Cabeça de estátua do faraó Akhenaton é encontrada em Minya

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Ontem (30 de setembro de 2017) foi anunciada a descoberta de uma cabeça de uma estátua do faraó Akhenaton, que reinou durante o Novo Império, 18ª Dinastia. O achado foi feito por uma missão egípcia-britânica que encontrou o artefato na cidade de Minya, mais especificamente em Amarna, onde o rei governou o Egito em sua recém-criada capital, Aketaton.[1][2]

Através de um comunicado de imprensa o arqueólogo britânico Barry Kemp, professor de Egiptologia na Universidade de Cambridge e diretor da missão, explicou que a cabeça foi encontrada durante as escavações arqueológicas no Grande Templo de Aton. O artefato é feito de gesso e possui 9 centímetros de altura, 13,5 de largura e 8 centímetros de comprimento.[1][2]

Foto: MSA (Divulgação)

Akhenaton é famoso por ter elevado o deus solar Aton a divindade principal e ter mudado a capital do país de Tebas para Aketaton. Por este motivo o secretário geral do Supremo Conselho de Antiguidades, Mustafa Waziri, classificou esta descoberta como “importante”: “não só porque pertence a um dos reis mais importantes do antigo Egito, mas também porque abre a cortina dos segredos da antiga cidade de Tel Amarna, que é única em sua arte e religião.”[1]

 

Fonte:

Hallan la cabeza de una estatua del faraón Akenatón al sur de EI Cairo. Disponível em < http://www.lavanguardia.com/vida/20170930/431675005774/hallan-la-cabeza-de-una-estatua-del-faraon-akenaton-al-sur-de-ei-cairo.html >. Acesso em 30 de setembro de 2017.

Gypsum head of King Akhenaten statue unearthed in Egypt’s Minya. Disponível em < http://english.ahram.org.eg/NewsContent/9/40/278025/Heritage/Ancient-Egypt/Gypsum-head-of-King-Akhenaten-statue-unearthed-in-.aspx >. Acesso em 30 de setembro de 2017.

Máscara funerária do faraó Tutankhamon: um artefato único

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

A máscara de Tutankhamon é um dos artefatos arqueológicos mais surpreendentes advindos da Antiguidade. Feita em ouro e pedras semi e preciosas, ela tinha como objetivo tanto retratar o rei, como passar uma mensagem divina, afinal, de acordo com a crença egípcia antiga, a pele dos deuses era feita de ouro e os seus cabelos de lápis-lazúli.

Imagem frontal da máscara mortuária de Tutankhamon. Imagem disponível em MULLER, Hans Wolfgang; THIEM, Esberhard. O ouro dos faraós. (Tradução de Carlos Nougué, Francisco Manhães, Maria Julia Braga, Angela Zarate). 1ªEdição. Barcelona: Editora Folio, 2006. pág. 175.

Existem algumas controvérsias que envolvem este artefato, um delas é se de fato ele retrata o jovem rei. Esta questão, assim como outras informações adicionais tais como os matérias que a compõe, significados das inscrições que estão em suas costas, seu peso e tamanho são comentados no vídeo abaixo:

Caso ainda não seja inscrito no canal do Arqueologia Egípcia inscreva-se clicando aqui e ative o sino para receber novidades sobre os estudos do Egito Antigo.

(TCC) Entre a egiptomania e a egiptologia: Um estudo das representações do Faraó Akhenaton no Brasil. 

Entre a egiptomania e a egiptologia: um estudo das representações do Faraó Akhenaton no Brasil – Raisa Barbosa Wentelemm Sagredo | Português |

Esta pesquisa se propõem a identificar e analisar algumas  representações do faraó Amenothep IV, mais conhecido na História como Akhenaton, mostrando como é possível encontrar o mesmo homem cuja trajetória é rodeada de mistérios e polêmica, servindo a diferentes discursos. Tendo em vista que o material acerca das representações de Akhenaton é muito abundante e diversificado, optou-se por um recorte que abrangesse um tempo atual, cujos discursos das fontes fossem de naturezas distintas, pelo menos em teoria. Partindo do conceito de Egiptomania proposto pela egiptóloga brasileira Margaret Bakos, como re-interpretação e re-uso de aspectos da cultura do antigo Egito, dialogando com o conceito de Egiptologia, a ciência encarregada de estudar o Egito dos faraós. Logo, busca-se nas representações de Akhenaton, entender como se constrói essa relação, respondendo à questão: estariam distantes, na prática, os discursos da egiptomania e da egiptologia?

Obtenha o TCC Entre a egiptomania e a egiptologia: um estudo das representações do Faraó Akhenaton no Brasil.

(Palestra online) Conhecendo o Período Amarniano

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Finalmente um velho desejo meu será realizado! O Arqueologia Egípcia passará a veicular palestras em um ambiente cibernético fechado. Isso é uma coisa que eu queria realizar faz muitos anos, que é criar um ambiente mais intimista voltado para a discussão de temas específicos. Então, é com muita felicidade que anuncio que no dia 29/08/2015 liberarei aqui mesmo no Arqueologia egípcia uma palestra online denominada Conhecendo o Período Amarniano, onde abordarei os aspectos gerais desta época e algumas das últimas descobertas arqueológicas relacionadas com a família real amarniana.

Estela amarniana. Foto: Kenneth Garrett. Abril de 2001.

O tema foi escolhido de propósito; adoro o Período Amarniano e embora eu o tenha deixado de lado durante a maior parte do meu tempo na Universidade é um assunto que espero me dedicar mais, inclusive neste momento estou escrevendo um artigo acerca para submeter para alguma revista científica.

Para quem ainda não conhece esse intervalo temporal na história do Egito antigo ele é icônico por conta da experimentação religiosa do faraó Akhenaton, que tentou estabelecer o culto ao deus solar Aton e colocar de lado os demais deuses. Também temos a sua arte única e de traços poderosos que possui um misto de realismo e excentricidade. Ambos estes aspectos naturalmente abordarei na palestra.

O link para o acesso será anexado neste post (e enviado via-e-mail para os participantes unido com a senha) no dia 28/08 e ficará disponível somente do dia 29 de agosto até o dia 05 de setembro.

Conhecimento anterior de Arqueologia não é necessário.

Abaixo mais detalhes:

Valor: R$ 24,00
Inscrições*: Serão feitas exclusivamente pela internet, através de cartão de crédito** ou depósito bancário (solicitar o dados por e-mail: sitearqueologiaegipcia@gmail.com) até o dia 27/08. Caso queira realizar sua inscrição agora é só usar o botão abaixo:




ATENÇÃO: Aquele que requerer cancelamento da inscrição antes ou no dia em que será veiculada a palestra receberá a devolução de 50% do valor pago. Aos pagantes com cartão de crédito passarão pelas regras do PayPal.

 


Informações importantes: 

* As inscrições levam de um a dois dias úteis para serem confirmadas;

** As inscrições feitas em cartão de crédito que não identificarem seu endereço de e-mail devem entrar em contato conosco através do sitearqueologiaegipcia@gmail.com para que possa receber sua senha no dia 28/08.

A palestra não será ao vivo. Esta decisão foi tomada para que todos possam ter uma ótima experiência visual e para evitar imprevistos de última hora.

Não emitirei certificado, mas darei uma declaração de participação para os ouvintes que no intervalo do dia 29 de agosto até o dia 05 de setembro enviarem para mim um resumo escrito de no mínimo uma lauda do que viram na palestra.

“Morte no Nilo”, National Geographic

Por Márcia Jamille | Instagram | @MJamille

 

Este texto da National Geographic foi publicado aqui no Brasil em 2011, mas ainda não perdeu o seu vigor. Trata-se da apresentação de algumas tramas palacianas menos conhecidas, ocorridas centenas de anos antes da “Conspiração do Harém”, intriga que mataria Ramsés III, faraó da 19ª Dinastia. Na reportagem o que vemos é um plano de fundo do governo do rei Teti, Antigo Império, e a usurpação de túmulos por parte do rei como punição, dentre outras manipulações palacianas nos reinados seguintes, a exemplo do Período Amarniano.

