Uma cópia em alta resolução do busto de Nefertiti está disponível para download

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Muitos conhecem a icônica e inacabada imagem da rainha Nefertiti, onde podemos vê-la do pescoço para cima usando uma grande coroa azul. Mas são poucos os que conhecem a história por trás da sua chegada a Alemanha no século 20.

Nefertiti foi uma rainha que reinou durante o período a Amarniano (18ª dinastia) na cidade de Aketaton, atual Amarna. E foi lá, dentro do ateliê de um escultor chamado Tutmés, que a sua mais famosa imagem foi descoberta em dezembro de 1912 por um arqueólogo alemão chamado Ludwig Borchardt.

Na época do achado já vigorava uma lei que proibia a saída de qualquer artefato arqueológico do país sem a permissão expressa do governo. Antes, qualquer um que fosse efetuar explorações em templos e tumbas poderia levar consigo o que encontrou. Foi assim que muitos museus de antiguidades egípcias foram criados na Europa e América. Porém, o Egito, durante o século XX, finalmente conseguiu implantar uma lei que estabelecia que o explorador poderia ficar com metade dos artefatos que encontrou, desde que tais artefatos fossem escolhidos a dedo pelo governo — hoje já não é mais assim, agora todo e qualquer artefato está proibido de deixar o país para compor o acervo permanente de um museu estrangeiro —.

Sabendo disso, Ludwig Borchardt mascarou a estátua de Nefertiti, conseguindo assim que ela não fosse notada durante a inspeção do fiscal do até então Serviço de Antiguidades — atual Ministério das Antiguidades —. O busto foi levado para Europa e permaneceu escondido até que finalmente entrou em exposição, enfurecendo assim os egípcios que agora estavam cientes de que eles tinham sido enganados.

Esse é o resumo da história, e olha que eu nem contei a parte em que os egípcios há anos estão tentando repatriar este artefato, sem sucesso algum.

A questão é que a imagem está hoje no Neues Museum, em Berlim, e há alguns anos ela foi digitalizada em 3D. Cópias em 3D de artefatos arqueológicos tem se tornado cada vez mais comuns em laboratórios de museus de arqueologia ao redor do mundo. Vocês poderão assistir um exemplo na prática através deste vídeo:

Contudo, a cópia foi mantida guardada, não sendo liberada nem mesmo para acadêmicos. Foi necessário que um homem chamado Cosmo Wenman conseguisse a sua liberação para o público usando o argumento da liberdade de informação. Mas, para tal, ele teve que tomar três anos de sua vida nesta batalha.

De acordo com o próprio Wenman a Fundação do Patrimônio Cultural da Prússia — organização que supervisiona os museus do estado em Berlim — inicialmente negou o seu pedido. Representantes da fundação alegaram que a liberação da cópia iria interferir nas vendas das réplicas do busto de Nefertiti na loja de presentes do museu.

E após os três anos finalmente a fundação cedeu ao pedido e enviou ao Wenman os arquivos em uma unidade USB, que por sua vez os colocou no Thingiverse, um site para visualizar e imprimir objetos 3D. Qualquer um pode baixá-los agora, desde que os use para fins não comerciais e dê os devidos créditos ao museu.

Imagem digitalizada.

Fontes:

Long-Hidden 3D Scan of Ancient Egyptian Nefertiti Bust Finally Revealed. Disponível em < https://www.livescience.com/nefertiti-bust-3d-scan-revealed.html >. Acesso em 25 de novembro de 2019.

An Official High-Resolution 3D Model of the Bust of Nefertiti Is Available for Download. Disponível em < https://kottke.org/19/11/an-official-high-resolution-3d-model-of-the-bust-of-nefertiti-is-available-for-download >. Acesso em 25 de novembro de 2019.

Entrevista com Zahi Hawass: múmia de Tutankhamon passará por uma nova tomografia

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

No mês passado (setembro/2019), entrevistei o maior nome da arqueologia egípcia da contemporaneidade: o professor Zahi Hawass. Ele ficou famoso por ter recebido plena atenção da mídia para a importância da devolução de artefatos arqueológicos — que estavam em museus e coleções particulares estrangeiras — para o seu país original.

Contudo, o Hawass não desejava repatriar todas as peças retiradas do Egito, somente aquelas que saíram do país após a década de 1970 e aquelas que possuem algum significado especial para a história da arqueologia egípcia, tais como a Pedra de Roseta ou o busto da Rainha Nefertiti.

