Sarcófago de Tutankhamon será restaurado pela primeira vez

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Na década de 1920, quando o arqueólogo inglês Howard Carter entrou na câmara mortuária do faraó Tutankhamon encontrou o rei descansando dentro de três sarcófagos. Todos ricamente decorados com ouro e pedras preciosas: O sarcófago mais interior (1) é feito em ouro maciço e pesa 110,4 KG, o intermediário (2) é de madeira folheada com ouro e incrustações, já o sarcófago externo (3) foi feito com incrustações de marchetaria e ouro. Algo parecido nunca tinha sido visto na arqueologia egípcia.  

Ao terminar os trabalhos de esvaziar a tumba uma questão importante surgiu: o que seria feita da múmia? 

Todos os corpos de reis encontrados em anos anteriores já estavam desprovidos de suas riquezas, jogados em algum canto por algum ladrão de sepulturas e posteriormente resgatados por arqueólogos e levados para o Museu Egípcio do Cairo. 

Mas, Tutankhamon foi um caso diferente, ele estava em uma tumba praticamente intacta, ou seja, da mesma forma que os antigos egípcios tinham o deixado no passado, ele estava quando Carter o encontrou. 

O garoto que “descobriu” a tumba de Tutankhamon: entenda o caso
O mistério das manchas marrons na tumba de Tutankhamon

E talvez para respeitar isto o arqueólogo e o governo egípcio acharam por bem deixar o rei selado em sua sepultura, dentro de um dos sarcófagos. O escolhido foi o sarcófago exterior, que mais uma vez foi fechado até o ano de 1968, quando foi aberto pelo professor Ronald Harrison para realizar um exame de raio-x em Tutankhamon.

Com a abertura do sarcófago em 1968, Tutankhamon, pela segunda vez na era moderna, ficou visivel às pessoas.

O sarcófago e a múmia foram mexidos novamente, mas em 2005, quando foi realizada uma tomografia no corpo, entretanto Tutankhamon não voltou para o sarcófago, passando a ser exposto na tumba dentro de uma vitrine de vidro. 

Agora, 2019, o sarcófago foi movido mais uma vez. Ele foi enviado para o laboratório de restauros do Grande Museu Egípcio, cuja inauguração espera-se que ocorra em 2020. Em uma análise preliminar já foi constatado que o artefato está apresentando rachaduras, por isso algumas medidas estão sendo tomadas para que ele esteja seguro quando for apresentado oficialmente para a mídia local e internacional. Entretanto, o restauro de fato durará cerca de oito meses. 

Foto: Ministério das Antiguidades.

Foto: Ministério das Antiguidades.

Foto: Ministério das Antiguidades.

Fontes:

King Tut’s coffin to be restored for the first time since it was discovered. Disponível em < https://edition.cnn.com/style/article/king-tut-coffin-restoration-scli-intl/index.html >. Acesso em 18 de julho de 2019.

Large coffin of King Tutankhamun under restoration for first time since 1922. Disponível em < http://english.ahram.org.eg/NewsContent/9/40/338149/Heritage/Ancient-Egypt/Large-coffin-of-King-Tutankhamun-under-restoration.aspx >. Acesso em 20 de julho de 2019.

Super microscópio é utilizado para ver detalhes em “carros de guerra” de faraó

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

A tumba do faraó Tutankhamon foi descoberta em 1922 e em seu interior foram encontrados milhares de artefatos onde se somam aqueles de cunho cotidiano, religioso e militar. 

São peças realmente incríveis que ainda deixam nós arqueólogos assombrados com sua conservação e beleza. Alguns desses artefatos são as carruagens — ou bigas, se assim preferir chamar — que não são simples charretes ou carroças, mas carros de guerra que, apesar do tamanho, são leves e ágeis.

Foto: JICA-GEM

Feitas de madeira, estuque, couro, pedras semi-preciosas e ouro, as carruagens de Tutankhamon, assim como outros artefatos de sua tumba, estão passando agora por um processo de restauro no Grande Museu Egípcio, seu novo lar.

— Pesquisadores estão trabalhando com roupas de Tutankhamon

Neste momento elas estão passando por análises diagnósticas. Como os restauradores estão fazendo isso? Através de um microscópio digital de alta aplicação. Através dele é possível analisar os processos de conservação que foram aplicados pela equipe de Howard Carter, descobridor da tumba, bem como acompanhar e tentar resolver a degradação que, porventura, possa estar ocorrendo, ou seja determinar o tratamento de conservação que será necessário.

Foto: JICA-GEM

Foto: JICA-GEM

Foto: JICA-GEM

Foto: JICA-GEM

Com o microscópio é possível também ver se alguma sujeira “invisível a olho nu” grudou na superfície das carruagens.

As carruagens egípcias eram um meio de transporte ágil, mas que só estavam disponíveis para o alto escalão da nobreza e para a realeza. Eram utilizadas em desfiles religiosos, ou militares, caças ou batalhas. Quer ter uma em sua estante? Clique aqui e confira esta imagem colecionável da Del Prado.

