(Guest Post) Produção Científica de História sobre “Vivenciando o Egito Antigo em Sala de Aula”

Nas últimas semanas a profa. Lorena Mendonça Aleixo contou para mim sobre as atividades que estava realizando com os alunos dela, onde estava incluso uma sala temática sobre o Antigo Egito. Os seus relatos acerca das atividades são muito interessantes e podem servir como inspiração para outros educadores, então fiz um convite pedindo um Guest Post. A Lorena é graduada do Curso de Licenciatura em História da Universidade Salgado de Oliveira (UNIVERSO) e Professora do Município de Rio Bonito e Município de Tanguá. Seu projeto foi realizado com as turmas do 6º ano (turmas A, B e C) da Escola Municipal Maurício Kopke, localizada no município de Rio Bonito-RJ. A atividade foi realizada no dia 05 de Julho de 2013 e nela os alunos puderam vivenciar fatos históricos, caracterizando-se de acordo com os personagens da época específica. A profa. teve o apoio da direção da Instituição de Ensino a Srª Lenita Carvalho da Silva e a Srª Franciane Lurdes Mendonça. Quem também tiver interesse em escrever um Guest Post é só enviar uma mensagem pelo formulário de contato. Abaixo confiram o texto:

INTRODUÇÃO

“Uma escola que tem História, sabe levar o aluno a construir a História de sua vida”.
Maurício Hanna Badr.

Ensinar História nos dias de hoje tem se tornado um verdadeiro desafio, pois em uma sociedade onde as crianças lêem cada vez menos, passam o dia jogando video-game, assistindo televisão e usando o Facebook, ensiná-los a importância da História e a construção de um pensamento crítico, muitas das vezes é frustrante. São raros os alunos que se interessam pelo estudo da História, pois, segundo eles, “é uma matéria chata que fala sobre coisas do passado onde a professora fala coisas difíceis, é necessário decorar textos enormes”.

Lecionar História não é copiar textos no quadro com linguajar rebuscado e no final da aula solicitar aos alunos que respondam a uma série de perguntas no qual se trabalha somente a capacidade de memorização e não o entendimento e o raciocínio crítico. Não queremos dizer que copiar textos no quadro não tenha sua importância, entretanto, o ensino-aprendizagem vai muito mais além do que isso, é necessário que o aluno vivencie e se interesse pelo que esta sendo ensinado, é preciso aguçar a curiosidade do aluno, trazer a História para a realidade deles, fazer com que os mesmos se sintam parte da História e vivenciem aquele momento como se estivessem na época dos Faraós, dos Reis e Rainhas, da Ditadura Militar, enfim, é necessário viver a História.

Lorena Aleixo e seus alunos.

Aprender, portanto, não significa recitar um número cada vez maior de conceituações formais, mas elaborar modelos, articular conceitos de vários ramos da ciência, de modo a cada conhecimento apropriado pelo sujeito ampliar-lhe a rede de informações e lhe possibilitar tanto a atribuição de significados com o uso dos conceitos como instrumentos de pensamento. Enfim, a aprendizagem promove uma transformação cognitiva no individuo que envolve reflexão, análise e síntese, ou seja, o aprendizado adequadamente organizado resulta em desenvolvimento mental e põe em movimento vários processos de desenvolvimento que, de outra forma, seriam impossíveis de acontecer (Sforni e Galuch, 2006).

Através da experiência como professora de História do 6º ano, podemos perceber que a dificuldade em compreender a História aumenta nesta etapa, em comparação aos outros anos do Ensino Fundamental do segundo seguimento. Pois, é durante este período que a maturidade do aluno está sendo desenvolvida, juntamente com o seu conhecimento e capacidade de questionar. No conteúdo de História do 6º ano se trabalha Pré-História e História Antiga, conteúdos que, muitas das vezes, se torna distante demais do entendimento do aluno. Não basta somente explicar que na Pré-História o homem que era nômade tornou-se sedentário, é necessário que além do significado da palavra, o aluno entenda a razão do acontecido, ou seja, o que levou o homem a se tornar sedentário, o que mudou, e por que o aluno precisa saber isso.

Em virtude disto, usamos como estratégia, o método construtivista, passando a realizar encenações durante algumas das aulas, tentando trazer um pouco mais da vivência da história para os alunos. Assim, formatou-se a idéia de um Projeto. Quando esta idéia foi apresentada para a turma, os alunos mostraram-se entusiasmados e interessados rapidamente, dando inicio ao “Projeto Sala Egípcia”. Uma Sala Temática sobre o Egito Antigo, no qual os alunos seriam os personagens principais deste evento.

