5 fotos históricas memoráveis na Grande Esfinge e nas pirâmides do Egito

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Ao longo das últimas décadas o Egito recebeu a visita de várias figuras celebres e a maioria tirou fotos que hoje fazem parte da história. O platô de Gizé, que é praticamente uma parada obrigatória para qualquer turista, foi um dos cenários mais escolhidos. Então, para compor este post escolhi algumas fotografias interessantes tanto por conta da época em que foram tiradas como pelas pessoas que as protagonizam.

D. Pedro II e Teresa Cristina; imperadores do Brasil:

Claro que eu tinha que abrir este post com o casal imperial D. Pedro II (sentado usando um chapéu branco) e Teresa Cristina (segunda mulher sentada da direita para a esquerda), que fez duas viagens para o Egito. Uma em 1871, ocasião em que a foto foi tirada, e a outra em 1876.

— Saiba mais: A história do Museu Nacional e o Egito Antigo no Brasil

Samurais da Missão Ikeda

Ikeda Nagaoki foi um governador que viveu durante os anos finais do xogunato Tokugawa e recebeu a ordem de realizar uma viagem diplomática para a Europa. Aproveitando a sua escala no Egito tirou uma foto com os seus 36 subordinados em frente as pirâmides. Este momento histórico foi registrado por Antonio Beato.

O aventureiro Frederick Russell Burnham

Um dos inspiradores da criação do escotismo, Burnham também passou pelo Egito. Ele é o homem do centro montado no camelo. Foto de 1895.

Uma das filhas do primeiro milionário havaiano

Elizabeth Afong Burns foi uma das filhas de Chun Afong, um imigrante chinês que se tornou o primeiro milionário do Havaí. Nesta fotografia, feita em 1910, ela está ao lado do seu esposo.

Charles Bean; correspondente de guerra

O correspondente australiano, Charles Bean, tirou esta foto em 1915 após escalar a pirâmide de Khufu — algo que nos dias de hoje é altamente proibido —. A fotografia é de autoria de um outro correspondente, Philip Schuler.

Quantas outras figuras históricas serão eternizadas em frente a este notável sítio arqueológico?

Conheça a “Scan Pyramids Mission”

Por Márcia Jamille | Instagram | @MJamille

Endossados pelo Egyptian Ministry of Antiquities (Ministério das Antiguidades do Egito) e sob a coordenação da Faculty of Engineering of Cairo (Faculdade de Engenharia do Cairo) e o instituto Heritage Innovation Preservation (Inovação na Preservação do Patrimônio), um grupo de pesquisadores egípcios, canadenses, franceses e japoneses anunciaram em outubro de 2015 uma iniciativa para investigar as pirâmides de Khafre e Khufu, do platô de Gizé, e a Vermelha e a Romboidal em Dashur.

Pirâmide de Khufu. Foto: Nina Aldin Thune via Wikimedia Commons.

O projeto chama-se Scan Pyramids Mission (Missão para Escanear as Pirâmides) e como o nome indica a proposta é usar drones com scanners de tecnologia 3D, termografia infravermelha, termografia modulada, fotogrametria e laser e uma ferramenta que torna possível a detecção de múons. Esta última é capaz de modelar áreas internas e inclusive já foi utilizada para observar o interior de vulcões e edifícios contemporâneos (a exemplo da usina de Fukushima, no Japão).

Estas técnicas não são invasivas, ou seja, não será necessário realizar perfurações nas pirâmides, o que não compromete a integridade dos edifícios analisados.

A detecção de múons já foi empregada no Egito em outra ocasião, na década de 1960, pelo pesquisador Luis Walter Alvarez (1911 – 1988), que a aplicou na pirâmide de Khufu. Ele foi capaz de identificar alguns espaços vazios, mas não pôde ter uma noção abrangente do que se tratava, deixando a questão em aberto para as gerações seguintes. Por isso, graças as inovações tecnológicas poderemos ter mais respostas do que o pioneiro Alvarez.

A primeira fase do projeto já passou, onde os pesquisadores fizeram a calibragem dos equipamentos e identificaram algumas anomalias térmicas. Porém, não é possível interpretar corretamente o que são tais anomalias que tanto podem se tratar de uma possível câmara, talvez uma rachadura e ou até mesmo nada. É exatamente por este motivo que a equipe está empregando a união de diferentes ferramentas, pois, uma poderá complementar o “defeito” da outra, ou seja, unidas poderão disponibilizar dados mais consistentes (e consequentemente mais fáceis de interpretar) do que se fosse utilizado somente um equipamento.

Lembrando que já são conhecidas câmaras nas pirâmides, mas a ideia deste projeto é conhecer detalhes estruturais do edifício e se existem salas isoladas.

Planta lateral da Grande Pirâmide (Khufu). Foto: DODSON, Aidan. As Pirâmides do Antigo Império (Tradução de Francisco Manhães, Maria Julia Braga, Carlos Nougué). Barcelona: Folio, 2007. pág. 78.

Os primeiros resultados provavelmente sairão nas primeiras semanas de 2016 e futuramente o projeto será estendido para a tumba de Tutankhamon.

Fonte:

A New High-Tech Project Aims to Unearth the Secrets of the Pyramids. Disponível em < http://magazine.good.is/articles/cosmic-ray-muons-pyramids >. Acesso em 27 de dezembro de 2015.

Scan Pyramids Mission. Disponível em < http://www.scanpyramids.org/ >. Acesso em 27 de dezembro de 2015.

(Vídeo) 5 livros sobre o Antigo Egito: temas específicos

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Recente gravei um vídeo para o canal do Arqueologia Egípcia no Youtube apresentando 5 livros sobre o Antigo Egito que são voltados para temas específicos. São eles: Pirâmides, ouro, culinária, sexualidade e arquitetura.

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Abaixo a lista de livros:

☥ “As Pirâmides do Antigo Egito” de Aidan Dodson. O autor fez um catálogo de todas as pirâmides conhecidas na época em que este livro foi editado. Relata brevemente acerca do simbolismo destes edifícios e apresenta fotografias e descrições de muitas destas construções.

DODSON, Aidan. As Pirâmides do Antigo Império (Tradução de Francisco Manhães, Maria Julia Braga, Carlos Nougué). Barcelona: Folio, 2007.

☥ “O ouro dos faraós” de Hans Wolfgang Muller e Esberhard Thiem. É um dos meus favoritos porque fala “um pouquinho de tudo” desde o surgimento da ideia do ouro como algo místico, comércio, tipos de pedras preciosas e semipreciosas e algumas das descobertas realizadas no país, além de ter muitas fotos de vários tipos de artefatos diferentes, todos, claro, contendo ouro.

MULLER, Hans Wolfgang; THIEM, Esberhard. O ouro dos faraós (Tradução de Carlos Nougué, Francisco Manhães, Maria Julia Braga, Angela Zarate). Barcelona: Folio, 2006.

