores à missão do Hawass, entretanto, a equipe encontrou mais fundações do antigo edifício, o que está permitindo ter uma ideia de como era o traçado do local.

A missão também encontrou três depósitos de tijolos de barro anexados ao templo no lado sudeste — esses depósitos foram construídos para armazenar provisões do templo, ofertas para a rainha e ferramentas que chegaram a ser usadas na construção do túmulo da rainha.

Foto: Ministério de Turismo e Antiguidades.

E os poços funerários o qual recebemos a notícia de antemão? Em um comunicado de imprensa o Ministério de Turismo e Antiguidades falou deles também: ao todo foram encontrados 52 poços, com profundidade de 10 a 12 metros, dentro dos quais estavam mais de 50 caixões de madeira da época do Novo Império. Entendam que Teti e Nearit viveram durante o Antigo Reino, séculos antes do Novo Império (vejam quadro cronológico). Sobre esse assunto, voltarei mais tarde.

Esses ataúdes têm uma forma humana (por isso o chamamos de “antropóides”) e são representados em sua superfície muitas cenas de deuses que eram adorados durante este período.

Foto: Ministério de Turismo e Antiguidades.

Dentro desses poços a equipe também encontrou um grande número de estátuas em forma de divindades tais como Osíris, Ptah-Sokar-Osiris e Anúbis, o antigo guardião das necrópoles. Também foram encontrados muitos jogos para entreter os falecidos no mundo dos mortos, um deles foi o Senet.

Tabuleiro senet. Foto: Ministério de Turismo e Antiguidades.

Igualmente foi encontrado um “Livro dos Mortos”, uma coletânea de textos sagrados divididos em capítulos que tinham como finalidade ajudar os falecidos em sua jornada para o além. O detalhe principal é que ele ainda possui o nome do seu dono: tratava-se de um homem chamado Pw-Kha-Ef.

Os “Livros dos Mortos” não são livros de fato, mas um rolo de papiro que pode ter alguns metros de comprimento. No caso desse achado, ele possui 4 metros de comprimento e 1 metro de largura. O seu conteúdo? O 17º capítulo do Livro dos Mortos.

Livro dos Mortos de Pw-Kha-Ef. Foto: Ministério de Turismo e Antiguidades.

O nome de Pw-Kha-Ef chegou a ser encontrado também em quatro estátuas shabti e em um ataúde. 

Também foi explicado que a missão descobriu um santuário subterrâneo de tijolos de barro com um poço profundo. Essa estrutura remonta ao Novo Império. Outro detalhe é que o piso da cabana era pavimentado com blocos de calcário bem polido e a sua parte superior era coberta com pedras. O trabalho ainda está em andamento no poço, mas Hawass acredita que ele não sofreu nas mãos de ladrões. Até o momento o poço possui cerca de 24 metros de profundidade. E escrevo “até o momento” porque a equipe de escavação ainda não chegou ao seu fim. Espera-se que em seu fundo esteja uma câmara mortuária.

Foto: Ministério de Turismo e Antiguidades.

E exames já estão sendo realizados nas múmias para se descobrir detalhes da vida no passado da região. Algo notável que já foi identificado foi a descoberta de uma múmia de uma mulher que sofria de uma doença crônica conhecida como “febre do Mediterrâneo” ou “peste suína”, doença que surge do contato direto com animais e leva a um abcesso no fígado.

Mas, por que esses sarcófagos estavam lá? A resposta é simples: o rei Teti, mesmo sendo um governante da 6ª Dinastia, chegou a ser adorado durante a 18ª e 19ª Dinastias.

Ataúdes (sarcófagos) amontoados. Foto: Ministério de Turismo e Antiguidades.

Outro detalhe importante sobre essa descoberta são os grandes indícios da existência de várias oficinas que produziam sarcófagos na região, assim como oficinas de mumificação. O que explica a existência de tantos sepultamentos na área.

Também foram encontradas muitas cerâmicas que denotam as relações comerciais entre o Egito, Creta, Síria e Palestina.

Esse trabalho é fruto do Centro Zahi Hawass de Egiptologia em cooperação com o Ministério de Turismo e Antiguidades e a Biblioteca Alexandrina.