Infelizmente ele está cheio de discursos sexistias — “rainhas ardilosas”, “uma espécie de Cleópatra — sedutora, esperta, implacável” —, mas ignorando isso é um ótimo artigo e que apresenta bem como o panorama politico egípcio poderia ser extremamente injusto, seguindo o que era conveniente para quem estava no poder.

 

Morte no Nilo (Edição 30/Outubro de 2002)

Um cemitério real revela novas pistas de assassinatos, vinganças e intrigas no Antigo Egito

Por A. R. Williams

Fonte: National Geographic Brasil

Imortalizado em pedra, um funcionário vigia sua capela funerária no cemitério hoje conhecido como Saqqara, onde túmulos, inscrições e oferendas continuam a esclarecer o passado distante

A princesa Idut não viveu até a idade adulta. Nos relevos de calcário que recobrem sua capela mortuária, ela é mostrada apenas como criança. E, em torno dela, há refinadas cenas entalhadas celebrando a abundância do vale do rio Nilo – peixes e aves aquáticas, um crocodilo mordendo um hipopótamo recém-nascido, vacas com bezerros, todos elementos decorativos comuns em sepulturas da realeza egípcia. Mas há algo que não se encaixa.

“Idut foi substituída por outra pessoa”, comenta o professor de egiptologia Naguib Kanawati. “Veja isto”, prossegue ele, apontando para uma área áspera na altura do joelho de Idut em uma cena com barcos. “Um pé foi totalmente eliminado, apagado a golpes de formão e raspado. E também o saiote de um homem.” Com dificuldade, consigo distinguir o perfil de um indivíduo robusto e alto, erguendo-se bem acima da recatada menina.

A princesa Idut morreu por volta de 2330 a.C. e foi enterrada sob a sua capela mortuária ao lado dos túmulos piramidais de seu avô, o faraó Unas, e de seu pai, o faraó Teti, no lugar hoje conhecido como Saqqara. Local onde foram encontrados os primeiros túmulos monumentais de pedra daquele país, Saqqara foi um dos mais venerados cemitérios reais do antigo Egito.

Quando a sepultura de Idut foi achada, em meados da década de 20, ninguém deu importância aos relevos alterados. Recentemente, porém, Kanawati examinou o assunto com mais atenção e descobriu indícios de uma surpreendente intriga. “Reli os hieróglifos e identifiquei o dono original do túmulo”, conta ele. “Era Ihy, o vizir, ou primeiro-ministro, do faraó Unas.” Tal como a maioria dos egípcios abastados e importantes da época, Ihy passara anos preparando o local onde descansaria por toda a eternidade. Portanto, como foi que a princesa Idut foi parar ali?

A resposta de Kanawati baseia-se em uma instigante e nova teoria sobre um golpe palaciano e as circunstâncias obscuras da ascensão ao trono do faraó Teti. “Não temos ainda a menor idéia de onde veio Teti. Tudo o que sabemos é que ele se casou com uma das filhas de Unas e tornou-se faraó após a morte do sogro. Desconfio que subiu ao trono pela força e que Ihy, o vizir, tentou em vão se opor a isso.” Como eterna punição, o novo faraó destinou seu túmulo a uma de suas princesas.

Essa sucessão dinástica que antes parecia tão simples é um dos vários episódios que estão se revelando bem mais complexos em Saqqara, onde foram realizados sepultamentos ao longo de um período de 3 mil anos, abrangendo 31 dinastias da antiga civilização do Egito. Os arqueólogos estão reunindo indícios daqueles dramas do tipo capa-e-espada, marcados por conspirações, assassinatos, vinganças, rainhas ardilosas, políticos ambiciosos e fanatismo religioso.

A oeste dos campos de alfafa e dos empoeirados palmeirais que flanqueiam o rio Nilo, Saqqara fica no topo de uma escarpa rochosa. A margem ocidental do Nilo, acreditavam os antigos egípcios, era o local em que os restos mortais estavam mais próximos do grande Além. Segundo a concepção que tinham do mundo, quando se ocultava atrás do horizonte do deserto ao fim de cada dia, o Sol prosseguia em sua viagem até o mundo subterrâneo governado por Osíris, o deus da vida eterna, até que, no dia seguinte, voltava a nascer na margem oposta do grande rio.

Saqqara fazia parte de um imenso complexo funerário que se estendia por 70 quilômetros ao longo do Nilo. Essa área logo ao sul do delta do Nilo possui enorme valor estratégico, pois há ali um estreitamento do rio, formando uma espécie de entrada natural.

A fim de controlar o tráfego fluvial, e por meio dele o resto do país, os faraós das primeiras dinastias ergueram fortalezas nas duas margens do Nilo. Logo construíram palácios acima da fértil planície de inundação – assim teve início Mênfis, a primeira capital do Egito – e puseram seus túmulos no deserto vizinho.

Os primeiros túmulos eram escavados na rocha e arrematados com uma edificação baixa de adobe conhecida como mastaba. Algumas sobrevivem quase à sombra do túmulo de 4630 anos de idade que, ao ampliar a altura da mastaba, modificou a forma dos sepultamentos faraônicos: a Pirâmide em Degraus.

Erguido pelo faraó Djoser, esse túmulo é a grande atração de Saqqara. “Essa foi a primeira pirâmide construída no mundo”, diz Zahi Hawass, explorador da National Geographic Society. “Seu arquiteto, Imhotep, inspirou-se no protótipo de adobe, mas empilhou as mastabas. E usou pedra na construção.” Esse experimento monumental estimulou a construção de uma centena de sepulturas reais com o formato de pirâmide ao longo do Nilo, das quais quase duas dúzias foram achadas em Saqqara.

Duas rainhas enterradas em Saqqara atraíram recentemente a atenção de Hawass. Ambas foram casadas com o faraó Teti, e não há dúvida que se viam e agiam como rivais. Seus nomes eram Iput e Khuit. As escavações de Hawass na área em torno de suas sepulturas revelaram pistas de que o reinado de Teti muito provavelmente chegou ao fim tal como começou – em convulsão.

Hawass me conduz por uma encosta de cascalho até o local de uma escavação a nordeste da pirâmide de Teti. Caminhando com agilidade por pátios de pedra e corredores de complexos funerários erguidos lado a lado, paramos entre dois montes irregulares de blocos cor de ferrugem e entulho. Despojadas de seu revestimento de calcário branco por trabalhadores que ergueram pirâmides posteriores, essas permaneceram esquecidas sob mais de 6 metros de areia.

“A pirâmide de Iput foi descoberta na década de 1890”, conta ele, indicando o monte à nossa direita. “Todos supunham que ela era a esposa principal de Teti, pois o filho dela, Pepi, herdou o trono. Mas veja o que encontrei sob um grande monte de areia – a pirâmide de Khuit!” Segui o seu olhar para o monte à nossa direita. “Como a pirâmide de Khuit é mais antiga, ela deve ter sido rainha antes de Iput.”

Hawass atravessa uma plataforma estreita entre um muro e o poço de um túmulo cujo fundo se perde na escuridão. Sigo rapidamente atrás dele sem olhar para o abismo e, depois de uma curva fechada, chegamos às ruínas de uma capela mortuária. Nas paredes os relevos mostram fileiras de servos oferecendo ao proprietário do túmulo cestos de alimentos, jarros de cerveja, lombos de boi, fôrmas de pão. Alguns desses relevos ainda trazem resquícios de pintura.

“Também encontrei este complexo funerário, que pertence a Tetiankh-Kem, o Negro Tetiankh”, diz Hawass, diante de uma porta entalhada cujos hieróglifos lê com facilidade. “Ele era filho de Khuit e o herdeiro do faraó Teti. Fizemos um raio X de sua múmia e descobrimos que morreu com cerca de 25 anos de idade.”

Com isso, fiquei confuso: o filho mais velho de Teti morreu jovem. E, no lugar dele, foi Pepi, o filho da segunda esposa, que herdou o trono. Certo? Talvez.

Ou talvez não. É aqui que a história começa a ficar sinistra.

