Grandes estátuas de Ramsés II e Seti II são encontradas na “Cidade do Sol”: mas, existem alguns probleminhas…

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Uma missão egípcia-alemã, que está trabalhando em El-Mataria (Cairo), antiga Heliópolis, desenterrou partes de duas estátuas colossais da época ramséssida, no sítio arqueológico de Suq el-Khamis. As pesquisas estão sendo coordenadas pela Universidade de Leipzig em cooperação com o Ministério das Antiguidades do Egito [1].

Ambas, no momento da descoberta, estavam cobertas com lama argilosa. Partes delas já foram removidas do local e de acordo com o Ministro das Antiguidades, serão levadas para o Grande Museu Egípcio, cuja inauguração — cancelada várias vezes  — espera-se que ocorra em 2018 [1].

Uma delas, feita em pedra calcária, é a parte superior de uma imagem do rei Seti II (identificado por um cartucho em seu ombro direito) e mede cerca de 80 cm de altura.

Estátua de Seti II. Foto: Luxor Times.

Estátua de Seti II. Foto: Luxor Times.

A segunda é feita de quartzito. Não se sabe quem ela representa, embora a sugestão é de que possa ser Ramsés II — um ligeiro antecessor de Seti II —. Esta imagem deveria ter tido cerca de 8 metros de altura.

Possível estátua de Ramsés II. Foto: Luxor Times.

“Estou bastante certo de que [os quadris e pernas] estarão lá”, disse Dietrich Raue, diretor da equipe alemã, “mas o problema é que estamos no meio da cidade e a parte inferior pode estar muito perto das residências. É perigoso escavar mais perto das casas, assim provavelmente nós não teremos a parte inferior” [3]

O templo foi destruído no Período Greco-romano e as antiguidades foram saqueadas e enviadas para Alexandria ou Europa. Em épocas posteriores alguns elementos dos edifícios foram reciclados como material de construção no Cairo[3].

Controvérsias:

Em meio a várias notícias comemorando a descoberta, algumas fotos têm circulado por algumas mídias sociais criado uma grande polêmica no Egito. A questão tem relação com a utilização de uma escavadeira para extrair as estátuas da terra, o que levou a acusações de que essa metodologia teria prejudicado a integridade dos objetos e que, inclusive, teria quebrado um deles.

Em um comunicado, o Ministério das Antiguidades comentou o escândalo, garantindo que os artefatos não sofreram avarias e que estão recebendo acompanhamento de especialistas. Mahmoud Afify, chefe do Setor de Antiguidades Egípcias, disse que apenas parte da estátua, a cabeça, foi levantada com uma escavadeira devido ao seu peso excessivo, o restante permanece no local. Ainda de acordo com o mesmo, para retirá-la foram utilizados tarugos de madeira e cortiça para separá-la do metal do guindaste. Uma grande quantidade de argila também foi retirada com a peça durante o levantamento [2][3].

Possível estátua de Ramsés II. Foto: Luxor Times.

Possível estátua de Ramsés II. Foto: Luxor Times.

Possível estátua de Ramsés II. Foto: Luxor Times.

Zahi Hawass, ex-ministro as antiguidades, defendeu a metodologia adotada por seus colegas afirmando que “Se não for transportada deste modo, então ela nunca será transportada. Este é o método usado em todos os países do mundo para mover quaisquer artefatos arqueológicos desse tamanho (…). Portanto, garanto que o que foi feito pela missão foi um trabalho científico integrado em salvar a escultura descoberta e que não há outra maneira para a missão a não ser usar essas máquinas que preservaram a estátua” e complementou “Estou muito feliz com o transporte desta imagem e sua descoberta, porque tem gerado grande publicidade no mundo inteiro” [4].

Outros pontos foram levantados pela arqueóloga e ativista Monica Hanna em sua página em uma rede social. Ela explicou que o verdadeiro problema é que essas grandes estátuas foram encontradas em um terreno cedido pelos Ministério das Antiguidades. Em um outro momento o até então chefe de arqueologia da região afirmou, erroneamente, que o espaço não tinha nenhum interesse histórico e o deu para a Unidade Local para construir um mercado. Ela ainda salientou a questão do esgoto no sítio e falou sobre a possibilidade de drenar toda a água. Também comentou sobre como grandes artefatos são erguidos: “(…) objetos pesados são geralmente levantados usando cintos/cordas ou são acolchoados para evitar o contato com as partes metálicas da escavadeira, pois existe sempre risco de choque, mesmo que mínimo, durante a difícil operação. Das imagens, parece que a estátua não foi quebrada durante a operação, como algumas pessoas temiam”. [5]

Esgoto e lixo: péssima mistura não só em um sítio arqueológico, mas em uma área residencial. Foto: Luxor Times.

Contudo, de fato algumas fotografias compartilhadas por alguns egípcios realmente são preocupantes. Aparentemente a cabeça da estátua ainda está no local em que a equipe a deixou após retirá-la do buraco. Exceto a primeira, as duas outras fotografias, até o momento, são de autores desconhecidos:

Alguns jornais e portais noticiaram que as estátuas seriam enviadas para o Grande Museu Egípcio, mas não falaram que a suposta cabeça de Ramsés II ainda permanecia no local. Foto: Mohamed Abd El Ghany / Reuter.

Esta foto de crianças brincando sobre a cabeça é preocupante, principalmente porque uma delas (círculo vermelho) está apoiada na orelha da estátua. Foto: Autor desconhecido.

Homens da própria região parecem ter tomado uma iniciativa e coberto a cabeça para protegê-la. Foto: Autor desconhecido.

Up-date: 15h09 | 11/03/2017

Saiu na mídia egípcia que agora a cabeça está “protegida” com fitas amarelas de proteção. Já é alguma coisa:

Foto: Past Preservers

Área alagada: qual seria a melhor maneira de trabalhar nessa situação?

A priori pode parecer impossível realizar um trabalho de arqueologia em um sítio alagado, mas não é. Nessa situação, por exemplo, foi possível realizar um trabalho de dragagem. Porém, nenhumas das notícias deixam claro se ocorreu alguma preocupação em se procurar por pequenos artefatos, só nos é possível ver os trabalhadores lavando as partes das estátuas e depois as removendo com uma escavadeira.

