Múmia egípcia de 2,5 mil anos chama atenção de cientistas no Brasil

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

A identificação de uma cabeça de uma múmia egípcia no Brasil em 2017 chamou a atenção de pesquisadores. Apelidada de a “Múmia de Cerro Largo” (ou Ireti-Neferet, como os responsáveis pela pesquisa decidiram nomeá-la), esta cabeça permaneceu anônima no museu Centro Cultural 25 de Julho em Cerro Largo, no Rio Grande do Sul. Entretanto, ela foi notada pelo historiador Édison Hüttner, que conseguiu permissão para estudá-la na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

Foto: Bruno Todeschini

Durante um ano ela passou por diferentes tipos de pesquisas, uma delas foi uma análise por radiocarbono feita nos Estados Unidos (no laboratório Beta Analytic). Ela também passou por uma tomografia computadorizada no Instituto do Cérebro da PUCRS. Já a parte da arqueologia ficou por conta do arqueólogo Moacir Elias Santos.

Graças as análises, foi possível descobrir que o crânio pertence a uma mulher que morreu com cerca de 40 anos e que viveu no Egito entre 768 a 476 a.E.C, época situada entre o final do Terceiro Período Intermediário e o início do Período Tardio. 

Também sabe-se que ela não teve uma mumificação de qualidade — ao menos levando em consideração o padrão egípcio — já que não ocorreu a conservação total dos tecidos moles e não foram encontrados resquícios de resina dentro da caixa craniana. 

Outro detalhe importante é que foi descoberto que ela possuía uma incrustação feita em pedra no lugar de um dos olhos, assim como chumaços de linho preenchendo a área dos glóbulos oculares. 

Um rosto milenar

E as pesquisas continuam a avançar: em 2019 o crânio recebeu uma reconstituição facial realizada pelo artista forense Cícero Moraes — responsável também pela reconstituição da face da múmia Thotmea —. 

Reconstituição facial da “Múmia de Cerro Largo”

O resultado foi então apresentado para o público em agosto de 2019, durante o evento “Achados sobre a múmia Ireti-Neferet”, no auditório Ir. José Otão do Hospital São Lucas da PUCRS. E espera-se que em breve uma cópia da reconstituição seja feita e posta em exposição. 

Tem curiosidade em saber como esta múmia veio parar no Brasil? Assista o vídeo abaixo:

Egito está se preparando para inauguração do maior museu de antiguidades do mundo

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Uma das vistas mais emblemáticas do platô de Gizé, onde está a Grande Pirâmide do Egito, é um edifício onde se encontra aquele que será o maior museu do mundo dedicado a uma única civilização: o Grande Museu Egípcio. 

Foto: Dana Smillie

A ideia da criação do Grande Museu Egípcio surgiu como uma tentativa de se criar um museu modelo e aliviar as várias reservas técnicas espalhadas pelo país, que estavam abarrotadas de artefatos arqueológicos.

Depois de anos de construção e incidentes — como um incêndio ocorrido em 2018 —, o sonho da inauguração oficial está cada vez mais próximo.   

O Ministério do Turismo e Antiguidades do Egito anunciou ontem que foram finalizados mais de 90% do Grande Museu Egípcio e que ele deve ser inaugurado no último trimestre deste ano de 2020 (a expectativa é que seja em novembro).

Foto: Dana Smillie

Vários artefatos de grande valor simbólico e histórico já foram transferidos para o Grande Museu, tais como todos os artefatos relacionados ao faraó Tutankhamon e os “recentemente” descobertos 30 ataúdes de madeira encontrados na vila de Al-Assasif (próxima da cidade de Luxor).

Ele também contará como um museu infantil, um centro de artesanato, um espaço dedicado aos Barcos Solares, dentre outras coisas.

Fonte:

90 percent of GEM work is finished. Disponível em < https://www.egypttoday.com/Article/4/79339/90-percent-of-GEM-work-is-finished >, Acesso em 06 de janeiro de 2020.   