As listas dos faraós mais antigos não são conclusivas. Algumas pulam direto de Teti para Pepi I. Duas delas, porém, incluem um governante – o misterioso Userkare – entre o pai e o filho.

Baseado em suas recentes descobertas e nos fragmentos de indícios escritos, Hawass monta uma seqüência plausível de acontecimentos. “Creio que o filho de Khuit, Tetiankh-Kem, foi morto juntamente com seu pai, o faraó Teti. Talvez Userkare estivesse envolvido na conspiração, mas ele governou apenas até o momento em que a rainha Iput conseguiu pôr seu filho Pepi no trono”, analisa ele.

Outros indícios de uma conspiração para a derrubada de Teti foram encontrados nos túmulos de seus altos funcionários.

Enquanto o vento varre o deserto certa manhã, Naguib Kanawati e eu buscamos abrigo em outra capela mortuária construída por uma pessoa e, depois, ocupada por outra. “Uma vez raspado com formão o nome original, outro foi entalhado no lugar: o de Seshemnefer”, diz Kanawati, apontando uma linha de hieróglifos na depressão causada pela raspagem. “Ele não passava de um funcionário menor e diz que o túmulo lhe fora concedido pelo faraó.”

“Agora dê uma olhada em cima do vão da porta.” Subitamente, os hieróglifos saltam da superfície da pedra. “Este é o nome do proprietário original do túmulo – Hezi, o vizir do rei Teti. Quem quer que estivesse encarregado de alterar os nomes provavelmente deixou este passar”. Tal como eu havia feito. Senti como se estivesse visitando a cena de um crime acompanhada de um mestre detetive.

Na parte de fora havia outras pistas. Uma série de estrias desfigura os dois pilares de um pórtico e as cenas com barcos em ambos os lados da porta.

“Hezi fora retratado nestes trechos, mas acabou sendo raspado de maneira muito meticulosa”, diz Kanawati. “As figuras nestes túmulos não são apenas arte. Elas têm uma função. O morto vivia por intermédio delas. Por isso, para punir alguém na vida eterna, era preciso mutilar todas as figuras.”

Hezi sabia que seu ka – sua força vital – podia retornar a este mundo por meio das figuras em seu túmulo. Ele esperava que parentes e sacerdotes fizessem oferendas constantes para sustentar seu ka, mas, caso eles relaxassem ou se esquecessem, ele mandara entalhar na sepultura cenas que poderiam ser úteis à sua força vital. Garantido pelas fórmulas mágicas entalhadas na pedra – alimentos e bebidas, o apoio de servos, a companhia de cantores e dançarinas e oportunidades para pescar e caçar –, o ka continuaria a desfrutar de todos os prazeres do aqui e agora. Ao destruir as figuras na sepultura de Hezi, alguém bloqueou para sempre seu acesso ao mundo dos vivos. O que o vizir havia feito para ser punido de forma tão violenta?

Ele havia conspirado contra o faraó Teti, arrisca Kanawati. O herdeiro que sobreviveu, Pepi I, teria então promovido essa vingança eterna, alterando as inscrições no túmulo de Hezi e concedendo-o a outra pessoa. “Não dá para dizer com certeza que Teti foi assassinado, mas ocorreu algo catastrófico”, diz o professor. “Quanto mais procuramos, mais indícios encontramos de que houve uma enorme conspiração. Muita gente foi punida.”

Provavelmente Hezi era um dos líderes dos conspiradores. Assim como o médico-chefe de Teti e o supervisor do arsenal, os quais receberam a mesma punição. O encarregado da guarda palaciana parece ter desempenhado um papel menor. Somente seu nariz e seus pés foram raspados dos relevos em sua capela mortuária.

As escavações nas proximidades da pirâmide de Pepi I proporcionam intrigas su- ficientes para no mínimo outro capítulo na saga de sua família – e novos personagens. Audran Labrousse, diretor da Missão Arqueológica Francesa, escavou sete novas pirâmides nessa área. Três delas pertencem às esposas de Pepi I, entre as quais Ankhesenpepi II, a mulher mais importante de sua época.

“Ela era uma das duas irmãs originárias de Abydos que se casaram com Pepi I”, diz Labrousse, diante de um café forte na sede da escavação francesa. “O nome dela significa ‘ela vive para Pepi’. O filho de sua irmã, Merenre, tornou-se rei após a morte de Pepi I, mas só governou por alguns anos. Em seguida, o próprio filho de Ankhesenpepi, Pepi II, subiu ao trono. Como se acredita que devia ter apenas 6 anos, sua mãe tornou-se regente. Ela exerceu de fato o poder e isso é visível em seu túmulo.”

Para chegarmos até a pirâmide de Ankhesenpepi, sacolejamos pelo deserto em uma perua até um ponto entre as pirâmides de Pepi I e de Merenre, ambas hoje nada mais que montes de pedras reviradas. Seguimos por uma trilha até o fundo da escavação e nos aproximamos de um muro irregular de pedra que sustenta um monte de rocha e areia. “Isto era uma pirâmide”, diz Labrousse. “Você vai ter de aceitar a minha palavra.”

Desviando-nos de lajes de granito vermelho que antes faziam parte de uma ponte levadiça, subimos por uma escada e engatinhamos por um longo túnel inclinado. “Ela não era um faraó, mas chegou bem perto disso”, comenta Labrousse ao entrarmos na câmara mortuária de Ankhesenpepi. Com uma lanterna, iluminou os hieróglifos que cobrem as paredes de pedra, coluna após coluna entalhada e pintada de verde, a cor do renascimento.

“Esta rainha foi a primeira mulher a ser enterrada com um texto deste tipo”, explica ele, sua voz traindo certo assombro. “Antes dela, as fórmulas sagrados conhecidas como Textos da Pirâmide foram achadas apenas nas tumbas dos faraós. O governante falecido tinha de passar pela morte antes de aceder à vida eterna e, para isso, precisava da ajuda destes textos. Ao pronunciar estas palavras, fazia com que seu corpo revivesse na vida futura.” Neste caso as palavras foram pronunciadas por uma mulher.

Ankhesenpepi deve ter sido uma mulher extraordinária. Antes dela, as esposas dos faraós sempre haviam ficado em segundo plano. Subitamente, ela deu um passo adiante e reivindicou para si a mais poderosa das fórmulas mágicas dos faraós. E isso não foi tudo.

Ao sairmos da pirâmide, Labrousse me leva através das ruínas até um bloco de calcário branco com inscrições. “Antes se pensava que Merenre fosse meio-irmão de Pepi II, mas essa hipótese teve de ser abandonada quando achamos esta inscrição”, diz ele. “Aí está dito claramente que Ankhesenpepi foi esposa de Pepi I, esposa de Merenre e também mãe de Pepi II.”

A genealogia é complicada demais. Balanço a cabeça, incapaz de entender. Labrousse tenta de novo. “A viúva de um faraó não era ninguém. Com a morte de Pepi I, Ankhesenpepi teria voltado ao harém, mas achamos que ela conseguiu seduzir seu sobrinho, Merenre. E felizmente para ela teve um filho, Pepi II.”

Essa mulher era uma espécie de Cleópatra – sedutora, esperta, implacável.

Labrousse está tentando reconstruir a planta-baixa de seu templo mortuário. Por enquanto, tudo de que dispõe é um lintel de granito pesando 15 toneladas, parte de um obelisco de calcário e blocos soltos das paredes. “Ela está enterrada perto de Pepi I, e seu túmulo está posicionado em direção ao de Merenre. Mas onde está a entrada?”, pergunta. “A situação da rainha já é bastante confusa para nós. Imagine como deve ter sido complicado para ela.”

Incluindo a regência de sua mãe, é provável que Pepi II tenha reinado por mais de 90 anos – um período maior que o de qualquer outro faraó egípcio. Na época em que morreu, por volta de 2175 a.C., o governo central estava prestes a entrar em colapso e, nas duas décadas seguintes, os governadores assumiram o controle de suas províncias. Uma prolongada seca provavelmente agravou o tumulto político. Sem chuva não havia água para irrigação, as colheitas foram insuficientes e a fome assolou a população. Com isso a era hoje conhecida como o Antigo Império chegou ao fim.

