Descubra o que o Egito Antigo e Game of Thrones têm em comum

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Game of Thrones trata-se de uma série produzida pelo canal HBO e que é uma adaptação para TV de uma franquia de livros intitulados “As Crônicas de Gelo e Fogo”. Seu enredo está envolto de várias questões e uma delas é que está ocorrendo uma guerra civil dinástica entre várias famílias poderosas, que estão lutando pelo controle dos Sete Reinos ou de ao menos uma parte dele.

Entretanto, o que tem a ver Game of Thrones com o Egito Antigo? Pois bem, e se eu disser para vocês que no Egito ocorreu algo parecido — guerras civis dinásticas — não uma, mas três vezes? Isso se passou durante os chamados “Períodos Intermediários”.

A história da época dos faraós é dividida por nós acadêmicos em grandes conjuntos de períodos dinásticos:  Período Tinita, Antigo Reino, Primeiro Período Intermediário, Médio Reino, Segundo Período Intermediário, Novo Império, Terceiro Período Intermediário, Baixa Época e Período Grego.

E cada um destes grandes períodos eram divididos em várias dinastias, que por sua vez são separadas pelos egiptólogos por famílias ou associações políticas. A estrutura básica destas dinastias foi sugerida pela primeira vez por um estudioso chamado Manetho. Ele era um sacerdote nascido no Egito no século III antes da Era Cristã. A lista dele é complementada e corrigida até hoje pelos egiptólogos.

E esses citados “períodos intermediários” aconteceram três vezes na história do país graças ao enfraquecimento do poder central — causado por diversos motivos indo desde grande corrupção, desentendimentos dentro da família real e crises econômicas —.

Durante os “Períodos Intermediários” a soberania territorial dos faraós foi fragmentada.

Então, este enfraquecimento favoreceu a ascensão de poderes locais que certamente estavam mais organizados tanto politicamente como militarmente. Talvez alguns fãs de Game of Thrones já conseguiram realizar algumas associações: Na série quando ocorre um certo acontecimento no final da 1ª Temporada, o caos político é desencadeado, o que leva algumas famílias locais a cobiçar o Trono de Ferro e consequentemente o poder central é enfraquecido.

O Primeiro Período Intermediário:

O Antigo Reino, que é aquela época em que foi construída a Grande Pirâmide, tem fim com a fragmentação do poder dos reis no norte do país, onde ficava justamente a sua capital, Memphis. Foi assim que teve início o Primeiro Período Intermediário.

Ele é composto pela 7ª, 8ª, 9ª e 10ª Dinastia, onde Memphis, Herakleopolis e Tebas assumem o poder.

O Segundo Período Intermediário:

No Segundo Período Intermediário novamente a integridade territorial do país e perdida, mas, ao contrário do Primeiro Período Intermediário, aqui temos a presença de estrangeiros tomando o poder. Eles eram os hicsos, que se estabeleceram em Avaris.

Temos a 13ª, 14ª, 15ª, 16ª e 17ª Dinastia, sem contar a Dinastia de Abidos. As principais cidades envolvidas são Aváris e Tebas.

O Terceiro Período Intermediário:

Com o fim do Novo Império temos a chegada do Terceiro Período Intermediário. E mais uma vez vemos a ascensão de diferentes dinastias paralelas que reinam em Tânis, Leontópolis e Sais. Para variar também ocorre a invasão kushita. Estes governos estão espalhados pela 21ª, 22ª, 23ª, 24ª e 25ª Dinastia.

Quer saber mais? Assista ao nosso vídeo:

Fontes:

ASTON, D. A. Third Intermediate Period, overview. In: BARD, Kathryn. Encyclopedia of the Archaeology of Ancient Egypt. London: Routledge, 1999.

NAUNTON, Christopher. Libyans and Nubians. In: LLOYD, Alan, B (Ed). A Companion to Ancient Egypt. England: Blackwell Publishing, 2010.

DESPLANCQUES, Sophie. Egito Antigo (Tradução de Paulo Neves). Porto alegre: L&PM, 2011.

GRIMAL, Nicolas. História do Egito Antigo (Tradução Elza Marques Lisboa de Freitas. Revisão Técnica Manoel Barros de Motta). Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012.

Descubra como eram feitas as múmias egípcias

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Certamente as múmias são um dos elementos mais reconhecíveis da cultura da Era dos Faraós. Elas são tão queridas e instigantes que acabaram se tornando o tema de muitos documentários. Além de muito presentes na cultura popular: nós as vemos em filmes, séries, literatura, histórias em quadrinhos, games, brinquedos e revistas.