Foto: Mohamed Abd El Ghany / Reuter

Talvez com a publicação oficial da missão isso seja, ou já tenham sido, respondido. Porém, aproveitei para entrar em contato com um colega brasileiro, o Luis Felipe Freire, que é especialista em Arqueologia Subaquática. Perguntei para ele como nesta situação, a de um sítio arqueológico coberto por lama, poderíamos procurar por pequenos artefatos, já que não é possível realizar uma escavação por camadas. Sua resposta foi a seguinte:

“Vai depender da área, o ideal seria estar drenando a água para começar a retirar o sedimento, peneirando o mesmo com a técnica de peneira molhada. No entanto, vai depender das condições do local, porque se for à beira de um rio/lago/mar a água poderá continuar minando com muita velocidade. Geralmente o pessoal faz isso. Drenagem da água e escavação a níveis artificiais para ter o mínimo de controle estratigráfico”.

Falei para ele que ocorreu uma tentativa de drenagem, mas que por algum motivo ainda tinha muita água. Então ele pontuou:

“Realmente, daria para fazer algo com um maior controle e registro arqueológico. Porque mesmo com muita água minando, ainda dá para criar um sistema de drenagem que controle o surgimento da água, enquanto é feita a escavação. Tanto que o pessoal já fez escavação no meio do mar drenando a água e escavando os sítios na lama. Só que é uma logística cara, possivelmente eles não queriam ter muito esforço (gastar dinheiro)”.

Outras descobertas importantes:

Heliópolis, conhecida como Iunu em egípcio antigo (On em copta e na Bíblia), foi um importante nomo do Egito. Atualmente parte dessa antiga cidade compreende o subúrbio do Cairo. O nome “Heliopolis” (Cidade do Sol, traduzido do grego) tem relação com os templos do deus Sol Rá, Amon-Rá ou Rá-Harakhty. Aton, uma das representações de Rá, também foi cultuado no local.

Em Souq Al-Khamis foram encontrados os restos dos templos dos faraós Tutmés III, Akhenaton e o próprio Ramsés II, todos do Novo Império.

— Abaixo vocês poderão conferir alguns vídeos e entrevistas realizados no local em que foram encontradas as estátuas (legendas em inglês):

Tenha em casa: A Edições Del Prado, uma editora especializada em vendas de fascículos com imagens colecionáveis, possui uma coleção intitulada “Cenas do Egito Antigo”. Uma delas é a construção de uma grande estátua.

Clique aqui para conferir a peça ou aqui para ver as demais cenas.

Fontes:

[1] Ramesses II colossus discovered in old Heliopolis. Disponível em < http://luxortimesmagazine.blogspot.com.br/2017/03/ramesses-ii-colossus-discovered-in-old.html >. Acesso em 09 de fevereiro.

Egipto recupera del fango dos grandes estatuas de la época ramésida. Disponível em < http://www.abc.es/cultura/abci-egipto-recupera-fango-grandes-estatuas-epoca-ramesida-201703091530_noticia.html >. Acesso em 09 de fevereiro.

[2] Officials deny any damage to newly-discovered king Ramses II statue during excavation. Disponível em < http://www.egyptindependent.com/news/officials-deny-any-damage-newly-discovered-king-ramses-ii-statue-during-excavation >. Acesso em 10 de fevereiro de 2017.

[3] Colossal 3,000-year-old statue unearthed from Cairo pit. Disponível em < http://edition.cnn.com/2017/03/10/africa/ramses-ii-ozymandias-statue-cairo/ >. Acesso em 10 de fevereiro de 2017.

[4] Zahi Hawass fires back at criticism of colossus’ salvation. Disponível em < http://luxortimesmagazine.blogspot.com.br/2017/03/zahi-hawass-fires-back-at-criticism-of.html >. Acesso em 10 de fevereiro de 2017.

[5] Comentários da Monica Hanna. Disponível em < https://www.facebook.com/monicahanna/posts/960545308686 >. Acesso em 10 de fevereiro de 2017.

Massive Statue of Ancient Egyptian Pharaoh Found in City Slum. Disponível em < http://news.nationalgeographic.com/2017/03/egypt-pharaoh-ramses-statue-discovered-cairo/ >. Acesso em 10 de fevereiro de 2017.

Estátua de Ramsés II encontrada no Cairo é uma das descobertas arqueológicas mais importantes da história. Disponível em < http://www.hypeness.com.br/2017/03/estatua-de-ramses-ii-recem-achada-em-uma-favela-do-cairo-e-uma-das-descobertas-arqueologicas-mais-importantes-da-historia/ >. Acesso em 10 de fevereiro de 2017.

Barba de Tutankhamon: Cera de abelha foi a solução

Por Márcia Jamille | Instagram | @MJamille

Quase um ano após o escândalo da cola epóxi que foi posta na barba da máscara mortuária do faraó Tutankhamon em agosto de 2014, o artefato finalmente encontra-se livre do aderente.

Entenda o caso:

Tudo começou em janeiro de 2015, quando a imprensa mundial ficou ciente de que durante a manutenção do expositor em que a peça fica exposta ocorreu um acidente que fez com que a barba da máscara se soltasse e que, como medida, foi optado por usar uma cola epóxi, o que não era o ideal para o objeto. De acordo com os responsáveis por colar o artefato, a ordem para utilizar tal aderente partiu de superiores.

A egiptóloga Monica Hanna, especialista em conservação de pinturas murais, foi uma das pessoas que denunciaram o crime. De acordo com ela, cinco conservadores tentaram delatar o ocorrido, mas após uma visita do ministro das antiguidades ao museu no dia 17 de novembro de 2014 todos foram demitidos.

— Leia mais em “Cola na barba da máscara mortuária de Tutankhamon: O que ocorreu nas últimas horas?“.

Para variar, fotografias dentro do museu até então estavam proibidas, desta forma era difícil convencer as pessoas de que a cola estava lá ou a gravidade da intervenção. Entretanto, com a pressão por parte da imprensa nacional e internacional, o Ministério das Antiguidades se viu obrigado a realizar em 24 de janeiro de 2015, uma reunião com repórteres no Museu Egípcio do Cairo para confirmar o ocorrido e apresentar o conservador alemão Christian Eckmann, que seria o responsável pela remoção do epóxi.

Detalhe da cola no queixo em fotografia tirada em 24 de janeiro de 2015. Foto: Hassan Ammar. AP. 2015

O fim e uma descoberta:

Os trabalhos de Eckmann começaram em outubro e após nove semanas a máscara finalmente ficou pronta para ser posta em seu local de exibição no Museu Egípcio do Cairo.

Foto: Mai Shaheen. 2015.

Foto: Mai Shaheen. 2015.

— Leia mais em “Restauro da máscara mortuária de Tutankhamon está em andamento“.

