É descoberto o mais antigo sítio arqueológico de Tell Edfu (Egito)

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Uma missão de arqueologia do Instituto Oriental da Universidade de Chicago descobriu em Tell Edfu um complexo administrativo que remonta do final da 5ª Dinastia (Antigo Reino). A equipe é composta por pesquisadores dos EUA e do Egito sob a coordenação da Dra. Nadine Mueller e o Dr. Gregory Marward.

Foto: Ministry of Antiquities

O Secretário Geral do Conselho Supremo de Antiguidades, Mostafa Waziri, disse que no momento esse complexo administrativo é a evidência arqueológica mais antiga encontrada em Tell Edfu. Até então a mais velha era datada da metade da 6ª dinastia.

A equipe trabalha nesse local desde 2014 e os pesquisadores estão bastante contentes com a descoberta. Um dos motivos é porque a construção possui evidências de expedições reais que foram organizadas durante esse período e que tinham como objetivo extrair minerais e pedras preciosas do Deserto Oriental. Esses mesmos edifícios foram usados ​​como armazéns para os produtos e mercadorias dessas expedições e constituem o que na época era um recém-fundado bairro de assentamentos na antiga cidade de Behdet (Edfu)

Foto: Ministry of Antiquities

Essa construção é do tipo monumental e foi feita com mudbrick (um tipo de tijolo de barro) e está próxima do Templo de Edfu, que foi construído séculos mais tarde, durante o Período Ptolomaico.

Foto: Ministry of Antiquities

Vários artefatos e algumas inscrições foram encontrados. Dentre eles estão 220 selos de tijolos de barro do rei Djedkaré Isesi (que ordenou uma famosa expedição a Punt), fragmentos de atividades de mineração, nomes dos trabalhadores que participaram de escavações (a exemplo do comandante Sementio) e obras mineiras. Também foram encontradas conchas do Mar Vermelho e potes advindos da Núbia (atual Sudão).

Foto: Ministry of Antiquities

Descobertas paralelas:

Próximo a Edfu também foram realizadas pesquisas. Na área de Kom Ombo estatuetas (tanto de deuses como de pessoas) foram encontradas. Assim como uma estela de pedra calcária que descreve um homem e sua esposa apresentando ofertas para uma deidade sentada

 

Fonte:

Oldest archaeological evidence in Aswan, Tel Edfu revealed. Disponível em < http://www.egypttoday.com/Article/4/39872/Oldest-archaeological-evidence-in-Aswan-Tel-Edfu-revealed >. Acesso em 11 de janeiro de 2018.

Archaeologists unveil two major discoveries in Upper Egypt’s Tel Edfu and Kom Ombo. Disponível em < http://english.ahram.org.eg/NewsContent/9/40/287937/Heritage/Ancient-Egypt/Archaeologists-unveil-two-major-discoveries-in-Upp.aspx >. Acesso em 11 de janeiro de 2018.

Press Release Jan. 2018 (submitted Dec. 2017). Disponível em < https://telledfu.uchicago.edu/news/press-release-jan-2018-submitted-dec-2017 >. Acesso em 11 de janeiro de 2018.

Partes de múmias roubadas há quase 100 anos retornam ao Egito

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Na semana passada, o Departamento de Repatriamento do Ministério das Antiguidades do Egito anunciou que partes contrabandeadas de múmias (não foi confirmado se é o mesmo corpo ou pessoas diferentes) foram repatriadas. Os membros – um crânio e duas mãos – tinham sido resgatados por investigadores dos EUA na cidade de Manhattan. Eles evitaram que um negociante norte-americano vendesse as peças.

Foto: Repatriation Department/Ministry of Antiquities

Shaa’ban Abdel Gawad, diretor do Departamento de Repatriamento, afirmou que as peças foram roubadas e contrabandeadas ilegalmente para os EUA há 90 anos atrás. De acordo com ele “Em 1927, um turista americano comprou essas peças de vários trabalhadores depois de fazer obras de escavações ilegais em um sítio arqueológico localizado no Vale dos Reis, cidade de Luxor”.

Foto: Repatriation Department/Ministry of Antiquities

Não foram liberadas mais informações sobre como essas partes foram retiradas do Egito e como foram finalmente localizadas quase 100 anos depois. Nem qual será a punição do contrabandista atual.

