As 9 melhores descobertas arqueológicas de 2017 sobre o Egito Antigo

Por Márcia Jamille | Instagram @MJamille

Caso você tenha caído de paraquedas aqui neste post ou simplesmente não tem o habito de ler sites ou blogs: o Arqueologia Egípcia é um site dedicado a trazer textos, vídeos, fotos e notícias sobre as pesquisas relacionadas com o Egito Antigo. Aqui até existe uma aba especial dedicada às novidades. É lá onde se encontram as notícias sobre descobertas arqueológicas associadas com a história egípcia e foi de onde tirei as 9 pesquisas que foram tidas como as mais interessantes, chamativas e legais de 2017.

Contudo, antes de dar início a lista, devo explicar que usei o termo “melhores” no título para resumir as mais magnificas do ponto de vista não só dos acadêmicos, mas do público. Sou da turminha da Arqueologia que considera toda e qualquer descoberta arqueológica passível de ser interessante para o entendimento do passado. Abaixo, as descobertas selecionadas:

 

1: Descoberta de imagens de embarcações:

Uma equipe de arqueólogos encontrou, gravadas na parede de um fosso em Abidos, gravuras representando uma frota egípcia. No local, que fica próximo ao túmulo do faraó Sesostris III (Médio Império; 12ª Dinastia) foram contados nos desenhos 120 navios, desenhados sobre uma superfície de gesso. Alguns são bem detalhados, contendo informações como remos e timões.

Foto: Josef Wegner

Neste caso não se sabe quem fez estas gravuras, mas ao menos duas teorias foram levantadas: a de que foram feitas pelos próprios trabalhadores que construíram o fosso ou que tenha sido a ação de vândalos. É né… Vai que.

 

2: Sepulturas de crianças egípcias revelam desnutrição generalizada:

Esta provavelmente é uma das descobertas mais chocantes. Uma arqueóloga da Universidade de Manchester, em sociedade com a Missão Arqueológica Polaco-Egípcia, fez uma série de descobertas perturbadoras em Saqqara: eles encontraram corpos de crianças que parecem ter sofrido grave anemia, cáries dentárias e sinusite crônica.

Foto: Iwona Kozieradzka-Ogunmakin

Através dos seus estudos, a arqueóloga foi capaz de estabelecer que a criança mais jovem encontrada no cemitério tinha algumas semanas de idade e as mais velhas 12 anos, mas a maioria tinha entre três e cinco anos.

 

3: Fragmentos de uma estátua colossal:

Esta foi um hype! A historinha é a seguinte: Uma missão egípcia-alemã, que está trabalhando em El-Mataria (Cairo), antiga Heliópolis, desenterrou partes de duas estátuas colossais da época ramséssida, no sítio arqueológico de Suq el-Khamis. A princípio acreditou-se que se trataria de Ramsés II, da 19ª dinastia, Novo Império, mas não passou muito tempo até que descobrissem que na verdade era Psamético I, que reinou como rei do Egito durante a 26ª Dinastia, Baixa Época.

Foto: Reuters.

4: Descoberta de tumba de princesa egípcia:

A tumba de uma princesa egípcia foi identificada na pirâmide de Ameny Qemau (13ª Dinastia), na necrópole de Dashur. Nas escavações que revelaram a câmara funerária da princesa foram identificados um sarcófago mal preservado, bandagens e uma caixa de madeira contendo vasos canópicos. Inscrições na caixa indicam que os objetos pertenceram a ela, que por sua vez era uma das filhas do próprio Ameny Qemau.

Foto: MSA

Esta foi uma descoberta que não revelou para a imprensa tantos achados assim, somente informações básicas. Mas o público do site amou muito e compartilhou a notícia extensamente. Então ela está aqui marcando presença.

 

5: Descoberta de faraó pouco conhecido:

Na verdade, esta foi uma descoberta dupla em que a princípio tinha sido encontrada uma pirâmide datada do Segundo Período Intermediário, em Dashur e somente depois foi apontado que ela pertencia a um faraó praticamente desconhecido chamado Ameny Qemau.

Foto: Ministério das Antiguidades do Egito.

Porém, esta história não acaba por aqui: uma outra pirâmide pertencente a esse mesmo governante foi descoberta em 1957, também em Dashur.

 

6: Os mais antigos hieróglifos egípcios:

Uma expedição conjunta entre a Universidade de Yale e o Museu Real de Belas Artes de Bruxelas, que está estudando a antiga cidade egípcia de El kab, descobriu inscrições hieroglíficas com cerca de 5200 anos. São as mais antigas conhecidas.

Foto: MSA.

Os arqueólogos também identificaram um painel de quatro sinais, criados por volta de 3250 aEC e escritos da direita para esquerda — é assim que usualmente os hieróglifos egípcios eram lidos — retratando imagens de animais tais como cabeças de touros em um pequeno poste, seguido por duas cegonhas com alguns íbis acima e entre eles.

 

7: Cabeça de faraó encontrada em Israel:

Uma cabeça de uma estátua retratando um faraó tem intrigado alguns pesquisadores. Isso porque ela foi encontrada em 1995 em Israel na área da antiga cidade de Hazor. Outrora fragmentada ela retrata uma típica imagem de um faraó contendo, inclusive, a serpente ureus, que é uma das insígnias reais egípcias, ou seja, um dos símbolos que demonstram realeza.

Divulgação/Gaby Laron/Hebrew University/Selz Foundation Hazor Excavations.

Em outros anos outras estátuas egípcias também foram encontradas em Hazor e todas fragmentadas no que os pesquisadores concluíram como uma destruição deliberada.

 

8: O maior fragmento de obelisco datado do Antigo Reino:

Uma missão arqueológica — encabeçada por franceses e suíços — que atua em Saqqara encontrou a parte superior de um obelisco datado do Antigo Reino, pertencente à rainha Ankhnespepy II, mãe do rei Pepi II (6ª Dinastia).

Foto: MSA

Ankhnespepy II foi uma das rainhas mais importantes da sua dinastia. Ela foi casada com Pepi I e quando ele morreu casou-se com Merenre, o filho que o seu falecido esposo tinha tido com sua irmã Ankhnespepy I.

 

9: Descoberta da localização de um templo de Ramsés II

A missão arqueológica egípcio-checa descobriu restos do templo do faraó Ramsés II (Novo Império; 19ª Dinastia) durante os trabalhos de escavações realizados em Abusir.

Foto: MSA

A missão já tinha encontrado em 2012 evidências arqueológicas de que existia um templo nesta área, fato que encorajou os pesquisadores a escavar nesta região ao longo dos últimos quatro anos.

