Arqueólogos descobriram duas grandes esfinges do faraó Amenhotep III

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Enquanto restaurava os “Colossos de Memnon”, que apesar do apelido grego são estátuas do faraó Amenhotep III, assim como as ruínas do templo mortuário do referido faraó, uma missão de arqueologia fruto de uma parceria entre pesquisadores egípcios e alemães encontrou pedaços de algumas estátuas: de um lado temos pedaços de duas grandes esfinges de calcário que representam o próprio faraó, cujo nome está escrito nela. Do outro temos três bustos em granito preto representando a deusa Sekhmet, divindade da cura e das artes bélicas. 

Face de uma das esfinges de Amenhotep III. Foto: Ministério de Turismo e Antiguidades.
Uma das estátuas de Sekhmet. Foto: Ministério de Turismo e Antiguidades.
Busto de uma estátua. Foto: Ministério de Turismo e Antiguidades.

A equipe está sendo coordenada pela professora Hourig Sourouzian. Os trabalhos estão ocorrendo na parte ocidental de Luxor, antiga capital Tebas (Aset, como era chamada entre os egípcios antigos), onde estes monumentos estão localizados. Nas palavras de Sourouzian: 

“Pesquisas preliminares sobre essas esfinges colossais revelaram que seu comprimento era de cerca de oito metro, o que as torna as segundas maiores esfinges produzidas no antigo Egito depois da Grande Esfinge de Gizé, possuindo 22 metros de comprimento, e quase parecidas com a esfinge de alabastro do sitio de Mit Rahina medindo oito metros de comprimento.”[1] 

Os pesquisadores também encontraram restos de paredes e colunas decoradas com cenas cerimoniais e rituais, a exemplo de uma parede de arenito representando o Heb-sed, festival do jubileu de Amenhotep III. 

Amenhotep III. Foto: Gérard Ducher

No momento todas as peças encontradas estão sendo submetidas à limpeza e restauro. Agora a esperança é que elas possam ser um dia exibidas em seus locais originais do templo. Um dos detalhes mais interessantes é que de acordo com estudos é provável que algumas destas descobertas remontem ao período pós-Amarna, quando os trabalhos de restauração neste templo continuaram sob a ordem dos faraós seguintes. O Período Amarniano foi a época em que o casal Akhenaton e Nefertiti reinaram e tentaram estabelecer uma reforma religiosa e artística.  

Parte de parede do templo funerário. Foto: Ministério de Turismo e Antiguidades.
Parte de parede do templo funerário. Foto: Ministério de Turismo e Antiguidades.
Estrutura arqueológica encontrada na área do templo. Foto: Ministério de Turismo e Antiguidades.

  

Os “Colossos de Memnon” e o templo mortuário: 

Os Colossos de Memnon são duas grandes estátuas do faraó Amenhotep III esculpidas em quartzito arenito. Essas imagens já eram bem conhecidas na antiguidade e até pouco tempo os únicos sinais de que naquela região existiu um templo funerário. O nome “Memnon” é uma referência a um herói grego dado por turistas que incapazes de ler os até então extintos hieróglifos egípcios e inspirados por textos clássicos, viram nas estátuas o herói lendário.  

Colossos de Memnon. Fonte da foto: br.memphistours.com
Foto: ZHUKOV OLEG/SHUTTERSTOCK

Já o templo funerário foi construído com tijolos de barro e foi desmantelado ainda na antiguidade, décadas após a morte do faraó. Seus restos foram utilizados como materiais de construção. Ele também foi vítima de um terremoto devastador que varreu o país na antiguidade. Atualmente equipes de arqueologia e restauro estão tentando recuperá-lo através de um projeto que teve início em 1998 sob a supervisão do agora chamado Ministério do Turismo e Antiguidades e do Instituto Arqueológico Alemão. 

 

Fontes: 

Two royal statues discovered in Luxor. Disponível em < https://www.egyptindependent.com/two-royal-statues-discovered-in-luxor/ >. Acesso em 23 de janeiro de 2022.  

