Partes de múmias roubadas há quase 100 anos retornam ao Egito

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Na semana passada, o Departamento de Repatriamento do Ministério das Antiguidades do Egito anunciou que partes contrabandeadas de múmias (não foi confirmado se é o mesmo corpo ou pessoas diferentes) foram repatriadas. Os membros – um crânio e duas mãos – tinham sido resgatados por investigadores dos EUA na cidade de Manhattan. Eles evitaram que um negociante norte-americano vendesse as peças.

Foto: Repatriation Department/Ministry of Antiquities

Shaa’ban Abdel Gawad, diretor do Departamento de Repatriamento, afirmou que as peças foram roubadas e contrabandeadas ilegalmente para os EUA há 90 anos atrás. De acordo com ele “Em 1927, um turista americano comprou essas peças de vários trabalhadores depois de fazer obras de escavações ilegais em um sítio arqueológico localizado no Vale dos Reis, cidade de Luxor”.

Foto: Repatriation Department/Ministry of Antiquities

Não foram liberadas mais informações sobre como essas partes foram retiradas do Egito e como foram finalmente localizadas quase 100 anos depois. Nem qual será a punição do contrabandista atual.

Foto: Repatriation Department/Ministry of Antiquities

O historiador Bassam el-Shamaa também teceu algumas palavras sobre esse repatriamento falando ao Egypt Today que “Os egípcios devem parar de vender e contrabandear a herança do Egito” e acrescentou “É contra todos os direitos humanos vender partes desmembradas de corpos humanos, mesmo que sejam múmias” rememorando sobre os leilões atuais que ainda possuem essa prática.

Contrabando e venda de múmias têm sido uma ação comum desde o início da Arqueologia Egípcia, mas tornou-se ilegal com o passar das décadas. Hoje é visto não só como algo ilegal, mas antiético, afinal, trata-se do corpo de alguém.

 

Fonte:

Egypt restores parts of dismembered mummies. Disponível em < https://www.egypttoday.com/Article/4/39285/Egypt-restores-parts-of-dismembered-mummies >. Acesso em 07 de janeiro de 2018.

Múmia praticamente intacta é descoberta em tumba de 3.500 anos no Egito

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

No início deste mês foi anunciada a abertura de mais alguns túmulos em Dra 'Abu el-Naga, Luxor (Egito). Os sepulcros, datados da 18ª Dinastia (Novo Império), pertencem a funcionários que atuavam na cidade de Tebas, na época capital do Egito.

Essas tumbas já tinham sido identificadas e numeradas pelo egiptólogo alemão Friederike Kampp-Seyfried na década de 1990. Um dos túmulos, denominado pelo pesquisador como “Kampp 161”, até então não tinha sido aberto por arqueólogos, enquanto o túmulo “Kampp 150” só teve a sua entrada escavada. Contudo, agora eles estão recebendo a devida atenção por parte de uma equipe de arqueólogos egípcios.

Foto: Nariman El-Mofty, Ap for National Geographic (2017)

Os nomes dos seus antigos donos ainda são desconhecidos. Entretanto, acredita-se que a Kampp 150 seja datada do reinado de Tutmés I e muitos selos funerários com os nomes de um homem chamado Maati e sua esposa Mohi foram encontrados na área do pátio. Isso pode sugerir a identificação do ocupante do túmulo. Os arqueólogos também encontraram estátuas de madeira colorida, máscaras funerárias e uma múmia ainda enrolada por suas bandagens, porém, sem a sua cabeça.

Foto: EPA

Foto: Stringer / AFP

A parede ocidental do túmulo apresenta uma imagem retratando um evento social, possivelmente um banquete, com um homem apresentando oferendas ao ocupante do túmulo e sua esposa. Máscaras funerárias de madeira, restos de móveis e um caixão decorado também foram descobertos no túmulo.

Foto: Nariman El-Mofty, Ap for National Geographic (2017)

Já a Kampp 161 acredita-se que seja datada do reinado de Amenhotep II ou Tutmés IV. Isso com base em comparações estilísticas e arquitetônicas com outras tumbas da região.

Fotos: Nariman El-Mofty, Ap for National Geographic (2017)

Ainda existem tumbas esperando ser pesquisas em Luxor, apesar de já conhecidas pelo Ministério de Antiguidades do Egito.

Foto: Stringer / AFP

Fontes:

El-Mofty, Nariman. 3,500-Year-Old Tombs Uncovered in Egypt. One Has a Mummy. In: National Geographic. Disponível em < https://news.nationalgeographic.com/2017/12/egypt-tomb-mummy-naga-archaeology-ancient/ >. Publicado em: 09 de Novembro de 2017. Acesso em 09 de novembro de 2017.

