Zahi Hawass e a busca por uma nova tumba (a qual espera-se que seja de Ankhesenamon)

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Desde janeiro (2018) uma equipe de arqueologia liderada pelo o arqueólogo egípcio Zahi Hawass está procurando por uma tumba no Vale Oeste (também chamado de Vale dos Macacos), uma área mais periférica do Vale dos Reis. Essas escavações estão sendo financiadas pela Discovery Channel e como eu já tinha previsto aqui no Arqueologia Egípcia a empresa está fazendo isso porque lançará uma série de documentários sobre o assunto. A série deve estrear ainda este ano na Discovery Channel e no Science Channel.

— Saiba mais: Arqueólogo Zahi Hawass inicia busca pela tumba da esposa de Tutankhamon

As escavações estão ocorrendo sob sigilo, para manter a exclusividade da descoberta, mas a Discovery liberou uma foto dessas escavações:

Foto: Discovery Channel

Esta pesquisa começou depois que a equipe de Hawass encontrou objetos funerários nesta região e devido a proximidade com os túmulos dos faraós Amenhotep III e Ay, especulou-se que ali poderia estar a tumba da rainha Ankhesenamon, esposa de Tutankhamon.

Mas por hora nada é certo.

Saiba um pouco mais sobre esta pesquisa através deste vídeo que gravei para o canal do Arqueologia Egípcia:

E conheça a rainha Ankhensenamon e o seu esposo assistindo a este vídeo:

Fonte:

Has Tutankhamun’s tragic teenage wife been found? Documentary on the dig for the body of Ankhesenamun who ‘married her father, her grandfather AND her half-brother’ could reveal new clues. Disponível em < http://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-5602817/Discovery-Channel-filming-archaeologists-digging-body-Tutankhamuns-wife-Ankhesenamun.html >. Acesso em 23 de abril de 2018.

Have Archaeologists Discovered the Tomb of King Tut’s Wife? Maybe. Disponível em < https://www.livescience.com/62264-search-king-tut-wife-tomb.html >. Acesso em 23 de abril de 2018.

 

Akhenaton e monolatria: um papo sobre este período único no Egito Antigo

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

É fácil definir o Período Amarniano, esta época única durante o Novo Império. Ele tem início com o reinado do faraó Amenhotep IV, que mais tarde mudará seu nome para Akhenaton e segue até o reinado do faraó Ay, ou como defende alguns acadêmicos até o de Horemheb.

Estela amarniana. Foto: Kenneth Garrett. Abril de 2001.

Suas principais características é a mudança da capital de Tebas (atual Luxor) para Aketaton (atual Amarna), a arte que sofreu mudanças significativas e a religião, que agora põe em destaque somente um deus, o Aton.

Foi pensando em discutir essa época que o pessoal do Mitografias me convidou para o podcast “Papo Lendário”. Para ouvi-lo é só clicar no play abaixo. E para conhecer o trabalho deles é só acessar o seguinte site: www.mitografias.com.br

Para saber mais: Em meu livro, “Uma viagem pelo Nilo”, dedico um capítulo, “A análise dos talatats de Akhenaton”, para tratar da descoberta dos talatats do templo de Akhenaton em Karnak. Também apresento os principais acontecimentos dessa época em relação a mudança da capital.

 

O mistério das manchas marrons na tumba de Tutankhamon

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Quem já visitou a tumba do faraó Tutankhamon ou viu fotografias certamente notou que as pinturas que enfeitam as paredes estão cobertas por estranhas manchas amarronzadas. Por anos algumas suposições foram levantas buscando entender o que seriam estas marcas. A mais famosa é que seriam o resultado da umidade acumulada por conta da visita de muitos turistas, tal como foi o caso da tumba da rainha Nefertari, que precisou ser fechada para ser preservada. Ou seja, seriam microrganismos que estariam destruindo as imagens pouco a pouco. Agora, os pesquisadores do Getty Conservation Institute de Los Angeles acreditam ter desvendado o mistério.

Fotos da época da descoberta foram comparadas com as dos dias de hoje e o que se viu é que essas manchas tinham tomado novas áreas. Naturalmente isso preocupou os cientistas que entraram em ação com estudos de DNA, análises químicas e microscópicas. Eles confirmaram o que muitos temiam: de fato as manchas são de origem microbiológica. Em termos simples, tratam-se de mofo e fungos. Porém, a ótima notícia é que eles estão mortos e não são mais uma ameaça.

