Espíritos malignos no Egito Antigo

O tema do novo vídeo do Arqueologia Egípcia, “Espíritos malignos no Egito Antigo”, foi escolhido com muito cuidado graças a pouca bibliografia disponível sobre ele. Exatamente por isto que é bem provável que no futuro seja necessário gravar um material atualizado sobre este assunto.

Book of the dead for kenna (RMO Leiden)

Ainda assim, espero que vocês possam curtir o tema e conhecer um pouco mais sobre esta faceta pouco discutida dos antigos egípcios, que era o medo de entidades errantes:

Caso queira conhecer o canal é só clicar aqui e caso queira apoiar a produção de vídeos é só clicar aqui.

(Comentários – Livro) Uma viagem pelo Nilo

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Seria bem injusto e contraditório eu escrever uma resenha do meu próprio livro, então realizei somente comentários acerca da publicação, detalhes e curiosidades da obra. Aqueles que tiverem interesse em ler a introdução ela está disponível neste link.

Uma viagem pelo Nilo. Márcia Jamille. 2014.

Lançado no início de 2014, Uma viagem pelo Nilo é uma apresentação de vários aspectos da sociedade egípcia, como o pensamento base da “dualidade” entre Osíris e Seth e a Maat versus o caos, e que nos auxilia a entender parte do pensamento politico-religioso do Egito faraônico. Comento também as teorias de quem teria sido o unificador do país e proporciono uma imagem do mundo religioso, com direito a um glossário de deuses, a explicação dos diferentes tipos de múmias de animais, comentários sobre o Período Amarniano e até mesmo sobre a ligação transcendental entre as sociedades egípcias com o meio aquático, que vai muito além do seu uso para a subsistência. Acerca deste capítulo devo reconhecer que está muito curto, especialmente porque foi o tema da minha monografia e dissertação. Entretanto, acredito que passei o assunto bem, mostrando os principais pontos que tornavam a água um ambiente especial para os egípcios. Sinceramente é um dos meus tópicos favoritos do livro.

Claro que todas as ciências-humanas são politicas e a Arqueologia e a Egiptologia não estão fora disto: nos dois últimos capítulos apresento um pouco do mundo da Egiptologia como a sua história, que não pode ser dissociada das praticas imperialistas da Europa e que ainda está ligada aos trabalhos realizados atualmente no país, uma posição que necessita urgentemente ser revista.

No livro está incluso um QR code para acesso rápido para o Arqueologia Egípcia através do seu smartphone, tablet ou iPhone. Claro que um livro inspirado em um site teria que ter uma ligação até ele. 😀

Um dos temas os quais fiquei acanhada em citar é acerca dos receios de alguns dos interessados em ganhar a vida com a Arqueologia Egípcia ou a Egiptologia. Explicando de forma simples ambas as disciplinas são extremamente tradicionais e relativamente fechadas — a tal ponto que alguns pesquisadores sentem orgulho em contar nos dedos quantos profissionais podem ser encontrados no seu país —, desta forma, para algumas pessoas pode ser desestimulador tentar seguir a profissão. Escrevi sobre este assunto inspirada na minha própria experiência e escutando relatos de alguns alunos.

Vídeos:

Curiosidades:

☥ Inicialmente a capa iria retratar um Benu, que é um dos animais mitológicos que mais gosto, além de ser um dos temas de uma tattoo que tenho no braço. Contudo no último instante surgiu esta maravilhosa foto de um gato egípcio com um escaravelho na testa. Foi amor à primeira vista porque une dois animais que amo muito (o gato e o escaravelho). Quem assina a fotografia é o Nic MC Phee;

☥ Para ser lançado e divulgado este livro teve três investidores anjos que atuaram em esferas diferentes;

☥ Graças a este livro acabei sendo citada em um jornal espanhol, o “La Vanguardia”, de Barcelona (Espanha).