Dicas de leitura:

☥ Tesouros do Egito: Do museu egípcio do Cairo
☥ História do Egito Antigo
☥ Egito Antigo (Encyclopaedia)
☥ Uma Viagem pelo Nilo
☥ How the Great Pyramid Was Built (English Edition)

Fontes:

الكشف عن المعبد الجنائزي الخاص بالملكة نعرت زوجة الملك تتي. Disponível em < http://www.antiquities.gov.eg/DefaultAr/pages/NewsDetails.aspx?newsid=2420 >. Acesso em 16 de janeiro de 2021.

Hawass Announces New Archaeological Discovery in Saqarra. Disponível em < https://see.news/hawass-announces-new-archaeological-discovery-in-saqarra/ >. Acesso em 16 de janeiro de 2021.

Funerary temple of Queen Nearit, wife of Pharaoh Teti, discovered. Disponível em < https://dailynewsegypt.com/2021/01/16/funerary-temple-of-queen-nearit-wife-of-pharaoh-teti-discovered/ >. Acesso em 16 de janeiro de 2021.

3000-year-old National Treasure discovered by Egypt’s most famous archaeologist. Disponível em < https://www.facebook.com/luxortimesmagazine/posts/1550805468439292 >. Acesso em 16 de janeiro de 2021.

DODSON, Aidan. As Pirâmides do Antigo Império (Tradução de Francisco Manhães, Maria Julia Braga, Carlos Nougué). Barcelona: Folio, 2007.

RICE, Michael. Who’s Who in Ancient Egypt. Londres: Routledg. 1999.

Nova descoberta arqueológica em Saqqara será anunciada no início de 2021

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

No momento em que escrevo esse post, o Ministério de Turismo e Antiguidades do Egito está se preparando para anunciar mais uma descoberta arqueológica. Ela está sendo definida como uma das mais “importantes” já realizadas.

De acordo com o que já foi liberado, ela foi feita na região de Saqqara, durante escavações de uma missão de arqueologia chefiada pelo arqueólogo Zahi Hawass. Os trabalhos estão sendo realizados ao lado da pirâmide do rei Teti I, que reinou durante a 6ª Dinastia (Antigo Reino).

Pirâmide de Teti I

Por hora, o que sabemos é que trata-se da descoberta de poços funerários contendo ataúdes (o que chamamos no Brasil de sarcófagos) ainda com suas respectivas múmias e que são datados do Novo Império.

Cerâmicas e restos esqueletizados também foram encontrados.

De acordo com a equipe, esse achado ajudará a lançar luz sobre uma parte da história de Saqqara, especialmente a ver com os cemitérios datados da 18ª e 19ª Dinastias.

Veja também:

Fonte:
New archaeological discovery in Saqqara to be announced early 2021. Disponível em < https://www.egypttoday.com/Article/4/95802/New-archaeological-discovery-in-Saqqara-to-be-announced-early-2021 >, Acesso em 10 de janeiro de 2021.

A múmia de Akhenaton foi encontrada?

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Akhenaton foi um faraó que reinou durante o Novo Império, na 18ª Dinastia, inaugurando o Período Amarniano. Ele foi casado com a rainha Nefertiti e com ela teve seis filhas. Ambos reinaram juntos em uma cidade chamada Aketaton, na atual Amarna, onde está localizada a tumba dele. Mas na época em que o sepulcro foi descoberto ele estava vazio. O seu corpo não foi encontrado lá.

Akhenaton

Nefertiti e Akhenaton

Em verdade não tínhamos corpos comprovados de pessoas advindas desta época, exceto Tutankhamon e suas filhas. Contudo, existia certa desconfiança em relação a um esqueleto encontrado em uma sepultura localizada em 1912, a KV-55. Dentro dela foram encontrados vários artefatos remanescentes do Período Amarniano, dentre eles um sarcófago sem identificação, mas que continha um esqueleto em seu interior. Para variar todas as áreas do caixão onde ficaria o nome do falecido estão destruídas, aparentemente propositalmente.

Ataúde encontrado na KV-55

Esta parte danificada era onde deveria estar o nome do falecido.

Durante as últimas décadas pesquisadores divergiram sobre quem poderia ser este indivíduo. Alguns sugeriram que poderia ser uma mulher idosa, outros que seriam uma mulher jovem e hoje existe um consenso de que é um homem, até porque estes ossos passaram por um exame de DNA coordenado pelo arqueólogo Zahi Hawas entre 2007 e 2009.

