83 sepulturas com cerca de 5 mil anos foram encontradas no Egito

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Uma missão de pesquisa do Conselho Supremo de Antiguidades do Egito, anunciou esta semana a descoberta de oitenta e três sepulturas durante escavações arqueológicas na província de Daqahliya, que fica a cerca de 70 km da antiga cidade de Buto, atual Tell el-Fara’in. 

Daqahliya está situada no Delta do Nilo, que graças às suas grandes áreas cultiváveis é uma região povoada já desde o Período Pré-Dinástico — época anterior à unificação do Alto e Baixo Egito —. E é justamente desta época que são datadas essas covas recém-abertas. 

Um detalhe muito intrigante é que quando os arqueólogos iniciaram a limpeza do local perceberam que, pela posição de alguns ossos, aparentemente os mortos tinham sido enterrados de cócoras, em vez da posição clássica deitada. Juntamente com os ossos estavam objetos funerários, incluindo conchas de ostras.

Outra descoberta notável foram a de dois caixões feitos com argila, algo extremamente raro nesta região e período. Outro detalhe é que em três dos sepultamentos foram encontradas duas tigelas contendo kohl, um cosmético egípcio utilizado para fazer o clássico delineado negro ao redor dos olhos.

Passado e Presente: Tubo para guardar kohl

Esta pesquisa é extremamente importante porque a área do delta do Nilo, por conta da presença de vários braços de rios e consequentemente a umidade, costuma ser menos propícia para a conservação de artefatos tão antigos. Então, o descobrimento de 83 sepulturas nos dará detalhes sobre como era a vida nesta região, o que as pessoas comiam nesta época, doenças, taxas de mortalidade e ascendência. 

Fontes:

83 ancient graves discovered in Egypt’s Nile Delta. Disponível em < http://english.ahram.org.eg/NewsContent/9/40/363414/Heritage/Ancient-Egypt/-ancient-graves-discovered-in-Egypts-Nile-Delta-.aspx >. Acesso em 12 de fevereiro de 2020. 

83 ancient graves discovered in Egypt’s Daqahliya Governorate. Disponível em < https://www.egyptindependent.com/83-ancient-graves-discovered-in-egypts-daqahliya-governorate/ >. Acesso em 13 de fevereiro de 2020.

Múmias de sacerdotes do deus Thot são encontradas em grande tumba; filho de faraó também está lá!

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

O Ministério das Antiguidades do Egito divulgou na última quinta-feira a descoberta de tumbas na província de Minya. A maioria pertence a sacerdotes que viveram há 3.00 anos no Egito. No total são 16 túmulos contendo 20 sarcófagos, cinco dos quais são feitos talhados na pedra calcária. A descoberta foi feita por uma missão arqueológica liderada por Mustafa Waziri, secretário-geral do Conselho Supremo de Antiguidades.

Tratam-se de sepulturas compartilhadas das quais algumas eram de sacerdotes que trabalhavam a serviço ao deus Thot, divindade da escrita. As demais são de altos funcionários do Período Tardio.

No local também foram encontrados 10.000 ushabtis, alguns de cor azul (cor símbolo da divindade) e outros de cor verde (cor símbolo da fertilidade). Ushabtis são pequenas estátuas funerárias que eram colocadas em túmulos para servir ou substituir o falecido em tarefas cotidianas no além mundo. 

Também foram encontrados recipientes canópicos (onde os egípcios colocavam os órgãos mumificados) feitos com calcário pintado (e ao menos um deles pertencia a uma mulher) e 700 amuletos; alguns representando escaravelhos.

Muitos vasos de cerâmica de diferentes formas e tamanhos, usados ​​para fins funerários e religiosos, também foram desenterrados juntamente com ferramentas para cortar pedras e mover caixões, como martelos de madeira.

Durante um comunicado para imprensa, Waziri disse que um dos sarcófagos de pedra pertence ao filho do rei Psamético (não foi esclarecido qual deles), que assumiu o título de chefe do tesouro real. Ele possuía muitos títulos, dos quais um dos mais importantes era o de sacerdote de Osíris e Nut.