Foto: Repatriation Department/Ministry of Antiquities

O historiador Bassam el-Shamaa também teceu algumas palavras sobre esse repatriamento falando ao Egypt Today que “Os egípcios devem parar de vender e contrabandear a herança do Egito” e acrescentou “É contra todos os direitos humanos vender partes desmembradas de corpos humanos, mesmo que sejam múmias” rememorando sobre os leilões atuais que ainda possuem essa prática.

Contrabando e venda de múmias têm sido uma ação comum desde o início da Arqueologia Egípcia, mas tornou-se ilegal com o passar das décadas. Hoje é visto não só como algo ilegal, mas antiético, afinal, trata-se do corpo de alguém.

 

Fonte:

Egypt restores parts of dismembered mummies. Disponível em < https://www.egypttoday.com/Article/4/39285/Egypt-restores-parts-of-dismembered-mummies >. Acesso em 07 de janeiro de 2018.

Os deuses do Egito Antigo: o que você precisa saber!

Por Márcia Jamille | Instagram @MJamille

Após uma longa espera finalmente os leitores e seguidores do site Arqueologia Egípcia podem assistir ao primeiro episodio (ou melhor: episódio piloto) da nossa série “Deuses do Egito Antigo“.

Neste capítulo é feito um apanhado bem geral sobre as divindades desta icônica civilização. É basicamente uma prévia para preparar vocês para a nossa primeira série oficial:

Espaço vazio dentro da Grande Pirâmide do Egito: Entenda!

Por Márcia Jamille | Instagram @MJamille

Em novembro, a revista científica Nature publicou uma notícia anunciando a descoberta de “espaços vazios” dentro da pirâmide do faraó Khufu (Quéops), a maior do Platô de Gizé.

Aqui no Arqueologia Egípcia possuímos um dossiê sobre o assunto, mas você pode encontrar comentários em vídeo também no nosso canal. Nele falo um pouco sobre esta pesquisa e a controvérsia em que ela está envolvida:

E caso tenha curiosidade de conhecer um pouco mais sobre a arquitetura egípcia acesse o nosso vídeo sobre o assunto: Arquitetura egípcia | Pirâmides, moradias e o Vale dos Reis.

Tenha em casa: A Edições Del Prado, uma editora especializada em vendas de fascículos com imagens colecionáveis, possui uma coleção intitulada “Cenas do Egito Antigo”. Uma delas é a construção das pirâmides.

Clique aqui para conferir a peça ou aqui para ver as demais cenas.

464 artefatos arqueológicos egípcios foram recuperados pela polícia

Por Márcia Jamille | Instagram @MJamille

No último dia 09/11 foi divulgada a notícia de que a Polícia de Turismo e de Antiguidades da cidade de Fayum (Egito) conseguiu frustar a ação de bandidos que tinham em sua posse centenas de artefatos arqueológicos. A ideia dos ladrões era contrabandear os objetos para comerciantes de antiguidades no exterior.

Durante a ação policial foram recuperados 464 artefatos que somam mais de trezentos ushabtis, 12 estatuetas, faces de madeira, potes cerâmicos e 66 fragmentos de ataúdes.

Não foi esclarecido a qual período histórico essas peças pertencem.

Fonte: 

464 historical artifacts seized by police in Fayoum. Disponível em < http://www.egypttoday.com/Article/4/31709/464-historical-artifacts-seized-by-police-in-Fayoum >. Acesso em 13 de novembro de 2017.

 

Cheia do Rio Nilo é celebrada pelo Museu Egípcio do Cairo

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Para celebrar o Dia da Cheia do Nilo, o Museu Egípcio do Cairo está organizando passeios guiados gratuitos para todos os visitantes durante o seu horário noturno de funcionamento.

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Pôr do Sol às margens do Nilo, em Luxor.

Elham Salah, coordenador do Setor de Museus do Ministério das Antiguidades, revelou que os passeios serão em árabe e inglês e ocorrerão entre 18 e 24 de agosto. As peças mostradas serão aquelas relacionadas com o Rio Nilo, tais como o Nilometro e embarcações.