☥ “A culinária no Antigo Egito”, de Pierre Tallet. Nele o autor mostra que embora a dieta básica egípcia fosse composta de grãos existiu uma variedade de alimentos que poderiam ser consumidos. Era tanta criatividade na hora de cozinhar que existem indícios arqueológicos mostrando tortas arcaicas enfeitadas, alimentos que lembram nossos sanduíches e que os menos afortunados chegavam até mesmo a comer ratos.

TALLET, Pierre. A culinária no Antigo Egito (Tradução de Francisco Manhães, Maria Júlia Braga, Joana Bergman). Barcelona: Folio, 2006.

☥ “Erotismo e Sexualidade no Antigo Egito”, de Joseph Toledano e El-Qhamid, que como bem fala o nome apresenta o lado erótico do Antigo Egito. O início dele é bem interessante porque o autor fala sobre o pudor de antigos pesquisadores ao rasurar, rasgar ou quebrar partes de artefatos arqueológicos na tentativa de deixar tudo mais “apresentável”. Os autores realmente não tiveram interesse de mascarar como era visto o amor e principalmente o sexo na antiguidade.

TOLEDANO, Joseph; EL-QHAMID. Erotismo e Sexualidade no Antigo Egito (Suzel Santos, Carlos Nougué). Barcelona, Folio, 2007.

☥ “Egipto:  do Pré-dinástico aos Romanos” de Dietrich Wildung. Este é também um dos que mais gosto porque ele mostra vários aspectos da arquitetura no antigo Egito, não se limitando ao velho clichê pirâmide+tumba no Vale dos Reis. Nele o autor fala sobre moradias, templos feitos de madeira, ornamentos etc.

WILDUNG, Dietrich. O Egipto: da pré-história aos romanos (Tradução de Maria Filomena Duarte). Lisboa: Taschen, 2009.

Pirâmides na National Geographic (2001)

Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Este é um texto para sempre ser relembrado, já que é um assunto que está em pauta todos os anos e trata-se dos (as) autores (as) da construção das pirâmides, especialmente a do platô de Gizé. Este assunto gera tanta polêmica porque os textos clássicos, mais especificamente os registros de Heródoto, que viveu centenas de anos após a construção, cita a presença de escravos. Contudo, os trabalhos de arqueologia desmentiram tais relatos.

Segue abaixo o artigo da National Geographic, publicado no Brasil em 2001, e que poderá explicar um pouco mais.

 

Os operários das pirâmides (Edição 19/Novembro de 2001)

Novos sítios arqueológicos revelam sinais de que, na verdade, ao invés de escravos, operários construíram as pirâmides do Egito

Por Virginia Morell

Fonte: National Geographic Brasil

Três gerações de egípcios ergueram em Gizé um conjunto de pirâmides, há mais de 4 mil anos.

Ao lado das três grandes pirâmides de Gizé, nas cercanias do Cairo, o egiptólogo Zahi Hawass caminha entre pequenos túmulos feitos de barro e pedra. Algumas das sepulturas têm a forma de domo. Outras são estruturas retangulares escavadas em escarpas rochosas e algumas foram construídas com blocos de calcário cobertos de hieróglifos.

Hawass está acompanhado de uma equipe de escavadores que para ao lado de uma dessas modestas sepulturas, a Tumba 53. É nela que eles vão se concentrar nessa manhã. “Venho pensando nisso há anos”, revela-me Hawass, enquanto os membros de seu grupo começam a escavar o topo da mastaba (o nome desse tipo de sepultura). “Muitas vezes, contemplando as pirâmides, eu me perguntava: ‘E as pessoas que as construíram? Onde foram enterradas? Quem eram os homens e as mulheres por trás desse grande empreendimento?’ Agora, graças a sepulturas como esta, temos afinal alguns indícios dessa gente.” Ao contrário do que se acredita, as pirâmides não foram erguidas por escravos nem por estrangeiros. “Essa idéia surgiu com Heródoto”, prossegue o grisalho Hawass. Por volta de 450 a.C., ou seja, cerca de 2 mil anos após a construção das pirâmides, o historiador grego visitou o Egito, onde lhe disseram que 100 mil homens haviam sido obrigados a trabalhar como escravos na grande pirâmide do faraó Quéops.

A descoberta desse cemitério por Hawass em 1990 e uma escavação realizada nos arredores pelo arqueólogo Mark Lehner – que revelou algo parecido com uma antiga cidade operária – vieram confirmar algo que os egiptólogos já desconfiavam: Heródoto estava mal informado. Foram egípcios comuns que ergueram as pirâmides. Alguns eram convocados por períodos de tempo limitados, outros trabalhavam em tempo integral. Hawass e Lehner estimam que o empreendimento todo – extrair da pedreira, transportar e cortar os 5 milhões de metros cúbicos de blocos de pedra usados nas três pirâmides e nas estruturas adjacentes – foi realizado por uma força de trabalho bem menor, de 20 mil a 30 mil homens.

Cada complexo piramidal (o conjunto que abrange uma pirâmide e os templos e as sepulturas adjacentes) era iniciado assim que um faraó subia ao trono e interrompido apenas em sua morte. As obras em Gizé ocorreram durante a quarta dinastia, nos reinados dos faraós Quéops, Quéfren e Miquerinos (por volta de 2550 até 2470 a.C.), e estenderam-se por cerca de 80 anos.

Ao me acomodar ao lado da Tumba 53, consigo ver a ponta afilada das duas maiores pirâmides, os túmulos de Quéops e de seu filho Quéfren. Suas dimensões, formas e beleza sempre deixaram os visitantes boquiabertos. Elas foram construídas com blocos de calcário e granito cujo peso variava de menos de 1 tonelada até mais de 40 toneladas – todos eles cortados, transportados e colocados em seu lugar por mãos humanas. Os antigos egípcios não dispunham de máquinas complexas nem de animais (tampouco de extraterrestres!) para facilitar qualquer etapa desse trabalho. Além disso, depois de terminarem o núcleo de uma pirâmide eles a revestiam com pedras que se encaixavam perfeitamente. Depois, ainda poliam o monumento até que ele brilhasse ao sol como uma jóia gigantesca.

“Não há dúvida de que eles tinham muito orgulho de sua obra”, diz Hawass quando comento o evidente cuidado que haviam dedicado às pirâmides. “Eles não estavam apenas erguendo o túmulo de seu soberano. Estavam construindo o Egito. Era um projeto nacional, do qual todos participavam. As pessoas que estamos exumando nestas sepulturas eram parte desse esforço nacional”, acrescenta o pesquisador, apontando com a cabeça a tumba à sua frente. “Muitos deles passaram a vida cortando, movendo e polindo os blocos de pedra.”

Nesse momento, os homens de Hawass já haviam removido as rochas e os tijolos que cobriam a sepultura e alguns deles começavam a cavar com pás a areia que havia embaixo. Outros formam uma fila à beira do fosso com cestos feitos de borracha trançada. A maioria veste túnica longa e turbante. São pouco mais de 8 horas de uma manhã de primavera egípcia, mas o sol já está alto e quente no céu azul. Tento encontrar uma sombra atrás da mastaba. Os operários, acostumados com o calor, a poeira e o suor, avançam e baixam seus baldes na sepultura. Um companheiro chamado Said Saleh cava e enche os recipientes com a terra arenosa, que depois é peneirada por dois arqueólogos. Todos mantêm um ritmo constante enquanto cavam, içam os baldes e despejam a terra – uma versão em pequena escala, imagino, das enormes turmas de operários que empurraram, puxaram e colocaram no lugar os blocos das pirâmides.