 

Deliberadamente deixei a descoberta do “espaço vazio” da Grande Pirâmide de fora pelos motivos citados no vídeo “Espaço vazio dentro da Grande Pirâmide do Egito: Entenda!”:

Agora é a vez de vocês! Qual é a sua descoberta arqueológica do ano de 2017 favorita?

Cabeça de madeira com mais de 4.000 anos é encontrada em Saqqara

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Uma cabeça de madeira que provavelmente representa a rainha Ankhnespepy II da 6ª Dinastia foi encontrada em Saqqara, próximo a sua pirâmide. A descoberta foi feita por uma missão de arqueologia encabeçada por um time franco-suíço da Universidade de Genebra.

Foto: MSA

Foi esta mesma equipe que encontrou um grande fragmento de obelisco que provavelmente pertenceu ao templo funerário desta mesma rainha. Esta notícia foi anunciada aqui no Arqueologia Egípcia.

— Saiba mais: Arqueólogos no Egito descobrem o maior fragmento de obelisco datado do Antigo Reino

O Dr. Philip Collombert, coordenador da equipe, falou que a cabeça foi descoberta em uma camada que tinha sido perturbada, a leste a pirâmide da rainha, em uma área onde um piramidion foi encontrado esta semana. Ele ainda salientou que este artefato precisará passar por um trabalho de restauro.

Foto: MSA

O Dr Mostafa Waziry, secretário geral do supremo conselho de antiguidades, explicou que a cabeça tem uma proporção parecida com a humana, porém com um pescoço com quase 30 cm e está enfeitada com brincos de madeira. E ainda fez uma revelação sobre este sítio: “Esta é uma área promissora que pode revelar mais dos seus segredos em breve”.

Fonte:

4000 years old wooden head discovered in Sakkara. Disponível em < http://luxortimesmagazine.blogspot.com.br/2017/10/4000-years-old-wooden-head-discovered_18.html >. Acesso em 18 de outubro de 2017.

Arqueólogos no Egito descobrem o maior fragmento de obelisco datado do Antigo Reino

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Uma missão arqueológica — encabeçada por franceses e suíços — que atua em Saqqara encontrou a parte superior de um obelisco datado do Antigo Reino, pertencente à rainha Ankhnespepy II, mãe do rei Pepi II (6ª Dinastia). As escavações são coordenadas por Philippe Collombert da Universidade de Genebra.

O objeto possui inscrições que parecem ser o início dos títulos e o nome da rainha. “Ela provavelmente é a primeira rainha a ter Textos das Pirâmides registrados em sua pirâmide”, explicou Mostafa Waziri, secretário-geral do Conselho Supremo das Antiguidades, ao Ahram Online. Ainda de acordo com ele antes esses textos eram esculpidos somente nas pirâmides dos reis. Após Ankhnespepy II algumas esposas de Pepi II fizeram o mesmo.

Parte do obelisco da rainha Ankhnespepy II. Foto: Divulgação.

De acordo com Collombert, que também falou ao Ahram Online, a parte do obelisco que foi desenterrada é esculpida em granito vermelho e tem 2,5 metros de altura. Jamais foi encontrado um fragmento desse tipo de artefato desta magnitude proveniente dessa época, embora o Antigo Reino seja a “era de ouro” da construção das grandes pirâmides. “Podemos estimar que o tamanho total do obelisco foi de cerca de cinco metros quando estava intacto”, explicou. Ele ainda aponta que no topo do obelisco existe uma pequena deflexão que indica que a ponta foi coberta com lajes de metal, provavelmente de cobre ou de folha dourada, para que o obelisco brilhasse no sol.

Foto: Divulgação.

O artefato foi encontrado no lado leste da pirâmide da rainha, onde está localizado também o seu complexo funerário, o que sugere que o seu local original era a entrada do seu templo funerário. “As rainhas da 6ª dinastia geralmente tinham dois pequenos obeliscos na entrada do seu templo funerário, mas este obelisco foi encontrado um pouco longe da entrada do complexo de Ankhnespepy II”, apontou Waziri. Ele acredita que isto sugere que o obelisco pode ter sido arrastado por cortadores de pedra de um período posterior, uma vez que a maior parte da necrópole de Saqqara foi usada como uma pedreira durante o Novo Império e Período Final.

Quem foi Ankhnespepy II:

Ankhnespepy II foi uma das rainhas mais importantes da sua dinastia. Ela foi casada com Pepi I e quando ele morreu casou-se com Merenre, o filho que o seu falecido esposo tinha tido com sua irmã Ankhnespepy I.

Com Merenre ela teve Pepi II, que possuía seis anos quando o seu pai faleceu, o que levou Ankhnespepy II a se tornar co-regente e, por pouco, quase faraó. “Provavelmente é por isso que sua pirâmide é a maior da necrópole depois da pirâmide do próprio rei”, disse Collombert.

Tenha em casa: A Edições Del Prado, uma editora especializada em vendas de fascículos com imagens colecionáveis, possui uma coleção intitulada “Cenas do Egito Antigo”. Uma delas é a construção de uma grande estátua.

Clique aqui para conferir a peça ou aqui para ver as demais cenas.

Fonte:

Archaeologists unearth largest-ever discovered obelisk fragment from Egypt’s Old Kingdom. Disponível em < http://english.ahram.org.eg/News/278261.aspx >. Acesso em 05 de outubro de 2017.

Sepulturas de crianças egípcias revelam desnutrição generalizada, diz arqueóloga

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

É em Saqqara, antiga Menphis, que se encontra um dos principais cemitérios do Egito, que existiu deste a época da unificação do país, sendo utilizado ainda por muitos anos após a era dos faraós. Lá, além de pessoas comuns foram sepultados mulheres e homens ilustres. É onde se encontra também a primeira pirâmide do país: a pirâmide de Djozer.

Recentemente a Dra. Iwona Kozieradzka-Ogunmakin, da Universidade de Manchester, em sociedade com a Missão Arqueológica Polaco-Egípcia, fez uma série de descobertas perturbadoras: eles encontraram corpos de crianças que parecem ter sofrido de grave anemia, cáries dentárias e sinusite crônica.

Duplo sepultamento de crianças com 4 ou 5 anos de idade. Foto: Iwona Kozieradzka-Ogunmakin

A equipe trabalha no local desde 2006, com o objetivo de estudar restos humanos mumificados ou esqueletizados e assim realizar uma análise acerca da relação entre o status social e a saúde física da antiga população de Saqqara durante o Período Ptolmaico, além de tentar entender o efeito do ambiente sobre a saúde humana.