Fonte: 

Sarcophagus dedicated to sky god among latest ancient Egypt trove. Disponível em < https://phys.org/news/2020-01-sarcophagus-dedicated-sky-god-latest.html >. Acesso em 30 de janeiro de 2020. 

In photos: Communal tombs for high priests uncovered Upper Egypt. Disponível em < http://english.ahram.org.eg/NewsContent/9/40/362609/Heritage/Ancient-Egypt/In-photos-Communal-tombs-for-high-priests-uncovere.aspx >. Acesso em 30 de janeiro de 2020. 

16 ancient Egyptian burial shafts see the light in Minya. Disponível em < https://wwww.dailynewssegypt.com/2020/01/30/16-ancient-egyptian-burial-shafts-see-the-light-in-minya/ >. Acesso em 30 de janeiro de 2020. 

A verdade por trás da história da voz da múmia de um sacerdote egípcio

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

“O som de um indivíduo mumificado de 3000 anos de idade foi reproduzido com precisão com um tipo de som de vogal”, é assim que começa o artigo que revelou ao mundo que  uma equipe de acadêmicos de diferentes universidades (a maioria advindas do Reino Unido) teria reproduzido a voz de um sacerdote egípcio [1]. O nome deste homem da antiguidade é Nesyamun e ele viveu durante o reinado do faraó Ramsés XI, que por sua vez reinou por volta do início do século 11 aC.

Foto: Leeds Museums and Galleries

A múmia de Nesyamun, que atualmente está no Leeds City Museum, foi desembrulhada em 1824 e trabalhos subsequentes revelaram que ele estava na casa dos 50 anos quando morreu. Alguns chegaram a sugerir que ele teria falecido por estrangulamento, mas hoje acredita-se que ele padeceu por conta de uma reação alérgica, possivelmente resultado de uma picada de inseto na língua [1]. 

Foto: Leeds Museums and Galleries

De acordo com o texto, a partir dos dados obtidos de uma tomografia computadorizada, foram conseguidas as medições exatas do trato vocal (que compreende as cavidades faríngea, oral e nasal) do falecido. Foi assim que surgiu a ideia de se realizar uma reprodução do trato em 3D e tentar ouvir como seria a voz de um sacerdote egípcio falecido [1]. 

Como justificativa para o trabalho, os pesquisadores afirmam que a proposta da pesquisa é dar oportunidade de levar as pessoas a se envolver com o passado. Ainda de acordo com o artigo, questões éticas foram levantadas pela equipe, assim como seus possíveis resultados para o patrimônio. Os pesquisadores concluíram que os benefícios potenciais superavam as preocupações, principalmente porque “as próprias palavras de Nesyamun expressavam seu desejo de ‘falar de novo’” [1]. 

“Falar de novo” faz parte da tradição religiosa egípcia e tem a ver com o Ritual de Abertura da Boca. Em tal ritual a boca do morto era aberta magicamente para que ele pudesse comer novamente, respirar e falar. Usar esta antiga tradição como justificativa para uma pesquisa científica que se propõe ser séria não é válida, até porque, se for para seguir os desejos de Nesyamun certamente ele não desejaria que seu corpo estivesse na Inglaterra sendo exposto para estranhos, mas em sua tumba no Egito.

Imagem disponível em: Howard, D.M., Schofield, J., Fletcher, J. et al. Synthesis of a Vocal Sound from the 3,000 year old Mummy, Nesyamun ‘True of Voice’. Sci Rep 10, 45000 (2020). https://doi.org/10.1038/s41598-019-56316-y

Outra parte problemática desta pesquisa é que eles estão usando o corpo de alguém que está morto há 3000 anos e que passou por uma mumificação severa (que é a egípcia) onde músculos e órgãos, dentre eles a língua e os pulmões (este último foi removido do corpo durante a mumificação) viraram um amontoado de carne enrugada e seca. Mesmo com um tomógrafo não é possível ter exatidão para saber como eram estas partes do corpo quando o indivíduo estava vivo. Só este detalhe já tornaria irreal a frase de abertura do artigo, “O som de um indivíduo mumificado (…) reproduzido com precisão”.

Inclusive o David Howard, um dos acadêmicos por trás do projeto, esclareceu para a CNN que “Na verdade, não é um som que ele provavelmente teria feito na prática porque a maior parte da sua língua não existe” [2]. 