O Egito Antigo está muito mais disseminado no imaginário popular, seja por conta dos filmes como, por exemplo, “A Múmia”, “Moisés: O Príncipe do Egito”, entre outros, ou até mesmo por conta de todo o esoterismo que ele atrai e através de vídeos games, podendo ir muito mais além. Ao participar do Projeto, os alunos puderam aprender muito mais sobre o Egito Antigo de uma maneira lúdica e divertida.

Consideramos como uma experiência efetiva e gratificante, pois o objetivo em trazer a História para a vida dos alunos além da vivência deste momento foi alcançado. Vale à pena ressaltar, que alunos de outras turmas de diferentes seguimentos também tiveram contato com a “atmosfera egípcia” onde puderam interagir, tornando-se personagens, como se não estivessem mais em uma sala de aula, e sim no Antigo Egito as margens do Rio Nilo.

OBJETIVO GERAL

Nosso maior objetivo como educador é incentivar a criança a gostar de História, a entender que é um direito de todo o ser humano ter acesso a informação. Além disso, ao instigar a curiosidade dos alunos, vemos que eles buscam mais informações na internet assim como em livros e através dos questionamentos realizados aos pais e aos professores. Acabamos por atuar como agentes catalizadores de motivação e interesse por História e pelas demais disciplinas.

ESPECÍFICOS

Levar os alunos a vivenciar a partir de encenações, fatos históricos de diversas épocas.

Buscar através de caracterizações de personagens históricos a interação do aluno no processo ensino-aprendizagem.

Contribuir de maneira efetiva para o ensino-aprendizagem dos alunos utilizando o método construtivista.

METODOLOGIA

Para a realização do referido projeto, tivemos como metodologia a utilização do Método Construtivista, por considerar ser uma estratégia que auxilia sobremaneira o ensino-aprendizagem, além de colaborar na integração e sociabilização dos alunos.

Os trajes foram confeccionados tendo como referência, pesquisa realizada na Internet pelos alunos participantes do Projeto.

RESULTADO

Para a realização deste Projeto os alunos se dividiram em grupos, onde cada grupo tinha uma função importante na realização do evento, havendo uma interdependência entre eles.

Grupos de alunos caracterizados. Fonte: Arquivo pessoal da pesquisadora.

O primeiro grupo de alunos representou a sociedade egípcia, sendo trajados de Faraó, Esposa Real, Servo, Escravo, Militar, Escriba e Sacerdote. O segundo grupo, representando a riqueza da religião egípcia, caracterizaram-se de Deusa Maat (a Deusa do Equilíbrio e Justiça) e a Deusa Ísis (Esposa do Deus Osíris, deusa da maternidade e fertilidade), além de mais duas alunas, uma que representou os Rituais Fúnebres caracterizada de Múmia, e outra representando a cultura através da arte da música e dança, trajada de dançarina egípcia. Os trajes foram confeccionados de TNT e EVA, e os demais adereços como coroas e braceletes foram feitos de cartolina e papel laminado, o cetro, chicote e lança foram confeccionados com cano de PVC envolvidos com fita dupla-face e papel laminado, somente a espada do militar que foi feita de madeira trabalhada e envolvida com o papel laminado e durex.

A “Sala Egípcia” foi montada no refeitório da escola e transformada numa sala improvisada com uma imensa cortina para separar os ambientes, dentro desta sala foram montadas estandes com diversos materiais, onde cada grupo de alunos era responsável pelo seu setor, informando e ensinando que se aproximasse para observar os trabalhos expostos.

Sala Egípcia. Fonte: Arquivo pessoal da pesquisadora.

Em uma dessas estantes havia livros didáticos, “pop-up” de literatura sobre o Egito Antigo, além de revistas. Todo material exposto estava disponível para ser manuseado e examinado por todos que visitavam a exposição.

Material de consulta do Egito. Fonte: Arquivo pessoal da pesquisadora.

Também foram confeccionados pelos alunos estatuetas de argila para representar os Shauabtis (estatueta funerária egípcia de aspecto mumiforme, designada a substituir o falecido na execução dos trabalhos agrícolas após a morte), material que ficou exposto e um grupo de alunos disponível para tirar dúvidas dos curiosos que se aproximavam deste estante.