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Um dos barcos de Dashur exposto no Museu Egípcio do Cairo

E ainda tem a peça arqueológica do mês: para agosto foi escolhida um óstraco que representa o deus Hapi, divindade que controlava as cheias do Nilo.

A peça do mês de agosto do Museu Egípcio. Foto: Ministério das Antiguidades.

O sinal das cheias e o Ano Novo egípcio:

Nas épocas das cheias do Nilo algumas festividades eram celebradas durante dias para comemorar o evento, dentre elas o Festival Wag e a Festa da Bebedeira. Não se sabe a data fixa da primeira cheia (até porque poderia oscilar), mas o Ministério das Antiguidades do Egito lançou uma nota em que a situa após o dia 15 de agosto no nosso atual calendário.

— Saiba mais: Festival da Bebedeira no Egito Antigo + Vídeo

Durante a antiguidade egípcia o tempo era contado de diferentes maneiras, uma delas era através das estações: Aket, Peret e Shemu. A Aket abria o ano através das cheias e era um momento de grande celebração no país.

Um dos eventos naturais que anunciavam o início desta estação, além das cheias, era o surgimento da estrela Sirius no céu (na América do Sul ela só surge no final do ano).

— Saiba mais: A Estrela Sirius no Egito Antigo

Atualmente as inundações anuais não são muito visíveis graças as represas que foram construídas ao longo do Rio Nilo no século passado. Entretanto, durante a antiguidade as águas cobriam parte das terras férteis. Exatamente por isso que algumas residências eram construídas sob uma elevação artificial ou algumas cidades eram rodeadas por muralhas de contenção ou protegidas por represas.

Representação de uma casa do Período Faraônico. Foto: STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007.

 

Fonte da matéria:

Egyptian Museum celebrates flooding of the Nile. Disponível em < http://english.ahram.org.eg/News/275272.aspx >. Acesso em 13 de agosto de 2017.

A Estrela Sirius no Egito Antigo

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Muitas comunidades do passado utilizavam o céu noturno como parâmetro para uma série de coisas tais como prever cheias, a contagem do tempo e localização geográfica. Entre os antigos egípcios isso não foi diferente.

Montagem: sciencefreek.

O céu noturno era entendido como o corpo da deusa Nut, que tentava se ligar com a terra, o deus Geb, mas que era impedida pelo ar, o deus Shu. O corpo de Nut era composto por estrelas as quais, em alguns textos religiosos, são tidas como “embarcações iluminadas” navegando pelo o corpo da deusa (LESKO, 2002).

— Saiba mais: Detalhe da criação do cosmo no sarcófago de Butehamon

Foi a familiaridade com o céu noturno e a natureza em terra que fez os antigos egípcios perceberem um padrão: assim que uma determinada estrela extremamente brilhante surgia no céu tinha início as cheias do rio Nilo. Essa estrela é chamada atualmente de Sirius, mas durante a antiguidade egípcia foi denominada como Sopdet (Sothis, em grego), deusa responsável por anunciar as inundações do Nilo, protetora da agricultura, do tempo e da fertilidade. Além de, por vezes, associada com a deusa Ísis.

Deusa Sopdet (não confundir com Seshat). Imagem: Creative Commons.

Com as cheias tinha início a estação Aket [1], que abria o ano egípcio. Ou seja, era o surgimento de Sopdet um dos eventos que anunciava o Ano Novo.

Fonte:

DESPLANCQUES, Sophie. Egito Antigo (Tradução de Paulo Neves). Porto alegre: L&PM, 2011.

LESKO, Leonard. “Cosmogonias e Cosmologia do Antigo Egito”. In: SHAFER, Byron; BAINES, John; LESKO, Leonard; SILVERMAN, David. As religiões no antigo Egito (Tradução de Luis Krausz). São Paulo: Nova Alexandria, 2002.

ROSSI, Corinna. Science and Technology: Pharaonic. LLOYD, Alan, B (Ed). A Companion to Ancient Egypt. England: Blackwell Publishing, 2010.


[1] O ano egípcio era dividido em três estações: Aket, Peret e Shemu.