Links que podem ser do interesse de vocês:

Como comprar: http://arqueologiaegipcia.com.br/umaviagempelonilo/ondecomprar.html
Facebook do Livro: https://www.facebook.com/umaviagempelonilo
Site: http://arqueologiaegipcia.com.br/umaviagempelonilo/
Tumblr: http://umaviagempelonilo.tumblr.com/

(Resenha – Artigo em Revista) “Os Faraós Negros”

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

No mês de novembro, a revista Superinteressante lançou uma edição especial denominada “Coleção Grandes Mistérios: Civilizações Perdidas (Edição 3)”, com uma capa bem diferente que mostra a deusa Athena de duas formas, uma como “humana” e outra transformada em uma ruína arqueológica submersa (clique aqui para ver em vídeo). Dentre várias matérias que apresentam conclusões, palpites de teorias e apresentações de sítios arqueológicos, está o texto “Faraós Negros”, de Iuri Ramos.

Revista Superinteressante, Coleção Grandes Mistérios Civilizações Perdidas (Edição 3). Os Faraós Negros. 2013.

Revista Superinteressante, Coleção Grandes Mistérios. “Os Faraós Negros”. 2013.

A matéria fala sobre os faraós kushitas, também chamados de “Faraós Negros”, que reinaram durante o Terceiro Período Intermediário. Estes homens, advindos de Napata (na Núbia; atual Sudão) e que abriram a 25ª Dinastia, como bem salienta a matéria, por muito tempo foram ignorados dos debates egiptólogos não só por pertencerem a um período histórico com muitas lacunas, mas por justamente não terem sido tratados seriamente, especialmente devido à visão racista que preferia ignorar estes anos a estudar uma dinastia de faraós de pele escura.

O artigo é curto, sendo somente uma página, mas resume bem este momento, embora teria sido também interessante ao menos comentar um pouco acerca da importância do papel das “Divinas Adoradoras” para o estabelecimento de núbios no poder.

Acredito que não existe o que se dizer do texto – é afirmado que o faraó Taharqa foi citado na Bíblia, mas como não tenho informações não posso comentar acerca -. Sinceramente está ótimo e em complemento acredito que a imagem que ilustra a matéria ficou sensacional.

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Revista Superinteressante, Coleção Grandes Mistérios. “Os Faraós Negros”. 2013.

Revistas de novembro que serão comentadas:

(Resenha – Artigo em revista) “Os Mistérios de Tutancâmon”

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Neste mês (novembro), foram comemorados 91 anos de descoberta da tumba do faraó Tutankhamon e para solenizar a revista História Ilustrada publicou o texto “Os Mistérios de Tutancâmon” (Ano 2, n°5 – 2013). Em comemoração ao evento, esta edição veio com uma capa com um desenho ilustrando o faraó através da sua polêmica reconstituição facial lançada em 2005.

Revista História Ilustrada, “Os Mistérios de Tutancâmon”. 2013.

Revista História Ilustrada, “Os Mistérios de Tutancâmon”. 2013.

Para discutir o tema “Tutankhamon”, o editorial dedicou oito páginas para ele, com os pontos de debates bem distribuídos e bem confortáveis para ler, porém, em termos de conteúdo, a matéria possui alguns problemas e são eles:

▸ O artigo inicia com uma chamada equivocada (página 26), afirmando que a tumba do faraó foi encontrada no dia 26 de novembro de 1922, mas neste dia o que ocorreu foi a abertura da parede que levava para a primeira câmara e o pronunciamento da famosa frase do arqueólogo Howard Carter, “Vejo coisas maravilhosas”, quando ele observou o que existia dentro do túmulo pela primeira vez. Em verdade, a tumba foi descoberta semanas antes, no dia 04 de novembro.

▸Tutankhamon não foi o faraó mais jovem a assumir o trono, mas provavelmente Pepi II (VI Dinastia), o qual acredita-se que começou a reinar aos seis anos.

▸ Ao contrário do que a matéria apresenta, a tumba estava perfeitamente identificada já na parede inicial que lacrava o sepulcro. A princípio Carter não sabia a quem pertencia porque não tinha retirado todo o entulho que cobria a primeira parede antes do dia 24 de Novembro.