Outro detalhe importante sobre o Hawass é que ele já foi diretor do Supremo Conselho de Antiguidades do Egito.

Porém, sua carreira é destacada também por uma série de polêmicas, uma delas foi seu reality show para a History Channel, “Chasing Mummies”, que aqui no Brasil recebeu o título “Caçador de Múmias”. Ela foi amplamente criticada tanto por arqueólogos, como pelo público. Outra grande polêmica foi sua linha de roupas, cujas fotografias foram tiradas ao lado de artefatos egípcios. A questão é que alguns egiptólogos acusavam o Hawass de usar sua posição para furar a fila na burocracia para tirar fotos dos referidos artefatos, fotos estas que eram para fins comerciais e não acadêmicos.

E ainda temos a chegada da Primavera Árabe no Egito, situação em que o Museu Egípcio do Cairo foi invadido na calada da noite. Na época o Hawass negou tal ocorrido e neste meio tempo foi declarado Ministro das Antiguidades — cargo este que foi criado às pressas para tentar aplacar a ira do público —, contudo, ele não ficou muito tempo nesta posição, já que com a queda do até então presidente Hosni Mubarak, Hawass foi exonerado.

E agora ele veio para o Brasil para dar uma palestra sobre o faraó Tutankhamon e prestigiar a abertura do museu Rei Menino de Ouro: Tutankhamon. Entretanto, antes da abertura deste museu ele disponibilizou uma coletiva de imprensa e o site Arqueologia Egípcia estava presente. Confira abaixo e saiba sobre as novidades que ele trouxe para nós, dentre elas, sobre Tutankhamon:

A ida do AE para a coletiva só foi possível graças as pessoas que participaram de nossa campanha online e ajudaram a pagar as principais despesas da viagem. Então, fica aqui registrado meu agradecimento.

É oficial: Tumba do faraó Tutankhamon não possui câmaras ocultas

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Após anos de espera finalmente possuímos uma resolução acerca dos trabalhos de busca por câmaras ocultas na tumba do faraó Tutankhamon, que reinou durante a 18ª Dinastia (Novo Império).

Desde 2015 o público acadêmico e curiosos têm esperado uma conclusão acerca desta teoria, que surgiu após a publicação de um artigo do egiptólogo britânico Nicholas Reeves, que sugeriu que a pequena tumba do rei, tombada como “KV-62”, possuiria indícios de entradas para outras câmaras funerárias. Ainda, de acordo com a teoria, estas câmaras seriam nada mais, nada menos, que pertencentes ao sepultamento da rainha Nefertiti, sogra do jovem governante.

Apesar de ser uma sugestão um tanto excêntrica o Ministério das Antiguidades do Egito a considerou plausível e por isso autorizou análises com radares na sepultura. A primeira ocorreu em 2016, liderada pelo próprio Reeves e apontou que existiria “70% de chances”, nas palavras do Ministro das Antiguidades da época, de que existiria câmaras ocultas na sepultura. No entanto, os resultados desta pesquisa foram questionados devido a sua imprecisão e a negativa do seu executor, o Hirokatsu Watanabe em liberar seus dados para que pudessem ser apreciados por outros acadêmicos e a imprensa (o que é comum com pesquisas científicas). Então uma segunda análise foi feita, desta vez pela National Geographic, que desconsiderou qualquer hipótese de existência de tais espaços vazios. Ambas estas pesquisas foram comentadas no nosso vídeo “Sobre as supostas câmaras ocultas na tumba de Tutankhamon” (clique aqui para assistir).

Então no final de 2017 o Ministério aprovou uma nova análise, desta vez liderada por uma equipe italiana. As pesquisas tiveram início em fevereiro (2018) e suas conclusões foram disponibilizadas agora no início de maio (2018) (e já comentada em nossa página no Facebook). O resultado? Não existem câmaras ocultas alguma na sepultura.

Agora poderemos fechar mais um capítulo relacionado com as pesquisas realizadas na tumba de Tutankhamon. Mas, vindo deste rei, agora é só esperar qual nova teoria surgirá sobre ele.

Tenha em casa: A Edições Del Prado, uma editora especializada em vendas de fascículos com imagens colecionáveis, possui uma coleção intitulada “Cenas do Egito Antigo”. Em uma delas você poderá ver egípcios pintando a parede de uma tumba, tal como teriam pintado as paredes da sepultura de Tutankhamon.