Esposa de Tutankhamon talvez foi sepultada em tumba recém-descoberta

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

O arqueólogo e ex-ministro das Antiguidades do Egito, Zahi Hawass, com a sua equipe de pesquisadores, afirma ter evidências de que encontrou uma tumba que possivelmente pertenceu a rainha Ankhesenamon, esposa de Tutankhamon — cuja sepultura foi descoberta praticamente intacta em 1922 — e filha do casal Nefertiti e Akhenaton.

Ankhesenamon e Tutankhamon e Ankhesenamon. Foto: Fonte: STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007.

A tumba, que está localizada no Vale dos Reis, próximo a sepultura do faraó Ay [1] (a qual alguns egiptólogos acreditam que a priori pertenceria a Tutankhamon), ainda não foi escavada, mas existe um projeto para tal.

Ankhesenamon em Luxor. Foto: Lionel Leruste. 2007.

Em 7 de julho a National Geographic italiana publicou um artigo que sugere que uma equipe liderada por Hawass tinha encontrado uma nova tumba no Vale dos Reis e agora o pesquisador confirmou esta descoberta. “Nós estamos crentes que existe uma tumba lá, mas nós não sabemos com certeza a quem pertence”, disse Hawass ao site Live Science. Apesar disso ele afirmou que acredita se tratar da tumba de Ankhesenamon dada a proximidade com a tumba de Ay[1], com quem ela possivelmente foi casada após a morte de Tutankhamon.

“Nós estamos certos de que é uma tumba escondida naquela área porque eu encontrei quatro depósitos de fundações” e complementou explicando que estas fundações seriam “caches ou furos no chão que foram preenchidos com objetos votivos como vasos de cerâmica, restos de comida e outras ferramentas como um sinal de que uma construção de uma tumba foi iniciada”. Um contexto parecido já foi encontrado em outros lugares, como o próprio Hawass explica: “Os antigos egípcios usualmente faziam quatro ou cinco fundações depósitos sempre que iniciavam a construção de um túmulo”[1].

 

Quem foi Ankhesenamon?

Não é tarefa fácil saber o que ocorreu durante os anos finais da vida da rainha Ankhesenamon: sabemos que ela sobreviveu a Tutankhamon e que o sepultou. Com ele teve certamente um bebê que só viveu alguns dias e um possível natimorto (ambas as crianças foram sepultadas com Tutankhamon) (DAVID; DAVID, 1992; BUNSON, 2002; HAWASS et al, 2010). Um anel encontrado na década de 1920 mostra o nome dela ao lado do nome de Ay, sucessor do seu marido, o que propõe uma co-regencia ou que ela casou-se com ele. Contudo, na tumba dele não há indícios dela como sua esposa, mas sim Ty, sua mulher desde a época do reinado de Akhenaton (CARTER; MARCE, 1977; GRIMAL, 2012).

— Saiba mais: Ankhesenamon e Tutankhamon

A busca pela tumba desta rainha já perdura há alguns anos. A priori acreditou-se que ela poderia ter sido sepultada na KV-63, sugestão que foi abandonada após se descobrir que o local era um cache de mumificação [2]. Depois que teria sido na KV-21 (PÉREZ-ACCINO, 2003; PARRA, 2011). Agora temos esta possível KV-65. A resposta? Teremos que esperar mais algum tempo para descobrir.

JAMES, Henry. Tutancâmon (Tradução de Francisco Manhães). Barcelona: Folio, 2005.

Fontes:

[1] King Tut’s Wife May Be Buried in Newly Discovered Tomb. Disponível em < https://www.livescience.com/59840-king-tut-wife-tomb-possibly-found.html >. Acesso em 19 de julho de 2017.

[2] Documentários: King Tut’s Mystery Tomb Opened (Discovery Channel; 2006); Egypt’s Mystery Chamber (Discovery Channel; 2009).

BUNSON, Margaret R. Encyclopedia of Ancient Egypt. New York: Facts on File, 2002.

CARTER, Howard; MACE, Arthur. The Discovery of the Tomb of Tutankhamen. London: Dover Publications, 1977.

DAVID, Rosalie; DAVID, Antony. A Biographical Dictionary of Ancient Egypt. London: Steaby, 1992.