▸ O resultado dos trabalhos de Hawass, citado na página 30, não saíram em 2012, mas em Fevereiro de 2010.

▸ A múmia da KV-21, no relatório original da pesquisa, não foi confirmada como sendo Ankhesenamon, a esposa de Tutankhamon, mas como alguém de vínculo sanguíneo próximo.

Revista História Ilustrada, “Os Mistérios de Tutancâmon”. 2013. Foto: Márcia Jamille. 2013.

Revista História Ilustrada, “Os Mistérios de Tutancâmon”. 2013. Foto: Márcia Jamille. 2013.

▸ Somente uma das crianças encontradas na KV-62 foi confirmada como sendo filha de Tutankhamon, a outra não tinha material genético suficiente para a análise.

 

Para quem ficou na curiosidade:

▸ Na página 27, no quadro “A Maldição do Faraó”, a lenda da frase com o agouro foi inventada pelos veículos de imprensa, que queriam tirar lucros vendendo histórias sobre a tumba.

Revista História Ilustrada, “Os Mistérios de Tutancâmon”. 2013. Foto: Márcia Jamille. 2013.

Revista História Ilustrada, “Os Mistérios de Tutancâmon”. 2013. Foto: Márcia Jamille. 2013.

▸ Na página 28 o Vale dos Reis é descrito como o local de sepultamento dos reis, mas isto foi somente durante um período (especificamente durante o Novo Império), posteriormente, nos tempos mais tardios, algumas das tumbas seriam reutilizadas por plebeus. Em complemento, mesmo no Novo Império, o local serviu para sepultar também outros membros da realeza e pessoas da nobreza.

▸ Na página 29, a cama ritual apresentada (chamada no texto de “baú”) embora tenha ligação com a deusa Hathor ela é referente a outra divindade chamada Mehet-Weret.

No geral, embora possua estes equívocos, a matéria visualmente é bem convidativa. Alguns dos nomes egípcios não foram convencionados para a grafia adotada no Brasil, o que pode gerar um grande estranhamento. Por fim, vale ressaltar que já surgiram novas teorias de como se deu a morte do faraó e o grau de parentesco das múmias utilizadas nos exames para identificar membros da sua família. Muitas das propostas lançadas por Hawass e sua equipe de 2010, as quais os resultados da pesquisa foram listados na matéria, não são aceitas unanimemente pela a academia e inclusive existe uma série de artigos questionando a viabilidade das conclusões apresentadas. Infelizmente tais réplicas não ganharam espaço na imprensa.

 

Revistas de novembro que serão comentadas:

(Resenha – Livro) “Egito Antigo”, de Sophie Desplancques

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Eu tenho este livro fazem quase dois anos pensando em realizar uma resenha para o Arqueologia Egípcia, mas nunca me animei de fato para lê-lo. Creio que isto se deu por meu preconceito com os formatos pockets ao acreditar que livros de verdade precisam ter um tamanho A5 ou superior e mais de oitenta páginas, mas estou tentando trabalhar este meu problema.

Egito Antigo. Sophie Desplancques. 2011.

Egito Antigo. Sophie Desplancques. 2011.

Apesar deste quesito, fui capaz de entender que a principal vantagem deste livro está em seu tamanho, que o faz mais portátil e possível de ser levado para qualquer lugar e ser lido tranquilamente por quem está interessado em conhecer mais acerca da civilização egípcia, mas não tem muito espaço para guardar um livro na bolsa ou mesmo não tem interesse ou disposição física para levar o peso extra de um livro na bagagem. A ideia dos pockets são tentar influenciar os mais variados indivíduos a ter uma proximidade com a leitura (por isto tantos clássicos foram convertidos para tal formato), mas é onde surge o problema do livro “Egito Antigo” (L’égypte Ancienne, título original): ele não é para o deleite, mas sim para realmente fazer uma introdução sem meias palavras do pensamento político e religioso do Egito Faraônico. Ele, definitivamente, é uma tentativa satisfatória de realizar uma apresentação dos principais aspectos das antigas comunidades que viviam no território egípcio, mas sem se aprofundar em individualidades, ou seja, a autora apresenta o Egito Antigo em termos generalistas.