Apesar das circunstancias, ainda assim foi possível realizar mais uma descoberta arqueológica. De acordo com Mamdouh Eldamaty, ministro das antiguidades, “O processo revelou surpresas. A primeira é que a barba tem um tubo interior que a conecta com o rosto da máscara e a segunda é que a reintegração de 1946 se fez utilizando uma leve soldadura” [1].

Para pôr a barba em seu devido lugar Eckmann e sua equipe fizeram uso de técnicas antigas. Como aderente eles utilizaram cera de abelha, porque era um material comum no Antigo Egito, além de que é uma matéria orgânica que oferece um menor risco de causar danos ao metal da máscara.

1 – Barba separada do seu tubo interno. A seta aponta os resíduos da soldagem feita em 1946. Uma técnica atualmente condenada por restauradores.

2 – A cera de abelha aplicada ao tubo interno.

3 – A cera de abelha aplicada ao tubo interno. Usar técnicas do passado nos trabalhos de conservação é o aconselhado pelos profissionais da área. Assim não retira muito da identidade original do objeto.

4 – Trabalho concluído.

Abaixo o resultado:

Foto: Sahen Ramzy. 2015.

As informações obtidas pelo escaneamento serão apresentadas em um futuro livro.

Fonte:

[1] Regresa la barba de Tutankamón, con cera de abeja. Disponível em < http://www.ngenespanol.com/el-mundo/culturas/15/12/22/restauracion-barba-rey-tutankamon-museo-el-cairo-egipto.html >. Acesso em 27 de dezembro de 2015.

Album de Noor Mostafa. Disponível em < https://www.facebook.com/noor.mostafa.19/posts/915316655189980 >. Acesso em 27 de dezembro de 2015.

Restauro da máscara mortuária de Tutankhamon está em andamento

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Na noite do dia 10/10/2015, a máscara mortuária do faraó Tutankhamon foi retirada do seu display para passar pela a remoção da cola posta em sua barba e por trabalhos de restauro — Entenda o caso: Cola na barba da máscara mortuária de Tutankhamon: O que ocorreu nas últimas horas? —.

Foto: Ahram Online. 2015.

Dez dias depois o Ministério das Antiguidades convidou a imprensa egípcia e estrangeira para registrar as primeiras notícias sobre as atividades realizadas com o artefato.

Foto: Mai Shaheen. 2015.

Foto: Mai Shaheen. 2015.

Foto: Mai Shaheen. 2015.

Foto: Mai Shaheen. 2015.

Foto: Mai Shaheen. 2015.

O coordenador da equipe, o restaurador alemão Christian Eckmann, declarou que análises microscópicas estão sendo realizadas para estudar uma melhor forma de remover a cola. Ele ainda explicou que após esta fase, a qual ele espera finalizar em uma semana, a remoção começará e alertou que para se livrar de toda a cola sem afetar a integridade do objeto requer muita paciência.

Foto: Mai Shaheen. 2015.

Foto: Mai Shaheen. 2015.

Foto: Mai Shaheen. 2015.

Foto: Mai Shaheen. 2015.

Foto: Mai Shaheen. 2015.

Foto: Mai Shaheen. 2015.

Outro artefato de Tutankhamon foi centro das atenções da mídia esta semana:

A mídia árabe acusou recentemente estudantes que realizavam uma visita ao Museu Egípcio do Cairo de terem danificado a máscara mortuária de Tutankhamon, acusação que foi negada pelo o supervisor geral do museu, Khaled El-Enany. Ele explicou que um único incidente ocorreu nos últimos dias e foi com uma cabeça de madeira do faraó onde ele é representado ainda criança. De acordo com o supervisor os estudantes, após uma pequena comoção, acabaram se esbarrando na vitrine fazendo o artefato se inclinar um pouco. Um comitê imediatamente foi formado para averiguar se o objeto tinha sofrido algum dano, o que não foi o caso.

Por fim ele esclareceu que a máscara desde que foi retirada do seu display só está sendo visitada pelos especialistas responsáveis por seu restauro.

Fontes:

Restoration of Tutankhamun mask underway at Egyptian Museum. Disponível em <http://english.ahram.org.eg/NewsContent/9/40/161407/Heritage/Ancient-Egypt/Restoration-of-Tutankhamun-mask-underway-at-Egypti.aspx>. Acesso em 20 de outubro de 2015.

Egyptian Museum boss rubbishes reports of Tutankhamun gold mask damage. Disponível em <http://english.ahram.org.eg/News/161232.aspx>. Acesso em 20 de outubro de 2015.

PHOTO GALLERY: Experts pore over Tutankhamun’s mask as restoration gets underway. Disponível em <http://english.ahram.org.eg/NewsContentMulti/161411/Multimedia.aspx>. Acesso em 20 de outubro de 2015.

Guindaste se choca em antiga tumba egípcia

Por Márcia Jamille | Instagram | @MJamille

Na segunda-feira, 9 de fevereiro (2015), uma antiga tumba no Sul do Egito, datada da dinastia dos Fatímidas (que governou o Egito entre 909 até 1171), foi parcialmente destruída quando um guindaste se chocou contra a cúpula do edifício, anunciou autoridades na última terça-feira,10 de fevereiro (2015).

Foto: AFP. 2015.

O acidente ocorreu quando operários manobravam o guindaste para mover grandes blocos de pedra para a cidade de Aswan, onde uma exposição internacional para esculturas está sendo realizada.

“O guindaste que transportava pesados blocos de pedra bateu na cúpula e a danificou severamente”, disse através de um comunicado um representante do Ministério das Antiguidades do Egito.

Ainda de acordo com ele conservadores alemães que trabalham na manutenção desse tipo de estrutura em Aswan foram chamados para ajudar no restauro do mausoléu.

Fonte:
Crane crashes into ancient tomb in Egypt. Disponível em < http://english.alarabiya.net/en/life-style/art-and-culture/2015/02/10/Crane-crashes-into-ancient-tomb-in-Egypt-.html >. Acesso em 10 de fevereiro de 2015.

Múmias em seus sarcófagos são encontradas flutuando em esgoto no Egito

Por Márcia Jamille | Instagram | @MJamille

De acordo com o “The Daily News Egypt” três ataúdes datados do período greco-romano foram encontrados flutuando no canal Nasseriya, no povoado de Auda Basha, próximo da cidade de Minya. Para o ministro das antiguidades do Egito, Youssef Khalifa, as múmias foram descobertas provavelmente durante uma escavação ilegal realizada por caçadores de tesouros. O abandono poderia ter sido resultado de descarte por parte dos próprios ladrões, que tentaram se livrar dos furtos provavelmente por medo de serem descobertos pela polícia.

