20 May 2012

Sobre leão achado no Egito em 2001

Publicado por Márcia Jamille Costa Em 03 - abril - 2012 ADD COMMENTS

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

Leões são animais nativos das savanas, mas seu culto se fez popular no nordeste da África por representar o poder do faraó. Imagem disponível em < http://www.androidwallpaper.us/animals/african-lion/ leão >. Acesso em 02 de abril de 2012.

Vários foram os animais divinizados no Egito, mas poucos são tão populares nas discussões atualmente. É reconhecida a existência de cultos aos gatos e crocodilos, mas raramente é comentado acerca do culto aos leões, animais tão raros no Egito na época dos faraós, mas que eram de suma importância para pensamento religioso e o discurso monárquico, sendo um dos principais símbolos do poder do governante.

Nativo das savanas africanas, os leões deveriam chegar até o Egito transportados pelo rio Nilo. Assim como outros felídeos de grande porte é possível que alguns deles tenham vivido nos palácios reais, servindo como animal de estima do faraó. Em suma, poucos exemplares foram encontrados em sítios arqueológicos o que dificulta fazer uma estimativa de quantos poderiam ter vivido no Egito. Um destes exemplares foi encontrado em 2001 em Bubastis e transformou-se em uma das ocorrências incomuns da Arqueologia Egípcia.

Bubastis encontrava-se próximo a Aváris e Tânis, na literatura clássica ela era conhecida como Bubasteion, mas dentre os egípcios era chamada de Per-Bastet, “casa de Bastet” ou “pertencente à Bastet” (clique aqui e leia mais sobre Bubastis).

Embora a necrópole de Bubastis seja celebre pelas múmias dos gatos votivos a deusa Bastet, cujo culto tornou-se popular durante a Baixa Época e principalmente período Ptolomaico, também existiam múmias de outros animais, dentre elas, a de um leão, o único exemplar descoberto em Saqqara [1]. Ele foi encontrado na tumba de uma funcionária da casa real chamada Maya, que viveu nos anos finais da XVIII Dinastia servindo ao faraó Tutankhamon como ama de leite.

A tumba de Maya foi descoberta em 1996 pela Missão Arqueológica Francesa (MafB), equipe que trabalha até hoje nas ruínas da antiga capital. Foi esta mesma missão que encontrou o este animal em 2001. O espécime está praticamente intacto, exceto pelo o fato de que o seu crânio está parcialmente esmagado, porém não foi encontrado nenhum sinal de violência que poderia ter causado a morte do animal. A sugestão da equipe é de que ele morreu idoso e de forma natural.

Em seu artigo A lion found in the Egyptian tomb of Maïa, o coordenador da expedição, Alain Zivie (et al), destaca que a primeira vista o esqueleto está em uma posição que lembra as das múmias de gatos, embora a disposição dos membros posteriores esteja diferente.

 

Desenho da missão de arqueologia. A cor azul e amarela/laranja representam os membros anteriores e posteriores, respectivamente. Imagem disponível em ZIVIE, Alain; SAMZUN, Anaïck; CALLOU, Cécile. “A lion found in the Egyptian tomb of Maïa”. Nature. 15 January 2004, Vol 427.

 

 

Nos textos clássicos e inscrições faraônicas os leões são citados como animais sagrados no Egito. As esfinges, por exemplo, era um misto de cabeça humana (ou de carneiro) com o corpo de um leão.

Zivie aponta que o leão pode ser o símbolo do deus Mahes, senhor da coragem, filho da deusa Sekhemet (uma mulher com a cabeça de uma leoa) ou Bastet (geralmente apontada como um lado apaziguado de Sekhemet).

A pesquisa no túmulo demonstrou que o leão, apesar de estar em uma tumba da XVIII Dinastia, pertence ao período Helenístico (anos finais da chamada era faraônica), ou seja, em nada tinha a ver com a Maya ou o seu protetor Tutankhamon.

 

Membro da equipe de Arqueologia em frente ao corpo do leão encontrado na tumba da ama de leite de Tutankhamon. Embora esteja em uma tumba da XVIII Dinastia o animal pertence ao período Helenístico. Imagem disponível em ZIVIE, Alain; SAMZUN, Anaïck; CALLOU, Cécile. “A lion found in the Egyptian tomb of Maïa”. Nature. 15 January 2004, Vol 427.

 

[1] Existe outro exemplar, mas datado da Dinastia 0, na época do faraó A-ha.

 

Fontes consultadas:

MÁLEK, J; BAINES, J. Deuses templos e faraós: atlas cultural do Antigo Egito. Barcelona: Ediciones Folio, p 174 – 175. 2008

SILIOTTI, A. Egito. Barcelona: Ediciones Folio, p 59. 2006

ZIVIE, Alain; SAMZUN, Anaïck; CALLOU, Cécile. “A lion found in the Egyptian tomb of Maïa”. Nature. 15 January 2004, Vol 427.   

 

Tutankhamon e o 4 de novembro de 1922

Publicado por Márcia Jamille Costa Em 04 - novembro - 2011 7 COMMENTS

Uma breve reflexão acerca da descoberta da KV-62 e sobre o próprio Tutankhamon

 

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

A ciência, como conhecemos hoje, passou por várias etapas em termos metodológicos. Após anos de divagações ela tornou-se o sinônimo de certeza para as pessoas, mas é preciso explanar que a ciência pode, muitas vezes, não ser neutra. Momentos sócio-políticos podem delimitá-la ou usá-la para os mais variáveis fins. Desta forma, com a ciência Arqueologia não foi, e não está sendo, diferente. Ano após ano, vemos interpretações diferentes para os mesmos vestígios e não raramente com pesquisadores diferentes a frente das novas hipóteses.

Após a invasão de Napoleão e a dominação inglesa, o nordeste da África era agora palco de disputas européias para saber quem conseguia o melhor artefato, com o fim de levar para o seu país de origem um pedaço da história antiga, assim, a Arqueologia entrou no Egito no momento em que a Europa procurava dominar para si os países “atrasados”, mas que possuíam na veia os primórdios das civilizações. Fora, em parte, do enlaço político, ricos e aventureiros buscavam no Egito uma forma de extravasar o seu dinheiro ou conhecer os mistérios que rondavam a antiguidade, para isto, contratavam arqueólogos experientes para procurar túmulos ou eles mesmos saiam na busca por tesouros do deserto para expô-los em suas galerias fechadas ou em museus suntuosos. Olhando assim, não seria uma afronta afirmar que, para muitos magnatas e nobres do século XIX, a Arqueologia era um esporte a ser praticados em países quentes, exóticos e subdesenvolvidos.

Neste meio tempo, no início do século XX, um arqueólogo inglês descobriu o túmulo real, praticamente intacto de um faraó que tinha falecido com não mais que 18 ou 19 anos, Tutankhamon. A abertura do seu sepulcro e a revelação para o mundo do que existia ali dentro, fez mudar na forma de como os nativos egípcios tratavam sua cultura material da era faraônica. Não mais os artefatos poderiam sair do Egito, a idéia de que o escavador estrangeiro poderia levar seus achados para seu país natal agora era algo impensável e anacrônico: ironicamente, foi este mesmo achado quem acabou emprestando glamour à Arqueologia Egípcia e criando nela ainda um fascínio maior para a caça ao tesouro. Ocorrida no dia 04 de Novembro de 1922, esta descoberta foi o estopim para que o governo egípcio acordasse para a proteção dos seus bens culturais. Hoje, quase nove décadas após a descoberta da tumba de Tutankhamon pelo o arqueólogo inglês Howard Carter, muita coisa mudou para a Arqueologia Egípcia: as descobertas estão sendo anunciados em sites – muitas vezes atualizados pelos os próprios arqueólogos -, foram criados jogos cada vez mais educativos para crianças, são elaborados ambientes virtuais que imitam sítios arqueológicos e exposições itinerantes visitam vários países não só da Europa ou América do Norte, mas pelo o mundo todo.

É de se orgulhar que tenhamos evoluído tanto, mas como evolução não quer dizer propriamente perfeição, noto que ainda temos muito ao que nos dedicar, principalmente em prol do novo intuito da Arqueologia, que é trabalhar pelo o social. Nesta data que estamos relembrando hoje nós curiosos, historiadores e arqueólogos devemos também parar e refletir sobre as pesquisas acerca dos artefatos encontrados naquela época.

Desde a descoberta da tumba de Tutankhamon, o grande público tem sido bombardeado com histórias que não raramente são cheias de intrigas. Documentários muito bem elaborados, mas que trazem mais uma e “revolucionaria” “conclusão” para a morte de Tutankhamon. Porém, não é “revolucionaria” porque em nada mudará nossas vidas, e tão pouco “conclusão” porque sempre sabemos que nos próximos anos alguém virá com mais uma hipótese. Será que o mais importante é descobrir a verdadeira causa da morte de Tutankhamon ou tentar entender quem ele realmente era e a sociedade a qual pertencia? Cada vez mais colegas estão se entregando ao entretenimento e se jogando no mesmo turbilhão em que a impressa da década de vinte estava envolta, criando qualquer caso sobre a tumba deste rapaz falecido em 1322 a.C com o fim de ganhar dos seus leitores algumas gordas migalhas de pão.

Espero que estas breves palavras sirvam para a reflexão, não precisamos cometer mais erros com a pessoa de Tutankhamon, não é necessário expô-lo a qualquer preço para vender algum livro ou documentário, se continuarmos praticando isto estaremos incorrendo as mesmas falhas daqueles arqueólogos do século XVII, XVIII e XIX que buscavam tesouros, não pessoas e atos, para expor para a sociedade em galerias de museus. É como se aprisionássemos um animal feroz para o deleite do público, mas não fizéssemos as pessoas raciocinar sobre a biologia daquele ser que está enjaulado.

 

O vídeo abaixo mostra um pouco de como foi o ambiente da descoberta da tumba e alguns comentários acerca do faraó:

 

 

 

Algumas das fotográficas feitas por Harry Burton (fotógrafo oficial da equipe) após Carter abrir a tumba. Clique na imagem com o botão direito do mouse e use o comando “Abrir link na Nova Guia”, para sua melhor navegação pelas fotos:

 

 

 

 

Abaixo links de algumas matérias já publicadas aqui relacionada a Tutankhamon:

 

10 coisas sobre Tutancâmon

Tutankhamon (Tutancâmon) reinou durante cerca de uma década durante a XVIII Dinastia (Novo Império). Seu túmulo foi encontrado praticamente intacto em 1922 pelo o arqueólogo inglês Howard Carter e desde então qualquer descoberta relacionada a ele vira um furor na mídia mundial.