EFE. Encontrados nuevos tesoros egipcios en dos tumbas del Imperio Nuevo. In: La Vanguardia. Disponível em < http://www.lavanguardia.com/cultura/20171209/433525385521/una-momia-mascaras-o-frescos-entre-los-tesoros-de-2-tumbas-del-imperio-nuevo.html >. Publicado em: 09 de Novembro de 2017. Acesso em 09 de novembro de 2017.

Egypt uncovers ancient tombs at Luxor. In: BBC. Disponível em < http://www.bbc.com/news/world-middle-east-42295162 >. Publicado em: 09 de Novembro de 2017. Acesso em 09 de novembro de 2017.

Múmia intacta datada do Período Greco-Romano é encontrada em Fayum (Egito)

Por Márcia Jamille | Instagram @MJamille

Uma missão de arqueologia egípcio-russa, em Fayum, no Sítio Arqueológico de Deir al-Banat (Mosteiro de Al-Banat), descobriu um caixão de madeira com uma múmia datada do Período Greco-romano.

A múmia está em boas condições de preservação e ainda enrolada em linho. Ela também contém a sua máscara mortuária que é feita de cartonagem, pintada em azul e ouro. Na área do seu tórax está uma cena da deusa Ísis.

Apesar da conservação da múmia, o ataúde está em mau estado: além de não possuir inscrições, ele possui rachaduras que se espalham por todo o artefato.

A missão realizou uma conservação preliminar tanto no ataúde como na múmia, para que ela fosse transportada com mais segurança para um outro local, onde será submetida a mais trabalhos de conservação e documentação.

Sítio Arqueológico de Deir al-Banat (Mosteiro de Al-Banat)

A missão russa está trabalhando nesta área há cerca de 7 anos afiliada ao Russian Institute for Oriental Studies e está sob a liderança da Dra. Galina Belova.

Notícia e fotos via comunicado de imprensa do MSA.

Profanação e romantismo: a verdadeira maldição das múmias

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Esta é a minha tradução integral do texto “Friday essay: desecration and romanticisation – the real curse of mummies” (Ensaio da sexta-feira: profanação e romantismo – a verdadeira maldição das múmias) de Craig Barker, que é gerente de educação dos museus da Universidade de Sidney. Achei interessante trazê-lo para vocês porque além de falar do uso da imagem de múmias egípcias no cinema e na literatura, faz uma reflexão sobre isso. Então, para os interessados em história do cinema, literatura e claro no Egito Antigo esse artigo será um grande bônus. Aproveito para lembra-los que já traduzi outro texto com um assunto levemente semelhante em “O Antigo Egito e os primórdios do cinema” e fiz minha própria contribuição sobre o tema em “Múmias, múmias e mais múmias no cinema”.

 

Ensaio da sexta-feira: profanação e romantismo – a verdadeira maldição das múmias

Craig Barker, Gerente de Educação, Sydney University Museums, University of Sydney.

Este mês de junho, o túmulo de antigas ideias de Hollywood vai abrir novamente e apresentar o conto de um antigo túmulo egípcio perturbado por um atrapalhado arqueólogo e/ou um herói de ação-aventura, que inadvertidamente e involuntariamente desencadeia uma maldição.

Esta maldição ressuscitará uma múmia buscando vingança ou uma amante perdida, causando estragos na sociedade contemporânea até que nosso herói possa detê-la. Este ano A Múmia, dirigida por Alex Kurtzman, verá os faraós de Hollywood Tom Cruise e Russell Crowe enfrentarem uma múmia feminina interpretada por Sofia Boutella.

Ouvi isso antes? O filme de Kurtzman é apenas o mais recente de uma linha surpreendente da mumiamania e egiptofilia antes da descoberta do túmulo de Tutankhamon em 1922. Enquanto a cultura popular se deleitava com múmias por mais de dois séculos, na mesma época, as antiguidades egípcias foram saqueadas, desejadas e depois profanadas. No século 19, era até moda sediar as festas para “desenrolar”, onde as múmias eram reveladas e dissecadas como um evento social dentro dos salões vitorianos.

Uma múmia é um cadáver de um humano ou animal cuja pele e órgãos foram preservados. Isso pode ser feito deliberadamente, através de processos de embalsamamento químico, ou acidentalmente, graças ao clima. Várias culturas antigas praticavam a mumificação deliberada, tal como o povo Chinchorro da América do Sul, e os mais famosos, os corpos dessecados do Antigo Egito, que foram meticulosamente preparados para a vida após a morte.

