Um afrodisíaco no Antigo Egito

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Este texto é a minha tradução do artigo An Ancient Egyptian Aphrodisiac (Um afrodisíaco no Antigo Egito), de Diana Craig Patch, diretora do projeto Joint Expedition to Malqata (JEM). Apesar do título o texto deixa claro que a planta em questão pode até ser afrodisíaca, mas certamente alucinógena. Entretanto, não acreditem cegamente que o aparecimento desta planta ou fruto na iconografia significa que era usada para fins psicodélicos. Abaixo a tradução:

Um afrodisíaco no Antigo Egito

Os pequenos e frágeis ornamentos de faiança que foram coletados durante as escavações em Malqata durante os primeiros anos do The Met (The Metropolitan Museum), sempre foram os meus favoritos. Estas imagens coloridas de elementos florais são provavelmente usadas para decorar diferentes coisas, inclusive colares largos. Nesta temporada uma das imagens que tem aparecido em vários artefatos é o fruto da mandrágora (Mandragora sp.).

Um pingente de faiança representando uma mandrágora do Palácio do rei Amenhotep III em Malqata – Rogers Fund, 1911.

Detalhe do rosto de Tutankhamon no seu santuário de ouro com elementos de mandrágoras claramente vivíveis em seu colar.

A mandrágora é uma pequena planta cujas folhas surgem em uma roseta basal no chão. Encontrada tradicionalmente no norte e leste do Mediterrâneo, ela aparece no Egito durante o Novo Império, crescendo em jardins de membros da elite da sociedade egípcia.

Jardim de Ipuy com a planta de mandrágoras crescendo ao longo do canal (ao lado do chachorro, bem a direita), Rogers Fund, 1930 (30.4.115).

Uma planta herbácea perene, ela é melhor conhecida por sua longa e espessa raiz ramificada que em muitas culturas folclóricas ganharam características humanas. As flores são de um branco esverdeado, azul pálido, ou mesmo violeta e suas pequenas frutas, uma baga, é de um profundo amarelo para laranja com um cálice verde escuro. As frutas foram traduzidas em imagens egípcias como frutas amarelo brilhante cujo cálice em pinturas está em verde e nas faianças em um profundo azul.

Esquerda: Planta de mandrágora; Direita: Fruta da mandrágora.

Um ladrilho ilustrando uma planta de mandrágora no jardim, Purchase, Edward S. Harkness Gift, 1926 (26.7.942).

As folhas e raízes contêm alcaloides tropanos delirantes e alucinógenos, tornando a planta potencialmente venenosa. Dependendo da quantidade ingerida – que varia de planta para planta -, as partes usadas e técnica de preparação. Emético (suscetível a causar vômitos), purgativo (que leva a evacuação das fezes do organismo) e efeitos de narcóticos são susceptíveis; uma mandrágora pode causar uma overdose tóxica. Baseado nos registros advindos da antiguidade, parece que a planta foi usada para fins medicinais. A literatura grega sugere possíveis aplicações para o tratamento da gota, feridas e insônia; para os sumérios, era um remédio para dor.

A mandrágora, no entanto, transforma-se em uma popular imagem na arte egípcia porque a planta e seus frutos são associados com os conceitos de amor e desejo, possivelmente a ser conseguido ou auxiliado por uma poção feita a partir da planta. Como sugerido por Kate Bosse-Griffiths [1], a mandrágora, tem conotações para a potência masculina e o fortalecimento do poder sexual, especialmente em meados do final da XVIII Dinastia.

Uma jovem mulher em um banquete registrado na tumba de Nebamun passando uma fruta de mandrágora.

Nos poemas de amor e em contextos onde o rejuvenescimento é o tema, tal como na cidade festival de Amenhotep III, nós achamos muitas imagens e representações desta linda, mas tóxica, pequena fruta.

Esquerda: Um fragmento de um vaso azul pintado com uma porção de um fruto mandrágora; Direita: Fragmento de uma pintura de parede com as mandrágoras do Palácio do rei Amenhotep III.

Um molde de cerâmica de uma área industrial (N150, E180) em Malqata usado para fazer elementos de faiança em forma da fruta mandrágora.

26 de Janeiro de 2016

Leitura interessante:

[1] Kate Bosse-Griffiths, “The Fruit of the Mandrake in Egypt and Israel,” in Amarna Studies and Other Selected Papers (ed. by J. Gwyn Griffiths), pp. 82-96, Orbis Biblicus et Orientalis 182 (Fribourg, Switzerland and Göttingen, 2001).

Texto original:

Diana Craig Patch. Disponível em < https://imalqata.wordpress.com/2016/01/25/an-ancient-egyptian-aphrodisiac/ >. Acesso em 26 de janeiro de 2016.

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro "Uma viagem pelo Nilo". [Leia seu perfil]