Apesar de ser uma das figuras faraônicas mais conhecidas, perdendo somente para a rainha Cleópatra, muitas coisas sobre a sua vida é desconhecida pelo o grande público, mas algumas delas listei abaixo:

http://arqueologiaegipcia.com.br/2010/09/15/10-coisas-sobre-tutancamon/

 

Algumas palavras sobre Ankhesenamon

Embora seja ainda tão ignorada pelo o meio acadêmico, ritualisticamente e administrativamente Ankhesenamon toma papeis importantes durante e após o reinado do esposo. Ela, em termos religiosos, é em parte a essência de Tutankhamon e quando este morre a governante participa ativamente dos ritos de passagem do marido para a vida após a vida. Sua imagem está em muitos lugares dentre os artefatos da KV-62, assim, quando unimos esta situação ao fato de que Tutankhamon era um colecionador de lembranças e levou consigo todas as coisas que mais apreciava, não seria incomum que ele levasse também tantas imagens de sua dúplice e consorte.

http://arqueologiaegipcia.com.br/2010/10/28/algumas-palavras-sobre-ankhsenamon/

 

(Imagem) Artista esboça relevo de templo

A artista do Arquivo Epigráfico do Instituto Oriental da Universidade de Chicago esboça os detalhes de um relevo da época de Tutankhamon. O principal intuito deste trabalho é documentar de forma precisa as inscrições e desenhos das paredes dos santuários para que sirvam como base para a interpretação em tempos futuros caso a documentação original se perca. Foto: Instituto Oriental da Universidade de Chicago (Divulgação).

http://arqueologiaegipcia.com.br/2010/10/12/imagem-artista-esboca-relevo-em-templo/

 

Como desenhar o rei Tut (Para crianças)

Encontrei este material em um site estrangeiro e sinceramente achei bem interessante já que ensina para as crianças como desenhar o faraó Tutankhamon.

De acordo com a pesquisa publicada pela a professora Raquel Funari em seu livro “Imagens do Egito Antigo: Um Estudo de Representações Históricas” (São Paulo: 2006, Annablume: Unicamp) este faraó é a segunda personalidade egípcia, perdendo para a Cleópatra, a ser reconhecida pela a criançada, então, em uma aula sobre antigo Egito seria bem divertido contar com esta boa atividade em sala.

http://arqueologiaegipcia.com.br/2010/11/10/como-desenhar-o-rei-tut-para-criancas/

 

O funeral de Tutancâmon (comentários)

Desde que a tumba de Tutankhamon foi encontrada em 1922 o frenesi sobre a sua descoberta despertou a curiosidade de vários espectadores, alguns dos quais simples curiosos que pouco sabiam sobre a Arqueologia ou de quem se tratava Tutankhamon, mas que estavam dispostos a visualizar aquele universo tão misterioso que era a de uma tumba milenar intacta e cheia de tesouros. Este faraó falecido em 1322 a. C. desperta ainda hoje o interesse de muitos por sua morte tão prematura e os artefatos (a maioria feito de ouro e pedras semipreciosas) encontrados na sua tumba. Esta curiosidade nada acanhada tem se tornado cada vez mais freqüente desde que as primeiras imagens de seu espólio funerário foram lançadas ao mundo, fazendo assim com que o interesse por esta figura antiga esteja cada vez mais gritante. Este fato está refletido mais fortemente nos muitos documentários veiculados por canais fechados onde uma simples menção ao nome do “faraó-menino” está sendo obrigatória. Indo de acordo com a moda da “Tutmania” é onde entra o documentário “O funeral de Tutancâmon” (“Burying King Tut” no original, ano de lançamento 2009) da National Geographic.

http://arqueologiaegipcia.com.br/2011/10/10/o-funeral-de-tutancamon-comentarios/

 

Ensaio sobre a Egiptologia

Publicado por Márcia Jamille Costa Em 02 - outubro - 2011 4 COMMENTS

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

Jean-François Champollion. Retirado de < http://www.heritage-key.com/jean-francois-champollion > Acesso em 01 de outubro de 2011.

Não é de todo errôneo afirmar que a Egiptologia nasceu com a intervenção militar de Napoleão no Egito em 1798, já que na ocasião em que este até então general francês esteve no Cairo ele criou o Instituto Francês do Egito que contou com o trabalho de pesquisadores de diferentes disciplinas, assim como artistas, cartógrafos e engenheiros para pesquisar e catalogar as evidências do Antigo e Egito Islâmico (BARD, 2007, pág 07). A campanha influenciou de fato, mas para alguns é tido como marco inicial da Egiptologia tal qual como a conhecemos a decifração dos hieróglifos pelo filólogo francês Jean-François Champollion em 27 de setembro de 1822, isto porque a Egiptologia tem como base primordial de estudo a decifração destes caracteres. Porém, apesar de primariamente filóloga, hoje para a formação de um egiptólogo não é totalmente necessário ser fluente em decifração de egípcio antigo, embora seja um grande bônus para quem planeja seguir a carreira. Isto ocorre justamente devido as especializações propiciadas pela ciência moderna, assim, se imaginarmos a situação de um Arqueólogo Experimental especialista em manufatura de ferramentas de bronze da XIX Dinastia perceberemos que dificilmente ele vai se ver na necessidade de compreender os hieróglifos, e caso seja mais do que necessário poderá agregar a sua equipe um filólogo especialista em egípcio antigo do Novo Império. Por este motivo é compreensível entender porque ultimamente o discurso para o arqueólogo egiptólogo esteja começando a ser o da busca por um trabalho em equipe.

A Egiptologia nos surgiu como uma “irmã mais nova” da Arqueologia Clássica – cujo estudo também está fortemente ligado a filologia – mas que estendeu com o tempo o seu objeto de estudo indo do período Pré-dinástico até a História Contemporânea do Egito. Embora se espere que o egiptólogo estude a sociedade no geral a Egiptologia ainda está fortemente focada no estudo da vida dos faraós (ou pessoas que tinham uma relativa importância econômica) onde está incluso o lado funerário (túmulos e múmias) e o estudo de textos que em parte foram feitos por uma minoria de privilegiados. Os campos para se alcançar esta ciência são plurais, os mais propícios (e inclusive comuns) são os graduandos[1] de áreas como Arqueologia[2] ou História apresentarem trabalhos de conclusão ligados ao tema em cursos devidamente reconhecidos pelo o Ministério da Educação (MEC) – no caso do Brasil -. Este procedimento também é comum em locais como a Espanha, país cujo papel na Egiptologia cada vez mais se tornar promissor. Esta possibilidade dá espaço para o pesquisador tornar-se egiptólogo, mas isto não é o bastante, ele precisa manter sua produtividade acadêmica com a elaboração de artigos e projetos.

 

A Egiptologia é um trabalho admirado por muitos, o que gera certo assédio,  desta forma não é incomum encontrarmos livros, documentários, entrevistas ou textos de revistas com temas contraditórios, sensacionalistas ou supérfluos na busca de abastecer o afamado mercado da “Egiptomania” o que não raramente desvirtua o público da real razão desta ciência.  A importância desta ciência no debate da história da humanidade está em, dentre tantos aspectos, no fato de estudar as sociedades em si tentando entender as relações plurais entre os indivíduos e a forma como eles poderiam estar observando o seu entorno. Não é certo dizer que a Egiptologia busca a verdade, mas sim elucidar questões cujas respostas podem variar de acordo com as correntes de pensamento onde nestas estão inclusas valores morais do ambiente de convívio do pesquisador e a valorização de determinados tipos de artefatos tidos como “mais importantes”, como um sarcófago ou uma pirâmide, embora isto não seja o ideal. Poucos são os alunos que se interessam em estudar os assuntos menos populares uma vez que muitos entram para o ramo da Egiptologia por amor a um determinado tema, ou seja, não é difícil notar que fãs da história de Cleópatra VII tenham interesse em levar a cabo artigos e conclusão de curso com temas relativos à rainha. Não que isto seja negativo, mas pode gerar um empobrecimento em termos de variação do conhecimento para a Egiptologia nacional.

 

Imagem divulgação retirado do "Manual do futuro profissional". Difusão cultural do livro.

Seja qual for a formação base do pesquisador da área da Egiptologia (Arqueologia, História, Arquitetura, Artes, Literatura, etc), basicamente o seu interesse de estudo estará agregado aos objetos e pessoas relativos ao Egito. Esta disponibilidade das várias áreas de formação é o que dá para esta ciência social um teor mais plural, embora algumas instituições se mostrem ainda muito introspectivas. Vários países que não possuem uma longa tradição na Egiptologia (ao contrário da França, Alemanha ou Inglaterra que são grandes centros formadores) estão começando a formar pesquisadores, o Japão é um deles, assim como o México e a República Dominicana (dentre outros). O Brasil parece ainda tímido, embora existam egiptólogos formados ou em formação, mas que não seguiram carreira ou que se dedicam a outras áreas para abarcar como sustento, a exemplo de arqueólogos e historiadores que não raramente se dedicam a Arqueologia de Contrato (para os primeiros) ou ao ensino de História (para os segundos).

 

É importante para quem se interessa em trabalhar com Egiptologia que procure iniciar seus estudos de modo formal, já que a Universidade é um dos veículos que podem ajudar com as instituições de fomento para as pesquisas. A língua estrangeira é extremamente necessária, principalmente porque os principais livros do ramo estão em inglês (assim como em francês e alemão), língua falada por muitos egípcios inclusive. Trabalhar neste ramo pode ser uma grande batalha não só para brasileiros, muitos estrangeiros também sofrem com a ausência de auxílio financeiro para os seus estudos ou um espaço para trabalhar em escavações. Desta forma uma das maiores dicas para quem deseja se empenhar na área é manter o seu objetivo de estudo e ficar de olho nas oportunidades, e o mais importante que é lembrar que os demais estudantes e pesquisadores não são seus concorrentes, mas seus colegas. Para os amadores interessados em conhecer mais sobre as pesquisas participem mais dos eventos que são lançados aqui no Brasil, o Arqueologia Egípcia normalmente anuncia alguns dos eventos que ocorrem pelo país, e em caso de dúvida sobre a formação do palestrante exija seu currículo. Estamos em uma época em que não há mais desculpas em ter uma formação deficiente e os cientistas brasileiros já possuem a capacidade de se aprimorar e levar esta ciência no nosso país a um patamar mais alto.