[1] New discoveries in Luxor and Sinai. Disponível em < https://english.ahram.org.eg/NewsContent/50/1207/455094/AlAhram-Weekly/Heritage/New-discoveries-in-Luxor-and-Sinai.aspx >. Acesso em 23 de janeiro de 2022.  

2 giant sphinxes depicting King Tut’s grandfather found at ancient Egyptian temple. Disponível em < https://www.livescience.com/two-ancient-egyptian-sphinxes-discovered-at-temple >. Acesso em 23 de janeiro de 2022. 

Egypt unearths remains of two ancient royal statues in Luxor. Disponível em < https://africa.cgtn.com/2022/01/14/egypt-unearths-remains-of-two-ancient-royal-statues-in-luxor/ >. Acesso em 23 de janeiro de 2022. 

 

Mais restos humanos com “línguas de ouro” foram encontrados no Egito

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Uma equipe de arqueologia da Espanha encontrou duas tumbas ainda com restos humanos em um sítio arqueológico em El-Vahnasa, em Minya (Egito). Os estudos estão sendo feitos por pesquisadores da Universidade de Barcelona e do IPOA. Neste trabalho, a exemplo de Taposiris Magna, foram encontrados restos com “línguas de ouro”. Porém, são da Dinastia Saíta, ou seja, a 26ª Dinastia, que tinha como capital Sais.


Os remanescentes com as línguas estavam bem na entrada da primeira tumba. Essas línguas faziam parte de um ritual para garantir que os falecidos pudessem falar na outra vida. Ao que parece elas foram se tornando populares no final da era dos faraós.


— Leia Também: Língua de ouro é encontrada onde acredita-se estar sepultada a rainha Cleópatra VII
— Leia Também: Outra “língua de ouro” foi encontrada em cemitério onde pode estar Cleópatra VII

Ainda nesta tumba foi encontrado em seu interior um grande sarcófago de calcário. Após uma análise, a equipe constatou que ele foi saqueado durante a antiguidade.


Já a segunda tumba, localizada ao lado da primeira, estava ainda selada, disse Hassan Amer, professor do departamento greco-romano da Faculdade de Arqueologia da Universidade do Cairo e diretor de escavações da missão. Em seu interior foram encontrados equipamentos funerários em dois nichos onde estavam vasos canópicos, 402 ushabtis feitos com faiança verde, amuletos e contas.

Quer saber sobre o significado e serventia desses tipos de artefatos egípcios? Nos vídeos abaixo explico com detalhes:


Fonte:
In Photos: Human remains with golden tongues unearthed in archaeological site in southern Egypt. Disponível em < https://english.ahram.org.eg/NewsContent/9/40/443817/Antiquities/Ancient-Egypt/In-Photos-Human-remains-with-golden-tongues-uneart.aspx >, acesso em 05 de dezembro de 2021.

Outra “língua de ouro” foi encontrada em cemitério onde pode estar Cleópatra VII

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Depois de quase um ano temos mais uma notícia da arqueóloga Kathleen Martinez e seus trabalhos em Taposiris Magna (Egito) onde iniciou uma grande busca pela tumba da rainha Cleópatra VII.

Em 29 de janeiro de 2021 anunciei aqui que sua equipe tinha encontrado alguns artefatos curiosos praticamente desconhecidos pela arqueologia egípcia: tratam-se de línguas feitas com folham de ouro e que foram encontradas na área da boca de alguns restos humanos. Na fotografia a seguir é possível ver esse tipo de artefato com muita clareza.

E recentemente ela liberou mais uma fotografia, mas de uma outra língua que foi encontrada no mesmo cemitério:

Pela fotografia não é possível identificar se a língua está na área onde estava a boca do falecido ou se o sepultamento sofreu alguma perturbação no passado. O que podemos falar por hora é sobre a singularidade desse cemitério e a ocorrência dessas línguas que, de acordo com a crença, faziam parte de um ritual para garantir que os falecidos pudessem falar na outra vida.

Já em relação à Cleópatra VII? Ainda segue sem sinais de sua sepultura.