Os faraós seguintes reunificaram o país e transferiram a capital inúmeras vezes, mas Mênfis continuou sendo um importante centro urbano e religioso. “Era uma espécie de Nova York, uma cidade que já foi capital dos Estados Unidos”, diz David Silverman, professor de egiptologia na Universidade da Pensilvânia, onde o encontrei no intervalo de suas aulas. “A capital foi mudada, mas de algum modo Nova York preservou sua importância.”

Vinculadas à cidade, as atividades em Saqqara passaram a oscilar em função da política. Os novos faraós passaram a ser enterrados em outros locais, mas as antigas tumbas reais ainda tinham o poder de atrair os fiéis. Silverman está estudando os túmulos de dois sacerdotes do Médio Império que faziam parte do culto ao faraó Teti, havia muito falecido mas ainda venerado como um deus.

De um arquivo ele tira uma planta interna pintada dos dois complexos mortuários, situados no outro lado da rua onde fica a pirâmide de Teti – mas há algo surpreendente. Após descerem retos, os poços das tumbas continuam sob a rua, levando às câmaras funerárias que ficam sob o espaço sagrado do próprio Teti. Os sacerdotes, aparentemente, permaneceram em contato com o grande faraó na vida eterna.

Outros faraós não foram tão amados assim. O altos funcionários de Akhenaten, no Novo Império, podem até mesmo ter se mantido a uma certa distância do faraó, de maneira proposital e por bons motivos. Por volta de 1348 a.C., vários anos após iniciar seu reinado, Akhenaton proibiu o culto aos deuses tradicionais e criou uma nova religião em torno de Aton, o disco solar. Também fundou uma nova capital, Akhetaton (a moderna Amarna), no deserto ao sul de Saqqara. “Ele agiu como um maníaco”, diz Maarten Raven, curador da coleção egípcia no Museu Nacional de Antiguidades dos Países-Baixos. “Foi um choque para seus contemporâneos.”

Recentemente Raven desenterrou o túmulo de um desses contemporâneos, um importante sacerdote do templo de Aton em Mênfis. Avançando pelo deserto ao sul da Pirâmide em Degraus, o complexo inclui um poço funerário em um pátio antes repleto de colunas que imitavam caule de papiro.

O dono dessa tumba era um indivíduo chamado Meryneith, ou pelo menos foi com esse nome que começou sua carreira. No que parece ter sido uma incessante luta pela sobrevivência política, Meryneith mudou de nome duas vezes – primeiro para Meryre, depois de volta a Meryneith. Seu túmulo, construído em três etapas, confirma as oscilações de sua carreira.

Na seção mais antiga, concluída antes da revolução de Akhenaton, o batente das portas do santuário recebeu inscrições com o nome original do funcionário. “Meryneith significa ‘o amado da deusa Neith’”, explica Raven, passando o dedo indicador sobre os dois arcos de caça, com as pontas cruzadas em ambas as extremidades, que simbolizam a divindade.

O signo, porém, foi alterado na segunda etapa da construção. Um círculo, o símbolo do Sol, foi entalhado sobre os arcos e aplicado gesso sobre suas extremidades. “Podemos ver aqui que ele mudou seu nome para Meryre, ‘o amado do Sol’”, prossegue Raven. “Dá a impressão de que Meryneith sentiu que seria melhor para sua carreira se abandonasse a referência à velha deusa e adotasse um novo nome, politicamente mais correto.”

Caminhamos até o fragmento de um relevo de parede que antes retratou o dono da sepultura e sua esposa. Tudo o que resta de Meryneith é um braço, pintado de marrom avermelhado, mas os hieróglifos são legíveis – dois arcos, as pontas cruzadas, claramente entalhados na pedra. “Isto foi feito durante a terceira fase de decoração”, conclui Raven. “Assim que Akhenaton morreu, Meryneith retomou sua antiga identidade de politeísta.”

Meryneith tentava mais uma vez avançar sua carreira, distanciando-se do faraó herético que foi renegado após a morte? Seja como for, tudo isso foi em vão. Ele não chegou a terminar seu túmulo – talvez não tenha conseguido escapar de seus vínculos passados e acabou sendo expulso desse local de sepultamento da elite egípcia.

Já o túmulo vizinho foi construído por um homem chamado Horemheb, que sobreviveu aos tumultos políticos da época de Akhenaton. Ele foi tão bem-sucedido que se tornou faraó, erguendo outra tumba mais adequada à sua realeza e deixando essa sepultura para uma de suas esposas. Se Horemheb conheceu Meryneith, “o que achava deste – que não passava de um vira-casaca?”, imagina Raven. “Por outro lado, pouco se sabe sobre as atividades de Horemheb durante o período de Akhenaton.”

As pistas sobre o relacionamento desses dois homens podem estar escondidas sob o espaço que separa seus complexos mortuários – os quais Raven pretende escavar na primavera.

Não será nada fácil, porém, extrair algum sentido do material que vai encontrar. Tal como no resto de Saqqara, essa área está repleta de sepulturas de pessoas comuns de outras épocas – e os saqueadores já abriram incontáveis túneis entre os poços dos túmulos.

“O subsolo aqui é como um queijo suíço”, comenta Raven. “Isso torna ainda mais difícil este quebra-cabeça.”

A longuíssima seqüência de faraós chegou ao fim com a conquista do Egito por Alexandre Magno, em 332 a.C. A partir de então, os costumes estrangeiros minaram a majestosa civilização das margens do Nilo, mas os monumentos no deserto permaneceram – e a vida cotidiana ainda prosseguiu por séculos tal como antes.

No final de uma tarde escalo os restos maltratados pelo tempo de um palácio de adobe erguido em Mênfis nos derradeiros anos do domínio faraônico. De seu topo contemplo o vilarejo moderno de Mit Rahina, onde roupas secam nas janelas de sobrados de tijolo vermelho e as crianças correm pelas vielas empoeiradas. Agricultores retornam dos campos circundantes no lombo de burros e pastores de pastos distantes com seus animais. Ao longo do horizonte ocidental vejo as mesmas coisas que viram os antigos egípcios – as pirâmides de Abusir, Saqqara, Dahshur. Por fim, bem ao lado da Pirâmide em Degraus, o Sol desaparece para se encontrar com Osíris durante a noite.

Disponível em < http://viajeaqui.abril.com.br/materias/egito-nilo-farao?pw=1 >. Acesso em 21/07/2015.

KV-55: uma das mais controversas descobertas feitas no Egito

Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

A Arqueologia egípcia na virada do século XIX para o XX ainda tinha um forte caráter imperialista e antiquarista, estando associada ao fetiche da descoberta do ouro e de belas esculturas. E foi nesse cenário que uma das mais polêmicas descobertas realizadas no Vale dos Reis foi feita, contando com um registro pobre dos artefatos e um relatório pouco confiável.

A temporada teve início no dia 1 de janeiro de 1907 com o arqueólogo Edward Russell Ayrton (1882 – 1914) limpando a área a sul da KV-6 (tumba de Ramsés IX) onde encontrou nos dias seguintes vários jarros grandes datados da 20ª Dinastia e mais adiante, em um nível inferior, a entrada para uma tumba hoje chamada de KV-55 (REEVES; WILKINSON, 1996).

Hortense Schleiter, Edward Russell Ayrton, Theodore Davies e Arthur Weigall.

Mesmo após mais de 100 anos da sua descoberta, a KV-55 é um dos mais controversos achados feitos no Egito, mas não somente devido às dúvidas que levantou acerca dos artefatos, mas dada as circunstâncias adversas em que foi escavada e a confecção do seu relatório de divulgação, que não foi escrito pelo arqueólogo da equipe, o Ayrton, mas por Theodore Davis, um rico empresário norte-americano patrocinador da pesquisa e sem formação em Arqueologia (REEVES, 2008). Aparentemente Davis era um homem caprichoso e não queria que ninguém interferisse em suas opiniões, mesmo que a intromissão fosse de algum profissional da Arqueologia, como uma citação em uma carta do rev. Archibald Henry Sayce (1845 – 1933) para Arthur Weigall (1880 – 1934), supervisor de Davis em nome do Serviço de Antiguidades, sugere:

“Eu estou com medo de que você poderia muito bem tentar parar uma avalanche assim com tentar parar Sr. Davis quando ele está inclinado a fazer uma coisa em particular” (REEVES; WILKINSON, 1996, pág. 78).