Uma cópia em alta resolução do busto de Nefertiti está disponível para download

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Muitos conhecem a icônica e inacabada imagem da rainha Nefertiti, onde podemos vê-la do pescoço para cima usando uma grande coroa azul. Mas são poucos os que conhecem a história por trás da sua chegada a Alemanha no século 20.

Nefertiti foi uma rainha que reinou durante o período a Amarniano (18ª dinastia) na cidade de Aketaton, atual Amarna. E foi lá, dentro do ateliê de um escultor chamado Tutmés, que a sua mais famosa imagem foi descoberta em dezembro de 1912 por um arqueólogo alemão chamado Ludwig Borchardt.

Na época do achado já vigorava uma lei que proibia a saída de qualquer artefato arqueológico do país sem a permissão expressa do governo. Antes, qualquer um que fosse efetuar explorações em templos e tumbas poderia levar consigo o que encontrou. Foi assim que muitos museus de antiguidades egípcias foram criados na Europa e América. Porém, o Egito, durante o século XX, finalmente conseguiu implantar uma lei que estabelecia que o explorador poderia ficar com metade dos artefatos que encontrou, desde que tais artefatos fossem escolhidos a dedo pelo governo — hoje já não é mais assim, agora todo e qualquer artefato está proibido de deixar o país para compor o acervo permanente de um museu estrangeiro —.

Sabendo disso, Ludwig Borchardt mascarou a estátua de Nefertiti, conseguindo assim que ela não fosse notada durante a inspeção do fiscal do até então Serviço de Antiguidades — atual Ministério das Antiguidades —. O busto foi levado para Europa e permaneceu escondido até que finalmente entrou em exposição, enfurecendo assim os egípcios que agora estavam cientes de que eles tinham sido enganados.

Esse é o resumo da história, e olha que eu nem contei a parte em que os egípcios há anos estão tentando repatriar este artefato, sem sucesso algum.

A questão é que a imagem está hoje no Neues Museum, em Berlim, e há alguns anos ela foi digitalizada em 3D. Cópias em 3D de artefatos arqueológicos tem se tornado cada vez mais comuns em laboratórios de museus de arqueologia ao redor do mundo. Vocês poderão assistir um exemplo na prática através deste vídeo:

Contudo, a cópia foi mantida guardada, não sendo liberada nem mesmo para acadêmicos. Foi necessário que um homem chamado Cosmo Wenman conseguisse a sua liberação para o público usando o argumento da liberdade de informação. Mas, para tal, ele teve que tomar três anos de sua vida nesta batalha.

De acordo com o próprio Wenman a Fundação do Patrimônio Cultural da Prússia — organização que supervisiona os museus do estado em Berlim — inicialmente negou o seu pedido. Representantes da fundação alegaram que a liberação da cópia iria interferir nas vendas das réplicas do busto de Nefertiti na loja de presentes do museu.

E após os três anos finalmente a fundação cedeu ao pedido e enviou ao Wenman os arquivos em uma unidade USB, que por sua vez os colocou no Thingiverse, um site para visualizar e imprimir objetos 3D. Qualquer um pode baixá-los agora, desde que os use para fins não comerciais e dê os devidos créditos ao museu.

Imagem digitalizada.

Fontes:

Long-Hidden 3D Scan of Ancient Egyptian Nefertiti Bust Finally Revealed. Disponível em < https://www.livescience.com/nefertiti-bust-3d-scan-revealed.html >. Acesso em 25 de novembro de 2019.

An Official High-Resolution 3D Model of the Bust of Nefertiti Is Available for Download. Disponível em < https://kottke.org/19/11/an-official-high-resolution-3d-model-of-the-bust-of-nefertiti-is-available-for-download >. Acesso em 25 de novembro de 2019.

Descoberta rara: foi encontrada uma Estátua Ka de Ramsés II

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

No início deste mês de dezembro, o Ministério das Antiguidades do Egito anunciou que uma equipe de arqueologia desenterrou uma Estátua Ka feita em granito vermelho e que pertence ao rei Ramsés II (19ª dinastia). O artefato possui 105 cm de altura, 55 cm de largura e 45 cm de espessura.