Dica de leitura:

☥ Cleopatra: The Search for the Last Queen of Egypt

Quase 600 sepulturas de gatos e cães são encontradas próximas de porto egípcio no Mar Vermelho

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Recentemente foi a anunciada no Egito a descoberta de mais de 600 covas onde estavam sepultados cães e gatos. Para alguns leitores isso pode soar estranho e talvez até cruel, já que não é um pensamento incomum relacionar sepultamentos de tantos animais com sacrifícios. Porém, esse não é o caso.

Uma equipe de arqueologia da Academia de Ciências da Polônia, que estava trabalhando no porto romano de Berenice, costa do Mar Vermelho, desenterrou 585 animais, que compreendem principalmente cães e gatos.

O destaque em vermelho aponta a área do cemitério.

Eles já tinham encontrado esse cemitério sob um lixão romano, fora dos muros da cidade, em 2011. O que descobriram na época foi que o cemitério parece ter sido usado entre os séculos I e II d.E.C, quando o porto de Berenice era utilizado pelos romanos para o transporte e comércio de marfim, tecidos e outros produtos de luxo da Índia, Arábia e Europa.

O que se sabe atualmente é que essas sepulturas tratam-se de túmulos individuais para cada bichinho e vários deles estavam cobertos com tecidos ou pedaços de cerâmica, “que formavam uma espécie de sarcófago”, esclareceu a arqueóloga Marta Osypinska, coordenadora da equipe, ao portal Science. Outro detalhe é que nenhum dos animais foi mumificado: vale lembrar que a partir do século I o Egito já tinha saído da era dos faraós e muitos costumes estavam sendo deixados para trás.

As pesquisas arqueológicas foram conduzidas de 2011 a 2020 e no total foram descobertos 536 gatos, muitos usando colares de ferro ou colares com rosca de vidro e conchas. Um felino em especial foi colocado na asa de um grande pássaro. Já 32 são cães e o restante são restos de outros animais, especialmente dois macacos de espécies distintas (inclusive um deles, que foi sepultado na seção central do cemitério, foi acompanhado pelos corpos de três gatos).

(a) esqueleto de um cachorro; (b) gato; (c) macaco.

A forma de sepultamento foi praticamente semelhante: uma característica clara foi a colocação intencional do animal em uma posição que parecesse que ele estivesse dormindo.

Alguns gatos têm ossos fraturados o que pode ter sido causado por quedas ou por serem chutados por cavalos ou pessoas, por exemplo. Essas fraturas foram medicadas e saradas. Outros morreram jovens, possivelmente de doenças infecciosas. Já dentre os cães têm aqueles que padeceram graças a velhice, se encontrando sem a maioria dos dentes ou sofrido degeneração articular. Essa ausência dos dentes junto com idades tão avançadas são detalhes muito interessantes, uma vez que esses animais precisariam receber alimentos amassados ou líquidos para poder se alimentar. Ou seja, alguém, há mais de 2000, se preocupou em separar alguns minutos do seu dia para preparar a comida do seu bichinho idoso.

Coleiras e contas encontradas ao lado de gatos, bem como os acessórios de um enterro de macaco.

Outro detalhe interessante é que os cães descobertos até o momento eram de tamanho médio, corpo esguio e um crânio longo. Porém, uma descoberta única foi feita: um deles, o menor de todos, foi uma cadelinha de pequeno porte de tipo maltês. O “maltês” de Berenice foi a única cachorrinha de colo descoberta até hoje no Egito. Ela possivelmente veio de outro continente.

O arqueólogo Wim Van Neer, do Instituto Real Belga de Ciências Naturais, que estudou a relação entre pessoas e animais no mundo antigo, inclusive em Berenice, fez alguns adendos. Ele explicou ao Science que é possível que o povo de Berenice valorizasse seus cães e gatos por razões não sentimentais. Como pontuou, um porto com um forte comércio e trânsito de pessoas estaria repleto de ratos, tornando os gatos necessários. E embora alguns dos filhotes no local fossem cães médios, os maiores poderiam ter servido para a guarda. “Não acredito que tenha sido apenas um relacionamento amoroso”, explicou o pesquisador.

O conceito de animais de estimação é algo moderno, mas o sentimento de estima para com uma variedade de animais tem longa história. Sabemos que a relação de estima com os gatos e principalmente com os cães é longa, mas poder vê-la refletida nos cemitérios é como ver uma peça de um grande quebra-cabeças perdido há milênios. A descoberta de cada vez mais indícios antigos dessa relação é um retrato a mais para nós conhecermos e entendermos os nossos antepassados.