GRIMAL, Nicolas. História do Egito Antigo (Tradução Elza Marques Lisboa de Freitas). Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012.

HAWASS, Zahi;  GAD, Yehia Z;  ISMAIL, Somaia; KHAIRAT, Rabab; FATHALLA, Dina; HASAN, Naglaa; AHMED, Amal; ELLEITHY, Hisham; BALL, Markus; GABALLAH, Fawzi; WASEF, Sally; FATEEN, Mohamed; AMER, Hany; GOSTNER, Paul; SELIM, Ashraf; ZINK, Albert; PUSCH, Carsten M. Ancestry and Pathology in King Tutankhamun’s Family. JAMA. 303(7):638-647, 2010.

PARRRA, José Miguel. El verdadero origen del faraón niño: La familia de Tutankamón. Historia National Geographic. Nº 83.

PÉREZ-ACCINO, José Ramón. “Primeros cuerpos, primeras tumbas. En torno a los orígenes del valle de los Reyes”. In: POLO, Miguel Ángel Molinero. Arte y sociedad del Egipto antiguo. Encontro, 2000.

Estudando Arqueologia no exterior e decorando nomes egípcios

Esta é mais uma edição do “Respondendo Perguntas” dos explorers. Espero sanar parte da curiosidade de vocês acerca de temas nem tão acadêmicos assim tais como a minha tatuagem (que são hieroglifos), minha monografia e como se familiarizar com a leitura de temas históricos.

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Profanação e romantismo: a verdadeira maldição das múmias

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Esta é a minha tradução integral do texto “Friday essay: desecration and romanticisation – the real curse of mummies” (Ensaio da sexta-feira: profanação e romantismo – a verdadeira maldição das múmias) de Craig Barker, que é gerente de educação dos museus da Universidade de Sidney. Achei interessante trazê-lo para vocês porque além de falar do uso da imagem de múmias egípcias no cinema e na literatura, faz uma reflexão sobre isso. Então, para os interessados em história do cinema, literatura e claro no Egito Antigo esse artigo será um grande bônus. Aproveito para lembra-los que já traduzi outro texto com um assunto levemente semelhante em “O Antigo Egito e os primórdios do cinema” e fiz minha própria contribuição sobre o tema em “Múmias, múmias e mais múmias no cinema”.

 

Ensaio da sexta-feira: profanação e romantismo – a verdadeira maldição das múmias

Craig Barker, Gerente de Educação, Sydney University Museums, University of Sydney.

Este mês de junho, o túmulo de antigas ideias de Hollywood vai abrir novamente e apresentar o conto de um antigo túmulo egípcio perturbado por um atrapalhado arqueólogo e/ou um herói de ação-aventura, que inadvertidamente e involuntariamente desencadeia uma maldição.

Esta maldição ressuscitará uma múmia buscando vingança ou uma amante perdida, causando estragos na sociedade contemporânea até que nosso herói possa detê-la. Este ano A Múmia, dirigida por Alex Kurtzman, verá os faraós de Hollywood Tom Cruise e Russell Crowe enfrentarem uma múmia feminina interpretada por Sofia Boutella.

Ouvi isso antes? O filme de Kurtzman é apenas o mais recente de uma linha surpreendente da mumiamania e egiptofilia antes da descoberta do túmulo de Tutankhamon em 1922. Enquanto a cultura popular se deleitava com múmias por mais de dois séculos, na mesma época, as antiguidades egípcias foram saqueadas, desejadas e depois profanadas. No século 19, era até moda sediar as festas para “desenrolar”, onde as múmias eram reveladas e dissecadas como um evento social dentro dos salões vitorianos.

Uma múmia é um cadáver de um humano ou animal cuja pele e órgãos foram preservados. Isso pode ser feito deliberadamente, através de processos de embalsamamento químico, ou acidentalmente, graças ao clima. Várias culturas antigas praticavam a mumificação deliberada, tal como o povo Chinchorro da América do Sul, e os mais famosos, os corpos dessecados do Antigo Egito, que foram meticulosamente preparados para a vida após a morte.