Estande dos Shauabtis. Fonte: Arquivo pessoal da pesquisadora.

Outro grupo de alunos ficou responsável pela confecção das vestimentas egípcias, onde bonecos foram vestidos com roupinhas feitas de restos de tecido e paetês pelos próprios alunos (com uma ajuda especial dos pais e avós) e expostos na Sala.

O mini-museu foi montado com os trabalhos realizados pelos alunos e pelos materiais que eu mesma levei (fotos, papiros, amuletos, panos e estatuetas).

Mini-Museu. Fonte: Arquivo pessoal da pesquisadora.

Os alunos se maquiavam como egípcios e apresentavam o trabalho para as turmas que chegavam na sala para visitar a exposição, cada aluno que visitava esta estande além de se informar sobre as técnicas de maquiagem egípcia, também tinha os seus olhos e rostos pintados pelos alunos responsáveis por este setor da Sala. O material utilizado pelos alunos foi lápis de olho, delineadores, batom e sombras.

Produção da maquiagem egípcia com a diretora Srª Lenita. Fonte: Arquivo pessoal da pesquisadora.

Além dos cartazes de trabalhos sobre o Egito Antigo, Mumificação e Deuses Egípcios expostos nas paredes da sala, também foram expostas maquetes das Pirâmides de Gizé na entrada da Sala Egípcia.

Alguns alunos que não estavam participando dos estandes e nem estavam trajados, atuaram como monitores da Sala Egípcia, cuidando da iluminação da sala, do som, da localização dos alunos trajados, da organização dos estandes e dos demais alunos que visitavam a sala, enfim, colaboraram para uma perfeita organização e funcionamento da Sala Egípcia.

Todo o material necessário para a realização deste Projeto foi fornecido pela Escola Municipal Maurício Kopke e pelas Diretoras Srª Lenita Carvalho da Silva e Srª Franciane Lurdes Mendonça que foram de fundamental importância para a realização deste Projeto.

Não houve um aluno que não se surpreendeu ao entrar na sala egípcia, as janelas foram tapadas com cartolina preta e a luz ficou apagada, apenas a luz de um abajur dava o clima de mistério e aguçava a curiosidade, o som ficava ligado tocando músicas egípcias e um leve aroma de incenso pairava no ar, o visitante da Sala Egípcia logo que entrava era recepcionado pelas Deusas Ísis e Maat, que guardavam os portais da Sala Egípcia, logo em seguida se deparava com uma múmia repousando no meio da sala sob o olhar vigilante do Sacerdote, ao lado o Faraó acompanhado de sua Esposa Real, seu Servo, Militar, Escriba e Escrava observavam os visitantes que por alí passavam em direção os estandes, onde podia-se observar os inúmeros trabalhos expostos nas paredes e nas mesas, bem como a Biblioteca do Egito, onde o visitante poderia ler e manusear as obras, observar as peças egípcias no Mini-Museu e admirar os Shauabtis feitos de argila. Monitores atentos a todo o instante, prontos e capacitados para tirar qualquer dúvida dos visitantes acerca dos materiais expostos. No final da exposição uma dançarina egípcia dança ao som ambiente que impregnava magicamente a Sala com a atmosfera egípcia. Ao lado uma equipe de alunas maquiavam os visitantes com a maquiagem egípcia, além de ensiná-los as técnicas e a história por trás deste costume. Na televisão passava ininterruptamente documentários sobre o Egito Antigo, e no computador tocava a música egípcia acompanhado de belíssimas imagens (vídeos extraídos do youtube), no final da sala, ao sair, o visitante mais uma vez era cumprimentado pelas Deusas e guiado pelos monitores.

O “Projeto Sala Egípcia” não só despertou a paixão pelo Egito Antigo, como também por todos aqueles que a visitaram. Todos os alunos participaram voluntariamente e foram fundamentais para o sucesso deste Projeto, assim como os pais que visitaram a sala, prestigiando seus filhos e a direção da Escola que foi de grande apoio e incentivo para a realização do Projeto.

A Sala Egípcia aconteceu no dia 05 de Julho de 2013, tendo início às 9 horas e término às 16 horas (com intervalos). Todas as turmas da Escola Municipal Maurício Kopke visitaram a exposição, assim como alguns pais de alunos, demais funcionários da escola e coordenadores do município, que ficaram encantados com o Projeto e a competência dos alunos do 6º ano ao executá-lo.