Foto via Monica Hanna. 2015.

Assaltantes de sítios arqueológicos só realizam este tipo de atividade porque possuem compradores, seja um turista qualquer nas ruas do Egito, algum museu mal intencionado ou (e principalmente) pessoas influentes financeiramente.

Os objetos são feitos totalmente em madeira e mantêm parte da sua coloração original. Infelizmente nenhum deles contém textos hieroglíficos, mas dentro de dois foram encontradas múmias envoltas em linho, o terceiro estava vazio.

AFP

Os ataúdes estão em um péssimo estado de conservação, possivelmente devido ao seu contato com o esgoto e agora estão passando por um processo de restauro. Após essa intervenção os sarcófagos e suas respectivas múmias serão enviados para o Minya’s Hermopolis Museum.

Fonte:
Holy sh*t! Mummies float in Egyptian sewage! Disponível em < http://www.greenprophet.com/2015/02/holy-sht-mummies-float-in-egyptian-sewage/ >. Acesso em 09 de fevereiro de 2015.
Múmias são encontradas no esgoto no Egito. Disponível em < http://noticias.terra.com.br/mundo/africa/mumias-sao-encontradas-no-esgoto-no-egito,a727ef9a7296b410VgnCLD200000b1bf46d0RCRD.html >. Acesso em 09 de fevereiro de 2015.
Aparecen flotando en un canal de Minya (Egipto) tres sarcófagos de época greco-romana. Disponível em < http://terraeantiqvae.com/profiles/blogs/aparecen-flotando-en-un-canal-de-minya-egipto-tres-sarcofagos-de-#.VNkaDvnF8_b >. Acesso em 09 de fevereiro de 2015.
New mummies discovered floating in sewage in Upper Egypt. Disponível em < http://www.dailynewsegypt.com/2015/02/03/new-mummies-discovered-floating-sewage-upper-egypt/ >. Acesso em 09 de fevereiro de 2015.
Múmias são encontradas no esgoto no Egito. Disponível em < http://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2015/02/mumias-sao-encontradas-no-esgoto-no-egito.html >. Acesso em 09 de fevereiro de 2015.

Cola na barba da máscara mortuária de Tutankhamon: O que ocorreu nas últimas horas?

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Nos últimos dias comentei na página do Arqueologia Egípcia no Facebook que esta semana foi realizada uma denuncia sobre a possibilidade de terem posto cola epóxi (um tipo de super cola) na máscara mortuária de Tutankhamon, acusação que o Ministério de Antiguidades negou estar ciente, mas que segundo as fontes da denuncia eles já sabiam há meses.

Máscara mortuária de Tutankhamon. Imagem disponível em TIRADRITTI, Francesco. Tesouros do Egito do Museu do Cairo. São Paulo: Manole, 1998. pág 234.

Máscara mortuária de Tutankhamon antes da intervenção de 2014. Imagem disponível em TIRADRITTI, Francesco. Tesouros do Egito do Museu do Cairo. São Paulo: Manole, 1998. pág 234.

Detalhe da cola no queixo em fotografia tirada em 24 de janeiro de 2015. Foto: Hassan Ammar. AP. 2015.

De acordo com os denunciantes, restauradores que preferem permanecer anônimos, durante a manutenção do expositor da peça a barba da máscara mortuária soltou e foi colada de volta em seu lugar com um material inadequado, uma super cola. Ainda nas palavras deles a ordem de intervenção na peça partiu de superiores.

Caso esses eventos sejam reais o incidente é trágico por tais motivos:

O uso de um material inadequado para o restauro, a cola epóxi, já que uma das regras mais básicas do restauro é que sejam utilizados materiais de fácil remoção e que não comprometa a integridade da peça. O que não é o caso da epóxi.

As pessoas que manipularam o artefato para por a barba no lugar, de acordo com as denuncias tentaram suavizar a aparência da cola lixando a área e assim teriam arranhado o queixo da imagem.

A ignorância em acreditar que a peça estava quebrada ao ponto de colar o objeto no lugar, visto que a barba é um item que já foi removido na década de 1920, como aponta os registros fotográficos. Porém, caso esse fato já fosse conhecido no momento da intervenção, então a ordem partiu da má fé.

Máscara mortuária de Tutankhamon. Foto: Acervo Griffith Institute, University of Oxford. Harry Burton. Disponível em Acesso em 26 de setembro de 2011.

Máscara mortuária de Tutankhamon. Foto: Acervo Griffith Institute, University of Oxford. Harry Burton. Disponível em < http://www.griffithinstituteprints.com/image/433271/harry-burton-the-gold-mask-of-tutankhamun-3-4-view > Acesso em 26 de setembro de 2011.

Visita do rei Farouk I ao Museu Egípcio do Cairo em 1949. Nesta época a barba ainda era exposta separada. Disponível em < https://www.flickr.com/photos/kelisli/8511041153/in/photostream/ >. Acesso em 24 de janeiro de 2015.

Barba e colar de Tutankhamon separados da máscara mortuária. Arquivo Griffith Institute. Disponível em < http://www.griffith.ox.ac.uk/php/am-makepage1.php?&db=burton&view=gall&burt&card&desc=mask&strt=1&what=Search&cpos=15&s1=imagename&s2=cardnumber&s3&dno=25 >. Acesso em 24 de janeiro de 2015.

A ausência de sensibilidade daqueles que deram a ordem para colar a peça. Isso pode ser um reflexo de um dos grandes problemas do turismo arqueológico, que é quando o artefato deixa de ser um registro para a ciência e passa a ser um bem de consumo. Quantas vezes vocês já não ouviram ou leram semelhante frase “A tumba de Tutankhamon é tão pequena e sem graça que não valeu o dinheiro que paguei”?

Com a polêmica, no sábado, 24 de janeiro de 2015, ocorreu no Museu Egípcio do Cairo uma conferência para a imprensa onde foi apresentada a questão da intervenção com a super cola na máscara mortuária. O conservador alemão, Christian Eckmann, especialista em conservação de materiais arqueológicos feitos de vidro e metal, analisou na manhã daquele mesmo sábado a máscara para saber que tipo de aderente de fato foi utilizado e garantiu durante a reunião que mesmo sem saber especificamente qual o tipo da super cola o material utilizado neste caso está de acordo com as normas internacionais de restauro, ou seja, seu uso é reversível, porém ainda não é possível relatar se o objeto sofreu algum dano, a exemplo dos arranhões; no caso deles será realizada uma investigação para saber se são antigos ou se foram feitos no momento em que colocaram a cola.