Não bastassem estes problemas iniciais, até a forma como o som foi “resgatado” é controverso. A equipe utilizou uma ferramenta de síntese de fala chamada Vocal Tract Organ [3], que reconstrói o som que sairia de um trato vocal. Basicamente o trato vocal impresso em 3D de Nesyamun foi conectado a um alto-falante e os pesquisadores emitiram um sinal eletrônico imitando o som de uma “saída acústica da laringe humana”.  O resultado? O som que saiu foi algo que lembra um sonoro“eh”, um simples gemido, mas que exageradamente alguns sugeriram que poderiam ser as palavras em inglês “bed” (cama) ou “bad” (mau). A múmia do sacerdote não “falou” como muitas mídias chegaram a veicular, tão pouco a “voz” que saiu não foi de um sacerdote morto há 3000 anos, foi um som artificial criado pela própria equipe. Escute o som: 

Alguns pesquisadores que não participaram da equipe e que foram consultados por veículos da imprensa também esclareceram que existem pontos preocupantes nesta pesquisa. Um deles é Daniel Bodony, especialista em aeroacústica da Universidade de Illinois, que explicou ao portal Post que a aproximação eletrônica da equipe “parece pequena” porque a múmia de Nesyamun não possui cordas vocais completas capazes de adicionar “riqueza e emoção” às palavras de alguém [3]. Outro é Rudolf Hagen, especialista em reconstrução do tórax, ouvido, nariz e garganta do Hospital Universitário de Wuerzburg, Alemanha. Ele expressou ceticismo explicando que até a medicina de ponta luta para dar às pessoas vivas sem tórax uma voz “normal” [4]. 

Então explicando algumas das falhas dessa pesquisa ponto a ponto:  

  • A equipe utilizou uma interpretação distorcida das práticas religiosas dos antigos egípcios para justificar sua pesquisa. E ainda falou que isso é uma justificativa ética. Distorcer as falas de uma cultura não é ético. 
  • A voz de alguém do passado não dará nenhuma informação sobre a cultura e nem mesmo sobre a linguagem da sociedade em que ele viveu. 
  • Qual o benefício real para a sociedade atual? Embora a Arqueologia trabalhe com o passado, as pesquisas têm como uma de suas principais intenções entender mais sobre a nossa identidade. Então saber como era a voz de um sacerdote morto há 3000 está mais para uma curiosidade mórbida, do que uma informação útil. 
  • Mesmo que os autores do artigo falem que escutar a voz de Nesyamun seja uma oportunidade de chamar as pessoas para museus, o que elas ouvirão não é a voz dele. É uma recriação eletrônica e artificial. Afirmar que é a voz real dele chega a ser irresponsável para com a sociedade.     

Fontes:

[1] Synthesis of a Vocal Sound from the 3,000 year old Mummy, Nesyamun ‘True of Voice’. Disponível em < https://www.nature.com/articles/s41598-019-56316-y  >. Acesso em 23 de janeiro de 2020. 

[2] Voice of a 3,000-year-old Egyptian mummy reproduced by 3-D printing a vocal tract. Disponível em < https://edition.cnn.com/2020/01/23/world/egyptian-mummy-voice-from-the-dead-scn/index.html >. Acesso em 26 de janeiro de 2020. 

[3] Listen to the Recreated Voice of a 3,000-Year-Old Egyptian Mummy. Disponível em < https://www.smithsonianmag.com/smart-news/listen-recreated-voice-3000-year-old-egyptian-mummy-180974048/ >. Acesso em 26 de janeiro de 2020. 

Talk like an Egyptian: mummy’s voice heard 3,000 years after death. Disponível em < https://www.theguardian.com/science/2020/jan/23/talk-like-an-egyptian-mummys-voice-heard-3000-years-after-death >. Acesso em 23 de janeiro de 2020. 

Scientists Recreate The Voice of a 3,000-Year-Old Egyptian Priest’s Mummy. Disponível em < https://www.sciencealert.com/egyptian-mummy-from-3-000-years-ago-finally-makes-its-voice-heard >. Acesso em 24 de janeiro de 2020. 

