O amuleto da deusa Ísis: conheça o Tyet!

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille Instagram

Os egípcios antigos eram extremamente religiosos e devotos aos seus deuses, mas poucos eram os que tinham acesso aos principais templos do país. Desta forma, para tentar minimizar este afastamento, amuletos eram adotados para trazer algum tipo de amparo. Um dos mais populares era o Tyet, conhecido popularmente como “Nó de Ísis”.

Tyet, Knot of Isis amulets

Aqui no Arqueologia Egípcia existe um post que faz um apanhado geral sobre o uso de amuletos pelos antigos egípcios, é o texto Amuletos egípcios: significados dos símbolos e os seus usos”.  E abaixo está um vídeo falando exclusivamente do amuleto Tyet, cuja origem é um verdadeiro mistério. Alguns pesquisadores sugerem que o “nó” seja nada mais, nada menos que um pano usado para conter a menstruação (por isso da cor avermelhada dele). Assista ao vídeo para aprender melhor sobre o assunto:

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O enigma dos “Dois Irmãos” do tempo dos faraós

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

O Museu de Manchester (Reino Unido) possui algumas das coleções egípcias mais notáveis. E dentre as peças estão os artefatos funerários e as múmias de dois homens que tinham sido sepultados juntos. Eles foram identificados como Khnum-nakht e Nakht-ankh e as pesquisas revelaram que viveram durante a 12ª Dinastia.

Os ataúdes dos Dois Irmãos. Khnum-nakht é o da esquerda e Nakht-ankh o da direita. 2011.

O túmulo deles foi encontrado em 1907, em Dir Rifeh (próximo do Cairo), por um trabalhador egípcio chamado Erfai.  Ele estava trabalhando para os arqueólogos britânicos Ernest Mackay e Flinders Petrie, que enviaram toda a coleção funerária para Manchester.

Chegando ao museu em 1908 as múmias foram desembrulhadas pela primeira egiptóloga do Reino Unido a trabalhar em uma universidade, a Dra. Margaret Murray. Ela e seu auxiliar concluíram que a morfologia dos esqueletos de ambos os homens era diferente o que a fez sugerir que eles não seriam parentes. A pesquisadora ainda tinha dado uma estimativa de idade onde o Khnum-nakht teria cerca de 40 anos no momento de sua morte e Nakht-ankh cerca de 60.

Dra. Margaret Murray com a sua equipe exumando Nakht-ankh. 1908.

Apesar da conclusão de Margaret de que eles não seriam parentes, os ataúdes de ambos contavam uma outra história. De acordo com os textos eles eram filhos de um governante local com uma mulher chamada Khnum-aa. Por isso do apelido “Dois Irmãos”.

Ainda assim, alguns pesquisadores mais contemporâneos propuseram que um ou os dois homens fossem em verdade adotados.

Para sanar esta dúvida, foram extraídas amostras dos dentes de ambos em 2015 para que um exame de DNA pudesse ser realizado e o resultado saiu este ano (2018) na revista cientifica Journal of Archaeological Science. De acordo com o resultado eles pertenciam ao haplótipo mitocondrial M1a1, sugerindo uma relação maternal, portanto, seriam filhos da mesma mãe. Entretanto, as sequências do cromossomo Y foram menos completas e apresentaram variações entre as duas múmias, indicando que eles tinham pais diferentes, ou seja, muito provavelmente eram meio irmãos.

 

Fonte:

DNA confirms the Two Brothers’ relationship. Disponível em < https://egyptmanchester.wordpress.com/2018/01/16/dna-confirms-the-two-brothers-relationship/ >. Acesso em 17 de janeiro de 2018.

É descoberto o mais antigo sítio arqueológico de Tell Edfu (Egito)

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Uma missão de arqueologia do Instituto Oriental da Universidade de Chicago descobriu em Tell Edfu um complexo administrativo que remonta do final da 5ª Dinastia (Antigo Reino). A equipe é composta por pesquisadores dos EUA e do Egito sob a coordenação da Dra. Nadine Mueller e o Dr. Gregory Marward.