Fontes:

Graves of nearly 600 cats and dogs in ancient Egypt may be world’s oldest pet cemetery. Disponível em < https://www.sciencemag.org/news/2021/02/graves-nearly-600-cats-and-dogs-ancient-egypt-may-be-world-s-oldest-pet-cemetery >, acesso em 28 de fevereiro de 2021.

ANCIENT PETS. The health, diet and diversity of cats, dogs and monkeys from the Red Sea port of Berenice (Egypt) in the 1st-2nd centuries AD Disponível em < https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/00438243.2020.1870545 >, acesso em 3 de março de 2021.

Nova descoberta arqueológica em Saqqara será anunciada no início de 2021

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

No momento em que escrevo esse post, o Ministério de Turismo e Antiguidades do Egito está se preparando para anunciar mais uma descoberta arqueológica. Ela está sendo definida como uma das mais “importantes” já realizadas.

De acordo com o que já foi liberado, ela foi feita na região de Saqqara, durante escavações de uma missão de arqueologia chefiada pelo arqueólogo Zahi Hawass. Os trabalhos estão sendo realizados ao lado da pirâmide do rei Teti I, que reinou durante a 6ª Dinastia (Antigo Reino).

Pirâmide de Teti I

Por hora, o que sabemos é que trata-se da descoberta de poços funerários contendo ataúdes (o que chamamos no Brasil de sarcófagos) ainda com suas respectivas múmias e que são datados do Novo Império.

Cerâmicas e restos esqueletizados também foram encontrados.

De acordo com a equipe, esse achado ajudará a lançar luz sobre uma parte da história de Saqqara, especialmente a ver com os cemitérios datados da 18ª e 19ª Dinastias.

Veja também:

Fonte:
New archaeological discovery in Saqqara to be announced early 2021. Disponível em < https://www.egypttoday.com/Article/4/95802/New-archaeological-discovery-in-Saqqara-to-be-announced-early-2021 >, Acesso em 10 de janeiro de 2021.

Egito anunciará em breve o que declaram como “a maior descoberta arqueológica de 2020”

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

O Ministério de Turismo e Antiguidades do Egito declarou essa semana que anunciará aquela que definiu como “a maior descoberta arqueológica de 2020”. Tal anúncio será feito em uma conferência de imprensa que será realizada na necrópole de Saqqara nos próximos dias.

Foto: Ministério de Turismo e Antiguidades do Egito

No início de outubro foi anunciada a descoberta de 59 sarcófagos na região, o que por si só já é notável e histórico. Todos esses caixões estão bem preservados e contendo suas respectivas múmias em seu interior. Saiba mais sobre essa descoberta assistindo ao vídeo abaixo:

Então, isso faz com que nos perguntemos que tipo de descoberta superaria a dos 59 sarcófagos.

Foto: Ministério de Turismo e Antiguidades do Egito
Foto: Ministério de Turismo e Antiguidades do Egito

Através de algumas fotografias disponibilizadas pelo próprio Ministério é possível ver alguns artefatos em um ótimo estado de conservação, incluindo o que parece ser uma máscara de cartonagem coberta por folhas de ouro.

Foto: Ministério de Turismo e Antiguidades do Egito

Ficaremos no aguardo por mais notícias.

“A maior descoberta arqueológica”:

Embora insistam em utilizar o termo “maior descoberta arqueológica”, isso é problemático no sentido de que isso acaba colocando um valor “quantitativo” em descobertas arqueológicas. Que quanto “maior” e “mais enfeitado”, melhor. O que não é verdade. A Arqueologia é uma ciência indiciária, e quanto mais informações tivermos, independente do volume ou “qualidade artística”, melhor.

Espero abordar esse assunto em breve no canal Arqueologia pelo Mundo. Clique aqui e se inscreva nele para não perder nenhum vídeo.