[4] The mummy speaks: Ancient Egyptian priest’s voice recreated by scientists. Disponível em < https://www.cbc.ca/news/technology/mummy-voice-1.5438831 >. Acesso em 24 de janeiro de 2020. 

Attempts to Reconstruct a Mummy’s Voice Are Cursed. Disponível em < https://hyperallergic.com/539573/attempts-to-reconstruct-a-mummys-voice-are-cursed/ >. Acesso em 27 de janeiro de 2020. 

Instagramer é preso por escalar Grande Pirâmide do Egito

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Parece que está ficando cada vez mais recorrente as pessoas estarem mais desinibidas em mostrar seus crimes na internet. Nos últimos anos tivemos alguns casos famosos de turistas estrangeiros se aventurando a subir nas pirâmides do platô de Gizé (onde se encontra a Grande Pirâmide) e tirar uma selfie no topo. 

Em 2013 russos aproveitaram a distração dos guardas que trabalhavam na área turística das pirâmides e escalaram a sepultura do faraó Khufu. Lá tiraram fotos que rodaram o mundo, arrancando comentários elogiosos que desconhecem que tais russos precisaram lançar um pedido de desculpas ao povo egípcio por terem subido em um Patrimônio da Humanidade. E em 2018 um instagramer e sua amiga subiram também da pirâmide de Khufu e além de uma selfie, eles tiraram uma fotografia simulando um ato sexual. 

Vandalismo em sítios arqueológicos no Egito: Ding Jinhao não é o único caso

Filme com cena de sexo no topo da Grande Pirâmide? O governo egípcio está investigando! 

Agora em 2020 é a vez do instagramer Vitaly Zdorovetskiy, que possui 3,1 milhões de seguidores no Instagram. Ele compartilhou em seu perfil uma foto em que ele está no topo da pirâmide com a seguinte legenda: “Nenhuma palavra pode explicar o que acabei de passar nos últimos cinco dias. Já estive na prisão muitas vezes, mas essa foi de longe a pior. Vi coisas horríveis e não desejo isso a ninguém.”, mas qualquer traço de susto ou simples arrependimento são inexistentes, já que ele continua a seguir “Valeu a pena? Fod*-se, sim!” (imagem 1).

Depois ele compartilhou um vídeo se justificando, explicando que este ato na verdade tinha uma justificativa por trás: “Fiz isso por uma boa causa e fiquei 5 noites na prisão egípcia. Mesmo que eu já tenha sido preso pelo mundo várias vezes por minhas cenas de ação anteriores, essa foi a experiência mais horrível da minha vida. Vamos nos unir e doar para a Austrália. Espero que o mundo me ouça!” (imagem 2).

Em uma das postagens está uma fotografia onde tem uma placa com os dizeres em inglês “Não Escale”:

Tem quem tenha elogiado tal ato, agradecendo por dar visibilidade aos incêndios na Austrália. Porém, nem todo mundo comprou esta ideia:

“Você precisa respeitar as culturas das pessoas porque isso não é legal” e “Como você promove ajudar um país desrespeitando outro”

O egiptólogo Thomas Greiner também teceu um comentário sobre o assunto: “o influenciador “King Vitaly” foi preso recentemente por sua escalada na Grande Pirâmide em #Giza. Ele passou cinco dias na prisão, mas não deveria haver punições mais duras pelo uso das antiguidades do Egito por seu golpe publicitário?”

O colunista Stewart Perrie para o site LadBible explica que Vitaly já apareceu na mídia por uma outra polêmica. Ele incentivou a namorada Kinsey Wolanski a invadir uma partida da Liga dos Campeões em Madri, vestindo apenas um maiô. O motivo? Promover o negócio dele: um site de pornografia. Ela teve uma breve passagem pela cadeia, já ele? Saiu no lucro por ter feito propaganda totalmente de graça no horário nobre. 

E é uma estranha coincidência do destino que mais ou menos na mesma semana em que ele postou as fotos e vídeo em seu perfil se vangloriando de ter escalado a pirâmide, eu gravei o vídeo abaixo para o nosso canal:

Em alguns momentos eu falo sobre o turismo consciente e faço um apelo para que aqueles que tiverem o privilégio de visitar sítios arqueológicos não tirem fotos com flash, não joguem lixo no chão e… Não subam nas estruturas arqueológicas. Só para vocês terem uma ideia do quão frequente estas coisas acontecem. 