Eckmann ainda esclareceu que a cola anterior, que foi colocada no objeto em 1941 (caso a visita do rei Farouk I tenha sido mesmo em 1949 então existe um equivoco nessa afirmação) para fixar barba, pode ter simplesmente se deteriorado e que por isso o item teria caído.

Durante o evento o Ministério das Antiguidades e os coordenadores do Museu Egípcio do Cairo pediram desculpas pelo o ocorrido e ao final os representantes de ambos pediram ponderação à imprensa ao relatar o acontecimento e que as pessoas parem com as especulações agressivas.

Entretanto, essa questão parece ir mais além. Jackie Rodriguez, uma turista que visitou o Museu Egípcio em 12 de agosto de 2014, forneceu para a agência de notícias AP uma fotografia de dois homens que estão a executar os trabalhos de reparo no artefato, enquanto a galeria estava aberta. “Todo o trabalho parecia palhaçada”, disse ela que complementou “Foi desconcertante porque o procedimento ocorreu em frente a uma grande multidão e, aparentemente, sem as ferramentas adequadas”.

Registro fotográfico realizado pela turista Jacqueline Rodriguez em 2014. Foto: AP.

A egiptóloga Monica Hanna, especialista em conservação de pinturas murais, também realizou denuncias: através do seu Twitter comentou que cinco conservadores tentaram delatar o ocorrido, mas após uma visita do ministro das antiguidades ao museu no dia 17 de novembro de 2014 eles foram demitidos.

Horas após a reunião entrei em contato com a Hanna para saber se os ativistas egípcios do Egypt’s Heritage Task ainda têm planos de denunciar o Museu Egípcio para o Ministério Público e ela respondeu que sim, eles irão seguir em frente com a denúncia.

Composta por incrustações de vidro e pedras semipreciosas, a máscara mortuária de Tutankhamon é um objeto feito em ouro maciço martelado e somente a barba pesa cerca de 2 quilos. Ela foi vista pela primeira vez por olhos modernos em 1926 — quatro anos após a descoberta da KV-62 —, protegendo a cabeça e os ombros do faraó Tutankhamon.

Fonte:

Máscara de Tutancâmon é danificada após restauração com material errado. Disponível em < http://oglobo.globo.com/sociedade/historia/mascara-de-tutancamon-danificada-apos-restauracao-com-material-errado-15118812?utm_source=Facebook&utm_medium=Social&utm_campaign=O+Globo >. Acesso em 22 de janeiro de 2015.
Botched repair of Tut mask ‘reversible’: German conservator. Disponível em < http://www.france24.com/en/20150124-botched-repair-tut-mask-reversible-german-conservator/?aef_campaign_date=2015-01-24&aef_campaign_ref=partage_aef&ns_campaign=reseaux_sociaux&ns_linkname=editorial&ns_mchannel=social&ns_source=twitter >. Acesso em 24 de janeiro de 2015.
Archaeologists Want Egyptian Officials Charged for Damage to Tutankhamen’s Burial Mask. Disponível em < http://www.nytimes.com/2015/01/24/world/middleeast/archaeologists-want-egyptian-officials-charged-for-damage-to-tutankhamens-burial-mask.html?smid=tw-NYTOpenSource&seid=auto&_r=0 >. Acesso em 24 de janeiro de 2015.

Possível destruição da pirâmide de Saqqara: entenda o caso

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Desde o mês de setembro (2014) uma grande polêmica está rondando a Pirâmide Escalonada, locada em Saqqara. Um grupo de ativistas e egiptólogos tem denunciado para a imprensa a suposta rápida degradação do edifício causada por uma empresa de construção que deveria cuidar do restauro do monumento.

A Pirâmide de Saqqara é a percussora de todas as outras pirâmides do país, sendo o edifício edificado deste tipo mais antigo do Egito, mas o que era uma estrutura bem distinguível, com o tempo perdeu sua camada exterior e sua base interna sofreu com uma grande rachadura, o que pode um dia levá-la ao seu colapso. Dado aos seus problemas estruturais foi iniciado em 2006 os trabalhos de restauro no monumento, ocasião em que uma empresa de Gales, a Cintec, trabalhou no local para tentar assegurar a sua integridade. “Nós enfrentamos um problema pouco comum: contar com toneladas de pedras irregulares aparelhadas na pressão da abertura de 8 metros quadrados que forma o teto da câmara funerária” explicou na época o diretor da Cintec, Peter James, ao jornal EL Mundo. “A questão era como proteger os blocos sem mover nem modificar nenhuma das forças que agem sobre ela. Qualquer mudança poderia ter provocado um colapso imediato”, concluiu.

Pirâmide de Djoser. Imagem disponível em < http://www.elmundo.es/la-aventura-de-la-historia/2014/09/16/54180bc5ca4741fc178b457c.html >. Acesso em 30 de setembro de 2014.

Para segurar toda a estrutura e aliviar a pressão foi adotado então o uso de airbags, que consistem em bolsas de água, cada uma fabricada de acordo com a forma da câmara funerária para não deformar o edifício.

Bolsões de água foram usados para estabilizar a pressão na pirâmide. Foto retirada de < http://www.walesonline.co.uk/news/need-to-read/2011/07/13/airbags-to-the-rescue-of-egypt-s-oldest-pyramid-91466-29041624/ >. Acesso em 15 de julho de 2011.

Uma das estruturas mais antigas do mundo está sendo restaurada para não entrar em colapso. Foto retirada de < http://estaticos04.cache.el-mundo.net/elmundo/imagenes/2011/07/13/ciencia/1310579192_extras_ladillos_2_0.jpg >. Acesso em 15 de julho de 2011.

No entanto, com a chegada da primavera árabe em 2011 e os protestos pela saída do ditador Hosni Mubarak os trabalhos sofreram uma pausa, uma breve retomada e novamente uma pausa em fevereiro de 2013 por “motivos administrativos” o que, de acordo com o engenheiro Mishiar Farid, não conferiram risco algum de desmoronamento do edifício, exceto no caso da ocorrência de um terremoto [1][2].

Pirâmide de Djoser. Foto: Mohamed El-Shahed. Disponível em < http://www.rtve.es/noticias/20140917/ong-egipcias-denuncian-danos-restauracion-piramide-saqqara-gobierno-niega/1013261.shtml >. Acesso em 30 de setembro de 2014.