E não é difícil encontrá-las em alguns museus de antiguidades. Até no nosso Brasil possuíamos algumas. A maioria estava no Museu Nacional e foram destruídas no incêndio ocorrido no dia 2 de setembro de 2018. Incêndio este que arrasou todo o interior do edifício. E em Curitiba, no Museu Egípcio e Rosacruz, possuímos uma cabeça feminina que foi apelidada pelos pesquisadores como Thotmea.

Mas, como é que eram feitas as múmias egípcias? Quais ingredientes eram utilizados? E por que os egípcios passaram a mumificar? Estas e outras perguntas são respondidas neste vídeo exclusivo produzido pelo Arqueologia Egípcia:

As múmias egípcias significam várias coisas. Desde um dos passos necessários do morto para alcançar a eternidade a um vínculo do falecido com o mundo dos vivos. Porém, a mumificação foi muito além.

O aperfeiçoamento da sua prática acabou possibilitando notáveis avanços na medicina nos tempos dos faraós. Já que o conhecimento do corpo tornou possível que os médicos egípcios pudessem ter uma visão mais geral dos ferimentos e enfermidades.

Clique aqui para conferir a imagem colecionável “A Mumificação” da Del Prado.

E graças às pesquisas arqueológicas nós conhecemos alguns dos artefatos utilizados durante a mumificação. Na imagem abaixo é possível ver uma cama para o descanso do corpo no natrão, uma máscara do deus Anúbis e uma paleta de mumificador.

E nos dias de hoje é graças à boa conservação de muitas múmias que nós arqueólogos podemos arrecadar dados que nos possibilitam ler detalhes sobre a vida no Antigo Egito como doenças, alimentação, idade média de vida e causas comuns de morte em uma determinada comunidade.

Fontes do vídeo:

AUFDERHEIDE, Arthur. The Scientific Study of Mummies. Nova York: University of Cambridge, 2010.
BAINES, John; MALEK, Jaromir. Deuses, templos e faraós: Atlas cultural do Antigo Egito (Tradução de Francisco Manhães, Maria Julia Braga, Michael Teixeira, Carlos Nougué). Barcelona: Folio, 2008.
BIERBRIER, Morris L. Historical dictionary of Ancient Egypt. Maryland: The Scarecrow Press, Inc, 2008.
HARRIS, James. “Scientific study of mummies”.In: BARD, Kathryn. Encyclopedia of the Archaeology of Ancient Egypt. London: Routledge, 1999.
JIRÁSKOVÁ, L. Damage and repair of the Old Kingdom canopic jars: the case at Abusir. PES XV, 2015.
MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto (Tradução de Maria da Graça Crespo). Lisboa: Taschen, 1999.
STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007.

Site:
A Pigment from the Depths: https://www.harvardartmuseums.org/article/a-pigment-from-the-depths

Aliens construíram as pirâmides!

Esta é a minha tradução do texto Aliens built the pyramids!” (Aliens construíram as pirâmides!) escrito pelo arqueólogo egípcio Zahi Hawass para o site Egypt Independent. Aqui o Hawass discute sobre o fascínio de algumas pessoas em relação às pirâmides egípcias e sobre a descoberta dos Papiros Wadi al-Jarf, que falam sobre a construção da Grande Pirâmide.

Aliens construíram as pirâmides!

Por Zahi Hawass

Pirâmides do Paltô de Gizé. Foto: Ricardo Liberato.

As pirâmides ainda estimulam a imaginação das pessoas de todo o mundo e geram fãs que ficam obcecados com elas dia após dia!

Muitos, especialmente nos EUA, acreditam que existem criaturas espaciais que vieram de Marte e construíram as pirâmides. Isso não é científico de forma alguma. As teorias ainda aparecem em um show transmitido e produzido pelo canal norte americano History[1], intitulado “Ancient Aliens”[2].

Muitos cidadãos dos EUA e de outros países me enviam e-mails (como qualquer pessoa pode fazer através do meu site). Acusam-me de mascarar todos os fatos que descubro e que, no seu ponto de vista, mostram que os egípcios não são os construtores das pirâmides! Eles erroneamente acreditam que sob a Esfinge estão evidências de Atlântida! Todas essas mentiras levantam a muitas ideias falsas sobre as pirâmides e os fatos reais e contos associados.

E eu escavo embaixo da Esfinge não apenas para saber o nível das águas subterrâneas, mas para provar a ausência de qualquer evidência para essa bobagem.