Zahi Hawass e o esqueleto da KV-55

Durante o exame estes ossos tiveram seu material genético comparados com outros dez corpos, dentre eles a múmia de Tutankhamon. São eles:

☥ Os dois bebês encontrados na tumba de Tutankhamon;

☥ Os avôs de Akhenaton: Yuya e Tuya;

☥ Duas múmias de identidades desconhecidas encontradas em uma tumba chamada KV-21;

☥ E três corpos encontrados em um esconderijo da KV-35.

O resumo é que a equipe identificou os ossos da KV-55 e uma das múmias da KV-21 como sendo os pais de Tutankhamon. Mas, como escrevi anteriormente, não sabemos a identidade de quem foi sepultado na KV-55, já que os nomes no caixão foram arrancados.

Então, de onde o Zahi Hawass tirou que ali trata-se de Akhenaton? Ele e sua equipe apontam que estes ossos só poderiam ser de Akhenaton por conta de uma inscrição encontrada em um pedaço de relevo na atual em El Ashmunein, antiga área de Hermópolis.

A inscrição fala de Tutankhamon, que é apontado como “o filho do corpo do rei”, relacionando-o, obviamente, a algum faraó, no entanto, não temos a parte do nome do rei. Porém, temos o resto da inscrição, só que desta vez está falando da esposa do Tutankhamon, Ankhesenamon, e é dito “a filha do rei, do seu corpo, seu grande desejo do rei das Duas Terras”. Desta forma, devido a ambos terem a paternidade mencionada no mesmo parágrafo, foi sugerido que fossem filhos do mesmo pai.

Tutankhamon e Ankhesenamon

No entanto, alguns pesquisadores defendem que a análise osteológica — o estudo dos ossos — do corpo encontrado na KV-55 aponta que esta pessoa teria falecido ainda quando era jovem.  Este poderia ser um indicativo de que os ossos da KV-55 não era Akhenaton, mas um outro rei que governou antes de Tutankhamon: Smenkhará.

Ou seja: para alguns a dúvida ainda paira no ar.

Tumba da rainha Nefertiti poderá ser descoberta em breve: é o que afirma arqueólogo

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Este é um tema bastante recorrente nas últimas décadas, ao menos na história da arqueologia egípcia: onde está o sepulcro da rainha Nefertiti?

Muitos arqueólogos sonham encontrar o local do último descanso de uma das rainhas mais famosas do Egito — e a qual alguns acreditam que também foi faraó —. Se você é um ávido leitor deste site já se debateu com uma série de hipóteses sobre este assunto… Inclusive a mais afamada! Que era a sugestão de que ela estaria sepultada dentro de uma câmara oculta na tumba do seu possível enteado — mas certamente genro — Tutankhamon. Sugestão esta que se provou infundada.

Nefertiti

Um dos que mantêm a esperança de encontrar a sepultura da governante é o arqueólogo egípcio Zahi Hawass que, no auge dos seus 72 anos, acumula em seu caminho centenas de descobertas arqueológicas. E é encontrar a sepultura dela um dos objetivos de suas escavações no Vale dos Macacos, uma das áreas mais periféricas do Vale dos Reis. Ao menos foi isso o que ele me disse durante a entrevista que fiz com ele em setembro deste ano (2019). Quando perguntei o que poderíamos esperar em relação a estas escavações ele respondeu que está procurando pelos túmulos da rainha Nefertiti e de sua filha, Ankhesenamon.

Nefertiti e Ankhesenamon

Nefertiti governou ao lado do seu esposo, o faraó Akhenaton, durante o Antigo Império, mais especificamente no Período Amarniano, 18ª Dinastia. Com ele teve seis filhas, a qual a terceira, Ankhesenamon, casou-se com Tutankhamon.

A sugestão de que o último descanso destas duas rainhas pode está neste local faz todo sentido, afinal, como ele bem me disse, o Vale das Rainhas só teve início na 19ª Dinastia. Ele, inclusive, fez uma ressalva em relação a todas as rainhas da 18ª Dinastia que ainda não foram encontradas, afirmando que “agora penso o tempo todo onde estas rainhas podem estar sepultadas”.

Escavação no Vale dos Macacos. Foto: Discovery Channel

A arqueologia egípcia tem vários mistérios, este é um deles. De fato, não temos nem sombra da localização da maioria das tumbas das esposas dos faraós desta época e muito menos dos seus filhos.