Graças a intervenção de Davis o relatório não saiu de acordo com o ponto de vista e análises de Ayrton e até mesmo o registro fotográfico foi comprometido: a ordem foi para que deixasse a bagunça do local mais “apresentável” nas fotografias (JACQ, 2002). Um erro grosseiro.

A KV-55 é compreendida por um corredor que leva até uma câmara funerária onde foi encontrada uma série de artefatos incluindo um santuário de madeira folheado a ouro, um ataúde, quatro vasos canópicos e um conjunto de objetos chamados de “tijolos mágicos”. Provavelmente foi escavada concomitante com a KV-46 (tumba de Yuya e Tuya) e a KV-62 (tumba de Tutankhamon) e um indicio aponta que o local não foi finalizado: foi observado que as paredes e o teto da câmara funerária foram engessados, mas não decorados e uma ostraca pintada com o que parece ter sido o plano original da tumba foi encontrada dentro da KV-55 em 1993, durante as pesquisas da arqueóloga canadense Lyla Pitada Brock. Algumas marcas nas paredes também dão indicações sobre a sua confecção, pois mostram indícios de alargamento deixados pelos pedreiros na entrada, incluindo uma posterior elevação no teto e o número de escadas aumentado[1].

O Período Amarniano:

Para tentar compreender esta sepultura e seus artefatos é necessário entender o Período Amarniano, intervalo temporal que inicia com a coroação do faraó Akhenaton e termina com o reinado do faraó Ay[2]. Filho de Amenhotep III e da rainha Tiye, Akhenaton, outrora chamado de Amenhotep IV, tornou-se notável na Egiptologia por conta de sua revolução religiosa onde passou a ignorar todas as divindades do Egito, exceto uma, Aton, o Disco Solar, e da mudança da capital de Tebas, que recebia a proteção do deus Amon, para Aketaton, cuja tradução é “Horizonte de Aton”.

cropped-akhenaton_e_nefertiti__arqueologia_egipcia

Akhenaton, sua esposa Nefertiti e três das suas seis filhas sendo tocadas pelos raios de Aton. Foto: Kenneth Garrett. Abril de 2001.

Sua preferência por Aton ao contrário dos demais deuses foi o que levou anos depois a exclusão tanto do seu nome, como dos seus descendentes, dos inventários de faraós, sendo então apresentada uma lista que dá um pulo do governo de Amenhotep III para o de Horemheb. Porém, entre estes dois conhecemos a existência de ao menos cinco faraós:

☥ Amenhotep IV/Akhenaton: Que inaugurou a capital “Akhetaton” e criou templos para Aton. Construiu uma tumba para si em Tebas e depois em Akhetaton, contudo provavelmente sua sepultura foi relocada para algum lugar em Tebas;

☥ Smenkhará: Sucessor de Akhenaton, mas que só reina por cerca de três a dois anos. Sua tumba não foi encontrada;

☥ Ankheperurá: Farani cuja existência ainda é fruto de muito debate. Sua tumba não foi encontrada;

☥ Tutankhaton/Tutankhamon: Faraó que reinou por nove anos e foi sepultado na KV-62;

☥ Ay: Reinou por cerca de dois anos. Foi sepultado na KV-22.

O declínio do Período Amarniano tem início com o reinado do faraó Tutankhamon, que restituiu o panteão de deuses, mas não dá totalmente as costas para Amarna, relocando sepultamentos da família real para Tebas e a KV-55 parece ser uma dessas tumbas.

Os artefatos encontrados e o corpo no ataúde:  

No local foram encontrados muitos objetos datados como pertencentes ao Período Amarniano. Um dos principais é o santuário que foi originalmente preparado para a rainha Tiye, o que levou Davis a declarar que a KV-55 trata-se da sua tumba e de fato faz sentido, já que este tipo de peça era utilizado para proteger o sarcófago de pedra e o ataúde. Entretanto, foi sugerido através dos exames de DNA realizados entre os anos de 2007 e 2008 que uma das múmias encontradas em um esconderijo em outra tumba, a KV-35, seria a da rainha, uma proposta que não é amplamente aceita, porque mesmo com o resultado apontando que ela trata-se de uma parente sanguineamente próxima ao casal Yuya e Tuya, pais da própria rainha (HAWASS et al, 2010; PARRA, 2011), não é aconselhado realizar análise de DNA em múmias por conta não só da antiguidade do material, mas devido a possibilidade de contaminação que os corpos podem ter sofrido. Caso de fato uma das múmias encontradas na KV-35 seja da rainha Tiye a explicação para o que poderia ter ocorrido é que a sua tumba original (talvez a KV-55) foi comprometida de alguma forma e ela precisou ser relocada para um espaço seguro (REEVES, 2008).

Já os vasos canópicos seguramente foram feitos para a rainha Kiya, uma esposa secundária do faraó Akhenaton, uma vez que estão nominados para ela. Por muito tempo muitos acadêmicos acreditaram que a rainha Kiya era a mãe do faraó Tutankhamon, entretanto, a análise de DNA dos anos de 2007 e 2008 aponta que em verdade a mãe dele seria uma irmã de Akhenaton (HAWASS et al, 2010; PARRA, 2011).

Tampa do vaso canópico da rainha Kiya. Imagem disponível em < https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/originals/05/f2/60/05f260fc082f729bcfc514ffeb334e6e.jpg >. Acesso em 27 de janeiro de 2015.

Todavia a identidade do dono do ataúde e do corpo encontrado dentro dele é uma grande incógnita. O problema começa com o próprio ataúde, cujo o nome que se encontrava em um cartouche protetor foi extraído, o que parece ter sido algo deliberado, já que o rosto do sarcófago também foi avariado (REEVES, 2008). De acordo com a crença egípcia, para que o morto não sofresse uma “morte verdadeira” e fosse capaz de realizar sua viagem no “além tumulo” era necessário que a sua múmia estivesse intacta e devidamente nominada. A sua máscara mortuária deveria retratar o seu rosto de tal forma que o individuo pudesse ser reconhecido. Sabendo disto foi sugerido então que quem quer que realizou as mudanças no sarcófago não tinha a mínima intenção de que a pessoa nele sepultada pudesse ingressar no além vida (PARRA, 2011).

Ataúde da KV-55. Imagem disponível em < http://www.ancient-origins.net/ancient-places-africa/mystery-egyptian-tomb-kv55-valley-kings-002608 >. Acesso em 27 de janeiro de 2015.

Uma das primeiras teorias levantadas durante a busca da sua identidade foi apontada pelo famoso filólogo Sir Alan Gardiner (1879 – 1963) que argumentou que as titulações presentes no ataúde eram as de Akhenaton. Outros pesquisadores, no entanto, pontuaram que as inscrições foram alteradas em algum momento na antiguidade e que por isso o corpo sepultado lá poderia não ser o dono original do ataúde. Já o estudioso francês Georges Daressy sugeriu que ele poderia ter sido originalmente feito para a rainha Tiye e que depois foi adaptado para Smenkhkara, um sucessor de Akhenaton que reinou por pouco tempo antes de Ankheperura e Tutankhamon. Outra teoria é de que ele foi feito para Smenkhkara durante o reinado de Akhenaton e que após assumir o trono ele foi modificado[3]. Já Reeves (2008) aponta que o ataúde possivelmente foi preparado originalmente para a rainha Kiya, mas que foi alterado para servir outro dono.

Detalhe do sarcófago da KV-55. Imagem disponível em < http://egyptologist.org/discus/messages/41/7446.html?1046805375 >. Acesso em 27 de janeiro de 2015.