O estudo de múmias tornou-se uma disciplina acadêmica importante e mais continua a ser descoberto. No último mês, vimos a descoberta de 17 múmias em uma necrópole perto da cidade de Minya, no Vale do Nilo, e a descoberta da tumba de nobre do Novo Império em Luxor. Apesar desse nível de atenção acadêmica e meticulosa investigação arqueológica, infelizmente, saques e contrabando de antiguidades do Egito, incluindo múmias, continua hoje.

 

Tudo realmente velho é novo novamente

Com um orçamento anunciado em $125 milhões, filmado principalmente em Oxford e no Museu Britânico, A Múmia é um grande orçamento investido pela Universal Studios. A história sugere que esse filme será um grande sucesso.

Entretanto, a mãe de todos os filmes de múmia permanece sendo o filme original de 1932, A Múmia (The Mummy), estrelado por Boris Karloff; Ele define o modelo para os outros seguir. O sacerdote egípcio Imhotep, simpaticamente interpretado por Karloff, foi mumificado vivo por tentar reviver seu amor proibido, a princesa Ankh-es-en-amon. Descoberto pelos arqueólogos que o ressuscitam lendo do Pergaminho de Thoth, Imhotep acredita que uma mulher moderna, Helen Grosvenor (interpretada por Zita Johann), é a reencarnação da princesa e a leva pela Londres moderna[1]. Não é só um monstro, como também um amante incompreendido.

Mais de uma dúzia de filmes se seguiram, a partir da década de 40 (The Mummy’s Tomb), os anos 50 (The Mummy), os anos 80 (The Awakening) e que culminaram com sucesso de bilheteria de 1999, A Múmia, que gerou duas sequencias e um spinoff de franquia prequel[2].

Cada um desses filmes tem fundamentalmente o mesmo enredo. Na versão de 2017, uma mulher é ressuscitada dos mortos em vez de um homem, mas mesmo isso não é novo. Blood From the Mummy’s Tomb (1971) de Hammer apresentou uma múmia feminina (Valerie Leon)[3], que é revivida e depois caminha por aí com poucas roupas para um inverno de Londres.

Valerie Leon em Blood From the Mummy’s Tomb (1971).

De maldições e reis

Por que a múmia é uma tropa popular no cinema de terror? A múmia, pode-se argumentar, simboliza alguns dos nossos medos mais básicos em torno da mortalidade. O apelo duradouro da múmia também pode ser rastreado para a escavação arqueológica que todo mundo no planeta já ouviu falar: o túmulo de Tutankhamon. A descoberta desta tumba por Howard Carter no Vale dos Reis em 1922 fez manchetes internacionais. A tutmania resultante influenciou todo o tipo de cultura popular, desde o design e moda Art Deco, até canções pop e publicidade.

Arquivos da filmagem das escavações de Carter no túmulo de Tutankhamon em 1922.

Uma exposição recente no Museu Ashmolean de Oxford explorou o quão famoso Tutankhamon foi durante esse período-chave da mumiamania. A cobertura de mídia das escavações foi insaciável. Carter teve um acordo exclusivo com o jornal Daily Express[4], que levou outros repórteres a enfeitar suas histórias. Isso levou a relatos de uma suposta (mas inexistente) maldição no túmulo: “A morte vem em asas rápidas para aquele que perturba a paz do rei”. Foi um absurdo, é claro, mas uma vez que o financiador do projeto arqueológico, Lord Carnarvon, morreu no Cairo graças a uma picada de mosquito infectado, a história da maldição decolou mais rápido do que qualquer notícia real. Na cultura popular, múmias e maldições se tornaram irremediavelmente ligadas.

A descoberta de Tutankhamon pelo time de Carter inspirou uma série de relatos ficcionais, de graus variados de fidelidade à história, incluindo o filme The Curse of King Tut’s Tomb (1980), um remake de filme de TV com o mesmo nome em 2006 e a série britânica de televisão Tutankhamun de 2016.

Enquanto Tut perpetuou a loucura de Hollywood por múmias, o fascínio público por maldições antecede a morte infeliz de Carnarvon. Uma série de filmes mudos com temas de múmias foram feitos nos primeiros anos de cinema, incluindo o Cleopatra’s Tomb (1899) pelo cineasta pioneiro George Melies e The Mummy, de 1911. Infelizmente, a maioria destes não sobreviveu.