O que as pessoas não fazem por likes e atenção nas redes sociais. 

Fontes:

Instagram Influencer Jailed For Climbing Pyramids In Egypt. Disponível em < https://www.independent.co.uk/travel/news-and-advice/vitaly-egypt-jail-prison-pyramids-climb-giza-arrest-instagram-youtube-a9288051.html >. Acesso em 20 de janeiro de 2020.

Social Media Influencer Was Thrown In Jail For Climbing Pyramids Of Giza. Disponível em < https://www.ladbible.com/news/news-influencer-was-thrown-in-jail-for-climbing-egyptian-pyramids-20200115 >. Acesso em 16 de janeiro de 2020.

A busca por “espaços vazios” na Grande Pirâmide do Egito continua

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Em 2017 a revista Nature anunciou que físicos descobriram um espaço vazio dentro da Grande Pirâmide de Gizé. De acordo com a matéria, esse espaço foi encontrado através da detecção de múons. A Grande Pirâmide foi o túmulo do faraó Khufu (Queóps), que reinou durante a IV Dinastia (há cerca de 4500 anos) e foi feita com pedra calcária e granito.

Porém, ao contrário do que foi dito pela Nature, muitos veículos de imprensa anunciaram erroneamente que este achado se tratava de uma “câmara oculta”, dando a impressão de que novas salas teriam sido encontradas dentro da tumba. A Grande Pirâmide já possui câmaras identificadas, são elas a “Câmara da Rainha”, a “Câmara do Rei” e as “câmaras de descarga” ou “câmaras de alívio”.  Mas este espaço vazio anunciado em 2017 poderia ser uma série de coisas, inclusive, na pior das hipóteses, uma rachadura na estrutura do edifício. 

A controvérsia diante do anúncio da descoberta de “espaços vazios” na Grande Pirâmide

E agora em 2020 um grupo de pesquisadores japoneses da Universidade de Kyushu planejam realizar novamente a pesquisa com múons para tentar entender o que é este espaço vazio. “A cavidade descoberta anteriormente é muito grande do ponto de vista arqueológico”, disse Sakuji Yoshimura, que lidera o projeto de pesquisa geral envolvendo outras universidades. “Estamos muito interessados ​​em verificar as descobertas.”

Pirâmide de Khufu. Foto: Nina Aldin Thune via Wikimedia Commons.

Espera-se que os resultados dessas pesquisas sejam divulgados por volta do final do ano.

Fonte:

Team to re-scan Great Pyramid of Giza to pinpoint hidden chamber. Disponível em <http://www.asahi.com/ajw/articles/AJ202001110001.html>, acesso em 13 de Janeiro de 2020.

Antiga estátua quebrada em invasão a museu do Egito passou por restauro

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

No ano de 2013, o Egito presenciou tristes acontecimentos. O Museu de Mallawi foi invadido, saqueado e em seguida parcialmente incendiado no início do mês de agosto pelo grupo auto intitulado Irmandade Muçulmana. Vários artefatos foram avariados ou totalmente destruídos, assim como um dos seguranças do local foi assassinado. 

Soma-se a tragédia o roubo de 1040 objetos arqueológicos dos 1089 que estavam no prédio; nos dias seguintes a própria população local saiu em busca das peças roubados, conseguindo recuperar algumas.

Hoje, quase 7 anos após o ocorrido, o Museu de Mallawi continua a se reerguer e até criou atividades, a exemplo da competição do “artefato do mês”. Nela, quatro artefatos estavam competindo nas páginas oficiais do museu nas mídias sociais. A peça vencedora é uma estátua de pedra calcária representado um homem e uma mulher sentados e que remonta à 6ª Dinastia (Antigo Reino). Mas ela tem algo muito especial: é um dos artefatos que tinham sido danificados durante a invasão de 2013

Imagem publicada nas redes sociais do museu.

No nosso post da época é possível ver fotografias tiradas horas após o incêndio ter sido contido e dentre os artefatos avariados ou totalmente destruídos está ela, a estátua em questão. Ela está tombada de lado coberta por cinzas e chamuscada. As faces do homem e da mulher estão quebradas e as partes arrancadas estão espalhadas pelo chão. 