Fonte:
Egypt to announce biggest archaeological discovery of 2020 soon. Disponível em < https://dailynewsegypt.com/2020/11/09/egypt-to-announce-biggest-archaeological-discovery-of-2020-soon/ >. Acesso em 09 de novembro de 2020.
Egypt to announce biggest archaeological discovery in 2020 in few days. Disponível em < http://english.ahram.org.eg/News/391380.aspx >. Acesso em 09 de novembro de 2020.

Tumba de mais de 3.000 de um “tesoureiro real” é descoberta no Egito

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Esta semana tivemos mais um anúncio de uma descoberta arqueológica realizada no Egito, desta vez é na área de Tuna Al-Gabal em Minya. Lá uma equipe egípcia de arqueologia descobriu a tumba de um supervisor do tesouro real chamado Ba di ist.

Foto: Ministério de Turismo e Antiguidades

Mustafa Waziry, Secretário-Geral do Supremo Conselho de Antiguidades e chefe da missão, explicou que o túmulo consiste em um poço de sepultamento que contém 10 metros de profundidade. Tal poço leva a uma grande sala com nichos esculpidos na rocha. Nesse espaço foram encontradas duas estátuas: uma representando uma mulher e outra representando o deus Ápis, divindade em forma de um touro.

Foto: Ministério de Turismo e Antiguidades

O grande destaque está em quatro jarros canópicos (recipientes onde os órgãos das múmias eram guardados) feitos com alabastro e que estão em ótimo estado de conservação. Caso queria conhecer um pouco sobre o que são vasos canópicos e sua serventia, tem um vídeo no nosso canal:

Outros artefatos foram encontrados, dentre eles 400 ushabtis de faiança azul e verde com o nome do falecido. Ushabtis são estatuetas que eram colocadas nos túmulos para que pudessem exercer trabalhos manuais no além em nome do morto.

Foto: Ministério de Turismo e Antiguidades

Não ficou de todo claro no comunicado de imprensa, mas aparentemente mais seis sepultamentos de membros da família de Ba di ist — contendo cerca de 1.000 ushabtis de faiança e outros grupos jarros canópicos, foram encontrados na região. Além disso, 4 sarcófagos de pedra foram descobertos intactos, ainda selados com argamassa. Esses sepultamentos foram datados como pertencentes a 26ª e 30ª dinastias.

Fonte:

Egypt- Tomb of ancient Royal Treasury Supervisor uncovered in Minya Governorate. Disponível em < https://menafn.com/1101011944/Egypt-Tomb-of-ancient-Royal-Treasury-Supervisor-uncovered-in-Minya-Governorate >, acesso em 28 de outubro de 2020.

27 sarcófagos lacrados foram descobertos em necrópole do Egito

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Foi anunciada a descoberta de 27 sarcófagos na cidade de Saqqara, Egito. Esse achado deixou os arqueólogos do país em polvorosa, porque é um dos maiores desse tipo. Tratam-se de ataúdes (caixões) de madeira bem coloridos e que ainda estão lacrados, de acordo com um comunicado do Ministério do Turismo e Antiguidades do Egito. No mesmo comunicado o ministro, Khaled El-Enany, agradeceu aos trabalhadores da escavação por operarem em condições difíceis, enquanto aderiam às novas medidas de segurança relacionadas ao coronavírus.

No início desse mês de setembro (2020) tinha sido anunciado o descobrimento de 13 sarcófagos. E agora o anúncio é referente a descoberta de mais 14 os quais foram encontrados no fim de um segundo poço com cerca de 11 metros de profundidade. Não se sabe ainda quem são as pessoas dentro dos ataúdes, mas por terem sido encontradas em Saqqara, e ainda por cima em caixões de madeira tão bem decorados, provavelmente tratam-se de indivíduos relacionados de alguma forma à nobreza. Porém, pesquisas adicionais serão necessárias para se saber tanto a identidade daqueles que estão no caixão, como para saber se existem mais sarcófagos nas proximidades.

Os arqueólogos também encontraram vários artefatos no poço, incluindo pequenas estátuas e um obelisco de madeira com pouco mais de 30 centímetros de altura.

A cidade de Saqqara um dia foi a localização da mais antiga capital do Egito e que após perder o seu posto tornou-se uma cidade de grande importância religiosa, além de possuir uma das mais significativas necrópoles do país. É lá onde está a mais antiga pirâmide do Egito, a Pirâmide de Djoser.