Infelizmente, alguns egípcios também pregam temas infundados como a “mentira da segunda Esfinge” e outras mentiras que distorcem a grande civilização egípcia antiga, nas mãos de alguns de seus filhos que anseiam por uma fama que não é baseada em trabalho duro, ciência e diligência. Deus salve o Egito e seus grandes monumentos dessas pessoas imprudentes!

Há uma semana, fiz uma ligação para um canal estrangeiro. Expliquei que, infelizmente, o público em toda parte não sabe nada sobre a maior descoberta arqueológica do século 21, que é a descoberta dos papiros “Wadi al-Jarf” perto de Suez.

É o maior e mais antigo papiro em todo o mundo, que remonta ao reinado do rei Khufu, e a primeira descrição conhecida de como a pirâmide de Khufu foi construída. Este papiro foi escrito tanto em linguagem hieroglífica como hierática, e publicado com tradução. Atualmente está no Museu Egípcio em Tahrir.

Nela, o inspetor Merer transcreve o diário de seu trabalho na construção da Grande Pirâmide. Merer era o chefe de 40 trabalhadores, que ele levou para as pedreiras de Tora.

Por sua descrição, Merer preparou um grande barco para transportar as pedras pelo Nilo. Ele descreve o método de transporte até as pedras atingirem a área de construção em Gizé. Ele indica que o peso da pedra chega a 2,5 toneladas cada, e registra que essas pedras, que foram cortadas, foram arrastadas para os barcos.

Então ele nos conta sobre o rei Khufu, e que ele estava morando em seu palácio em Gizé – em vez de viver em Memphis, como alguns livros de história afirmam. Merer aponta que ele tinha um chefe chamado Dede e que o principal responsável pela entrada das pedras e itens alimentares era Ankh-Haf.

A área ao redor da pirâmide foi denominada “Ankh – Khufu”, que significa “a vida do rei Khufu”, enquanto as áreas de sepultamento foram denominadas “Akht Khufu”, que significa “horizonte de Khufu”.

O trabalho foi registrado durante o vigésimo sétimo ano do governo do rei Khufu, o que pode indicar que Khufu governou por cerca de 32 anos.

Isso é o que a ciência nos diz sobre o maior edifício do Egito faraônico, a Grande Pirâmide.

Por outro lado, infelizmente, alguns falam palavras estranhas sem nenhuma evidência científica, como a de que a pirâmide foi usada para gerar eletricidade! Existe quem diga que o rei estava armazenando trigo dentro da pirâmide para uso em tempos de fome! Essas alegações são inválidas, porque há evidências escritas indicando que a pirâmide foi feita especificamente para enterrar o rei e transformá-lo em um deus na vida após a morte.

Eu diria também que a pirâmide foi o projeto nacional do Egito, e que as pirâmides construíram o Egito.

Alguém pode dizer então que existem aliens espaciais que construíram as pirâmides?

Eu digo a todos aqueles que estão obcecados com as pirâmides do Egito: você tem o direito de se surpreender e até mesmo se impressionar com as nossas pirâmides atemporais, mas não vamos permitir que você distorça nossos monumentos, que é a nossa mais querida posse. Pare com esse absurdo. Deus te abençoe!


[1] Provavelmente ele está falando do canal History Channel.

[2] “Alienígenas do Passado”, aqui no Brasil.

Texto original: 

Aliens built the pyramids! Disponível em < https://www.egyptindependent.com/aliens-built-the-pyramids/ >. Acesso em 11 de novembro de 18.

Uma forma de encarar a morte: O que são múmias?

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

As milhares de comunidades espalhadas pelo mundo — do presente ou do passado mais remoto — tinham cada uma a sua própria forma de tentar entender a morte. Muitas sociedades ocidentais atuais, por exemplo, tentam torná-la “invisível”, excluindo-a do dia a dia, tratando, consequentemente, os assuntos relacionados com ela como um tabu.

Contudo, este não é um pensamento unânime e em algumas sociedades a dor da separação pode ser contornada ou aliviada através de práticas funerárias distintas. Uma delas é a mumificação de cadáveres.

Múmia do faraó Ramsés II. Fotografo desconhecido (Wikimedia Commons).

A adoção de estruturas funerárias tais como pirâmides ou jazigos costuma apontar para uma resistência à morte e a tentativa de perpetuar, mesmo que simbolicamente, a existência do falecido como uma figura social (SOUZA, 2015). E a mumificação entra aqui como uma destas tentativas de permanência (RADLEY, 1992 apud SOUZA, 2015).

A mumificação pode ser definida como a paralisação do processo cadavérico antes da esqueletização total ou parcial. A intenção de preservar os cadáveres é manter a individualidade depois da morte e ter a pessoa falecido mais próximo do mundo dos vivos.