“Dada a estreita dependência dos antigos sistemas agrícolas egípcios no rio Nilo, flutuações ambientais podem ter tido impacto adverso sobre a saúde da população no antigo vale do Nilo”, disse ela ou IBTimes. “Meu estudo foi baseado em um pequeno agrupamento de 29 indivíduos com 12 anos ou menos no momento da morte e que foram recuperados de um cemitério ptolomaico em Saqqara. Embora a aglomeração seja bastante pequena, ela apresenta uma importante contribuição para o corpo de pesquisa sobre as populações da época ptolomaica do Egito que até agora permanecem não estudadas”.

A saúde das crianças:

Através dos seus estudos, Kozieradzka-Ogunmakin foi capaz de estabelecer que a criança mais jovem tinha algumas semanas de idade e as mais velhas 12 anos, mas a maioria tinha entre três e cinco anos. A partir de observações macroscópicas — ou seja, a olho nu —, ela foi capaz de aprender mais sobre suas dietas e o tipo de ambientes em que elas teriam vivido.

Suas análises revelaram a presença dos indicadores de estresse fisiológico [1]: Olhando para os ossos orbitais, ela descobriu que elas estavam porosas em 70% das crianças — uma condição conhecida como cribra orbitalia. Isso pode ser indicativo de anemia causada por uma deficiência de minerais, como ferro ou vitamina B12 e B9.

Duplo sepultamento: Uma mulher com cerca de 30 a 40 anos de idade e uma criança com 7 anos de idade. Foto: Polish Centre of Mediterranean Archaeology (PCMA)

Como metade dessas crianças tinham entre três e cinco anos, a arqueóloga acredita que a doença pode ter surgido quando deixaram de ser amamentadas e mudaram para uma dieta mais pobre e insalubre. Sua conclusão bate com o contexto geral do Egito Antigo, cuja mortalidade dos infantes está várias vezes relacionada com a deficiência em vitaminas causadas durante esse período de transição alimentar.

— Saiba mais: Ser criança no Egito Antigo 

“Práticas de alimentação e desmame espalhadas por todo o antigo Egito poderia ter sido em grande parte responsável pela alta prevalência da cribra orbitalia no atual conjunto de esqueletos. Desmamar um lactente colocou-os em risco, incluindo aumento da morbidade e mortalidade como resultado de doenças infecciosas e parasitárias”.

A outra hipótese é que a cribra orbitalia foi causada por uma doença parasitária como a malária, tão comum durante a antiguidade egípcia.

Kozieradzka-Ogunmakin também descobriu evidências de cárie dentária entre os corpos. “Um quarto das crianças com dentição preservada foram afetadas pela deterioração dentária, e a maioria eram indivíduos com idade entre três a cinco anos no momento da morte. Um dos alimentos básicos na dieta egípcia antiga foi pão; dietas onde os açúcares são misturados com amidos poderia ser mais cariogênicas do que o açúcar por conta própria”, salientou.

Múmia parcial de uma criança de 8 meses de idade. Foto: Polish Centre of Mediterranean Archaeology (PCMA)

A pesquisadora também encontrou indícios de que algumas dessas crianças podem ter sofrido de sinusite crônica.

Kozieradzka-Ogunmakin poderia descobrir muito mais, se fosse capaz de realizar estudos moleculares ou exame histológico dos tecidos moles. Porém, o Ministério das Antiguidades não permitiu que os restos fossem enviados para fora do país.

Fonte:

Graves of ancient Egypt’s last children reveal widespread malnutrition. Disponível em < http://www.ibtimes.co.uk/ancient-egypts-children-died-young-suffered-anaemia-tooth-decay-1602859 >. Acesso em 14 de fevereiro de 2017.


[1] Efeito desfavorável de fatores ambientais sobre as funções fisiológicas de um determinado organismo.

“Morte no Nilo”, National Geographic

Por Márcia Jamille | Instagram | @MJamille

 

Este texto da National Geographic foi publicado aqui no Brasil em 2011, mas ainda não perdeu o seu vigor. Trata-se da apresentação de algumas tramas palacianas menos conhecidas, ocorridas centenas de anos antes da “Conspiração do Harém”, intriga que mataria Ramsés III, faraó da 19ª Dinastia. Na reportagem o que vemos é um plano de fundo do governo do rei Teti, Antigo Império, e a usurpação de túmulos por parte do rei como punição, dentre outras manipulações palacianas nos reinados seguintes, a exemplo do Período Amarniano.

Infelizmente ele está cheio de discursos sexistias — “rainhas ardilosas”, “uma espécie de Cleópatra — sedutora, esperta, implacável” —, mas ignorando isso é um ótimo artigo e que apresenta bem como o panorama politico egípcio poderia ser extremamente injusto, seguindo o que era conveniente para quem estava no poder.

 

Morte no Nilo (Edição 30/Outubro de 2002)

Um cemitério real revela novas pistas de assassinatos, vinganças e intrigas no Antigo Egito

Por A. R. Williams

Fonte: National Geographic Brasil

Imortalizado em pedra, um funcionário vigia sua capela funerária no cemitério hoje conhecido como Saqqara, onde túmulos, inscrições e oferendas continuam a esclarecer o passado distante

A princesa Idut não viveu até a idade adulta. Nos relevos de calcário que recobrem sua capela mortuária, ela é mostrada apenas como criança. E, em torno dela, há refinadas cenas entalhadas celebrando a abundância do vale do rio Nilo – peixes e aves aquáticas, um crocodilo mordendo um hipopótamo recém-nascido, vacas com bezerros, todos elementos decorativos comuns em sepulturas da realeza egípcia. Mas há algo que não se encaixa.

“Idut foi substituída por outra pessoa”, comenta o professor de egiptologia Naguib Kanawati. “Veja isto”, prossegue ele, apontando para uma área áspera na altura do joelho de Idut em uma cena com barcos. “Um pé foi totalmente eliminado, apagado a golpes de formão e raspado. E também o saiote de um homem.” Com dificuldade, consigo distinguir o perfil de um indivíduo robusto e alto, erguendo-se bem acima da recatada menina.

A princesa Idut morreu por volta de 2330 a.C. e foi enterrada sob a sua capela mortuária ao lado dos túmulos piramidais de seu avô, o faraó Unas, e de seu pai, o faraó Teti, no lugar hoje conhecido como Saqqara. Local onde foram encontrados os primeiros túmulos monumentais de pedra daquele país, Saqqara foi um dos mais venerados cemitérios reais do antigo Egito.