Descoberta da Estátua Ka de Ramsés II. Foto: Ministério das Antiguidades do Egito

O achado foi realizado durante escavações em terras de propriedade privada na vila de Mit Rahina. Isso ocorreu após denúncias de que o proprietário estava realizando escavações ilegais no local a fim de encontrar artefatos arqueológicos.

Estátua Ka de Ramsés II. Foto: Ministério das Antiguidades do Egito

De acordo com a legislação egípcia (assim como a brasileira) artefatos arqueologicos são bens da União, ou seja, são de responsabilidade do governo. Desenterrar, vender ou manter ilegalmente em casa objetos arqueologicos são considerados crimes.

Saiba mais detalhes sobre esta notícia: 

Um achado extremamente importante

Estátuas Ka, como bem aponta o nome, são artefatos que representam o ka da pessoa retratada. De acordo com a tradição egípcia, o corpo de um indivíduo era dividido em várias partes tais como ba, sah, ankh, etc. E o ka era uma destas partes sendo uma espécie de força vital.

Estátua Ka de Ramsés II. Foto: Ministério das Antiguidades do Egito

E no caso dessa descoberta em questão, ela é importante porque, de acordo com o Ministério das Antiguidades do Egito, só existem duas Estátuas Ka registradas até o momento. A mais famosa é a do rei Hor Awibre, que viveu durante a 13ª dinastia e que no momento está em exposição no Museu Egípcio do Cairo.

Estátua Ka de Hor Awibre. Foto: Getty.

A outra é esta recentemente encontrada e que será exposta em um museu a céu aberto na própria Mit Rahina.

Estátua Ka de Ramsés II. Foto: Ministério das Antiguidades do Egito

Fontes:

Unique red granite bust of Ramses II unearthed on private land in Giza. Disponível em < http://english.ahram.org.eg/NewsContent/9/40/357585/Heritage/Ancient-Egypt/Unique-red-granite-bust-of-Ramses-II-unearthed-on-.aspx >. Acesso em 12 de dezembro.

Sarcófagos de mulheres são encontrados em cemitério do Egito

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Uma missão coordenada pelo Instituto Francês de Arqueologia Oriental e pela Universidade de Estrasburgo descobriu três ataúdes de madeira no pátio do túmulo de uma pessoa chamada Padiaménopé[1] (TT 33), em Tebas.

Estes caixões são datados da 18ª Dinastia, Novo Império, e estão em um ótimo estado de conservação.

Um deles pertence a uma mulher chamada Ti e mede 1,95 m, o outro pertence a uma mulher chamada Rau e possui 1,90 m. Já o terceiro caixão o sexo do seu dono ainda não foi esclarecido para a imprensa, mas possui 1,80 m.

Como é de se esperar, todos os caixões possuem ilustrações com motivos religiosos e embora sejam desenhos simples, possuem cores vibrantes.

Não foram dadas informações sobre qual será o destino destes ataúdes, se irão permanecer em um armazém ou irão compor a exposição de algum museu. Igualmente não foi dito se eles guardam alguma múmia.


[1] O seu sexo e época em que viveu não foram apontados.

Fonte:

French Archaeologists Unearth Ancient Egyptian Wooden Coffins. Disponível em < http://luxortimes.com/2019/11/french-archaeologists-unearth-ancient-egyptian-wooden-coffins/ >. Acesso em 27 de novembro de 2019.

Múmias raras de leões são encontradas em cemitério do Egito Antigo

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Os egípcios cuidaram, veneraram e mumificaram uma série de diferentes animais. Nesta lista podemos incluir gatos, cães, aves, crocodilos e até escaravelhos. Os motivos eram variados indo desde estima, para servirem de alimentos no além e veneração, afinal, uma variedade de bichinhos eram vistos como mensageiros das divindades ou era uma divindade propriamente dita.

No Egito Antigo os leões representavam a realeza e a força.