Poucos minutos depois, os esforços dos trabalhadores trazem à luz os escuros e empoeirados fragmentos do que havia sido um caixão de madeira. “Isso é raro”, adianta Hawass. “Em geral essa gente era pobre demais para arcar com o custo de um caixão. Talvez seu ocupante trabalhasse numa oficina de marcenaria ou conhecesse algum marceneiro.” Sob os fragmentos do caixão Saleh encontra o crânio e as clavículas e depois o resto do esqueleto. Ele está em posição fetal, como era o costume, com o rosto voltado para o leste, na direção do sol nascente, e o crânio apontando para o norte, aonde o espírito do faraó elevava-se todas as noites para se juntar às estrelas circumpolares.

Com uma escova, Saleh limpa a terra dos ossos. Mais tarde, um antropólogo físico irá retirá-los para estudo. Fiapos de tecido ainda se prendem a alguns ossos, indicando que o indivíduo havia sido enrolado em uma mortalha antes de ser posto no caixão. “Os mais pobres costumavam fazer isso. Era uma espécie de mumificação simbólica”, explica Hawass. “Ninguém tinha condições de pagar por um ritual autêntico. Envolta em uma mortalha, a pessoa pelo menos ficava com a aparência de ter sido mumificada.” Ao lado do esqueleto, Saleh desenterra uma faca feita de sílex amarelo. “Os humildes também eram enterrados com algo que os ajudasse no além. Talvez essa faca fosse usada por ele para cortar carne”, completa o egiptólogo.

Muitos operários também foram enterrados com jarros de cerveja. “Feita de cevada, a cerveja era a bebida de todos os dias. Mesmo após a morte, eles não podiam passar sem ela”, diz Hawass. Um punhado de ossos minúsculos e contas de barro esmaltado ou vidrado brotam da Tumba 53. “Isso indica que o esqueleto provavelmente é de uma mulher, mas só teremos certeza depois que os ossos forem examinados. Todos os egípcios – homens e mulheres – ajudaram a construir as pirâmides”, completa ele.

Quando os arqueólogos começaram a escavar em Gizé, há cerca de 200 anos, evidentemente concentraram-se na investigação das pirâmides dos faraós e das rainhas, dos templos e túmulos circundantes, e na esfinge. Os antigos egípcios ergueram esse complexo durante a quarta dinastia do Antigo Império, uma era gloriosa para a arte e a arquitetura. Ironicamente, a despeito de seus enormes monumentos funerários, sabemos pouco a respeito dos três principais faraós dessa dinastia. Se os egípcios da época registraram as atividades da casa real em rolos de papiro – como foi feito em períodos posteriores –, esses rolos não resistiram ao tempo.

Os pesquisadores têm apenas uma vaga idéia da aparência do faraó Quéops, que mandou erguer a maior das três pirâmides. Uma estatueta de marfim é tudo o que restou dele, e mesmo ela pode ter sido esculpida séculos depois de sua morte. Os cientistas, no entanto, sabem ainda menos sobre as pessoas comuns que labutavam nas tumbas e nos templos da elite governante. “É como se toda essa gente tivesse desaparecido”, diz Mark Lehner, que passou a década passada procurando as casas e oficinas dos operários das pirâmides. “Mas como isso pode ocorrer com 100 mil pessoas, se usarmos a estimativa de Heródoto, ou mesmo com 20 mil ou 30 mil pessoas?”

Lehner me conduziu até um dos raros indícios restantes dessa força de trabalho, as pedreiras de calcário que ficam logo abaixo da pirâmide de Miquerinos. “Aqui está uma das fendas que fizeram para retirar um bloco de rocha”, diz ele, agachando-se junto a uma canaleta com 12 centímetros de largura e 7 centímetros de profundidade. “Eles usavam picaretas de pedra e formões de cobre para destacar os blocos, e depois talhavam encaixes para as alavancas de madeira com as quais arrancavam o bloco inteiro, em geral pesando 20 toneladas.” Cada bloco era delineado com tinta vermelha antes que os operários iniciassem o processo de remoção. “Até há poucos anos, ainda dava para ver neles resquícios da tinta vermelha e também um ‘cartucho’ – a moldura onde há um nome próprio inscrito. Era provavelmente a marca da equipe de trabalhadores encarregada de retirar o bloco”, diz Lehner.

Inscrições similares com nomes de equipes foram encontradas no interior das pirâmides. Em dois blocos na câmara mais elevada da de Quéops, por exemplo, uma turma de operários pintou hieróglifos que significam “Amigos de Quéops”. E, no templo funerário de Miquerinos, outra equipe deixou escrita sua insígnia: “Bêbados de Miquerinos”. Apenas esses dois exemplos, comento depois, já bastam para indicar uma mentalidade muito diferente da que essas pessoas teriam se fossem escravas.

Lehner assente com a cabeça. De compleição frágil e na faixa dos 50 anos de idade, ele carrega nos bolsos da camisa e da calça os instrumentos do ofício de arqueólogo: canetas, uma pequena pá, trena, pincel. “Os trabalhadores eram organizados em equipes concorrentes, e isso pode ter sido benéfico em termos psicológicos. É aquela velha história de ‘vamos ver quem consegue cumprir essa tarefa primeiro’”, explica ele.

De qualquer forma, a rotina estava longe de ser agradável. “Imagine trabalhar sob o sol escaldante do Egito, com uma picareta ou um formão de cobre para cortar os blocos de pedra e, em seguida, deslocá-los para formar uma pirâmide. O que motivava essas pessoas? Tudo o que podemos dizer, uma vez que restaram tão poucos textos da época, é que os trabalhadores eram muito religiosos e acreditavam que, ao erguer a tumba do faraó, estavam assegurando não só o renascimento do líder, mas também o deles próprios e o de todo o Egito.”

Para erguer estruturas tão monumentais os egípcios dependiam de uma força de trabalho extremamente organizada. Baseados em inscrições nas tumbas e em instruções aos operários talhadas nas paredes internas da pirâmide de Quéops e no templo funerário de Miquerinos, os pesquisadores podem hoje traçar algo parecido com um organograma dos antigos canteiros de obras. “Cada projeto, como o de construção de uma pirâmide, contava com sua própria mão-de-obra”, explica a egiptóloga Ann Roth. “Cada grupo era responsável por uma parte do complexo. Havia um grupo encarregado dos tetos internos de granito, enquanto outros levantavam as paredes das câmaras.”

As turmas de trabalhadores eram geralmente divididas em quatro ou cinco unidades menores, denominadas phyles (do termo grego para “tribo”) pelos egiptólogos. Cada phyle tinha um nome, como Magnífica ou Verde, e, por sua vez, compreendia equipes menores, de 10 a 20 homens, que também tinham nomes específicos, como Resistência e Perfeição. De acordo com algumas estimativas, para erguer uma pirâmide em 20 anos os operários tinham de colocar sobre ela um bloco de pedra a cada 2 minutos, em média. Um ritmo alucinante.

