Revista: Meridiani Egito

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

Lançada em 2010, a Meridiane: Egito é provavelmente uma das melhores revistas sobre roteiros egípcios que já tive em mãos. Ela levanta um breve histórico e mostra aspectos curiosos de alguns dos sítios arqueológicos às margens do Nilo, assim como também questões modernas como, por exemplo, a interferência do lixo doméstico na vida e subsistência dos ribeirinhos que ali vivem.

 

Revista: Meridiani Egito

 

O que chama a atenção de primeira para a revista é o seu designer, ela é muito bem organizada, algo que é difícil de se ver quando falamos de um material cujas primeiras páginas trazem tantas informações como sugestões de filmes e livros para quem quiser se aprofundar no assunto, e sobre esta parte preciso fazer uma ressalva: eles sugeriram materiais que de fato são de uma ótima qualidade e não só ligado ao Egito faraônico como também ao moderno, dentre eles os filmes Um estranho em minha casa, como o celebre Omar Sharif e a Prece do Rouxinol, ambos clássicos da década de 50.

 

Página da revista Meridiani Egito. Ano de publicação (Brasil): 2010

 

As matérias são ótimas, uma delas é A grande mãe, de Enrico Martino, que fala sobre a moderna cidade do Cairo e sua população, a qual, em termos de divisão de classe social, são diferentes ao extremo, ou seja, ou você é bem de vida, ou luta para morar e sobreviver na capital, que é um aglomerado de sons caóticos. Outras duas matérias interessantes são sobre os bazares cairotas e a raqs sharqi – como inapropriadamente chamamos de dança do ventre – mas que infelizmente, principalmente no caso da segunda, poderia ter tido um pouco mais de discussão, coisa que com certeza daria para fazer em poucas páginas.

A sedução do café, também de Enrico Martino, é outro ótimo texto, ele nos faz enxergar como os ahwa (cafeteria) caminharam lado a lado com algumas das mudanças culturais egípcias. A Alex renasce de Fabrizio Ardito fala um pouco sobre a Arqueologia de Emergência – a nossa Arqueologia de Contrato – realizada na cidade de Alexandria onde os arqueólogos se defrontam dia a dia com o fato de que a antiga cultura está aos “trancos e barrancos” para caminhar ao lado do progresso da cidade. 4 obras para a eternidade de Renzo Bassi traz uma proposta interessante, lista quatro dos complexos de edifícios religiosos “monumentais” do Egito com a declaração de pessoas da época faraônica, a pena é que não deu informações de onde estão estes escritos. Outra “decepção” é com a matéria Segredos das Múmias de Jasmina Trifoni, o texto tem problemas com as colocações, até entendo a posição da Jasmina, mas muito arqueólogo vai lê-lo e torcer o nariz. Uma das colocações dela é “claro que tumbas e múmias estão entre as descobertas favoritas de arqueólogos que se dedicam a escavações no Egito”, afirmação que vai ofender muita gente, arqueólogos não são obsessivos pelo o mundo funerário. Outra colocação que será mal vista é quando ela fala “Diz-se que adorava transvestir-se de homem”, em um tópico sobre a rainha Hatshepsut. De fato a rainha se vestia de homem, mas e o contexto político? Ela não se transvestia por puro hobby. Nem todos conhecem a história da monarca. Outra da escritora é citar a Europa como “inventora das artes”, não preciso nem mencionar que é uma denominação extremamente equivocada. Sobre a KV-63 (citada no tópico Levaram a mulher do Rei), Jasmina fala que lá foi a sepultura de Ankhesenamon, lamento dizer, mas não foi (inclusive fiz um trabalho sobre o assunto em 2008), o local era um “depósito de embalsamador”.

 

Página da revista Meridiani Egito. Ano de publicação (Brasil): 2010

 

A matéria Cruzeiro faraônico de Manuel Villa a princípio me fez pensar que se tratava de uma orientação para turistas sobre as expedições no Nilo, mas em verdade conta um breve histórico do Eugênie, o primeiro cruzeiro a navegar no Nasser em 1993, e que está em funcionamento até hoje, além de explanar as paisagens do território da antiga Núbia, hoje o atual Sudão.

Nas páginas finais há um guia voltado para os interessados em fazer um tour pelo o Egito, com listas de endereços e telefones para aqueles que querem conhecer esta região da África. Para finalizar há um mapa dobrável em anexo com a revista, se ele é exato, eu não sei, mas que foi uma ótima idéia isto foi.

 

Ficha técnica:

 

Título: Meridiani – Egito

Autor: Vários

Tradução (Cord.): Maria Bresighello

Ano de publicação (Brasil): 2010

Distribuição: Nastari Editora

Tema: descrição de paisagens, turismo, história

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro "Uma viagem pelo Nilo". [Leia seu perfil]

2 comentários sobre “Revista: Meridiani Egito

  1. comprei a revista e também achei ótima. Aborda praticamente todos os assuntos do egito (exceto os mais recentes, claro)

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