Este estudo, que está sendo realizado há quase uma década, é fruto de uma associação entre o Getty Conservation Institute e o Ministério das Antiguidades do Egito. O seu objetivo é avaliar as condições da tumba do rei e assim ajudar a evitar que ela se deteriore. Por conta desses trabalhos melhorias foram aplicadas no tumulo tal como a construção de uma rampa e trilhos para controlar o acesso de visitantes, regras para determinar o numero máximo de pessoas que podem entrar e a instalação de um sistema de ventilação. Eles também estabilizaram a perda dos pigmentos pretos e vermelhos dos murais.

O diretor do projeto explicou que em um dado momento dos trabalhos foi necessário mover a múmia do rei. Isso ocorreu em meados de outubro de 2016, período em que a tumba foi fechada por um mês para a visita de turistas.

Sobre as manchas, elas não serão removidas. Isso porque os cientistas perceberam que elas penetraram totalmente as tintas de tal forma que qualquer tentativa de remoção acabará acarretando na destruição das pinturas.

Tenha em casa: A Edições Del Prado, uma editora especializada em vendas de fascículos com imagens colecionáveis, possui uma coleção intitulada “Cenas do Egito Antigo”. Em uma delas são retratados personagens realizando a atividade descrita aqui: a pintura em parede.

Clique aqui para conferir a peça ou aqui para ver as demais cenas.

Fonte:

Getty Completes Study of Paintings at King Tut’s Tomb. Disponível em < https://www.nytimes.com/2018/03/26/arts/design/king-tut-getty-egypt-conservation.html?partner=rss&emc=rss&smtyp=cur&smid=tw-nytimesscience >. Acesso em 31 de março de 2018.

Busca por novas evidências ocultas na tumba de Tutankhamon tem início

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Após quase um ano de espera o Ministério das Antiguidades do Egito finalmente liberou a realização de mais uma analise para a busca por câmaras ocultas na KV-62, tumba do faraó Tutankhamon. Localizada no Vale dos Reis, a  sua descoberta ocorreu em 1922, pelo egiptólogo britânico Howard Carter.

Tut Ankh Amon Sarcophagus, Egyptian Museum, Cairo, Egypt

A nova pesquisa será feita com um radar (GPR) de uma equipe da Universidade Politécnica de Turim, coordenada pelo Francesco Porcelli. Também participarão uma equipe egípcia, a Universidade de Turim e três empresas privadas, a Geostudi Astier, 3DGeoimaging e Terravision.

KV-62. As partes amareladas são sugestões do que existiria atrás das paredes. Imagem: Theban Mapping Project (com adições).

A esperança é que esta seja a última de três pesquisas realizadas na sepultura. A proposta desse novo trabalho é sustentar ou desmentir de vez a teoria do egiptólogo britânico Nicholas Reeves, lançada em 2015, sobre a possibilidade de existência de câmaras ocultas por trás das paredes da KV-62. Isso porque as duas pesquisas anteriores (uma feita em 2015 e a outra em 2016) foram consideradas inconclusivas e discordavam entre si, como vocês podem conferir no vídeo abaixo e através do artigo “Tutankhamon, Zahi Hawass e Nicholas Reeves: quais são as últimas novidades sobre a tumba do faraó”:

Apesar das esperanças contidas nesse projeto, os especialistas advertem que um radar só pode apontar anomalias, ou seja, “espaços vazios”. Pesquisas adicionais são necessárias para definir se tais anomalias seriam câmaras ocultas ou não.

Eles já estão trabalhando no Vale dos Reis há um tempo. As análises ocorrem no horário da noite, quando o lugar está fechado para turistas. As medidas já começaram no último dia 31 de janeiro (2018) e seguiram até o dia 06 de fevereiro. Segundo o professor Porcelli, três diferentes sistemas de radar de última geração serão usados ​​para revelar estruturas escondidas com 99% de confiabilidade. As medidas do GPR serão comparadas com dados obtidos em maio passado usando uma técnica não-invasiva, com base no mapeamento tridimensional do subsolo localizado ao redor do túmulo.

Trabalho realizado pela National Geograhic em 2016. Foto: Kenneth Garrett.

É importante explicar que as pesquisas de maio sugeriram a presença de cavidades suspeitas na rocha a poucos metros da tumba. O GPR ajudará a entender se essas cavidades suspeitas são reais e se elas estão diretamente conectadas a KV62.

Depois que esses dados são coletados, leva semanas para que eles sejam processados e analisados. Como comentei no vídeo “Espaço vazio dentro da Grande Pirâmide do Egito: Entenda!”. A ciência é demorada assim mesmo.

Para saber o que mais publiquei aqui no Arqueologia Egípcia sobre o assunto clique aqui.