Havia também uma rica tradição do século XIX de múmias na literatura. As múmias apareceram em tudo, desde trabalhos sérios até penny dreadfuls. Um número de escritores famosos contou histórias que cimentaram a história da maldição, incluindo Lost in a Pyramid: or th Mummy’s Curse (1869) de Louisa May Alcott; Jewel of Seven Stars (1903) de Bram Stoker e Lot No. 249 (1892) de Arthur Conan Doyle.

‘Modern Antiques’ foi uma caricatura de 1806 de Thomas Rowlandson, que satiriza o entusiasmo britânico pelo antigo Egito. Wikipedia.

Outras obras foram além das maldições. Some Words With a Mummy (1845) de Edgar Allan Poe foram um comentário satírico sobre Egiptomania. Havia também romances, talvez melhor tipificados por The Mummy’s Foot, história de 1840 de Théophile Gautier, em que um jovem compra um pé mumificado de uma loja de antiguidades parisiense para usar como papelão. Naquela noite, ele sonha com a bela princesa a quem o pé também pertencia, e os dois se apaixonam, apenas para serem separados pelo tempo.

Um número de estudiosos, especialmente Jasmine Day, têm investigado o papel das múmias na ficção do século XIX e um aspecto interessante é o número de escritoras femininas desses contos.

Uma das, se não a mais antiga, história de múmia é The Mummy!: Or a Tale of the Twenty Second Century (1827) de Jane Webb (Loudon), que mostra o avivamento de Quéops no ano 2126. Outras escritoras apresentaram um interessante subtexto e perspectiva.

Os túmulos de múmias egípcias da realeza haviam sido violados e explorados por saqueadores, e uma analogia com o estupro é clara dentre as antigas ficções de maldição de múmias escritas por mulheres. Em contraste, escritores masculinos, como o Gautier, apresentavam muitas visões mais romantizadas ou eróticas dos mortos.

 

A violação do Nilo

Pote de boticário do século XVIII com a inscrição MUMIA do Deutschen Apothekenmuseum Heidelberg, Alemanha. Wikipedia.

O fascínio europeu pelas múmias egípcias começou há séculos: o “pó de múmia” foi vendido em boticários para uma variedade de fins médicos e afrodisíacos (Shakespeare, a menção a múmias na cena do caldeirão das bruxas de Macbeth).

Enquanto isso, “múmia marrom”, um pigmento colorido feito parcialmente de múmias, era usado na arte europeia (foi particularmente favorecido pelos pré-rafaelitas).

Mas, a egiptomania realmente começou com seriedade no século XIX. Os relatos do explorador britânico de origem italiana, Giovanni Belzoni, de suas aventuras de 1815-8 no Egito tornaram-se lendários, assim como as múmias e outras antiguidades que ele trouxe para Londres.

Seus relatos falavam de entrar em túmulos e os sons cruéis feitos sob seus pés enquanto ele estava sob corpos mumificados.

Cientistas que acompanharam as campanhas egípcias de Napoleão descobriram a pedra de Rosetta, que mais tarde no Reino Unido levaria à decifração de hieróglifos. O turismo egípcio decolou em meados do século XIX. Tudo isso viu um interesse crescente no Egito. Múmias, ou pelo menos restos mumificados, tornaram-se itens valorizados em coleções de museus nacionais e gabinetes pessoais de curiosidades.

O desejo de possuir múmias e outros artefatos egípcios, juntamente com a expansão colonial europeia e o fascínio pelo orientalismo, impulsionaram um enorme mercado de restos humanos e outras antiguidades. Famosamente descrito como “o estrupo do Nilo”, este saque foi em uma escala monumental, literalmente no caso de obeliscos e esculturas gigantes. Egípcios empreendedores estabeleceram lojas de antiguidades para suprir o desejo insaciável de visitantes europeus de possuir o passado.

G.B. Belzoni forçando passagem na segunda pirâmide de Gizé, 1820, gravura à mão. UA1992.24. Coleção de Arte da Universidade de Sydney.

Muitas das múmias terminaram em museus destinados a estudos acadêmicos, mesmo aqui na Austrália. De museus universitários para coleções estaduais para instituições privadas, como MONA, um número surpreendentemente grande de múmias têm feito a este país.