Entretanto, apesar de existir uma gama tão extensa de animais que foram mumificados, alguns são mais raros que outros. Um deles é o escaravelho, o inseto mais sagrado para os egípcios antigos. Eles encarnavam o deus Khepri, uma importante divindade solar, e até mesmo compunham nomes de alguns faraós. Mas as suas múmias são extremamente escarças. Por isto foi quase um milagre a descoberta de alguns espécimes mumificados encontrados dentro de um pequeno sarcófago de calcário em 2018.

Outros tipos de múmias de animais raríssimos são as de leões. Bom, estes animais pareciam ter uma posição bastante privilegiada em relação aos símbolos e simbolismos da tradição egípcia antiga, uma vez que eram uma das representações da realeza. Mas, não era só isto! Simbolizavam também a força. É tanto que era uma das caracterizações do deus Mahes, assim como da deusa Sekhmet, uma das divindades mais importantes do panteão egípcio. Eles também integravam partes de animais míticos, tais como as esfinges que usualmente tinham um corpo de leão com a cabeça de um humano ou de um carneiro. Parte de leões formavam igualmente o corpo de Ammut, “A Devoradora” que comia os falecidos que não passassem no teste da pesagem do coração.

Sekhmet, uma deusa com cabeça de leoa, era um símbolo de destruição, mas também de saúde.

Os leões não estavam somente na mitologia, mas também compunham partes de mobiliários, artigos de guerras, etc. Eles estavam literalmente em todo lugar, embora no Egito atual não sejam nem vistos e há alguns anos somente dois corpos remanescentes do Egito Antigo tenham sido encontrados[1]… Até agora.

Ontem foi anunciada oficialmente a notícia de que alguns leões mumificados foram descobertos em uma tumba em Saqqara, na necrópole de Bubasteion. “É a primeira vez que uma múmia completa de um leão ou filhote de leão é encontrada no Egito”, disse o Ministro das Antiguidades em uma coletiva para imprensa [2][3].

Não se sabe ainda se estas são as citadas múmias de leões anunciadas na coletiva de imprensa. Foto: Ministério das Antiguidades.

Bubasteion foi por um período capital do Egito durante a antiguidade e dentre os egípcios era chamada de Per-Bastet, “casa de Bastet” ou “pertencente à Bastet”. Lá se consolidou um forte culto a deusa gata Bastet e consequentemente a cidade ganhou uma necrópole dedicada aos bichanos.

Ainda não se sabe quantos leões foram encontrados, afinal, as múmias ainda estão sob análise, mas o que foi liberado é que foram encontradas múmias de grandes felídeos e que existe 95% de certeza de que dois deles são leões. Esses animais têm cerca de 1 metro de comprimento, o que poderia indicar que ainda não eram adultos quando morreram, talvez até tendo entre oito meses de idade[2][3].

Pesquisador mostra, através de seu celular, fotografia da tomografia de um dos leões.

Foi a Salima Ikram, arqueóloga da Universidade Americana do Cairo, quem realizou a tomografia computadorizada nestas duas múmias e confirmou tratarem-se de leões. Ela disse para a National Geographic que o significado da descoberta é “extremamente importante”, pois dará aos pesquisadores novas ideias sobre como os leões foram capturados no Egito antigo e se foram criados ou comercializados [3].

Outras descobertas na área:

Outras três múmias pertencentes a gatos grandes (a espécie exata ainda não está clara) foram encontradas perto dos dois leões. Elas podem pertencer a leopardos, guepardos ou outras formas de felinos. Isso só o tempo — e naturalmente pesquisas em arqueologia — poderá nos dizer.

Múmias de gatos que foram também encontradas no local. Foto: Ministério das Antiguidades.

Múmia de gato. Foto: Ministério das Antiguidades.

Também foram encontrados no local cerca de 200 artefatos arqueológicos, incluindo múmias. São alguns deles:

☥ 75 estátuas de gatos;

☥ 25 caixas de madeira com gatos mumificados dentro;

☥ Várias estátuas de madeira representando diferentes tipos de animais e divindades;

☥ Um grande escaravelho de pedra;

☥ 2 pequenos escaravelhos de madeira e arenito;

☥ 3 estátuas de crocodilos dentro das quais foram encontrados restos de múmias de pequenos crocodilos;

☥ 73 estatuetas de bronze representando o deus Osíris;

☥ 6 estátuas de madeira do deus Ptah-Sokar;

☥ 11 estátuas de madeira e faiança da deusa leoa Sekhmet;

☥ Uma estátua da deusa Neith.