Porém, a equipe de restauro conseguiu cuidar do objeto e dar quase o mesmo brilho que ele tinha antes da invasão. 

Agora, a estátua está disponível para visitação no próprio museu. 

O Museu do Mallawi foi fundado em 23 de junho de 1962 em Minya durante o governo do presidente Gamal Abdel Nasser. Ele tinha dois andares com quatro salas mostrando artefatos da era faraônica e períodos greco-romano, assim como coptas e do Egito medieval. Foram necessários mais de três anos para restaurar o museu, que foi reaberto em 22 de setembro de 2017. Agora ele contém 944 artefatos, incluindo 441 das exposições antigas.

Fonte:

Ancient statue damaged by MB restored, exhibited in Malawi Museum. Disponível em < https://www.egypttoday.com/Article/4/79432/Ancient-statue-damaged-by-MB-restored-exhibited-in-Malawi-Museum >. Acesso em 11 de janeiro de 2020. 

A princesa Ahmanet de “A Múmia” existiu?

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Em 2017 estreou um filme chamado “A Múmia”, que caso você não seja muito antenado no mundo do cinema, faz parte de uma franquia quase centenária. Franquia esta que se apoia em um enredo em que múmias egípcias, por algum acidente ou acaso do destino, acabam sendo trazidas de volta à vida e caminham por aí espalhando o mal ou a destruição.

O primeiro filme “A Múmia” foi lançado 1932 estrelando Boris Karloff e Zita Johann. Nele o sacerdote Imhotep, por meio de um encantamento, acaba sendo trazido de volta a vida e descobre que seu amor do Egito Antigo reencarnou. Nas décadas seguintes a Universal Studios lançou vários filmes usando parte dessa premissa. Dois dos mais famosos é o “A Múmia” de 1999 e “O Retorno da Múmia” de 2001. Neles vemos a reutilização de parte da história e do nome do personagem Imhotep. 

A franquia então ficou no congelador por um tempo até que foi anunciado o novo filme. A proposta era que esse novo “A Múmia” seria a porta de entrada para o Dark Universe; inspirado nas franquias de super-heróis, esperava-se que fosse criado um universo de monstros clássicos da Universal Studios. O filme porém não agradou e o sonho da Dark Universe parece ter descido pelo ralo. 

Nele, temos a personagem Ahmanet interpretada pela Sofia Boutella. Trata-se de uma princesa egípcia que após cometer assassinato é punida sendo enterrada viva. Milênios depois seu sarcófago é encontrado por um uma dupla de soldados que fazem bico como caçadores de tesouros (ou seja são corruptos, por que caça tesouros, nesse caso artefatos arqueológicos, em alguns países é crime). 

E já que falei anteriormente de Imhotep: o nome dele é inspirado em uma personalidade do Egito Antigo e que ao contrário do filme, onde ele é um sacerdote, na vida real ele foi um arquiteto. Mas e a princesa Ahmanet? Ela  foi inspirada em alguém que existiu?

A resposta é não. Em termos de egiptologia não conhecemos ninguém que tenha tido um destino parecido com o dela, mas seu nome provavelmente foi inspirado no da deusa Amonet, que era uma contraparte do Deus Amon, uma das divindades principais do panteão egípcio. Por acaso cheguei a falar sobre Amonet em um vídeo lá do canal, já que ela faz uma pontinha na série Penny Dreadful.

Os egípcios antigos acreditavam em demônios?

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

O medo de grandes forças ocultas acompanha a humanidade desde os primórdios. Nem precisamos olhar com atenção para trás para observar representações do mal como criaturas que abitam o plano espiritual. Cada cultura ao redor do globo criou uma personificação dos seus temores e paranoias e com os antigos egípcios não poderia ser diferente.

Recentemente anunciei em meu Twitter que estou me empenhando na pesquisa das representações de seres malignos no Egito Antigo. Porém, ao contrário do que muitos devem imaginar, eles não são demônios, ao menos não no sentido católico. A palavra “demônio” vem do latim “daemon“, que por sua vez vem do grego “daímôn“, cujo significado, no que diz respeito a definição de Platão, seria “ser intermediário”. Porém, ao longo dos séculos a sua essência mudou, a exemplo da tradição cristã, que transforma os demônios na contraparte dos anjos.