Foram encontradas 4 carruagens na tumba do rei. Todas na antecâmara, desmontadas e espalhadas entre os demais artefatos, como bem nos mostra as fotos da época da descoberta.

Foto: Harry Burton

Fonte:

Digital microscope analysis of King Tutankhamen’s chariots. Disponível em < http://www.jicagem.com/blog/2019/04/digital-microscope-analysis-of-king-tutankhamens-chariots-2/ >. Acesso em 12 de junho de 2019. 

Leilão tentará vender estátua do faraó Tutankhamon

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Algo incomum está prestes a acontecer: um artefato de Tutankhamon está para ser vendido em um leilão em Londres (Inglaterra). Trata-se de uma cabeça de quartzito marrom de 28,5 cm de altura e que representa a face do jovem rei como o deus Amon, divindade padroeira da antiga cidade Tebas, atual Luxor.

Foto: casa de leilões Christies

A peça está sob a guarda da casa de leilões Christies e espera-se que ela seja vendida mês que vem por mais de 4 milhões de libras (cerca de 19 bilhões de reais) .

Porém, as autoridades egípcias não estão felizes com isto, já que acreditam que a peça foi roubada do templo de Karnak, em Luxor (Egito) e retirada ilegalmente do país depois da década de 1970. Agora o governo egípcio está reunindo evidências para provar isto. É importante ressaltar que a venda e posse de artefatos arqueológicos após este ano, dependendo do contexto, são consideradas ilegais. E em soma o Egito introduziu uma lei em 1983 para regulamentar a posse de antiguidades egípcias, dizendo que quaisquer artefatos antigos descobertos no país são considerados propriedades do Estado com a exceção de antiguidades cuja propriedade ou posse já estava estabelecida no momento em que esta lei entrou em vigor.

Foto: casa de leilões Christies

Um porta voz da casa de leilões disse que “Objetos antigos, por sua natureza, não podem ser rastreados ao longo de milênios” e que “Não iriamos oferecer à venda nenhum objeto em que houvesse preocupação acerca de sua propriedade ou exportação”. De acordo com eles “O lote atual foi adquirido da Heinz Herzer, uma concessionária com sede em Munique em 1985. Antes disso, Joseph Messina, um negociante austríaco, adquiriu-o em 1973-74 da Prinz Wilhelm von Thurn und Taxis, que supostamente o tinha em sua coleção na década de 1960″. Eles ainda se defendem explicando que a estátua já tinha sido exibida na Embaixada Egípcia de Londres antes de entrar para o leilão.

Salário de um arqueólogo, venda de artefatos e estudar Arqueologia

Entretanto, o atual chefe do Conselho Supremo de Antiguidades do Egito, Dr. Mostafa Waziri e o ex-ministro das antiguidades do Egito, Dr. Zahi Hawass, não acreditam que a casa de leilões tenham as provas de que a peça saiu do Egito legalmente. Hawass é conhecido mundialmente por ter encabeçado várias campanhas de repatriação de artefatos arqueológicos, além de ter despertado nas pessoas a importância de se preservar a história de seus respectivos países.

Foto: casa de leilões Christies

O Egito possui um escritório voltado exclusivamente para a localização de artefatos arqueológicos roubados — seja nos dias atuais ou em outras décadas — e que sempre está vigiando sites de leilões. Ele é comandado por Shaaban Abdel-Gawad, chefe do departamento antifraude do Ministério de Antiguidades do Egito que neste momento está estudando os arquivos do leilão. “Se for provado que qualquer peça é exportada ilegalmente, todos os procedimentos legais são tomados com a Interpol, em coordenação com o Ministério das Relações Exteriores do Egito, a fim de garantir seu retorno”, disse Abdel-Gawad em um comunicado para a imprensa. “Não vamos tolerar ou permitir que alguém venda a influência egípcia.”

Se esta peça for vendida em um leilão provavelmente será adquirida por algum colecionador particular e não estará mais disponível para os olhos do público.

Fontes:

Egypt tries to stop sale of Tutankhamun statue in London. Disponível em < https://www.theguardian.com/world/2019/jun/10/egypt-tries-to-stop-sale-tutankhamun-statue-london >. Acesso em 11 de junho de 2019.

Egypt can demand return of King Tut statue going up for auction: Former antiquities chief. Disponível em < https://abcnews.go.com/International/egypt-demand-return-king-tut-statue-auction-antiquities/story?id=63592464 >. Acesso em 11 de junho de 2019.

Mãe de Tutankhamon é tema de documentário

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Recentemente foi anunciada a estreia de um documentário que falará sobre a mãe do faraó Tutankhamon e a nova reconstituição facial feita para ela. Será um especial dividido em duas partes para o programa Expedition Unknown, da Travel Channel. Ainda não existe uma data prevista para o Brasil.