Porém, Nefertiti ou sua filha podem ser uma fagulha de esperança, “esta é a maior escavação no Vale dos Reis desde Howard Carter”, ele comenta. Carter foi o responsável pela descoberta do sepulcro praticamente intacto de Tutankhamon em 1922.

Howard Carter e auxiliar de campo investigando sarcófago de Tutankhamon.

Nefertiti é enigmática em todos os sentidos porque não sabemos exatamente a sua origem. Quem foram seus pais afinal? Alguns afirmam que poderia ser um vizir chamado Ay com sua esposa Ty; Nefertiti, que significa “A Bela Chegou”, foi desde sempre seu nome? Ela tornou-se, ou não, faraó? Quando foi que faleceu? Como faleceu? São várias questões em relação a uma única personagem histórica, questões estas as quais algumas poderão ser respondidas se seu túmulo for um dia descoberto.

Perguntas que não querem calar!

Estas são algumas das dúvidas mais comuns enviadas para mim por nossos seguidores:

☥ É certeza que o local em que Hawass está escavando é a tumba de Nefertiti?

Não! Embora ele esteja encontrando vários artefatos arqueológicos no local, ele e ninguém tem 100% de certeza do que será encontrado. Na verdade, nem se sabe se ele encontrará alguma sepultura mesmo.

☥ Se a tumba dela estiver mesmo no Vale dos Macacos, ela estará intacta?

É outra questão cuja resposta não sabemos. A grande possibilidade é de que não, já que os túmulos dos faraós Amenhotep III e Ay, que estão localizadas no mesmo lugar, foram saqueadas na antiguidade.

☥ Quanto tempo mais esta pesquisa durará?

O tempo que for necessário ou enquanto existir patrocínio.

☥ Quem está pagando por esta pesquisa?

A Discovery Channel. Então, aguardem um documentário!

Algumas curiosidades sobre o arqueólogo Zahi Hawass

Márcia Jamille

Em alguns dias o renomado arqueólogo e egiptólogo Zahi Hawass estará em terras brasileiras para dar uma palestra sobre o faraó Tutankhamon e para a inauguração do museu “Rei Menino de Ouro: Tutankhamon”. Mas, que tal saber um pouco mais sobre este pesquisador?

Zahi Hawass. Retirado de: Jean-Claude Aunos Photographe. Disponível em < http://www.jca-photo.com/portraits.html> Acesso em 12 de Fevereiro de 2011.

Hawass é um arqueólogo egípcio que já foi diretor do Supremo Conselho de Antiguidades e Ministro das Antiguidades do Egito. Antes disso ele se graduou em Arqueologia no seu próprio país e quando alcançou 33 anos ganhou uma bolsa para estudar na Universidade da Pensilvânia.

Ele começou a chamar atenção da imprensa quando passou a fazer campanha pelo repatriamento de artefatos arqueológicos que foram roubados do Egito ou saíram do país de forma duvidosa. Além daqueles que possuem algum significado especial para a história da Arqueologia Egípcia.

Hieroglyphic script on Rosetta Stone

Um exemplo é a Pedra de Roseta (foto anterior), que foi retirada do país no século XIX, mas que foi a “chave” para a tradução dos hieróglifos egípcios. Outro é o busto de Nefertiti, que foi retirado de forma sorrateira do Egito em 1912.

O Zahi Hawass também publicou dezenas de livros de egiptologia, alguns com fotografias lindas! Ele também foi host em vários documentários de canais como National Geographic e Discovery Channel. Inclusive teve o seu próprio reality show. Quantos arqueólogos já tiveram um reality? Pois é!

Atualmente ele está escavando no Vale dos Macacos em um trabalho que está sendo acompanhado pela Discovery Channel (ou seja: lá vem documentário!). Estou real ansiosa em saber os resultados desta pesquisa.

Bom, ele já se meteu em várias polêmicas também. Uma foi o já citado reality que foi amplamente criticado tanto por arqueólogos, como pelo público. Outra foi sua linha de roupas, cujas fotografias foram tiradas ao lado de artefatos egípcios, embora seja algo bem burocrático.