Para que toda essa mão-de-obra pudesse dar o máximo de si, era indispensável contar com uma sofisticada infra-estrutura de apoio. “Era preciso alimentar e abrigar todos os que garantiam a sobrevivência dos operários, como padeiros, cervejeiros e açougueiros”, avalia Lehner. Em outras palavras, isso só seria possível se houvesse uma cidade. E Lehner acha que a encontrou – ou pelo menos o bairro em que se concentravam as atividades produtivas.

Numa ampla e arenosa planície poucas centenas de metros abaixo do cemitério escavado por Hawass, Lehner e sua equipe desenterraram ruas cuidadosamente traçadas – e pavimentadas –, assim como construções esmeradas, divididas em pequenos aposentos ligados por corredores. No limite norte desse sítio arqueológico, uma maciça muralha de pedra talhada, conhecida como Heit el-Ghorab (Muralha do Corvo), estende-se por cerca de 200 metros. Elevando-se a quase 10 metros e com 10 metros de espessura na base, a muralha possui um portão central encimado por três vergas maciças de calcário. “Ainda não sabemos exatamente quem usava o portão nem o motivo de sua existência”, diz Lehner, perto do local em que vem escavando o que chama de Rua Sul.

“Esta é a terceira rua desse tipo que encontramos, e ela segue paralela a outras duas. Era uma cidade de traçado regular, algo incomum na época.” Antes dessa descoberta, alguns egiptólogos consideravam que, na época do Antigo Império, os povoados não passavam de aldeias ampliadas, com ruas e áreas de trabalho distribuídas de maneira aleatória. “Nós ajudamos a derrubar essa idéia”, completa Lehner, convicto de que vários edifícios eram usados como padaria e cervejaria. Ele só não está totalmente seguro quanto à finalidade geral da área industrial. “Será que servia apenas para alimentar os trabalhadores?”, indaga, agachando-se para limpar a areia de uma minúscula espinha de peixe. “Ou eles usavam essas construções, onde encontramos tantas espinhas de peixe, para preparar as oferendas dos templos?”

Também nesse caso não dispomos de papiros com textos ou inscrições em pedra – nem mesmo grafites antigos – que possam nos esclarecer. Os únicos indícios textuais encontrados no sítio arqueológico estão em minúsculos fragmentos de argila usada nos sinetes das jarras de vinho e óleo ou das sacas de cereais.

Num laboratório próximo ao sítio investigado por Lehner, o egiptólogo John Nolan me empresta uma lupa para que eu examine os detalhes de um desses fragmentos. Plano e de cor marrom-escura, o pedaço de argila traz em sua superfície débeis marcas de hieróglifos – assim como as linhas finas da impressão digital de alguém. Consigo distinguir com clareza o símbolo de um belo falcão com as asas dobradas. “Esse é um sinal de que se trata do nome de um soberano – no caso, Miquerinos”, explica Nolan. “Quer dizer que o indivíduo que fez isso era, sem dúvida, um alto funcionário.”

As marcas foram produzidas pela rolagem de um sinete entalhado sobre o pedaço de argila úmida que servia de autenticação. Após alguém encher um jarro, talvez com vinho, o gargalo era fechado com um pano preso por corda. Então o sinete era aplicado à argila úmida. Os sinetes eram como pequenos rótulos que acompanhavam as mercadorias. “Os artigos autenticados equivaliam ao dinheiro na época. Eles estabeleciam uma cadeia de responsabilidades: havia uma pessoa que podia autenticar e outra autorizada a romper o sinete”, prossegue Nolan. Ele guarda milhares desses fragmentos que ainda precisam ser decifrados. Acondicionados em saquinhos plásticos, cobrem sua mesa como microscópicos contos de mistério. “Sempre existe a possibilidade de acharmos um sinete cujo título seja reconhecível – de outra pessoa que não o faraó. Talvez um deles estabeleça uma ligação direta entre o nosso sítio e o cemitério dos trabalhadores.”

Encontrar um elo desse tipo resolveria as dúvidas sobre os vínculos cronológicos entre o cemitério de Hawass e a cidade de Lehner. As datações revelam que esta pertence ao período que vai de meados ao final da quarta dinastia, e Hawass crê que o cemitério foi usado desde meados da quarta até a quinta dinastia. Mesmo que os dois sítios arqueológicos não apresentem uma estreita conexão temporal, as sepulturas dos trabalhadores já permitem que os arqueólogos tenham uma idéia melhor da organização que dava suporte à construção das pirâmides.

Embora a maioria das sepulturas seja de gente pobre, várias delas abrigam restos mortais de funcionários importantes e abastados. Algumas parecem versões em miniatura dos templos dos faraós e das rainhas. De forma retangular e feitas de blocos de calcário, elas apresentam todos os principais elementos encontrados nas tumbas reais: falsas portas entalhadas para que à noite o espírito da pessoa pudesse sair do túmulo, recipientes de pedra para oferendas e uma série de inscrições hieroglíficas com o nome e o título do ocupante, assim como os nomes de sua mulher e de seus filhos. Duas delas possuem até mesmo rampas conduzindo à sua entrada, como as longas passarelas na parte externa das três pirâmides de Gizé.

“Os donos destes dois túmulos queriam que eles se parecessem ao máximo com as tumbas dos faraós”, afirma Hawass. “Este é o túmulo de Weser-Petah, um supervisor dos funcionários.” Ele sobe uma até a pequena e estreita entrada. Preciso me abaixar para entrar na sepultura de rocha talhada. Acima e em ambos os lados da porta falsa vêem-se baixos-relevos mostrando Weser-Petah de perfil, como nas clássicas imagens egípcias. Ao lado e embaixo dos baixo-relevos encontram-se os hieróglifos com seu nome e seu título. Embora não tão complexos quanto as inscrições da elite governante, esses entalhes revelam os cuidados e as preocupações que os egípcios comuns também mantinham em relação a uma boa vida no além.

Alguns passos na direção oeste nos conduzem à rampa e ao túmulo de Ni-ankh-Petah, responsável pelas padarias e confeitarias do faraó. Em um ponto mais elevado está o túmulo de Nefer-Theith, supervisor do palácio. Outras sepulturas adjacentes trazem títulos como “supervisor dos remadores”, “responsável pelas laterais da pirâmide”, “inspetor dos jardins reais” e “mestre do porto”. Até agora a equipe de Hawass descobriu 26 títulos desse tipo. “Os títulos referem-se a funções administrativas de nível intermediário e alto e confirmam a sofisticada organização da força de trabalho no antigo Egito”, observa Hawass.“Foi esse o traço que na verdade marcou a quarta dinastia”, comenta o egiptólogo James Allen. “Não foi o fato de terem aprendido a manusear enormes blocos de pedra, mas sim a descoberta de um modo de organizar uma enorme força de trabalho.”