 

[1] Ou uma pós-graduação.
[2] Espaço relativamente novo no Brasil, a despeito do antigo curso de Arqueologia na Estácio de Sá que foi fechado em poucos anos. Para ver uma lista dos novos cursos clique aqui.

 

Fonte:

BARD, Kathryn. Encyclopedia of the Archaeology of Ancient Egypt. 1ª Edição. Londres: Routledge, 1999.

BARD, Kathryn. An Introduction to the Archaeology of Ancient Egypt. 1ª Edição. Blackwell, 2007.

TRIGGER, Bruce. História do Pensamento Arqueológico. 1ª Edição. São Paulo: Odysseus, 2004.

Um vislumbre da faraó-mulher Hatshepsut

Publicado por Márcia Jamille Costa Em 28 - julho - 2011 8 COMMENTS

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

“A garota da qual falaste chama-se Ahmés, é a mulher mais bela desta terra. É a esposa do soberano Ankhkheperkare, rei do Alto e Baixo Egito, que está dotado de vida eterna.

O sublime Amon, senhor do trono de ambos os reinos havia se transformado em sua Majestade seu marido, rei do Alto e Baixo Egito. Encontrou-a adormecida no meio do luxo do seu palácio. Quando acordada pela fragrância divina, sorriu para sua Majestade. Ele então se aproximou ardentemente e se mostrou em sua forma divina. Ela exaltou-se a vista de sua beleza. O amor inundou todo seu corpo e o palácio se encheu da doçura divina de todos os perfumes da Terra de Punt.

Depois de ter feito com ela o que fez, Ahmés, o real consorte e a mãe disseram a sua Majestade, o divino deus Amon: ‘Que poderosa é a tua força, meu senhor! Que magnífico teu semblante! Uniste minha majestade com tua glória. Todo o meu corpo está impregnado de ti’.

Khenemetamon Hatshepsut é o nome de teu filho, que eu depositei dentro de teu corpo. (STROUHAL, 2007, 11)

 

São estas as palavras gravadas no templo funerário da faraó Hatshepsut (em Deir el-Bahari), uma das governantes com mais sucessos na história do Egito faraônico e cujos feitos ela ainda recebe forte crédito por parte dos egípcios da atualidade. O que é visto de tão especial em Hatshepsut é o fato de que ela tornou-se faraó, embora não tenha sido um caso exclusivo: temos exemplos de outras mulheres que tomaram tal empreitada, dentre algumas conhecidas, e antecessoras de Hatshepsut, temos Nitokerty (Antigo Império) e Sobeknefru (Médio Império).

Conhecemos muito acerca da vida de Hatshepsut, sabemos que ela era a filha mais velha do faraó Tutmósis (Ankhkheperkare) com a Grande Esposa Real Ahmés, mas que, como ditava o costume do poder real, para ser coroada um dia ela tinha que montar um par, assim casou com o seu meio irmão Tutmósis II, filho do faraó com uma esposa secundária chamada Mutnofret.

A então rainha Hatshepsut só deu ao marido uma filha, Néfruré, em compensação, uma esposa secundária, chamada Ísis, deu a ele um filho, que recebeu o nome de Tutmósis III, que, ao completar a idade de oito anos ficou órfão do pai, tendo então que Hatshepsut, em seu papel de Grande Esposa Real, assumir uma co-regência até que o garoto tivesse uma idade mais apropriada para reinar, porém, quando o rapaz alcançou a idade de quinze anos a rainha se declarou faraó e iniciou uma campanha para atestar sua autoridade: “Eu própria sou um deus”, uma vez declarou, “que decide o que vai acontecer. Nenhum dos meus julgamentos será errado” (ROSE, 122).     

Hatshepsut herdou um país que ainda se recuperava da guerra contra os hicsos e em uma tentativa de fixar sua autoridade empreendeu obras de manutenção do país, a maioria que ressaltasse seu estado divino. Uma das mais imponentes das suas campanhas é sem dúvida seu templo funerário em Deir el-Barari, cujo o desenho não é de pura exclusividade, ele imita a arquitetura do templo funerário do rei Mentuhotep II (feito cerca de 500 anos antes), localizado também em Deir el- Bahari. A semelhança é vista na construção dos dois terraços (WILDUNG, 2009, p 70).

 

 

Deir el-Bahari. Imagem retirada de MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto. (Tradução de Maria da Graça Crespo) 1ª Edição. Lisboa: Editora Taschen, 1999. P. 125.

Na esquerda retos do templo funerário do faraó Mentuhotep II e na direita reconstituição do mesmo. Imagem retirada de WILDUNG, Dietrich. O Egipto: da pré-história aos romanos. (Tradução de Maria Filomena Duarte). 1ª Edição. Lisboa: Editora Taschen, 2009. P. 72.

 

 

O idealizador do templo funerário de Hatshepsut foi Senenmut que possuia um alto cargo no palácio como Fiscal de Obras tendo, inclusive, o direito de assinar sua obra. Muitos arqueólogos acreditam que ele e a faraó eram amantes, não só por ter tido regalias especiais (como ter o direito de ter o seu túmulo construído dentro do templo funerário da governante), mas também por ser retratado algumas vezes com a filha de Hatshepsut no colo. 

 

Senenmut e a princesa Néfruré. Imagem retirada de MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto. (Tradução de Maria da Graça Crespo) 1ª Edição. Lisboa: Editora Taschen, 1999. P. 124.

 

Uma das principais preocupações da faraó era que o seu legado fosse lembrado, desta forma, retratou algumas das passagens mais importantes do seu reinado, dentre eles a expedição ao reino de Punt (cuja localidade ainda é desconhecida, uma das sugestões é que de que este local se situava na costa do Mar Vermelho, perto do norte da Somália), que foi muito bem documentada por palavras e imagens. De acordo com a narrativa a frota naval da faraó estava constituída de cinco navios, cada um deles com quarenta pessoas, dos quais trinta eram remeiros que trabalhava igualmente ao ritmo marcado por um tambor, uma flauta ou um chocalho (DERSIN, 2007, p. 120).

Uma das marcas excêntricas de seu reinado era o fato dela se vestir de homem, iniciativa tomada para atestar sua permanecia como faraó, mas ela não fazia segredo quanto ao seu real gênero, pois suas inscrições com freqüência estão acompanhadas por terminações femininas (BROWN, 2009). Porém, a imagem de Hatshepsut mudou com o tempo, o que antes era uma figura feminina com artefatos masculinos (os objetos típicos de um faraó), mudou completamente para uma imagem masculina (BROWN, 2009). Vemos isto inclusive na descrição do seu nascimento, onde Amon pede que Khnum modele Hatshepsut em um monte de barro (como ditava a crença egípcia), e então ela é feita como um garoto (BROWN, 2009). Estas atitudes da faraó tem um cunho político muito forte, e vemos isto inclusive na forma como se preocupava com o apoio do povo. Frequentemente em seus textos ela tenta uma aproximação com a gente comum usando um termo egípcio que lembra o nosso moderno “meu povo” (BROWN, 2009). 

 

 

Faraó Hatshepsut usando uma barba falsa. Imagem retirada de MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto. (Tradução de Maria da Graça Crespo) 1ª Edição. Lisboa: Editora Taschen, 1999. p. 123.

 

 

Hatshepsut retratada com traços masculinos. Deir el-Bahari. Imagem retirada de MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto. (Tradução de Maria da Graça Crespo) 1ª Edição. Lisboa: Editora Taschen, 1999. P. 122.

 

 

A faraó reinou por vinte e um anos e nove meses [1] (como denota Manétho) até que uma ameaça dos inimigos, os Mitanni, surgisse. Tutmosis III, que até então estava levemente longe do governo surge sob o comando das tropas e assume o posto de faraó. Hatshepsut então desaparece.

 

 

Destruição a sua memória

 

Em Deir el-Bahari suas estátuas foram quebradas e postas em um fosso em frente ao seu templo mortuário (BROWN, 2009). No mesmo local as imagens em relevo também foram destruídas. Acredita-se que o autor do estrago foi ninguém mais que seu enteado, Tutmóses III, mas Zbigniew Szafraski, diretor da equipe que trabalha em Deir el-Bahari desde 1961 crê que as implicações de Tutmósis III foram mais políticas do que movida pelo o ódio (BROWN, 2009), já que foi descoberto que a destruição das imagens da faraó só ocorreram após passados vinte anos da morte da mesma. A sugestão que é levantada então é de que Tutmósis III precisava fortificar o poder real do seu filho, Amenhotep II (BROWN, 2009). 

 

 

Esta é uma das imagens de Hatshepsut que foi violada por Tutmósis III. No lado esquerdo vemos o deus Thot e do lado direito Hórus. No centro a faraó. Santuário de Hatshepsut em Kanark. Imagem retirada de MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto. (Tradução de Maria da Graça Crespo) 1ª Edição. Lisboa: Editora Taschen, 1999. P. 123

 

 

Sua múmia, ou não?

  

Por muito tempo não se sabia qual teria sido o destino final de Hatshepsut, no entanto, o seu sarcófago tinha sido encontrado em 1903 na KV-20 pelo arqueólogo inglês Howard Carter, que na época era supervisor das antiguidades, e enquanto realizava seu trabalho de vistoria no Vale dos Reis achou na KV-60 duas múmias femininas: uma dentro de um caixão e outra no chão sem abrigo algum. Com elas foi descoberto também uma caixa com o nome da faraó Hatshepsut. Em 1989 a KV-60 foi então supervisionada mais uma vez, mas agora pelo egiptólogo estadunidense Donald Ryan que já desconfiava que aquela era a múmia de uma rainha, já que tinha o braço esquerdo dobrado, além do primor em termos de mumificação. Antes de finalizar o seu trabalho e encerrar a tumba, Ryan encomendou um caixão para prover mais segurança para a múmia.

Em 2005, Zahi Hawass, até então Secretário Geral do SCA e diretor do Projeto Múmia Egípcia, examinou as duas múmias encontradas na KV-60 e identificou uma delas como a da faraó devido a um dente. A múmia em questão foi a que tinha sido resguardada por Ryan. Ela tinha passado por um tomógrafo e notou-se que lhe faltava um dente na mandíbula superior direita. Coincidentemente, na caixa com o nome de Hatshepsut, que também tinha passado pelo o tomógrafo, possuía um dente (um molar secundário) que após a medição do local quebrado e tendo sido medida a região faltosa na múmia, o dentista da equipe, Ashraf Selim, constatou que o dente se encaixava perfeitamente no local (BROWN, 2009). Devido a esta coincidência, é tido que esta múmia deixada anônima no chão da KV-60 seria então a da rainha, e depois faraó, Hatshepsut.