Zahi Hawass Collection

Lembro que na época alguns egiptólogos ficaram indignados explicando que eles passavam dias e mais dias esperando que a confirmação de seus pedidos para fotografar saíssem. Porém, de acordo com as acusações, Hawass se utilizava de sua posição para “furar a fila” e fotografar os artefatos para fins comerciais e não acadêmicos.

Então é quando chegamos ao famoso 25 de Janeiro da Primavera Árabe, quando Hawass foi exonerado de seu cargo e agora viaja pelo mundo dando palestras e lançando livros. Além de, claro, realizar escavações arqueológicas.

– A revolta virou contra Hawass

Zahi Hawass

Bom, é este homem o qual irei encontrar em uma coletiva de imprensa em alguns dias!

Obrigada aos que apoiaram, querem apoiar ou que ajudaram a divulgar a nossa vaquinha para que eu possa ir. Como falei em um outro momento o Arqueologia Egípcia não tinha dinheiro em caixa, mas agora a viagem será possível!

Este é o vídeo que gravei anunciando a vinda dele:

Zahi Hawass e Tutankhamon estarão no Brasil

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

O famoso arqueólogo e egiptólogo, o Zahi Hawass, está vindo para o Brasil dar a palestra “O Rei Menino de Ouro: Tutankhamon” que ocorrerá no dia 06 de setembro no Auditório H. Spencer Lewis, em Curitiba. Ele também participará da abertura oficial do museu “O Rei Menino de Ouro: Tutankhamon”, que será no dia 07 de setembro. Este museu não contará com obras originais, serão réplicas construídas pela empresa italiana “Laboratorio Rosso” e faz parte de uma parceria com Hawass. 

Veja o vídeo abaixo para saber mais detalhes e conhecer minhas opiniões sobre quais os assuntos que Hawass abordará em sua palestra.

E o Arqueologia Egípcia foi convidado a participar da coletiva de imprensa que ocorrerá antes da inauguração oficial. Entretanto, o nosso portal infelizmente não tem dinheiro para tal. Como esta é uma grande oportunidade de trazer um conteúdo exclusivo para vocês, resolvemos pedir sua ajuda através de uma vaquinha online. Acesse este link para saber mais: https://www.catarse.me/ae_hawass . Até o momento que redijo este texto, nossa campanha já conseguiu alcançar 19% da meta!


Palestra: O Rei Menino de Ouro: Tutankhamon

Local: Auditório H. Spencer Lewis – Ordem Rosacruz, AMORC – Rua Nicarágua, 2620 – Bacacheri – 82515-260 – Curitiba, Paraná.

Investimento:

Segundo Lote – Julho: R$ 170,00; Meia R$ 85,00

Terceiro Lote – Agosto: R$ 200,00; Meia R$ 100,00

Transmissão On-line: R$ 50,00

Ingressos pelo site: https://www.eventbrite.com.br/e/palestra-zahi-hawass-tickets-63069021140?fbclid=IwAR19PgctzcuhI1Z5On4cZv8_e4hsoMM2zUzVgKU9WThQdV-kj3H5F4Z0TRI

Zahi Hawass: “Espero encontrar em breve o túmulo de Antônio e Cleópatra”

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

O arqueólogo Zahi Hawass falou este mês, durante uma conferência na Universidade de Palermo (Sicília), que ele está próximo de encontrar a tumba da rainha Cleópatra VII e seu companheiro, Marco Antônio, que viveram durante o Período Ptolomaico. “Espero encontrar em breve o túmulo de Antônio e Cleópatra. Eu acredito que eles estão enterrados no mesmo túmulo”, disse em relação a trabalhos de escavações que está realizando em Taposiris Magna, quase 30 quilômetros de Alexandria [1]. Contudo, até o mês passado (dezembro de 2018), Hawass apontava estar responsável somente por duas escavações no Vale dos Reis[2]. Nesta missão arqueológica domínico-egípcia, de acordo com a National Geographic, ele seria um supervisor [3].

Zahi Hawass

De acordo com o mito, Cleópatra VII, a emblemática última rainha do Egito, teria se suicidado com a picada de uma cobra venenosa, após a sua derrota contra o Império Romano. O suicídio seria sua saída para evitar que fosse humilhada delas ruas de Roma.

Cleópatra VII. Museu de Berlim.