 

Fontes:

Exclusive Photos: Search Resumes for Hidden Chambers In King Tut’s Tomb. Disponível em < https://news.nationalgeographic.com/2018/02/king-tut-tomb-hidden-chamber-scan-egypt/ >. Acesso em 02 de fevereiro de 2018.

Luz verde para encontrar cámaras secretas en la tumba de Tutankamón. Disponível em < http://www.lavanguardia.com/cultura/20180201/44451753981/camara-secreta-tumba-tutankamon-egipto.html >. Acesso em 02 de fevereiro de 2018.

Artefatos da tumba do faraó Tutankhamon estão vindo para a América

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Como parte das comemorações que ocorrerão nos próximos anos em homenagem aos 100 anos da descoberta da tumba do faraó Tutankhamon, ocorrida em 1922, os artefatos provenientes de sua sepultura entrarão em mais uma turnê no ano de 2018.

Rosto de um dos sarcófagos do Faraó Tutankhamon. Foto pertencente ao acervo da National Geographic. Kenneth Garrett. Setembro de 1998.

A primeira parada da chamada “KING TUT: Treasures of the Golden Pharaoh” (Rei Tut: Tesouros do Faraó de Ouro) será a Califórnia (EUA), no Museu de Los Angeles, onde permanecerá por 10 meses a partir do mês de maio. Depois eles seguirão para a Europa em janeiro de 2019.

Dr. Diane Perlov, Diretora Adjunta de Exposições no Centro de Ciências da Califórnia, comentou que a exposição será “mais uma experiência de tipo imersiva”, pois cada artefato estará acompanhado por uma multimídia que contará como seria o pós vida de Tutankhamon.

Tutankhamun

De acordo com o museu, esta exposição representa a maior coleção de artefatos de Tutankhamon que será exposta para o público fora do Egito. 40% dos itens estão saindo pela primeira vez do pais.

Com o fim desta turnê internacional todos os artefatos do rei terão um novo lar, saindo definitivamente do centenário Museu Egípcio do Cairo, sendo exibidos permanentemente no Grand Museu Egípcio, cujo edifício foi construído perto das Pirâmides de Gizé.

 

Fonte: 

Artifacts from King Tut’s tomb are coming to LA. In: KPCC. Disponível em < http://www.scpr.org/news/2017/11/29/78274/artifacts-from-king-tut-s-tomb-set-for-internation/ >. Publicado em 29 de novembro de 2017. Acesso em 06 de dezembro de 2017.

Saiba mais: https://californiasciencecenter.org/exhibits/king-tut-treasures-of-the-golden-pharaoh

3ª Conferência egípcia sobre Tutankhamon ocorrerá próximo sábado

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Realizada pelo Ministério das Antiguidades Egípcias, está é a terceira conferência internacional sobre o faraó Tutakhamon a ser organizada no país. Ela ocorrerá no próximo dia 06/05 no Grande Museu Egípcio (GEM), Cairo.

Tut Ankh Amon Sarcophagus, Egyptian Museum, Cairo, Egypt

O evento terá a duração de 3 dias e debaterá sobre vários temas a exemplo do mobiliário do rei, sua múmia e os melhores métodos para preservá-los. Ela contará com a presença de vários pesquisadores de diferentes nacionalidades.

Entretanto, aparentemente as questões em relação às novas pesquisas com radar feitas na tumba não serão abordadas.

 

Fonte:

Tutankhamun conference to be held on Saturday in Cairo. Disponível em < http://english.ahram.org.eg/NewsContent/9/40/268042/Heritage/Ancient-Egypt/Tutankhamun-conference-to-be-held-on-Saturday-in-C.aspx >. Acesso em 03 de maio de 2017.

Tutankhamon, Zahi Hawass e Nicholas Reeves: quais são as últimas novidades sobre a tumba do faraó

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

O Ministro das Antiguidades do Egito, Jaled al Anani, deu no início de fevereiro uma entrevista para o jornal El Mundo falando sobre a nova fase das pesquisas na tumba do faraó Tutankhamon (KV-62), cujo objetivo é procurar por espaços vazios que estariam atrás de suas paredes. A possibilidade da existência desses espaços foi sugerida pelo egiptólogo britânico, Nicholas Reeves, em um artigo acadêmico que pontuava sinais que indicariam lugares ocos por trás de duas paredes da câmara funerária do rei, e que eles seriam um segundo túmulo. Ele ainda declarou que o proposto sepulcro poderia pertencer a ninguém menos que a rainha Nefertiti, figura celebre do Período Amarniano.