Quando a sepultura de Idut foi achada, em meados da década de 20, ninguém deu importância aos relevos alterados. Recentemente, porém, Kanawati examinou o assunto com mais atenção e descobriu indícios de uma surpreendente intriga. “Reli os hieróglifos e identifiquei o dono original do túmulo”, conta ele. “Era Ihy, o vizir, ou primeiro-ministro, do faraó Unas.” Tal como a maioria dos egípcios abastados e importantes da época, Ihy passara anos preparando o local onde descansaria por toda a eternidade. Portanto, como foi que a princesa Idut foi parar ali?

A resposta de Kanawati baseia-se em uma instigante e nova teoria sobre um golpe palaciano e as circunstâncias obscuras da ascensão ao trono do faraó Teti. “Não temos ainda a menor idéia de onde veio Teti. Tudo o que sabemos é que ele se casou com uma das filhas de Unas e tornou-se faraó após a morte do sogro. Desconfio que subiu ao trono pela força e que Ihy, o vizir, tentou em vão se opor a isso.” Como eterna punição, o novo faraó destinou seu túmulo a uma de suas princesas.

Essa sucessão dinástica que antes parecia tão simples é um dos vários episódios que estão se revelando bem mais complexos em Saqqara, onde foram realizados sepultamentos ao longo de um período de 3 mil anos, abrangendo 31 dinastias da antiga civilização do Egito. Os arqueólogos estão reunindo indícios daqueles dramas do tipo capa-e-espada, marcados por conspirações, assassinatos, vinganças, rainhas ardilosas, políticos ambiciosos e fanatismo religioso.

A oeste dos campos de alfafa e dos empoeirados palmeirais que flanqueiam o rio Nilo, Saqqara fica no topo de uma escarpa rochosa. A margem ocidental do Nilo, acreditavam os antigos egípcios, era o local em que os restos mortais estavam mais próximos do grande Além. Segundo a concepção que tinham do mundo, quando se ocultava atrás do horizonte do deserto ao fim de cada dia, o Sol prosseguia em sua viagem até o mundo subterrâneo governado por Osíris, o deus da vida eterna, até que, no dia seguinte, voltava a nascer na margem oposta do grande rio.

Saqqara fazia parte de um imenso complexo funerário que se estendia por 70 quilômetros ao longo do Nilo. Essa área logo ao sul do delta do Nilo possui enorme valor estratégico, pois há ali um estreitamento do rio, formando uma espécie de entrada natural.

A fim de controlar o tráfego fluvial, e por meio dele o resto do país, os faraós das primeiras dinastias ergueram fortalezas nas duas margens do Nilo. Logo construíram palácios acima da fértil planície de inundação – assim teve início Mênfis, a primeira capital do Egito – e puseram seus túmulos no deserto vizinho.

Os primeiros túmulos eram escavados na rocha e arrematados com uma edificação baixa de adobe conhecida como mastaba. Algumas sobrevivem quase à sombra do túmulo de 4630 anos de idade que, ao ampliar a altura da mastaba, modificou a forma dos sepultamentos faraônicos: a Pirâmide em Degraus.

Erguido pelo faraó Djoser, esse túmulo é a grande atração de Saqqara. “Essa foi a primeira pirâmide construída no mundo”, diz Zahi Hawass, explorador da National Geographic Society. “Seu arquiteto, Imhotep, inspirou-se no protótipo de adobe, mas empilhou as mastabas. E usou pedra na construção.” Esse experimento monumental estimulou a construção de uma centena de sepulturas reais com o formato de pirâmide ao longo do Nilo, das quais quase duas dúzias foram achadas em Saqqara.

Duas rainhas enterradas em Saqqara atraíram recentemente a atenção de Hawass. Ambas foram casadas com o faraó Teti, e não há dúvida que se viam e agiam como rivais. Seus nomes eram Iput e Khuit. As escavações de Hawass na área em torno de suas sepulturas revelaram pistas de que o reinado de Teti muito provavelmente chegou ao fim tal como começou – em convulsão.

Hawass me conduz por uma encosta de cascalho até o local de uma escavação a nordeste da pirâmide de Teti. Caminhando com agilidade por pátios de pedra e corredores de complexos funerários erguidos lado a lado, paramos entre dois montes irregulares de blocos cor de ferrugem e entulho. Despojadas de seu revestimento de calcário branco por trabalhadores que ergueram pirâmides posteriores, essas permaneceram esquecidas sob mais de 6 metros de areia.

“A pirâmide de Iput foi descoberta na década de 1890”, conta ele, indicando o monte à nossa direita. “Todos supunham que ela era a esposa principal de Teti, pois o filho dela, Pepi, herdou o trono. Mas veja o que encontrei sob um grande monte de areia – a pirâmide de Khuit!” Segui o seu olhar para o monte à nossa direita. “Como a pirâmide de Khuit é mais antiga, ela deve ter sido rainha antes de Iput.”

Hawass atravessa uma plataforma estreita entre um muro e o poço de um túmulo cujo fundo se perde na escuridão. Sigo rapidamente atrás dele sem olhar para o abismo e, depois de uma curva fechada, chegamos às ruínas de uma capela mortuária. Nas paredes os relevos mostram fileiras de servos oferecendo ao proprietário do túmulo cestos de alimentos, jarros de cerveja, lombos de boi, fôrmas de pão. Alguns desses relevos ainda trazem resquícios de pintura.

“Também encontrei este complexo funerário, que pertence a Tetiankh-Kem, o Negro Tetiankh”, diz Hawass, diante de uma porta entalhada cujos hieróglifos lê com facilidade. “Ele era filho de Khuit e o herdeiro do faraó Teti. Fizemos um raio X de sua múmia e descobrimos que morreu com cerca de 25 anos de idade.”

Com isso, fiquei confuso: o filho mais velho de Teti morreu jovem. E, no lugar dele, foi Pepi, o filho da segunda esposa, que herdou o trono. Certo? Talvez.

Ou talvez não. É aqui que a história começa a ficar sinistra.

As listas dos faraós mais antigos não são conclusivas. Algumas pulam direto de Teti para Pepi I. Duas delas, porém, incluem um governante – o misterioso Userkare – entre o pai e o filho.

Baseado em suas recentes descobertas e nos fragmentos de indícios escritos, Hawass monta uma seqüência plausível de acontecimentos. “Creio que o filho de Khuit, Tetiankh-Kem, foi morto juntamente com seu pai, o faraó Teti. Talvez Userkare estivesse envolvido na conspiração, mas ele governou apenas até o momento em que a rainha Iput conseguiu pôr seu filho Pepi no trono”, analisa ele.

Outros indícios de uma conspiração para a derrubada de Teti foram encontrados nos túmulos de seus altos funcionários.

Enquanto o vento varre o deserto certa manhã, Naguib Kanawati e eu buscamos abrigo em outra capela mortuária construída por uma pessoa e, depois, ocupada por outra. “Uma vez raspado com formão o nome original, outro foi entalhado no lugar: o de Seshemnefer”, diz Kanawati, apontando uma linha de hieróglifos na depressão causada pela raspagem. “Ele não passava de um funcionário menor e diz que o túmulo lhe fora concedido pelo faraó.”

“Agora dê uma olhada em cima do vão da porta.” Subitamente, os hieróglifos saltam da superfície da pedra. “Este é o nome do proprietário original do túmulo – Hezi, o vizir do rei Teti. Quem quer que estivesse encarregado de alterar os nomes provavelmente deixou este passar”. Tal como eu havia feito. Senti como se estivesse visitando a cena de um crime acompanhada de um mestre detetive.

Na parte de fora havia outras pistas. Uma série de estrias desfigura os dois pilares de um pórtico e as cenas com barcos em ambos os lados da porta.

“Hezi fora retratado nestes trechos, mas acabou sendo raspado de maneira muito meticulosa”, diz Kanawati. “As figuras nestes túmulos não são apenas arte. Elas têm uma função. O morto vivia por intermédio delas. Por isso, para punir alguém na vida eterna, era preciso mutilar todas as figuras.”

Hezi sabia que seu ka – sua força vital – podia retornar a este mundo por meio das figuras em seu túmulo. Ele esperava que parentes e sacerdotes fizessem oferendas constantes para sustentar seu ka, mas, caso eles relaxassem ou se esquecessem, ele mandara entalhar na sepultura cenas que poderiam ser úteis à sua força vital. Garantido pelas fórmulas mágicas entalhadas na pedra – alimentos e bebidas, o apoio de servos, a companhia de cantores e dançarinas e oportunidades para pescar e caçar –, o ka continuaria a desfrutar de todos os prazeres do aqui e agora. Ao destruir as figuras na sepultura de Hezi, alguém bloqueou para sempre seu acesso ao mundo dos vivos. O que o vizir havia feito para ser punido de forma tão violenta?

Ele havia conspirado contra o faraó Teti, arrisca Kanawati. O herdeiro que sobreviveu, Pepi I, teria então promovido essa vingança eterna, alterando as inscrições no túmulo de Hezi e concedendo-o a outra pessoa. “Não dá para dizer com certeza que Teti foi assassinado, mas ocorreu algo catastrófico”, diz o professor. “Quanto mais procuramos, mais indícios encontramos de que houve uma enorme conspiração. Muita gente foi punida.”

Provavelmente Hezi era um dos líderes dos conspiradores. Assim como o médico-chefe de Teti e o supervisor do arsenal, os quais receberam a mesma punição. O encarregado da guarda palaciana parece ter desempenhado um papel menor. Somente seu nariz e seus pés foram raspados dos relevos em sua capela mortuária.

As escavações nas proximidades da pirâmide de Pepi I proporcionam intrigas su- ficientes para no mínimo outro capítulo na saga de sua família – e novos personagens. Audran Labrousse, diretor da Missão Arqueológica Francesa, escavou sete novas pirâmides nessa área. Três delas pertencem às esposas de Pepi I, entre as quais Ankhesenpepi II, a mulher mais importante de sua época.

“Ela era uma das duas irmãs originárias de Abydos que se casaram com Pepi I”, diz Labrousse, diante de um café forte na sede da escavação francesa. “O nome dela significa ‘ela vive para Pepi’. O filho de sua irmã, Merenre, tornou-se rei após a morte de Pepi I, mas só governou por alguns anos. Em seguida, o próprio filho de Ankhesenpepi, Pepi II, subiu ao trono. Como se acredita que devia ter apenas 6 anos, sua mãe tornou-se regente. Ela exerceu de fato o poder e isso é visível em seu túmulo.”

Para chegarmos até a pirâmide de Ankhesenpepi, sacolejamos pelo deserto em uma perua até um ponto entre as pirâmides de Pepi I e de Merenre, ambas hoje nada mais que montes de pedras reviradas. Seguimos por uma trilha até o fundo da escavação e nos aproximamos de um muro irregular de pedra que sustenta um monte de rocha e areia. “Isto era uma pirâmide”, diz Labrousse. “Você vai ter de aceitar a minha palavra.”

Desviando-nos de lajes de granito vermelho que antes faziam parte de uma ponte levadiça, subimos por uma escada e engatinhamos por um longo túnel inclinado. “Ela não era um faraó, mas chegou bem perto disso”, comenta Labrousse ao entrarmos na câmara mortuária de Ankhesenpepi. Com uma lanterna, iluminou os hieróglifos que cobrem as paredes de pedra, coluna após coluna entalhada e pintada de verde, a cor do renascimento.

“Esta rainha foi a primeira mulher a ser enterrada com um texto deste tipo”, explica ele, sua voz traindo certo assombro. “Antes dela, as fórmulas sagrados conhecidas como Textos da Pirâmide foram achadas apenas nas tumbas dos faraós. O governante falecido tinha de passar pela morte antes de aceder à vida eterna e, para isso, precisava da ajuda destes textos. Ao pronunciar estas palavras, fazia com que seu corpo revivesse na vida futura.” Neste caso as palavras foram pronunciadas por uma mulher.

Ankhesenpepi deve ter sido uma mulher extraordinária. Antes dela, as esposas dos faraós sempre haviam ficado em segundo plano. Subitamente, ela deu um passo adiante e reivindicou para si a mais poderosa das fórmulas mágicas dos faraós. E isso não foi tudo.

Ao sairmos da pirâmide, Labrousse me leva através das ruínas até um bloco de calcário branco com inscrições. “Antes se pensava que Merenre fosse meio-irmão de Pepi II, mas essa hipótese teve de ser abandonada quando achamos esta inscrição”, diz ele. “Aí está dito claramente que Ankhesenpepi foi esposa de Pepi I, esposa de Merenre e também mãe de Pepi II.”

A genealogia é complicada demais. Balanço a cabeça, incapaz de entender. Labrousse tenta de novo. “A viúva de um faraó não era ninguém. Com a morte de Pepi I, Ankhesenpepi teria voltado ao harém, mas achamos que ela conseguiu seduzir seu sobrinho, Merenre. E felizmente para ela teve um filho, Pepi II.”

Essa mulher era uma espécie de Cleópatra – sedutora, esperta, implacável.

Labrousse está tentando reconstruir a planta-baixa de seu templo mortuário. Por enquanto, tudo de que dispõe é um lintel de granito pesando 15 toneladas, parte de um obelisco de calcário e blocos soltos das paredes. “Ela está enterrada perto de Pepi I, e seu túmulo está posicionado em direção ao de Merenre. Mas onde está a entrada?”, pergunta. “A situação da rainha já é bastante confusa para nós. Imagine como deve ter sido complicado para ela.”

Incluindo a regência de sua mãe, é provável que Pepi II tenha reinado por mais de 90 anos – um período maior que o de qualquer outro faraó egípcio. Na época em que morreu, por volta de 2175 a.C., o governo central estava prestes a entrar em colapso e, nas duas décadas seguintes, os governadores assumiram o controle de suas províncias. Uma prolongada seca provavelmente agravou o tumulto político. Sem chuva não havia água para irrigação, as colheitas foram insuficientes e a fome assolou a população. Com isso a era hoje conhecida como o Antigo Império chegou ao fim.

Os faraós seguintes reunificaram o país e transferiram a capital inúmeras vezes, mas Mênfis continuou sendo um importante centro urbano e religioso. “Era uma espécie de Nova York, uma cidade que já foi capital dos Estados Unidos”, diz David Silverman, professor de egiptologia na Universidade da Pensilvânia, onde o encontrei no intervalo de suas aulas. “A capital foi mudada, mas de algum modo Nova York preservou sua importância.”

Vinculadas à cidade, as atividades em Saqqara passaram a oscilar em função da política. Os novos faraós passaram a ser enterrados em outros locais, mas as antigas tumbas reais ainda tinham o poder de atrair os fiéis. Silverman está estudando os túmulos de dois sacerdotes do Médio Império que faziam parte do culto ao faraó Teti, havia muito falecido mas ainda venerado como um deus.

De um arquivo ele tira uma planta interna pintada dos dois complexos mortuários, situados no outro lado da rua onde fica a pirâmide de Teti – mas há algo surpreendente. Após descerem retos, os poços das tumbas continuam sob a rua, levando às câmaras funerárias que ficam sob o espaço sagrado do próprio Teti. Os sacerdotes, aparentemente, permaneceram em contato com o grande faraó na vida eterna.

Outros faraós não foram tão amados assim. O altos funcionários de Akhenaten, no Novo Império, podem até mesmo ter se mantido a uma certa distância do faraó, de maneira proposital e por bons motivos. Por volta de 1348 a.C., vários anos após iniciar seu reinado, Akhenaton proibiu o culto aos deuses tradicionais e criou uma nova religião em torno de Aton, o disco solar. Também fundou uma nova capital, Akhetaton (a moderna Amarna), no deserto ao sul de Saqqara. “Ele agiu como um maníaco”, diz Maarten Raven, curador da coleção egípcia no Museu Nacional de Antiguidades dos Países-Baixos. “Foi um choque para seus contemporâneos.”

Recentemente Raven desenterrou o túmulo de um desses contemporâneos, um importante sacerdote do templo de Aton em Mênfis. Avançando pelo deserto ao sul da Pirâmide em Degraus, o complexo inclui um poço funerário em um pátio antes repleto de colunas que imitavam caule de papiro.

O dono dessa tumba era um indivíduo chamado Meryneith, ou pelo menos foi com esse nome que começou sua carreira. No que parece ter sido uma incessante luta pela sobrevivência política, Meryneith mudou de nome duas vezes – primeiro para Meryre, depois de volta a Meryneith. Seu túmulo, construído em três etapas, confirma as oscilações de sua carreira.

Na seção mais antiga, concluída antes da revolução de Akhenaton, o batente das portas do santuário recebeu inscrições com o nome original do funcionário. “Meryneith significa ‘o amado da deusa Neith’”, explica Raven, passando o dedo indicador sobre os dois arcos de caça, com as pontas cruzadas em ambas as extremidades, que simbolizam a divindade.

O signo, porém, foi alterado na segunda etapa da construção. Um círculo, o símbolo do Sol, foi entalhado sobre os arcos e aplicado gesso sobre suas extremidades. “Podemos ver aqui que ele mudou seu nome para Meryre, ‘o amado do Sol’”, prossegue Raven. “Dá a impressão de que Meryneith sentiu que seria melhor para sua carreira se abandonasse a referência à velha deusa e adotasse um novo nome, politicamente mais correto.”

Caminhamos até o fragmento de um relevo de parede que antes retratou o dono da sepultura e sua esposa. Tudo o que resta de Meryneith é um braço, pintado de marrom avermelhado, mas os hieróglifos são legíveis – dois arcos, as pontas cruzadas, claramente entalhados na pedra. “Isto foi feito durante a terceira fase de decoração”, conclui Raven. “Assim que Akhenaton morreu, Meryneith retomou sua antiga identidade de politeísta.”

Meryneith tentava mais uma vez avançar sua carreira, distanciando-se do faraó herético que foi renegado após a morte? Seja como for, tudo isso foi em vão. Ele não chegou a terminar seu túmulo – talvez não tenha conseguido escapar de seus vínculos passados e acabou sendo expulso desse local de sepultamento da elite egípcia.

Já o túmulo vizinho foi construído por um homem chamado Horemheb, que sobreviveu aos tumultos políticos da época de Akhenaton. Ele foi tão bem-sucedido que se tornou faraó, erguendo outra tumba mais adequada à sua realeza e deixando essa sepultura para uma de suas esposas. Se Horemheb conheceu Meryneith, “o que achava deste – que não passava de um vira-casaca?”, imagina Raven. “Por outro lado, pouco se sabe sobre as atividades de Horemheb durante o período de Akhenaton.”

As pistas sobre o relacionamento desses dois homens podem estar escondidas sob o espaço que separa seus complexos mortuários – os quais Raven pretende escavar na primavera.

Não será nada fácil, porém, extrair algum sentido do material que vai encontrar. Tal como no resto de Saqqara, essa área está repleta de sepulturas de pessoas comuns de outras épocas – e os saqueadores já abriram incontáveis túneis entre os poços dos túmulos.

“O subsolo aqui é como um queijo suíço”, comenta Raven. “Isso torna ainda mais difícil este quebra-cabeça.”

A longuíssima seqüência de faraós chegou ao fim com a conquista do Egito por Alexandre Magno, em 332 a.C. A partir de então, os costumes estrangeiros minaram a majestosa civilização das margens do Nilo, mas os monumentos no deserto permaneceram – e a vida cotidiana ainda prosseguiu por séculos tal como antes.

No final de uma tarde escalo os restos maltratados pelo tempo de um palácio de adobe erguido em Mênfis nos derradeiros anos do domínio faraônico. De seu topo contemplo o vilarejo moderno de Mit Rahina, onde roupas secam nas janelas de sobrados de tijolo vermelho e as crianças correm pelas vielas empoeiradas. Agricultores retornam dos campos circundantes no lombo de burros e pastores de pastos distantes com seus animais. Ao longo do horizonte ocidental vejo as mesmas coisas que viram os antigos egípcios – as pirâmides de Abusir, Saqqara, Dahshur. Por fim, bem ao lado da Pirâmide em Degraus, o Sol desaparece para se encontrar com Osíris durante a noite.

Disponível em < http://viajeaqui.abril.com.br/materias/egito-nilo-farao?pw=1 >. Acesso em 21/07/2015.

Catacumba com milhares de múmias de cachorros é escavada em Saqqara

Por Márcia Jamille Costa | @Mjamille

 

Uma equipe de exploração arqueológica que conta com o auxílio da National Geographic está pesquisando milhões de múmias de cachorros em uma catacumba do Egito. Os corpos possuem cerca de 2 500 anos de idade e foram encontrados um século atrás, mas somente agora estão sendo examinadas de forma apropriada.

 

Anúbis e após o ritual de mumificação. Tumba de Djedhériuefankh. Tebas (Terceiro Período Intermediário). Fonte da imagem: MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto. (Tradução de Maria da Graça Crespo) 1ª Edição. Lisboa: Editora Taschen, 1999. p. 146.

 

A descoberta ocorreu na necrópole de Saqqara, embaixo de um templo dedicado para o deus Anúbis. Por serem restos de canídeos (onde os cães são a maioria entre chacais e raposas) a crença dos arqueólogos é que os animais foram oferecidos ao deus. Além de canídeos foram encontrados Icneumômes (Herpestes ichneumon), também chamados de “Rato-de-faraó”.

As múmias foram encontradas sobrepostas umas às outras e a estimativa é de que existam cerca de 8 milhões delas. A equipe responsável pelo trabalho acredita que os cães eram advindos de uma fazenda sob a responsabilidade dos sacerdotes de Anúbis, onde foram criados para serem vendidos aos peregrinos interessados em ofertá-los para o deus.

Catacumba em Saqqara onde se encontram as múmias de cachorros. Pictures: Millions of Puppy Mummies in Egypt Labyrinth. Disponível em < http://news.nationalgeographic.com/news/2011/04/pictures/110406-egypt-puppy-mummies-animals-dogs-science-catacomb-mummified/ > Acesso em 30 de Novembro de 2012.

Catacumba em Saqqara onde se encontram as múmias de cachorros. Pictures: Millions of Puppy Mummies in Egypt Labyrinth. Disponível em < http://news.nationalgeographic.com/news/2011/04/pictures/110406-egypt-puppy-mummies-animals-dogs-science-catacomb-mummified/ > Acesso em 30 de Novembro de 2012.

Catacumba em Saqqara onde se encontram as múmias de cachorros. Pictures: Millions of Puppy Mummies in Egypt Labyrinth. Disponível em < http://news.nationalgeographic.com/news/2011/04/pictures/110406-egypt-puppy-mummies-animals-dogs-science-catacomb-mummified/ > Acesso em 30 de Novembro de 2012.

Catacumba em Saqqara onde se encontram as múmias de cachorros. Pictures: Millions of Puppy Mummies in Egypt Labyrinth. Disponível em < http://news.nationalgeographic.com/news/2011/04/pictures/110406-egypt-puppy-mummies-animals-dogs-science-catacomb-mummified/ > Acesso em 30 de Novembro de 2012.

Catacumba em Saqqara onde se encontram as múmias de cachorros. Pictures: Millions of Puppy Mummies in Egypt Labyrinth. Disponível em < http://news.nationalgeographic.com/news/2011/04/pictures/110406-egypt-puppy-mummies-animals-dogs-science-catacomb-mummified/ > Acesso em 30 de Novembro de 2012.

Catacumba em Saqqara onde se encontram as múmias de cachorros. Pictures: Millions of Puppy Mummies in Egypt Labyrinth. Disponível em < http://news.nationalgeographic.com/news/2011/04/pictures/110406-egypt-puppy-mummies-animals-dogs-science-catacomb-mummified/ > Acesso em 30 de Novembro de 2012.

Os corpos já analisados demonstram que eles possuíam tamanhos e idades diferentes, tendo alguns morrido com poucos dias ou horas de vida. Com este trabalho espera-se saber como estes animais faleceram e detalhes sobre a vida deles.

A pesquisa está sob a coordenação de Paul Nicholson, da Universidade de Cardiff (Reino Unido) e conta com a participação de Salima Ikram, da Universidade Americana do Cairo (Egito).

 

Fontes para a notícia:

Encuentran millones de momias de perritos en unas milenarias catacumbas de Egipto. Disponível em < http://www.teinteresa.es/tierra/Encuentran-perritos-laberinto-catacumbas-Egipto_0_818919377.html > Acesso em 30 de Novembro de 2012.

Pictures: Millions of Puppy Mummies in Egypt Labyrinth. Disponível em < http://news.nationalgeographic.com/news/2011/04/pictures/110406-egypt-puppy-mummies-animals-dogs-science-catacomb-mummified/ > Acesso em 30 de Novembro de 2012.

 

Tumba de Maya na National Geographic

Esta matéria publicada em 2003 na revista National Geographic Brasil conta um pouco sobre a tumba de Maya, o tesoureiro real de Tutankhamon (e que provavelmente foi o responsável pela supervisão do encerramento da tumba do faraó).

Confira o texto com as palavras de Alain Zivie, o arqueólogo responsável pelas pesquisas no sepulcro:

O guardião do tesouro do deus-sol (Edição 43/Novembro de 2003)

A descoberta do túmulo do guardião das finanças do faraó Akhenaton intriga cientistas

 

Por Alain Zivie

Fonte: National Geographic Brasil

O túmulo do guardião do patrimônio dos templos do Egito, no reino do Deus-Sol Akhenaton, há mais de 3,3 mil anos

Muita experiência, intuição e um pouco de sorte fizeram com que eu chegasse até esse túmulo no antigo cemitério de Saqqara.

Com o apoio do Ministério de Assuntos Exteriores da França, eu já encontrara sítios funerários num penhasco da região, inclusive um que pertencera a um alto funcionário de Ramsés, o Grande (consulte “O enviado de paz do faraó”, outubro de 2002) e outro preparado para Maïa, ama-de-leite de Tutankhamon. À medida que minha equipe trabalhava, as pás iam revelando uma abertura na rocha. Assim que a areia foi removida, vi uma capela mortuária sustentada por uma colunata, com uma estela de pedra entalhada. Na escarpa atrás dela, descobrimos dois aposentos cobertos de relevos e uma escadaria levando a uma câmara sepulcral inacabada. Inscrições revelam que o proprietário tinha dois nomes: Raïay e Hatiay. Ele foi um importante administrador dos templos de Aton em Akhetaton (a nova capital) e em Mênfis (a antiga). Ou seja, esse homem cuidava do ouro e das oferendas para Aton em duas das principais cidades egípcias. Suas relações com Akhenaton eram próximas: relevos na tumba refletem a devoção de Raïay à religião extremista do faraó. Mas alguns deles foram modificados, e isso aconteceu provavelmente durante a vida de Raïay. Agora, a pergunta que fica no ar é: por quê?

Lindos relevos, executados pelos melhores artistas do país, enfeitam a tumba de Raïay. Mas sua função não é só decorativa. Envoltos em magia, facilitavam o caminho dele de volta à vida após a morte. Na cerimônia de “abrir a boca,” um sacerdote devolve os sentidos à múmia de Raïay, segura por um parente de luto. Esta imagem mostra que preparativos tradicionais para a vida eterna eram feitos mesmo durante o reinado nada ortodoxo de Akhenaton. Mas, como os textos que acompanham a cena estão de acordo com a adoração do faraó ao deus Aton, referências normais a Osíris, o deus da morte, foram omitidas. De fato, os relevos das paredes da tumba homenageiam apenas Aton.

A estela da entrada da tumba, porém, menciona diversos deuses egípcios. Num painel, Raïay e sua mulher fazem oferendas a Osíris. Inscrições mencionam deuses como Ptah, patrono de Mênfis, e Amon, a quem a esposa de Raïay ofereceu canções sagradas. Essa estela é fundamental para interpretar a tumba. Teria sido colocada depois que Akhenaton morreu, quando Raïay e seus contemporâneos retomaram antigos costumes, sob a autoridade de um novo faraó, Tutankhamon.

Raïay construiu essa tumba para sua mulher e para si mesmo. A esposa aparece sentada atrás dele ofertando flores. Mas ninguém foi enterrado nesse local.

A imagem de Raïay vigia a entrada de uma câmara mortuária inacabada. À medida que o povo deixou de lado as obsessões de Akhenaton, essa tumba provavelmente transformou-se numa ameaça, apesar das alterações feitas. Ao sentir o perigo iminente, Raïay parece ter abandonado o complexo funerário. Inscrições revelam que o nome de sua mulher era Maïa. Seria Maïa a que foi a ama-de-leite do rei Tutankhamon? Se for, será que a influência dela ajudou Raïay a recuperar a confiança real? E será que ele foi, afinal, enterrado em uma tumba ao lado da mulher? As respostas podem estar escondidas no penhasco de Saqqara.

Disponível em < http://viajeaqui.abril.com.br/materias/egito-tumba >. Acesso em 02/11/2011.

 

 

A vida cotidiana às margens do Nilo

Nada como um dia após o outro: a vida cotidiana às margens do Nilo

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

A vida do povo comum retratada das formas mais inusitadas é o que mais chama a minha atenção na arte egípcia. Normalmente vemos a pescaria, caça a hipopótamos, colheitas, etc, mas poucas vezes podemos observar o lado mais humano como as brincadeiras de roda, e até as brigas. Algumas destas imagens são retratações tanto de momentos trágicos, alegres ou cômicos. Veja abaixo algumas delas:

O rei beija uma figura feminina: na representação abaixo Akhenaton (Novo Império) beija uma garota (uma de suas esposas ou filhas). É notavel a ternura do beijo, que é vista através dos braços dos dois que se tocam com cainho.

Arqueologia egípcia: Akhenaton beija uma pequena dama 

Cirandinha: na tumba de Mereruka (Saqqara, VI Dinastia) vemos crianças brincando de algo que lembra a nossa ciranda.

Arqueologia egípcia: ciranda 

Jovens lixam um rapaz que está no chão: Na tumba de Ptahhotep (Saqqara, V Dinastia) quatro jovens espancam um quinto que está no chão. O mais interessante são os hieróglifos que dão voz as ações: enquanto o que está no chão reclama da dor um dos que está em pé grita “toma”. 

Arqueologia egípcia: briga
 

Embelezando as unhas: na tumba de Ankhmahor (Saqqara, XVI Dinastia) ocorre, ao que parece, uma cena de manicure. Sabemos que os egípcios realmente tinham este tipo de cuidado, por exemplo, a múmia que hoje é citada no Museu do Cairo como pertencente à rainha/faraó Hatshepsut possui as unhas das mãos pintadas.

Arqueologia egípcia: manicure 

Tirando uma nota: músicos com instrumentos de sopro tocam acompanhando os homens da frente que lhes passam o tom. Note que o que está à esquerda tampa um dos ouvidos enquanto faz um gesto com a mão.

Arqueologia egípcia: músicos 

Aplausos: na imagem completa estão algumas dançarinas com cabelos longos trançados e um pendente circular nas pontas. Enquanto fazem o passo espectadoras parecem aplaudir (ou dar a música?). 

Arqueologia egípcia: dançarinas 

Trabalhando bêbado: um dos estocadores dos vinhos (guardados nos grandes vasos) senta-se pondo a mão na cabeça, embriagado, enquanto um dos que está em pé reclama “Está dormindo”, um outro complementa “Está bêbado de vinho” e o que está alcoolizado devolve “Eu não estou dormindo”. 

Arqueologia egípcia: vinho
 

Álcool em excesso: uma dama servida em um banquete sente-se indisposta ao ingerir muito álcool e vomita, sendo então auxiliada por uma das empregadas da residência.

Arqueologia egípcia: dama indisposta 

Bibliografia:
Tallet, Pierre. A culinária no antigo Egito. 2006Casson, Lionel. O Antigo Egito. José Olympio. 1981Strouhal, Eugen. A vida no Antigo Egito. 2007