O material foi escrito por Sophie Desplancques, que além de jornalista possui um doutorado em Egiptologia e ensina História da Civilização Egípcia na Associação Papyrus em Lille, na França. Não conheço nenhum outro material dela, mas com este livro sua capacidade em repassar a história faraônica em poucas linhas foi comprovada.

Sophie Desplancques.

Sophie Desplancques.

A leitura não é extenuante, mas para algumas pessoas pode tornar-se confusa com uso de termos que podem soar estranhos para um leigo, a exemplo do uso da definição “Baixa Época”, ou pelo o fato das informações serem tão condensadas. Para se ter uma ideia, na Introdução, que se consiste de três páginas, a autora comenta a ideologia que sustentava a base discursiva por trás da cronologia faraônica e cita como exemplo a queda do Período Amarniano; explica o uso, por parte dos antigos, do passado como um modelo de conduta; identidade egípcia; as fases históricas, a divisão por impérios e as dinastias locais durante os períodos de instabilidade política.

Enquanto que no capítulo 1º ela faz uma abordagem geral da história egípcia, no 2º ela comenta acerca dos estudos da Pré-História e História egípcia: em relação a Pré-História ela realiza um passeio pelo o que até então se sabia sobre as culturas badarianas, Naqada I e Naqada II.

No capítulo 3º ela comenta alguns dos acontecimentos ocorridos a partir da 3ª Dinastia até a invasão hicsa no Segundo Período Intermediário. Acerca deste capítulo é uma pena que ela cite o reinado da faraó Nitócris como o sinal de uma crise pelo o motivo de ter sido uma mulher quem assumiu o trono. Vemos irregularidades dinásticas ocorrerem em períodos antes e depois do reinado desta faraó, com militares ou sacerdotes assumindo o trono em épocas de crises politicas e sucessórias. Além do mais, outras mulheres assumiram as Duas Coroas, mas foram em momentos dispares da história, tanto em épocas intermediarias como durante o Império egípcio.

L’égypte Ancienne. Sophie Desplancques.

L’égypte Ancienne. Sophie Desplancques.

No capítulo 4º ela introduz o início de fato do Império Egípcio e o começo do auge de Karnak e do deus Amon. Aqui ela explica o papel das figuras principais que constituíram este período: os tutméssias, Akhenaton e os raméssidas. Acerca do Período Amarniano ela, ao contrário de muitos outros materiais, cita as intervenções do faraó Akhenaton em outros países, especialmente os da Ásia ocidental (usualmente os materiais especializados tendem a descrever o governo deste como apático em relação às questões da política externa).

No capítulo 5º, Desplancques explica o estado social que se encontrava o Egito a partir do final da 20ª Dinastia e que o levou para os domínios dos governantes estrangeiros na Baixa Época. O leitor deve notar o breve ensaio que a autora faz acerca do cargo da Divina Adoradora de Amon, muito importante na história faraônica (surgida efetivamente no Novo Império), mas que ainda é pouco discutido.

Considerações:

Este não é um livro para quem espera realizar uma leitura despreocupada, mas para aqueles que realmente possuem interesse em tentar começar a entender o que de fato foi a civilização egípcia, como ela começou a surgir, do que se constituiu e quando se deu o seu fim. Porém, de forma semelhante ao Grimal, ela denota pontos elitistas da história egípcia, tradicionalmente utilizados como parâmetro, narrando o passado do ponto de vista da realeza, e raramente comentando acerca da vida do povo comum, que era a maioria e em grande parte iletrada.

Minha ressalva negativa é que em todos os capítulos Desplancques introduz o tema a ser abordado com um resumo, depois, através de subcapítulos, ela comenta os principais aspectos do período abordado e não raramente repete informações que ela já tinha dados em outros pontos.

Em termos gerais o livro é bem escrito e embora seja um pocket ele não decepciona e cumpre o prometido, que é apresentar a história faraônica em termos gerais. Embora seja menor e tenha menos conteúdo, é um bom investimento, visto o preço, que é mais acessível que muitos livros acerca do mesmo tema que são encontrados no mercado.