 

 

Múmia de Hatshepsut. Foto: . Disponível em < http://viajeaqui.abril.com.br/national-geographic/edicao-109/fotos/hatshepsut-mulher-farao-antigo-egito-449366.shtml >. Acesso em 27 de julho de 2011.

 

 

Sua múmia demonstra uma senhora, cujo crânio possui traços robustos e o nariz hoje está deformado por molhinhos de tecido, o pescoço coberto por um lenço e um leve sorriso nos lábios, paradoxalmente a análise das imagens capturadas pelo tomógrafo mostram que ela morreu devida uma infecção causada por um abscesso em um dente que foi complicada por um câncer ósseo avançado causado por diabetes (BROWN, 2009). 

 

  

Considerações finais:

  

Talvez Hatshepsut não estivesse se desvirtuando ou feito algo além do que o seu gênero permitia (lembrando que a idéia de gênero é algo socialmente construído), mas, tendo ciência de que o faraó só poderia ser um homem – porque o fato é que Hórus (o qual o faraó representava) é uma figura masculina – ela moldou sua imagem para feições másculas e maquinou um mito acerca do seu nascimento divino. Quando olhamos deste ponto de vista vemos que, no final das contas, Hatshepsut não estava fazendo nada de tão diferente dos outros faraós, que agregavam a sua imagem a de seus predecessores.

Por fim, para finalizar este texto o mais digno será por as palavras da própria faraó:

“Meu coração palpita de preocupação só de pensar no que dirão as futuras gerações. Aqueles que irão de ver meus monumentos nos anos vindouros e tecer comentários sobre meus feitos” (BROWN, 2009).

 

 

[1] Entre 1479 e 1458 a.C. de acordo com Chip Brown.

 

Fontes:

  

BROWN, Chip. O rei está nu(a). National Geographic Brasil. São Paulo. Editora: Abril. Abril, 2009. Também disponível em < http://viajeaqui.abril.com.br/national-geographic/edicao-109/hatshepsut-mulher-farao-antigo-egito-448527.shtml>, Acesso em 27 de Julho de 2011.

DERSIN, Denise. A história cotidiana às margens do Nilo (Tradução de Francisco Manhães, Marcelo Neves, Carlos Nougué, Michael Teixeira).  1ª Edição. Barcelona: Folio, 2007.

MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto. (Tradução de Maria da Graça Crespo) 1ª Edição. Lisboa: Editora Taschen, 1999.

WILDUNG, Dietrich. O Egipto: da pré-história aos romanos. (Tradução de Maria Filomena Duarte). 1ª Edição. Lisboa: Editora Taschen, 2009. P. 72.

STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito. (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves).  1ª Edição. Barcelona: Editora Folio, 2007.

 

 

Êxodo hebreu no Egito: aconteceu ou não?

Publicado por Márcia Jamille Costa Em 24 - abril - 2011 12 COMMENTS

 

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

O mito do êxodo hebreu no Egito é provavelmente um dos temas mais complicados a ser abordado pela a Arqueologia, isto porque fala justamente de crença religiosa de muitas pessoas da atualidade, e este assunto deixa os ânimos extremamente sensíveis. Infelizmente, apesar de abortar crenças modernas, ele tem sido tratado de forma tão pouco rigorosa que acaba sendo alvo de documentários e matérias esdrúxulas que criam um cenário bizarro.

Conheço a história do êxodo hebreu desde que me entendo por gente, meus pais sempre tiveram em casa matérias sobre Arqueologia. O meu pai, em especial, era aficionado em ver documentários e a maioria na época se não falasse das expedições de Jacques-Yves Cousteau falavam das chamadas cidades santas, logo, não demorou muito para que eu acabasse pegando a mania de ver filmes clássicos bíblicos (provavelmente se eu não me interessasse por Arqueologia Egípcia iria acabar parando na Arqueologia Bíblica ou do Oriente Próximo). Foi nesta época que conheci sobre um dos capítulos do Velho Testamento que fala dos principais acontecimentos da vida de um filho de escravos (afastando-se agora do mito, aos arqueólogos e egiptólogos, é importante citar que a definição de “escravidão” para a força trabalho na sociedade faraônica é um termo que precisa ser reavaliado) hebreus que, após ser lançado no rio Nilo, é adotado pela a filha do faraó. O nome da criança seria então Moisés.

Este nome no mundo ocidental praticamente não carece de apresentações, mas o que se conhece sobre a história de Moisés só pode ser vista na Bíblia (livro sagrado do cristianismo) que traz o Antigo Testamento (Tanakh).

O que torna a narrativa do êxodo hebreu tão polêmica é que, apesar de toda a manifestação em volta desta história, em termos de cultura material ou outros escritos que não sejam bíblicos não existe nada que fale da ocorrência de um êxodo da magnitude demonstrada no Velho Testamento que tenha ocorrido no Egito, ou mesmo que se tenha existido uma comunidade israelita na época em que apontam a ocorrência do êxodo. Embora a afirmação de que os egípcios jamais narravam suas derrotas seja válida em termos teóricos, na prática, a Arqueologia trabalha não só com documentos escritos, mas também com a cultura material (artefatos). De acordo com a Bíblia, desde os filhos de Israel (pai de José) até Moisés, gerações de hebreus floresceram até que um dado momento seu número superavam aos dos egípcios na região. As pessoas sempre estão usando e abusando de cultura material, e não seria tão difícil encontrar vestígios de uma sociedade com pontos tão diferenciados das dos egípcios em seu próprio território. Usemos a cidade de Akhetaton como exemplo: ela teve somente dezessete anos de atividades e após breve período foi abandonada e desmontada para se esconder a religião rival da do deus Amon em Tebas. No século XIX seus restos (estruturas de casas, restos de estátuas para uso privado, restos de imagens parietais, cemitérios, etc) foram encontrados e passíveis de serem estudados.

Entre Arqueólogos e Egiptólogos quase existe um consenso de que não existiu o êxodo bíblico no Egito, e nem sequer bairros israelitas, no entanto, a “Estela de Merenptah” (ou como presunçosamente é chamada de “Estela de Israel”), que fala sobre as vitórias deste faraó contra os inimigos do Egito, faz uma listagem dos países derrotados por Merenptah, faraó da XIX Dinastia. Nesta declaração, dentre muitos hieróglifos está um conjunto que pode estar falando de Israel. Por este hieróglifo estar acompanhado pela a imagem de um homem e uma mulher (e não dos símbolos que indicam um país), acredita-se que estaria falando de um povo nômade ou uma tribo, mas não existe certeza quando ao seu significado. Esta estela foi encontrada no templo mortuário de Merenptah e originalmente pertencia a Amenhotep III da XVIII Dinastia. Hoje ela pode ser visitada no Museu Egípcio, no Cairo.

 

Estela de Merenptah. Retirado de Merneptah Stele. Disponível em < http://www.flickr.com/photos/frankrytell/2155909119/ > Acesso em 24 de Abril de 2011.

 

Com a existência da “Estela de Merenptah” foi sugerido que o faraó do êxodo seria Ramsés II, já que ele, quando subiu ao trono, ordenou a construção da cidade de Pi-Ramsés no Delta do Nilo. Quando Ramsés chegou ao fim da vida o seu primogênito Amunherwenewmef já estava morto. Merenptah, seu sucessor, era seu décimo terceiro filho. Como Ramsés ordenou a criação de uma nova capital no Delta (de certa forma próximo ao Mar Vermelho, o caminho de escape dos hebreus na fuga do Egito) e seu primogênito morreu muito antes do faraó especulou-se que este seria o governante egípcio que teria enfrentado Moisés e o seu sucessor teria lutado e derrotado os israelitas marcando então sua vitória na estela. Mas pelos motivos já citados anteriormente no texto não há nada que comprove a vivência hebreia no Egito.

 

 

O que é o Êxodo

A palavra “êxodo” significa “saída” e no caso desta parte da Bíblia a ideia central é a liberdade do povo e a aliança então estabelecida entre o deus dos hebreus e os homens que, por sua vez, recebem diretamente da divindade as leis que transformaria a relação entre as pessoas.

A bíblia narra que após a morte de José (que foi vendido por seus próprios irmãos como escravo para os egípcios) e de toda sua geração, os filhos de seus filhos se multiplicaram e tornaram-se numerosos e poderosos nas terras do Egito. Por já ter passado anos da morte de José (que tinha sido amado pelo o faraó e sua família já que previu uma seca de sete anos que, se não fosse seu aviso prévio, teria matado a população de fome), o novo faraó não conhecia sua história e vendo que os filhos de Israel eram muitos e com o medo de que em caso de guerra eles se aliassem com os inimigos do Egito, foram transformados em escravos e obrigados a construir as cidades-armazéns de Pitom e Ramsés. A bíblia ainda fala que o faraó ordena, em um dado momento, que todos os meninos que nascessem de uma hebreia fossem jogados no Nilo, mas as meninas poderiam viver. Porém, uma das hebreias conseguiu esconder o filho por três meses, e vendo que não era mais capaz de manter oculta a criança lacrou um cesto com betume. Feito isto colocou dentro o bebê, e o deixou boiar no Nilo. Descendo o rio, o cesto acabou sendo encontrado pela a filha do faraó e sua comitiva que a preparava para o banho. A princesa adotou o menino e deu para ele o nome de Moisés.

Quando crescido e após ter visto o seu povo escravizado, Moisés se compadeceu e matou um egípcio que maltratava um hebreu. Sabendo do ocorrido o faraó ordena a morte de Moisés, mas este foge e após receber um chamado divino retorna ao Egito para tentar libertar os hebreus - que já eram mais numerosos que os próprios egípcios da região – da escravidão.

Ao se encontrar com o faraó, Moisés e seu irmão Aarão tentam convencê-lo a libertar os escravos, mas estes eram numerosos e praticamente a força de trabalho do país, assim, o faraó não os deixa ir e ainda os castiga retirando a palha pronta para que fizessem os tijolos e os sobrecarrega de trabalho para que não pensassem em seu deus.

Em uma tentativa de mostrar os prodígios do deus dos hebreus e assim convencer o faraó, Moisés e Aarão foram tentar mais um diálogo com o regente egípcio, mas desta vez transformou sua vara (que carregava desde o início de sua jornada) em uma cobra, o faraó não se impressionou e ordenou que os seus sacerdotes fizessem a mesma coisa, os mesmos o fizeram e também com sucesso. Na manhã seguinte Moisés e Aarão procuram o faraó às margens do Nilo e não conseguindo mais uma vez convencê-lo transforma a água do rio, reservatórios, canais e vasilhames em sangue. Os sacerdotes egípcios realizaram o mesmo truque e assim o faraó não se convence.