Não é de se espantar que tantos pesquisadores experientes se debatam em razão de qual poderia ser a identidade do dono do ataúde, afinal, quando o olhamos notamos que ele foi feito para alguém da realeza, possuindo o negativo de um cartouche, elemento usado somente para o nome de pessoas da nobreza como o faraó, a rainha e suas crianças, e também possui uma ureus em sua testa; Entretanto, no lugar do tradicional nemes (o toucado de listras), que era um objeto que identificava um faraó ou uma farani, está uma peruca núbia que era usada tanto por mulheres como por homens comuns e inclusive pelos próprios faraós. Ainda nas inscrições remanescentes no corpo do ataúde podemos encontrar a expressão “senhor do Alto e Baixo Egito” (JACQ, 2002), também marcas que apontam ser ali um faraó ou uma farani.

Em relação ao corpo, algumas das pesquisas já realizadas apontaram similaridades físicas e de grupo sanguíneo entre este individuo com a múmia de Tutankhamon (alguns aspectos desse estudo serão apresentados no meu livro “Tutankhamon, 1922 e o Vale dos Reis”); o exame de DNA 2007/2008 apontou um forte grau de parentesco que sugere que ele seria o pai de Tutankhamon e as deduções arqueológicas levam a crer que este homem desconhecido da KV-55 seria o próprio Akhenaton (REEVES, 2008; HAWASS et al, 2010). Todavia, o fato é que ainda não existe consenso acerca da identidade dos restos mortais do individuo encontrado lá, especialmente porque em algum momento ao longo destes mais de 3000 anos a múmia se decompôs e resumiu o corpo a osso os quais atualmente está em um mau estado de conservação a tal ponto que não é possível realizar uma análise osteológica para definir um parâmetro de sua idade no momento da sua morte, sem acabar por confundir a degradação óssea devido à sua antiguidade com uma patologia óssea gerada pelo o envelhecimento do próprio individuo. Desta forma a sua idade já chegou a ser estimada como 25/26 anos, outros acima de 35, e mesmo reduzida para 20 anos (PÉREZ-ACCINO, 2003; REEVES, 2008).

Mais questões problemáticas:

Conhecer a finalidade da KV-55, a identidade do corpo nela encontrado e para quem de fato o ataúde foi confeccionado não são meras curiosidades, ter estas informações podem auxilar os atuais pesquisadores a entender mais os anos finais do Período Amarniano, como por exemplo, além de excluir os nomes dos faraós deste período e se de fato a ideia de danificar o ataúde era para deixar a pessoa nele encerrado sem uma identidade na sua vida no “além-túmulo”, até onde teria ido a perseguição à memória dos principais nomes dessa época?

Entretanto, dado ao trabalho executado com tantas falhas, algumas questões podem não ser respondidas, uma vez que existem casos não solucionados de furtos. Desde a década de 1920 os pesquisadores que tiveram algum contato com os artefatos retirados da tumba não foram coesos em afirmar quais objetos chegaram a sumir após a descoberta. Aparentemente tratam-se de folhas de ouro que teriam sido encontradas dentro do ataúde e que possivelmente um dia enrolou o corpo da múmia. Ao que parece tais folhas foram furtadas em algum momento ligeiramente após a descoberta da KV-55. Porém, mais coisas teriam sido furtadas, como sugeriu o ex-ministro das antiguidades, Zahi Hawass. Segundo ele, há alguns anos, partes dessas folhas, juntamente com elementos do fundo do próprio sarcófago, ressurgiram no Museu de Arte Egípcia, em Munique, na Alemanha e que com a descoberta do crime os objetos foram repatriados para o Egito[3].

O que tudo sugere é que a KV-55 continuará emanando muitos mistérios, pois, independente dos esforços dos atuais pesquisadores, questões e mais questões (algumas de teor sensacionalista) sempre são levantas, demonstrando o fascínio que o senso comum e mesmo acadêmicos sentem por esta descoberta que guarda o corpo de um individuo tão desafortunado, uma vez que o ódio e exclusão de um nome em um ataúde era uma situação gravíssima e indicava que a pessoa não era bem-quista em vida e muito menos na morte.

Referências:

HAWASS, Zahi.  GAD, Yehia Z.  ISMAIL, Somaia. KHAIRAT, Rabab. FATHALLA, Dina. HASAN, Naglaa. AHMED, Amal. ELLEITHY, Hisham. BALL, Markus. GABALLAH, Fawzi. WASEF, Sally. FATEEN, Mohamed. AMER, Hany. GOSTNER, Paul. SELIM, Ashraf. ZINK, Albert. PUSCH, Carsten M. Ancestry and Pathology in King Tutankhamun’s Family. JAMA. 303(7):638-647, 2010.

JACQ, Christian. Nefertiti e Akhenaton: O casal solar (Tradução de Maria D. Alexandre). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.

JAMES, Henry. Tutancâmon (Tradução de Francisco Manhães). 1ª Edição. Barcelona: Editora Folio, 2005.

PARRRA, José Miguel. El verdadero origen del faraón niño: La familia de Tutankamón. Historia. National Geographic. Nº 83.

PÉREZ-ACCINO, José Ramón (c). “Where is the body of Akhenaten?”. In: Manley, Bill. (ed). The Seventy Great Mysteries of Ancient Egypt. United Kingdom: Thames & Hudson, 2003.

O’CONNOR, David; FORBES, Dennis; LEHNER, Mark. Grandes civilizações do passado: Terra de faraós (Tradução de Francisco Manhães). Barcelona: Folio, 2007.

REEVES, Nicholas; WILKINSON, Richard. The Complete Valley of the Kings. London: Thames & Hudson, 1996.

REEVES, Nicholas. The Complete Tutankhamun. London: Thames & Hudson, 2008.


 

[1] KV 55 (Tiye (?) or Akhenaten (?)).  Disponível em < http://www.thebanmappingproject.com/sites/browse_tomb_869.html >. Acesso em 16 de janeiro de 2015.
[2] Alguns autores preferem situar seu fim no reinado do faraó Tutankhamon.
[3] Hawass, Zahi. Mystery of the Mummy from KV55. Disponível em < http://www.guardians.net/hawass/articles/Mystery%20of%20the%20Mummy%20from%20KV55.htm >. Acesso em 16 de janeiro de 2015.

É confirmada a corregência entre Amenhotep III e Amenhotep IV

Por Márcia Jamille | @MJamille |@Instagram

Foi liberada este mês a notícia de que a missão arqueológica espanhola Proyecto Visir Amen-Hotep Huy, do Instituto de Estudios del Antiguo Egipto, através de suas pesquisas  em Asasif, Luxor, descobriu a prova de uma corregência entre o faraó Amenhotep III e Amenhotep IV. O achado foi realizado na Capela 28 do vizir Amenhotep Huy (que viveu nos anos finais da XVIII Dinastia).

Capela de Amenhotep Huy. Proyecto Visir Amen-Hotep Huy.

Capela de Amenhotep Huy. Proyecto Visir Amen-Hotep Huy.

Amenhotep III assumiu o trono quando ainda era uma criança e segundo a bibliografia teve um longo reinado. Foi esposo da rainha Tiye, com a qual teve seis filhos, dentre eles Amenhotep IV, seu sucessor que mudou seu próprio nome para Akhenaton.

Já era muito versada na Egiptologia a possibilidade de que estes faraós tenham governado juntos (até mesmo o papel do reinado de Amenhotep III e da Grande Esposa Real Tiye no surgimento dos primeiros passos da chamada “Religião Amarniana”), mas nunca, desde então, tinha sido encontrada uma prova conclusiva.

A descoberta da missão, feita a partir da análise de textos em duas colunas do local, aponta que pai e o filho reinavam concomitantemente próximo ao ano 30 do governo de Amenhotep III (mais especificamente a inscrição trata os dois como senhores do Alto e Baixo Egito), que viria a falecer provavelmente somente dez anos mais tarde. Isto demonstra também que Amenhotep IV teve muito tempo para treinar como faraó: ele não era o herdeiro real, em verdade este papel estava destinado para o seu irmão Tutmés, mas este faleceu ainda jovem e Amenhotep IV, que deveria se dedicar a outra atividade voltada para o clero ou o exército, virou o príncipe regente e, como agora seguramente sabemos, o corregente do seu pai.