— Saiba mais sobre essa governante: Nefertiti e Akhenaton: Rainha e faraó

Tutankhamon, Hawass e Reeves.

Embora tais indícios sejam circunstanciais, o anterior Ministro das Antiguidades, Mamdouh al-Damaty, resolveu averiguar, dando início a um verdadeiro hype, deixando a imprensa internacional em polvorosa. Nesse período duas inspeções com radar foram realizadas: a primeira, feita por um pesquisador chamado Hirokatsu Watanabe no início de 2016, apontou a certeza da existência de câmaras ocultas, porém a apresentação do resultado dos seus estudos não convenceu arqueólogos e especialistas em radar ao redor do mundo. Então uma segunda equipe, organizada pela National Geographic, foi averiguar a tumba. Porém, ao contrário do Watanabe, eles foram proibidos de liberar seus resultados.

golden mask king tutMáscara mortuária de Tutankhamon.

Foi nesse meio tempo que o Ministro das Antiguidades foi mudado e dessa vez a pesquisa entrou nos eixos. Isso porque o atual exerceu o seu papel como cientista, pensando como um arqueólogo e não como um correspondente para a imprensa.

Tempos depois uma mesa em um evento de arqueologia foi realizada no Cairo para debater o assunto. Nela participaram o próprio Watanabe, o ex-ministro, Yasser El Shayb, Nicholas Reeves e Zahi Hawass. Na ocasião Watanabe acabou expondo que o seu aparelho tinha sido customizado e por isso os seus pares não seriam capazes de analisar as informações coletados por ele. Esse tipo de comentário no meio cientifico é impensável. Não é análise científica se somente uma pessoa é capaz de ler os dados. Isso é um quesito básico na nossa profissão: desenvolver métodos e técnicas que sejam possíveis de serem utilizados e entendidos por outros profissionais.

Tomb of TutEntrada para a tumba do faraó.

A situação ficou mais complicada quando dias após o evento o jornalista Owen Jarus lançou uma matéria explicando que os dados da National Geographic não tinham sido liberados porque a analise deles apontou que não existia espaços ocos algum. No vídeo abaixo fiz um resumo de tudo isso o que falei aqui, utilizando, inclusive, algumas imagens:

Agora em 2017, meses após essa conferência, foi anunciada que uma equipe italiana iria investigar também a tumba. Outra novidade é a de que Reeves não fará parte desse novo estudo. “A teoria foi elaborada por Reeves, mas a tumba de Tutankhamon pertence ao Egito”[1], declarou o ministro acerca desse assunto. “O projeto não foi cancelado, mas prefiro tratar com instituições científicas. Nos chegou uma proposta séria da Itália. O comitê permanente a estudou e ela foi aprovada” [1]. E ele continuou “Tem que se diferenciar entre a teoria e a pessoa que a formulou. Estamos trabalhando sobre a tese de que pode existir algo”[1], ainda expôs “O senhor Reeves não está relacionado com o novo projeto e não está desenvolvendo nenhuma investigação sobre a tumba no momento, mas, como qualquer outro especialista, pode enviar uma solicitação e será examinada. Até o momento não recebemos nenhuma proposta de uma instituição que leve o nome de Reeves. Para nós é crucial tratar com instituições”.[1]

O ministro também confirmou que a pesquisa teria início no final de fevereiro e começo de março (2017) e ela realizará uma varredura com um radar nas paredes da tumba.

Inside the tomb of the boy king, TutankhamenCâmara funerária da KV-62.

As experiencias anteriores deixaram o público empolgado, mas, muitos arqueólogos preocupados. A arqueologia é uma ciência social que trata do passado da humanidade e não deve ser tratada como uma notícia caça-níquel; ela requer muita paciência e cuidado em suas análises, algo que pode durar meses ou anos e esse foi o erro crucial no caso dessas buscas por câmaras ocultas na tumba de Tutankhamon. Misturar a pressa e até mesmo o sensacionalismo com a Arqueologia pode acabar enterrando carreiras. Essa parece ser uma preocupação semelhante a do atual ministro, que na mesma entrevista salientou: “Temos que dar tempo para a ciência e seus métodos. As expectativas ou os sentimentos não funcionam aqui. Minha esperança é encontrar algo na [tumba] de Tutankhamon e em qualquer outra sepultura do Egito, mas tem que se distinguir entre esperanças e emoções. É tão possível que existam essas cavidades como não ter nada” e continuou “Eu sou um acadêmico. Primeiro teremos que certificar que existe cavidade e, se existe, devemos especificar se é simplesmente um espaço vazio ou uma tumba. No caso do segundo, o seguinte seria investigar a quem pode pertencer”[1].