Em suas declarações Hawass não dá muitos detalhes sobre como tem tanta certeza de onde está a tumba, mas esclarece que o nome de Cleópatra foi encontrado diversas vezes. “Eu acho que encontrei. Estou no caminho certo. Tenho grandes esperanças de encontrá-la em breve. O lugar preciso, nos deu no decorrer das investigações muitos elementos que indubitavelmente nos levam ao túmulo da figura histórica de Cleópatra. Por causa disso, agora sabemos exatamente onde devemos cavar”[4].

Zahi Hawass no centro. Foto: Kathleen Martinez (Twitter).

Porém, existe uma complicação: os hipogeus (tumbas subterrâneas) utilizados durante o Período Ptolomaico estão atualmente preenchidos pela água de um lago próximo. “Tudo está submerso, uma condição que não nos permite escavar bem. Portanto, a primeira coisa que temos que fazer é liberar a área da água, um trabalho que estamos organizando. Esta é a fase mais complexa. Mas o objetivo é confrontá-lo em breve para continuar depois com a investigação e as escavações”[4]. Apesar do Hawass sugerir esvaziar o sítio, se ele utilizasse métodos da Arqueologia Subaquática seria possível sim realizar escavações sem precisar bombear a área. Isso até ajudaria na preservação da integridade de seja lá o que existe no interior desses hipogeus.

A teoria de que a tumba desta rainha egípcia estaria em Taposiris Magna foi sugerida há alguns anos pela arqueóloga dominicana Kathleen Martinez. Por 12 anos ela é a diretora dessa missão arqueológica domínico-egípcia. Por sua dedicação ganhou em dezembro de 2018 do governo de seu país uma placa de reconhecimento “por suas grandes contribuições para cultura universal e por ter colocado a República Dominicana no mapa mundial da comunidade intelectual”[5].

Kathleen Martinez

Suas pesquisas levaram a descoberta de mais de 800 peças arqueológicas que foram exibidas pela National Geographic nos mais importantes museus pelo mundo.

Corpo de estátua que se acredita ser do rei Ptolomeu IV, parente de Cleópatra VII. Foto: Crédito na imagem.

Fontes:

[1] Tomb of Antony and Cleopatra to be uncovered soon. Disponível em < http://www.egypttoday.com/Article/4/63389/Tomb-of-Antony-and-Cleopatra-to-be-uncovered-soon >. Acesso em 14 de janeiro de 2019.

[2] ‘Não sabemos o que foi perdido no Museu Nacional’, diz arqueólogo mais importante do Egito. Disponível em < https://oglobo.globo.com/sociedade/historia/nao-sabemos-que-foi-perdido-no-museu-nacional-diz-arqueologo-mais-importante-do-egito-23329918 >. Acesso em 16 de janeiro de 2019.

[3] Headless Egypt King Statue Found; Link to Cleopatra’s Tomb?. Disponível em < https://news.nationalgeographic.com/news/2010/05/100519-science-ancient-egypt-cleopatra-tomb-marc-antony/ >. Acesso em 16 de janeiro de 2019.

[4] Zahi Hawass: “He encontrado la tumba de Cleopatra”. Disponível em < https://www.abc.es/cultura/abci-zahi-hawass-encontrado-tumba-cleopatra-201901150154_noticia.html >. Acesso em 16 de janeiro de 2019.

[5] Miguel Vargas reconoce a arqueóloga dominicana Kathleen Martínez. Disponível em < https://www.elcaribe.com.do/2018/12/20/panorama/pais/miguel-vargas-reconoce-a-arqueologa-dominicana-kathleen-martinez/ >. Acesso em 16 de janeiro de 2019.

Aliens construíram as pirâmides!

Esta é a minha tradução do texto Aliens built the pyramids!” (Aliens construíram as pirâmides!) escrito pelo arqueólogo egípcio Zahi Hawass para o site Egypt Independent. Aqui o Hawass discute sobre o fascínio de algumas pessoas em relação às pirâmides egípcias e sobre a descoberta dos Papiros Wadi al-Jarf, que falam sobre a construção da Grande Pirâmide.

Aliens construíram as pirâmides!

Por Zahi Hawass

Pirâmides do Paltô de Gizé. Foto: Ricardo Liberato.

As pirâmides ainda estimulam a imaginação das pessoas de todo o mundo e geram fãs que ficam obcecados com elas dia após dia!