Outra descoberta do tipo:

Em 2019 uma descoberta muito parecida tinha sido feita, porém em Luxor. Nessa ocasião 30 sarcófagos tinham sido encontrados na vila de Al-Assasif:

— Saiba mais: Dezenas de sarcófagos foram encontrados selados no Egito

Fonte:

Egypt tomb: Sarcophagi buried for 2,500 years unearthed in Saqqara. Disponível em < https://www.bbc.com/news/world-middle-east-54227282 > Acesso em 22 de setembro de 2020.

Egito anuncia descoberta arqueológica da época de Ramsés II

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

O Egito tem tentado controlar o avanço da COVID-19 no país e paralelamente tem retomado as pesquisas arqueológicas — com uma série de restrições as quais já sitei aqui no site —. Então, agora em agosto, o Ministério do Turismo e Antiguidades do Egito anunciou a descoberta de artefatos que datam do reinado de Ramsés II — um dos reis mais famosos da 19ª Dinastia —, além de restos de estruturas pertencentes aos coptas. Tudo isso em Mit Rahina, que no passado ficava nas proximidade da antiga Mênfis.

A importância dessa descoberta está no fato de que Mênfis foi por muitos séculos capital do Egito e mesmo quando perdeu esse posto, continuou a ter relevância religiosa.

Foram encontrados vários blocos e estátuas de pedra esculpidas, dentre elas está uma feita em granito preto representando uma mulher. Já os blocos são feitos de calcário e pertencem à era copta, que em nada tem a ver com o tempo dos faraós. Os coptas tratam-se de uma das comunidades cristãs mais antigas do Oriente Médio. Desta forma, os arqueólogos responsáveis pelas pesquisas acreditam que esses blocos seriam reutilizações de partes de templos da época dos faraós.

O artefato do faraó Ramsés II encontrado é uma estátua, que estava acompanhada por várias estátuas representando diferentes divindades como Sekhmet, Hathor e Ptah. Tem curiosidade em conhecer mais sobre os deuses da antiguidade egípcia? Assista ao vídeo “Deuses do Egito Antigo: O que você precisa saber!“:

E quer conhecer um dos feitos mais famosos de Ramsés II? Veja ao vídeo “Deslocamento dos Templos de Abu Simbel: Ramsés II e Nefertari“:

Os trabalhos de escavações nesse sítio de Mit Rahina continuarão até que todos os artefatos e estruturas arqueológicas tenham passado por um trabalho de conservação.

Fonte:

Egypt announces new archaeological discovery from Ramses II era. Disponível em <https://dailynewsegypt.com/2020/07/28/egypt-announces-new-archaeological-discovery-from-ramses-ii-era/ >. Acesso em 04 de agosto de 2020.

Pesquisadores estão tentando identificar fragmentos antigos de tinta em uma múmia egípcia

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Ao contrário do que possa parecer, pelo fato da antiguidade egípcia ser uma das sociedades antigas mais populares entre os fãs de história, sabemos pouco sobre as pessoas que viveram às margens do Nilo.

Estamos falando de uma civilização que passou por grandes períodos históricos onde mudanças culturais — pequenas, porém relevantes — ocorreram. E que cujos remanescentes, a exemplo de seus mortos, foram privados de sua identidade durante as explorações a tumbas que ocorreram há alguns séculos. Um exemplo foi o que ocorreu com uma múmia que chegou à América no início do século 19.

Atualmente pertencente ao acervo do Art Institute de Chicago, essa múmia foi exibida primeiro no Art Institute e depois no Children’s Museum de Indianápolis dentro de um caixão de madeira, que por sua vez é dedicado a uma mulher chamada Wenuhotep. Entretanto, ao retornar para Chicago em 2007, foi descoberto que o caixão não pertence originalmente a essa múmia, cuja verdadeira identidade se perdeu com o tempo.