O estudo de múmias tornou-se uma disciplina acadêmica importante e mais continua a ser descoberto. No último mês, vimos a descoberta de 17 múmias em uma necrópole perto da cidade de Minya, no Vale do Nilo, e a descoberta da tumba de nobre do Novo Império em Luxor. Apesar desse nível de atenção acadêmica e meticulosa investigação arqueológica, infelizmente, saques e contrabando de antiguidades do Egito, incluindo múmias, continua hoje.

 

Tudo realmente velho é novo novamente

Com um orçamento anunciado em $125 milhões, filmado principalmente em Oxford e no Museu Britânico, A Múmia é um grande orçamento investido pela Universal Studios. A história sugere que esse filme será um grande sucesso.

Entretanto, a mãe de todos os filmes de múmia permanece sendo o filme original de 1932, A Múmia (The Mummy), estrelado por Boris Karloff; Ele define o modelo para os outros seguir. O sacerdote egípcio Imhotep, simpaticamente interpretado por Karloff, foi mumificado vivo por tentar reviver seu amor proibido, a princesa Ankh-es-en-amon. Descoberto pelos arqueólogos que o ressuscitam lendo do Pergaminho de Thoth, Imhotep acredita que uma mulher moderna, Helen Grosvenor (interpretada por Zita Johann), é a reencarnação da princesa e a leva pela Londres moderna[1]. Não é só um monstro, como também um amante incompreendido.

Mais de uma dúzia de filmes se seguiram, a partir da década de 40 (The Mummy’s Tomb), os anos 50 (The Mummy), os anos 80 (The Awakening) e que culminaram com sucesso de bilheteria de 1999, A Múmia, que gerou duas sequencias e um spinoff de franquia prequel[2].

Cada um desses filmes tem fundamentalmente o mesmo enredo. Na versão de 2017, uma mulher é ressuscitada dos mortos em vez de um homem, mas mesmo isso não é novo. Blood From the Mummy’s Tomb (1971) de Hammer apresentou uma múmia feminina (Valerie Leon)[3], que é revivida e depois caminha por aí com poucas roupas para um inverno de Londres.

Valerie Leon em Blood From the Mummy’s Tomb (1971).

De maldições e reis

Por que a múmia é uma tropa popular no cinema de terror? A múmia, pode-se argumentar, simboliza alguns dos nossos medos mais básicos em torno da mortalidade. O apelo duradouro da múmia também pode ser rastreado para a escavação arqueológica que todo mundo no planeta já ouviu falar: o túmulo de Tutankhamon. A descoberta desta tumba por Howard Carter no Vale dos Reis em 1922 fez manchetes internacionais. A tutmania resultante influenciou todo o tipo de cultura popular, desde o design e moda Art Deco, até canções pop e publicidade.

Arquivos da filmagem das escavações de Carter no túmulo de Tutankhamon em 1922.

Uma exposição recente no Museu Ashmolean de Oxford explorou o quão famoso Tutankhamon foi durante esse período-chave da mumiamania. A cobertura de mídia das escavações foi insaciável. Carter teve um acordo exclusivo com o jornal Daily Express[4], que levou outros repórteres a enfeitar suas histórias. Isso levou a relatos de uma suposta (mas inexistente) maldição no túmulo: “A morte vem em asas rápidas para aquele que perturba a paz do rei”. Foi um absurdo, é claro, mas uma vez que o financiador do projeto arqueológico, Lord Carnarvon, morreu no Cairo graças a uma picada de mosquito infectado, a história da maldição decolou mais rápido do que qualquer notícia real. Na cultura popular, múmias e maldições se tornaram irremediavelmente ligadas.

A descoberta de Tutankhamon pelo time de Carter inspirou uma série de relatos ficcionais, de graus variados de fidelidade à história, incluindo o filme The Curse of King Tut’s Tomb (1980), um remake de filme de TV com o mesmo nome em 2006 e a série britânica de televisão Tutankhamun de 2016.

Enquanto Tut perpetuou a loucura de Hollywood por múmias, o fascínio público por maldições antecede a morte infeliz de Carnarvon. Uma série de filmes mudos com temas de múmias foram feitos nos primeiros anos de cinema, incluindo o Cleopatra’s Tomb (1899) pelo cineasta pioneiro George Melies e The Mummy, de 1911. Infelizmente, a maioria destes não sobreviveu.

Havia também uma rica tradição do século XIX de múmias na literatura. As múmias apareceram em tudo, desde trabalhos sérios até penny dreadfuls. Um número de escritores famosos contou histórias que cimentaram a história da maldição, incluindo Lost in a Pyramid: or th Mummy’s Curse (1869) de Louisa May Alcott; Jewel of Seven Stars (1903) de Bram Stoker e Lot No. 249 (1892) de Arthur Conan Doyle.