CONCLUSÃO

Através deste Projeto, foi possível despertar a paixão e a curiosidade pela História, em especial pelo Egito Antigo. Os alunos passaram a gostar mais de História, se tornaram mais participativos em sala de aula, podemos observar inclusive, uma sensível melhora no aproveitamento dos alunos participantes. Sabemos que este Projeto ficará para sempre registrado na mente destes alunos, contribuindo para que haja um grande diferencial no futuro e na formação dos mesmos. Sendo extensivos também aos demais alunos que visitaram a Sala Egípcia.

Isto foi percebido claramente em alguns depoimentos de alunos que participaram do Projeto, como poderemos observar logo abaixo.

“Eu gostei da Sala Egípcia que retratou bem o Egito que é um dos lugares que eu gostaria de conhecer!(…)”. (Dâmaris – 11 anos)

“Eu amei a Sala Egípcia, é educativa e divertida. Eu amei quando eu fui a rainha”. (Helena – 11 anos).

“Eu gostei da Sala Egípcia por que foi muito legal e eu aprendi um monte de coisas legais e interessantes. Eu vi a dançarina e também gostei quando as crianças entraram na Sala Egípcia para ver as coisas e se maquiar. Foi a melhor coisa que eu já fiz na Escola toda! (Ludmila – 12 anos)

“Eu adorei a Sala Egípcia por que eu fui a Deusa Maat(…)”. (Edielli – 11 anos).

“Eu gostei muito da Sala Egípcia, foi bom para avaliar a capacidade de cada um. A parte que eu mais gostei foi quando a múmia levantou e as crianças menores morreram de medo(…)”. (Aline – 11 anos)

“O que eu mais gostei foi do faraó e seus criados, servo, serva, escravo, escriba, militar e muito mais. Achei realista e muitos também acharam bem feito.” (Maria Pilar – 11 anos)

“Eu gostei de muitas coisas: a múmia, os trabalhos, a Deuses, as pessoas fantasiadas. Porque eu gostei por causa do trabalho em equipe, eu pude interagir.” (Lucas – 12 anos)

“Eu gostei da Sala Egípcia porque eu achei muito legal e também por participar e colaborando com o que era os Shabbits, explicando para quem não sabia o que era e eu até tinha ficado muito interessada. Eu adoro minha professora Lorena, porque ela explica muito bem e isso me faz ficar mais interessada pela História.”(Kássia – 11 anos)

“Sim, gostei muito, pois consegui aprender melhor sobre o Egito e me diverti muito. Agora se alguém perguntar eu saberei bastante sobre o Egito.”(Sylviane – 12 anos)

“Eu gostei da Sala Egípcia, por que tava muito legal e também por que minha mãe, meu pai e meu irmão estavam lá. O que eu mais gostei foi a decoração.”( Thalia – 11 anos)

A partir dos depoimentos podemos perceber o quanto a participação dos alunos neste Projeto foi importante para a construção do ensino-aprendizagem.

Vale a pena mencionar, a importância da participação dos pais para a construção do ensino-aprendizagem, considerando que esta interação entre a escola e os pais, certamente contribuirá efetivamente para que estes alunos que possuem a orientação, carinho e apoio em casa e na escola vislumbrem um futuro brilhante.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

SFORNI, M. S. F. GALUCH, M.T. B. Aprendizagem conceitual nas séries iniciais do ensino fundamental. Educar, Curitiba, n. 28, p. 117-229, 2006.

Sites:

Wikipédia, enciclopédia virtual, http://pt.wikipedia.org/wiki/aprendizagem, acessado em 29 de junho de 2013
http://www.smartkids.com.br/especiais/egito-antigo.html , acessado em 29 de junho de 2013

http://antigoegito.org/antigo-egito-para-as-criancas-2/ ,acessado em 01 de julho de 2013

http://portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.html?aula=8960, acessado em 01 de julho de 2013

(Guest Post) Oficina sobre o Antigo Egito para Crianças

Convidei a Beatriz Moreira, um dos membros do grupo de estudo Gekemet e estudante de História para escrever um post contando como foi a experiência dela realizando uma oficina de educação sobre o Antigo Egito para crianças. Ela não somente aceitou na hora como o fez no mesmo dia. Quem também tiver interesse em escrever um Guest Post é só enviar uma mensagem pelo formulário de contato. No texto a seguir ela discorre os principais acontecimentos da oficina e suas reflexões acerca das atividades realizadas:

Olá, queridos leitores do Arqueologia Egípcia.
Meu nome é Beatriz Moreira, faço parte do Grupo de Estudos Kemet do Laboratório de História Antiga (LHIA) / UFRJ e sou leitora assídua do Arqueologia Egípcia. A queridíssima Márcia Jamille me convidou para escrever aqui no site sobre uma ótima experiência pela qual passei no dia 30 de maio de 2014: a realização de uma oficina pedagógica – intitulada “Indo além de Indiana Jones & Lara Croft: a Arqueologia do século XXI” – no Museu Nacional (MN) / UFRJ (FOTO 1), cujos principais objetivos foram apresentar o trabalho de um arqueólogo e expor características funerárias da religião egípcia para crianças do 6º ano do Ensino Fundamental.

FOTO 1: Beatriz Moreira, coordenadora da oficina “Indo além de Indiana Jones & Lara Croft: a Arqueologia do século XXI”. Foto: Célia Palacios. Maio de 2014.

Para tanto, foi formada uma equipe (FOTO 2):

FOTO 2: Em pé, da esquerda para direita: Professoras. Céli Palacios e Regina Bustamante, licenciandas Beatriz Moreira (bolsista PIBIC), Natália Seixas e Geórgia Albuquerque (bolsista PIBIC). Abaixados: Prof. João Luiz Corrêa Gomes e licencianda Luisa Tavares (bolsista PIBIC). Foto: Equipe de Filmagem da Oficina. maio de 2014.

Houve a orientação de Regina Bustamante (professora de História Antiga na UFRJ) e Céli Palacios (professora de Teatro da Escola Britânica do Rio de Janeiro). Como equipe de apoio, tivemos a colaboração de colegas do Curso de História da UFRJ (Natália Seixas, Luisa Tavares e Geórgia Albuquerque) e também do Prof. João Luiz Corrêa Gomes. A compra do material da oficina foi financiada pelo Programa de Consolidação das Licenciaturas da CAPES (PRODOCÊNCIA).
O trabalho de elaboração da oficina foi gratificante, pois como bolsista de Iniciação Científica da Profª Regina Bustamante, participo de disciplinas eletivas ministradas pela referida docente na UFRJ – onde curso História –, cujo produto final de cada período é a criação de uma oficina pedagógica a partir do acervo do Museu Nacional. Com esta atividade, objetiva-se tornar a cultura material da Antiguidade, exposta em museus cariocas, mais acessível a professores e estudantes da Educação Básica, propiciando maior efetividade na interação Museu-Escola através da mobilização de conhecimentos acadêmicos para a produção de um saber histórico escolar.
A oficina pedagógica em questão foi elaborada em 2013 com o intuito de ressignificar a exposição de Egito Antigo do Museu Nacional. E, após a realização, posso afirmar que, de fato, conseguimos. Contamos com o apoio da Seção de Assistência ao Ensino (SAE) do Museu Nacional, que disponibilizou dois mediadores para nos ajudar na oficina e entrou em contato com a Escola Municipal Portugal, que se mostrou muito interessada em participar, já que seria uma ótima forma de trabalhar o conteúdo de História Antiga.
A turma tinha 30 alunos, que foram divididos em dois grupos de 15: enquanto um grupo visitava a sala de Egito Antigo acompanhado pelos mediadores do Museu, o outro participava da oficina. Eu, como coordenadora da oficina, me dirigi ao grupo da vez, comunicando que estava acontecendo uma escavação arqueológica no Auditório Roquette Pinto do MN – sempre levantando questionamentos sobre o assunto: por exemplo, se eles sabiam o que um arqueólogo fazia ou se já tinham ouvido falar sobre o que era uma escavação arqueológica – e que naqueles sítios arqueológicos havia indícios de que se encontrariam artefatos egípcios antigos. Estavam dispostos pelo ambiente três “sítios arqueológicos” e, em cada sítio, estava um “arqueólogo” que ajudaria os alunos nessa parte da oficina (FOTO 3).

FOTO 3: “Arqueólogo” João Luiz Corrêa Gomes em um dos “sítios arqueológicos”. Foto: Beatriz Moreira. maio de 2014.

Enquanto os alunos procuravam artefatos egípcios (FOTO 4), os arqueólogos davam informações sobre as etapas de uma escavação arqueológica: catalogação das peças encontradas, identificação do artefato (FOTO 5), análise iconográfica da estatueta, a diferenciação entre a arqueologia do século XIX e início do XX e a do século XXI, e definição de cultura material, pois também havia objetos do cotidiano contemporâneo em cada “sítio arqueológico”.