ToutânkhamonReconstituição da localização dos artefatos encontrados na tumba de Tutankhamon, que foi descoberta em 1922 praticamente intacta pelo arqueólogo inglês Howard Carter.

Ele ainda falou do seu antecessor e suas afirmativas sobre a sua certeza acerca da existência de uma segunda sepultura na KV-62: “Eu sou somente responsável por minhas palavras, mas creio que existe uma diferença entre o que ele disse e o que se entendeu. Al Damati me disse que jamais havia dito dos 90% nesses termos. Simplesmente se limitou a informar de que o especialista do radar afirmava que tinha essa porcentagem de probabilidades de existir algo”[1]. Por fim ele deixou um recado sensato “os procedimentos científicos devem ser respeitados e seguidos com cuidado porque teremos uma credibilidade no mundo”[1].

O jornal El Mundo ainda tentou contato com o professor Reeves, mas não obteve resposta. Fui averiguar no site do pesquisador, mas desde a minha consulta no dia 11 de fevereiro (2017) até o momento ele permanece fora do ar.

Zahi Hawass:

O mundialmente famoso arqueólogo egípcio Zahi Hawass nos últimos dias teceu em sua página no Facebook algumas palavras acerca da possibilidade de existir câmaras ocultas na tumba de Tutankhamon. Abaixo sua mensagem na integra (tradução nossa):

Ancient Egypt Dr. zahi HawassZahi Hawass

Você acredita que a múmia de Nefertiti está no Museu do Cairo, nas câmaras ocultas no túmulo do rei Tut, ou ainda está para ser descoberta?

Eu realmente não acho que a rainha Nefertiti está na KV-62 — o túmulo de Tutankhamon — por muitas razões: um, eu não acho que os sacerdotes de Amon jamais deixariam a rainha que seguiu seu marido Akhenaton ao adorar o Aton ser enterrada no Vale dos Reis; Dois, por que o rei Tut seria enterrado em um túmulo que pertencia à sua mãe? E três: o estilo do túmulo e a cena do Imyduat é exatamente o mesmo estilo encontrado no túmulo de Ay; isto poderia provar que este túmulo foi feito originalmente para Ay e quando Tutankhamon morreu repentinamente, ele deu-lhe essa tumba. Além disso, por que alguém entraria no túmulo e bloquearia o que estava por trás? — isso nunca aconteceu. A evidência mais importante que refuta esta teoria é que quando eu peguei as leituras de radar japonês e as dei a um especialista em radar americano, ele me escreveu oficialmente dizendo que essa leitura não mostra nada. Eu realmente acredito que Nefertiti foi originalmente enterrada em Amarna, e assim como o esqueleto na KV-55 — que descobrimos ser Akhenaton — foi movida, sua múmia poderia ter sido movida mais tarde para algum lugar no Vale dos Reis. Talvez eu esteja certo, talvez eu esteja errado, mas acho que a múmia com uma cabeça encontrada na KV-21 poderia ser Nefertiti. Por quê? Porque os egípcios sempre enterraram uma mãe e uma filha, como na KV-35 onde a múmia da rainha Tiye foi enterrada ao lado de sua filha, a mãe de Tutankhamon. Encontramos algumas evidências de que a múmia sem cabeça na KV-21 poderia ser Ankhesenamon. Portanto, talvez a outra múmia seja Nefertiti.

Para saber o que mais publiquei aqui no Arqueologia Egípcia sobre o assunto clique aqui.

Fontes:

[1] Egipto aparta al arqueólogo Reeves de la investigación de la tumba de Tutankamón. Disponível em < http://www.elmundo.es/ciencia/2017/02/10/589c9bf7ca4741f1318b4639.html >. Acesso em 10 de fevereiro de 2017.

[2] Question 10 – Do you believe Nefertiti’s mummy is in the Cairo Museum, in the hidden chambers in King Tut’s tomb, or it is yet to be discovered? Disponível em < https://www.facebook.com/112384738789408/photos/a.195047590523122.52414.112384738789408/1538410116186856/?type=3&theater >. Acesso em 10 de fevereiro de 2017.

 

Tutankhamon: busca por câmaras ocultas continua

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Após meses de silêncio, aparentemente uma terceira — e última — tentativa de se buscar por uma ou mais câmaras ocultas na tumba de Tutankhamon será retomada ainda este ano (2017). De acordo com as fontes, a pesquisa será realizada por uma equipe da Universidade Politécnica de Turim, sob a coordenação de Franco Porcelli, que é professor de física no departamento de ciência aplicada e tecnologia.