 

As pragas do Egito retratadas por Joseph Turner em 1800. Disponível em < http://www.grahamphillips.net/news/plagues.htm> Acesso em 22 de Abril de 2011.

 

Outras tentativas são feitas, mas o faraó não sede, e assim o deus dos hebreus vai lançando pragas no Egito, estando na ordem: transformar água em sangue, rãs, piolhos, moscas, peste nos animais, chagas, chuva de pedras e raios, gafanhotos, eclipse e morte dos primogênitos.

 

Morte do primogênito do faraó por Rifa'a el-Tahtawy. Disponível em < http://www.ancienthistory.about.com/od/epidemics/tp/10plaguesegypt.htm>Acesso em 22 de Abril de 2011.

 

A última praga levou a vida do primogênito do faraó, que então resolve deixar os hebreus partirem. Mas o regente volta atrás em sua decisão e persegue os seus então ex-escravos até chegar ao Mar Vermelho, onde Moisés abre um caminho entre as águas deixando o exército do faraó para atrás.

Após vagar por três meses eles chegaram ao Sinai e levantaram acampamento onde se deu início a aliança em que Moisés recebe os 10 Mandamentos, armazenados então na Arca da Aliança. Entender o Êxodo é entender alguns dos princípios da fé judaica e cristã e a comiseração de deus com o homem, além de que este é um dos capítulos mais importantes do Velho Testamento.

 

Êxodo na cultura atualmente

◘ O cinema fez muito uso de temas como as das 10 Pragas do Egito, Os 10 Mandamentos e A Arca da Aliança, esta última bate lado a lado, em termos de popularidade, com o Santo Graal, ambos transformados em ícones do mundo da “Arqueologia Pop” idealizada por George Lucas e Steven Spielberg nos filmes do Indiana Jones.

◘ A banda Metallica gravou e lançou entre 1983 e 1984 a música “Creeping Death” que fala sobre o clamor do deus hebreu pedindo para que o faraó liberte seu povo da escravidão e a última praga.

◘ Em 1998 a DreamWorks lançou o filme em desenho animado O Príncipe do Egito, um dos primeiros a tratarem Ramsés II como o faraó do Êxodo.

◘ No filme “Todo Poderoso”, de 2003, o ator Jim Carrey faz uma analogia a abertura do Mar Vermelho com uma tigela de leite.

◘ No show “Hermanoteu na terra de Godah”, de “Os Melhores do Mundo” ocorre uma sátira ao Êxodo.

 

Arqueologia Marítima: Barco de Khufu

Publicado por Márcia Jamille Costa Em 19 - abril - 2011 4 COMMENTS

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

A Arqueologia Marítima, apesar do nome, não trabalha exclusivamente com os artefatos encontrados em áreas de mar, mas também em locais onde estão lagos, rios e pântanos. Além dos objetos submersos este ramo da disciplina trabalha também com objetos de uso aquático que são agregados ao dia a dia na terra. Um exemplo bem explícito era o uso de uma arca em forma de embarcação utilizada durante os festivais – a exemplo do Opet – durante a era faraônica.  

 

Em 2010 apresentei ao Núcleo de Arqueologia da UFS o meu trabalho de conclusão de curso cujo título é “Egito Submerso: A Arqueologia Marítima Egípcia”, onde, em termos gerais, eu aponto as especificações que tornam o Egito totalmente passível de um estudo mais amplo de Arqueologia Marítima.

 

Os restauradores têm tido um papel muito importante para a Arqueologia Egípcia, e um dos trabalhos mais reconhecidos sem dúvida foi o realizado no Barco Solar do faraó Khufu (Quéops).

Abaixo um trecho retirado praticamente na integra da minha monografia. Fiz leves modificações e alguns grifos que não estão presentes no texto original:
 

Os artefatos ligados a Arqueologia Marítima encontrados em terra não merecem menos dedicação em termos de pesquisa, como mostrou o trabalho de escavação – ou seria remoção sistemática, já que estava dentro de um fosso praticamente protegido das areias do deserto – do barco do faraó Khufu. Tendo sido, em 1954, encontrada uma estrutura em pedra durante a limpeza de rotina próxima a Grande Pirâmide, pensou-se inicialmente que se tratava de um muro que cercaria o edifício, mas após uma escavação mais profunda, realizada pelo arqueólogo egípcio Kamal El Mallakh, foram encontrados dois fossos cuja parede é feita de pedra calcária e que guardava em seu interior as peças desmontadas de um barco feito de madeira de cedro (O’CONNOR et al., 2007; p. 61). Para o trabalho de montagem foi contratado o restaurador egípcio Hag Ahmed Youssef Moustafa que, apesar da sua experiência de vinte anos trabalhando na restauração de tumbas tebanas, acreditava que seus conhecimentos e os conhecimentos dos cientistas eram limitados quanto a montagem dos antigos barcos. Sobre isto escreveu “Senti-me ansioso e cheio de receio. Não sabia absolutamente nada sobre construção de barcos, e parecia que aquele trabalho necessitava mais de um carpinteiro ribeirinho que de um restaurador” (O’CONNOR et al., 2007, p. 62). Assim, durante três meses visitou artesões locais e fez modelos de navios em escala praticando para a tarefa que o esperava no platô de Giza. Quanto a um dos barcos encontrados, e o escolhido para ser montado, possuía mais de 1.200 peças que foram migradas uma a uma para um galpão próximo ao local para a sua restauração. O tratamento de preservação de cada peça variava, as esteiras de junco e as cordas de linho, por exemplo, eram tratadas em resinas para que não se esfarelassem. Ao todo foram treze camadas de madeira e todas elas fotografadas e catalogadas (O’CONNOR et al., 2007, p. 62).

 

Mesmo com toda a preocupação de conviver e tentar aprender com os ribeirinhos a arte de fazer barcos de madeira, a técnica dos egípcios faraônicos não foi preservada, logo Moustafa não sabia quais as disposições das peças para montá-las, mas tentou segui-las de acordo com a ordem que foram postas dentro do fosso. Como o estibordo e bombordo estavam lado a lado isto deu uma ideia de como prosseguir com o trabalho. Estando as cegas a equipe de Moustafa precisou iniciar e reiniciar o processo de montagem quatro vezes, todas com insucessos até que um dos ajudantes notasse que as peças que se encaixavam perfeitamente possuíam símbolos comuns que pareciam servir como guias. Apesar da ajuda antiga os remos não possuam as indicações e foram postos onde os restauradores supunham que seria o seu local original (O’CONNOR et al., 2007; p. 65). Ao final de dezesseis anos de trabalho a embarcação foi formada.

Como é estreito e comprido o seu desenho é de característica papiriforme, tentando imitar o aspecto dos pequenos barcos de papiro e a embarcação por inteira não utilizou nenhum tipo de metal para a sua fixação, os operários da antiguidade fizeram uso das cordas de linho, o que atesta uma maestria na construção naval faraônica, já que os antigos construtores conseguiram fazer um bom uso das cordas e de sua experiência de tal forma que as madeiras conseguiam ficar rigidamente unidas. Esta união, para nós tão incomum, ajudou a especular que o navio não foi usado de forma ritual, mas que também já navegou outrora devido ao desgaste por fricção das cordas com a madeira possivelmente causada pelo o inchaço desta última ao ficar em contato com a água. Em uma consideração Moustafa levantou que o barco pode ter transportado o corpo de Khufu de Mênfis para Giza e no final, como uma relíquia sagrada, foi guardado próximo a sua pirâmide (O’CONNOR et al., 2007, p. 64).

Hoje o barco está exposto em um museu construído em cima do fosso onde permaneceu por séculos guardado. Um segundo poço, encontrado no mesmo ano, também contém uma embarcação, mas que permanece intacta e guardada em seu local original.

 

Referência:

O’CONNOR, David; FORBES, Dennis; LEHNER, Mark. Grandes civilizações do passado: terra de faraós. (Tradução de Francisco Manhães). 1ª Edição. Barcelona: Editora Folio, 2007.

 

Imagens da embarcação de Khufu que hoje é exposta em um museu exclusivo para ela ao lado da grande pirâmide:

 

Retirado de El barco solar de Khufu. Disponível em < http://www.flickr.com/photos/danielcanoott/5418805166/ > Acesso em 14 de Abril de 11.

Retirado de Museu Barco Quéops Khufu Pirâmide Gizé Cairo Egipto Fevereiro 2008. Acesso em 14 de Abril de 11.

Retirado de Museu Barco Quéops Khufu Pirâmide Gizé Cairo Egipto Fevereiro 2008. Acesso em 14 de Abril de 11.

Retirado de Museu Barco Quéops Khufu Pirâmide Gizé Cairo Egipto Fevereiro 2008. Acesso em 14 de Abril de 11.

Retirado de Museu Barco Quéops Khufu Pirâmide Gizé Cairo Egipto Fevereiro 2008. Acesso em 14 de Abril de 11.

Retirado de Museu Barco Quéops Khufu Pirâmide Gizé Cairo Egipto Fevereiro 2008. Acesso em 14 de Abril de 11.

Retirado de Museu Barco Quéops Khufu Pirâmide Gizé Cairo Egipto Fevereiro 2008. Acesso em 14 de Abril de 11.

Retirado de Museu Barco Quéops Khufu Pirâmide Gizé Cairo Egipto Fevereiro 2008. Acesso em 14 de Abril de 11.

Referência para imagens (a partir da segunda): Retirado de Museu Barco Quéops Khufu Pirâmide Gizé Cairo Egipto Fevereiro 2008. Disponível em <http://www.flickr.com/photos/joaoleitao/sets/72157619662543317/> Acesso em 14 de Abril de 11. 

 

Esteve em foco: Face de Tutankhamon

Publicado por Márcia Jamille Costa Em 19 - fevereiro - 2011 6 COMMENTS

Márcia Jamille Costa | @MJamille

Capa da revista “Aventuras na História” da edição 61, agosto 2008. Fonte: Márcia Jamille N. Costa.

  

Esteve em foco em agosto de 2008 a capa da revista “Aventuras na História” com uma imagem bem realista do faraó Tutankhamon usando uma pequena coroa adornada com as deusas do Alto e Baixo Egito (tal coroa que de fato existe, só sua ponta pendente é que foi excluída da imagem). 