Então em meados de setembro (2014) o porta-voz da associação egípcia Non-stop Robberies (cujo objetivo é a proteção dos monumentos do país) lançou um comunicado onde denunciou que a empresa de construção Al-Shorbagy, que deveria cuidar da restauração da pirâmide, em verdade está acelerando o seu processo de degradação, além de ter adicionado mais de 5% de novas estruturas a ela, que vai contra os padrões internacionais de conservação de patrimônios. Ainda de acordo com o documento a empresa nunca antes tinha trabalhado com a conservação de monumentos arqueológicos (PARRA, 2014). Para variar, egiptólogos também questionaram a forma de trabalho da empresa, a exemplo de José Miguel Parra, que falou ao EL Mundo:

“O resultado, tenho que reconhecer, era um pouco chocante, porque estavam preenchendo as brechas com cal branco… É certo que atualmente se fazem todos os esforços para que as modificações e o monumento original se diferenciem, mas tanto?” (PARRA, 2014 – Tradução nossa)

E ainda mencionou um acontecimento inusitado que ocorreu com um amigo da área:

“(…) um professor universitário amigo meu comentou para mim acerca de uma viagem por estes lugares e que, enquanto levava um grupo de alunos para visitar a pirâmide, um dos “capatazes” que se encarregava da obra se aproximou dele e lhe perguntou com tristeza se sabia como encontrar os cantos teóricos do monumento… Inacreditável, mas verdadeiro!” (PARRA, 2014 – Tradução nossa)

Contudo, mesmo com as criticas, Kamal Wahid, Diretor das Antiguidades de Saqqara e Gizé, afirmou que a empresa está qualificada como classe A pelo governo e ainda complementou que os trabalhos estavam indo de acordo com o que foi aprovado pela UNESCO e o Ministério de Antiguidades (PARRA, 2014), ou seja, todos estariam sabendo do que estava ocorrendo em Saqqara. Para variar, o trabalho estaria sendo supervisionado por consultores do Ministério de Antiguidades sob a coordenação do arquiteto Hassan Fahmy e revisada por um comitê de arquitetura dirigido por Mustafa Al-Ghamrawi e cinquenta professores de arquitetura das Universidades do Cairo e Ain Shams (PARRA, 2014). Mas o que dá para perceber por esta primorosa lista de arquitetos renomados? Que, como bem salientou Parra (2014), não estão inclusos na equipe arqueólogos com especialização em Egiptologia ou mesmo restauradores, que seriam o suporte principal para subsidiar e fazer o trabalho funcionar.

Pirâmide de Djoser. Foto: AFP.

Para rebater as críticas o ministro das antiguidades, Mamduh al Dalmati, defendeu os trabalhos citando a corroboração da UNESCO e a existência da supervisão tanto no lado externo como interno da pirâmide e ainda sugeriu, para não restar mais nenhuma dúvida acerca dos trabalhos realizados, que se criasse uma “comissão de peritos internacionais independentes” para avaliar se a pirâmide está em perigo ou não[1][2]. No vídeo abaixo é possível ver mais imagens:

Referências:

PARRA, José Miguel. La destructiva restauración de la pirámide de Sakkara. Disponível em < http://www.elmundo.es/la-aventura-de-la-historia/2014/09/16/54180bc5ca4741fc178b457c.html >. Acesso em 30 de setembro de 2014.

[1] ONG egipcias denuncian daños en la restauración de la pirámide de Saqqara que el Gobierno niega. Disponível em < http://www.rtve.es/noticias/20140917/ong-egipcias-denuncian-danos-restauracion-piramide-saqqara-gobierno-niega/1013261.shtml >. Acesso em 30 de setembro de 2014.

[2] Polémica en Egipto sobre el estado de la pirámide de Saqqara. Disponível em < http://www.abc.es/cultura/20140917/abci-peligro-piramide-saqara-201409161956.html >. Acesso em 30 de setembro de 2014.

‘Airbags’ para salvar a la madre de las pirámides de Egipto. Retirado de <http://www.elmundo.es/elmundo/2011/07/13/ciencia/1310579192.html>. Acesso em 14 de Julho de 2011.

Welsh technology helps save Egypt’s oldest pyramid. Retirado de <http://www.bbc.co.uk/blogs/waleshistory/2011/07/welsh_technology_helps_save_eg.html>. Acesso em 15 de Julho de 2011.

Polícia egípcia recupera três múmias roubadas

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

 

A Polícia Turística e de Antiguidades recuperou uma coleção de 11 artefatos faraônicos furtados de um sítio arqueológico em Fayum. Os itens estavam em posse de uma gangue especialista neste tipo de crime.

A crença de que estes objetos saíram diretamente de um sítio arqueológico está no fato de as peças não estão registradas nos documentos do Supremo Conselho de Antiguidades, ou seja, saíram de alguma escavação clandestina.

Coleção recuperada pela Polícia Turística e de Antiguidades. 2014.

Em meio à coleção apreendida estão três múmias datadas do Período Greco-Romano: duas mulheres e um homem, todos adultos.

Os demais artefatos compreendem rostos de sarcófagos arrancados do seu lugar original.

Os saques a sítios arqueológicos têm sido um problema endêmico no Egito desde a chegada dos europeus no país e a popularização dos antiquários e dos gabinetes de curiosidade. A prática atualmente é considerada crime, mas o comércio destes tipos de itens movimentam milhões no mercado negro.

Fonte:

Egyptian police confiscate three mummies from smuggling gang. Disponívem em < http://english.ahram.org.eg/NewsContent/9/40/98836/Heritage/Ancient-Egypt/Egyptian-police-confiscate-three-mummies-from-smug.aspx >. Acesso em 13 de abril de 2014.

Vandalismo em sítios arqueológicos no Egito: Ding Jinhao não é o único caso

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

No dia 26/05 (2013) viralizou na internet o caso de um ato de vandalismo em Luxor. Alguém chamado Ding Jinhao escreveu em um baixo relevo os dizeres em mandarim “Ding Jinhao esteve aqui”, despertando a revolta de milhares de internautas, especialmente entre os egípcios e chineses.

 

Palavras em mandarim “Ding Jinhao esteve aqui” escritas em parede do templo de Luxor. Foto: Kong You Wu Yi. Imagem Disponível em < http://egyptianstreets.com/2013/05/26/chinese-tourist-damages-3000-year-old-temple-in-luxor/ >. Acesso em 27 de maio de 2013.

 

O caso foi a público depois que uma fotografia do ato foi publicada por um chinês envergonhado na internet. Imediatamente a mídia identificou o infrator como um adolescente de 15 anos da província de Nanjing. Depois do escândalo, os pais do garoto emitiram um comunicado para a imprensa. “Nós queremos nos desculpar com o povo do Egito e com o povo de toda a China”, disse a mãe.

De acordo com a matéria do Egyptian Streets, blogueiros chineses postaram que a marca branca na assinatura de Ding é o resultado da tentativa de turistas chineses em apagar as inscrições.

O Ministério das Antiguidades ainda não lançou um comunicado oficial sobre o assunto, nem deu declarações se a imagem, que se localiza no Santuário de Amon construído por Alexandre Magno (356 – 323 a. E.C), poderá ser restaurada.

Russos tiram foto no topo da pirâmide e depois pedem desculpas ao povo egípcio. Imagem disponível em < http://www.kptv.com/story/21813574/russian-photographer-apologizes-for-pyramid-photos >. Acesso em 27 de maio de 2013.

Embora tenha sido um ato chocante, especialmente devido a antiguidade das paredes e sua relevância para a história da politica na antiguidade, casos de depredações proporcionados por turistas não é incomum, afinal, todos querem um pedaço da história, seja rasurando paredes ou pegando peças de cerâmicas do chão do sítios, e estes são só dois simples exemplos. Para variar este incidente demonstrou mais uma vez não só a falta de segurança nos sítios, mas a ausência de zelo por parte dos próprios turistas. O caso do garoto Ding Jinhao não foi o único, nem isolado. No início do ano turistas russos, aproveitando o recolhimento dos guardas de turismo e escalaram uma das pirâmides do platô de Giza para tirar fotos. As fotografias rodaram o mundo e eles foram tratados em parte como heróis, independente do risco que infringiram a própria vida e ao desrespeito as determinações de segurança geradas para o patrimônio arqueológico egípcio. Hoje fala-se mais das fotografias tiradas, mas pouco se comenta acerca do pedido de desculpas por terem subido em um Patrimônio da Humanidade de forma tão inconsequente.

Ontem (26/05) também rodou pelo Facebook o anuncio da demolição de um dos últimos portões do Velho Cairo, o Bab Al Wazir, construído no início do século 19. O motivo? A construção de um novo prédio a mando da neta do Sheikh Abdel Rahman Kara’a, responsável pela construção do edifico ao qual pertencia o portão. Porém, ser herdeira do construtor daria mesmo a ela o direito de destruição de um patrimônio arqueológico? O Bab Al Wazir não constava no registro de edifícios históricos do Egito, mas não temos sempre que depender do governo para enxergar o que é patrimônio arqueológico ou não.

 

Bab Al Wazir antes da sua destruição. Imagem disponível em < http://egyptianchronicles.blogspot.com.br/2013/05/save-our-heritage-save-our-history-for.html >. Acesso em 27 de maio de 2013.

O Bab a Wazir destruído. Imagem disponível em < http://egyptianchronicles.blogspot.com.br/2013/05/save-our-heritage-save-our-history-for.html >. Acesso em 27 de maio de 2013.

O Bab a Wazir destruído. Imagem disponível em < http://egyptianchronicles.blogspot.com.br/2013/05/save-our-heritage-save-our-history-for.html >. Acesso em 27 de maio de 2013.

O Bab a Wazir destruído. Imagem disponível em < http://egyptianchronicles.blogspot.com.br/2013/05/save-our-heritage-save-our-history-for.html >. Acesso em 27 de maio de 2013.

 

No final de 2012 outro problema relacionado com a derrubada de edifícios arqueológicos para a construção de edifícios foi levantado entre arqueólogos, porém, aparentemente não caiu na mídia (se ocorreu não vi): Existe um baixo relevo de Akhenaton, Aton e Amenhotep III em Assuão. Ele pertenceu a um escultor chamado Bek e estava para ser retirado do seu lugar original para ser posto em um museu na Núbia ou no Grand Museum ASAP. Este não é um caso de vandalismo ou destruição, mas a necessidade de retirar este artefato do seu lugar original já deve ser levada a debate. Não sei informar o status da obra.

 

Imagem do mural de Bek no Sul do Egito. Foto: Peter Lacovara. 2012.

Mural de Bek. Imagem disponível em < http://ib205.tripod.com/bek.html >. Acesso em 27 de maio de 2013.

 

Outro caso que fiquei sabendo foi no final de 2011 e tem relação com a frequente deterioração da cabeça de um colosso de Ramsés II em el-Hawawish (Akhmim). Além de ter sido coberta por lixo e cascalho, os homens locais estavam urinando nela. Observe a diferença das datas nas legendas das fotos. Atualmente também não sei informar como está a situação deste artefato.

 

Ramsés II em el-Hawawish (Akhmim). Foto: Peter Allingham. 08 de Abril de 2011.

Ramsés II em el-Hawawish (Akhmim). Foto Victor Solkin. 18 de Outubro de 2011.

 

Observando o caso de Ding e os demais é possível notar que esquecemos de observar a Arqueologia Egípcia de uma forma mais ampla, levando para as nossas discussões a falta de tato não só de parte da população egípcia, mas também mundial em relação ao Patrimônio Arqueológico. Muito se fala acerca da necessidade de proteção tanto aos sítios como os artefatos, mas pouco está sendo feito.

Update – 29 de maio de 2013

Hoje saiu uma nova notícia acerca do ocorrido: foi anunciada a remoção do grafite. Para saber mais clique aqui.

***

Mais um exemplo de vandalismo em sítios arqueológicos egípcios. Esta fotografia é de Gizé em 2009:

Grafite em Gizé. Foto: Robert Bauval (2009).

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 De acordo com esta matéria do Ahram Online (12 de maio de 2013) a cabeça de Ramsés II de Akhmim e os demais artefatos encontrados na região foram removidos e armazenados em um local seguro.

Cabeça de Ramsés II em Akhmim após denuncias na internet em 2012, mas só salva em 2013. Imagem disponível em < http://english.ahram.org.eg/NewsContent/9/40/71270/Heritage/Ancient-Egypt/Head-of-Ramses-II-in-Akhmim-removed-and-stored.aspx >. Acesso em 29 de maio de 2013.

Cabeça de Ramsés II em Akhmim após denuncias na internet em 2012, mas só salva em 2013. Imagem disponível em < http://english.ahram.org.eg/NewsContent/9/40/71270/Heritage/Ancient-Egypt/Head-of-Ramses-II-in-Akhmim-removed-and-stored.aspx >. Acesso em 29 de maio de 2013.