Muitas mulheres da elite foram enterradas na sepultura de seus maridos e, com freqüência, também seu título e seu nome eram inscritos nas vergas dos falsos portais, como no caso da mulher de Petty, o inspetor dos artesãos. Chamada Nesy-Sokar, ela era sacerdotisa de Hathor, a deusa do amor e da dança. Duas outras mulheres tinham sua própria tumba. Uma delas também era sacerdotisa de Hathor e a outra, de Neith, a deusa da guerra.

Esses funcionários graduados também preservavam a cultura de armazenar vários artigos em sua sepultura. Eles podiam ser enterrados com grandes jarros de cerveja ou miniaturas de pratos de oferendas e taças para beber. Todos artigos muito básicos, mas necessários no além. “Não havia nada de valor nessas sepulturas, por isso elas não foram saqueadas”, argumenta Hawass. Isso não fazia com que seus donos deixassem de se preocupar com os ladrões. Sob as figuras bem esculpidas de Petty e Nesy-Sokar, o casal mandou entalhar várias maldições protetoras, ameaçando quem tentasse perturbar seu descanso eterno: “Qualquer um, homem ou mulher, que fizer algo maléfico contra este túmulo e penetrar em seu interior terá de prestar contas ao crocodilo na água, ao hipopótamo na mesma água e ao escorpião em terra”.

Alguns dos túmulos continham ainda estatuetas de seus ocupantes. A maioria delas, como a de Nefer-ef-Nesu, chefe dos escultores, e de sua mulher, Nefer-Menkhes, foi entalhada em calcário e pintada. A imagem mostra o casal em um banco de “granito rosa” – na verdade calcário pintado de modo a se assemelhar à pedra nobre reservada aos faraós. A mulher usa um vestido de rede, um colar de contas e braceletes, ao passo que seu marido veste uma túnica branca simples. Ambos estão olhando para a frente, com um leve sorriso de felicidade, o braço direito dela sobre o ombro do marido. “Esse é o desejo deles, assim querem permanecer após a morte”, resume o arqueólogo Tarek El-Awady, assistente de Hawass. “Por isso se mostram da melhor maneira possível, com suas melhores roupas e jóias.”

A vida da maioria dos donos desses túmulos extravagantes provavelmente não era muito difícil. Circundado pelo deserto e abençoado com terras férteis e safras abundantes, o Egito do Antigo Império era um local raro: um Estado que desfrutava de paz e estabilidade, com amplo tempo livre e riqueza para a preservação de uma cultura voltada para a vida no além.

Até mesmo os egípcios, contudo, tinham de conviver com a velhice e a morte – algo mais fácil de ser notado entre os operários, que viviam uma rotina pesada. “Isso se nota em seus esqueletos”, diz Azza Mohamed Sarry El-Din, antropóloga física que estuda os ossos exumados do cemitério. “Já examinei 175 esqueletos e quase todos sofriam de artrite. Suas vértebras lombares estavam muito comprimidas, como é de se esperar entre operários de trabalho pesado. Eu já previa isso, mas fiquei surpresa ao encontrar esse tipo de artrite também nas mulheres.” Ela mostra o pescoço e as vértebras lombares de uma mulher que morreu com 30 e poucos anos e depois aponta para as bordas rugosas e gastas dos ossos. “Ela deve ter carregado muito peso na cabeça desde a infância para os ossos ficarrem desse jeito”, diz Azza.

Embora não se conheçam registros ou inscrições mostrando mulheres empurrando pedras ou arrastando estátuas em trenós, o estado dos ossos das mulheres sugere à antropóloga que também elas faziam esse tipo de trabalho. Seus ossos estão mais danificados do que seria de se esperar caso se limitassem às tarefas domésticas.

Alguns dos esqueletos também sugerem que os trabalhadores, a despeito da natureza difícil de suas ocupações, eram bem tratados, embora talvez não tivessem a melhor dieta – as análises preliminares de Azza indicam que alguns eram anêmicos e a maioria raramente comia carne. Curiosamente, a equipe de Mark Lehner exumou grande quantidade de ossos de vaca, de carneiro e de cabra abatidos – mais do que suficiente, segundo ele, para alimentar milhares de operários com uma ração diária de carne. Seriam os animais mortos apenas para as oferendas nos templos? A discrepância entre os ossos, a dieta e a quantidade de carne disponível ainda permanece um mistério.

Por outro lado, os milhares de trabalhadores das pirâmides tinham acesso a cuidados médicos. As análises dos achados nas escavações apontaram que um deles foi gravemente ferido no braço, que teve de ser amputado abaixo do ombro. A operação foi bem-sucedida, assim como uma amputação similar realizada na perna de um funcionário. “Ambos se recuperaram e ainda viveram por muitos anos”, diz Azza. “Alguém se preocupava muito com eles. Operários que movem blocos de pedra de um lado para outro estão sujeitos a acidentes, e é animador ver que seus supervisores sabiam disso e estavam preparados para cuidar deles.”

Apesar da disponibilidade de serviços médicos, a expectativa de vida era baixa. Em média, os homens viviam de 40 a 45 anos; as mulheres, de 30 a 35 anos. “Elas viviam menos provavelmente por causa de seus partos problemáticos”, comenta a antropóloga. “Eram raros, porém, os antigos egípcios que viviam até uma idade que, hoje, consideramos avançada.”

“Acho que eles levavam uma vida bem complicada”, exclama Lehner, de pé sobre uma escarpa arenosa um pouco acima do sítio que está escavando atualmente. “Devia haver centenas de fornos acesos, para assar pão, queimar argila e fabricar e manter afiados os formões de cobre. Havia fumaça por toda parte e longas filas de pessoas arrastando os blocos de pedra para o local da pirâmide, além daquelas que moíam os cereais, abatiam os animais, descarregavam os barcos no porto, que provavelmente ficava perto das pirâmides. Tudo isso exigia um trabalho duro.”

O que os egípcios antigos ganhavam com tanto esforço? Lehner é incisivo: “As pessoas tinham um emprego e participavam de um esforço nacional. E, mais importante, era para eles uma forma de conquistar a vida eterna”.

Disponível em <http://viajeaqui.abril.com.br/materias/egito-piramides?pw=5 >. Acesso em 02/11/2011.

 

 

 

Comentários sobre a “nova” teoria para a construção das pirâmides

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

 

Recebi entre ontem e hoje (02/05 e 03/05) sugestões de um link divulgando os resultados de uma pesquisa publicada no Physical Review Letters, onde é apresentada uma “nova” teoria de como teriam sido movidas as pedras que foram utilizadas para construir as pirâmides. Porém a notícia está equivocada. Segue abaixo o texto na integra:

 

Cientistas descobrem como os egípcios moveram pedras gigantes para formar as pirâmides

Por: Andrew Tarantola

1 de maio de 2014 às 11:38

Uma civilização antiga, sem a ajuda de tecnologia moderna, conseguiu mover pedras de 2,5 toneladas para compor suas famosas pirâmides. Mas como? A pergunta aflige egiptólogos e engenheiros mecânicos há séculos. Mas agora, uma equipe da Universidade de Amsterdã acredita ter descoberto o segredo – e a solução estava na nossa cara o tempo todo.