  

Coroa de Tutankhamon com deusas do Alto e Baixo Egito mais a ureus, serpente protetora dos faraós. JAMES, Henry. Tutancâmon (Tradução de Francisco Manhães). 1ª Edição. Barcelona: Editora Folio, 2005. pp. 182.

 

  

A ilustração foi feita por Sattu e é obviamente inspirada na reconstituição facial de Tutankhamon apresentada em 2005 no documentário A maldição de Tutankhamon da National Geographic. A ilustração fez parte da nova proposta de capa para a revista que, para brindar o acontecimento, retirou a faixa azul da parte inferior das capas que fez parte dos exemplares que seriam apresentadas aos assinantes da Aventuras na História. 

  

  

Reconstituição da face de Tutankhamon apresentada em 2005. Retirado de "O rosto de Tutankhamon". Acesso em 19 de Fevereiro de 2011

 

  

A beleza da capa é admirável e a “humanização” de Tutankhamon foi um tiro seteiro. Por isto que após três anos ela ainda merece menção. 

  

Fote: 

Reconstituição da face de Tutankhamon. Retirado de O rosto de Tutankhamon. Disponível em <http://www.fascinioegito.sh06.com/rostotut.htm> Acesso em 19 de Fevereiro de 2011

5 mitos da pirâmide de Khufu (Quéops)

Publicado por Márcia Jamille Costa Em 02 - fevereiro - 2011 12 COMMENTS

5 mitos sobre a construção da grande pirâmide de Gizé.

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

Polêmica, magnânima, cara e inspiradora, estas e muitas outras palavras cairiam bem para definir a Grande Pirâmide de Gizé, um projeto inovador que o que tinha de simbólico tinha de aviso: o faraó que ali estava era alguém muito poderoso.

 

Pirâmides do platô de Gizé. Fonte: Papel de parede. Acesso em 27 de janeiro de 2011.

 

As pirâmides egípcias eram muito mais que um mausoléu, era um outdoor político, um trabalho na paisagem que serviu para mostrar todo o poder do faraó e o seu desejo de adentrar na eternidade. O platô de Gizé, outrora um grande jardim trabalhado com animais para a caça, hoje é de um deserto árido, mas rico em história e principalmente lendas sobre a construção da Grande Pirâmide, a pirâmide do faraó Khufu, a primeira – e maior – do local. Abaixo citei cinco dos principais mitos sobre a sua construção.

 

1 – A filha de Khufu (Quéops em grego) teve que se prostituir para pagar as despesas da construção;

Quem contou esta estória foi Heródoto, mas muitos das suas narrativas não são muito levadas a sério já que existem uma série de imprecisões. Hoje, ao menos entre muitos egiptólogos, já existe um consenso de que ele não se preocupava muito com a veracidade, mas em deixar sua narrativa mais elaborada.

Como não foi encontrado nenhum indício que aponte que uma das filhas de Khufu se prostituiu para ajudar ao pai esta afirmação continua a ser só um mito.

 

2 – A obra foi feita com trabalho escravo;

A obra foi feita com trabalhadores “remunerados” – entre aspas porque eles recebiam o pagamento em forma de comida, ou utensílios -. Não havia punições corporais para que os trabalhos transcorressem, pelo contrário, foram encontrados ossos dos trabalhadores da grande pirâmide e muitos mostravam regeneração, ou seja, foram tratados em vida. 

 

Sepultura de trabalhador das pirâmides com espolio funerário. Fonte: Tomb discovery helps solve ancient slavery riddle pyramids. Disponível em < http://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-1242096/Tomb-discovery-helps-solve-ancient-slavery-riddle-pyramids.html> Acesso em 02 de fevereiro de 2011.

 

 

Sepultura de trabalhador das pirâmides. Fonte: Tomb discovery helps solve ancient slavery riddle pyramids. Disponível em < http://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-1242096/Tomb-discovery-helps-solve-ancient-slavery-riddle-pyramids.html> Acesso em 02 de fevereiro de 2011.

 

 

3 – Foi construída com auxilio de elefantes;

Eu gostaria de saber quem está espalhando este absurdo. Não foram encontrados ossos de elefantes nem no platô e nem nos arredores de Gizé. De fato existiam trabalhos conjuntos entre pessoas e alguns animais (a exemplo do cão e o macaco), mas elefantes não. Para quem defende esta idéia uma justificativa plausível é de que os ossos se degeneraram com o tempo, mas devo descartar isto, o solo egípcio é bem propício a conservar ossos de íbis, imagina então de um elefante.  

 

4 – Está posicionado com as estrelas do cinturão de Orion;

É uma das sugestões mais plausíveis para a disposição do trio de Gizé. Hoje as estrelas não estão posicionadas com as três principais pirâmides do platô, mas acredita-se que na época de Khufu o céu noturno era diferente e as estrelas e pirâmides estavam alinhadas.

 

As pirâmides de Gizé supostamente seriam alinhadas, outrora, com as estrelas do cinturão de Órion.

 

5 – Obedece cálculos divinos.

A estória de cálculos divinos é superstição atual, mas diz-se que o primeiro passo para construir a Grande Pirâmide teve um ritual sagrado, afinal era um túmulo para um deus que estava sendo construído. O ritual consistiria em Khufu por a primeira estaca para demarcar o local onde se iniciaria a construção da estrutura do mausoléu. Mas os tais cálculos divinos para se descobrir os segredos do passado e do futuro é uma invenção moderna. Muitos místicos durante o século XIX e XX procuravam explicações para os “exóticos” monumentos egípcios.    

 

 

Conheça mais sobre as pirâmides egípcias:

 

 

As pirâmides do Antigo Egito

Autor: Aidan Dodson

Editora: Folio

Ano de Publicação: 2007

Tradução: Francisco Manhães. Maria Júlia Braga, Carlos Nougué

Fonte (primeira imagem):

Pirâmides do platô de Gizé. Fonte: Papel de parede. Disponível em <http://www.opapeldeparede.com.br/wallpapers-9993/> Acesso em 27 de janeiro de 2011.

Massacre em Luxor em 1997

Publicado por Márcia Jamille Costa Em 01 - dezembro - 2010 2 COMMENTS

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

Sou uma das adeptas de que a arqueologia não só estuda os eventos mais arcaicos da sociedade, como também os contemporâneos, e quando falamos em um país mulçumano não é incomum que não nos lembremos também das práticas de terrorismo que, independente do porque é feito, só é uma ação de violência que só gera violência e maus entendidos. Assim foi em 97 e anos depois em 2001, com dois dos ataques terroristas que acabaram moldando uma face negativa sobre o islamismo. 

Em 17 de novembro de 1997, exatamente há treze anos atrás, cinquenta e oito turistas e quatro nativos egípcios foram mortos em Deir el Bahari, templo mortuário da Rainha Hatshepsut (Décima Oitava Dinastia – Novo Império). 

As 8h45min, seis terroristas disfarçados de militares adentraram o templo e assassinaram com facadas e metralhadoras 62 pessoas de várias nacionalidades dentre a japonesa, suíça, britânica, colombiana e alemã. A operação toda durou cerca de quarenta e cinco minutos. Após a ação os assassinos fugiram em um ônibus até o Vale das Rainhas, onde um deles foi executado a tiros por policiais do local, os demais fugiram para as montanhas tendo sido mais tarde encontrados mortos, o que levanta a possibilidade de suicídio coletivo.

 

 

Resgate próximo ao templo.

 

Resgate próximo ao templo.

 

A região de Luxor é uma das mais visadas por turistas, recebendo por anos milhares de visitantes interessados em conhecer o Vale dos Reis, onde foram sepultados os antigos poderosos do Egito. Deir el Bahari entra no roteiro por ser um dos templos mais belos de todo o nordeste da África. Do ponto de vista arquitetônico o templo é uma novidade uma vez que se constitui de um edifício com terraços e andares. Suas paredes serviram para narrar os pontos altos do reinado de Hatshepsut, desde o seu nascimento até suas empreitadas. Hatshepsut foi uma das poucas mulheres que se consolidaram como faraó, e a que se deu melhor em tal papel. Durante o seu governo ocorreu uma das mais importantes viagens por mar realizada por egípcios e varias obras de construção e reparação em templos de Tebas.

 

Templo de Deir el Bahari.

 

O massacre foi idealizado e realizado pelo o grupo terrorista Jihad Talaat al- Fath. Após a ofensiva os egípcios desencadearam manifestações em Luxor e se posicionaram totalmente contra a prática do terrorismo. Os motivos do ataque ainda hoje não são claros, mas o policiamento nas áreas turísticas dobrou e alguns dos partidos mais extremistas agora usam propostas menos radicais para chegar ao poder.

Naquele mesmo ano artistas da ópera Aída, encenada meses antes no local, retornaram a Deir el Bahari e de forma solene cantaram a peça ao lado da música tradicional egípcia em homenagem as vítimas.  

 

Matérias consultadas:

 

PLETT, B. Egypt tries to understand the Luxor massacre. Disponível em: <>http://news.bbc.co.uk/2/hi/programmes/from_our_own_correspondent/34587.stm. Acessado em: 22 de Julho de 2010.

HAWLEY, C. Analysis: Islamic militants re-evaluate tactics. Disponível em: <>http://news.bbc.co.uk/2/hi/middle_east/524878.stm. Acessado em: 22 de Julho de 2010.

World Tourists massacred at temple. Disponível em: <>http://news.bbc.co.uk/2/hi/32179.stm. Acessado em: 22 de Julho de 2010.

 

Algumas palavras sobre Ankhesenamon

Publicado por Márcia Jamille Costa Em 28 - outubro - 2010 10 COMMENTS

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

Algumas palavras sobre Ankhesenamon… Gosto desta frase, pois é mais ou menos assim que Howard Carter inicia sua descrição da rainha em seu livro “A descoberta da tumba de Tutankhamon” [1] publicado pouco tempo após o achado. Ele, que foi o ator principal da peça que foi a descoberta do sepulcro deste famoso faraó, já tinha percebido o potencial da rainha Ankhesenamon, nome que dez anos mais tarde seria homenageado no filme “A Múmia” (1932). Mas cá entre nós, esta mulher tem algo que de fato nos fascina.

Devo mencionar que recebo um bom número de recados de pessoas fazendo verdadeiras declarações de amor a esta figura tão negligenciada na história egípcia e posso dizer, sem receio algum, que me sinto privilegiada por receber tais mensagens dos fãs dela, pois, não é só um sinal de que o meu trabalho está sendo recompensado, mas também porque nos últimos anos me tornei também uma de suas admiradoras. Talvez seja daí que partimos do pressuposto de que temos que esquecer a história do “pesquisador neutro”. Eu me vi tão envolvida com a vida dela que não posso simplesmente chamá-la de “meu objeto de estudo” ou olhar para suas imagens e tratá-la como se fosse um rato de laboratório. Ankhesenamon também já foi humana e acredite tão humana quanto qualquer um de nós, embora na sua época tenha sido posta em um patamar acima de todos os outros seres humanos, ao ponto de ter recebido, com o seu irmão, o direito a governar o Egito ainda quando infantes.