Tut Ankh Amon Sarcophagus, Egyptian Museum, Cairo, Egypt

Ataúde de Tutankhamon.

Eles irão examinar o túmulo e seus arredores com um radar de penetração do solo. “Será um trabalho científico rigoroso e vai durar vários dias, se não semanas”, disse Franco, “Três sistemas de radar serão usados.”

A investigação do túmulo do rei Tutankhamon é parte de um projeto mais amplo de longo prazo, que tem como finalidade realizar um mapeamento geofísico completo do Vale dos Reis, sítio arqueológico famoso por conter os enterramentos dos faraós do Novo Império, inclusive do rei Tutankhamon, cuja tumba foi encontrada praticamente intacta. Esse grande projeto também está sendo encabeçado pela Universidade Politécnica de Turim.

O radar, juntamente com os instrumentos baseados em tomografia de resistência elétrica e indução magnética, varrerá profundidades de até 32 pés para fornecer informações sobre estruturas subterrâneas existentes. Espera-se que dessa forma não reste mais dúvidas sobre a existência ou não de câmaras ocultas na tumba.

Os pesquisadores planejam realizar uma pesquisa preliminar no túmulo do rei até o final desse mês.

Pesquisas anteriores

A equipe de Porcelli será o terceira a fazer a busca nos últimos dois anos. Tudo começou em 2015, após o egiptólogo Nicholas Reeves sugerir que existiria uma ou mais câmaras escondidas no túmulo de Tutankhamon, porém, ele foi além, sugerindo que a continuação seria a tumba da rainha Nefertiti.
O primeiro exame feito com um radar foi realizado em 2015, pelo especialista escolhido pelo próprio Reeves, Hirokatsu Watanabe. Os resultados alcançados por ele pareciam favoráveis para a existência de duas câmaras. Mas, uma pesquisa também com radar realizada pela National Geographical Society (NGS) frustrou as expectativas, uma vez que os seus resultados apontaram para a inexistência de câmaras.

Hirokatsu Watanabe. Foto: Brando Quilici. 2016.

Trabalho realizado pela National Geograhic. Foto: Kenneth Garrett. 2016.

Por conta das dúvidas não está permitida nenhuma exploração invasiva.

Naquela época gravei um vídeo explicando melhor sobre a pesquisa e o motivo do impasse. Abaixo vocês podem conferi-lo:

Essa terceira equipe será responsável pela investigação final. Ao menos é isso o que se espera, já que o Ministério das Antiguidades do Egito foi constantemente acusado de criar um hype desnecessário acerca dessa pesquisa.

Para saber o que mais publiquei aqui no Arqueologia Egípcia sobre o assunto clique aqui.

Fontes:

Da Torino a Luxor alla ricerca di Nefertiti. Disponível em < http://www.lastampa.it/2017/02/07/cultura/nefertiti-ultimo-atto-JLPXuwCI0axBrc3DnVRPOO/pagina.html >. Acesso em 09 de fevereiro de 2017.
Italian scientists began the search for Nefertiti. Disponível em < http://chelorg.com/2017/02/09/italian-scientists-began-the-search-for-nefertiti/ >. Acesso em 09 de fevereiro de 2017.

O casal Ankhesenamon e Tutankhamon

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Ankhesenamon e Tutankhamon viveram durante o Período Amarniano (Novo Império; 18ª Dinastia), época iniciada pelo faraó Akhenaton e que se destaca pela criação de uma capital chamada Aketaton — destituindo assim Tebas — e a tentativa do faraó de tentar diminuir o poder econômico e influência religiosa do clero tebano do deus Amon. Para tal, ele adotou uma das formas do deus sol, o Aton, como divindade suprema.

Akhenaton, com a sua esposa principal, Nefertiti, teve seis filhas: Meritaton, Meketaton, Ankhesenpaaton, Neferneferuaton, Neferneferura e Setepenra. A segunda faleceu ainda da infância, levando Akhesenpaaton a virar a segunda princesa na linha de sucessão real e mais tarde rainha ao lado do seu provável meio-irmão, Tutankhaton.