Este é um dos poucos livros que dou nota máxima (inclusive no Skoob). E em pensar que antes eu não estava dando muita ressalva para ele simplesmente pelo o fato de se tratar de um pocket.

Dados do livro:

Título: Egito Antigo

Gênero: Egiptologia, História Antiga.

Autor: Sophie Desplancques

Tradutora: Paulo Neves

Editora: L&PM Pocket

Ano de Lançamento (Brasil): 2011

Edição: 2ª Edição

Valor do livro impresso: R$ 14,00

Valor do livro digital:  R$ 9,00

(Resenha – Livro) “História do Egito Antigo” de Nicolas Grimal

Resenhado por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

Histoire de L’Égypte Ancienne. Nicolas Grimal.

Lançado em 1988, História do Egito Antigo (Histoire de L’Égypte Ancienne, no original) leva aos leitores os altos e baixos da civilização egípcia desde os períodos Pré-dinásticos até o domínio de Alexandre Magno em 332 antes da Era Cristã. Seu autor, Nicolas Grimal, foi assistente de Egiptologia em Sorbonne entre 1973 e 1977, depois se tornou membro do Institut français d’archéologie orientale do Cairo (1977-1981), do qual recebeu o cargo de diretor entre 1989 e 1999. Com os seus 64 anos, atualmente ele possui uma agenda cheia, realizando cursos e seminários relacionados ao Antigo Egito.

História do Egito Antigo. Nicolas Grimal. 2012.

Um leitor totalmente leigo ou que só possua informações básicas dos pontos mais relevantes acerca dos acontecimentos em cada período pré e pós-dinástico do Egito não deve investir neste livro, pois, para estas pessoas será necessária a leitura de outros títulos para utilizar como base para este, principalmente porque desde a Introdução até o último capítulo Grimal apresenta momentos históricos de forma compactada e por vezes confusa. Somando a isto, existe a necessidade de que se tenha uma noção preliminar da história da Arqueologia (mas não somente da Arqueologia especializada em Egiptologia, mas também da Clássica) e do que se tratam as Ciências Humanas. Isto irá auxiliar, dentre outras coisas, no bom entendimento em especial da Introdução, caso contrário a leitura será artificial e desleixada. Um dos exemplos onde esta necessidade torna-se visível é quando o autor fala de superioridade tecnológica ao comentar sobre os períodos pré-dinásticos (página 22). Este é um termo que deve ser utilizado com cuidado, principalmente porque oferece uma vida linear ao artefato onde ele passa por processos evolutivos em que o mais antigo não é de boa qualidade e o recente é que é um arquétipo de primor. Graças a esta ideia engessada promulgada nos primórdios da Arqueologia é que surgem comentários como “Os egípcios eram evoluídos para a sua época”, o que, consequentemente, interfere na interpretação dos artefatos.

Nicolas Grimal. Imagem disponível em < http://www.college-de-france.fr/site/nicolas-grimal/index.htm >. Acesso em 30 de Janeiro de 2013.

Embora tenha trabalhado no Institut Français d’Archéologie Orientale, Grimal comete alguns equívocos no que diz respeito ao objeto de estudo das (os) arqueólogas (os) e a forma de gerir o trabalho dos mesmos, isto pode ser observado em sua fixação em dar mais importância a dados relacionados especialmente a fontes escritas (o que pode ser uma interferência da sua formação voltada para a Filologia), como é possível se encontrar na página 11:

Torna-se obsoleto o velho antagonismo entre filologia e arqueologia, ao fim do qual só a primeira se revela capaz de dar conta de uma civilização, já que a segunda não passaria de disciplina auxiliar, relegada às tarefas inferiores de coleta documentária (GRIMAL, 2012, pág. 11).