Foto: Ministério das Antiguidades.

Foto: Ministério das Antiguidades.

Foto: Ministério das Antiguidades.

Também foi descoberto um relevo com o nome de rei Psamético I, além de uma coleção de estátuas de cobras, amuletos de faiança de diferentes formas e tamanhos, máscaras mortuárias de madeira e argila e uma coleção de papiros decorados com desenhos mostrando a deusa Tawert.

Foto: Ministério das Antiguidades.

Foto: Ministério das Antiguidades.

Foto: Ministério das Antiguidades.

Achou que esta descoberta foi incrível? Pois bem, o ministro das antiguidades do Egito prometeu durante a coletiva de imprensa que o anúncio de hoje não foi a última descoberta do ano. Nas próximas semanas, no mês de dezembro, haverá outro anúncio e ele promete que será algo incrível. Basicamente será um presente para as comemorações do Natal.


[1] Um deles é datado da Dinastia 0 e o outro é datado do Período Helenístico e foi encontrado em Saqqara em 2001.

Fonte:

[2] Two Lion Cub Mummies Discovered in Egypt for the First Time

https://www.livescience.com/lion-cub-mummies-saqqara-egypt.html

[3] Very rare lion mummies discovered in Egypt. Disponível em < https://www.nationalgeographic.com/history/2019/11/rare-lion-mummy-discovered-Egypt/ >. Acesso em 23 de novembro de 2019.

In Photos: Cat statues, mummies among large collection unearthed in Saqqara’s animals necropolis. Disponível em < http://english.ahram.org.eg/News/356444.asp >. Acesso em 23 de novembro de 2019.

Details of New Archaeological Discovery in Saqqara (Photos). Disponível em < https://see.news/details-of-new-archaeological-discovery-in-saqqara-photos/?fbclid=IwAR3prCi4q0wkJKtQmoyKl1nHz3bHdB5zm5d2ZD7p8XAlk3I04SBsIuqUJbE >. Acesso em 23 de novembro de 2019.

A múmia de Akhenaton foi encontrada?

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Akhenaton foi um faraó que reinou durante o Novo Império, na 18ª Dinastia, inaugurando o Período Amarniano. Ele foi casado com a rainha Nefertiti e com ela teve seis filhas. Ambos reinaram juntos em uma cidade chamada Aketaton, na atual Amarna, onde está localizada a tumba dele. Mas na época em que o sepulcro foi descoberto ele estava vazio. O seu corpo não foi encontrado lá.

Akhenaton

Nefertiti e Akhenaton

Em verdade não tínhamos corpos comprovados de pessoas advindas desta época, exceto Tutankhamon e suas filhas. Contudo, existia certa desconfiança em relação a um esqueleto encontrado em uma sepultura localizada em 1912, a KV-55. Dentro dela foram encontrados vários artefatos remanescentes do Período Amarniano, dentre eles um sarcófago sem identificação, mas que continha um esqueleto em seu interior. Para variar todas as áreas do caixão onde ficaria o nome do falecido estão destruídas, aparentemente propositalmente.

Ataúde encontrado na KV-55

Esta parte danificada era onde deveria estar o nome do falecido.

Durante as últimas décadas pesquisadores divergiram sobre quem poderia ser este indivíduo. Alguns sugeriram que poderia ser uma mulher idosa, outros que seriam uma mulher jovem e hoje existe um consenso de que é um homem, até porque estes ossos passaram por um exame de DNA coordenado pelo arqueólogo Zahi Hawas entre 2007 e 2009.