Contudo, apesar da ausência do verdadeiro nome dessa pessoa, os arqueólogos responsáveis por sua análise não se intimidaram e descobriram alguns detalhes interessantes sobre esse indivíduo: A primeira descoberta, graças a tomografias recentes[1], é a de que essa pessoa era do sexo masculino. A segunda, foi através da identificação do método de mumificação e o estilo da decoração aplicada em seu invólucro, o que tornou possível saber que essa pessoa viveu durante o Período Ptolomaico (cerca de 332 a 30 aEC), época em que o Egito foi governado por faraós de descendência grega. Já o sarcófago é datado da 26ª Dinastia, ou seja, é cerca de 500 anos mais velho.

Essa múmia chegou à coleção acompanhada de quase uma centena de artefatos faraônicos que foram comprados no Egito em 1892 por Henry H. Getty e Charles L. Hutchinson, os dois primeiros administradores do local. Vale salientar que nos dias de hoje a venda e posse de artefatos arqueológicos é crime em alguns países, a exemplo do Egito e do próprio Brasil.

Em 1941, ela foi emprestada ao Oriental Institute da Universidade de Chicago. De lá, viajou para Indianápolis, para o Children’s Museum, em 1959, onde permaneceu em exibição até 2007.

Agora a múmia está passando por uma série de estudos para se conhecer mais acerca deste homem e procurar meios que possibilitem a conservação das pinturas que decoram os objetos que foram encontrados juntos ao corpo: uma máscara funerária, uma cobertura para os pés e dois painéis — os quais um cobria seu tronco e o outro as pernas —. Ambos os painéis foram decorados com cenas funerárias e imagens de divindades. Esses artefatos são feitos com cartonagem, que basicamente é um material feito com tecido de linho coberto com finas camadas de gesso.

O estado da múmia foi documentado cuidadosamente antes que a equipe pudesse iniciar o tratamento nas pinturas, que passaram por uma análise de Luminescência Induzida Visível (VIL). Essa técnica não invasiva (ou seja, que não prejudica a múmia ou qualquer outro tipo de artefato onde ela for aplicada) foi desenvolvida pelo cientista de imagem do Art Institute, Giovanni Verri. Através dela uma câmera digital com um sensor modificado para detectar radiação infravermelha pode determinar se o azul egípcio (um tipo de pigmento artificial criado pelos egípcios antigos para substituir a cor do lápis-lazúli) está presente. O VIL é uma ferramenta útil até mesmo quando apenas alguns grãos minúsculos de tintura sobreviveram ao passar do tempo ou se o pigmento não aparenta mais ser azul devido à descoloração.

Outro ponto importante dessa pesquisa foi a tentativa de remoção da sujeira que estava cobrindo a superfície da múmia e seus artefatos. Mas, como muitos tratamentos de conservação de artefatos arqueológicos, isso está provando ser mais fácil dizer do que fazer. Os conservadores realizaram testes em com vários solventes em um local discreto de uma das cartonagens para saber até onde ia sua capacidade de remover a sujeira sem afetar a tinta. O resultado foi desanimador: as soluções aquosas de fato removem a sujeira, mas também afetam a tinta, que é altamente sensível à água.

Os trabalhos ainda não estão finalizados e a equipe de conservação do museu espera trazer em um futuro não tão distante mais novidades sobre essa pesquisa.

Fontes:

Wenuhotep: Mystery Mummy. Disponível em < https://www.artic.edu/articles/451/wenuhotep-mystery-mummy >. Acesso em 19 de maio de 2020.

Solving a Mummy Mystery. Disponível em < https://www.artic.edu/articles/459/solving-a-mummy-mystery >. Acesso em 19 de maio de 2020.

The Secrets of a Mummy Emerge. Disponível em < https://www.artic.edu/articles/819/the-secrets-of-a-mummy-emerge >. Acesso em 19 de maio de 2020.


[1] Em 1988, enquanto estava emprestada ao Children’s Museum de Indianápolis a múmia passou por uma tomografia, cujo resultado foi inconclusivo. Retornou para Chicago em 2007, onde os dados coletados em 1988 foram reexaminados pela egiptóloga Dra. Emily Teeter, do Oriental Institute da Universidade de Chicago. Ela descobriu que a múmia não era a verdadeira dona do sarcófago, assim como que também trata-se de um homem.