 

Nesta citação o autor fez um desserviço a Arqueologia que por décadas foi considerada uma disciplina auxiliar da História a qual é tida por muitos como única detentora dos conhecimentos das fontes escritas. Somado a isto, as premissas da Arqueologia Clássica e Egípcia eram calcadas na Filologia (o estudo das fontes escritas antigas). Porém, atualmente os debates que ocorrem na Arqueologia demonstram o contrário: A Arqueologia se utiliza tanto das fontes materiais (onde se incluem as fontes escritas) como as imateriais (costumes de uma determinada população já é um ótimo exemplo) e o que a difere da História são as suas metodologias de trabalho. Ambas as disciplinas possuem a necessidade de um trabalho conjunto, isto porque são visões diferentes em relação aos artefatos, desta forma o antagonismo entre ambas é tão antiquado quanto tentar tecer um maior valor para uma ou para a outra.

Sua preferencia em observar o passado da perspectiva da escrita torna-se visível na página 271, quando ele discorre sobre o mito do Êxodo. Nesta parte ele comenta sobre a falta de comentários acerca do “fato” por parte dos egípcios faraônicos, justificando que por se tratar de uma derrota ninguém queria comentar sobre, o que explicaria a ausência de “provas” da ocorrência deste episódio, mas ele só olha do ponto de vista das fontes escritas, o que torna seu argumento incompleto, uma vez que ele ignora outras fontes (para saber mais sobre o Êxodo e a cultura material clique aqui).

Outro ponto negativo do livro tem relação com as citações diretas, onde em algumas ocasiões não está claro a quem pertence tais menções, além disto, são raros os momentos em que são citadas as referencias bibliográficas no meio do texto (o que não ampara no caso do interessado buscar mais sobre o assunto). O livro possui alguns problemas também em relação aos mapas, onde em alguns as informações estão em francês.

Um dos pontos positivos do livro é a necessidade de Grimal em dar exemplos de trabalhos realizados em sítios de contextos e espaços diferentes o que auxilia o leitor a ter conhecimento da existência, mesmo que pífia, de trabalhos realizados além do Vale dos Reis ou Tebas. Porém o nome dos pesquisadores é dado em forma de sigla, o que pode dificultar a identificação de alguns.

 

Considerações Finais:

O leitor que busca um material de teor mais crítico vai se decepcionar com o História do Egito Antigo. Não há debates, pelo contrário, o que será lido é a apresentação de acontecimentos históricos sem muitos questionamentos.

Pelas informações serem dadas de forma extenuante a leitura não é agradável, mesmo para um livro que busca contextualizar de forma geral os acontecimentos ocorridos durante o Período Faraônico, mas ainda assim é um material bem conveniente.

Continuar lendo

Inscrições para curso de Egiptologia

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

A partir de novembro já estarão abertas as inscrições para os interessados em cursar Egiptologia na Universidade Americana no Cairo (Egito). Dois pré-requisitos importantes são que o candidato tenha PHD e seja fluente em hieróglifos egípcios. A apresentação em vídeo será feita agora em dezembro.  

 

Imagem divulgação do Manual do futuro profissional. Difusão cultural do livro.

 

Apesar do processo seletivo começar este ano as aulas só terão início em setembro de 2012.  

 

Read more for English version:

 

Egyptology 

 

Job Description:

The Egyptology Program, Department of Sociology, Anthropology, Psychology and Egyptology (SAPE), at the American University in Cairo is seeking applications for a tenure-track position and open rank in Egyptology with a starting date in September 2012. While looking for candidates with a broad Egyptological background, we are looking in particular for people who have a research interest in all or most of the following fields: Egyptian history, cultural history, gender, and bioarchaeology. The candidate should also have competence in ancient Egyptian language. The duties of this position will entail extensive teaching of undergraduates of all levels, in addition to teaching graduates and participating in the life of the Unit.

Requirements:

A completed PhD and teaching experience are required. 

Successful candidates should have an ongoing program of research and publication and a demonstrated commitment to excellence in teaching. Responsibilities include undergraduate as well as graduate teaching, an active program of research and publications, and service to the Department and the University.


Additional Information:

Priority will be given to applications received by November 15th, 2011. Short-listed candidates will be interviewed by video-conference in December 2011.