Zahi Hawass e o esqueleto da KV-55

Durante o exame estes ossos tiveram seu material genético comparados com outros dez corpos, dentre eles a múmia de Tutankhamon. São eles:

☥ Os dois bebês encontrados na tumba de Tutankhamon;

☥ Os avôs de Akhenaton: Yuya e Tuya;

☥ Duas múmias de identidades desconhecidas encontradas em uma tumba chamada KV-21;

☥ E três corpos encontrados em um esconderijo da KV-35.

O resumo é que a equipe identificou os ossos da KV-55 e uma das múmias da KV-21 como sendo os pais de Tutankhamon. Mas, como escrevi anteriormente, não sabemos a identidade de quem foi sepultado na KV-55, já que os nomes no caixão foram arrancados.

Então, de onde o Zahi Hawass tirou que ali trata-se de Akhenaton? Ele e sua equipe apontam que estes ossos só poderiam ser de Akhenaton por conta de uma inscrição encontrada em um pedaço de relevo na atual em El Ashmunein, antiga área de Hermópolis.

A inscrição fala de Tutankhamon, que é apontado como “o filho do corpo do rei”, relacionando-o, obviamente, a algum faraó, no entanto, não temos a parte do nome do rei. Porém, temos o resto da inscrição, só que desta vez está falando da esposa do Tutankhamon, Ankhesenamon, e é dito “a filha do rei, do seu corpo, seu grande desejo do rei das Duas Terras”. Desta forma, devido a ambos terem a paternidade mencionada no mesmo parágrafo, foi sugerido que fossem filhos do mesmo pai.

Tutankhamon e Ankhesenamon

No entanto, alguns pesquisadores defendem que a análise osteológica — o estudo dos ossos — do corpo encontrado na KV-55 aponta que esta pessoa teria falecido ainda quando era jovem.  Este poderia ser um indicativo de que os ossos da KV-55 não era Akhenaton, mas um outro rei que governou antes de Tutankhamon: Smenkhará.

Ou seja: para alguns a dúvida ainda paira no ar.

Antigos túmulos são abertos para visitas turísticas no Egito

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

O Ministério das Antiguidades do Egito abriu para visitação na segunda-feira passada duas tumbas na área arqueológica de Gizé, onde se encontram as Grandes Pirâmides do Egito. Estas sepulturas pertencem, cada uma, a um homem chamado Qar e a outra a Idu. Elas estavam em um processo de restauro e com os trabalhos concluídos podem agora receber turistas[1].

O diretor da área arqueológica das pirâmides, Ashraf Mohie-Eldin, disse que a restauração no túmulo de Qar, por exemplo, incluía limpeza, fortalecimento do teto e o restauro das paredes do salão principal. Esculpido em rocha, o sepulcro remonta à 6ª Dinastia, mais especificamente o reinado do rei Pepi I. Os títulos de Qar incluíam “diretor das cidades das pirâmides de Khufu e Menkaura”, “inspetor dos sacerdotes wab da pirâmide de Khafren” e “diretor da pirâmide de Pepi I Meryre”[1].

A tumba de Idu, que era filho de Qar, também foi submetida a limpeza e o telhado foi reforçado. Igualmente ao do pai, a sua sepultura foi esculpida em rocha e é da época de Pepi I. Os títulos de Idu incluíam “o escriba dos documentos reais na presença do rei”, “inquilino da pirâmide de Pepi I Meryre” e “inspetor dos sacerdotes wab das pirâmides de Khufu e Khafren” [1].

O que ocorrerá agora:

Com as tumbas de Qar e Idu liberadas para os turistas, o governo egípcio fechou agora as de Seshem-Nefer IV e Khufukhaf I. O intuito é também realizar trabalhos de restauros e futuramente abri-los para visitas[2].

Seshem-Nefer IV possuía os títulos de “superintendente dos dois assentos da Casa da Vida” e de “guardião dos segredos do rei”. Sua tumba é a maior de Gizé e contém cenas funerárias, de caçadas e de oferendas, além de uma descrição da vida cotidiana de Seshem-Nefer [2].

Já Khufukhaf era um sacerdote que viveu durante a 4ª Dinastia. Sua tumba é uma mastaba dupla cuja uma das capelas é dedicada à sua esposa (cujo nome não foi anunciado no comunicado da imprensa) e a outra a si mesmo. A única parte decorada do vestíbulo é a parede ocidental a partir da qual um corredor leva à câmara principal[2].