Foto: Ministry of Antiquities

O Secretário Geral do Conselho Supremo de Antiguidades, Mostafa Waziri, disse que no momento esse complexo administrativo é a evidência arqueológica mais antiga encontrada em Tell Edfu. Até então a mais velha era datada da metade da 6ª dinastia.

A equipe trabalha nesse local desde 2014 e os pesquisadores estão bastante contentes com a descoberta. Um dos motivos é porque a construção possui evidências de expedições reais que foram organizadas durante esse período e que tinham como objetivo extrair minerais e pedras preciosas do Deserto Oriental. Esses mesmos edifícios foram usados ​​como armazéns para os produtos e mercadorias dessas expedições e constituem o que na época era um recém-fundado bairro de assentamentos na antiga cidade de Behdet (Edfu)

Foto: Ministry of Antiquities

Essa construção é do tipo monumental e foi feita com mudbrick (um tipo de tijolo de barro) e está próxima do Templo de Edfu, que foi construído séculos mais tarde, durante o Período Ptolomaico.

Foto: Ministry of Antiquities

Vários artefatos e algumas inscrições foram encontrados. Dentre eles estão 220 selos de tijolos de barro do rei Djedkaré Isesi (que ordenou uma famosa expedição a Punt), fragmentos de atividades de mineração, nomes dos trabalhadores que participaram de escavações (a exemplo do comandante Sementio) e obras mineiras. Também foram encontradas conchas do Mar Vermelho e potes advindos da Núbia (atual Sudão).

Foto: Ministry of Antiquities

Descobertas paralelas:

Próximo a Edfu também foram realizadas pesquisas. Na área de Kom Ombo estatuetas (tanto de deuses como de pessoas) foram encontradas. Assim como uma estela de pedra calcária que descreve um homem e sua esposa apresentando ofertas para uma deidade sentada

 

Fonte:

Oldest archaeological evidence in Aswan, Tel Edfu revealed. Disponível em < http://www.egypttoday.com/Article/4/39872/Oldest-archaeological-evidence-in-Aswan-Tel-Edfu-revealed >. Acesso em 11 de janeiro de 2018.

Archaeologists unveil two major discoveries in Upper Egypt’s Tel Edfu and Kom Ombo. Disponível em < http://english.ahram.org.eg/NewsContent/9/40/287937/Heritage/Ancient-Egypt/Archaeologists-unveil-two-major-discoveries-in-Upp.aspx >. Acesso em 11 de janeiro de 2018.

Press Release Jan. 2018 (submitted Dec. 2017). Disponível em < https://telledfu.uchicago.edu/news/press-release-jan-2018-submitted-dec-2017 >. Acesso em 11 de janeiro de 2018.

Os deuses do Egito Antigo: o que você precisa saber!

Por Márcia Jamille | Instagram @MJamille

Após uma longa espera finalmente os leitores e seguidores do site Arqueologia Egípcia podem assistir ao primeiro episodio (ou melhor: episódio piloto) da nossa série “Deuses do Egito Antigo“.

Neste capítulo é feito um apanhado bem geral sobre as divindades desta icônica civilização. É basicamente uma prévia para preparar vocês para a nossa primeira série oficial:

A controvérsia diante do anúncio da descoberta de “espaços vazios” na Grande Pirâmide

Por Márcia Jamille | Instagram @MJamille

No último dia 02/11 a Nature publicou uma matéria anunciando que físicos descobriram um espaço vazio dentro da Grande Pirâmide de Gizé, a última das 7 Maravilhas do Mundo Antigo de pé. De acordo com a matéria, esse espaço foi encontrado através da detecção de múons (MARCHANT, 2017).

Imagem 01: Pirâmide de Khufu. Foto: Nina Aldin Thune via Wikimedia Commons.

A Grande Pirâmide foi o túmulo do faraó Khufu (Queóps), que reinou durante a IV Dinastia (há cerca de 4500 anos) e foi feita com pedra calcária e granito. Em seu interior foram encontradas câmaras, que foram descobertas, na contemporaneidade, no século 19. Elas compreendem a “Câmara da Rainha” e a “Câmara do Rei” que fica abaixo de uma série de saletas chamadas de “câmaras de descarga” ou “câmaras de alívio”, feitas justamente para aliviar o peso da construção (Imagem 02).

Imagem 02: Planta lateral da Grande Pirâmide (Khufu). Foto: DODSON, Aidan. As Pirâmides do Antigo Império (Tradução de Francisco Manhães, Maria Julia Braga, Carlos Nougué). Barcelona: Folio, 2007. pág. 78.

Não se sabe exatamente como esta estrutura de 138 ou 139 metros foi construída, mas indícios arqueológicos, inclusive um papiro encontrado em 2013 e exposto no Museu Egípcio do Cairo, dão algumas dicas.

— Saiba mais: Foi descoberta documentação que comenta construção da Grande Pirâmide

A pesquisa que encontrou esse espaço vazio foi realizada pelo Scan Pyramids Mission, um grupo de cooperação Internacional que entrou em ação no Egito no final de 2015.

— Saiba mais: Conheça a “Scan Pyramids Mission”

Em outra ocasião foi comentada aqui no AE que anomalias já tinham sido identificadas na Grande Pirâmide. Mas, que talvez não fosse uma nova câmara, como muitos gostariam, podendo ser uma rampa ou uma grande rachadura, na pior das hipóteses [1]. Por esse motivo o Ministério das Antiguidades do Egito deu a permissão para continuidade dos estudos:

A primeira fase do projeto já passou, onde os pesquisadores fizeram a calibragem dos equipamentos e identificaram algumas anomalias térmicas. Porém, não é possível interpretar corretamente o que são tais anomalias que tanto podem se tratar de uma possível câmara, talvez uma rachadura e ou até mesmo nada. É exatamente por este motivo que a equipe está empregando a união de diferentes ferramentas, pois, uma poderá complementar o “defeito” da outra, ou seja, unidas poderão disponibilizar dados mais consistentes (e consequentemente mais fáceis de interpretar) do que se fosse utilizado somente um equipamento.

Lembrando que já são conhecidas câmaras nas pirâmides, mas a ideia deste projeto é conhecer detalhes estruturais do edifício e se existem salas isoladas.

Conheça a “Scan Pyramids Mission”

 

No caso desse “grande vazio” identificado ser mesmo uma câmara dificilmente ela estaria abarrotada de artefatos arqueológicos. Entretanto, essa talvez seja uma oportunidade de saber mais sobre a construção das pirâmides do Platô de Gizé.

 

Como esta pesquisa foi realizada

Múons são partículas subatômicas semelhantes ao elétron, porém com uma massa maior. A identificação deles no ambiente que envolve uma estrutura arqueológica permite localizar espaços vazios. Isto porque as partículas de múons são parcialmente absorvidas pelas pedras, ou seja, seriam identificadas uma grande concentração de múons em um espaço como o de uma rachadura ou uma sala escondida desconhecida.

E foi esse tipo de concentração notada sobre o “Grande Corredor” (Também chamada de “Grande Galeria”), próximo a um condutor de ar (Imagem 03). A sugestão dada no artigo da Nature é que este espaço possui cerca de 30 metros de comprimento e que teria sido identificado por três análises diferentes.

Imagem 03: “Scan Pyramids Mission”

Controvérsia nos meios de comunicação

Após o artigo da Nature a mídia, em vários países, veiculou erroneamente que este achado se trata de uma “câmara oculta”. Entretanto, o Ministério das Antiguidades demostrou seu descontentamento com o artigo através de um comunicado de imprensa. A queixa é que os pesquisadores tinham dado o anúncio precipitadamente sem consultar o comitê científico do órgão: a preocupação tem relação com a forma desleixada do anuncio ser dado, já que espaços ocos na Grande Pirâmide há anos não é uma novidade (FORSSMANN, 2017).

De acordo com o arqueólogo Zahi Hawass, por exemplo, a Grande Pirâmide por si só é cheia de vazios. E a arqueóloga Kate Spencer, da Universidade de Cambridge, salientou que esse vazio identificado pela a equipe do Scan Pyramids Mission poderia ser uma rampa interna para mover os blocos na época da construção. Essas rampas já são conhecidas na Grande Pirâmide e elas tanto poderiam ser vazias ou ligeiramente preenchidas (FORSSMANN, 2017). Por isso, é precipitado lançar um anúncio sobre o que certamente já existiria como se fosse uma grande novidade e pior ainda já pressupor que são câmaras.

A pesquisa é real, os dados são reais, mas a mídia está criando uma situação desnecessária desenvolvendo a ilusão de que esta é a descoberta do século, única e revolucionária. Na mesma medida a pseudociência tem encarado isso como uma prova de que “câmaras ocultas” juntamente com “mistérios místicos” serão reveladas (KILLGROVE, 2017). Contudo, é uma ideia que sugere a existência de um “mistério” onde provavelmente não existe.

Em uma época de pós-verdade, em que cada usuário da internet cria suas próprias teorias sem se preocupar com as pesquisas feitas durante anos, muitos são os egiptólogos que salientaram sobre a existência de espaços vazios na Grande Pirâmide. Porém, escrever “espaços vazios” é menos instigante para o público do que “câmaras ocultas”.

Desta forma, o grande mérito dessa pesquisa não é a descoberta em si, mas o avanço das ferramentas que proporcionam estudos mais avançados em sítios arqueológicos (KILLGROVE, 2017).

Tenha em casa: A Edições Del Prado, uma editora especializada em vendas de fascículos com imagens colecionáveis, possui uma coleção intitulada “Cenas do Egito Antigo”. Uma delas é a construção das pirâmides.

Clique aqui para conferir a peça ou aqui para ver as demais cenas.

Fontes:

MARCHANT, Jo. Cosmic-ray particles reveal secret chamber in Egypt’s Great Pyramid. In: Nature. Disponível em < https://www.nature.com/news/cosmic-ray-particles-reveal-secret-chamber-in-egypt-s-great-pyramid-1.22939#/graphic >. Publicado em: 02 de Novembro de 2017. Acesso em 2 de novembro de 2017.

FORSSMANN, Alec. Controversia ante el hallazgo de “un gran vacío” en la Gran Pirámide de Gizeh. In: National Geographic España. Disponível em < http://www.nationalgeographic.com.es/historia/actualidad/controversia-ante-hallazgo-un-gran-vacio-gran-piramide-gizeh_12060 >. Publicado em: 03 de Novembro de 2017. Acesso em 3 de novembro de 2017.

KILLGROVE, Kristina. What Archaeologists Want You To Know About The Great Pyramid Void. In: Forbes. Disponível em < https://www.forbes.com/sites/kristinakillgrove/2017/11/04/what-archaeologists-want-you-to-know-about-the-great-pyramid-void/#3bc1e68baf9e >. Publicado em: 04 de Novembro de 2017. Acesso em 5 de novembro de 2017.


[1] Possibilidade não muito provável, dado ao tamanho, mas não impossível.

Cabeça de estátua do faraó Akhenaton é encontrada em Minya

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Ontem (30 de setembro de 2017) foi anunciada a descoberta de uma cabeça de uma estátua do faraó Akhenaton, que reinou durante o Novo Império, 18ª Dinastia. O achado foi feito por uma missão egípcia-britânica que encontrou o artefato na cidade de Minya, mais especificamente em Amarna, onde o rei governou o Egito em sua recém-criada capital, Aketaton.[1][2]

Através de um comunicado de imprensa o arqueólogo britânico Barry Kemp, professor de Egiptologia na Universidade de Cambridge e diretor da missão, explicou que a cabeça foi encontrada durante as escavações arqueológicas no Grande Templo de Aton. O artefato é feito de gesso e possui 9 centímetros de altura, 13,5 de largura e 8 centímetros de comprimento.[1][2]

Foto: MSA (Divulgação)

Akhenaton é famoso por ter elevado o deus solar Aton a divindade principal e ter mudado a capital do país de Tebas para Aketaton. Por este motivo o secretário geral do Supremo Conselho de Antiguidades, Mustafa Waziri, classificou esta descoberta como “importante”: “não só porque pertence a um dos reis mais importantes do antigo Egito, mas também porque abre a cortina dos segredos da antiga cidade de Tel Amarna, que é única em sua arte e religião.”[1]

 

Fonte:

Hallan la cabeza de una estatua del faraón Akenatón al sur de EI Cairo. Disponível em < http://www.lavanguardia.com/vida/20170930/431675005774/hallan-la-cabeza-de-una-estatua-del-faraon-akenaton-al-sur-de-ei-cairo.html >. Acesso em 30 de setembro de 2017.

Gypsum head of King Akhenaten statue unearthed in Egypt’s Minya. Disponível em < http://english.ahram.org.eg/NewsContent/9/40/278025/Heritage/Ancient-Egypt/Gypsum-head-of-King-Akhenaten-statue-unearthed-in-.aspx >. Acesso em 30 de setembro de 2017.

Livro “Nefertiti: O Livro dos Mortos” de Nick Drake: uma trama policial no Egito Antigo (Comentários sem spoiler)

Um homem poderoso comandando é uma coisa; uma mulher poderosa é outra bem diferente.

— ‘Nefertiti: O Livro dos Mortos’, Nick Drake, página 150.

Escrito por Nick Drake, “Nefertiti: O Livro dos Mortos” (Nefertiti: The book of Death) é o primeiro livro da série policial protagonizada pelo detetive Rahotep. Baseado em cenários e alguns personagens reais, a história se passa durante o final da 18ª dinastia (Novo Império), mais especificamente na época do reinado do faraó Akhenaton. Narrado em primeira pessoa o enredo conta a história de Rahotep, um integrante incomum da medjay que faz uso de técnicas de investigação bem anormais para o contexto do Egito Antigo e que por conta disso é acionado pelo faraó Akhenaton para resolver um mistério: o desaparecimento da rainha Nefertiti.

Sabendo qual a sua missão e que tem um tempo curto para resolver tal enigma— e que se falhar não somente ele, mas a sua família sofrerá uma terrível punição — Rahotep se aprofunda cada vez mais na vida da realeza, suas crenças, hipocrisias e mundo de aparências. E paralelamente passa a conhecer mais sobre a personalidade da rainha sumida e sua importância para a manutenção do equilíbrio político no reino.

— Esta cidade, este mundo novo esplêndido e iluminado, este futuro glorioso. Tudo parece glorioso, mas está construído sobre areia. Todos estão determinados ou são forçados a acreditar nisso para torná-la possível. Mas sem ela, sem Nefertiti, não é possível acreditar nisso. Não é verdadeiro. Não vai funcionar. Vai desmoronar.

— ‘Nefertiti: O Livro dos Mortos’, Nick Drake, página 85.

O mistério do sumiço de Nefertiti faz Rahetep enfrentar vários perigos mortais e sofrer experiências incomuns. A partir do momento em que ele entrevista os indivíduos que fizeram parte do convívio dela muitos tornam-se suspeitos em potencial e a cada página parecem ter algo a esconder ou a proteger, mesmo que sejam somente interesses pessoais.

Nick Drake. Foto: Divulgação.

Nascido em Londres em 1961, Drake além de escritor de mistérios é poeta e dramaturgo. Estudou na Universidade de Cambridge e trabalhou em vários projetos envolvendo outros artistas e cientistas. Seu primeiro livro envolvendo o Egito Antigo, Nefertiti: Book of the dead, foi publicado pela primeira vez em 2006. Nesta época ele foi indicado para o prêmio Crime Writers’ Association Best Historical Crime Novel (Melhor Romance Histórico Policial da Associação de Escritores Policiais) e atualmente está sendo adaptado para a TV por Patrick Harbinson, produtor de Lei e Ordem: Unidade de Vítimas Especiais, Homeland, 24 Horas, dentre outros.

O universo criado por Drake nos apresenta um Egito Antigo quase convincente e factual. O que está explicito é que ele realmente se dedicou a estudar variados aspectos essenciais das sociedades egípcias do faraônico, mas incluindo muitos pontos da nossa e várias licenças poéticas, como vocês poderão conferir mais a diante. Ele conseguiu trabalhar com esse conhecimento e recriar um egípcio do faraônico sem parecer artificial; Nós estamos o tempo todo com o Rahotep, estamos em sua cabeça e conferindo suas anotações, ou seja, nós estamos na antiguidade egípcia.

Confira a resenha em vídeo deste livro no canal do Arqueologia Egípcia no Youtube; muitas das pontuações que não estão aqui estão presentes no vídeo, então assista-o para ter uma abordagem mais completa.

O que chama a atenção na obra é que Drake não cria um Egito Antigo místico, bucólico e saudosista a exemplo de muitas criações que trazem o tema, onde os leitores são apresentados a um personagem principal prefeito e belo, extremamente inteligente ou com outras qualidades superiores quanto. Aqui o escritor apresenta um Egito mais próximo da realidade, partindo do ponto de vista de alguém da população comum que precisa por comida na mesa, educar seus filhos e tem seus próprios pensamentos sombrios e pouco belo do mundo. Rahotep tem uma inteligência única, contudo, é vulnerável, tem suas dúvidas existenciais, mas, não busca por respostas na religião.

E foi aí que fiz a coisa mais difícil da minha vida. Vestindo minha melhor roupa de linho e com minhas autorizações na pasta, fiz uma breve libação para o deus da casa. Orei com sinceridade incomum (pois ele sabe que não acredito nele), por sua proteção e pela proteção de minha família.

— ‘Nefertiti: O Livro dos Mortos’, Nick Drake, página 17.

E como cenário para o desenvolvimento da trama temos o afamado Período Amarniano apresentado aqui como caótico, à beira de um colapso, onde há a escassez de alimentos e o faraó não está em bons termos com os sacerdotes de Tebas. É fato que o faraó Akhenaton se desvinculou do culto a Amon para se dedicar ao deus primordial Aton. Contudo, o caos social pelo qual o Egito passou naquela época está mais próximo de uma propaganda política negativa posterior. Não que a população não tenha sofrido em vários momentos, mas, ao que parece não foi tão diferente do que no reinado do seu pai, Amenhotep III.

Para aqueles que leram o livro, mas não conhece a história egípcia ou a conhece de forma artificial é preciso realizar uma apresentação geral do que ocorreu na época em que o faraó Akhenaton viveu: Como já citado, o deus Aton era uma divindade primordial, sendo um dos aspectos do deus Rá. Recebeu pouca atenção dos faraós, em especial durante o Novo Império, quando o patrono da cidade de Tebas, Amon, tornou-se o deus principal se tornou. Tebas, a princípio, era uma cidade pequena, mas que foi alçada a capital após a invasão dos hicsos e a reunificação do Egito por parte dos seus príncipes devotos a Amon. Como consequência, templos a este deus foram erguidos e o seu clero enriquecendo.

Akhenaton. Foto: Rena Effendi.

Décadas mais tarde, com a chegada do reinado do faraó Amenhotep III os sacerdotes de Amon já eram extremamente poderosos e o rei percebeu que algo necessitava ser feito. Assim, começou a dar espaço para outras divindades, entre elas Aton. Porém, foi com o reinado do seu filho que as coisas se tornaram mais radicais: Nascido Amenhotep IV, Akhenaton construiu um pequeno templo a Aton dentro do templo de Amon em Luxor e posteriormente transfere a capital para a recém-criada cidade de Aketaton. Lá muda o seu nome e passa a cultuar somente Aton.

Inaugurada no Ano 6 (e não no Ano 12, como afirmado no livro), Aketaton é uma das primeiras cidades planejadas da antiguidade. Foi nela onde três das seis filhas do rei com Nefertiti nasceram (as outras três foram em Tebas) e onde Akhenaton faleceu após 17 anos de reinado.

— Conheça mais sobre este Casal Real: Nefertiti e Akhenaton: o casal egípcio impossível de ser ignorado

Nos seus sítios arqueológicos foram encontrados vários registros da família real executando tarefas religiosas ou em simples momentos de deleite. Na maioria destas obras tanto Akhenaton — assim como a sua esposa e suas filhas — foi representado com feições excêntricas (crânios alongados, braços longos, coxas bem roliças e seios proeminentes). Estas características artísticas levantaram alguns debates sobre a possibilidade de que a família possuísse alguma deformidade, mas com o avanço dos estudos da Arqueologia Egípcia a maior probabilidade na atualidade é que essas representações sejam um discurso político onde o rei queria se representar especial, diferente da população comum.

Nefertiti, Akhenaton e uma de suas filhas prestando homenagens a Aton. Foto: Wikimedia Commons.

Retornando a obra, além de Akhenaton e Nefertiti os leitores são apresentados a outros personagens históricos reais tais como Mahu (chefe de polícia), Meryra (Sumo sacerdote de Aton), Horemheb (general), Ay (Sacerdote Pai Divino, Escriba Real, Intendente dos Cavalos e mais outros títulos honoríficos), Tiye (Rainha Mãe), Kiya (esposa secundária de Akhenaton), as filhas de Nefertiti, Tutmosis (escultor) e Nakht[1]. Porém, todas as situações em que eles estão envolvidos e suas personalidades são totalmente fictícias, não tomem como realidade histórica. São acontecimentos criados pelo autor unicamente para a sua trama.

E falando em criação para a trama, abaixo elenquei alguns pontos que são puros equívocos do Drake:

 

Os equívocos:

Vários dos objetos apresentados na obra não existiam no Egito Antigo, entre eles os livros, pipas, cabides, guarda-roupas, chafarizes, chaves e trancas. Outros erros é dar certas utilizações para determinados objetos que não condizia com a realidade, como, por exemplo, os papiros. Na trama eles são utilizados como folhas de diários e para os desenhos das crianças. Mas, na realidade eles eram utilizados para registros mais específicos tais como julgamentos, testamentos, formulas religiosas ou contos. Para anotações do dia a dia o que eram utilizados eram os ostracos.

E em dado momento é citada uma certa sociedade secreta chamada “Sociedade das Cinzas”. Isso também é fruto da imaginação de Drake para atender a sua trama.

 

Os acertos:

Logo nas primeiras páginas o Rahotep fala sobre a neve “no Norte”. Ele não fala exatamente o lugar, mas no Egito já teve ocorrência de neve, a exemplo da virada de 2014 para 2015, quando nevou justamente no Norte do país. Foi uma ocorrência incomum cujo precedente advindo da Antiguidade egípcia é desconhecido, mas nunca se sabe… E em outra das reflexões do personagem ele nos conta de algo que se comentava em sua juventude, de que há muitos anos o Egito era mais verde. Não sei se é plausível a memória oral viver tanto, mas muitos milênios antes do Egito ser unificado o território era muito mais arborizado, com grandes lagos e animais que no faraônico só podiam ser encontrados na África central. Para quem tem curiosidade em saber mais pesquise sobre a “caverna dos nadadores”, uma caverna localizada em Gilf Kebir que possui registros rupestres com cerca de 10 000 anos onde são retratadas pessoas nadando.

Agora, entrando no âmbito de profissões, o nosso investigador Rahotep é um medjay. Eles não só existiram como era um corpo militar responsável pela segurança e a ordem no Egito. Já a profissão de detetive em si não existia, entretanto, as investigações eram geridas pelos próprios medjays. Porém, como não existia ainda os Direitos Humanos as inquirições dos casos mais graves usualmente eram feitas com depoimentos dados após seções de tortura. Não existiam protocolos e no ato do julgamento somente uma pessoa dava o veredito. Alguns casos poderiam chegar até o faraó, entretanto, isso não garantia uma resolução justa.

E algumas vezes é citada a hereditariedade do cargo de sacerdote: Naquela época o mais comum era os filhos assumirem os cargos de seus pais, isso em todos os aspectos da sociedade.

O escultor Tutmosis (Tutmés), já citado rapidamente aqui, faz um passeio com o protagonista por seu ateliê. Lá mostra algumas cabeças de gesso com faces realistas. Elas também existiram e, por acaso, foi ele quem esculpiu o famoso busto da rainha Nefertiti.

Imagem de Nefertiti escupida por Tutmosis (Tutmés). Foto: Nile Magazine.

Rahotep fala de uma mulher nua em um momento de lazer em uma piscina. A nudez não era repreendida, não era um tabu. Este tipo de cena muito provavelmente era mais comum do que nós imaginamos. Ele também comenta sobre a cerveja e o vinho; sobre este último salienta que em seu jarro está gravado o ano de sua confecção e procedência. Isso também poderia ocorrer.