Note: Please remember your account login enables you to respond to AUC additional questions (if required).


Application Instructions:

All applicants must submit the following documents online:

a) a current C.V;
 b) a letter of interest;
 c) a statement of teaching philosophy;
 d) a completed Personal Information Form; 
e) Please ask at least three referees familiar with your professional background to send reference letters directly to hussref@aucegypt.edu



Note: Please remember your account login enables you to respond to AUC additional questions (if required)

URL: www.aucegypt.edu/offices/HR/EmpOpp/Pages/default.aspx

 

Original Link: Egyptology (AUC)

 

Revista online com entrevista e artigos

Enviado por Rennan Lemos (Via Facebook):

 

Está disponível on-line a primeira edição da revista discente Plêthos, de História Antiga e Medieval. Nessa edição há dois artigos egiptológicos e uma entrevista com a arqueóloga Anna Stevens, do Amarna Project, sobre as escavações recentes que estão sendo realizadas na antiga cidade de Akhetaton.

 

 

Link para a revista online: www.historia.uff.br/revistaplethos

Entrevista com Anna Stevens (em português): http://www.historia.uff.br/revistaplethos/arquivos/numero1/annastevens%20portugues.pdf

 

Artigos:

Urbanismo e cidade no antigo Egito: algumas considerações teóricas: http://www.historia.uff.br/revistaplethos/arquivos/numero1/liliane.pdf

O senhor da ação ritual: um estudo da relação faraó-oferenda divina durante a reforma de Amarna (1353-1335 a.c): http://www.historia.uff.br/revistaplethos/arquivos/numero1/gisela.pdf

 

 

Revista: Meridiani Egito

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

Lançada em 2010, a Meridiane: Egito é provavelmente uma das melhores revistas sobre roteiros egípcios que já tive em mãos. Ela levanta um breve histórico e mostra aspectos curiosos de alguns dos sítios arqueológicos às margens do Nilo, assim como também questões modernas como, por exemplo, a interferência do lixo doméstico na vida e subsistência dos ribeirinhos que ali vivem.

 

Revista: Meridiani Egito

 

O que chama a atenção de primeira para a revista é o seu designer, ela é muito bem organizada, algo que é difícil de se ver quando falamos de um material cujas primeiras páginas trazem tantas informações como sugestões de filmes e livros para quem quiser se aprofundar no assunto, e sobre esta parte preciso fazer uma ressalva: eles sugeriram materiais que de fato são de uma ótima qualidade e não só ligado ao Egito faraônico como também ao moderno, dentre eles os filmes Um estranho em minha casa, como o celebre Omar Sharif e a Prece do Rouxinol, ambos clássicos da década de 50.

 

Página da revista Meridiani Egito. Ano de publicação (Brasil): 2010

 

As matérias são ótimas, uma delas é A grande mãe, de Enrico Martino, que fala sobre a moderna cidade do Cairo e sua população, a qual, em termos de divisão de classe social, são diferentes ao extremo, ou seja, ou você é bem de vida, ou luta para morar e sobreviver na capital, que é um aglomerado de sons caóticos. Outras duas matérias interessantes são sobre os bazares cairotas e a raqs sharqi – como inapropriadamente chamamos de dança do ventre – mas que infelizmente, principalmente no caso da segunda, poderia ter tido um pouco mais de discussão, coisa que com certeza daria para fazer em poucas páginas.