Foi depois de alguns anos coroados que ambos trocaram de nome em honra ao deus Amon. Para saber mais sobre esse casal compartilho abaixo o vídeo “Ankhesenamon e Tutankhamon”, que postei no canal do Arqueologia Egípcia no Youtube (clique aqui para se inscrever). Nele faço um passeio sobre alguns acontecimentos que ocorreram — ou pode ter ocorrido — com esse casal:

Alguns exemplos iconográficos:

Para a boa sorte de nós arqueólogos e deleite dos fãs da Antiguidade egípcia, ótimas imagens desse casal chegou até o nosso tempo. A maioria saiu da KV-62, tumba tebana de Tutankhamon. Abaixo estão alguns exemplos:

Nesta primeira imagem que separei podemos observar o encosto de um trono dourado. Nele a rainha passa o que pode ser um unguento no rei. Esse artefato é interessante por diferentes motivos, mas o principal é que nele foi registrado não somente os nomes “Tutankhamon” e “Ankhesenamon”, mas igualmente os nomes anteriores deles: “Tutankhaton” e “Ankhesenpaaton”.

Fonte: STROUHAL, 2007.

Já este artefato é uma lamparina que quando acesa revela o desenho oculto do rei sentado em seu trono enquanto recebe duas ramas de palmeira de sua esposa, significando que ela desejava a ele um reinado de milhões de anos.

Fonte: JAMES, 2005.

As duas imagens seguintes foram retiradas do feretro dourado de Tutankhamon. Nele Ankhesenamon exerce diferentes papeis, seja guiando Tutankhamon, auxiliando-o ou em um momento de lazer.

Fonte: JAMES, 2005.

O próximo objeto provavelmente é a fivela de uma faixa que servia como cinto. Ankhesenamon aproxima-se do esposo com um pequeno buquê de flores.

Fonte: JAMES, 2005.

Ankhesenamon mais uma vez oferece flores para Tutankhamon, que faz um gesto com uma das mãos, indicando recebimento da oferta. Observando a imagem em um contexto geral a impressão que dá que eles estão em um jardim.

Fonte: STROUHAL, 2007.

Estas grandes estátuas dos dois está disponível para a visitação em Karnak, na área onde foi retratado o Festival Opet deles.

Referências:

JAMES, Henry. Tutancâmon (Tradução de Francisco Manhães). Barcelona: Folio, 2005.

STROUHAL, Eugen. A vida no Antigo Egito (Tradução de Iara Freiberg, Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Folio, 2007.

Sobre a teoria de câmaras ocultas na tumba de Tutankhamon

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Desde meados de 2015 a tumba do faraó Tutankhamon (KV-62) tem sido alvo de pesquisas não invasivas realizadas pelo Ministério das Antiguidades do Egito. São estudos que buscam por evidências de que a sepultura, que possui somente quatro cômodos, em verdade possuiria câmaras ocultas por trás de duas das paredes da câmara funerária (Imagem 01).

Imagem 01: KV-62. As partes amareladas são sugestões do que existiria atrás das paredes. Imagem: Theban Mapping Project (com adições).

Essa busca foi influenciada pelo o artigo do egiptólogo Nicolas Reeves, The burial of Nefertiti, que após observar fotos em alta resolução das paredes da sepultura salientou que o local contém ranhuras e rebocos grosseiros que apontariam que o túmulo possui uma continuação. Ainda de acordo com a sua interpretação, em verdade a KV-62 não pertencia a princípio ao Tutankhamon, mas à rainha Nefertiti, a qual Reeves acredita que teria governado como faraó.

— Leia mais em “Dossiê: Bastidores da procura por câmaras escondidas na tumba de Tutankhamon”.

Apesar da crença de que a KV-62 seja a sepultura de Nefertiti não seja aceita por muitos acadêmicos, a sugestão de que existiriam câmaras ocultas chamou a atenção do Ministério das Antiguidades, que nos dias 28 e 29 de setembro (2015) levou Reeves para dar uma olhada pessoalmente no local. Ocasião em que o ministro anunciou que existia uma grande possibilidade de haver câmaras secretas na tumba (uma chance de 70% em suas palavras).

Imagem 02: Hirokatsu Watanabe. Foto: Brando Quilici. 2016.

Um mês depois desta visita o pesquisador Hirokatsu Watanabe passou um radar na sepultura e anunciou que nos locais apontados por Reeves “Obviamente é uma entrada para alguma coisa”, complementando que “É muito profundo”[1]. Tempos depois, em 17 de março (2016) foi realizada uma conferência de imprensa onde foram liberadas as seguintes imagens:

Imagem 03: Dados produzidos pelas curvas do radar de penetração. Imagem disponibilizada pela assessoria de imprensa do MSA. 2016.

Imagem 04:  Área 1 e 2: O radar sugere que sejam espaços vazios; W e X o radar sugere que sejam metais; Y e Z o radar sugere que sejam materiais orgânicos. Imagem disponibilizada pela assessoria de imprensa do MSA. 2016.