Embora tenham se popularizado em filmes hollywoodanos e mesmo em documentários como peças de curiosidades, as múmias, quando analisadas do ponto de vista biológico, podem contribuir para o conhecimento arqueológico, proporcionando informações sobre condições de vida, dieta, saúde, modificações corporais (utilização de alargadores, tatuagens, estilos de cortes de cabelos ou penteados, etc), ou sobre produtos de origem animal ou vegetal usados como ornamentos ou vestimenta (cores de tecidos, padrões de costuras, padrões de desenhos, tampões vaginais, sapatos, etc) que por ventura tenham sido conservados com o corpo.

Corpo com mais de 5.000 anos encontrado nos Alpes de Venoste. Estas marcas são tatuagens. Foto: The South Tyrol Museum of Archeology.
Os envólucros de múmias egípcias, por exemplo, dão detalhes da manufatura têxtil. Fotografo desconhecido (Wikimedia Commons).

Em termos simples, os tipos de múmias são divididos em dois grupos: múmias naturais e múmias antrópicas (AUFDERHEIDE, 2010).

Múmias naturais:

Nesse grupo de múmia entram os corpos preservados total ou parcialmente de forma natural devido a diferentes fatores que podem ter relação com o clima, o tipo de solo, o tipo de morte ou mesmo o tipo de involucro. Alguns exemplos são as múmias de Palermo (Itália), Otzi (Itália), as múmias do vulcão Llullaillaco (Argentina e Chile), múmias Pré-dinásticas do Egito e as Sokushinbutsu (Japão).


O “Homem de Tollund” é um exemplo de múmia natural. Foto: Robert Clark; National Geographic.

Múmias culturais ou antrópicas:

Tendo em vista que a própria denominação “cultura material” tem como objetivo ressaltar os artefatos como resultado do trabalho humano (MATTHEW, 2004 apud SOUZA, 2015), as múmias culturais são consideradas artefatos arqueológicos, já que para serem criadas necessitaram da manipulação humana (AUFDERHEIDE, 2010). São várias as formas de se criar múmias culturais, mas os espécimes mais populares indiscutivelmente advêm do Egito.

A confecção de múmias possui vários motivos que vão desde o religioso ao prático, como foi o caso de alguns dos corpos resgatados da área do naufrágio do Titanic, que foram embalsamados para que pudessem ficar reconhecíveis o maior tempo possível, facilitando assim a sua identificação. Ou dos soldados mortos durante a Guerra Civil Norte-americana.

Homem da época da Guerra Civil Norte-americana sendo embalsamado. Foto: Library Congress.

E nos dias atuais a mumificação ainda é empregada, seja para fins científicos — as múmias feitas durante as pesquisas de Arqueologia Experimental —, para uso estético ou higiênico — fazendo uso da Tanatopraxia — ou para manter a memória do falecido viva, a exemplos de líderes políticos ou religiosos.


Evita Peron. Foto: Getty Images.

Referências bibliográficas:

AUFDERHEIDE, Arthur. The Scientific Study of Mummies. Nova York: University of Cambridge, 2010.

SOUZA, Camila Diogo de. As práticas mortuárias na região da Argólida entre os séculos XI e VIII a. C. Tese (Doutorado em Arqueologia) – Museu de Arqueologia e Etnologia, USP, São Paulo, 2010.

SOUZA. Camila Diogo de. Aportes arqueológicos na produção do conhecimento histórico. Vol. XII | n°24 | 2015.

VIDAL, Irma Ason; OLIVEIRA, Claudia; VERGNE, Cleonice. SOUZA, Sheila Maria Ferraz Mendonça de. Mumificação natural na Toca da Baixa dos Caboclos, sudeste do Piauí: uma interpretação integrada dos dados. Canindé, Aracaju, v. 2, p. 83-102, 2002.

Uma entidade maligna do Egito Antigo na série “Penny Dreadful”?

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

“Penny Dreadful” é uma série de terror e fantasia que se passa durante a Era Vitoriana. Seu enredo faz várias analogias a personagens de histórias literárias clássicas de horror tais como “Drácula” de Bram Stoker, “Frankenstein” de Mary Shelley e “O Retrato de Dorian Gray” de Oscar Wilde. O seu nome vem de publicações de terror e horror que eram vendidas no século XIX na Inglaterra por centavos; Penny Dreadfuls: “centavos do horror” (DAVINO, 2014; MOREIRA, 2017).