Fontes:

[1] Photos: Egypt opens Old Kingdom tombs Idu, Qar for visitation. Disponível em < https://www.egyptindependent.com/photos-egypt-opens-old-kingdom-tombs-idu-qar-for-visitation/ >. Acesso em 20 de novembro de 2019.

[2] Giza tombs of Qar and son Idu open after restoration. Disponível em < http://english.ahram.org.eg/NewsContent/9/40/356136/Heritage/Ancient-Egypt/Giza-tombs-of-Qar-and-son-Idu-open-after-restorati.aspx >. Acesso em 20 de novembro de 2019.

Dezenas de sarcófagos foram encontrados selados no Egito

Saiba tudo sobre o esconderijo de sarcófagos recém-encontrado

Em outubro a internet foi bombardeada com a descoberta de um aglomerado de 30 sarcófagos na vila de Al-Assasif, próxima da cidade de Luxor. Eles foram encontrados por uma missão de arqueologia do Ministério das Antiguidades do Egito. Todos estão em um ótimo estado de conservação, mantendo ainda suas cores e inscrições e o mais interessante: estavam lacrados, o que traz a possibilidade de que todos ainda possuam múmias. [1][2][3]

A necrópole de Assasif é um local de enterro conhecido, do qual os túmulos e caixões descobertos datam do Novo Reino e, especialmente, do Período Tardio [2][3]. Contudo, no caso desta descoberta, provavelmente estaremos falando do Terceiro Período Intermediário [4].

O Terceiro Período Intermediário foi um intervalo histórico em que vemos a ascensão de diferentes famílias dinásticas reinando ao mesmo tempo. Uma delas é a 22ª Dinastia, que era composta por líbios, estrangeiros que assumiram a cidade de Tânis como capital. A outra é a 23ª Dinastia, também de líbios, que assumem a cidade de Leontópolis e a 24ª Dinastia, também de líbios, na cidade de Sais. E Finalmente a 25ª Dinastia, época em que o Egito é governado pelos Núbios. Se quiser saber mais sobre os Períodos Intermediários, você poderá fazê-lo através do vídeo abaixo:

O anúncio oficial da descoberta foi feito no dia 19 de outubro (2019) em uma grande tenda montada pelo Ministério das Antiguidades em frente ao templo da faraó Hatshepsut. Com um púlpito no centro, bem em frente a um amplo corredor ladeado por todos os caixões ainda fechados, a imprensa aguardou. Além dos jornalistas e blogueiros estavam presentes pesquisadores e os demais funcionários do Ministério. A promessa era que além de liberar mais informações sobre a descoberta, eles abririam dois dos sarcófagos.

Os ataúdes estavam sobre mesas baixas cobertas por tecidos brancos, dentro de uma área protegida por fitas de isolamento que só estavam lá de forma ilustrativa. Afinal, assim que o ministro das antiguidades e Zahi Hawass (famoso arqueólogo que além de dezenas de livros publicados, fez centenas de descobertas arqueológicas pelo país) chegaram, alguns membros da imprensa puderam transpassa-la. O que mais tarde gerou uma cena um tanto embaraçosa de vários cinegrafistas se acotovelando para poder pegar uma boa imagem dos invólucros das múmias que tinham acabado de ser revelados.

Com o início da coletiva de imprensa, eles fizeram um resumo sobre as pesquisas da equipe e explicaram que dos 30 sarcófagos, 23 são de homens, 5 de mulheres e 2 de crianças. Todos, como já apontado, lacrados. Eles foram enterrados um metro abaixo da areia, um sobre o outro e dispostos em duas fileiras. Agora, o conjunto está sendo chamado de “Esconderijo* de Assasif” (“Assasif Cachette”).