— Saiba mais: A cerveja no Egito Antigo: desde a intoxicação ao seu uso religioso

E uma informação que pode parecer incomum para alguns é o deposito de olhos de vidro em corpos de múmias. E sim, a bibliografia confirma a existência deste ato. Outros costumes e artefatos citados no livro realmente existiram tais como:

☥ O manto de leopardo: usualmente vestido por altos-sacerdotes;

☥ Muletas: utilizadas por vezes como uma representação de poder entre líderes militares;

☥ A existência de Cinco Nomes para o faraó;

☥ A rainha dar de amamentar: era incomum (este era o papel das amas-de-leite), mas é possível que Nefertiti tenha amamentado suas filhas;

☥ Lápis de mesdemet: lembra os nossos atuais lápis de olho. Já falei sobre eles aqui no AE (clique aqui para ler);

☥ Mutilação do rosto para tornar a pessoa irreconhecível no além: isso era feito principalmente com as estátuas e desenhos parietais;

☥ Luvas: inclusive as cito no vídeo “Curiosidade: 7 coisas que existia no Egito Antigo e que também usamos”;

☥ Barcos de junco: que por acaso era o meio de transporte mais comum;

☥ Os arqueiros núbios para a segurança do faraó: inclusive o faraó Tutankhamon, que reinará anos após a morte de Akhenaton, terá um grupo de elite trabalhando para ele;

☥ Meninas como noivas e meninos como reféns: era uma tradição comum no Egito as princesas de países dominados casarem com o faraó e os príncipes serem criados com a alta realeza egípcia dando uma falsa ideia de “irmandade”.

☥ Sacrifício do boi com chifres enfeitados: Este animal enfeitado poderia ser oferecido em sacrifício aos faraós.

☥ Cuxe (Kushe) como sendo a “mina de ouro” do Egito: o ouro que abasteceu o Egito era retirado, principalmente, do atual Sudão, onde antigamente estava localizado o reino de Kushe;

☥ Tempestade de areia: eram, e ainda são, bastante comuns no Egito. A mais perigosa é chamada de khamsin.

 

Ankhkheperura é citada no livro?

Este é um pequeno spoiler. Recomendo que você prossiga somente se já leu todo o livro:

Clique aqui para ler o spoiler

Em um determinado momento Rahotep lê um texto que termina com a seguinte frase: “Quando alcançares o que procuras, verás que é uma mulher. Seu símbolo é a vida.” (página 184). Não sei se foi proposital por parte do Drake, mas existiu entre os reinados de Akhenaton e Tutankhamon o reinado de uma pessoa chamada Ankhkheperura Neferneferuaton. Por muito se achou que ela seria o rei Ankhkheperura Smenkhara. Entretanto, alguns egiptólogos acreditam que Ankhkheperura seria, em verdade, uma mulher e que esta poderia ter sido Nefertiti. O “ankh” (Ankhkheperura) significa “vida”.

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Considerações finais:

“Nefertiti: O Livro dos Mortos” é um livro pouco usual no sentido de que não se apega a um Egito místico, tão comum em obras orientalistas. E apesar de não ter despertado muito o interesse dos booktubers (não encontrei nenhuma resenha) é uma obra que aconselho, em especial para quem gosta de enredos que envolvam mistérios e romances policiais. Embora eu particularmente não tenha achado os acontecimentos finais tão interessantes estou muito empolgada para começar a ler a sua continuação, o “Tutancâmon”.

A Editora Record ainda não demonstrou (ao menos não publicamente) interesse em trazer o volume final, Egypt: The Book of Chaos.

Dados do livro:

Título: Nefertiti: O Livro dos Mortos

Título Original: Nefertiti: The book of dead

Autor: Nick Drake (http://www.nickfdrake.com/)

Tradutor: Ricardo Silveira

EAN: 9788501090430

Gênero: Policial

Coleção: Rai Rahotep

Páginas: 350

Editora: Record

Link no Skoob: https://www.skoob.com.br/nefertiti-o-livro-dos-mortos-235609ed263373.html


[1] Por conta da grafia do nome fiquei com dúvida, mas acredito que ele seja o Nakhtmin.