Fragmentos da coluna que apresentam a corregência. Proyecto Visir Amen-Hotep Huy.

Fragmentos da coluna que apresentam a corregência. Proyecto Visir Amen-Hotep Huy.

Esta pesquisa está sendo realizada sob a coordenação de Francisco Martín Valentín e Teresa Bedman com o apoio da Fundación Gaselec. Embora anunciada somente este mês, a descoberta desta corregência foi realizada em 2013, no dia 4 de novembro, coincidentemente no dia em que o Egito comemorava 91 anos de descoberta da tumba de Tutankhamon, esposo de uma das filhas de Amenhotep IV, Ankhesenamon, e herdeiro de ambos estes faraós.

Para saber mais:

Egiptólogos españoles prueban que Amenhotep III y IV reinaron a la vez. Disponível em < http://www.elimparcial.es/contenido/133871.html >. Acesso em 11 de fevereiro de 2014.

Egiptólogos españoles confirman el reinado compartido entre el faraón Amenhotep IV y su padre. Disponível em < http://www.elmundo.es/ciencia/2014/02/11/52f8d04e22601df5408b457a.html >. Acesso em 11 de fevereiro de 2014.

De acordo com reanálise de DNA a Rainha Tiye e o Faraó Amenhotep III eram primos

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

As investigações que se seguiram após as análises de DNA das múmias reais, publicadas em Fevereiro de 2010, proporcionaram materiais para uma nova árvore genealógica da Família Real do final da XVIII Dinastia.

Após debates acerca da confiabilidade das sugestões laçadas naquela época, um exame minucioso destes resultados levou este ano à conclusão de que alguns elos genéticos não foram notados pela a equipe responsável pelo exame em 2010.

Estátuas de Amenhotep III e Tiye. Salão principal do Museu Egípcio do Cairo. Retirado de: Chapter 20: Amenhotep the Magnificent. Disponível em: . Acesso em 12 de Janeiro de 2011.

Estátuas de Amenhotep III e Tiye. Salão principal do Museu Egípcio do Cairo. Retirado de: Chapter 20: Amenhotep the Magnificent. Disponível em: < http://www.answersingenesis.org/articles/utp/amenhotep-the-magnificent>. Acesso em 12 de Janeiro de 2011.

De acordo com a revisão do estudo, o fato mais significativo é que foi descoberto que Yuya, pai da Grande Esposa Real Tiye, compartilhou com seu genro, Amenhotep III, cerca de 1/3 de herança genética. Como consequência está sendo proposto que Yuya é um tio de Amenhotep III por parte de mãe, o que aponta que em verdade a rainha Tiye era prima de Amenhotep III e não uma plebeia, como muito se afirmou.

Faraó Amenhotep III. Imagem disponível em . Acesso em 12 de outubro de 2013.

Faraó Amenhotep III. Imagem disponível em < http://www.cis.nctu.edu.tw/~ whtsai/Egypt%20Trip/Summary %20of%20Trip/Part%20I%20—%20 Days%2001~04/Part%20I%20—%20By% 20Browsing/page_05.htm >. Acesso em 12 de outubro de 2013.

Rainha Tiye. Imagem disponível em . Acesso em 12 de outubro de 2013.

Rainha Tiye. Imagem disponível em < http://www.pinterest.com/pin/2476 2767948 4031042/ >. Acesso em 12 de outubro de 2013.

Outra sugestão da pesquisa é que a “Jovem Mulher”, encontrada com a múmia da rainha Tiye e já identificada como mãe do faraó Tutankhamon, trata-se de Nefertiti, já que possui um grau de parentesco próximo tanto com Yuya e sua esposa Tuya, como também com Tiye e Amenhotep III. Mas esta última teoria está mais baseada na possibilidade de que Nefertiti poderia ser filha de Ay, que por sua vez poderia ser filho de Yuya e Tuya.

A última conclusão da análise é que uma das mulheres encontradas na KV-21 se trataria de Mutemuiya, mãe de Amenhotep III.

Referência:

Marc Gabolde, « L’ADN de la famille royale amarnienne et les sources égyptiennes », ENiM 6, 2013, p. 177-203. Disponível em < http://www.osirisnet.net/news/n_09_13.htm  >. Acesso em 10 de Outubro de 2013.

A análise dos talatats de Akhenaton

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

A análise dos talatats de Amenhotep IV: A resposta dada por um vestígio em contexto [1].

Akhenaton e sua filha Meriaton. Foto: Kenneth Garrett. Abril de 2001.

Em 1926, enquanto ocorria a reforma no complexo de Karnak, foi encontrado dentro de pilonos do Templo de Amon pedaços de pedra com figuras deformadas. Era de um santuário do faraó Amenhotep IV (em grego Amenófis IV) [2] que foi outrora desmontado para tornar-se entulho de preenchimento de obras posteriores a sua morte. Este achado acabou revelando o que foi uma destruição intencional e sistemática de todo o reinado de um governante pouco querido, mas ironicamente, esta atitude que procurava apagar de vez este rei da história foi o que o preservou para a posterioridade.

A obra de restauração encomendada pelo o Serviço de Antiguidades Egípcio, e patrocinada pela a França, estava sob a direção do arqueólogo Henri Chevrier, que durante a exploração recuperou do esconderijo cerca de 20.000 blocos que mediam quase três palmos, o que lhes proporcionou o nome de “talatat” (“três” em árabe). Logo se percebeu que estes artefatos, que continham várias imagens rituais e “cotidianas” retratadas, faziam parte de outra estrutura mais ampla, pois tinham cenas que pareciam poder se encaixar com alguma outra perdida.

Fonte: O’CONNOR, David; FORBES, Dennis; LEHNER, Mark. Grandes civilizações do passado: Terra de faraós. (Tradução de Francisco Manhães). 1ª Edição. Barcelona: Editora Folio, 2007. p. 81. Sobre o peso: Documentário “Expedições de Josh Bernstein: Amarna”, da Discovery Channel.

É fato que ninguém, a princípio, soube explicar o que afinal aquilo significava, mais vestígios com o nome de Amenhotep IV tinham sido encontrados em outros pontos, inclusive provas de que alguns colossos deste mesmo rei tinham sido adulterados de seus lugares. De acordo com a análise, as figuras que estavam ali tinham sido derrubadas de seus pedestais (O’CONNOR et al, 2007, p. 84). Até mesmo o rosto do faraó e sua esposa, retratados nas pedras encontradas nos pilonos, foram mutilados.

Apesar do ato de violência contra a figura de Amenhotep IV os talatats, segundo o escritor e egiptólogo Christian Jacq, foram guardados de forma sistemática, ele ainda afirma que se os arqueólogos que trabalharam no local fossem “(…) seguindo a lógica do sistema, teria sido fácil então reconstituir os tabiques pelos os quais os mesmos eram compostos” (JACQ, 2002, p. 217), e de acordo com O’Connor (et al) parece que ocorreu um especial interesse em arruinar a imagem da rainha, pois “Os retratos da rainha consorte de Amenhotep , Nefertiti, tinham sido sistematicamente mutilados; alguns deles, amontoados uns sobre os outros, tinham sido evidentemente colocados de modo que a rainha ficasse de cabeça para baixo” (O’CONNOR et al, 2007, p. 82).

O que motivou esta tentativa de esconder da memória egípcia o faraó Amenhotep IV? Esta questão pode ser explicada pelo o estudo dos dezessete anos de reinado do mesmo: Ele não foi criado a principio para ser rei, quem estava destinado a este cargo era o seu irmão mais velho, Tutmés (em grego Tutmoses), mas o rapaz faleceu ainda quando era um garoto. Amenhotep IV, que possivelmente estava treinando para ser sacerdote, já que não era príncipe regente, torna-se o próximo na sucessão. Quando ascendeu ao trono dando início ao seu primeiro ano de reinado, ele já estava começando a dar sinais de que não seguiria os passos dos seus predecessores e mandou que construíssem um templo a um deus pouco citado, mas de forma alguma desconhecido em Karnak [3], Aton.

Neste período de tempo algo ocorreu em Tebas causando consternação em Amenhotep IV [4] que então procurou como uma resposta pratica a criação de uma nova capital onde ele poderia cultuar o deus Aton e ignorar a existência das demais divindades.