Foi após este período que começou a crescer cada vez mais a desconfiança por parte de acadêmicos e não acadêmicos de que talvez a forma como esta pesquisa estava sendo levada era só uma tentativa de fascinar as pessoas e fazê-las visitar o país, cujo turismo não está em seus melhores anos.

— Leia mais em “Câmaras ocultas na tumba de Tutankhamon ou uma forma de chamar a atenção dos turistas para o Egito?

Uma segunda análise com um scaner foi realizada, mas ao contrário da primeira o Ministério das Antiguidades não liberou nenhuma imagem. O que foi particularmente estranho. Se vocês observarem eu nem sequer cito aqui no Arqueologia Egípcia o que ocorreu neste período porque alguma coisa realmente não estava se encaixando. E eu não estava interessada em encher o A.E. com notícias incompletas sobre uma pesquisa que estava cada vez mais parecendo ter intenções questionáveis.

Paralelamente, pesquisadores não vinculados ao projeto começaram a pedir por mais dados da análise feita pelo o Watanabe, afinal, o Ministério só tinha liberado imagens verticais e não horizontais. E de fato, com um corte assim não é possível ter muita certeza do que ele conseguia ver.

Conferência sobre o Tutankhamon:

Ocorreu entre os dias 06 a 08 de maio (2016) uma conferência no Egito para mostrar as últimas pesquisas realizadas sobre o faraó Tutankhamon e a última mesa do evento foi dedicada justamente para discutir a busca por câmaras ocultas. E nesta mesma mesa participaram Mamdouh Eldamaty (que era ministro na época em que os trabalhos tiveram início), o Nicholas Reeves, Hirokatsu Watanabe, Yasser El Shayb e Zahi Hawass.

Um dos meus contatos estava presente e pelas informações passadas ocorreu um notável debate acadêmico. Incrivelmente, horas mais tarde, a imprensa internacional e nacional (Egito) teve mais interesse em veicular sobre o breve bate-boca entre Hawass e Eldamaty e não se preocupou em noticiar para seus leitores que Watanabe, que meses antes tinha tanta certeza de que existia uma câmara oculta na tumba,  desta vez falou que os seus dados são inconclusivos. Ele ainda complementou que o seu aparelho foi customizado por ele e que por isso só ele conseguia ler os dados obtidos [2].

Imagem 05: Trabalho realizado pela National Geograhic. Foto: Kenneth Garrett. 2016.

Dias seguintes, 11 de maio (2016), saiu uma notícia escrita pelo jornalista e bacharel em Arte, Owen Jarus, no site Live Science [3] onde foi mencionado que os dados coletados pela equipe da National Geographic não foram liberados para o público porque eles simplesmente não tinham encontrado nada no local, mas que o Ministério queria continuar a manter a história. De acordo com a sua matéria ele tinha solicitado para a National Geographic os dados de sua pesquisa e como resposta foi dito que ela estava proibida de liberar qualquer informação sobre o assunto.

Quais são os passos futuros?

Tempos depois da mesa redonda do dia 08 o atual ministro anunciou que ia montar uma nova comissão para definir quais novas pesquisas serão realizadas. Particularmente não faço ideia de qual técnica eles planejam utilizar agora já que eles já fizeram uso do GPR, que de acordo com o pesquisador Lawrence Conyers (especialista na área e que foi entrevistado pelo Owen) é a ferramenta mais confiável.

Por hora só nos resta esperar.

Fontes:

[1] Will a New Bout of King Tut Fever Bring Visitors Back to Egypt?. Disponível em <http://news.nationalgeographic.com/2015/10/151002-tutankhamun-valley-of-the-kings-nefertiti-hidden-burial-rooms-archaeology-howard-carter-nicholas-reeves/ >. Acesso em 28 de novembro de 2015.

[2] In Egypt, Debate Rages Over Scans of King Tut’s Tomb. Disponível em < http://news.nationalgeographic.com/2016/05/160509-king-tut-tomb-chambers-radar-archaeology/ >. Acesso em 09 de maio de 2016.

[3] Nefertiti Still Missing: King Tut’s Tomb Shows No Hidden Chambers. Disponível em < http://www.livescience.com/54708-nefertiti-missing-no-chambers-in-king-tut-tomb.html >. Acesso em 11 de maio de 2016.

Lá no canal do Arqueologia Egípcia no YouTube irá sair um vídeo onde respondi algumas questões sobre esta pesquisa. O vídeo sairá aqui no site em uma próxima postagem, mas caso queira se inscrever no canal é só clicar aqui.