No Egito foram descobertos alguns esconderijos onde estavam múmias da realeza. O mais famoso é o de Deir el-Bahari, o qual já foi comentado aqui no Arqueologia Egípcia. Já um dos menos conhecidos  é o que foi descoberto em 1898, na KV-35. Neste foi encontrada a múmia da mulher cujo exames genéticos apontam como sendo a mãe de Tutankhamon. É ela um dos focos do documentário:

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“Tutankhamon não merece esta profanação do século 21”

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Estas palavras não são minhas, são do Jonathan Jones, jornalista do The Guardian. Ele as proferiu em seu artigo intitulado Tutankhamun does not deserve this 21st-century desecration [1]. Foi o único, entre tantos, que vi criticar em matéria a nova reconstituição do faraó Tutankhamon, desta vez assinada pela BBC, Tutankhamun: The Truth Uncovered (2014), e a qual ele denominou como “grosseira e vulgar”. Faço minha as palavras dele:

Novos métodos de escaneamento e imagens digitais oferecem novas maneiras de ficarmos dentro das múmias egípcias e outras relíquias biológicas, dando face, carne e mesmo órgãos internos para os mortos. Mas igual a qualquer avanço científico, estas técnicas precisam ser usadas com inteligência e sensibilidade. A realização de uma autópsia virtual altamente promovida em Tutankhamon não é uma investigação sensível com a vida, que nos ajuda a imaginar e entender o passado. É um mórbido show de horrores que reduz o mistério deste faraó uma vez esquecido e seu magnífico túmulo em um grosseiro e vulgar material de entretenimento (Tradução nossa).

A BBC está vendendo o seu documentário como uma amostra da verdadeira face de Tutankhamon, extraída de uma autópsia digital de ponta, o que há de mais moderno em tecnologia. Mas aonde vimos algo parecido? Em 2005 quando fomos apresentados para a “real” face de Tutankhamon, ao lado da genuína causa da sua morte que teria sido uma infecção desenvolvida em um ferimento em sua perna. Ou em 2002 quando também nos mostraram o “autêntico” rosto de Tutankhamon e sua terrível morte por assassinato, uma teoria já apresentada anos antes, mas que não tinha tido uma “comprovação” forense.

Nova reconstituição de Tutankhamon. Deu até pena do coitado se apoiando com a bengala do lado errado do corpo. Fonte da imagem: BBC. 2014.

A cada ano estamos (nós público e até mesmo cientistas) incutindo em novos erros em ajudar a propagandear o entretenimento acerca das mazelas que supostamente abateram o faraó Tutankhamon. Estamos levando a diante um mito sobre outro mito a fim de produzir documentários cada vez mais novelísticos, sensacionalistas vestidos como “fidedigno” e cientifico e cada vez mais estamos deixando que seja jogada fora a humanidade de muitos dos nossos mortos, a exemplo do próprio Tutankhamon.

É difícil explicar para o público comum porque muitos desses documentários têm tantas falhas, uma vez que o senso comum acredita fielmente que o que é apresentado é ciência. Os métodos não deixam de ser científicos, mas outros fatores são ignorados, como, por exemplo, o corpo de Tutankhamon passou por um processo tafonomico cruel. A palavra “tafonomia” é estranha para muitos, mas explicando de forma simples tem a ver com as atividades que ocorrem com o corpo após seu sepultamento. No caso do faraó em questão ele foi carbonizado pelos óleos e resinas, o que torna equivocado falar de uma deficiência no seu pé esquerdo e até mesmo a retirada de amostras decentes de DNA para a análise, mas ninguém explicou isto para os espectadores da National Geographic em 2010, quando anunciaram a resposta “conclusiva” para as linhas de parentesco dele e a nova causa “definitiva” da sua morte, a malária.

Somado a isto existe muito dinheiro rondando a imagem de Tutankhamon, não é barato produzir um documentário sobre ele. A Arqueologia hoje tornou-se um bem de consumo e por isso da importância de que seus documentários viralizem. Só para vocês terem uma ideia do quão descabida tornaram-se as pesquisas sobre a causa da morte de Tutankhamon, deem uma olhada nesta modesta lista [2]:

☥ Década de 1920: tumor cerebral;

☥ 1968: golpe na cabeça;

☥ 1993: atropelamento;

☥ 1999: golpe na cabeça, assassinato;

☥ 2002: golpe na cabeça, assassinato. Primeira reconstituição facial;

☥ 2005: ferida infeccionada no joelho esquerdo;

☥ 2010: malária; possível osteonecrose; anemia falciforme;

☥ 2012: epilepsia;

☥ 2014: Deficiência no pé esquerdo.

Dito isto, o que será que teremos para o ano que vem?


[1] Tutankhamun does not deserve this 21st-century desecration. Disponível em < http://www.theguardian.com/commentisfree/2014/oct/21/tutankhamun-desecration-computer-scan-images-pharoah-archaeological >. Acesso em 22 de outubro de 2014.
[2] Mais uma teoria para Tutankhamon. Disponível em < http://arqueologiaegipcia.com.br/2010/06/25/mais-uma-teoria-para-tutankhamon/ >. Acesso em 22 de outubro de 2014.