Clique aqui para conferir a peça ou aqui para ver as demais cenas.

Fontes:

Supreme Council of Antiquities denies claims of new discovery in King Tutankhamun’s tomb. Disponível em < http://english.ahram.org.eg/News/290670.aspx >. Acesso em 09 de fevereiro de 2018.
Desvendado o grande mistério sobre as câmaras secretas na tumba de Tutancâmon. Disponível em < http://www.bbc.com/portuguese/internacional-44029049 >. Acesso em 07 de maio de 2018.

Fotos: Wikimedia Commons.

Comentando o trailer de “A Maldição dos Faraós” (Assassin’s Creed Origins)

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

No último dia 13/03/18, a Ubisoft lançou mais uma extensão para o jogo Assassin’s Creed Origins, o A Maldição dos Faraós. Aqui nos reencontramos como o medjay Bayek que desta vez precisará enfrentar faraós zumbis e monstros terríveis.

Na noite anterior ao lançamento gravei um vídeo comentando alguns pontos curiosos do trailer. O Egito Antigo mais uma vez foi magistralmente representado e nem mesmo as licenças poéticas retiraram o tato da Ubisoft ao representar novamente a civilização egípcia. Assista abaixo aos meus comentários e não deixe de se inscrever no canal (clique aqui).

E quer saber quais foram os meus comentários mais gerais acerca de Assassin’s Creed Origins? Assista o vídeo abaixo:

Abaixo veja algumas imagens de “A Maldição dos Faraós”:

 

Mãe de Tutankhamon é tema de documentário

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Recentemente foi anunciada a estreia de um documentário que falará sobre a mãe do faraó Tutankhamon e a nova reconstituição facial feita para ela. Será um especial dividido em duas partes para o programa Expedition Unknown, da Travel Channel. Ainda não existe uma data prevista para o Brasil.

No Egito foram descobertos alguns esconderijos onde estavam múmias da realeza. O mais famoso é o de Deir el-Bahari, o qual já foi comentado aqui no Arqueologia Egípcia. Já um dos menos conhecidos  é o que foi descoberto em 1898, na KV-35. Neste foi encontrada a múmia da mulher cujo exames genéticos apontam como sendo a mãe de Tutankhamon. É ela um dos focos do documentário:

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Nefertiti nunca teria sido uma faraó, diz arqueóloga

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Ao contrário do que alguns pesquisadores pensam, Nefertiti, uma das mulheres mais famosas da antiguidade egípcia, não teria se tornado faraó. Ao menos é o que diz a Dra. Joyce Tyldesley, arqueóloga e egiptóloga da Universidade de Manchester, em seu livro “Nefertiti’s Face: The Creation of an Icon” (Face de Nefertiti: a criação de um ícone), publicado pela Profile Books e que será oficialmente lançado no próximo dia 25 de janeiro (2018), mas sem lançamento previsto para o Brasil.

Imagem de Nefertiti escupida por Tutmosis (Tutmés). Foto: Nile Magazine.

Nefertiti governou o Egito durante o final do Novo Império, mais especificamente no atualmente chamado Período Amarniano. Sua participação na vida pública e religiosa egípcia levou alguns acadêmicos a acreditar que ela reinou após a morte do seu esposo, Akhenaton, como uma faraó. Tese esta que não é sumariamente aceita entre os egiptólogos.

—  Saiba mais: Conheça algumas das mulheres que foram faraós.

Essa rainha ficou mundialmente famosa através do seu busto, que foi encontrado em 1912 e que atualmente está exposto em Berlim, Alemanha. Em seu livro Tyldesley conta a história da famosa escultura desde sua criação até a sua condição nos dias de hoje.

Nefertiti. Foto: Wikimedia Commons.

Sobre as alegações de que esse artefato seria falso, a pesquisadora teceu algumas palavras: “Alguns alegaram que é uma falsificação, mas eles estão completamente errados. Não tenho dúvidas de que o objeto exposto na Alemanha é o verdadeiro, é verdadeiramente notável.”

— Saiba mais: Seria a famosa estátua da rainha Nefertiti falsa?

E também explica sobre o fascínio do público por esta imagem e a tentativa de apropriação de sua identidade: Os admiradores da escultura tendem a ver suas próprias culturas e interesses refletidos em sua imagem; Hitler, por exemplo, presumivelmente a viu como ariana.”

Nefertiti em exposição em 1963.