Mas, além de tirar inspirações nestas publicações, a produção também se inspirou em algumas das coisas que eram vistas como instigantes para os ricos da Era Vitoriana, como era o caso do ocultismo, onde a ele poderia ser misturado um pouco de mitologia egípcia, isto graças a Egiptomania.

 

Egiptomania e o ocultismo:

São várias as formas de apropriação do passado egípcio. Algumas delas são através de movimentos sociais, outras por meio da espiritualidade. Esta insistência em se ter um pedaço do passado egípcio para si têm levado muitas pessoas desde o século XIX a criar narrativas onde os antigos mitos egípcios se encaixavam com suas crenças pessoais. Nisso criaram novas roupagens para o Egito Antigo. Estas novas roupagens são tema de estudo da Egiptomania a qual, falando de forma bem básica, é a apropriação de elementos das antigas sociedades egípcias — tais como imagens, gramática, mitos, etc — mas, dando a ela uma nova vida ou um novo uso (BAKOS, 2004).

Fotos: Penny Dreadful (Divulgação)

E é um dos ramos da Egiptomania que estuda o fascínio dos ocultistas em se misturar em suas sessões elementos da antiga civilização egípcia. Durante o século XIX essas sessões costumavam ocorrer em salões particulares ou em gabinetes de pessoas ricas. E é em um desses salões que os personagens principais de Penny Dreadful se depararam com o nome Amonet. Referida no enredo como “A Oculta”, Amonet é tomada como um demônio bastante perigoso e que se cujo poder foi libertado trará catástrofe. Mas, será que era isto mesmo?

 

Amonet: um demônio egípcio?

No Egito Antigo uma das tradições que existia era empregar a dualidade. O deserto versus o Nilo, a ordem versus o caos, a vida versus a morte. E também algumas divindades possuíam sua contraparte. É o caso dos deuses da “Ogdóade de Hermópolis”. Este grupo de deuses têm esse nome porque o “ogdóade” refere-se ao número 8 (LESKO, 2002).

Assim temos Nun e Naunet representando as águas primordiais, Kuk e Kauket a escuridão, Hu e Hauhet a ausência de forma e Amon e Amonet que representavam o ocultamento. O “ocultamento” de Amon e Amonet não é porque eles eram demônios que espreitavam no escuro, mas, pelo motivo de serem divindades cuja natureza expressava conceitos da criação de acordo com a concepção religiosa egípcia (LESKO, 2002).

 

Fontes:

BAKOS, Margaret. Egiptomania. O Egito no Brasil. 1a.. ed. São Paulo: Paris (Contexto), 2004.

DAVINO, Vanessa. Penny Dreadful: Rastros de clássicos góticos em palimpsesto televisivo de horror; Davino (UFBA); BABEL: Revista Eletrônica de Línguas e Literaturas Estrangeiras; ISSN: 2238-5754 – n.07, ago/dez de 2014.

LESKO, Leonard. “Cosmogonias e Cosmologia do Antigo Egito”. In: SHAFER, Byron; BAINES, John; LESKO, Leonard; SILVERMAN, David. As religiões no antigo Egito (Tradução de Luis Krausz). São Paulo: Nova Alexandria, 2002.

MOREIRA, Maria Elisa Rodrigues. Penny Dreadful: a literatura e o cinema nas telas da TV. In: Anais do XV Congresso Internacional da Associação Brasileira de Literatura Comparada. ABRALIC. Rio de Janeiro: UERJ, 2017. v. 3. p. 5324-5332.

 

Quais são os principais deuses do Egito Antigo

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Certamente você já ouviu falar de Anúbis, Ísis, Osíris e Hórus. Mas sabe quem é Atum? Hapi? Khepri? Veja este post até o final e conheça algumas das mais importantes divindades do Egito Antigo.

Entender a função de cada deus e deusa ajuda e conhecer mais obre o pensamento de uma determinada sociedade. No caso da Antiguidade egípcia, por exemplo, só de dar uma simples olhada na composição dos deuses, formas e funções já podemos arrecadar várias informações. Uma delas é que certamente os egípcios eram bastante ligados à natureza e outra é que não tinham tabus em relação a morte, tentando até dar algum significado para ela.

No nosso episódio piloto da série “Deuses do Egito Antigo” explico de uma forma geral e didática sobre o surgimento e aparência das divindades egípcias. Também ensino como é que os egípcios chamavam os seus deuses:

Rá, Atum, Khepri

Estas três divindades eram relacionadas com o Sol. Atum era um deus criador, nascido no Mar Primordial e quem iniciou a criação de todas as outras divindades e os humanos. Khepri era a manifestação do sol nascente, representado por um escaravelho e Rá a manifestação do Sol do meio-dia.