Ele é o primeiro esconderijo de caixões a ser descoberto por uma missão egípcia, depois de séculos de escavações arqueológicas lideradas por estrangeiros. Com o bônus de ser o único até o momento no século 21. O que torna a escolha da coletiva de imprensa ter ocorrido em frente ao templo da rainha Hatshepsut ainda mais emblemática. Já que o mais famoso esconderijo de múmias, a TT320, foi descoberto nas proximidades em 1871 por ladrões de tumbas. Foi na TT320 onde foram descobertas as múmias de alguns dos faraós mais famosos tais como Seti I, Ramsés II, Ramsés III, Seqenenre Tao II e Tutmés III. Sem contar a rainha Ahmés-Nefertari e a divina adoradora de Amon, a Maatkare.

O destino dos ataúdes será o Grande Museu Egípcio (que terá sua abertura oficial no final de 2020), onde serão cuidados e possivelmente postos em exposição.

Perguntas que não querem calar!

Estas são algumas das dúvidas enviadas por nossos seguidores através do meu Instagram (clique aqui para seguir):

Foram encontrados artefatos arqueologicos juntos?

As múmias não foram exumadas (e torceremos para que isto não seja necessário). Contudo, se elas passarem por um exame de tomografia certamente encontrarão indícios de amuletos de proteção e adereços tais como bijuterias ou joias.

Eram da mesma família?

Não se sabe. Entretanto, olhando a descoberta artificialmente, este parece ser o caso. Esperaremos informações futuras.

Por que foram encontrados tantos no mesmo lugar?

Não sabemos. Se olharmos exemplos de outros esconderijos poderíamos falar que se trata de um enterro para proteger os corpos após algum roubo… Ou, poderíamos falar que é era um enterro familiar e de gerações. São questões que só poderão ser respondidas no futuro, após pesquisas de arqueologia mais aprofundadas.

Quem são estas pessoas?

Já foi apontado que se tratam de sacerdotes, mas vamos esperar mais informações.

Por que estão preservados?

O solo do Egito é propício para a conservação de materiais orgânicos tais como restos humanos e madeira. Sem contar que aparentemente estas pessoas foram sepultadas com sarcófagos de ótima qualidade.

É um esconderijo clandestino?

Não sabemos ainda.

Quão frequente é este tipo de descoberta?

É raríssima! Como apontei no texto é a única no século 21! E só para vocês terem uma ideia, as últimas do tipo ocorreram somente durante o século 19!

Fonte:

[1] Antiquities Releases Images of Colored Coffins Found at Luxor. Disponível em < https://see.news/antiquities-ministry-releases-images-of-colored-coffins-found-at-luxor/ >. Acesso em 20 de outubro de 2019.

[2] Egypt archaeologists find 20 ancient coffins near Luxor. Disponível em < https://www.bbc.com/news/world-middle-east-50068575 >. Acesso em 20 de outubro de 2019.

[3] 20 Intact Coffins Unearthed in Asasif Necropolis. Disponível em < https://egyptianstreets.com/2019/10/17/20-intact-coffins-unearthed-in-asasif-necropolis/ >. Acesso em 20 de outubro de 2019.

[4] Archaeologists unearth 20 preserved wooden coffins Egypt. Disponível em < https://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-7577157/Archaeologists-unearth-20-preserved-wooden-coffins-Egypt.html >. Acesso em 20 de outubro de 2019.

Egypt unveils discovery of 30 ancient coffins with mummies inside. Disponível em < https://edition.cnn.com/2019/10/19/middleeast/egypt-discovers-coffins-mummies-trnd/index.html >. Acesso em 20 de outubro de 2019.

Archaeologists discover 30 ancient coffins in Luxor. Disponível em <  https://www.theguardian.com/world/2019/oct/19/archaeologists-discover-30-ancient-coffins-with-mummies-in-luxor >. Acesso em 10 de novembro de 2019.

30 Perfectly Preserved Coffins Holding Ancient Egyptian Priest Mummies Discovered. Disponível em < https://www.livescience.com/cachette-of-priests-egypt-mummies-discovered.html >. Acesso em 10 de novembro de 2019.


*Tomei a liberdade de traduzir desta forma para padronizar com os outros esconderijos que já foram encontrados.