Outros acabaram nas mãos de colecionadores europeus e americanos privados, onde as festas do “desenrolar” públicas e privadas tornaram-se populares. As festas do desenrolar do cirurgião Surgeon Thomas Pettigrew em um Teatro Piccadilly na década de 1820 foram as primeiras do que se tornou um evento popular no meio desse século.

Foi parcialmente por conta da escala dessa perda que levou o Egito a desenvolver uma das primeiras leis de antiguidades do mundo. Promulgada por um decreto de 1835, visava impedir a remoção não autorizada de antiguidades do país.

Múmia de um menino, início do século II dC, de Tebas, Egito. NMR26.1, Nicholson Museum, Universidade de Sydney. Sydney University Museus

Seguiu-se a criação do Conselho Supremo de Antiguidades em 1858 e a abertura do Museu do Cairo cinco anos depois. A inundação das antiguidades egípcias no exterior não parou, mas definitivamente desacelerou e combinada com a ascensão da disciplina acadêmica da arqueologia, viu uma mudança gradual na compreensão da importância do contexto para as antiguidades.

Paul Dominique Philippoteaux, Examen d’une momie – Une prêtresse d’Ammon, óleo sobre tela, Egito, c.1895 – 1910. Peter Nahum at the Leicester Galleries.

O subsequente aperto da legislação no Egito e em outros lugares, seguido da Convenção da UNESCO de 1970 sobre os Meios de Proibir e Prevenir a Importação, Exportação e Transferência de Propriedade Cultural, criou o ambiente moderno para a investigação ética e arqueológica e a exportação legal de antiguidades.

 

Sem fim para a egiptomania

No entanto, o saque ainda continua a ser um grande problema no Egito hoje, particularmente com o declínio do turismo e as dificuldades econômicas que vieram com a turbulência política após a Primavera Árabe de 2011. O número de antiguidades saqueadas e contrabandeadas do Egito continua a ser extraordinário. Cerca de $ 26 milhões em antiguidades saqueadas foram ilegalmente transportadas para os EUA a partir do Egito apenas nos primeiros cinco meses de 2016.

De acordo com o site Live Science, os guardas das antiguidades foram “abatidos” enquanto protegiam um túmulo antigo e “as múmias foram deixadas de fora no sol para apodrecer depois que seus túmulos foram roubados”.

Roubo e destruição de múmias no local de Abu Sir Al Malaq no Egito. HBO.

O problema está em andamento e varia de sindicatos internacionais de contrabando internacional até os locais tentando aumentar o dinheiro extra. As imagens de satélite demonstram grandes áreas que estão sendo saqueadas sistematicamente.

A escavação não supervisionada pode ser perigosa. Dois escavadores ilegais foram mortos este mês, quando sua casa entrou em colapso sobre seu túnel, o último de vários incidentes. É uma lembrança trágica de quão perto estamos do passado e como a atração das múmias é tão grande hoje quanto a Belzoni.

Enquanto comemos nossa pipoca e gostamos de assistir a batalha de Tom Cruise com os mortos reanimados, vale a pena lembrar que a verdadeira maldição das múmias não é o que elas podem nos fazer na ficção e no cinema, mas sim pela maneira como as profanamos e tratamos na vida real.


Texto original:

Friday essay: desecration and romanticisation – the real curse of mummies. Disponível em < http://theconversation.com/friday-essay-desecration-and-romanticisation-the-real-curse-of-mummies-77476 >. Acesso em 01 de junho de 2017.


Tenha em casa: A Edições Del Prado, uma editora especializada em vendas de fascículos com imagens colecionáveis, possui uma coleção intitulada “Cenas do Egito Antigo”. Uma delas recria um momento durante a mumificação.

Clique aqui para conferir a peça ou aqui para ver as demais cenas.

Minhas notas acerca do texto:

[1] Creio que ocorreu um equívoco aqui, já que a história toda se passa no Egito.

[2] Possivelmente ele está falando de “O Escorpião Rei”.

[3] Lembrando que este filme não é da Universal Studios.

[4] Ele falou que foi esse, mas foi o Times de Londres.