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O islã quer destruir as pirâmides?

Por Márcia Jamille Costa| @MJamille

 

No dia 11 de julho (2012) o site http://frontpagemag.com lançou uma matéria perturbadora de autoria de Raymond Ibrahim, que acusa lideres muçulmanos de apelarem para que os seus fieis destruíssem as pirâmides do platô de Gizé, as quais seriam o “símbolo do paganismo”. De acordo com a denúncia o atual presidente do Egito, Muhammad Morsi (que faz parte da Irmandade Muçulmana e cujo slogan de campanha é “Islã é a solução”), teria sido convocado a realizar a destruição.

 

Pirâmides do platô de Gizé. Fonte: Papel de parede. Disponível em. Acesso em 27 de janeiro de 2011.

 

A matéria cita alguns exemplos de estragos feitos em artefatos egípcios por parte dos primeiros invasores muçulmanos e aponta justamente a Grande Esfinge, cujo nariz teria sido destruído por fieis e não por Napoleão como a história Ocidental corriqueiramente descreve (Em verdade não se sabe quando e por quem o nariz teria sido destruído, desta forma fica difícil apontar um culpado).

O autor argumenta que esta ânsia em destruir monumentos antigos seria uma necessidade por parte dos crentes em aniquilar o seu passado “não islâmico” e pela a “não identificação” destas pessoas em relação a história antiga, uma vez que o país só tinha sido dominado por muçulmanos a partir do ano 600 da nossa era, centenas de anos após os romanos implantarem ali sua república.

 

Esfinge e uma das pirâmides do platô de Gizé. Imagem disponível em SILIOTTI, Alberto. Egito. (Tradução de Francisco Manhães). 1ª Edição. Barcelona: Editora Folio, 2006. p. 135.

O texto é finalizado por um apelo velado para as instituições internacionais, as quais prezam pela não crítica ao islã para assim evitar a “Islãfobia” (que se tornou popular após o ataque aos Estados Unidos em 11 de Setembro de 2011), e recrimina esta imparcialidade enquanto os artefatos faraônicos estão para ser destruídos.

Se a ideia do autor era chamar a atenção para a questão ele conseguiu imediatamente, e isto é visível pelos mais de oitocentos comentários que a matéria recebeu. A reação internacional foi imediata não só pelo teor grave das acusações, mas pelo o fato do nome do atual presidente estar envolvido.

Dias antes, em 26 de Junho, o site http://eagulf.net já tinha emitido, em árabe, um comunicado negando tais alegações por parte dos islâmicos, texto que aparentemente não tinha sido consultado por Ibrahim.

Como as acusações contra o povo muçulmano tornaram-se fortes após a vitória de Muhammad Morsi, que tinha sido eleito no dia 24 de junho (2012), foi chegada a conclusão que os textos só estavam buscando difamar a imagem do Islã, tocando no que era mais sensível as comunidades internacionais que é o patrimônio arqueológico. Apesar de tal conclusão, as denúncias de Ibrahim já tinham sido transmitidas para outras línguas, a exemplo do espanhol.

Em resposta a controvérsia, no dia 23 de julho o New York Times lançou uma matéria que buscou esclarecer os fatos. De acordo com o jornal, o inicio das especulações se deu no dia 30 de junho, após uma nota ser publicada na revista Rose el-Youssef, uma antiga partidária do ex ditador do país, Hosni Mubarak. A nota teria ganhado como base uma declaração dada pelo sheik Abdellatif al-Mahmoud em seu suposto twitter no dia 12 de julho onde ele teria firmado tal ordem de destruição dos monumentos, mensagem a qual o próprio usuário da conta afirmou ser falsa, fabricada em photoshop por alguém que quis se passar por ele. O jornal procurou pelo o sheik, mas ele não foi encontrado para dar uma declaração.

Em 2011, cita ainda o New York Times, outro sheik, o Abdel Moneim el-Shahat, teria sugerido que o rosto das estátuas egípcias fossem cobertas por cera, uma vez que o Islã repudia reproduções de imagens humanas.

Verdadeira ou não, estas matérias têm reacendido o pavor Ocidental pelo o Islã, e isto é visível através dos inúmeros comentários em sites, blogs e redes sociais. Algumas mensagens, infelizmente, acharam estes acontecimentos como uma justificativa para continuar a difamar o islã e tudo o que ele representa. Da mesma forma, não foi impossível encontrar comparações com a destruição de sítios arqueológicos em Timbuktu e os Budas de Bamiyan, no Afeganistão, ambos realizados por extremistas muçulmanos.

Apesar de muitos estarem comentando tais declarações, o atual presidente não se pronunciou, e sim o seu porta-voz, Ahmed Sobeai, que declarou ao New York Times que Morsi não se explicaria sobre o pedido do sheik, uma vez que isto jamais aconteceu e acrescentou que os monumentos egípcios e em especial o foco de toda a discussão, as Grandes Pirâmides, permanecem seguros.

 

Fonte:

Pirâmides do platô de Gizé. Fonte: Papel de parede. Disponível em <http://www.opapeldeparede.com.br/wallpapers-9993/> Acesso em 27 de janeiro de 2011.

Matéria com o comunicado negando as alegações por parte dos islâmicos (em árabe. No meu caso usei o Google Tradutor). Disponível em <  http://eagulf.net/archives/104018 > Acesso em 11 de Julho de 2012.

Calls to Destroy Egypt’s Great Pyramids Begin. Disponível em < http://frontpagemag.com/2012/raymond-ibrahim/muslim-brotherhood-destroy-the-pyramids/ > Acesso em 11 de Julho de 2012.

El extremismo islámico pone en peligro las Pirámides de Egipto. Disponível em < http://www.cubadebate.cu/noticias/2012/07/11/el-extremismo-islamico-pone-en-peligro-a-las-piramides-de-egipto/ > Acesso em 12 de Julho de 2012.

Contrary to Gossip, Pyramids Have No Date With the Wrecking Ball. Disponível em < http://www.nytimes.com/2012/07/24/world/middleeast/in-egypt-rumor-of-pyramids-demise-proves-flimsy.html > Acesso em 29 de Julho de 2012.

Mursi vence eleições no Egito com slogan “Islã é a solução”. Disponível em <  http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI5856529-EI17615,00-Mursi+vence+eleicoes+no+Egito+com+slogan+Isla+e+a+solucao.html > Acesso em 29 de Julho de 2012.