Sekhmet, Thot, Amon

Sekhmet era filha de Rá e deusa da cura e das artes bélicas, sua forma era a de uma mulher com a cabeça de uma leoa. Já Thot um deus lunar, senhor da sabedoria e escrita, sendo assim o padroeiro dos escribas. E Amon, outrora um deus menor, foi transformado em divindade suprema do Egito a partir do Novo Império.

Tefnut, Shu, Nut, Geb

O casal Tefnut e Shu eram filhos de Atum. A primeira era a representação da umidade e o segundo o deus do ar. Ambos eram os pais de Nut e Geb. Nut era a divindade do céu noturno e Geb o deus que representava a terra. Os dois eram os pais de Ísis, Osíris, Néftis e Seth.

Ísis, Osíris, Seth e Néftis

Estes quatro deuses fazem parte de um dos mitos mais importantes do Egito. Ísis e Osíris era um casal, assim como Seth e Néftis. Os primeiros eram governantes do Egito, até que Osíris foi assassinado por seu irmão invejoso Seth. Para reverter isso Ísis ressuscita o seu esposo que passa a ser o deus do mundo dos mortos.

Hórus, Anúbis, Hathor

Hórus era o filho de Ísis e Osíris e a representação do faraó. Já Anúbis filho de Néftis e Osíris. Seu papel era o de ser o senhor da mumificação e guardião dos cemitérios. Hathor era a deusa do amor, das festas e do desejo sexual.

Maat, Hapi

Maat era a personificação do equilíbrio de tudo. Era a ela quem o faraó deveria responder, assim como todos os humanos. Inclusive está presente durante a pesagem do coração, onde a sua pena deveria ser pesada contra o coração do falecido. Hapi era a divindade que enviava as cheias do Nilo.

Saiba mais: Para uma lista mais completa adquira o livro “Uma Viagem pelo Nilo”. Lá você encontrará um glossário com dezenas de divindades, inclusive as estrangeiras que foram cultuadas no Egito.

Acesse este link para comprar: www.arqueologiaegipcia.com.br/compras/

10 brinquedos do Egito Antigo que você precisa conhecer

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Muitos brinquedos da antiguidade egípcia são bastante parecidos com os nossos atuais. As crianças do Período Faraônico poderiam se distrair brincando com bonecos de pano ou madeira, animais com bocas móveis, bolas, jogos de azar ou aqueles que envolviam o raciocínio. Os arqueólogos encontraram ao longo dos anos uma série de artefatos do tipo, mas a pena é que entre alguns o uso se perdeu com o tempo.

Nesta modesta lista vocês poderão conferir um pouco deste lado lúdico dos antigos egípcios e quem sabe rememorar a sua própria infância.

1 – Jogo dos cães contra chacais:

Fonte: Met Museum

Este jogo possui uma gaveta para armazenar as peças as quais são cinco pinos com cabeças de cães e cinco com cabeças de chacais. Já o tabuleiro tem a forma de uma lâmina de machado e possui 58 furos na superfície, além do desenho de uma palmeira e um sinal de shen no centro. O shen era o símbolo hieroglífico para ouro. Como outros jogos advindos do Egito Antigo não se possuem registros de quais eram as suas regras. Howard Carter e Lord Carnarvon em sua publicação Five Years of Explorations at Thebes, A Record of Work Done 1907-1911 (1912, página 58) deduziu como ele pode ter funcionado:

“Presumindo que o símbolo ‘Shen’… seria o objetivo, encontramos em ambos os lados vinte e nove buracos, ou incluindo o objetivo, trinta à parte. Entre esses buracos, de cada lado, dois estão marcados… ‘nefer’, ‘bons’; e quatro outros estão ligados entre si por linhas curvas. Supondo que os buracos marcados como ‘bons’ incorrem em um ganho, parece que os outros, conectados por linhas incorrem em uma perda. Agora, os movimentos em si poderiam ter sido facilmente definidos pela possibilidade do lançamento de ossos ou dados… e, portanto, temos diante de nós um jogo de azar simples, mas excitante”.[1]

Esta peça pertence ao Médio Reino, 12ª Dinastia.

2 – Senet

Fonte: Egypt About

O senet era um jogo de tabuleiro o qual era dividido em três fileiras de dez quadrados. Alguns dos quadrados tinham símbolos que representavam a má e boa fortuna. Sabe-se que era um jogo de estratégia, mas não existe certeza de quais eram as suas regras. Entretanto, no geral a crença é de que o vencedor era aquele que conseguisse levar suas peças para o final do lado do seu oponente.