FOTO 4: Alunos em busca de artefatos egípcios no “sítio arqueológico”. Foto: Beatriz Moreira. maio de 2014.

FOTO 5: Aluno identificando o artefato egípcio. Foto: Beatriz Moreira. maio de 2014.

Após todos terem encontrados as estatuetas (Ísis, Osíris, Hórus, Anúbis e olho de Hórus), os alunos tiveram que explicar aos colegas de turma o que tinham aprendido sobre cada deus representado, assim como realizar uma breve análise iconográfica (FOTO 6). Reforcei, nesse momento, a diferença entre a arqueologia do século XXI e a arqueologia de quando as peças do acervo egípcio do Museu Nacional foram encontradas (século XIX), além da importância do Museu em que eles estavam presentes. Houve uma imensa dificuldade por parte desses alunos ao exporem aos colegas a iconografia de cada deus, mas não foi por displicência ou por não terem prestado atenção na explicação, mas sim porque era o primeiro contato que tinham com a figura do deus e tudo ali era muito novo para eles. Esses alunos saíram do ambiente expositivo da sala de aula, ao qual estão acostumados, e lidaram diretamente com o trabalho manual, em que eram eles o centro das atenções e não o professor. Essa dinâmica é muito nova, porém extremamente enriquecedora para os alunos.

FOTO 6: Explicação da aluna aos colegas sobre a estatueta que encontrou. Foto: Céli Palacios. maio de 2014.

Após essa etapa, houve a apresentação da história do Mito de Osíris utilizando a técnica do teatro de sombras (FOTO 7). Foi uma etapa importante da oficina, pois, além de ter deixado mais claro quem eram os deuses que eles tiveram contato através das estatuetas encontradas nos “sítios arqueológicos”, foi explicitada a relação entre esses deuses e os alunos definitivamente entraram no jogo e se entregaram ao teatro de sombras. Ficaram extremamente curiosos também sobre como tínhamos elaborado o material.

FOTO 7: O Mito de Osíris narrado através do teatro de sombras. Foto: Beatriz Moreira. maio de 2014.

No final da oficina, fiz algumas perguntas aos alunos: o que mais chamou sua atenção na história? Quem eram os personagens da história? Quais eram as crenças sobre a pós-morte na religião egípcia antiga? E nas religiões atuais? Há alguma semelhança da religião egípcia com as religiões atuais? De acordo com o que aprenderam na oficina, o que um arqueólogo faz? Qual a relação entre o trabalho do arqueólogo e um museu? Estas perguntas objetivavam fixar o aprendizado e trabalhar a noção de alteridade.
Nós passamos um questionário de avaliação para ser preenchido por cada aluno com perguntas fáceis, tais como “o que você aprendeu de novo?”, e pedimos para que eles avaliassem a oficina. Todos avaliaram a oficina como “ótima” e responderam apontaram diversos aspectos que lhes chamaram atenção. A partir da análise das respostas, podemos perceber como diante da realidade de um país multicultural, a Educação Patrimonial torna-se um objeto de reflexão relevante no processo educacional. Os museus, enquanto espaços não formais de produção de saberes escolares, são campos privilegiados para a Educação Patrimonial. A atividade lúdica, todo tipo de jogo pedagógico, assim como as oficinas pedagógicas, são de extrema utilidade para o Ensino de História, pois os alunos afastam-se da “decoreba” do conteúdo para “passar na prova” e compreendem, de fato, o que está sendo “construído”. Assim, conseguimos aguçar a curiosidade e a vontade de estudar. E isso ficou muito claro quando a professora de Português da turma – que também dá aula de História por conta do regime de polivalência do município do Rio de Janeiro – nos disse “Eles são uns pestinhas! Não sei como aqui eles estão sendo uns anjinhos!”. E eles estavam sim sendo anjinhos, pois estavam interessados em aprender. E pasmem: o aluno mais indisciplinado da turma foi o que mais participou!
Enfim, espero que a descrição da minha experiência tenha sido de alguma valia para os professores e futuros professores que possam vir a lê-la. Se alguém quiser entrar em contato comigo para solicitar mais informações ou até ajuda para a elaboração de alguma oficina pedagógica, podem entrar em contato via e-mail: beatrizmoreira@ufrj.br.