Muitos, especialmente nos EUA, acreditam que existem criaturas espaciais que vieram de Marte e construíram as pirâmides. Isso não é científico de forma alguma. As teorias ainda aparecem em um show transmitido e produzido pelo canal norte americano History[1], intitulado “Ancient Aliens”[2].

Muitos cidadãos dos EUA e de outros países me enviam e-mails (como qualquer pessoa pode fazer através do meu site). Acusam-me de mascarar todos os fatos que descubro e que, no seu ponto de vista, mostram que os egípcios não são os construtores das pirâmides! Eles erroneamente acreditam que sob a Esfinge estão evidências de Atlântida! Todas essas mentiras levantam a muitas ideias falsas sobre as pirâmides e os fatos reais e contos associados.

E eu escavo embaixo da Esfinge não apenas para saber o nível das águas subterrâneas, mas para provar a ausência de qualquer evidência para essa bobagem.

Infelizmente, alguns egípcios também pregam temas infundados como a “mentira da segunda Esfinge” e outras mentiras que distorcem a grande civilização egípcia antiga, nas mãos de alguns de seus filhos que anseiam por uma fama que não é baseada em trabalho duro, ciência e diligência. Deus salve o Egito e seus grandes monumentos dessas pessoas imprudentes!

Há uma semana, fiz uma ligação para um canal estrangeiro. Expliquei que, infelizmente, o público em toda parte não sabe nada sobre a maior descoberta arqueológica do século 21, que é a descoberta dos papiros “Wadi al-Jarf” perto de Suez.

É o maior e mais antigo papiro em todo o mundo, que remonta ao reinado do rei Khufu, e a primeira descrição conhecida de como a pirâmide de Khufu foi construída. Este papiro foi escrito tanto em linguagem hieroglífica como hierática, e publicado com tradução. Atualmente está no Museu Egípcio em Tahrir.

Nela, o inspetor Merer transcreve o diário de seu trabalho na construção da Grande Pirâmide. Merer era o chefe de 40 trabalhadores, que ele levou para as pedreiras de Tora.

Por sua descrição, Merer preparou um grande barco para transportar as pedras pelo Nilo. Ele descreve o método de transporte até as pedras atingirem a área de construção em Gizé. Ele indica que o peso da pedra chega a 2,5 toneladas cada, e registra que essas pedras, que foram cortadas, foram arrastadas para os barcos.

Então ele nos conta sobre o rei Khufu, e que ele estava morando em seu palácio em Gizé – em vez de viver em Memphis, como alguns livros de história afirmam. Merer aponta que ele tinha um chefe chamado Dede e que o principal responsável pela entrada das pedras e itens alimentares era Ankh-Haf.

A área ao redor da pirâmide foi denominada “Ankh – Khufu”, que significa “a vida do rei Khufu”, enquanto as áreas de sepultamento foram denominadas “Akht Khufu”, que significa “horizonte de Khufu”.

O trabalho foi registrado durante o vigésimo sétimo ano do governo do rei Khufu, o que pode indicar que Khufu governou por cerca de 32 anos.

Isso é o que a ciência nos diz sobre o maior edifício do Egito faraônico, a Grande Pirâmide.

Por outro lado, infelizmente, alguns falam palavras estranhas sem nenhuma evidência científica, como a de que a pirâmide foi usada para gerar eletricidade! Existe quem diga que o rei estava armazenando trigo dentro da pirâmide para uso em tempos de fome! Essas alegações são inválidas, porque há evidências escritas indicando que a pirâmide foi feita especificamente para enterrar o rei e transformá-lo em um deus na vida após a morte.

Eu diria também que a pirâmide foi o projeto nacional do Egito, e que as pirâmides construíram o Egito.

Alguém pode dizer então que existem aliens espaciais que construíram as pirâmides?

Eu digo a todos aqueles que estão obcecados com as pirâmides do Egito: você tem o direito de se surpreender e até mesmo se impressionar com as nossas pirâmides atemporais, mas não vamos permitir que você distorça nossos monumentos, que é a nossa mais querida posse. Pare com esse absurdo. Deus te abençoe!


[1] Provavelmente ele está falando do canal History Channel.

[2] “Alienígenas do Passado”, aqui no Brasil.

Texto original: 

Aliens built the pyramids! Disponível em < https://www.egyptindependent.com/aliens-built-the-pyramids/ >. Acesso em 11 de novembro de 18.