Assim sendo, a adoção do termo “demônio” para entidades do mal no Egito Antigo, ao menos no sentido grego, não seria errada. Entretanto, o Brasil, apesar de ser um país laico, tem raízes bastante católicas. Desta forma, para evitar desvirtuar do que de fato eles eram, é mais válido chamar tais entidades de “espíritos malignos” (e benignos), do que de “demônios”.

Como eles eram?

Não sabemos muito sobre aparência e nomes de espíritos malignos egípcios. Mas sabemos, por exemplo, que existia um chamado “Sehaqeq” que é este menininho da imagem. Ele causava fortes dores de cabeça em suas vítimas.

Em uma fórmula mágica entoada para afastar doenças de crianças, temos a dica das características de outro destes seres: “Sai visitante das trevas, que te arrastas com o nariz e o rosto atrás da cabeça, sem saber por que estais aqui” (STROUHAL, 2007, p 24).

Contudo, apesar de não termos muitas informações sobre estas entidades, podemos identificá-las em antigos textos egípcios: tanto entidades malignas, como enfermidades, usualmente eram mencionadas em textos grafados em vermelho.

Formas de afastá-los:

Bom, os egípcios adotaram uma série de medidas para tentar afastar estes espíritos malignos. Infelizmente não conhecemos todas, afinal, muito dos significados da materialidade egípcia está no campo da especulação. Mas, uma delas, aparentemente era uma máscara do deus Bés.

— Veja também: Antigos feitiços egípcios prometiam trazer a pessoa amada

Bés era uma divindade egípcia representada por um homem com nanismo fazendo uma careta. Sua função era proteger as crianças e mulheres (especialmente durante o parto), afastar os maus sonhos e os maus espíritos.

Conhecemos a existência de amuletos representando Bés, assim como máscaras com o seu rosto, como foi o caso de uma encontrada em uma estátua feminina. Esta estátua foi descoberta no pátio do Ramesseum (Luxor), durante o século 19. Na mesma época uma máscara propriamente dita — a qual alguns acreditam representar esta divindade ou sua esposa, Beset — foi descoberta em Kahun (imagem).

A finalidade destas máscaras é uma grande incógnita. Alguns acadêmicos acreditam que elas poderiam ser vestidas durante rituais mágicos para a invocação de espíritos protetores. Estes protetores resguardariam as mulheres e as crianças afastando delas os espíritos malignos.

Também existiram fórmulas mágicas e poções que entoadas acreditava-se que poderia proteger, por exemplo, uma criança:

“Fiz uma poção que a protege, uma poção com a erva venenosa de afat e alho, que é ruim para ti, com mel, que é doce para o vivo, mas amargo para o morto, com restos e entranhas de peixes e bestas e com espinhos de perca.” (STROUHAL, 2007, p 24)

E Apophis? Ele era um espírito maligno?

Esta é uma pergunta bastante frequente sempre que comento algo sobre as entidades malignas, afinal, Apophis é uma grande serpente que todas as noites tentava devorar o deus sol, Rá. De acordo com alguns dos principais pesquisadores do assunto, Apophis, que é a variação grega do nome egípcio Apep, não seria uma entidade maligna e muito menos uma divindade. A posição dele na mitologia egípcia ainda é meio confusa… Em verdade ainda temos muito o que aprender sobre o mundo religioso egípcio.

Gostou deste tema? Então saiba mais sobre ele assistindo a este vídeo:

Fontes:

CASTEL, Elisa. Gran Diccionario de Mitología Egipcia. Madrid: Aldebarán, 2001.
Demons (benevolent and malevolent); Rita Lucarelli; UCLA Encyclopedia of Egyptology
STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007.

Halloween em Overwatch traz Ana como uma múmia

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

O Halloween está chegando e embora o Brasil não comemore esta festividade vários estabelecimentos comerciais estão enfeitados durante esta época. É neste período também que vemos vários youtubers preparando vídeos temáticos, canais de TV colocando em sua grade de programação filmes de suspense e horror e jogos online atualizando seus cenários e skins (visual) dos personagens. A ideia é deixar o público no clima do Dia das Bruxas.