Tudo se resume ao atrito. Os antigos egípcios transportavam sua carga rochosa através das areias do deserto: dezenas de escravos colocavam as pedras em grandes “trenós”, e as transportavam até o local de construção. Na verdade, os trenós eram basicamente grandes superfícies planas com bordas viradas para cima.

Quando você tenta puxar um trenó desses com uma carga de 2,5 toneladas, ele tende a afundar na areia à frente dele, criando uma elevação que precisa ser removida regularmente antes que possa se ​​tornar um obstáculo ainda maior.

A areia molhada, no entanto, não faz isso. Em areia com a quantidade certa de umidade, formam-se pontes capilares – microgotas de água que fazem os grãos de areia se ligarem uns aos outros -, o que dobra a rigidez relativa do material. Isso impede que a areia forme elevações na frente do trenó, e reduz pela metade a força necessária para arrastar o trenó. Pela metade.

Ou seja, o truque é molhar a areia à frente do trenó. Como explica o comunicado à imprensa da Universidade de Amsterdã:

Os físicos colocaram, em uma bandeja de areia, uma versão de laboratório do trenó egípcio. Eles determinaram tanto a força de tração necessária e a rigidez da areia como uma função da quantidade de água na areia. Para determinar a rigidez, eles usaram um reômetro, que mostra quanta força é necessária para deformar um certo volume de areia.

Os experimentos revelaram que a força de tração exigida diminui proporcionalmente com a rigidez da areia… Um trenó desliza muito mais facilmente sobre a areia firme [e úmida] do deserto, simplesmente porque a areia não se acumula na frente do trenó, como faz no caso da areia seca.

Estas experiências servem para confirmar o que os egípcios claramente já sabiam, e o que nós provavelmente já deveríamos saber. Imagens dentro do túmulo de Djehutihotep, descoberto na Era Vitoriana, descrevem uma cena de escravos transportando uma estátua colossal do governante do Império Médio; e nela, há um homem na frente do trenó derramando líquido na areia. Você pode vê-lo na imagem acima, à direita do pé da estátua.

Agora podemos finalmente declarar o fim desta caçada científica. O estudo foi publicado na Physical Review Letters. [Universidade de Amsterdã via Phys.org via Gizmodo en Español]

 

Antes é necessário esclarecer que não existia escravidão no Egito, o arquétipo de servidão durante o período faraônico seguia um modelo diferente do clássico, então não é correto afirmar que o país se utilizava de um sistema de trabalho escravo, especialmente durante a construção das pirâmides onde já está mais do que comprovado que foram feitas por trabalhadores livres, alguns dos quais foram sepultados próximos a esses edifícios.

O segundo problema é que a teoria apresentada já é antiga. O que há de novo provavelmente é a forma como foi conduzido o experimento, mas a sugestão de que as pedras eram empurradas com o auxílio de trenós friccionados com o solo molhado já é bem antiga, é tanto que em uma entrevista que realizei este ano para O Almanaque a comentei, falando que duas, das muitas teorias existentes, sugerem que as pedras foram arrastadas com o uso de trenós sem rodas ou com o uso de toras de madeira no lugar das rodas. Contudo, ou esqueci de falar, ou foi cortado durante a edição, que os trenós sem rodas eram empurrados sobre o solo molhado.

Existem até documentários que já abordaram isto e testaram na prática, então, em resumo, esta pesquisa não tem nada de novo, exceto que foi realizado o experimento abordado.

(Vídeo) “As Pirâmides do Egito”

Por Márcia Jamille | @MJamille | @Instagram

Recentemente o leitor Yuri Fox enviou para mim, via Facebook, um vídeo feito sobre a direção de Corentin Charron, Lise Corriol, Olivier Lafay e Nicolas Mrikhi, estando a música por Kalina Świątnicka. Nele é mostrado um arqueólogo escavando no Egito e que, após fazer a descoberta de um artefato, passa por algo surpreendente.

O material é francês (Les Pyramides d’Égypte, no título original), mas como não possui diálogo é possível assistir tranquilamente. Ele está em exibição permanente no MuCEM (Museu das Civilizações da Europa e do Mediterrâneo).

Les Pyramides d’Égypte from Kheops Pyramides on Vimeo.

O islã quer destruir as pirâmides?

Por Márcia Jamille Costa| @MJamille

 

No dia 11 de julho (2012) o site http://frontpagemag.com lançou uma matéria perturbadora de autoria de Raymond Ibrahim, que acusa lideres muçulmanos de apelarem para que os seus fieis destruíssem as pirâmides do platô de Gizé, as quais seriam o “símbolo do paganismo”. De acordo com a denúncia o atual presidente do Egito, Muhammad Morsi (que faz parte da Irmandade Muçulmana e cujo slogan de campanha é “Islã é a solução”), teria sido convocado a realizar a destruição.

 

Pirâmides do platô de Gizé. Fonte: Papel de parede. Disponível em. Acesso em 27 de janeiro de 2011.

 

A matéria cita alguns exemplos de estragos feitos em artefatos egípcios por parte dos primeiros invasores muçulmanos e aponta justamente a Grande Esfinge, cujo nariz teria sido destruído por fieis e não por Napoleão como a história Ocidental corriqueiramente descreve (Em verdade não se sabe quando e por quem o nariz teria sido destruído, desta forma fica difícil apontar um culpado).

O autor argumenta que esta ânsia em destruir monumentos antigos seria uma necessidade por parte dos crentes em aniquilar o seu passado “não islâmico” e pela a “não identificação” destas pessoas em relação a história antiga, uma vez que o país só tinha sido dominado por muçulmanos a partir do ano 600 da nossa era, centenas de anos após os romanos implantarem ali sua república.

 

Esfinge e uma das pirâmides do platô de Gizé. Imagem disponível em SILIOTTI, Alberto. Egito. (Tradução de Francisco Manhães). 1ª Edição. Barcelona: Editora Folio, 2006. p. 135.

O texto é finalizado por um apelo velado para as instituições internacionais, as quais prezam pela não crítica ao islã para assim evitar a “Islãfobia” (que se tornou popular após o ataque aos Estados Unidos em 11 de Setembro de 2011), e recrimina esta imparcialidade enquanto os artefatos faraônicos estão para ser destruídos.

Se a ideia do autor era chamar a atenção para a questão ele conseguiu imediatamente, e isto é visível pelos mais de oitocentos comentários que a matéria recebeu. A reação internacional foi imediata não só pelo teor grave das acusações, mas pelo o fato do nome do atual presidente estar envolvido.

Dias antes, em 26 de Junho, o site http://eagulf.net já tinha emitido, em árabe, um comunicado negando tais alegações por parte dos islâmicos, texto que aparentemente não tinha sido consultado por Ibrahim.