3 – Cavalo com rodinhas

Fonte: British Museum

Outrora colorido, este cavalinho de madeira com rodinhas provavelmente era puxado por uma cordinha, a julgar pelos orifícios que se encontram na área da sua boca. Esta peça foi datada como sendo do Período Romano.

4 – Boneco de madeira representando uma pessoa moendo grãos

Fonte: Rob Koopman

Não são somente as nossas atuais Barbies que exercem profissões no mundo das brincadeiras. Entre os antigos egípcios brincar de estar exercendo alguma tarefa na comunidade também era comum. Neste exemplo temos uma pessoa segurando uma pedra que serve como um moedor de grãos. O brinquedo possui uma mecânica que torna capaz o indivíduo que está brincando poder mover o bonequinho: puxando a cordinha o tronco dele se move fazendo com que ele se mexa como se estivesse moendo grãos.

5 – Gato de madeira

 

Fonte: British Museum

Este gato de madeira (ou talvez uma leoa) com dentes de bronze poderia ter sua mandíbula mexida graças a uma corda (a qual atualmente é uma réplica) que atravessa a parte superior da sua cabeça. Este exemplar provavelmente pertente ao Novo Império.

6 – Rato de cerâmica e madeira

Fonte: British Museum

Este é um rato feito de cerâmica e possui uma mandíbula de madeira articulada, que era operada por um fio. A questão é: como se brincava com ele?

7 – Mehen

Fonte: Neues Museum

O mehen, que também é chamado de Jogo da Cobra, trata-se de uma placa circular que mostra um padrão imitando este animal. Seu nome faz referência ao deus Mehen, divindade relacionada justamente com as cobras. Embora apareça em alguns registros iconográficos não se sabe quais eram as suas regras.

8 – Bola

Fonte: British Museum 

As bolas egípcias naturalmente eram diferentes das nossas. No caso da antiguidade elas eram feitas com farrapos de tecido, couro, folhas de palmeira ou outros vegetais, que usualmente eram atados com cordas. Contudo, existem exemplos ocos deste brinquedo.

9 – Bonecos de pano

Fonte: British Museum

Bonecos de pano também faziam parte da brincadeira. Feitos usualmente de linho e recheados com trapos e papiro, eles eram enfeitados com ornamentos, a exemplo desta peça, que no passado provavelmente possuía um pequeno enfeite para cabelos. Pensa-se nisso por conta da presença de uma pequenina pedra azul na lateral esquerda da sua cabeça. Esse artefato é datado do Período Romano.

 

10 – Dados

Fonte: Met Museum

Em sítios arqueológicos egípcios foram encontrados diferentes tipos de dados onde alguns lembram os nossos usuais de seis lados (com direito ao uso de pontinhos para, provavelmente, indicar quantidades) e outros de formato poliedro, muito parecidos aos utilizados pelos jogadores de RPG. Não se sabe os tipos de regras que envolvem um dado poliedro, mas acredita-se que eles poderiam ser utilizados tanto para jogos, como para adivinhações oraculares. Este da imagem é datado do Período Greco-Romano.

Fontes:

[1] Game of Hounds and Jackals. Disponível em < https://www.metmuseum.org/art/collection/search/543867 >. Acesso em 11 de outubro de 2017.

Ancient Egyptian Games. Disponível em < http://www.ancient-egypt-online.com/ancient-egypt-games.html >. Acesso em 11 de outubro de 2017.

The Game of Senet. Disponível em < http://www.gamecabinet.com/history/Senet.html >. Acesso em 11 de outubro de 2017.


  • Para fontes adicionais consulte as legendas das imagens.

A Estrela Sirius no Egito Antigo

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Muitas comunidades do passado utilizavam o céu noturno como parâmetro para uma série de coisas tais como prever cheias, a contagem do tempo e localização geográfica. Entre os antigos egípcios isso não foi diferente.

Montagem: sciencefreek.

O céu noturno era entendido como o corpo da deusa Nut, que tentava se ligar com a terra, o deus Geb, mas que era impedida pelo ar, o deus Shu. O corpo de Nut era composto por estrelas as quais, em alguns textos religiosos, são tidas como “embarcações iluminadas” navegando pelo o corpo da deusa (LESKO, 2002).