Dentre os jogos online que estão curtindo este período está Overwatch, game que foi lançado em 2016 pela Blizzard e que desde então vem arrecadando vários fãs ao redor do mundo. Até alguns dos mapas do jogo foram enfeitados para entrar na brincadeira. Um deles é “Hollywood”, cujo cinema e a área de estúdio de gravações conta com a presença de abóboras assustadoras, teias de aranha, morcegos e outros detalhes arrepiantes.

Já entre as skins temos homenagens a monstros clássicos como vampiros, a noiva de Frankenstein e a múmia. Esta última trata-se da nova skin da personagem Ana, uma sniper egípcia. Ana é a mãe da Pharah, personagem a qual já ganhou um post aqui no Arqueologia Egípcia. Vejam que beleza esta skin a qual a Blizzard apelidou de “Faraó”:

Skin “Faraó” da Ana.

Como sempre a Blizzard não poupa nos detalhes: No peito da Ana está um escaravelho alado (símbolo da ressurreição) e a sua arma ostenta a cabeça de uma naja, usualmente utilizadas como símbolo de proteção da realeza egípcia.

Até a granada biótica (parte inferior da imagem abaixo) foi enfeitada com o tema egípcio e fica uma curiosidade aqui: a granada biótica é basicamente um recipiente com um líquido que pode tanto retirar como renovar a vida dos oponentes. E aqui ela está com uma imagem de um escaravelho, que como falei anteriormente é um simbolo de renascimento, assim como hieróglifos que representam a água. Ótima sacada Blizzard!

Mais detalhes da skin:

E mais detalhes da arma:

Para conseguir obter esta skin é necessário que o jogador use 3.000 coins (créditos do jogo) ou a encontre nas caixas de itens que o jogador venha a ganhar (ou comprar) ao longo do evento de Halloween.

Outro item temático é o spray da Ana como múmia:

Eu sou jogadora de Overwatch, mas até o momento não consegui nem o spray e muito menos a skin Faraó… Mas, eu e os demais jogadores temos até o dia 04 de novembro (2019) para conseguir. 🎃

Por que as pessoas do passado mumificavam?

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

As múmias mais famosas do mundo certamente são as egípcias. Graças a elas sabemos detalhes sobre a vida no Egito Antigo, tais como dieta, meio ambiente, causas de morte comuns e taxas de mortalidade. E estas múmias só existem pelo simples e puro fato de que os antigos egípcios acreditavam na vida após a morte e que os corpos mumificados seriam uma “parte da existência” necessária para tornar esta “continuação da vida” possível. A propósito: as múmias no Egito eram chamadas de “Sah”.

Múmia egípcia

Mas, não existiram múmias somente no Egito, certo? Em vários lugares pelo mundo múmias foram encontradas e as finalidades delas nem sempre eram parecidas as dos egípcios — ou seja, vida após a morte —. Algumas não possuíam finalidade alguma, sendo somente acidentes da natureza.

É onde entra aqui o que nós arqueólogos chamamos de “mumificação antrópica” — também chamada de cultural — e “mumificação natural”. O primeiro tipo é aquele que foi construído por pessoas e o segundo tipo o que foi feito pela natureza. Exemplo:

As antrópicas são aquelas múmias feitas com o uso de artifícios que visam preservar o corpo tais como o “banho” de natrão, banho de vapor, etc… Onde pessoas pensaram em alternativas para a conservação. Ótimos exemplos são algumas egípcias, chinesas e amazônicas.

Múmia de Papua Nova Guiné

As naturais são aquelas que se formaram de forma acidental, porque o corpo foi colocado em um ambiente propício para a conservação, ou seja, não existia um desejo pela mumificação, ela simplesmente ocorreu. Alguns exemplos são as do Everest, as de San Bernado e Otzi.

Homem de Tollund

Múmia de San Bernado

Já teve curiosidade em saber os motivos das pessoas terem mumificado seus entes queridos ao longo dos séculos? Ou quantos tipos de múmias existiram? Assista a este vídeo: