O surpreendente esconderijo de múmias de faraós encontrado no século XIX em Deir el-Bahari (TT320)

Quando os primeiros exploradores europeus chegaram ao Egito em busca dos seus tesouros arqueológicos —  fossem eles estátuas, imagens parietais, sarcófagos e, claro, joias — descobriram que todas as tumbas reais tinham sido saqueadas em algum momento da antiguidade[1].  Desta forma, foi uma surpresa quando nas décadas de 1870-80 artefatos com nomes de faraós e alguns dos seus parentes começaram a aparecer no mercado de antiguidades (DAVID, 2011).

Os registros dessa época somente passam uma ideia geral dos acontecimentos, mas, temos ciência de que a polícia egípcia, após algumas investigações, chegou até um homem chamado Ahmed Abd er-Rassul, que àquela altura era suspeito de violar sepulturas antigas (O’CONNOR et al, 2007).

— Saiba um pouco mais sobre essa história assistindo ao vídeo “Esconderijo de múmias reais de Deir el-Bahari.

Ahmed em frente a tumba. Foto disponível em REEVES, 2008.

Apesar de ter sofrido um duro interrogatório —  que incluiu tortura — Ahmed negou a acusação.  Porém, um parente seu, um senhor chamado Mohamed, o denunciou para as autoridades e revelou de onde estavam saindo os artefatos:  eles tinham sido encontrados dez anos antes, em 1871, em uma sepultura da época dos faraós, que possuía vários corpos (HAGEN et al, 1999; O’CONNOR et al, 2007; DAVID, 2011). A revelação foi um grande choque, em especial porque quando os arqueólogos entraram no lugar descobriram que dentro dos caixões estavam pouco mais de 40 múmias [2] e algumas delas eram as de grandes personalidades do passado tais como Ahmés-Nefertari, Seti I e Ramsés II (O’CONNOR et al, 2007).

A sepultura, cujo dono é desconhecido — parte dos egiptólogos estão divididos entre Inhapi ou Ahmose Merytamen —, foi construída próximo ao templo mortuário da faraó Hatshepsut, em Deir el-Bahari, literalmente do outro lado do Vale dos Reis e possui dois corredores e duas câmaras. Por conta da sua localização a priori foi catalogada como DB320 (Deir el-Bahari 320), mas na atualidade ela é chamada de TT320 (Tumba Tebana 320).

Ilustração representando Gaston Maspero em frente da tumba.

Localização da sepultura do ponto de vista dos templos mortuários de Hatshepsut e Mentuhotep. Fonte: Wikimedia.

Entrada da TT320. Fonte: Wikimedia.

Apesar da magnitude do achado o arqueólogo responsável pela remoção dos corpos e dos artefatos, Emil Brugsch (1842 – 1930), não realizou nenhum registro do sítio (O’CONNOR et al, 2007), algo que é impensável nos dias de hoje. Isso acaba comprometendo as análises futuras e consequentemente retira as chances de conseguir respostas para questões feitas atualmente acerca do sepulcro e das múmias e artefatos depositados lá dentro.

Entrando na Sepultura:

Para entrar no tal sepulcro, Brugsch precisou descer um poço com uma corda e passar por uma abertura com cerca de um metro de altura. O primeiro ataúde que viu pertencia a um sumo-sacerdote e mais adiante encontrou mais outros três. Necessitou avançar passando por um corredor com algumas pequenas antiguidades e seguiu por um pequeno lance de escadas até uma saleta.  Foi lá que, sob a luz de velas, encontrou enormes ataúdes e em alguns deles com o nome de grandes faraós.  Mais tarde ele declarou:

“Percebi a situação com o ofego e apressei-me a sair ao ar livre a fim de não me deixar vencer pelo o que via e que o glorioso achado, ainda não revelado, se perdesse para a ciência” [3] (O’CONNOR et al, 2007, p. 23).

Após esta saleta existe mais um corredor que leva até a câmara mortuária onde estavam mais corpos.

Temendo mais saques ele contratou cerca de 300 homens e embarcou todos os objetos em embarcações com destino ao Cairo.  Mas, não foi uma viagem silenciosa:  ao longo do Nilo homens atiravam com seus rifles para o céu e as mulheres lamentavam alto, um sinal de respeito e luto pelos antigos governantes falecidos. Já no Cairo a resposta foi menos respeitosa:  na alfândega o funcionário responsável pelo recebimento da carga registrou as múmias como ” peixe seco” (O’CONNOR et al, 2007).

Autópsia e análise das múmias:

Tempos depois da chegada dos corpos, Gaston Maspero (1846 – 1916), supervisor geral do Serviço de Antiguidades, liberou as autópsias —  que no caso das múmias é o que chamamos comumente de “desenfaixar” —.  O primeiro faraó a passar por esse processo foi Tutmés III.  As bandagens do Rei já tinham sido perturbadas em outro momento pelos Abd er-Rassul, que fizeram um buraco no seu peito.  Quando os arqueólogos abriram o restante do envoltório encontraram a múmia quebrada na área do pescoço e nas pernas (O’CONNOR et al, 2007).

Múmia de Tutmés III ainda coberta. Na área do seu peito está um buraco, feito por saqueadores.

Dias depois foi a vez de Ramsés II, que ao contrário do seu antecessor longínquo estava inteiro, em perfeito estado de conservação, inclusive contendo cabelos. Ramsés II tinha sido posto em um sarcófago de madeira que o identificava através de inscrições escritas em negro (O’CONNOR et al, 2007).

Primeiras notas sobre a múmia de Ramsés II. Fonte: Wikimedia.

A próxima múmia possuía um enorme sarcófago bem trabalhado. Descobriu-se que o grande artefato pertenceu à Rainha Ahmés-Nefertari.  Porém, quando as bandagens foram retiradas do corpo o que se seguiu foi uma surpresa desagradável.  Nas palavras do próprio Maspero:

“Mas, assim que o corpo foi exposto ao ar externo, desapareceu literalmente num estado de putrefação, dissolvendo-se numa matéria escura que exalou um odor insuportável” (O’CONNOR et al, 2007, p. 25).

Existem duas fotografias que nos mostram a múmia da rainha na época em que foi descoberta, mas o destino do corpo na atualidade é incerto. De acordo com um relato da época, por conta do mau cheiro a múmia foi sepultada no interior do Museu Egípcio. Algo que não foi confirmado na atualidade e nenhuma das bibliografias consultadas deu uma resposta definitiva.

Ahmés-Nefertari. Foto: E. Smith.

Sarcófago de Ahmés-Nefertari.

Ramsés III foi o próximo, contudo, o seu rosto estava coberto por um revestimento betuminoso que escondia suas feições (O’CONNOR et al, 2007). Nos últimos dez anos o rei passou por análise que apontam que antes da sua morte ele sofreu um ataque violento que certamente teria causado a sua morte [4].

Nos dias seguintes mais oito múmias da realeza foram desembrulhadas.  O arqueólogo francês Eugène Lefebure escreveu sobre esse trabalho, enaltecendo as emoções da época: “Quase todas as múmias estavam cobertas com grinaldas secas e lótus murchos que tinham permanecido intocados durante milhares de anos, e não havia melhor forma de compreender a suspensão do tempo e o freio a decomposição que ver essas flores imortais sobre os corpos eternizados” e complementou ” era a imagem de um sono interminável” (O’CONNOR et al, 2007, p. 26).

Alguns dos corpos que se encontram no sepulcro não foram identificados, outros, porém, com o auxílio de métodos invasivos e não invasivos, foram relacionados com outras múmias reais, a exemplo do “Homem Desconhecido E”, identificado através de um exame de DNA como um dos filhos de Ramsés III. Abaixo está uma tabela apontando o número de múmias e seus respectivos nomes, quando possível:

Nome Dinastia Título Observações
Ahmés-Inhapi 17ª Rainha Irmã de esposa de Seqenenre Tao II.
Ahmés-Henutemipet 17ª Princesa Filha de Seqenenre Tao II.
Ahmés-Henuttamehu 17ª Princesa Filha de Seqenenre Tao II.
Ahmés-Meritamon 17ª Princesa Provavelmente filha de Seqenenre Tao II.
Ahmés-Nefertari 18ª Rainha
Ahmés-Sipair 17ª Principe Provável filho de Seqenenre Tao II ou Ahmose I.
Ahmés-Sitkamose 17ª Princesa Provavelmente filha de Kamose, é possível que tenha casado com Ahmose I.
Amenhotep I 18ª Faraó
Ahmose I 18ª Faraó
Baket/Baketamon? 18ª Princesa
Djedptahiufankh 21ª Quarto Profeta de Amon Casou com a filha de  Pinudjem II e Neskhons,  Nesitanebetashru.
Duathathor-Henuttawy 21ª Rainha Esposa de Pinedjem I
Isetemkheb 21ª Chefe do harém de Amon-Rá Irmã e esposa de Pinedjem II.
Maatkare 21ª Esposa Divina de Amon Filha de Pinedjem I.
Masaharta 21ª Sumo Sacerdote de Amon Filho de Pinedjem I.
Nebseni
Neskhos
Nesitanebetashru 21ª Rainha Esposa de Djedptahiufankh.
Nodjmet 21ª Rainha Esposa de Herihor.
Pinedjem I 21ª Sumo Sacerdote de Amon
Pinedjem II 21ª Sumo Sacerdote de Amon
Rai 18ª Enfermeira Real Enfermeira de Ahmés-Nefertari.
Ramsés II 19ª Faraó
Ramsés III 20ª Faraó
Ramsés IX 20ª Faraó
Seqenenre Tao II 17ª Faraó
Seti I 19ª Faraó
Siamon 18ª Príncipe Filho de Ahmés-Nefertari e Ahmés I.
Sitamon 18ªª Princesa Filha de Ahmés e irmã de Amenhotep I
Tayuheret 21ª Cantora de Amon Possível esposa de Masaharta.
Tutmés I 18ª Faraó
Tutmés II 18ª Faraó
Tutmés III 18ª Faraó
Desconhecido Desconhecido E
Desconhecida Possivelmente rainha Tetisheri, mãe de Tao II, Ahmose Nefertari e possivelmente Kamose.
Desconhecida
Desconhecido
Desconhecido
Desconhecido
Desconhecido

Tabela realizada de acordo com REEVS, 2008 e RICE 1999.

Resquícios de outros indivíduos, tais como sarcófagos, vasos canópicos, joias, etc, foram identificados espalhados pela tumba. Tudo o que foi encontrado posteriormente a denúncia de Mohamed encontra-se hoje no Museu do Cairo. Entretanto, os objetos saqueados pelos Abd er-Rassul jamais foram recuperados. Provavelmente atualmente estão em alguma coleção particular ou na galeria de um grande museu identificado como possuindo “procedência desconhecida”.

Referências bibliográficas:

DAVID, Rosalie. Religião e Magia no Antigo Egito (Tradução de Angela Machado). Rio de Janeiro: Difel, 2011.

MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto (Tradução de Maria da Graça Crespo). Lisboa: Taschen, 1999.

O’CONNOR, D.; FORBES, D.; LEHNER, M. Grandes civilizações do passado: terra de faraós. Tradução de Francisco Manhães. 1ª Edição. Barcelona: Ed. Folio, 2007.

REEVES, Nicholas; WILKINSON, Richard. The Complete Valley of the Kings. London: Thames & Hudson, 2008.

RICE, Michael. Who’s Who in Ancient Egypt. 1ª Edição. Londres: Editora Routledg. 1999.


[1] Foi somente no início do século 20 que este quadro mudou com a descoberta da tumba do faraó Tutankhamon e parte do acervo fúnebre de Psusenes I

[2] Contando aqui tanto os corpos inteiros, como partes, como são o caso dos órgãos dentro dos vasos canópicos.

[3] Ele declarou isso possivelmente com medo de que as velas que o grupo carregava pudesse causar um incêndio.

[4] Ramsés III foi morto durante um ataque de mais de um assassino, diz pesquisadores.

“Morte no Nilo”, National Geographic

Por Márcia Jamille | Instagram | @MJamille

 

Este texto da National Geographic foi publicado aqui no Brasil em 2011, mas ainda não perdeu o seu vigor. Trata-se da apresentação de algumas tramas palacianas menos conhecidas, ocorridas centenas de anos antes da “Conspiração do Harém”, intriga que mataria Ramsés III, faraó da 19ª Dinastia. Na reportagem o que vemos é um plano de fundo do governo do rei Teti, Antigo Império, e a usurpação de túmulos por parte do rei como punição, dentre outras manipulações palacianas nos reinados seguintes, a exemplo do Período Amarniano.

Infelizmente ele está cheio de discursos sexistias — “rainhas ardilosas”, “uma espécie de Cleópatra — sedutora, esperta, implacável” —, mas ignorando isso é um ótimo artigo e que apresenta bem como o panorama politico egípcio poderia ser extremamente injusto, seguindo o que era conveniente para quem estava no poder.

 

Morte no Nilo (Edição 30/Outubro de 2002)

Um cemitério real revela novas pistas de assassinatos, vinganças e intrigas no Antigo Egito

Por A. R. Williams

Fonte: National Geographic Brasil

Imortalizado em pedra, um funcionário vigia sua capela funerária no cemitério hoje conhecido como Saqqara, onde túmulos, inscrições e oferendas continuam a esclarecer o passado distante

A princesa Idut não viveu até a idade adulta. Nos relevos de calcário que recobrem sua capela mortuária, ela é mostrada apenas como criança. E, em torno dela, há refinadas cenas entalhadas celebrando a abundância do vale do rio Nilo – peixes e aves aquáticas, um crocodilo mordendo um hipopótamo recém-nascido, vacas com bezerros, todos elementos decorativos comuns em sepulturas da realeza egípcia. Mas há algo que não se encaixa.

“Idut foi substituída por outra pessoa”, comenta o professor de egiptologia Naguib Kanawati. “Veja isto”, prossegue ele, apontando para uma área áspera na altura do joelho de Idut em uma cena com barcos. “Um pé foi totalmente eliminado, apagado a golpes de formão e raspado. E também o saiote de um homem.” Com dificuldade, consigo distinguir o perfil de um indivíduo robusto e alto, erguendo-se bem acima da recatada menina.

A princesa Idut morreu por volta de 2330 a.C. e foi enterrada sob a sua capela mortuária ao lado dos túmulos piramidais de seu avô, o faraó Unas, e de seu pai, o faraó Teti, no lugar hoje conhecido como Saqqara. Local onde foram encontrados os primeiros túmulos monumentais de pedra daquele país, Saqqara foi um dos mais venerados cemitérios reais do antigo Egito.

Quando a sepultura de Idut foi achada, em meados da década de 20, ninguém deu importância aos relevos alterados. Recentemente, porém, Kanawati examinou o assunto com mais atenção e descobriu indícios de uma surpreendente intriga. “Reli os hieróglifos e identifiquei o dono original do túmulo”, conta ele. “Era Ihy, o vizir, ou primeiro-ministro, do faraó Unas.” Tal como a maioria dos egípcios abastados e importantes da época, Ihy passara anos preparando o local onde descansaria por toda a eternidade. Portanto, como foi que a princesa Idut foi parar ali?

A resposta de Kanawati baseia-se em uma instigante e nova teoria sobre um golpe palaciano e as circunstâncias obscuras da ascensão ao trono do faraó Teti. “Não temos ainda a menor idéia de onde veio Teti. Tudo o que sabemos é que ele se casou com uma das filhas de Unas e tornou-se faraó após a morte do sogro. Desconfio que subiu ao trono pela força e que Ihy, o vizir, tentou em vão se opor a isso.” Como eterna punição, o novo faraó destinou seu túmulo a uma de suas princesas.

Essa sucessão dinástica que antes parecia tão simples é um dos vários episódios que estão se revelando bem mais complexos em Saqqara, onde foram realizados sepultamentos ao longo de um período de 3 mil anos, abrangendo 31 dinastias da antiga civilização do Egito. Os arqueólogos estão reunindo indícios daqueles dramas do tipo capa-e-espada, marcados por conspirações, assassinatos, vinganças, rainhas ardilosas, políticos ambiciosos e fanatismo religioso.

A oeste dos campos de alfafa e dos empoeirados palmeirais que flanqueiam o rio Nilo, Saqqara fica no topo de uma escarpa rochosa. A margem ocidental do Nilo, acreditavam os antigos egípcios, era o local em que os restos mortais estavam mais próximos do grande Além. Segundo a concepção que tinham do mundo, quando se ocultava atrás do horizonte do deserto ao fim de cada dia, o Sol prosseguia em sua viagem até o mundo subterrâneo governado por Osíris, o deus da vida eterna, até que, no dia seguinte, voltava a nascer na margem oposta do grande rio.

Saqqara fazia parte de um imenso complexo funerário que se estendia por 70 quilômetros ao longo do Nilo. Essa área logo ao sul do delta do Nilo possui enorme valor estratégico, pois há ali um estreitamento do rio, formando uma espécie de entrada natural.

A fim de controlar o tráfego fluvial, e por meio dele o resto do país, os faraós das primeiras dinastias ergueram fortalezas nas duas margens do Nilo. Logo construíram palácios acima da fértil planície de inundação – assim teve início Mênfis, a primeira capital do Egito – e puseram seus túmulos no deserto vizinho.

Os primeiros túmulos eram escavados na rocha e arrematados com uma edificação baixa de adobe conhecida como mastaba. Algumas sobrevivem quase à sombra do túmulo de 4630 anos de idade que, ao ampliar a altura da mastaba, modificou a forma dos sepultamentos faraônicos: a Pirâmide em Degraus.

Erguido pelo faraó Djoser, esse túmulo é a grande atração de Saqqara. “Essa foi a primeira pirâmide construída no mundo”, diz Zahi Hawass, explorador da National Geographic Society. “Seu arquiteto, Imhotep, inspirou-se no protótipo de adobe, mas empilhou as mastabas. E usou pedra na construção.” Esse experimento monumental estimulou a construção de uma centena de sepulturas reais com o formato de pirâmide ao longo do Nilo, das quais quase duas dúzias foram achadas em Saqqara.

Duas rainhas enterradas em Saqqara atraíram recentemente a atenção de Hawass. Ambas foram casadas com o faraó Teti, e não há dúvida que se viam e agiam como rivais. Seus nomes eram Iput e Khuit. As escavações de Hawass na área em torno de suas sepulturas revelaram pistas de que o reinado de Teti muito provavelmente chegou ao fim tal como começou – em convulsão.

Hawass me conduz por uma encosta de cascalho até o local de uma escavação a nordeste da pirâmide de Teti. Caminhando com agilidade por pátios de pedra e corredores de complexos funerários erguidos lado a lado, paramos entre dois montes irregulares de blocos cor de ferrugem e entulho. Despojadas de seu revestimento de calcário branco por trabalhadores que ergueram pirâmides posteriores, essas permaneceram esquecidas sob mais de 6 metros de areia.

“A pirâmide de Iput foi descoberta na década de 1890”, conta ele, indicando o monte à nossa direita. “Todos supunham que ela era a esposa principal de Teti, pois o filho dela, Pepi, herdou o trono. Mas veja o que encontrei sob um grande monte de areia – a pirâmide de Khuit!” Segui o seu olhar para o monte à nossa direita. “Como a pirâmide de Khuit é mais antiga, ela deve ter sido rainha antes de Iput.”

Hawass atravessa uma plataforma estreita entre um muro e o poço de um túmulo cujo fundo se perde na escuridão. Sigo rapidamente atrás dele sem olhar para o abismo e, depois de uma curva fechada, chegamos às ruínas de uma capela mortuária. Nas paredes os relevos mostram fileiras de servos oferecendo ao proprietário do túmulo cestos de alimentos, jarros de cerveja, lombos de boi, fôrmas de pão. Alguns desses relevos ainda trazem resquícios de pintura.

“Também encontrei este complexo funerário, que pertence a Tetiankh-Kem, o Negro Tetiankh”, diz Hawass, diante de uma porta entalhada cujos hieróglifos lê com facilidade. “Ele era filho de Khuit e o herdeiro do faraó Teti. Fizemos um raio X de sua múmia e descobrimos que morreu com cerca de 25 anos de idade.”

Com isso, fiquei confuso: o filho mais velho de Teti morreu jovem. E, no lugar dele, foi Pepi, o filho da segunda esposa, que herdou o trono. Certo? Talvez.

Ou talvez não. É aqui que a história começa a ficar sinistra.

As listas dos faraós mais antigos não são conclusivas. Algumas pulam direto de Teti para Pepi I. Duas delas, porém, incluem um governante – o misterioso Userkare – entre o pai e o filho.

Baseado em suas recentes descobertas e nos fragmentos de indícios escritos, Hawass monta uma seqüência plausível de acontecimentos. “Creio que o filho de Khuit, Tetiankh-Kem, foi morto juntamente com seu pai, o faraó Teti. Talvez Userkare estivesse envolvido na conspiração, mas ele governou apenas até o momento em que a rainha Iput conseguiu pôr seu filho Pepi no trono”, analisa ele.

Outros indícios de uma conspiração para a derrubada de Teti foram encontrados nos túmulos de seus altos funcionários.

Enquanto o vento varre o deserto certa manhã, Naguib Kanawati e eu buscamos abrigo em outra capela mortuária construída por uma pessoa e, depois, ocupada por outra. “Uma vez raspado com formão o nome original, outro foi entalhado no lugar: o de Seshemnefer”, diz Kanawati, apontando uma linha de hieróglifos na depressão causada pela raspagem. “Ele não passava de um funcionário menor e diz que o túmulo lhe fora concedido pelo faraó.”

“Agora dê uma olhada em cima do vão da porta.” Subitamente, os hieróglifos saltam da superfície da pedra. “Este é o nome do proprietário original do túmulo – Hezi, o vizir do rei Teti. Quem quer que estivesse encarregado de alterar os nomes provavelmente deixou este passar”. Tal como eu havia feito. Senti como se estivesse visitando a cena de um crime acompanhada de um mestre detetive.

Na parte de fora havia outras pistas. Uma série de estrias desfigura os dois pilares de um pórtico e as cenas com barcos em ambos os lados da porta.

“Hezi fora retratado nestes trechos, mas acabou sendo raspado de maneira muito meticulosa”, diz Kanawati. “As figuras nestes túmulos não são apenas arte. Elas têm uma função. O morto vivia por intermédio delas. Por isso, para punir alguém na vida eterna, era preciso mutilar todas as figuras.”

Hezi sabia que seu ka – sua força vital – podia retornar a este mundo por meio das figuras em seu túmulo. Ele esperava que parentes e sacerdotes fizessem oferendas constantes para sustentar seu ka, mas, caso eles relaxassem ou se esquecessem, ele mandara entalhar na sepultura cenas que poderiam ser úteis à sua força vital. Garantido pelas fórmulas mágicas entalhadas na pedra – alimentos e bebidas, o apoio de servos, a companhia de cantores e dançarinas e oportunidades para pescar e caçar –, o ka continuaria a desfrutar de todos os prazeres do aqui e agora. Ao destruir as figuras na sepultura de Hezi, alguém bloqueou para sempre seu acesso ao mundo dos vivos. O que o vizir havia feito para ser punido de forma tão violenta?

Ele havia conspirado contra o faraó Teti, arrisca Kanawati. O herdeiro que sobreviveu, Pepi I, teria então promovido essa vingança eterna, alterando as inscrições no túmulo de Hezi e concedendo-o a outra pessoa. “Não dá para dizer com certeza que Teti foi assassinado, mas ocorreu algo catastrófico”, diz o professor. “Quanto mais procuramos, mais indícios encontramos de que houve uma enorme conspiração. Muita gente foi punida.”

Provavelmente Hezi era um dos líderes dos conspiradores. Assim como o médico-chefe de Teti e o supervisor do arsenal, os quais receberam a mesma punição. O encarregado da guarda palaciana parece ter desempenhado um papel menor. Somente seu nariz e seus pés foram raspados dos relevos em sua capela mortuária.

As escavações nas proximidades da pirâmide de Pepi I proporcionam intrigas su- ficientes para no mínimo outro capítulo na saga de sua família – e novos personagens. Audran Labrousse, diretor da Missão Arqueológica Francesa, escavou sete novas pirâmides nessa área. Três delas pertencem às esposas de Pepi I, entre as quais Ankhesenpepi II, a mulher mais importante de sua época.

“Ela era uma das duas irmãs originárias de Abydos que se casaram com Pepi I”, diz Labrousse, diante de um café forte na sede da escavação francesa. “O nome dela significa ‘ela vive para Pepi’. O filho de sua irmã, Merenre, tornou-se rei após a morte de Pepi I, mas só governou por alguns anos. Em seguida, o próprio filho de Ankhesenpepi, Pepi II, subiu ao trono. Como se acredita que devia ter apenas 6 anos, sua mãe tornou-se regente. Ela exerceu de fato o poder e isso é visível em seu túmulo.”

Para chegarmos até a pirâmide de Ankhesenpepi, sacolejamos pelo deserto em uma perua até um ponto entre as pirâmides de Pepi I e de Merenre, ambas hoje nada mais que montes de pedras reviradas. Seguimos por uma trilha até o fundo da escavação e nos aproximamos de um muro irregular de pedra que sustenta um monte de rocha e areia. “Isto era uma pirâmide”, diz Labrousse. “Você vai ter de aceitar a minha palavra.”

Desviando-nos de lajes de granito vermelho que antes faziam parte de uma ponte levadiça, subimos por uma escada e engatinhamos por um longo túnel inclinado. “Ela não era um faraó, mas chegou bem perto disso”, comenta Labrousse ao entrarmos na câmara mortuária de Ankhesenpepi. Com uma lanterna, iluminou os hieróglifos que cobrem as paredes de pedra, coluna após coluna entalhada e pintada de verde, a cor do renascimento.

“Esta rainha foi a primeira mulher a ser enterrada com um texto deste tipo”, explica ele, sua voz traindo certo assombro. “Antes dela, as fórmulas sagrados conhecidas como Textos da Pirâmide foram achadas apenas nas tumbas dos faraós. O governante falecido tinha de passar pela morte antes de aceder à vida eterna e, para isso, precisava da ajuda destes textos. Ao pronunciar estas palavras, fazia com que seu corpo revivesse na vida futura.” Neste caso as palavras foram pronunciadas por uma mulher.

Ankhesenpepi deve ter sido uma mulher extraordinária. Antes dela, as esposas dos faraós sempre haviam ficado em segundo plano. Subitamente, ela deu um passo adiante e reivindicou para si a mais poderosa das fórmulas mágicas dos faraós. E isso não foi tudo.

Ao sairmos da pirâmide, Labrousse me leva através das ruínas até um bloco de calcário branco com inscrições. “Antes se pensava que Merenre fosse meio-irmão de Pepi II, mas essa hipótese teve de ser abandonada quando achamos esta inscrição”, diz ele. “Aí está dito claramente que Ankhesenpepi foi esposa de Pepi I, esposa de Merenre e também mãe de Pepi II.”

A genealogia é complicada demais. Balanço a cabeça, incapaz de entender. Labrousse tenta de novo. “A viúva de um faraó não era ninguém. Com a morte de Pepi I, Ankhesenpepi teria voltado ao harém, mas achamos que ela conseguiu seduzir seu sobrinho, Merenre. E felizmente para ela teve um filho, Pepi II.”

Essa mulher era uma espécie de Cleópatra – sedutora, esperta, implacável.

Labrousse está tentando reconstruir a planta-baixa de seu templo mortuário. Por enquanto, tudo de que dispõe é um lintel de granito pesando 15 toneladas, parte de um obelisco de calcário e blocos soltos das paredes. “Ela está enterrada perto de Pepi I, e seu túmulo está posicionado em direção ao de Merenre. Mas onde está a entrada?”, pergunta. “A situação da rainha já é bastante confusa para nós. Imagine como deve ter sido complicado para ela.”

Incluindo a regência de sua mãe, é provável que Pepi II tenha reinado por mais de 90 anos – um período maior que o de qualquer outro faraó egípcio. Na época em que morreu, por volta de 2175 a.C., o governo central estava prestes a entrar em colapso e, nas duas décadas seguintes, os governadores assumiram o controle de suas províncias. Uma prolongada seca provavelmente agravou o tumulto político. Sem chuva não havia água para irrigação, as colheitas foram insuficientes e a fome assolou a população. Com isso a era hoje conhecida como o Antigo Império chegou ao fim.

Os faraós seguintes reunificaram o país e transferiram a capital inúmeras vezes, mas Mênfis continuou sendo um importante centro urbano e religioso. “Era uma espécie de Nova York, uma cidade que já foi capital dos Estados Unidos”, diz David Silverman, professor de egiptologia na Universidade da Pensilvânia, onde o encontrei no intervalo de suas aulas. “A capital foi mudada, mas de algum modo Nova York preservou sua importância.”

Vinculadas à cidade, as atividades em Saqqara passaram a oscilar em função da política. Os novos faraós passaram a ser enterrados em outros locais, mas as antigas tumbas reais ainda tinham o poder de atrair os fiéis. Silverman está estudando os túmulos de dois sacerdotes do Médio Império que faziam parte do culto ao faraó Teti, havia muito falecido mas ainda venerado como um deus.

De um arquivo ele tira uma planta interna pintada dos dois complexos mortuários, situados no outro lado da rua onde fica a pirâmide de Teti – mas há algo surpreendente. Após descerem retos, os poços das tumbas continuam sob a rua, levando às câmaras funerárias que ficam sob o espaço sagrado do próprio Teti. Os sacerdotes, aparentemente, permaneceram em contato com o grande faraó na vida eterna.

Outros faraós não foram tão amados assim. O altos funcionários de Akhenaten, no Novo Império, podem até mesmo ter se mantido a uma certa distância do faraó, de maneira proposital e por bons motivos. Por volta de 1348 a.C., vários anos após iniciar seu reinado, Akhenaton proibiu o culto aos deuses tradicionais e criou uma nova religião em torno de Aton, o disco solar. Também fundou uma nova capital, Akhetaton (a moderna Amarna), no deserto ao sul de Saqqara. “Ele agiu como um maníaco”, diz Maarten Raven, curador da coleção egípcia no Museu Nacional de Antiguidades dos Países-Baixos. “Foi um choque para seus contemporâneos.”

Recentemente Raven desenterrou o túmulo de um desses contemporâneos, um importante sacerdote do templo de Aton em Mênfis. Avançando pelo deserto ao sul da Pirâmide em Degraus, o complexo inclui um poço funerário em um pátio antes repleto de colunas que imitavam caule de papiro.

O dono dessa tumba era um indivíduo chamado Meryneith, ou pelo menos foi com esse nome que começou sua carreira. No que parece ter sido uma incessante luta pela sobrevivência política, Meryneith mudou de nome duas vezes – primeiro para Meryre, depois de volta a Meryneith. Seu túmulo, construído em três etapas, confirma as oscilações de sua carreira.

Na seção mais antiga, concluída antes da revolução de Akhenaton, o batente das portas do santuário recebeu inscrições com o nome original do funcionário. “Meryneith significa ‘o amado da deusa Neith’”, explica Raven, passando o dedo indicador sobre os dois arcos de caça, com as pontas cruzadas em ambas as extremidades, que simbolizam a divindade.

O signo, porém, foi alterado na segunda etapa da construção. Um círculo, o símbolo do Sol, foi entalhado sobre os arcos e aplicado gesso sobre suas extremidades. “Podemos ver aqui que ele mudou seu nome para Meryre, ‘o amado do Sol’”, prossegue Raven. “Dá a impressão de que Meryneith sentiu que seria melhor para sua carreira se abandonasse a referência à velha deusa e adotasse um novo nome, politicamente mais correto.”

Caminhamos até o fragmento de um relevo de parede que antes retratou o dono da sepultura e sua esposa. Tudo o que resta de Meryneith é um braço, pintado de marrom avermelhado, mas os hieróglifos são legíveis – dois arcos, as pontas cruzadas, claramente entalhados na pedra. “Isto foi feito durante a terceira fase de decoração”, conclui Raven. “Assim que Akhenaton morreu, Meryneith retomou sua antiga identidade de politeísta.”

Meryneith tentava mais uma vez avançar sua carreira, distanciando-se do faraó herético que foi renegado após a morte? Seja como for, tudo isso foi em vão. Ele não chegou a terminar seu túmulo – talvez não tenha conseguido escapar de seus vínculos passados e acabou sendo expulso desse local de sepultamento da elite egípcia.

Já o túmulo vizinho foi construído por um homem chamado Horemheb, que sobreviveu aos tumultos políticos da época de Akhenaton. Ele foi tão bem-sucedido que se tornou faraó, erguendo outra tumba mais adequada à sua realeza e deixando essa sepultura para uma de suas esposas. Se Horemheb conheceu Meryneith, “o que achava deste – que não passava de um vira-casaca?”, imagina Raven. “Por outro lado, pouco se sabe sobre as atividades de Horemheb durante o período de Akhenaton.”

As pistas sobre o relacionamento desses dois homens podem estar escondidas sob o espaço que separa seus complexos mortuários – os quais Raven pretende escavar na primavera.

Não será nada fácil, porém, extrair algum sentido do material que vai encontrar. Tal como no resto de Saqqara, essa área está repleta de sepulturas de pessoas comuns de outras épocas – e os saqueadores já abriram incontáveis túneis entre os poços dos túmulos.

“O subsolo aqui é como um queijo suíço”, comenta Raven. “Isso torna ainda mais difícil este quebra-cabeça.”

A longuíssima seqüência de faraós chegou ao fim com a conquista do Egito por Alexandre Magno, em 332 a.C. A partir de então, os costumes estrangeiros minaram a majestosa civilização das margens do Nilo, mas os monumentos no deserto permaneceram – e a vida cotidiana ainda prosseguiu por séculos tal como antes.

No final de uma tarde escalo os restos maltratados pelo tempo de um palácio de adobe erguido em Mênfis nos derradeiros anos do domínio faraônico. De seu topo contemplo o vilarejo moderno de Mit Rahina, onde roupas secam nas janelas de sobrados de tijolo vermelho e as crianças correm pelas vielas empoeiradas. Agricultores retornam dos campos circundantes no lombo de burros e pastores de pastos distantes com seus animais. Ao longo do horizonte ocidental vejo as mesmas coisas que viram os antigos egípcios – as pirâmides de Abusir, Saqqara, Dahshur. Por fim, bem ao lado da Pirâmide em Degraus, o Sol desaparece para se encontrar com Osíris durante a noite.

Disponível em < http://viajeaqui.abril.com.br/materias/egito-nilo-farao?pw=1 >. Acesso em 21/07/2015.

(Artigo) Distâncias egípcias, encontros núbios

Distâncias egípcias, encontros núbios: interações culturais e fronteiras étnicas no Novo Império egípcio – Fábio Amorim Vieira | Português |

Caracterizado pelos expressivos contatos egípcios com povos estrangeiros, o período denominado de Novo Império, entre 1580 e 1080 a. C., fornece evidências do processo de estabelecimento de relações étnicas e intercâmbios culturais entre os povos do Egito e os seus vizinhos estrangeiros do sul, na Núbia. Este artigo anseia perceber as fronteiras culturais, formações de identidades étnicas e relações de contato edificadas, mantidas e transformadas entre egípcios e núbios no contexto do nordeste saariano.

Obtenha o artigo Distâncias egípcias, encontros núbios: interações culturais e fronteiras étnicas no Novo Império egípcio

Pirâmides na National Geographic (2001)

Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Este é um texto para sempre ser relembrado, já que é um assunto que está em pauta todos os anos e trata-se dos (as) autores (as) da construção das pirâmides, especialmente a do platô de Gizé. Este assunto gera tanta polêmica porque os textos clássicos, mais especificamente os registros de Heródoto, que viveu centenas de anos após a construção, cita a presença de escravos. Contudo, os trabalhos de arqueologia desmentiram tais relatos.

Segue abaixo o artigo da National Geographic, publicado no Brasil em 2001, e que poderá explicar um pouco mais.

 

Os operários das pirâmides (Edição 19/Novembro de 2001)

Novos sítios arqueológicos revelam sinais de que, na verdade, ao invés de escravos, operários construíram as pirâmides do Egito

Por Virginia Morell

Fonte: National Geographic Brasil

Três gerações de egípcios ergueram em Gizé um conjunto de pirâmides, há mais de 4 mil anos.

Ao lado das três grandes pirâmides de Gizé, nas cercanias do Cairo, o egiptólogo Zahi Hawass caminha entre pequenos túmulos feitos de barro e pedra. Algumas das sepulturas têm a forma de domo. Outras são estruturas retangulares escavadas em escarpas rochosas e algumas foram construídas com blocos de calcário cobertos de hieróglifos.

Hawass está acompanhado de uma equipe de escavadores que para ao lado de uma dessas modestas sepulturas, a Tumba 53. É nela que eles vão se concentrar nessa manhã. “Venho pensando nisso há anos”, revela-me Hawass, enquanto os membros de seu grupo começam a escavar o topo da mastaba (o nome desse tipo de sepultura). “Muitas vezes, contemplando as pirâmides, eu me perguntava: ‘E as pessoas que as construíram? Onde foram enterradas? Quem eram os homens e as mulheres por trás desse grande empreendimento?’ Agora, graças a sepulturas como esta, temos afinal alguns indícios dessa gente.” Ao contrário do que se acredita, as pirâmides não foram erguidas por escravos nem por estrangeiros. “Essa idéia surgiu com Heródoto”, prossegue o grisalho Hawass. Por volta de 450 a.C., ou seja, cerca de 2 mil anos após a construção das pirâmides, o historiador grego visitou o Egito, onde lhe disseram que 100 mil homens haviam sido obrigados a trabalhar como escravos na grande pirâmide do faraó Quéops.

A descoberta desse cemitério por Hawass em 1990 e uma escavação realizada nos arredores pelo arqueólogo Mark Lehner – que revelou algo parecido com uma antiga cidade operária – vieram confirmar algo que os egiptólogos já desconfiavam: Heródoto estava mal informado. Foram egípcios comuns que ergueram as pirâmides. Alguns eram convocados por períodos de tempo limitados, outros trabalhavam em tempo integral. Hawass e Lehner estimam que o empreendimento todo – extrair da pedreira, transportar e cortar os 5 milhões de metros cúbicos de blocos de pedra usados nas três pirâmides e nas estruturas adjacentes – foi realizado por uma força de trabalho bem menor, de 20 mil a 30 mil homens.

Cada complexo piramidal (o conjunto que abrange uma pirâmide e os templos e as sepulturas adjacentes) era iniciado assim que um faraó subia ao trono e interrompido apenas em sua morte. As obras em Gizé ocorreram durante a quarta dinastia, nos reinados dos faraós Quéops, Quéfren e Miquerinos (por volta de 2550 até 2470 a.C.), e estenderam-se por cerca de 80 anos.

Ao me acomodar ao lado da Tumba 53, consigo ver a ponta afilada das duas maiores pirâmides, os túmulos de Quéops e de seu filho Quéfren. Suas dimensões, formas e beleza sempre deixaram os visitantes boquiabertos. Elas foram construídas com blocos de calcário e granito cujo peso variava de menos de 1 tonelada até mais de 40 toneladas – todos eles cortados, transportados e colocados em seu lugar por mãos humanas. Os antigos egípcios não dispunham de máquinas complexas nem de animais (tampouco de extraterrestres!) para facilitar qualquer etapa desse trabalho. Além disso, depois de terminarem o núcleo de uma pirâmide eles a revestiam com pedras que se encaixavam perfeitamente. Depois, ainda poliam o monumento até que ele brilhasse ao sol como uma jóia gigantesca.

“Não há dúvida de que eles tinham muito orgulho de sua obra”, diz Hawass quando comento o evidente cuidado que haviam dedicado às pirâmides. “Eles não estavam apenas erguendo o túmulo de seu soberano. Estavam construindo o Egito. Era um projeto nacional, do qual todos participavam. As pessoas que estamos exumando nestas sepulturas eram parte desse esforço nacional”, acrescenta o pesquisador, apontando com a cabeça a tumba à sua frente. “Muitos deles passaram a vida cortando, movendo e polindo os blocos de pedra.”

Nesse momento, os homens de Hawass já haviam removido as rochas e os tijolos que cobriam a sepultura e alguns deles começavam a cavar com pás a areia que havia embaixo. Outros formam uma fila à beira do fosso com cestos feitos de borracha trançada. A maioria veste túnica longa e turbante. São pouco mais de 8 horas de uma manhã de primavera egípcia, mas o sol já está alto e quente no céu azul. Tento encontrar uma sombra atrás da mastaba. Os operários, acostumados com o calor, a poeira e o suor, avançam e baixam seus baldes na sepultura. Um companheiro chamado Said Saleh cava e enche os recipientes com a terra arenosa, que depois é peneirada por dois arqueólogos. Todos mantêm um ritmo constante enquanto cavam, içam os baldes e despejam a terra – uma versão em pequena escala, imagino, das enormes turmas de operários que empurraram, puxaram e colocaram no lugar os blocos das pirâmides.

Poucos minutos depois, os esforços dos trabalhadores trazem à luz os escuros e empoeirados fragmentos do que havia sido um caixão de madeira. “Isso é raro”, adianta Hawass. “Em geral essa gente era pobre demais para arcar com o custo de um caixão. Talvez seu ocupante trabalhasse numa oficina de marcenaria ou conhecesse algum marceneiro.” Sob os fragmentos do caixão Saleh encontra o crânio e as clavículas e depois o resto do esqueleto. Ele está em posição fetal, como era o costume, com o rosto voltado para o leste, na direção do sol nascente, e o crânio apontando para o norte, aonde o espírito do faraó elevava-se todas as noites para se juntar às estrelas circumpolares.

Com uma escova, Saleh limpa a terra dos ossos. Mais tarde, um antropólogo físico irá retirá-los para estudo. Fiapos de tecido ainda se prendem a alguns ossos, indicando que o indivíduo havia sido enrolado em uma mortalha antes de ser posto no caixão. “Os mais pobres costumavam fazer isso. Era uma espécie de mumificação simbólica”, explica Hawass. “Ninguém tinha condições de pagar por um ritual autêntico. Envolta em uma mortalha, a pessoa pelo menos ficava com a aparência de ter sido mumificada.” Ao lado do esqueleto, Saleh desenterra uma faca feita de sílex amarelo. “Os humildes também eram enterrados com algo que os ajudasse no além. Talvez essa faca fosse usada por ele para cortar carne”, completa o egiptólogo.

Muitos operários também foram enterrados com jarros de cerveja. “Feita de cevada, a cerveja era a bebida de todos os dias. Mesmo após a morte, eles não podiam passar sem ela”, diz Hawass. Um punhado de ossos minúsculos e contas de barro esmaltado ou vidrado brotam da Tumba 53. “Isso indica que o esqueleto provavelmente é de uma mulher, mas só teremos certeza depois que os ossos forem examinados. Todos os egípcios – homens e mulheres – ajudaram a construir as pirâmides”, completa ele.

Quando os arqueólogos começaram a escavar em Gizé, há cerca de 200 anos, evidentemente concentraram-se na investigação das pirâmides dos faraós e das rainhas, dos templos e túmulos circundantes, e na esfinge. Os antigos egípcios ergueram esse complexo durante a quarta dinastia do Antigo Império, uma era gloriosa para a arte e a arquitetura. Ironicamente, a despeito de seus enormes monumentos funerários, sabemos pouco a respeito dos três principais faraós dessa dinastia. Se os egípcios da época registraram as atividades da casa real em rolos de papiro – como foi feito em períodos posteriores –, esses rolos não resistiram ao tempo.

Os pesquisadores têm apenas uma vaga idéia da aparência do faraó Quéops, que mandou erguer a maior das três pirâmides. Uma estatueta de marfim é tudo o que restou dele, e mesmo ela pode ter sido esculpida séculos depois de sua morte. Os cientistas, no entanto, sabem ainda menos sobre as pessoas comuns que labutavam nas tumbas e nos templos da elite governante. “É como se toda essa gente tivesse desaparecido”, diz Mark Lehner, que passou a década passada procurando as casas e oficinas dos operários das pirâmides. “Mas como isso pode ocorrer com 100 mil pessoas, se usarmos a estimativa de Heródoto, ou mesmo com 20 mil ou 30 mil pessoas?”

Lehner me conduziu até um dos raros indícios restantes dessa força de trabalho, as pedreiras de calcário que ficam logo abaixo da pirâmide de Miquerinos. “Aqui está uma das fendas que fizeram para retirar um bloco de rocha”, diz ele, agachando-se junto a uma canaleta com 12 centímetros de largura e 7 centímetros de profundidade. “Eles usavam picaretas de pedra e formões de cobre para destacar os blocos, e depois talhavam encaixes para as alavancas de madeira com as quais arrancavam o bloco inteiro, em geral pesando 20 toneladas.” Cada bloco era delineado com tinta vermelha antes que os operários iniciassem o processo de remoção. “Até há poucos anos, ainda dava para ver neles resquícios da tinta vermelha e também um ‘cartucho’ – a moldura onde há um nome próprio inscrito. Era provavelmente a marca da equipe de trabalhadores encarregada de retirar o bloco”, diz Lehner.

Inscrições similares com nomes de equipes foram encontradas no interior das pirâmides. Em dois blocos na câmara mais elevada da de Quéops, por exemplo, uma turma de operários pintou hieróglifos que significam “Amigos de Quéops”. E, no templo funerário de Miquerinos, outra equipe deixou escrita sua insígnia: “Bêbados de Miquerinos”. Apenas esses dois exemplos, comento depois, já bastam para indicar uma mentalidade muito diferente da que essas pessoas teriam se fossem escravas.

Lehner assente com a cabeça. De compleição frágil e na faixa dos 50 anos de idade, ele carrega nos bolsos da camisa e da calça os instrumentos do ofício de arqueólogo: canetas, uma pequena pá, trena, pincel. “Os trabalhadores eram organizados em equipes concorrentes, e isso pode ter sido benéfico em termos psicológicos. É aquela velha história de ‘vamos ver quem consegue cumprir essa tarefa primeiro’”, explica ele.

De qualquer forma, a rotina estava longe de ser agradável. “Imagine trabalhar sob o sol escaldante do Egito, com uma picareta ou um formão de cobre para cortar os blocos de pedra e, em seguida, deslocá-los para formar uma pirâmide. O que motivava essas pessoas? Tudo o que podemos dizer, uma vez que restaram tão poucos textos da época, é que os trabalhadores eram muito religiosos e acreditavam que, ao erguer a tumba do faraó, estavam assegurando não só o renascimento do líder, mas também o deles próprios e o de todo o Egito.”

Para erguer estruturas tão monumentais os egípcios dependiam de uma força de trabalho extremamente organizada. Baseados em inscrições nas tumbas e em instruções aos operários talhadas nas paredes internas da pirâmide de Quéops e no templo funerário de Miquerinos, os pesquisadores podem hoje traçar algo parecido com um organograma dos antigos canteiros de obras. “Cada projeto, como o de construção de uma pirâmide, contava com sua própria mão-de-obra”, explica a egiptóloga Ann Roth. “Cada grupo era responsável por uma parte do complexo. Havia um grupo encarregado dos tetos internos de granito, enquanto outros levantavam as paredes das câmaras.”

As turmas de trabalhadores eram geralmente divididas em quatro ou cinco unidades menores, denominadas phyles (do termo grego para “tribo”) pelos egiptólogos. Cada phyle tinha um nome, como Magnífica ou Verde, e, por sua vez, compreendia equipes menores, de 10 a 20 homens, que também tinham nomes específicos, como Resistência e Perfeição. De acordo com algumas estimativas, para erguer uma pirâmide em 20 anos os operários tinham de colocar sobre ela um bloco de pedra a cada 2 minutos, em média. Um ritmo alucinante.

Para que toda essa mão-de-obra pudesse dar o máximo de si, era indispensável contar com uma sofisticada infra-estrutura de apoio. “Era preciso alimentar e abrigar todos os que garantiam a sobrevivência dos operários, como padeiros, cervejeiros e açougueiros”, avalia Lehner. Em outras palavras, isso só seria possível se houvesse uma cidade. E Lehner acha que a encontrou – ou pelo menos o bairro em que se concentravam as atividades produtivas.

Numa ampla e arenosa planície poucas centenas de metros abaixo do cemitério escavado por Hawass, Lehner e sua equipe desenterraram ruas cuidadosamente traçadas – e pavimentadas –, assim como construções esmeradas, divididas em pequenos aposentos ligados por corredores. No limite norte desse sítio arqueológico, uma maciça muralha de pedra talhada, conhecida como Heit el-Ghorab (Muralha do Corvo), estende-se por cerca de 200 metros. Elevando-se a quase 10 metros e com 10 metros de espessura na base, a muralha possui um portão central encimado por três vergas maciças de calcário. “Ainda não sabemos exatamente quem usava o portão nem o motivo de sua existência”, diz Lehner, perto do local em que vem escavando o que chama de Rua Sul.

“Esta é a terceira rua desse tipo que encontramos, e ela segue paralela a outras duas. Era uma cidade de traçado regular, algo incomum na época.” Antes dessa descoberta, alguns egiptólogos consideravam que, na época do Antigo Império, os povoados não passavam de aldeias ampliadas, com ruas e áreas de trabalho distribuídas de maneira aleatória. “Nós ajudamos a derrubar essa idéia”, completa Lehner, convicto de que vários edifícios eram usados como padaria e cervejaria. Ele só não está totalmente seguro quanto à finalidade geral da área industrial. “Será que servia apenas para alimentar os trabalhadores?”, indaga, agachando-se para limpar a areia de uma minúscula espinha de peixe. “Ou eles usavam essas construções, onde encontramos tantas espinhas de peixe, para preparar as oferendas dos templos?”

Também nesse caso não dispomos de papiros com textos ou inscrições em pedra – nem mesmo grafites antigos – que possam nos esclarecer. Os únicos indícios textuais encontrados no sítio arqueológico estão em minúsculos fragmentos de argila usada nos sinetes das jarras de vinho e óleo ou das sacas de cereais.

Num laboratório próximo ao sítio investigado por Lehner, o egiptólogo John Nolan me empresta uma lupa para que eu examine os detalhes de um desses fragmentos. Plano e de cor marrom-escura, o pedaço de argila traz em sua superfície débeis marcas de hieróglifos – assim como as linhas finas da impressão digital de alguém. Consigo distinguir com clareza o símbolo de um belo falcão com as asas dobradas. “Esse é um sinal de que se trata do nome de um soberano – no caso, Miquerinos”, explica Nolan. “Quer dizer que o indivíduo que fez isso era, sem dúvida, um alto funcionário.”

As marcas foram produzidas pela rolagem de um sinete entalhado sobre o pedaço de argila úmida que servia de autenticação. Após alguém encher um jarro, talvez com vinho, o gargalo era fechado com um pano preso por corda. Então o sinete era aplicado à argila úmida. Os sinetes eram como pequenos rótulos que acompanhavam as mercadorias. “Os artigos autenticados equivaliam ao dinheiro na época. Eles estabeleciam uma cadeia de responsabilidades: havia uma pessoa que podia autenticar e outra autorizada a romper o sinete”, prossegue Nolan. Ele guarda milhares desses fragmentos que ainda precisam ser decifrados. Acondicionados em saquinhos plásticos, cobrem sua mesa como microscópicos contos de mistério. “Sempre existe a possibilidade de acharmos um sinete cujo título seja reconhecível – de outra pessoa que não o faraó. Talvez um deles estabeleça uma ligação direta entre o nosso sítio e o cemitério dos trabalhadores.”

Encontrar um elo desse tipo resolveria as dúvidas sobre os vínculos cronológicos entre o cemitério de Hawass e a cidade de Lehner. As datações revelam que esta pertence ao período que vai de meados ao final da quarta dinastia, e Hawass crê que o cemitério foi usado desde meados da quarta até a quinta dinastia. Mesmo que os dois sítios arqueológicos não apresentem uma estreita conexão temporal, as sepulturas dos trabalhadores já permitem que os arqueólogos tenham uma idéia melhor da organização que dava suporte à construção das pirâmides.

Embora a maioria das sepulturas seja de gente pobre, várias delas abrigam restos mortais de funcionários importantes e abastados. Algumas parecem versões em miniatura dos templos dos faraós e das rainhas. De forma retangular e feitas de blocos de calcário, elas apresentam todos os principais elementos encontrados nas tumbas reais: falsas portas entalhadas para que à noite o espírito da pessoa pudesse sair do túmulo, recipientes de pedra para oferendas e uma série de inscrições hieroglíficas com o nome e o título do ocupante, assim como os nomes de sua mulher e de seus filhos. Duas delas possuem até mesmo rampas conduzindo à sua entrada, como as longas passarelas na parte externa das três pirâmides de Gizé.

“Os donos destes dois túmulos queriam que eles se parecessem ao máximo com as tumbas dos faraós”, afirma Hawass. “Este é o túmulo de Weser-Petah, um supervisor dos funcionários.” Ele sobe uma até a pequena e estreita entrada. Preciso me abaixar para entrar na sepultura de rocha talhada. Acima e em ambos os lados da porta falsa vêem-se baixos-relevos mostrando Weser-Petah de perfil, como nas clássicas imagens egípcias. Ao lado e embaixo dos baixo-relevos encontram-se os hieróglifos com seu nome e seu título. Embora não tão complexos quanto as inscrições da elite governante, esses entalhes revelam os cuidados e as preocupações que os egípcios comuns também mantinham em relação a uma boa vida no além.

Alguns passos na direção oeste nos conduzem à rampa e ao túmulo de Ni-ankh-Petah, responsável pelas padarias e confeitarias do faraó. Em um ponto mais elevado está o túmulo de Nefer-Theith, supervisor do palácio. Outras sepulturas adjacentes trazem títulos como “supervisor dos remadores”, “responsável pelas laterais da pirâmide”, “inspetor dos jardins reais” e “mestre do porto”. Até agora a equipe de Hawass descobriu 26 títulos desse tipo. “Os títulos referem-se a funções administrativas de nível intermediário e alto e confirmam a sofisticada organização da força de trabalho no antigo Egito”, observa Hawass.“Foi esse o traço que na verdade marcou a quarta dinastia”, comenta o egiptólogo James Allen. “Não foi o fato de terem aprendido a manusear enormes blocos de pedra, mas sim a descoberta de um modo de organizar uma enorme força de trabalho.”

Muitas mulheres da elite foram enterradas na sepultura de seus maridos e, com freqüência, também seu título e seu nome eram inscritos nas vergas dos falsos portais, como no caso da mulher de Petty, o inspetor dos artesãos. Chamada Nesy-Sokar, ela era sacerdotisa de Hathor, a deusa do amor e da dança. Duas outras mulheres tinham sua própria tumba. Uma delas também era sacerdotisa de Hathor e a outra, de Neith, a deusa da guerra.

Esses funcionários graduados também preservavam a cultura de armazenar vários artigos em sua sepultura. Eles podiam ser enterrados com grandes jarros de cerveja ou miniaturas de pratos de oferendas e taças para beber. Todos artigos muito básicos, mas necessários no além. “Não havia nada de valor nessas sepulturas, por isso elas não foram saqueadas”, argumenta Hawass. Isso não fazia com que seus donos deixassem de se preocupar com os ladrões. Sob as figuras bem esculpidas de Petty e Nesy-Sokar, o casal mandou entalhar várias maldições protetoras, ameaçando quem tentasse perturbar seu descanso eterno: “Qualquer um, homem ou mulher, que fizer algo maléfico contra este túmulo e penetrar em seu interior terá de prestar contas ao crocodilo na água, ao hipopótamo na mesma água e ao escorpião em terra”.

Alguns dos túmulos continham ainda estatuetas de seus ocupantes. A maioria delas, como a de Nefer-ef-Nesu, chefe dos escultores, e de sua mulher, Nefer-Menkhes, foi entalhada em calcário e pintada. A imagem mostra o casal em um banco de “granito rosa” – na verdade calcário pintado de modo a se assemelhar à pedra nobre reservada aos faraós. A mulher usa um vestido de rede, um colar de contas e braceletes, ao passo que seu marido veste uma túnica branca simples. Ambos estão olhando para a frente, com um leve sorriso de felicidade, o braço direito dela sobre o ombro do marido. “Esse é o desejo deles, assim querem permanecer após a morte”, resume o arqueólogo Tarek El-Awady, assistente de Hawass. “Por isso se mostram da melhor maneira possível, com suas melhores roupas e jóias.”

A vida da maioria dos donos desses túmulos extravagantes provavelmente não era muito difícil. Circundado pelo deserto e abençoado com terras férteis e safras abundantes, o Egito do Antigo Império era um local raro: um Estado que desfrutava de paz e estabilidade, com amplo tempo livre e riqueza para a preservação de uma cultura voltada para a vida no além.

Até mesmo os egípcios, contudo, tinham de conviver com a velhice e a morte – algo mais fácil de ser notado entre os operários, que viviam uma rotina pesada. “Isso se nota em seus esqueletos”, diz Azza Mohamed Sarry El-Din, antropóloga física que estuda os ossos exumados do cemitério. “Já examinei 175 esqueletos e quase todos sofriam de artrite. Suas vértebras lombares estavam muito comprimidas, como é de se esperar entre operários de trabalho pesado. Eu já previa isso, mas fiquei surpresa ao encontrar esse tipo de artrite também nas mulheres.” Ela mostra o pescoço e as vértebras lombares de uma mulher que morreu com 30 e poucos anos e depois aponta para as bordas rugosas e gastas dos ossos. “Ela deve ter carregado muito peso na cabeça desde a infância para os ossos ficarrem desse jeito”, diz Azza.

Embora não se conheçam registros ou inscrições mostrando mulheres empurrando pedras ou arrastando estátuas em trenós, o estado dos ossos das mulheres sugere à antropóloga que também elas faziam esse tipo de trabalho. Seus ossos estão mais danificados do que seria de se esperar caso se limitassem às tarefas domésticas.

Alguns dos esqueletos também sugerem que os trabalhadores, a despeito da natureza difícil de suas ocupações, eram bem tratados, embora talvez não tivessem a melhor dieta – as análises preliminares de Azza indicam que alguns eram anêmicos e a maioria raramente comia carne. Curiosamente, a equipe de Mark Lehner exumou grande quantidade de ossos de vaca, de carneiro e de cabra abatidos – mais do que suficiente, segundo ele, para alimentar milhares de operários com uma ração diária de carne. Seriam os animais mortos apenas para as oferendas nos templos? A discrepância entre os ossos, a dieta e a quantidade de carne disponível ainda permanece um mistério.

Por outro lado, os milhares de trabalhadores das pirâmides tinham acesso a cuidados médicos. As análises dos achados nas escavações apontaram que um deles foi gravemente ferido no braço, que teve de ser amputado abaixo do ombro. A operação foi bem-sucedida, assim como uma amputação similar realizada na perna de um funcionário. “Ambos se recuperaram e ainda viveram por muitos anos”, diz Azza. “Alguém se preocupava muito com eles. Operários que movem blocos de pedra de um lado para outro estão sujeitos a acidentes, e é animador ver que seus supervisores sabiam disso e estavam preparados para cuidar deles.”

Apesar da disponibilidade de serviços médicos, a expectativa de vida era baixa. Em média, os homens viviam de 40 a 45 anos; as mulheres, de 30 a 35 anos. “Elas viviam menos provavelmente por causa de seus partos problemáticos”, comenta a antropóloga. “Eram raros, porém, os antigos egípcios que viviam até uma idade que, hoje, consideramos avançada.”

“Acho que eles levavam uma vida bem complicada”, exclama Lehner, de pé sobre uma escarpa arenosa um pouco acima do sítio que está escavando atualmente. “Devia haver centenas de fornos acesos, para assar pão, queimar argila e fabricar e manter afiados os formões de cobre. Havia fumaça por toda parte e longas filas de pessoas arrastando os blocos de pedra para o local da pirâmide, além daquelas que moíam os cereais, abatiam os animais, descarregavam os barcos no porto, que provavelmente ficava perto das pirâmides. Tudo isso exigia um trabalho duro.”

O que os egípcios antigos ganhavam com tanto esforço? Lehner é incisivo: “As pessoas tinham um emprego e participavam de um esforço nacional. E, mais importante, era para eles uma forma de conquistar a vida eterna”.

Disponível em <http://viajeaqui.abril.com.br/materias/egito-piramides?pw=5 >. Acesso em 02/11/2011.

 

 

 

Exposição “Segredos do Egito” está agora em Brasília

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

 

No dia 21 de outubro de 2013 anunciei aqui a chegada da exposição “Segredos do Egito” em São Paulo. Agora, seguindo o cronograma deles, a mostra está no Park Shopping em Brasília do dia 13 de janeiro até 9 de fevereiro de 2014.

Segredos do Egito no Park Shopping em Brasília. 2014.

As próximas cidades agraciadas serão:

◘ BH Shopping

Belo Horizonte – MG/ 19 de fevereiro de 2014 e 16 de março de 2014

◘ Morumbi Shopping

São Paulo – SP/ 25 de março de 2014 e 20 de abril de 2014

◘ Ribeirão Shopping

Ribeirão Preto – SP/ 29 de abril de 2014 e 25 de maio de 2014

◘ Barra Shopping Sul

Porto Alegre – RS/ 17 de julho de 2014 e 17 de agosto de 2014

Para retirar quaisquer dúvidas, por favor, acesse http://www.segredosdoegito.com.br/, uma vez que o site Arqueologia Egípcia não possui nenhum vínculo com a organização.

Saiu o caderno de resumos da 1ª Semana de Egiptologia do Museu Nacional (RJ)

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

A SEMNA – Semana de Egiptologia do Museu Nacional é um evento promovido pelo Programa de Pós-graduação em Arqueologia do Museu Nacional (RJ). No início do mês fiz a divulgação acerca: [Evento] Semana de Egiptologia do Museu Nacional (Rio de Janeiro).

Semana de Egiptologia do Museu Nacional. 2013.

Semana de Egiptologia do Museu Nacional. 2013.

O evento ocorrerá entre os dias 2 e 5 de Dezembro de 2013, no auditório da biblioteca do Museu Nacional no Horto Botânico, na Quinta da Boa Vista.

Abaixo está o link para o caderno de resumos com detalhes do que serão apresentados:
http://semna2013.files.wordpress.com/2013/11/caderno-de-resumos-semna.pdf

Informações adicionais:

Site: http://semna2013.wordpress.com/
Contato: semna2013@gmail.com

Seti I: o primeiro ramséssida

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

 

Imagem de Seti I na KV-17. Imagem disponível em . Acesso em 05 de agosto de 2013.

Imagem de Seti I na KV-17. Imagem disponível em < http://www.flickr.com/ photos/oar /52193 11780/ >. Acesso em 05 de agosto de 2013.

Seti I (Sethos, em grego), segundo faraó da 19ª Dinastia (Novo Império), cujo nome de batismo era Seti Mery-en-ptah (Do deus Seth, amado de Ptah) [1], foi filho de Paramessu, um homem proveniente do Delta – território o qual tradicionalmente o deus Seti (Seth) era padroeiro – e sem ligações com a realeza, mas que foi designado, apesar do cargo de vizir, como “príncipe hereditário da terra” pelo faraó Horemheb (Novo Império; 18ª Dinastia), pelo fato do rei não ter tido herdeiros (O’CONNOR  et al (b),  2007).

Ao assumir o trono, Paramessu mudou seu nome para Ramsés (I) e incluiu o seu filho, Seti (I), nos assuntos administrativos do país (O’CONNOR  et al (b), 2007; DESPLANCQUES, 2011), e tornando-o co-regente, de acordo com uma estátua de Medamud [1]. O então príncipe assumiria o trono um ou dois anos depois, devido a morte do pai (O’CONNOR  et al (b), 2007), por este motivo Seti I é considerado o derradeiro fundador da dinastia ramsessida [2].

Ele foi casado com Tuya (Toya), a mãe de Ramsés II, a qual não recebeu muito destaque no seu governo até a morte do esposo, mas com a viuvez ela foi presenteada com construções e um templo em sua honra a mando de seu filho (O’CONNOR  et al (b), 2007). O Casal Real teve mais outras três crianças: um primogênito (mas falecido jovem), Tia e Hanutmiré (que casou-se mais tarde com o irmão Ramsés II) [1].

 

Governo e atividades militares:

Seti I já era nascido, inclusive um oficial e pai de Ramsés (II), quando Horemheb ainda era vivo, e teve educação nas artes bélicas, provavelmente por influencia da distinção que uma carreira militar tinha entre a alta nobreza egípcia. Esta educação foi bem a calhar em seu governo, que era herdeiro de uma ideologia que pregava o discurso de que acima de tudo o faraó deveria proteger as fronteiras do Egito e assim manter a maat.

Imagem de Seti I na KV-17. Imagem disponível em . Acesso em 05 de agosto de 2013.

Imagem de Seti I na KV-17. Imagem disponível em < http://www.flickr.com/photos/soloegipto/4092548965/ >. Acesso em 05 de agosto de 2013.

Em uma inscrição em sua biografia conservada em uma das paredes da sala hipostila de Karnak possuímos a narrativa de uma batalha com o Seti I como protagonista:

Sua majestade exulta no princípio da batalha, compraz-se em participar; seu coração regozija-se com a visão do sangue. Ele corta as cabeças dos dissidentes. Mais que a celebração da vitória, ama o momento de abater o inimigo (O’CONNOR  et al (b), 2007, pág. 17).

Assim como seus antecessores ele entrou em choque com os hititas, batalhando contra o rei Muwatallis, momento em que estabeleceu a fronteira de Kadesh no rio Orontes entre o Líbano e as montanhas do Anti-Líbano [2]. Também ordenou incursões bélicas no norte da Palestina e Síria e fortificou as fronteiras egípcias [2].

 

Algumas construções:

Seti I seguiu a tradição de construtor, mas uma das suas mais emblemáticas obras é o seu templo funerário em Abidos, no Alto Egito, onde se retratou, mais o filho Ramsés (II), como herdeiro legítimo de Amenhotep III, excluindo todos os faraós desde Akhenaton até Ay. Esta atitude provavelmente se deu pela a experiência amarniana que viria a ser condenada por Horemheb, iniciando assim o desmantelamento de templos votivos ao deus Aton e aos sucessores de Akhenaton (O’CONNOR et al (a), 2007; DESPLANCQUES, 2011). Por outro lado, o seu catálogo é impreciso em outro sentido, listando somente 75 monarcas a partir de Meni (Menés, em grego), o qual, de acordo com a tradição egípcia, acreditava-se ser o fundador do Egito unificado e da primeira dinastia (O’CONNOR  et al (b),  2007).

Templo de Seti I em Abidos. Imagem disponível em . Acesso em 05 de agosto de 2013.

Templo de Seti I em Abidos. Imagem disponível em < http://www.flickr.com/photos/soloegipto/5451575592/ >. Acesso em 05 de agosto de 2013.

Também reabriu minas e pedreiras, restaurou templos e capelas que estavam degradados, dando especial atenção aos templos danificados por Akhenaton (18ª Dinastia; Novo Império) e concluindo construções de Tutankhamon (BRAND, 2009). Seus programas de reparos foram gravados com o uso da palavra sm3wymnw, marca de renovação bastante empregada para registrar sua autoria nestes restauros (BRAND, 2009). Ele também ampliou a Grande Sala Hipóstila de Karnak e construiu edifícios para a sua honra também na Núbia (atual Sudão) e na Ásia Ocidental (BRAND, 2009).

Seti I e o jovem Ramsés II em Abidos. Foto: O’CONNOR, David; FREED, Rita; KITCHEN, Kenneth (b). Ramsés II (Tradução de Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Fólio, 2007. Pág. 35.

Seti I e o jovem Ramsés II em Abidos. Foto: O’CONNOR, David; FREED, Rita; KITCHEN, Kenneth (b). Ramsés II (Tradução de Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Fólio, 2007. Pág. 35.

O maior problema em relação a este assunto é se entender a cronologia de acontecimentos dentro do seu reinado, especialmente em relação ao seu programa de construção (BRAND, 2009), uma vez que após a sua morte alguns dos seus predecessores imediatos, especialmente seu filho Ramsés II, dedicaram templos em seu nome (BRAND, 2009).

 

Sepultamento:

Ele governou possivelmente por 13 anos (existindo uma divergência de opiniões que põe seu fim entre 17 e 20 anos de reinado) [1], provavelmente de causas naturais, e foi sepultado no Vale dos Reis, na tumba KV17, descoberta em outubro de 1817, pelo explorador Giovanni Battista Belzoni (1778 — 1823), e se constitui de um dos maiores túmulos da necrópole.

 

Para saber mais:

Livro: The Monuments of Seti I: Epigraphic, Historical and Art Historical Analysis, de Peter J. Brand.

Livro: The Monuments of Seti I.

Livro: The Monuments of Seti I.

Embora caro (€210,00, no valor do título na língua original), este livro é o resultado das pesquisas para a tese de doutorado do professor Brand acerca dos monumentos realizados por Seti I e os que foram associados a ele mesmo após a sua morte. Apresenta metodologias de análises, como o reino de Seti I influenciou na instituição do discurso ramséssida e um ensaio acerca da família do faraó. Não é um livro dedicado para amadores, embora possua uma leitura fácil, mesmo em inglês.

 

Referências:

BRAND, Peter. The Monuments of Seti I: Epigraphic, Historical and Art Historical Analysis. Brill, 2009.

DESPLANCQUES, Sophie. Egito Antigo (Tradução de Paulo Neves). Porto alegre: L&PM, 2011

O’CONNOR, David; FORBES, Dennis; LEHNER, Mark (a). Grandes civilizações do passado: Terra de faraós. (Tradução de Francisco Manhães). Barcelona: Folio, 2007.

O’CONNOR, David; FREED, Rita; KITCHEN, Kenneth (b). Ramsés II (Tradução de Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Fólio, 2007.

[1] “Seti I by Jimmy Dunn”. Disponível em < http://www.touregypt.net/featurestories/seti.htm >. Acesso em 14 de novembro de 2013.

[2] “Seti I”. Disponível em < http://global.britannica.com/EBchecked/topic/536230/Seti-I >. Acesso em 12 de novembro de 2013.

[Evento] Semana de Egiptologia do Museu Nacional (Rio de Janeiro)

Estão abertas as inscrições para a I Semana de Egiptologia do Museu Nacional, que ocorrerá entre os dias 2 e 5 de Dezembro de 2013.

Sobre o evento:

A SEMNA – Semana de Egiptologia do Museu Nacional é uma atividade promovida pelo Programa de Pós-graduação em Arqueologia do Museu Nacional.

Semana de Egiptologia do Museu Nacional. 2013.

Semana de Egiptologia do Museu Nacional. 2013.

Semna era a designação, na Antiguidade, da fortaleza construída pelo faraó Senusret I, que governou entre c. 1965-1920 a. C., na Núbia. Tal como uma fortificação, nosso evento busca lançar bases sólidas na integração e divulgação da Egiptologia no Brasil.

O objetivo do evento é reunir pesquisadores da área de Egiptologia oriundos de diversas áreas em um ambiente propício ao debate e à cooperação acadêmica. Além disso, a SEMNA tem como objetivo divulgar o conhecimento sobre o Egito Antigo à comunidade não acadêmica. Dessa forma, é possível promover o desenvolvimento da Egiptologia no Brasil também para além dos muros da universidade, aproximado o grande público dos pesquisadores [texto divulgação].

Local: auditório da biblioteca do Museu Nacional no Horto Botânico, na Quinta da Boa Vista.

Mais informações: http://semna2013.wordpress.com/

Contato: semna2013@gmail.com

Exposição: Segredos do Egito (SP)

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram | Notícia enviada por Adriane Natacci, via Facebook.

Estreou no dia 17/10, na cidade de São Paulo, a exposição “Segredos do Egito”. A mostra conta com mais de 100 peças originais e réplicas de artefatos espalhados em museus pelo mundo e que retratam vários aspectos da vida, e da morte, no Antigo Egito.

Exposição: Segredos do Egito (SP)

Exposição: Segredos do Egito (SP)

 

Detalhes da exposição:

Período: 17 de outubro a 03 de novembro

Local: Shopping Anália Franco; Praça de eventos.

Horário: das 10h às 22h

Visitação gratuita

 

Exposição: Segredos do Egito (SP). Foto: Multiplan. 2013.

Exposição: Segredos do Egito (SP). Foto: Multiplan. 2013.

Exposição: Segredos do Egito (SP). Foto: Multiplan. 2013.

Exposição: Segredos do Egito (SP). Foto: Multiplan. 2013.

Exposição: Segredos do Egito (SP). Foto: Multiplan. 2013.

Exposição: Segredos do Egito (SP). Foto: Multiplan. 2013.

Exposição: Segredos do Egito (SP). Foto: Multiplan. 2013.

Exposição: Segredos do Egito (SP). Foto: Multiplan. 2013.

Em outras cidades:

◘ Park Shopping

Brasília – DF/ 13 de janeiro de 2014 e 9 de fevereiro de 2014

◘ BH Shopping

Belo Horizonte – MG/ 19 de fevereiro de 2014 e 16 de março de 2014

◘ Morumbi Shopping

São Paulo – SP/ 25 de março de 2014 e 20 de abril de 2014

◘ Ribeirão Shopping

Ribeirão Preto – SP/ 29 de abril de 2014 e 25 de maio de 2014

◘ Barra Shopping Sul

Porto Alegre – RS/ 17 de julho de 2014 e 17 de agosto de 2014

 

Site da exposição: http://www.segredosdoegito.com.br/

 

Egito em seu momento

Esta matéria publicada este mês (maio de 2012) na revista National Geographic Brasil conta sobre este momento de transição política no Egito pós-revolução (lembro que pela primeira vez na história do Egito a população teve a oportunidade de realizar uma eleição democrática, embora críticos acreditem que quem ficará no poder será alguém ligado ao regime militar de Mubarak).

 

Homem mostra uma foto de camelos em frente a uma das pirâmides do platô de Gizé, hoje o número de visitas turísticas caiu drasticamente. Foto: Acervo National Geographic. 2012.

 

Confira o texto:

 

Egito em seu momento (Maio de 2012)

Na esteira da Primavera Árabe, esperança e incerteza andam de braços dados.

Por Jeffrey Bartholet

Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL

“Ladrões e arruaceiros” é a descrição que nosso motorista de táxi faz das pessoas que veremos no trem de terceira classe que vai de Assuã a Lu xor. EsTa parece ser uma opinião comum no Egito rural depois da revolução:atenção com a segurança e evite o populacho. No portão da estação, um policial carrancudo não quer me deixar passar. “Estrangeiros não podem ir na terceira classe”, brada ele. “É proibido!”

Estou viajando no outono de 2011 com um colega egípcio, Khaled Nagy, que passou mais de 200 dias e noites cobrindo a rebelião no Cairo. Partimos de Abu Simbel, no distante sul do Egito, para a cidade mediterrânea de Alexandria, no norte, com muitas paradas pelo caminho. Nossa ideia é viajar para longe do epicentro da revolução, a praça Tahrir, no Cairo, e ver como as mudanças se manifestam no resto do país.

Após muita argumentação e quatro horas de atraso, conseguimos embarcar em um trem. Pagamos depressa ao cobrador 21 libras egípcias, equivalentes a 3,5 dólares, por duas passagens até Luxor, a mais de três horas de distância.

Nosso vagão tem várias janelas rachadas ou quebradas; muitas foram escancaradas para deixar entrar rajadas de vento. Isso é necessário, pois não há ar condicionado nesses dias ainda quentes de outono, e também porque o fedor dos banheiros permeia os vagões quando falta circulação de ar no interior. A portinhola do painel elétrico abre e fecha de encontro à parede, e a caixa de vidro do extintor de incêndio está estilhaçada. O equipamento parece intacto.

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