— Saiba mais: Detalhe da criação do cosmo no sarcófago de Butehamon

Foi a familiaridade com o céu noturno e a natureza em terra que fez os antigos egípcios perceberem um padrão: assim que uma determinada estrela extremamente brilhante surgia no céu tinha início as cheias do rio Nilo. Essa estrela é chamada atualmente de Sirius, mas durante a antiguidade egípcia foi denominada como Sopdet (Sothis, em grego), deusa responsável por anunciar as inundações do Nilo, protetora da agricultura, do tempo e da fertilidade. Além de, por vezes, associada com a deusa Ísis.

Deusa Sopdet (não confundir com Seshat). Imagem: Creative Commons.

Com as cheias tinha início a estação Aket [1], que abria o ano egípcio. Ou seja, era o surgimento de Sopdet um dos eventos que anunciava o Ano Novo.

Fonte:

DESPLANCQUES, Sophie. Egito Antigo (Tradução de Paulo Neves). Porto alegre: L&PM, 2011.

LESKO, Leonard. “Cosmogonias e Cosmologia do Antigo Egito”. In: SHAFER, Byron; BAINES, John; LESKO, Leonard; SILVERMAN, David. As religiões no antigo Egito (Tradução de Luis Krausz). São Paulo: Nova Alexandria, 2002.

ROSSI, Corinna. Science and Technology: Pharaonic. LLOYD, Alan, B (Ed). A Companion to Ancient Egypt. England: Blackwell Publishing, 2010.


[1] O ano egípcio era dividido em três estações: Aket, Peret e Shemu.

Djet, o rei com o signo da serpente

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Djet (também chamado de Uadji) foi o terceiro rei da 1ª Dinastia​ (Período Arcaico, também chamado de Dinastia Tinita).  Seu reinado marca o ponto no qual as iniciativas dos governos de Aha e Djer — de organizar um Egito unificado poucos anos antes — começaram a dar frutos (RICE, 1999). O seu nome é representado com o signo da serpente: ele é escrito com o hieróglifo de uma cobra acima da fachada do palácio que forma as bases do serekh, estrutura em que os nomes dos reis eram representados nesse período (RICE, 1999).

O nome de Djet está do lado esquerdo, dentro do serekh. Foto: Creative Commons.

Governo e sociedade na época:

Igualmente a alguns outros reis do período tinita, Djet possui artefatos votivos a ele. Um exemplo é uma grande estela que traz o seu nome dentro de um serekh cobrindo quase toda a superfície (Imagem 1). Ela foi encontrada nas proximidades de sua tumba e atualmente está exposta no Museu do Louvre (RICE, 1999; HENDRICKX; FORSTER, 2010).

Estela com o nome de Djet. Foto: Creative Commons.

Outro é um pente de marfim com 8 centímetros de comprimento em que o serekh com o seu nome é protegido por um falcão e ladeado por três símbolos hieroglíficos: dois cetros uas, simbolo do poder real e uma ankh, simbolo da vida. Todos estes elementos estão sob uma embarcação que possui em sua base um par de asas, cujo único tripulante é também um falcão. Esta é uma provável alegoria do deus sol exercendo sua viagem diária, enquanto navega pelo céu (EINAUDI, 2009).

Pente votivo a Djet. Fonte: EINAUDI, 2009.

Não se conhece muito detalhes do seu reinado, contudo se sabe que um vinhedo foi dedicado ao seu uso e pelo menos duas substanciais mastabas de Saqqara e Gizé datam do seu governo (RICE, 1999).

Também não se sabe quantos anos duraram o seu reinado, mas cogita-se que foram poucos (RICE, 1999).

Sepultamento:

Acredita-se que Uaji tenha sido sepultado em uma grande tumba em Abidos, mais especificamente em Umm el-Qa’ab, na Tumba Z. A exemplo dos seus dois antecessores ele foi acompanhado por fileiras de corpos humanos provenientes de sacrifício; só não se sabe se estas pessoas se voluntariaram para a morte, a fim de seguir o seu líder, ou foram obrigadas (RICE, 1999; WILKINSON, 2010).

Fonte:

EINAUDI, Silvia. Coleção Grandes Museus do Mundo: Museu Egípcio Cairo (Tradução de Lúcia Amélia Fernandez Baz). 1º Título. Rio de Janeiro: Folha de São Paulo, 2009.

HENDRICKX, Stan; FORSTER, Frank. Early Dynastic Art and Iconography. In LLOYD, Alan, B (Ed). A Companion to Ancient Egypt. England: Blackwell Publishing, 2010.

RICE, Michael. Who’s Who in Ancient Egypt. Londres: Routledg. 1999.

WILKINSON, Toby. The Early Dynastic Period. In LLOYD, Alan, B (Ed). A Companion to Ancient Egypt. England: Blackwell Publishing, 2010.