Durante os anos de reinado de Amenhotep IV ocorreram muitas baixas na política interna e externa egípcia: a medida que o faraó se fechava na sua nova capital, o Egito perdia terreno para os seus inimigos, e os acordos diplomáticos iam enfraquecendo. Já entre os próprios nativos, nem todos estavam mais contentes com a nova ordem religiosa de Aton o que obrigou Amenhotep IV, que a esta altura já tinha modificado seu nome para “Akenaton”, a mandar que se apagassem o nome do deus rival Amon das paredes de Karnak.

Em duas décadas de reinado, a nova capital já estava pronta e fervilhante, isto se deu porque foram justamente os talatats o que compôs as paredes dos templos e parte dos palácios da cidade de Amenhotep IV e não os grandes blocos de pedra calcária comumente utilizada na construção dos templos egípcios. As casas populares eram feitas de adobe (o que já era totalmente normal em termos de construção). Pareceu que este novo lugar, de onde ele regeria o Egito, seria a brecha para coisas novas: a arte egípcia agora teria parâmetros diferentes, os templos eram feitos de forma nova [5] e até o rei mudou o seu nome para Akenaton no dia da inauguração do local como se fosse a abertura para um Egito totalmente novo. Outro motivo que causou descontentamento foi o fato de que Akenaton dava poucos donativos aos templos dos demais deuses, ao contrário dos templos de Aton que sempre recebia em estupores (CARREIRA, 2004).

Após a sua morte, porém, a sua capital que se chamava Aketaton (“Horizonte de Aton”) foi abandonada, os seus sucessores provavelmente tiveram problemas para manter a sua “revolução”. Primeiramente ele foi substituído por sua filha Meritaton e uma figura o qual pouco se sabe chamado Smenkhará, mas os dois somem dos registros e logo vemos surgir nas fontes documentais Tutankhaton e Ankhesenpaaton que eram crianças na época cuja coroação ofereceu a brecha para o restabelecimento dos antigos deuses. Assim, é erguida a “Estela da Restauração”, em que o novo faraó apresenta-se como apaziguador e critica a atitude do outro governante ao deixar os templos e deuses abandonados. Desta forma, para voltar a normalidade egípcia, os nomes das crianças são mudados para Tutankhamon e Ankhesenamon. De forma irônica, igualmente a Amenhotep IV, que optou por mudar o próprio nome para dar início a uma nova era, os seus filhos precisaram de semelhante atitude para dar um fim a mesma.

Agora os arqueólogos talvez tivessem uma explicação para a atitude de se querer apagar de vez um faraó da história do país, mas restava saber quem era o autor da ação contra Amenhotep IV.

As pesquisas com as pedras continuaram a decorrer até que em 1965 que um diplomata norte americano aposentado chamado Ray Winfield Smith utilizou um computador para tentar montar o grande quebra-cabeça, a ideia compunha-se de formar um banco de dados com fotos dos talatats, tanto quanto fosse possível, já que alguns estavam em coleções estrangeiras. Assim teve início o “Projeto Templo de Akenaton” que tempos depois sob a coordenação do egiptólogo canadense Donald Redford fez escavações em Karnak, onde encontrou mais estruturas que denunciavam os primórdios do monoteísmo em Tebas e claro, o esforço para erradicá-lo. As escavações arqueológicas revelaram que o Templo de Aton foi desmontado e preencheu os pilares do Grande Templo de Amon, e literalmente os limites deste último passa por cima do negativo do outro.

Planta do hipostilo e negativo do templo de Akhenaton. O’CONNOR, David; FORBES, Dennis; LEHNER, Mark. Grandes civilizações do passado: Terra de faraós. (Tradução de Francisco Manhães). 1ª Edição. Barcelona: Editora Folio, 2007. p. 84)

Funcionários egípcios trabalham em remoção dos talatats no 9º Pilone. Fonte: O’CONNOR, David; FORBES, Dennis; LEHNER, Mark. Grandes civilizações do passado: Terra de faraós. (Tradução de Francisco Manhães). 1ª Edição. Barcelona: Editora Folio, 2007. P. 85.

Exemplo de Talatats. Fonte: O’CONNOR, David; FORBES, Dennis; LEHNER, Mark. Grandes civilizações do passado: Terra de faraós. (Tradução de Francisco Manhães). 1ª Edição. Barcelona: Editora Folio, 2007. P. 87.

A Arqueologia apontou outro fato importante: a pessoa que ordenou a depredação do templo foi o sucessor de Ay, que por sua vez foi sucessor de Tutankhamon. Supõe-se que Ay poderia ser pai de Nefertiti [6], o que já seria uma desculpa para que ele pudesse acender ao trono, no entanto quem o substitui é o general Horemheb que não tem vínculos reais. Para tentar entender por que Horemheb pôde se tornar rei se sugeriu que sua esposa Mutnodjmet seria irmã de Nefertiti. Sabe-se que ele foi o responsável por tentar excluir Amenhotep IV da memória egípcia porque um pedaço de arremete com o seu selo foi encontrado dentre os talatats. Seus motivos podem ter sido semelhantes ao de Tutmoses III anos antes, que necessitou apagar a existência de Hatshepsut dos murais para proteger a acessão do seu filho ao trono [7], como pode ter sido também para “julgar” a faraó que abandonou a normalidade egípcia para recorrer as suas próprias convicções.

Assim sendo, o estudo com os talatats puderam revelar de forma inesperada ocorrências do passado. Não foi só unicamente feita a análise iconográfica ou medições das pedras, mas também a observação do contexto em que elas foram escondidas e até mesmo o olhar averiguador durante a retirada do material revelando assim o principal suspeito de ser o autor daquela obra incomum.

[1] Este texto de minha autoria foi publicado em meados de 2009 no Arqueologia Egípcia, mas foi arquivado posteriormente. Faço aqui uma publicação revisada com mudanças de nomes gregos para o egípcio faraônico.
[2] “Amenhotep” significa “Amon está satisfeito”.
[3] Amenhotep IV e a corte real egípcia já tinha contato com o deus Aton, ele era evidenciado em alguns cultos no palácio de Malqata, que foi construído por Amenhotep III, pai de Amenhotep IV.
[4] Não se sabe o que aconteceu, mas escritos sugerem quem o faraó se aborreceu com algo. O acadêmico da Universidade de Memphis Bill Murnane em entrevista comentou que “Akhenaton não diz com todas as letras o que aconteceu, mas foi algo que o enfureceu” e complementa com “Ele disse que nem ele nem seus ancestrais jamais haviam passado por algo pior” (MURNANE apud GORE, 2001, p. 31).
[5] Não tinham tetos, já que o alvo de culto estava no céu, e não em quartos escuros.
[6] Sua esposa Tey é a ama de leite da rainha Nefertiti, o que não quer dizer que era a sua mãe, já que era costume que as damas mais ricas contratassem mulheres para amamentar seus filhos.
[7] Foi descoberto que a negligência as imagens de Hatshepsut ocorreram cerca de vinte anos depois da sua morte, a dedução então é que Tutmés III precisava reforçar a legitimidade de seu filho Amenófis II. Hatshepsut era quem possuía mais proximidade com a “pureza” real, enquanto que o seu enteado era filho de uma esposa secundaria (BROWN, 2009).

 

Bibliografia:

Brown, Chip. “ O rei está nu(a)”. National Geographic Brasil. Editora Abril, Abril 2009.
CARREIRA, Paulo.Textos da religião de Aton. Revista lusófona de ciência das religiões. Ano III, nº 5/6 (2004), p. 231-262.
CHRISTIAN, Jacq. Nefertiti e Akhenaton (Tradução de Maria Alexandre). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002
Gore, Rick.“Os faraós do sol”. National Geographic Brasil. Editora Abril, Abril 2001
O’CONNOR, David; FORBES, Dennis; LEHNER, Mark. Grandes civilizações do passado: Terra de faraós. (Tradução de Francisco Manhães). 1ª Edição. Barcelona: Editora Folio, 2007.