 

Ankhesenamon (ilustração cortada). Foto: Araldo de Luca.

 

“Ankhesenamon também já foi humana e acredite tão humana quanto qualquer um de nós, embora na sua época tenha sido posta em um patamar acima de todos os outros seres humanos (…)”

 

Apesar de hoje nos parecer um equívoco colocar crianças no poder não era um absurdo para algumas sociedades antigas, dentre elas a egípcia. Por viverem em um mundo totalmente diferente do nosso em termos de ideais, Ankhesenamon e seu esposo eram reverenciados como deuses, embora o palácio ainda se recuperasse do trauma do reinado do faraó anterior, Akhenaton. Como podemos ver o jovem casal real não era um simples par de crianças, pois estavam nesta condição de deuses viventes na terra e recebiam orações de pessoas que desejavam que seus corpos vivessem para sempre. Este era o quadro da época em que Ankhesenamon e Tutankhamon começaram o reinado, mas se alguém me questionasse se o séquito que os acompanhava acreditava que de fato seus jovens governantes possuíam uma essência divina eu jamais saberia dizer, isto é quase a mesma coisa que me perguntar se eu acho que os padres do vaticano acreditam que o Papa possui algum propósito sagrado.

 

Ankhesenamon em Luxor (ilustração cortada). Foto: Lionel Leruste. 2007.

 

Por muito tempo imaginei como seria possível alguém conseguir adorar outra pessoa (e não falo de Hollywood, ou coisas do gênero), acreditarem que a existência de outro alguém é muito mais importante do que a sua. Relutei um pouco e acredito que neste momento consigo entender. Odeio fazer analogia entre sociedades, mas sendo que agora me é possível: se lembrarmos de Sei Shônagon (Japão) e sua imperatriz Sadako ou da Madame de Noailles e sua exorbitante etiqueta para com a casa real francesa cremos que estas duas figuras acreditavam fielmente que os seus senhores eram enviados divinos e se sentiam extremamente privilegiadas por estar próximos a eles. Shônagon, por exemplo, chega a quase se sentir imoral ao olhar para os imperadores.

 

“(…) se alguém me questionasse se o séquito que os acompanhava acreditava que de fato seus jovens governantes possuíam uma essência divina eu jamais saberia dizer, isto é quase a mesma coisa que me perguntar se eu acho que os padres do vaticano acreditam que o Papa possui algum propósito sagrado.”

 

Embora seja ainda tão ignorada pelo o meio acadêmico, ritualisticamente e administrativamente Ankhesenamon toma papeis importantes durante e após o reinado do esposo. Ela, em termos religiosos, é em parte a essência de Tutankhamon e quando este morre a governante participa ativamente dos ritos de passagem do marido para a vida após a vida. Sua imagem está em muitos lugares dentre os artefatos da KV-62, assim, quando unimos esta situação ao fato de que Tutankhamon era um colecionador de lembranças e levou consigo todas as coisas que mais apreciava, não seria incomum que ele levasse também tantas imagens de sua dúplice e consorte.

Mesmo com todo o apelo divino a rainha naturalmente já tem para si um clamor e amor pela a vida sem igual e uma naturalidade e frescor que é tão difícil de encontrar em muitas de suas antecessoras e sucessoras, esta impressão talvez venha dos resquícios da Era Amarna que ainda rondavam a arte palaciana durante o reinado de Tutankhamon.

É incrível como ela ganhou tantos adeptos ao longo dos milênios, desde Tutankhamon a gente comum de alguma cidade em um país qualquer. Depois de quase três anos não consigo parar de me espantar com o tamanho carinho que as pessoas sentem pela Ankhesenamon, uma rainha morta a mais de três milênios, mas que parece continuar viva nos corações de milhares de admiradores.

 

Ankhesenamon em Luxor (ilustração cortada). Giuseppe. 2000.

[1] Howard Carter inicia a frase com “Agora, uma palavra sobre a sua esposa”. Esta passagem se dá no capítulo especial sobre o rei e sua rainha.  

A tumba do governador de Bahariya

Publicado por Márcia Jamille Costa Em 27 - outubro - 2010 1 COMMENT

A tumba de Zed-khons-uef-ankh, governador de Bahariya  

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

Embora o nome oásis evoque a imagem de um pequeno monte de terra com palmeiras no meio do deserto causticante o Bahariya está muito longe disto. Hoje ele comporta um aglomerado de casas e na era faraônica não foi muito diferente.

Por ser uma área de ocupação extensa tanto na atualidade como no passado remoto não são raras situações em que os arqueólogos se depararam com casas atuais em cima de sítios arqueológicos. Foi assim em 1999 quando a equipe sob a liderança do arqueólogo Dr. Zahi Hawass durante um trabalho no bairro Xeque Sabi (cidade de El Bawiti em Bahariya) encontrou uma porta para um sepulcro com o nome “Zed-khons-uef-ankh” que, embora fosse um homem totalmente desconhecido para nós, já era procurado por alguns pesquisadores fazia sessenta anos.

 

Sarcófago de Zed-khons-uef-ankh. Foto: Kenneth Garrett. 2001.

 

Dentro do local, visitado pela a primeira vez pela a equipe em 2000, foram encontrados sarcófagos sobrepostos estilo uma boneca russa: o primeiro feito de pedra calcária, o segundo de alabastro e o terceiro de madeira que por sua vez se desfez com o tempo.

Muito pouco foi encontrado do espólio funerário de Zed-khons-uef-ankh, ao contrário do da sua esposa, a dama Naes, que foi sepultada na mesma galeria que o marido. Ela acabou tendo mais sorte, quase todos os seus amuletos funerários permaneceram no lugar, exceto um colar roubado por saqueadores agressivos que ao puxá-lo de seu corpo quebrou o pescoço da múmia.

 

Sarcófago de Naes sendo examinado por Mansour Boriak. Foto: Kenneth Garrett. 2001.

 

Não se sabe muito sobre Zed-khons-uef-ankh, que possivelmente foi alguém muito poderoso em vida, uma vez que, em um dos relevos em seu sepulcro ele se faz retratar maior que o próprio faraó. No entanto, apesar do esforço e dinheiro investido, Zed-khons-uef-ankh não teve sorte na sua tentativa de ingressar no além-vida, sua múmia se degradou antes mesmo da chegada dos arqueólogos, um fim trágico para alguém que equiparava o seu poder ao do próprio rei.

 

Curiosidades:

- Agora mundialmente conhecido pela a descoberta das “múmias douradas” na verdade Bahariya era importante por outros motivos no passado: o oásis foi um respeitável ponto para o comércio entre o Egito, a Líbia e Sudão;

- Foi identificado excesso de ferro em um dos poços de abastecimento de água do oásis. O envenenamento por este elemento pode causar uma morte prematura, o que explicaria uma faixa etária de 30 a 35 anos de vida entre alguns dos indivíduos das catacumbas do período Ptolomaico.

- Com o descobrimento da tumba subterrânea as casas que estavam ligeiramente acima precisaram ser destruídas, mas não antes dos moradores serem indenizados com outra residência. 

 

Para saber mais:

HAWASS, Z. After 2,600 years a desert oasis yields the long-sought tombs of its legendary governor and his family. http://ngm.nationalgeographic.com/ngm/data/2001/09/01/html/ft_20010901.2.html. Acesso em: 27/09/2010

Cidades Ocultas: as tumbas perdidas do Cairo. Este documentário distribuído pela The History Channel Brasil tem um bloco dedicado ás “múmias douradas”. O programa, que ainda está sendo veiculado pelo canal, é exclusivo para falar dos subterrâneos que existem embaixo das grandes cidades.

 

A restauração na tumba de Nefertari

Publicado por Márcia Jamille Costa Em 13 - outubro - 2010 7 COMMENTS

Para “A mais bela de todas”: o trabalho de restauro na tumba da rainha Nefertari 

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille 

  

“Quando um conservador encontra algo em más condições deve tentar devolvê-lo a seu estado original. Trata-se de fazer as coisas bem”, assim falou Paolo Mara, chefe responsável pela a restauração da tumba da rainha Nefertari da XIX Dinastia (Novo Império). Descoberto em 1904 pelo o arqueólogo italiano Ernesto Schiaparelli o túmulo estava em um lamentável estado de conservação além de vazio e desprovido da múmia da rainha. Os artistas do faraó revestiram os muros de pedra calcária com gesso polido utilizado como base para os lindos murais que retratam a rainha e sua passagem pelo o além. Schiaparelli organizou então um informe fotográfico do local com a ajuda de Michele Pizzio e Francesco Ballerini realizando então 132 imagens tanto do interior como do exterior da tumba, uma documentação importante para mostrar-nos hoje qual era o estado do sepulcro em 1904. 

  

Expedição do Museu Metropolitano. Foto: Harry Burton. 1920

  

Diga-se de passagem que Nefertari foi a mais mimada dentre as esposas de Ramsés II, a única que teve o privilégio de ter um templo em Abu Simbel, um dos feitos mais geniosos deste faraó, o que permitiu que não somente ele, mas ela também fosse alvo de culto. A sua tumba é uma das mais decoradas do Vale das Rainhas, mas as visitas que recebia e os atos de vandalismo aceleraram o processo de degradação das pinturas murais o que levou ao Serviço de Antiguidades do Egito a permitir o trabalho de restauração pelo o Instituto Getty de Conservação de Los Angeles em 1986 comandado então por Paolo Mora e sua esposa (co-coordenadora).   

Com o trabalho a equipe detectou a presença de algas microscópicas e contaminação bacteriológica, além do real estado das pinturas que estavam literalmente se desgrudando da parede devido a presença de sal cristalizado na pedra calcária. O sal sofria tal processo justamente devido ao ar quente emitido pelos os visitantes. Para proteger as seções mais deterioradas os integrantes da equipe colaram tiras de papel de amoreira, assim como gazes, nas pinturas. Para que o processo de limpeza não degradasse os desenhos foi empregada uma pistola de ar comprimido de baixa pressão para a eliminação do sebo de trás do gesso descolado.   