A sedução do café, também de Enrico Martino, é outro ótimo texto, ele nos faz enxergar como os ahwa (cafeteria) caminharam lado a lado com algumas das mudanças culturais egípcias. A Alex renasce de Fabrizio Ardito fala um pouco sobre a Arqueologia de Emergência – a nossa Arqueologia de Contrato – realizada na cidade de Alexandria onde os arqueólogos se defrontam dia a dia com o fato de que a antiga cultura está aos “trancos e barrancos” para caminhar ao lado do progresso da cidade. 4 obras para a eternidade de Renzo Bassi traz uma proposta interessante, lista quatro dos complexos de edifícios religiosos “monumentais” do Egito com a declaração de pessoas da época faraônica, a pena é que não deu informações de onde estão estes escritos. Outra “decepção” é com a matéria Segredos das Múmias de Jasmina Trifoni, o texto tem problemas com as colocações, até entendo a posição da Jasmina, mas muito arqueólogo vai lê-lo e torcer o nariz. Uma das colocações dela é “claro que tumbas e múmias estão entre as descobertas favoritas de arqueólogos que se dedicam a escavações no Egito”, afirmação que vai ofender muita gente, arqueólogos não são obsessivos pelo o mundo funerário. Outra colocação que será mal vista é quando ela fala “Diz-se que adorava transvestir-se de homem”, em um tópico sobre a rainha Hatshepsut. De fato a rainha se vestia de homem, mas e o contexto político? Ela não se transvestia por puro hobby. Nem todos conhecem a história da monarca. Outra da escritora é citar a Europa como “inventora das artes”, não preciso nem mencionar que é uma denominação extremamente equivocada. Sobre a KV-63 (citada no tópico Levaram a mulher do Rei), Jasmina fala que lá foi a sepultura de Ankhesenamon, lamento dizer, mas não foi (inclusive fiz um trabalho sobre o assunto em 2008), o local era um “depósito de embalsamador”.

 

Página da revista Meridiani Egito. Ano de publicação (Brasil): 2010

 

A matéria Cruzeiro faraônico de Manuel Villa a princípio me fez pensar que se tratava de uma orientação para turistas sobre as expedições no Nilo, mas em verdade conta um breve histórico do Eugênie, o primeiro cruzeiro a navegar no Nasser em 1993, e que está em funcionamento até hoje, além de explanar as paisagens do território da antiga Núbia, hoje o atual Sudão.

Nas páginas finais há um guia voltado para os interessados em fazer um tour pelo o Egito, com listas de endereços e telefones para aqueles que querem conhecer esta região da África. Para finalizar há um mapa dobrável em anexo com a revista, se ele é exato, eu não sei, mas que foi uma ótima idéia isto foi.

 

Ficha técnica:

 

Título: Meridiani – Egito

Autor: Vários

Tradução (Cord.): Maria Bresighello

Ano de publicação (Brasil): 2010

Distribuição: Nastari Editora

Tema: descrição de paisagens, turismo, história

Tumba de Tutankhamon será fechada

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

Por determinação do SCA a tumba de Tutankhamon, faraó da XVIII Dinastia, será fechada por tempo indeterminado, assim como de outros governantes, dentre eles Seti I e Nefertari (este já lacrado). Não se sabe quando se iniciará o processo de encerramento das tumbas, mas o SCA já alerta que só terão acesso às mesmas arqueólogos que pagarem uma taxa cujo valor não foi anunciado.   

Desde 2009 o SCA planeja fechar estas tumbas, principalmente a de Tutankhamon, pois, por se tratar de um dos faraós mais populares da atualidade, ele recebe inúmeras visitas, e é justamente a respiração dos visitantes que está acelerando o processo de degradação das pinturas do local, assim como a da múmia do faraó, a qual ainda não se sabe qual será seu destino após o fechamento do sepulcro.

Para “substituir” – já que artefatos são bens insubstituíveis – as tumbas réplicas precisas estão sendo feitas para amparar aos turistas. Determinação semelhante foi realizada com o complexo de cavernas de Lascaux na França, onde uma “Lascaux II” foi elaborada recebendo ainda hoje um grande número de curiosos, da mesma forma que a sua antecessora real.

 

Abaixo imagens da tumba de Tutankhamon (KV-62):

 

[cincopa AEFA2ZaqqGA2]

Fonte:
Público – Túmulo de Tutankhamon encerra em breve para evitar deterioração. Disponível em: < http://jornal.publico.pt/noticia/08-01-2011/tumulo-de-tutankhamon-encerra-em-breve-para-evitar-deterioracao-20972664.htm>. Acesso em: 08 de janeiro de 2011.