‘Modern Antiques’ foi uma caricatura de 1806 de Thomas Rowlandson, que satiriza o entusiasmo britânico pelo antigo Egito. Wikipedia.

Outras obras foram além das maldições. Some Words With a Mummy (1845) de Edgar Allan Poe foram um comentário satírico sobre Egiptomania. Havia também romances, talvez melhor tipificados por The Mummy’s Foot, história de 1840 de Théophile Gautier, em que um jovem compra um pé mumificado de uma loja de antiguidades parisiense para usar como papelão. Naquela noite, ele sonha com a bela princesa a quem o pé também pertencia, e os dois se apaixonam, apenas para serem separados pelo tempo.

Um número de estudiosos, especialmente Jasmine Day, têm investigado o papel das múmias na ficção do século XIX e um aspecto interessante é o número de escritoras femininas desses contos.

Uma das, se não a mais antiga, história de múmia é The Mummy!: Or a Tale of the Twenty Second Century (1827) de Jane Webb (Loudon), que mostra o avivamento de Quéops no ano 2126. Outras escritoras apresentaram um interessante subtexto e perspectiva.

Os túmulos de múmias egípcias da realeza haviam sido violados e explorados por saqueadores, e uma analogia com o estupro é clara dentre as antigas ficções de maldição de múmias escritas por mulheres. Em contraste, escritores masculinos, como o Gautier, apresentavam muitas visões mais romantizadas ou eróticas dos mortos.

 

A violação do Nilo

Pote de boticário do século XVIII com a inscrição MUMIA do Deutschen Apothekenmuseum Heidelberg, Alemanha. Wikipedia.

O fascínio europeu pelas múmias egípcias começou há séculos: o “pó de múmia” foi vendido em boticários para uma variedade de fins médicos e afrodisíacos (Shakespeare, a menção a múmias na cena do caldeirão das bruxas de Macbeth).

Enquanto isso, “múmia marrom”, um pigmento colorido feito parcialmente de múmias, era usado na arte europeia (foi particularmente favorecido pelos pré-rafaelitas).

Mas, a egiptomania realmente começou com seriedade no século XIX. Os relatos do explorador britânico de origem italiana, Giovanni Belzoni, de suas aventuras de 1815-8 no Egito tornaram-se lendários, assim como as múmias e outras antiguidades que ele trouxe para Londres.

Seus relatos falavam de entrar em túmulos e os sons cruéis feitos sob seus pés enquanto ele estava sob corpos mumificados.

Cientistas que acompanharam as campanhas egípcias de Napoleão descobriram a pedra de Rosetta, que mais tarde no Reino Unido levaria à decifração de hieróglifos. O turismo egípcio decolou em meados do século XIX. Tudo isso viu um interesse crescente no Egito. Múmias, ou pelo menos restos mumificados, tornaram-se itens valorizados em coleções de museus nacionais e gabinetes pessoais de curiosidades.

O desejo de possuir múmias e outros artefatos egípcios, juntamente com a expansão colonial europeia e o fascínio pelo orientalismo, impulsionaram um enorme mercado de restos humanos e outras antiguidades. Famosamente descrito como “o estrupo do Nilo”, este saque foi em uma escala monumental, literalmente no caso de obeliscos e esculturas gigantes. Egípcios empreendedores estabeleceram lojas de antiguidades para suprir o desejo insaciável de visitantes europeus de possuir o passado.

G.B. Belzoni forçando passagem na segunda pirâmide de Gizé, 1820, gravura à mão. UA1992.24. Coleção de Arte da Universidade de Sydney.

Muitas das múmias terminaram em museus destinados a estudos acadêmicos, mesmo aqui na Austrália. De museus universitários para coleções estaduais para instituições privadas, como MONA, um número surpreendentemente grande de múmias têm feito a este país.

Outros acabaram nas mãos de colecionadores europeus e americanos privados, onde as festas do “desenrolar” públicas e privadas tornaram-se populares. As festas do desenrolar do cirurgião Surgeon Thomas Pettigrew em um Teatro Piccadilly na década de 1820 foram as primeiras do que se tornou um evento popular no meio desse século.

Foi parcialmente por conta da escala dessa perda que levou o Egito a desenvolver uma das primeiras leis de antiguidades do mundo. Promulgada por um decreto de 1835, visava impedir a remoção não autorizada de antiguidades do país.

Múmia de um menino, início do século II dC, de Tebas, Egito. NMR26.1, Nicholson Museum, Universidade de Sydney. Sydney University Museus

Seguiu-se a criação do Conselho Supremo de Antiguidades em 1858 e a abertura do Museu do Cairo cinco anos depois. A inundação das antiguidades egípcias no exterior não parou, mas definitivamente desacelerou e combinada com a ascensão da disciplina acadêmica da arqueologia, viu uma mudança gradual na compreensão da importância do contexto para as antiguidades.

Paul Dominique Philippoteaux, Examen d’une momie – Une prêtresse d’Ammon, óleo sobre tela, Egito, c.1895 – 1910. Peter Nahum at the Leicester Galleries.

O subsequente aperto da legislação no Egito e em outros lugares, seguido da Convenção da UNESCO de 1970 sobre os Meios de Proibir e Prevenir a Importação, Exportação e Transferência de Propriedade Cultural, criou o ambiente moderno para a investigação ética e arqueológica e a exportação legal de antiguidades.

 

Sem fim para a egiptomania

No entanto, o saque ainda continua a ser um grande problema no Egito hoje, particularmente com o declínio do turismo e as dificuldades econômicas que vieram com a turbulência política após a Primavera Árabe de 2011. O número de antiguidades saqueadas e contrabandeadas do Egito continua a ser extraordinário. Cerca de $ 26 milhões em antiguidades saqueadas foram ilegalmente transportadas para os EUA a partir do Egito apenas nos primeiros cinco meses de 2016.

De acordo com o site Live Science, os guardas das antiguidades foram “abatidos” enquanto protegiam um túmulo antigo e “as múmias foram deixadas de fora no sol para apodrecer depois que seus túmulos foram roubados”.

Roubo e destruição de múmias no local de Abu Sir Al Malaq no Egito. HBO.

O problema está em andamento e varia de sindicatos internacionais de contrabando internacional até os locais tentando aumentar o dinheiro extra. As imagens de satélite demonstram grandes áreas que estão sendo saqueadas sistematicamente.

A escavação não supervisionada pode ser perigosa. Dois escavadores ilegais foram mortos este mês, quando sua casa entrou em colapso sobre seu túnel, o último de vários incidentes. É uma lembrança trágica de quão perto estamos do passado e como a atração das múmias é tão grande hoje quanto a Belzoni.

Enquanto comemos nossa pipoca e gostamos de assistir a batalha de Tom Cruise com os mortos reanimados, vale a pena lembrar que a verdadeira maldição das múmias não é o que elas podem nos fazer na ficção e no cinema, mas sim pela maneira como as profanamos e tratamos na vida real.


Texto original:

Friday essay: desecration and romanticisation – the real curse of mummies. Disponível em < http://theconversation.com/friday-essay-desecration-and-romanticisation-the-real-curse-of-mummies-77476 >. Acesso em 01 de junho de 2017.


Tenha em casa: A Edições Del Prado, uma editora especializada em vendas de fascículos com imagens colecionáveis, possui uma coleção intitulada “Cenas do Egito Antigo”. Uma delas recria um momento durante a mumificação.

Clique aqui para conferir a peça ou aqui para ver as demais cenas.

Minhas notas acerca do texto:

[1] Creio que ocorreu um equívoco aqui, já que a história toda se passa no Egito.

[2] Possivelmente ele está falando de “O Escorpião Rei”.

[3] Lembrando que este filme não é da Universal Studios.

[4] Ele falou que foi esse, mas foi o Times de Londres.

Animação sobre a múmia Sha-Amon-en-su

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Possivelmente advinda de Tebas, a múmia da cantora Sha-Amon-en-su foi presenteada ao imperador brasileiro D. Pedro II durante a sua segunda viagem para o Egito (1876-1877) pelo quediva Ismail Paxá (1830 – 1895). O grande bônus neste caso é que a múmia foi entregue ainda selada em seu ataúde e assim permanece até no Museu Nacional do Rio de Janeiro, onde está disponível para visita.

Igualmente a muitos artefatos da época, não se sabe de qual sítio arqueológico a múmia foi retirada, exceto que ela pertence a Baixa Época.

Para explicar um pouco sobre a história de Sha-Amon-en-su foi elaborada, sob a direção de Fernanda Macedo e Leticia Curi, uma breve animação sobre essa importante mulher que em vida era a responsável por realizar rezas através da música para o deus Amon. Confira a seguir:

— Leia também: A história do Museu Nacional e o Egito Antigo no Brasil.

Perguntas e respostas: o pênis de Tutankhamon?

Por Márcia Jamille | Instragram | @MJamille

A leitora Camila enviou uma pergunta bem interessante sobre a mumificação do Tutankhamon e que pouca gente sabe, então achei interessante compartilhar a questão — e minha resposta — aqui:

Márcia, consta teorias com argumentos validos sobre o fato do embalsamento de Tutancâmon envolver tanta controvérsias .. Como por exemplo o órgão reprodutor do mesmo ter sido embalsado de maneira digamos, incomum..? Guardo a resposta.

Grata.

— Camila Domingos, via Facebook

Sim, de acordo com a profa Salima Ikram (uma pesquisadora que respeito profundamente) a múmia parece ter sido sepultada com o pênis ereto, o que seria uma analogia com a mumificação do deus Osíris. Faz parte também da sua proposta (esta parte acho realmente radical, mas que não deve ser descartada) que o desmembramento de Tutankhamon pode já ter ocorrido na antiguidade (e não durante a sua dissecação por parte da equipe de Howard Carter na década de 1920) porque queriam que ele se transformasse em Osíris de fato [lembra do mito em que ele (o Osíris) é  desmembrado e depois reconstruído por Ísis?]. Seria por este motivo que ele foi coberto por tanta resina preta… Para que no outro mundo ele representasse a fertilidade de Osíris. Abraços!

Tutankhamon. Foto: Harry Burton.

Você tem alguma dúvida sobre o Antigo Egito? Pode enviar para mim. Clique aqui e saiba como.

“Tutankhamon não merece esta profanação do século 21”

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Estas palavras não são minhas, são do Jonathan Jones, jornalista do The Guardian. Ele as proferiu em seu artigo intitulado Tutankhamun does not deserve this 21st-century desecration [1]. Foi o único, entre tantos, que vi criticar em matéria a nova reconstituição do faraó Tutankhamon, desta vez assinada pela BBC, Tutankhamun: The Truth Uncovered (2014), e a qual ele denominou como “grosseira e vulgar”. Faço minha as palavras dele:

Novos métodos de escaneamento e imagens digitais oferecem novas maneiras de ficarmos dentro das múmias egípcias e outras relíquias biológicas, dando face, carne e mesmo órgãos internos para os mortos. Mas igual a qualquer avanço científico, estas técnicas precisam ser usadas com inteligência e sensibilidade. A realização de uma autópsia virtual altamente promovida em Tutankhamon não é uma investigação sensível com a vida, que nos ajuda a imaginar e entender o passado. É um mórbido show de horrores que reduz o mistério deste faraó uma vez esquecido e seu magnífico túmulo em um grosseiro e vulgar material de entretenimento (Tradução nossa).

A BBC está vendendo o seu documentário como uma amostra da verdadeira face de Tutankhamon, extraída de uma autópsia digital de ponta, o que há de mais moderno em tecnologia. Mas aonde vimos algo parecido? Em 2005 quando fomos apresentados para a “real” face de Tutankhamon, ao lado da genuína causa da sua morte que teria sido uma infecção desenvolvida em um ferimento em sua perna. Ou em 2002 quando também nos mostraram o “autêntico” rosto de Tutankhamon e sua terrível morte por assassinato, uma teoria já apresentada anos antes, mas que não tinha tido uma “comprovação” forense.

Nova reconstituição de Tutankhamon. Deu até pena do coitado se apoiando com a bengala do lado errado do corpo. Fonte da imagem: BBC. 2014.

A cada ano estamos (nós público e até mesmo cientistas) incutindo em novos erros em ajudar a propagandear o entretenimento acerca das mazelas que supostamente abateram o faraó Tutankhamon. Estamos levando a diante um mito sobre outro mito a fim de produzir documentários cada vez mais novelísticos, sensacionalistas vestidos como “fidedigno” e cientifico e cada vez mais estamos deixando que seja jogada fora a humanidade de muitos dos nossos mortos, a exemplo do próprio Tutankhamon.

É difícil explicar para o público comum porque muitos desses documentários têm tantas falhas, uma vez que o senso comum acredita fielmente que o que é apresentado é ciência. Os métodos não deixam de ser científicos, mas outros fatores são ignorados, como, por exemplo, o corpo de Tutankhamon passou por um processo tafonomico cruel. A palavra “tafonomia” é estranha para muitos, mas explicando de forma simples tem a ver com as atividades que ocorrem com o corpo após seu sepultamento. No caso do faraó em questão ele foi carbonizado pelos óleos e resinas, o que torna equivocado falar de uma deficiência no seu pé esquerdo e até mesmo a retirada de amostras decentes de DNA para a análise, mas ninguém explicou isto para os espectadores da National Geographic em 2010, quando anunciaram a resposta “conclusiva” para as linhas de parentesco dele e a nova causa “definitiva” da sua morte, a malária.

Somado a isto existe muito dinheiro rondando a imagem de Tutankhamon, não é barato produzir um documentário sobre ele. A Arqueologia hoje tornou-se um bem de consumo e por isso da importância de que seus documentários viralizem. Só para vocês terem uma ideia do quão descabida tornaram-se as pesquisas sobre a causa da morte de Tutankhamon, deem uma olhada nesta modesta lista [2]:

☥ Década de 1920: tumor cerebral;

☥ 1968: golpe na cabeça;

☥ 1993: atropelamento;

☥ 1999: golpe na cabeça, assassinato;

☥ 2002: golpe na cabeça, assassinato. Primeira reconstituição facial;

☥ 2005: ferida infeccionada no joelho esquerdo;

☥ 2010: malária; possível osteonecrose; anemia falciforme;

☥ 2012: epilepsia;

☥ 2014: Deficiência no pé esquerdo.

Dito isto, o que será que teremos para o ano que vem?


[1] Tutankhamun does not deserve this 21st-century desecration. Disponível em < http://www.theguardian.com/commentisfree/2014/oct/21/tutankhamun-desecration-computer-scan-images-pharoah-archaeological >. Acesso em 22 de outubro de 2014.
[2] Mais uma teoria para Tutankhamon. Disponível em < http://arqueologiaegipcia.com.br/2010/06/25/mais-uma-teoria-para-tutankhamon/ >. Acesso em 22 de outubro de 2014.

O “Pó de Múmia”

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

 

A ideia da antiguidade egípcia como uma época mística e cheia de mistérios levou muitos europeus a adotarem costumes que hoje para nós são incomuns. Dentre eles está o uso do afamado “Pó de Múmia”, que se tratava de pedaços de pele ou músculo de cadáveres humanos mumificados que eram triturados e vendidos por boticários como produtos curativos.

É possível que a crença na eficácia medicinal do “Pó de Múmia” tenha tido relação com o valor curativo que era dado ao betume durante a antiguidade, já que embora ele tenha sido empregado na mumificação egípcia somente nos períodos finais do faraônico foi devido a forma como ele era chamado pelos persas (múmiya) e árabes (mûm) e a sua cor semelhante a da resina quente usada na preservação de corpos egípcios que o temo múmia foi popularizado. Com isto não é difícil presumir que alguma associação foi estabelecida.

Abaixo alguns exemplos de recipientes onde usualmente era guardado este produto:

Pote cilíndrico para armazenar "Pó de Múmia", datado em cerca de 1600 até 1800. Science Museum/Science & Society Picture Library. Imagem disponível em . Acesso em 03 de janeiro de 2014.

Pote cilíndrico para armazenar “Pó de Múmia”, datado em cerca de 1600 até 1800. Science Museum/Science & Society Picture Library. Imagem disponível em < http://www.sciencemuseum.org.uk/images/I049/10317075.aspx >. Acesso em 03 de janeiro de 2014.

Pote para armazenar "Pó de Múmia” pertencente à coleção do Museu Hamburg, Alemanha. Imagem disponível em . Acesso em 03 de janeiro de 2014.

Pote para armazenar “Pó de Múmia” pertencente à coleção do Museu Hamburg, Alemanha. Imagem disponível em < http://pollenblick.wordpress.com/tag/antihistaminka/ >. Acesso em 03 de janeiro de 2014.

Pote para armazenar "Pó de Múmia”, datado do século 18, pertencente à coleção do Deutschen Apothekenmuseum Heidelberg, Alemanha. Imagem disponível em . Acesso em 03 de janeiro de 2014.

Pote para armazenar “Pó de Múmia”, datado do século 18, pertencente à coleção do Deutschen Apothekenmuseum Heidelberg, Alemanha. Imagem disponível em < http://en.wikipedia.org/wiki/File:Albarello_MUMIA_18Jh.jpg>. Acesso em 03 de janeiro de 2014.

O “Pó de Múmia” poderia ser consumido de duas formas: através do seu consumo oral (misturados aos alimentos) ou passado sobre a pele.

Para saber mais:

A Pigment from the Depths. Disponível em < http://magazine.harvardartmuseums.org/article/2013/10/31/pigment-depths-0 >. Acesso em 03 de janeiro de 2014.

A relação entre o uso do betume e a antiguidade egípcia

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

 

Afloramento de betume em Puy de la Poix, França. Imagem disponível em < http://en.wikipedia.org/wiki/File:Puy_de _Poix,_gisement_ bitumeux.JPG >. Acesso em 03 de janeiro de 2014.

Do Antigo Reino até o Período Romano, foram adotadas diferentes ferramentas para a elaboração da mumificação artificial de humanos e dos demais animais. Embora os viajantes gregos Heródoto e Diodorus tenham deixado para nós dicas (SEEHER, 1999), ainda nos são misteriosos alguns dos artigos utilizados para este procedimento, mas é consenso entre os egiptólogos que um dos principais produtos foi a resina advinda da seiva de árvores (SEEHER, 1999). Contudo, tem existido na literatura comum e mesmo acadêmica o constante uso do termo “betume” para designar esta resina (“resina betuminosa”, de acordo com algumas bibliografias).

Nos primórdios da arqueologia egípcia a crença no uso do betume como parte da mumificação foi estabelecida graças a sua cor preta, associada com a cor escura de algumas múmias. No entanto, atualmente temos ciência de que o emprego do termo foi até certo ponto um equívoco, especialmente porque o betume não foi um componente utilizado ao longo de todo o faraônico. Tal confusão provavelmente se deu ainda na antiguidade, como pode ser observado a seguir.

O betume utilizado para fins curativos?

O historiador romano Plinio “O Velho” (23 – 78 dEC) elogiou as virtudes medicinais de um material negro alcatroado lançado espontaneamente de fissuras da terra locadas em várias localidades do que agora chamamos de Oriente Médio, especialmente no moderno Iraque (antiga Pérsia), no território do Dara’gerd.

Este material, o qual nós temos denominado de asfalto ou betume, era chamado de múmiya pelos persas possivelmente porque sua consistência era semelhante a uma cera chamada mûm pelos árabes (HARRIS, 1999; PETTIGREW, 1834 apud AUFDERHEIDE, 2010).

Provavelmente devido a estes dois termos, ao longo dos séculos foram estabelecidos equívocos acerca do suposto uso deste material na mumificação de corpos egípcios. Outro ponto que influenciou para a confusão foi quando o medicamento proveniente do betume ficou extremamente popular após o século 13 e a resina cristalina encontrada nos corpos mumificados do Egito também começou a ser utilizada para o mesmo fim para atender este mercado. Esta relação entre estes produtos foi estabelecida porque pensava-se que se tratavam do mesmo material, até a sua aparência bruta sugeria uma identidade química. Simultaneamente o termo múmiya foi transferido para tal resina (DAWSON, 1927 apud AUFDERHEIDE, 2010).

Múmia egípcia. Foto disponível em . Acesso em 17 de janeiro de 2014.

Múmia egípcia. Foto disponível em < http://www.washingtonpost.com/blogs/wonkblog/wp/2013/03/11/even-mummies-get-heart-disease/ >. Acesso em 17 de janeiro de 2014.

Quando os físicos europeus identificaram a aparente eficácia clínica da resina, os boticários começaram a empregá-la para os mais diversos fins (AUFDERHEIDE, 2010), porém, quando era realizada a coleta nas múmias, fragmentos castanho-claro de músculos frequentemente eram incluídos acidentalmente. Deste fato, mais a onda orientalista da época que ajudava na criação de um Egito Antigo místico cuja mágica ainda estava presente, surgiu a fé de que estas partes trituradas das múmias auxiliavam no seu uso médico-terapêutico. Esta ligação estabelecida com o betume, com a resina e por fim com a pele mumificada fez com que o termo múmiya fosse transferido no século 18 desta vez para os corpos humanos preservados e mais tarde também para todo e qualquer tecido total ou parcialmente conservado.

Mas o betume foi utilizado para a mumificação?

Em 1926 o químico britânico Alfred Lucas (1867-1945) identificou a possível presença do betume do Mar Vermelho em múmias egípcias (SEEHER, 1922), que poderia ter chegado ao Egito através de caravanas advindas do deserto oriental, mais propriamente do Sinai.

Conhecemos o uso da resina líquida quente em múmias datadas do Antigo Império e ao longo de todo o faraônico, mas o betume só foi adotado tardiamente. Um exemplo do seu uso foi encontrado em restos mortais provenientes da tumba do faraó Djoser (3ª Dinastia), mas que foram datados como pertencentes aos períodos tardios. Nesta ocasião foi constatado que o seu uso foi empregado em uma mistura com a resina, esperando que assim a cultura de micro organismos – responsável pela decomposição cadavérica – no tecido morto fosse desencorajada.

Referências:

AUFDERHEIDE, Arthur. The Scientific Study of Mummies. Nova York: University of Cambridge, 2010.

HARRIS, James. “Scientific study of mummies”.In: BARD, Kathryn.Encyclopedia of the Archaeology of Ancient Egypt. London: Routledge, 1999.

SEEHER, Jurgen. “Ma’adi and Wadi Digla”. In: BARD, Kathryn. Encyclopedia of the Archaeology of Ancient Egypt. London: Routledge, 1999.