Como as acusações contra o povo muçulmano tornaram-se fortes após a vitória de Muhammad Morsi, que tinha sido eleito no dia 24 de junho (2012), foi chegada a conclusão que os textos só estavam buscando difamar a imagem do Islã, tocando no que era mais sensível as comunidades internacionais que é o patrimônio arqueológico. Apesar de tal conclusão, as denúncias de Ibrahim já tinham sido transmitidas para outras línguas, a exemplo do espanhol.

Em resposta a controvérsia, no dia 23 de julho o New York Times lançou uma matéria que buscou esclarecer os fatos. De acordo com o jornal, o inicio das especulações se deu no dia 30 de junho, após uma nota ser publicada na revista Rose el-Youssef, uma antiga partidária do ex ditador do país, Hosni Mubarak. A nota teria ganhado como base uma declaração dada pelo sheik Abdellatif al-Mahmoud em seu suposto twitter no dia 12 de julho onde ele teria firmado tal ordem de destruição dos monumentos, mensagem a qual o próprio usuário da conta afirmou ser falsa, fabricada em photoshop por alguém que quis se passar por ele. O jornal procurou pelo o sheik, mas ele não foi encontrado para dar uma declaração.

Em 2011, cita ainda o New York Times, outro sheik, o Abdel Moneim el-Shahat, teria sugerido que o rosto das estátuas egípcias fossem cobertas por cera, uma vez que o Islã repudia reproduções de imagens humanas.

Verdadeira ou não, estas matérias têm reacendido o pavor Ocidental pelo o Islã, e isto é visível através dos inúmeros comentários em sites, blogs e redes sociais. Algumas mensagens, infelizmente, acharam estes acontecimentos como uma justificativa para continuar a difamar o islã e tudo o que ele representa. Da mesma forma, não foi impossível encontrar comparações com a destruição de sítios arqueológicos em Timbuktu e os Budas de Bamiyan, no Afeganistão, ambos realizados por extremistas muçulmanos.

Apesar de muitos estarem comentando tais declarações, o atual presidente não se pronunciou, e sim o seu porta-voz, Ahmed Sobeai, que declarou ao New York Times que Morsi não se explicaria sobre o pedido do sheik, uma vez que isto jamais aconteceu e acrescentou que os monumentos egípcios e em especial o foco de toda a discussão, as Grandes Pirâmides, permanecem seguros.

 

Fonte:

Pirâmides do platô de Gizé. Fonte: Papel de parede. Disponível em <http://www.opapeldeparede.com.br/wallpapers-9993/> Acesso em 27 de janeiro de 2011.

Matéria com o comunicado negando as alegações por parte dos islâmicos (em árabe. No meu caso usei o Google Tradutor). Disponível em <  http://eagulf.net/archives/104018 > Acesso em 11 de Julho de 2012.

Calls to Destroy Egypt’s Great Pyramids Begin. Disponível em < http://frontpagemag.com/2012/raymond-ibrahim/muslim-brotherhood-destroy-the-pyramids/ > Acesso em 11 de Julho de 2012.

El extremismo islámico pone en peligro las Pirámides de Egipto. Disponível em < http://www.cubadebate.cu/noticias/2012/07/11/el-extremismo-islamico-pone-en-peligro-a-las-piramides-de-egipto/ > Acesso em 12 de Julho de 2012.

Contrary to Gossip, Pyramids Have No Date With the Wrecking Ball. Disponível em < http://www.nytimes.com/2012/07/24/world/middleeast/in-egypt-rumor-of-pyramids-demise-proves-flimsy.html > Acesso em 29 de Julho de 2012.

Mursi vence eleições no Egito com slogan “Islã é a solução”. Disponível em <  http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI5856529-EI17615,00-Mursi+vence+eleicoes+no+Egito+com+slogan+Isla+e+a+solucao.html > Acesso em 29 de Julho de 2012.

 

Bombas de água são usadas em Gizé

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

Esfinge e uma das pirâmides do platô de Gizé. Imagem disponível em SILIOTTI, Alberto. Egito. (Tradução de Francisco Manhães). 1ª Edição. Barcelona: Editora Folio, 2006. p. 135.

Um problema que vem preocupando os arqueólogos das últimas décadas é o acumulo de água subterrânea abaixo das pirâmides e da Esfinge do platô de Gizé. Para tentar resolver esta questão o governo egípcio instalou no mês passado (junho/2012) bombas para retirar a água destas regiões, no entanto, esta medida pode, de acordo com hidrólogos, prejudicar estes edifícios da antiguidade. O sistema envolve 18 bombas de água capazes de bombear 26.000 metros cúbicos de água por dia. O projeto levantou o temor de hidrólogos e ecologistas de que a retirada da água poderia corroer a rocha sob o sítio e levar ao colapso os monumentos lá situados.

Kamal Oda, professor de hidrologia da Suez Canal University, falou ao Ahram Online que, de acordo com um relatório do Ministério Egípcio do Estado para Antiguidades, as máquinas irão bombear cerca de 9,6 milhões de metros cúbicos de água por ano a uma profundidade de 100 metros abaixo da esfinge. Isto, ele alertou, pode causar uma queda no nível do solo e aumentar o risco de erosão e falência estrutural da Esfinge e das pirâmides. Porém Ali El-Asfar, diretor das Antiguidades do Platô de Gizé, por sua vez contestou a afirmação de Oda, ele afirma que as máquinas de bombeamento irão parar automaticamente quando o nível das águas subterrâneas atingirem 15,5 metros acima do nível do mar.

El-Asfar falou ao Ahram Online que a Esfinge, a Grande Pirâmide e os templos do vale do platô estão “completamente seguros”, já que o nível das águas subterrâneas deles tinham atingido 4,6 metros abaixo do nível do solo – o mesmo nível visto nos tempos antigos. “Estes níveis são naturais”, disse o Ministro do Estado para as Antiguidades, Mohamed Ibrahim, ao mesmo jornal. Ele apontou que o rio Nilo um dia tinha chegado ao platô, onde um porto tinha sido escavado para os barcos transportar blocos de pedra das pedreiras de Aswan e Tora (no extremo Sul do Egito) para as pirâmides que ainda estavam em construção.

 

Qualquer falha no projeto poderá vir a comprometer não só a integridade da Esfinge e das pirâmides, mas do complexo de monumentos que se encontram no sitio. Imagem disponível em BREGA, Isabella; CRESCIMBENE, Simonetta. Um passeio pelos lugares e pela história do Egito. (Tradução de Michel Teixeira, Maria Júlia Braga, Joana Bergman, Carlos Nougué). 1ª Edição. Barcelona: Editora Folio, 2007. p. 73.

Estes níveis de águas subterrâneas no platô de Gizé, especialmente na área abaixo dos sítios arqueológicos que compreendem as pirâmides e a Esfinge, têm aumentado recentemente devido um novo sistema de drenagem instalado na aldeia vizinha de Nazlet Al-Seman e as técnicas de irrigação usadas para o cultivo na área residencial vizinha de Hadaeq Al-Ahram.

 

Notícia retirada de Egypt’s Sphinx, Pyramids threatened by groundwater, hydrologists warn. Disponivel em < http://english.ahram.org.eg/News/46972.aspx >. Acesso em 06 de julho de 2012.