A teoria de que ela teria sido faraó surgiu quando alguns acadêmicos começaram a sugerir que a forma como ela era retratada (usualmente do mesmo tamanho que o rei ou quase da sua altura) e sua extensa participação nos cultos ou atividades políticas ao lado do esposo, indicariam que ela teria muito mais poder que muitas outras rainhas de sua época. A mesma teoria sugere que com a morte de Akhenaton ela teria mudado o seu nome e reinado como Ankhkheperura Neferneferuaton (assista ao vídeo “Mulheres Faraós” para saber mais).

Mas, para Tyldesley o cenário é outro: “Embora a maioria das pessoas e muitos egiptólogos acreditem que Nefertiti era uma mulher da realeza excepcionalmente poderosa e, possivelmente, mesmo uma faraó, acredito que este não era o caso.” e continua “ela não nasceu na realeza, e para uma mulher da não realeza tornar-se rei[1] teria sido algo sem precedentes. Sua filha Meritaton, no entanto, realmente nasceu na realeza — e também é uma candidata mais provável para ser faraó”. E complementa: “só porque ela é a rainha mais famosa e poderosa do Egito em nosso mundo não significa que ela tenha sido uma famosa e poderosa rainha do Egito em seu mundo”.

Dra. Joyce Tyldesley é autora de vários outros livros de Egiptologia tais como “Stories from Ancient Egypt”, “Cleopatra: Last Queen of Egypt”, “Egypt: How A Lost Civilisation Was Rediscovered” e “Ramesses: Egypt’s Greatest Pharaoh”.

Tenha em casa: A Edições Del Prado, uma editora especializada em vendas de fascículos com imagens colecionáveis, possui uma coleção intitulada “Cenas do Egito Antigo”. Uma delas apresenta o faraó e a Grande Esposa Real.

Clique aqui para conferir a peça ou aqui para ver as demais cenas.

Fonte:

Nefertiti was no pharaoh, says renowned Egyptologist. Disponível em < https://phys.org/news/2018-01-nefertiti-pharaoh-renowned-egyptologist.html >. Acesso em 22 de janeiro de 2018.


[1] Aqui teria sido melhor utilizar o termo “faraó”, já que esta palavra significa “grande morada” e não necessariamente “rei”.

Máscara funerária do faraó Tutankhamon: um artefato único

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

A máscara de Tutankhamon é um dos artefatos arqueológicos mais surpreendentes advindos da Antiguidade. Feita em ouro e pedras semi e preciosas, ela tinha como objetivo tanto retratar o rei, como passar uma mensagem divina, afinal, de acordo com a crença egípcia antiga, a pele dos deuses era feita de ouro e os seus cabelos de lápis-lazúli.

Imagem frontal da máscara mortuária de Tutankhamon. Imagem disponível em MULLER, Hans Wolfgang; THIEM, Esberhard. O ouro dos faraós. (Tradução de Carlos Nougué, Francisco Manhães, Maria Julia Braga, Angela Zarate). 1ªEdição. Barcelona: Editora Folio, 2006. pág. 175.

Existem algumas controvérsias que envolvem este artefato, um delas é se de fato ele retrata o jovem rei. Esta questão, assim como outras informações adicionais tais como os matérias que a compõe, significados das inscrições que estão em suas costas, seu peso e tamanho são comentados no vídeo abaixo:

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5 mães famosas do Egito Antigo

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Não foi fácil escolher poucas mulheres, mas está aí uma modesta lista com cinco nomes da antiguidade egípcia que chegaram até nós graças aos trabalhos de Arqueologia e Egiptologia. Notem que a minha escolha não se baseou em mães mais amáveis ou maternais, mas as famosas no meio acadêmico graças a feitos notáveis.

Originalmente Hatshepsut fazia parte da lista, mas retirei por respeito, já que a sua única filha faleceu muito jovem e na hora da organização do roteiro esqueci completamente de Tutmés III.

— Leia também: Ser mãe no Egito Antigo

(Vídeo) Sobre as supostas câmaras ocultas na tumba de Tutankhamon

Semana passada liberei mais um post acerca das pesquisas realizadas na tumba do faraó Tutankhamon (clique aqui para conferir e aqui para ver todas as postagens escritas sobre o assunto). Agora disponibilizo no site o vídeo onde respondo algumas questões bem gerais que tais estudos despertaram no público.

Tutankhamon na KV-62. Foto: Factum Arte.

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