  

Para fixar as imagens deterioradas os conservadores usaram tiras de papel de amoreira japonesa. A ausência de produtos químicos neste papel o torna perfeito para os trabalhos de restauração. Foto: Instituto Getty de Conservação.

  

Foi feito o uso de uma argamassa sem sal feita de areia e gesso – seguindo os métodos faraônicos – para colar o gesso antigo de volta a parede. O trabalho durou cinco anos e a equipe recusou-se a fazer, por mais mínima que fosse, uma intervenção moderna nas pinturas (completar desenhos faltosos, por exemplo) para não abalar a integridade original da tumba. 

  

Imagem de um dos murais da tumba apos o trabalho da equipe do GCI. A primeira antes da restauração e a segunda após a limpeza em 1992. Foto: Instituto Getty de Conservação.

  

Apesar dos esforços são poucos os privilegiados que podem visitar o sepulcro, mas isto para proteger as pinturas dos vapores que lhes são tão nocivos. Durante a restauração foram encontrados traços daqueles que trabalharam na tumba na época em que Ramsés II era vivo e provavelmente a própria rainha Nefertari: cerdas dos pinceis e até digitais. 

O nome de Nefertari significa “A mais bela de todas” e o seu túmulo não merecia menos. Tal denominação é perfeita para aquela que é a tumba mais bela do Vale das Rainhas e que hoje graças a intervenção moderna permanecerá para o nosso deleite e reflexão por mais algumas décadas como a mais linda. 

  

Curiosidades: 

- A restauração realizada pelo o Instituto Getty de Conservação não foi a primeira na tumba, ocorreram outras onde foi utilizado inclusive cimento (que foi tirado posteriormente em 1986); 

- Os conservadores retiraram também as pinturas modernas postas no local durante as tentativas de restauro anteriores; 

- O que tornou o resultado do trabalho um sucesso foi a multidisciplinaridade da equipe que contava com profissionais ligados a área da hidrografia, geologia, dentre outros; 

Quer fazer uma viajem em 3D pela a tumba? Clique aqui

  

Foto: Instituto Getty de Conservação (GCI).

Referência: Biblioteca Egito: Ramsés II. Barcelona: Folio, 2007.

10 coisas sobre Tutancâmon

Publicado por Márcia Jamille Costa Em 15 - setembro - 2010 14 COMMENTS

 

10 coisas  sobre Tutancâmon que você possivelmente ainda não sabe

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

  

 

Rosto de um dos ataúdes de Tutankhamon. Fotografia tirada pela a expedição ao Egito realizada pelo o Metropolitan Museum of Art. (Ano desc.)

 

 

Tutankhamon (Tutancâmon) reinou durante cerca de uma década durante a XVIII Dinastia (Novo Império). Seu túmulo foi encontrado praticamente intacto em 1922 pelo o arqueólogo inglês Howard Carter e desde então qualquer descoberta relacionada a ele vira um furor na mídia mundial.

Apesar de ser uma das figuras faraônicas mais conhecidas, perdendo somente para a rainha Cleópatra, muitas coisas sobre a sua vida é desconhecida pelo o grande público, mas algumas delas listei abaixo:

    

1 – Um pequeno menino-rei: a idade que ele subiu ao trono (de nove anos) é uma hipótese em cima de um pequenino par de luvas achado em sua tumba e que foi usado durante a sua coroação. O tipo de ponto usado para a costura deste objeto era desconhecido do mundo contemporâneo até ser reinventado no século XVIII;

2 – Preparado para a guerra: durante o seu reino algumas intervenções militares foram realizadas na Ásia Menor e Núbia e provavelmente o faraó esteve em pelo menos uma batalha, isto se a bibliografia disponível no sepulcro de alguns dos seus funcionários corresponderem a verdade. Na sua tumba além das armas (usadas para treino) foi encontrada uma cama de campanha;

3 – Bichinho de estima: ele tinha dois cães, não se sabe o nome deles nem a raça embora sugestões apontem para o Pharao Hound;

4 – Tutankhamon… Ou Ankhesenamon: já foi sugerido que o manequim que retrata o rosto e o tórax do rei (JE 60722) não seria ele, e sim a sua rainha Ankhesenamon já que a obra lembra alguns traços do período amarna, mas a cor vermelho escuro da pele, tradicionalmente utilizada para identificar pessoas do sexo masculino na arte egípcia, aponta o contrário;  

5 – Quem?: os pequeninos sarcófagos que guardavam os órgãos do faraó (ex. JE 60688) estão no nome do seu antecessor Smenkaré. Mas isto talvez não se trate de uma apropriação vil de bens já que o rosto no objeto é diferente dos demais que possuem o nome de Tutankhamon;

 

(…) provavelmente o faraó esteve em pelo menos uma batalha, isto se a bibliografia disponível no sepulcro de alguns dos seus funcionários corresponderem a verdade.

 

6 – Roupas de baixo: em um episódio dramático da abertura de sua tumba Lorde Carnarvon acreditou ter visto rolos de papiros em uma caixa, mas que mais tarde foi observado que na verdade eram roupas usadas por baixo das vestes tradicionais do rei, algo como as modernas cuecas;

7 – Jovem engajado: um dos bastonetes encontradas em sua tumba foi feito por ele mesmo. Sabemos disto porque o faraó se vangloriou assinando o artefato com a frase “Um junco que sua majestade cortou com suas próprias mãos”;

8 – Intervalo post mortem: Acredita-se que ele morreu no inverno egípcio porque em seu sarcófago foram postas flores de milho que brotam de março a abril, ainda lembrando que os preparativos da mumificação duram cerca de 70 dias;

9 – Várias casas: antes de morar em seu palácio outrora situado na atual Malkata, Tutankhamon e sua esposa viveram em Menfis, e antes disto um curto período em Akhetaton;

10 – Seu lado favorito para dormir: um dos leitos de Tutankhamon possui marcas de uso. Graças a este fato sabemos que ele preferia dormir do lado esquerdo da cama.

 

 

Tutankhamon é retratado batalhando em um dos cofres guardados na sua tumba. Foto: Araldo de Luca. Archivio White Star.

 

Nefertiti… Falsificada?

Publicado por Márcia Jamille Costa Em 19 - agosto - 2010 1 COMMENT

Por Márcia Jamille Costa

 

Em 2009 uma notícia preocupou arqueólogos e egiptólogos e trouxe a tona esquemas de uma das mais famosas ações de contrabando ligada à arqueologia egípcia. Um historiador suíço chamado Henri Stierlin lançou para a impressa que o famoso busto da rainha Nefertiti, que está na Alemanha, seria uma falsificação.

 

Rainha Nefertiti. Foto: M. Busing.

 

De acordo com ele o afamado objeto foi copiado em 1912 pelos alemães para testar os antigos pigmentos utilizados pelos egípcios, Stierlin acredita que o busto que conhecemos foi feito por um artista chamado Gerardt Marks, contratado pelo o próprio descobridor da peça, Ludwig Borchardt.

 

Primeira foto do busto de Nefertiti. Seu descobridor, em carta ao patrocinador da expedição, teria pedido discrição para que o busto não chamasse atenção das autoridades egípcias.

 

A idéia de usar o busto como se fosse verdadeiro, de acordo com o historiador, partiu quando o príncipe alemão, Johann Georg, acreditou que o busto seria realmente antigo. Envergonhado, Borchardt não assumiria ao seu senhor a verdade.

Stierlin acredita que o busto é falso devido à própria aparência do objeto. Ele aponta a falta de um dos olhos como uma evidência, para ele um egípcio antigo jamais teria permitido ter uma imagem sua – que era como se fosse seu duplo – reproduzida faltando um pedaço. Também aponta o corte dos ombros da peça, que é em estilo vertical, algo que ele acredita ter surgido somente no século XIX na Europa. Ele também menciona a ausência de descrição do artefato em relatórios científicos durante a avaliação para sua saída do Egito, o que para ele é uma prova de que o objeto nem sequer esteve lá alguma vez.

 

Rainha Nefertiti. Foto: Hirmer Verlag.

 

As conclusões de Stierlin foram publicadas em seu livro Le Buste de Nefertiti – une Imposture de l’Egyptologie (2009). Outro autor e historiador que apoiou a afirmação foi o alemão Edrogan Ercivan em seu livro Missing Link in Archaeology, publicado também em 2009. Além de afirmar que o busto é falso ainda diz que a imagem foi baseada na própria esposa de Borchardt.

 

Le Buste de Nefertiti – une Imposture de l'Egyptologie. Autor: Henri Stierlin.

 

No entanto o busto passou por testes radiológicos, o que provou que ele realmente tem mais de 3.000 anos de idade. Os exames mostraram uma face oculta, como se fosse um núcleo para apoiar a estrutura de gesso, exatamente da forma como as esculturas de faces da cidade de Aketaton eram feitas. Mesmo assim Stierlin permanece imputável, para ele como o exame de Carbono 14 não é possível de ser realizado o busto não pode ser datado.

 

 

Imagens dos testes radiológicos no busto da rainha Nefertiti.

 

 

Questionado pelo o jornal The Guardian, o diretor do Museu Egípcio de Berlim, Dietrich Wildung, negou as acusações. “Uma mulher bonita e um suposto escândalo… Isso sempre vende”, comentou. Ele mesmo encomendou o teste para saber a autenticidade da peça e concluiu que de fato era antiga.

 

Curiosidades sobre o busto e seu descobridor:

- Em 1895, Ludwig Borchardt chegou ao Egito. Ele utilizava a fotografia para documentar sua viajem, o que acabou combinado, de forma gratificante, à arqueologia: um dos seus trabalhos mais importantes foi o cadastro fotográfico do acervo do Museu Egípcio do Cairo;

- O busto da rainha Nefertiti foi descoberto em 1912 na oficina do artista Tutmoses – local onde foram encontradas outras peças que retratavam pessoas da corte do faraó Akhenaton -. Para sair do Egito a imagem da governante ficou oculta dos inspetores enquanto Borchardt apresentava as peças mais chamativas. Este acontecimento foi subentendido pelo o próprio arqueólogo em uma de suas cartas;

- Com medo de represálias egípcias Borchardt e seu patrocinador mantiveram a peça escondida até 1924;

- Em 1933, Hitler proibiu a saída de Nefertiti da Alemanha, boatos nos anos 80 falariam que o ditador encomendou um segundo busto a fim de tentar enganar os egípcios.  

 

Para saber mais:

Documentário: Nefertiti’s Odyssey (No Brasil “Nefertiti”)

Canal: National Geografic Channel

 

* Fonte da notícia (conclusões de Stierlin): AFP