 

“Airbags” são usados em pirâmide

Para evitar colapso equipe britânica usa bolsões de água na pirâmide de Djoser

 

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

Pirâmide de Djose. Foto retirada de < http://images.travelpod.com/users/robthebruce/6.1263592209.step-pyramid.jpg > . Acesso em 15 de julho de 2011. >. Acesso em 15 de julho de 2011.

 

Uma das primeiras grandes estruturas edificada do mundo corre o risco de entrar em colapso. A pirâmide do faraó Djoser passou por uma grande prova quando sobreviveu a um terremoto em 1992 e desde 2007 vem sofrendo análises na busca de soluções para o seu problema estrutural. Desta forma uma empresa de Gales, a Cintec, vem trabalhando no local para tentar assegurar a integridade da Pirâmide Escalonada (ou Pirâmide de Degraus, como também é conhecida). “Nós enfrentamos um problema pouco comum: contar com toneladas de pedras irregulares aparelhadas na pressão da abertura de 8 metros quadrados que forma o teto da câmara funerária” explicou o diretor da Cintec Peter James ao jornal EL Mundo. “A questão era como proteger os blocos sem mover nem modificar nenhuma das forças que agem sobre ela. Qualquer mudança poderia ter provocado um colapso imediato”, complementou.

[cincopa AELAfra0uGWK]

Os “airbags” consistem em bolsas de água que ajudam a mortificar a pressão da estrutura. Cada uma fabricada de acordo com a forma da câmara funerária para não deformar o edifício. Com a pressão estável a pirâmide será restaurada e alguns dos blocos serão realinhados, para impedir a degradação do prédio.

Veja um pouco mais:

No Facebook e Orkut eu postei uma imagem e uma nota sobre a construção da Pirâmide Escalonada:

No Facebook:

Inscrição de Imhotep e Djoser.

No Orkut:

Nota sobre a construção da Pirâmide de Djoser (Escalonada) e foto da inscrição de Imhotep e Djoser.

Fonte:

‘Airbags’ para salvar a la madre de las pirámides de Egipto. Retirado de <http://www.elmundo.es/elmundo/2011/07/13/ciencia/1310579192.html>. Acesso em 14 de Julho de 2011.

Welsh technology helps save Egypt’s oldest pyramid. Retirado de <http://www.bbc.co.uk/blogs/waleshistory/2011/07/welsh_technology_helps_save_eg.html>. Acesso em 15 de Julho de 2011.

 

5 mitos da pirâmide de Khufu (Quéops)

5 mitos sobre a construção da grande pirâmide de Gizé.

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

Polêmica, magnânima, cara e inspiradora, estas e muitas outras palavras cairiam bem para definir a Grande Pirâmide de Gizé, um projeto inovador que o que tinha de simbólico tinha de aviso: o faraó que ali estava era alguém muito poderoso.

Pirâmides do platô de Gizé. Fonte: Papel de parede. Acesso em 27 de janeiro de 2011.

As pirâmides egípcias eram muito mais que um mausoléu, era um outdoor político, um trabalho na paisagem que serviu para mostrar todo o poder do faraó e o seu desejo de adentrar na eternidade. O platô de Gizé, outrora um grande jardim trabalhado com animais para a caça, hoje é de um deserto árido, mas rico em história e principalmente lendas sobre a construção da Grande Pirâmide, a pirâmide do faraó Khufu, a primeira – e maior – do local. Abaixo citei cinco dos principais mitos sobre a sua construção.

1 – A filha de Khufu (Quéops em grego) teve que se prostituir para pagar as despesas da construção;

Quem contou esta estória foi Heródoto, mas muitos das suas narrativas não são muito levadas a sério já que existem uma série de imprecisões. Hoje, ao menos entre muitos egiptólogos, já existe um consenso de que ele não se preocupava muito com a veracidade, mas em deixar sua narrativa mais elaborada.

Como não foi encontrado nenhum indício que aponte que uma das filhas de Khufu se prostituiu para ajudar ao pai esta afirmação continua a ser só um mito.

2 – A obra foi feita com trabalho escravo;

A obra foi feita com trabalhadores “remunerados” – entre aspas porque eles recebiam o pagamento em forma de comida, ou utensílios -. Não havia punições corporais para que os trabalhos transcorressem, pelo contrário, foram encontrados ossos dos trabalhadores da grande pirâmide e muitos mostravam regeneração, ou seja, foram tratados em vida.

Sepultura de trabalhador das pirâmides com espolio funerário. Fonte: Tomb discovery helps solve ancient slavery riddle pyramids. Disponível em < http://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-1242096/Tomb-discovery-helps-solve-ancient-slavery-riddle-pyramids.html> Acesso em 02 de fevereiro de 2011.

Sepultura de trabalhador das pirâmides. Fonte: Tomb discovery helps solve ancient slavery riddle pyramids. Disponível em < http://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-1242096/Tomb-discovery-helps-solve-ancient-slavery-riddle-pyramids.html> Acesso em 02 de fevereiro de 2011.

3 – Foi construída com auxilio de elefantes;

Eu gostaria de saber quem está espalhando este absurdo. Não foram encontrados ossos de elefantes nem no platô e nem nos arredores de Gizé. De fato existiam trabalhos conjuntos entre pessoas e alguns animais (a exemplo do cão e o macaco), mas elefantes não. Para quem defende esta idéia uma justificativa plausível é de que os ossos se degeneraram com o tempo, mas devo descartar isto, o solo egípcio é bem propício a conservar ossos de íbis, imagina então de um elefante.

4 – Está posicionado com as estrelas do cinturão de Orion;

É uma das sugestões mais plausíveis para a disposição do trio de Gizé. Hoje as estrelas não estão posicionadas com as três principais pirâmides do platô, mas acredita-se que na época de Khufu o céu noturno era diferente e as estrelas e pirâmides estavam alinhadas.

As pirâmides de Gizé supostamente seriam alinhadas, outrora, com as estrelas do cinturão de Órion.

 

5 – Obedece cálculos divinos.

A estória de cálculos divinos é superstição atual, mas diz-se que o primeiro passo para construir a Grande Pirâmide teve um ritual sagrado, afinal era um túmulo para um deus que estava sendo construído. O ritual consistiria em Khufu por a primeira estaca para demarcar o local onde se iniciaria a construção da estrutura do mausoléu. Mas os tais cálculos divinos para se descobrir os segredos do passado e do futuro é uma invenção moderna. Muitos místicos durante o século XIX e XX procuravam explicações para os “exóticos” monumentos egípcios.

 

Conheça mais sobre as pirâmides egípcias:

 

 

As pirâmides do Antigo Egito

Autor: Aidan Dodson

Editora: Folio

Ano de Publicação: 2007

Tradução: Francisco Manhães. Maria Júlia Braga, Carlos Nougué

Fonte (primeira imagem):

Pirâmides do platô de Gizé. Fonte: Papel de parede. Disponível em <http://www.opapeldeparede.com.br/wallpapers-9993/> Acesso em 27 de janeiro de 2011.