“Morte no Nilo”, National Geographic

Por Márcia Jamille | Instagram | @MJamille

 

Este texto da National Geographic foi publicado aqui no Brasil em 2011, mas ainda não perdeu o seu vigor. Trata-se da apresentação de algumas tramas palacianas menos conhecidas, ocorridas centenas de anos antes da “Conspiração do Harém”, intriga que mataria Ramsés III, faraó da 19ª Dinastia. Na reportagem o que vemos é um plano de fundo do governo do rei Teti, Antigo Império, e a usurpação de túmulos por parte do rei como punição, dentre outras manipulações palacianas nos reinados seguintes, a exemplo do Período Amarniano.

Infelizmente ele está cheio de discursos sexistias — “rainhas ardilosas”, “uma espécie de Cleópatra — sedutora, esperta, implacável” —, mas ignorando isso é um ótimo artigo e que apresenta bem como o panorama politico egípcio poderia ser extremamente injusto, seguindo o que era conveniente para quem estava no poder.

 

Morte no Nilo (Edição 30/Outubro de 2002)

Um cemitério real revela novas pistas de assassinatos, vinganças e intrigas no Antigo Egito

Por A. R. Williams

Fonte: National Geographic Brasil

Imortalizado em pedra, um funcionário vigia sua capela funerária no cemitério hoje conhecido como Saqqara, onde túmulos, inscrições e oferendas continuam a esclarecer o passado distante

A princesa Idut não viveu até a idade adulta. Nos relevos de calcário que recobrem sua capela mortuária, ela é mostrada apenas como criança. E, em torno dela, há refinadas cenas entalhadas celebrando a abundância do vale do rio Nilo – peixes e aves aquáticas, um crocodilo mordendo um hipopótamo recém-nascido, vacas com bezerros, todos elementos decorativos comuns em sepulturas da realeza egípcia. Mas há algo que não se encaixa.

“Idut foi substituída por outra pessoa”, comenta o professor de egiptologia Naguib Kanawati. “Veja isto”, prossegue ele, apontando para uma área áspera na altura do joelho de Idut em uma cena com barcos. “Um pé foi totalmente eliminado, apagado a golpes de formão e raspado. E também o saiote de um homem.” Com dificuldade, consigo distinguir o perfil de um indivíduo robusto e alto, erguendo-se bem acima da recatada menina.

A princesa Idut morreu por volta de 2330 a.C. e foi enterrada sob a sua capela mortuária ao lado dos túmulos piramidais de seu avô, o faraó Unas, e de seu pai, o faraó Teti, no lugar hoje conhecido como Saqqara. Local onde foram encontrados os primeiros túmulos monumentais de pedra daquele país, Saqqara foi um dos mais venerados cemitérios reais do antigo Egito.

Quando a sepultura de Idut foi achada, em meados da década de 20, ninguém deu importância aos relevos alterados. Recentemente, porém, Kanawati examinou o assunto com mais atenção e descobriu indícios de uma surpreendente intriga. “Reli os hieróglifos e identifiquei o dono original do túmulo”, conta ele. “Era Ihy, o vizir, ou primeiro-ministro, do faraó Unas.” Tal como a maioria dos egípcios abastados e importantes da época, Ihy passara anos preparando o local onde descansaria por toda a eternidade. Portanto, como foi que a princesa Idut foi parar ali?

A resposta de Kanawati baseia-se em uma instigante e nova teoria sobre um golpe palaciano e as circunstâncias obscuras da ascensão ao trono do faraó Teti. “Não temos ainda a menor idéia de onde veio Teti. Tudo o que sabemos é que ele se casou com uma das filhas de Unas e tornou-se faraó após a morte do sogro. Desconfio que subiu ao trono pela força e que Ihy, o vizir, tentou em vão se opor a isso.” Como eterna punição, o novo faraó destinou seu túmulo a uma de suas princesas.

Essa sucessão dinástica que antes parecia tão simples é um dos vários episódios que estão se revelando bem mais complexos em Saqqara, onde foram realizados sepultamentos ao longo de um período de 3 mil anos, abrangendo 31 dinastias da antiga civilização do Egito. Os arqueólogos estão reunindo indícios daqueles dramas do tipo capa-e-espada, marcados por conspirações, assassinatos, vinganças, rainhas ardilosas, políticos ambiciosos e fanatismo religioso.

A oeste dos campos de alfafa e dos empoeirados palmeirais que flanqueiam o rio Nilo, Saqqara fica no topo de uma escarpa rochosa. A margem ocidental do Nilo, acreditavam os antigos egípcios, era o local em que os restos mortais estavam mais próximos do grande Além. Segundo a concepção que tinham do mundo, quando se ocultava atrás do horizonte do deserto ao fim de cada dia, o Sol prosseguia em sua viagem até o mundo subterrâneo governado por Osíris, o deus da vida eterna, até que, no dia seguinte, voltava a nascer na margem oposta do grande rio.

Saqqara fazia parte de um imenso complexo funerário que se estendia por 70 quilômetros ao longo do Nilo. Essa área logo ao sul do delta do Nilo possui enorme valor estratégico, pois há ali um estreitamento do rio, formando uma espécie de entrada natural.

A fim de controlar o tráfego fluvial, e por meio dele o resto do país, os faraós das primeiras dinastias ergueram fortalezas nas duas margens do Nilo. Logo construíram palácios acima da fértil planície de inundação – assim teve início Mênfis, a primeira capital do Egito – e puseram seus túmulos no deserto vizinho.

Os primeiros túmulos eram escavados na rocha e arrematados com uma edificação baixa de adobe conhecida como mastaba. Algumas sobrevivem quase à sombra do túmulo de 4630 anos de idade que, ao ampliar a altura da mastaba, modificou a forma dos sepultamentos faraônicos: a Pirâmide em Degraus.

Erguido pelo faraó Djoser, esse túmulo é a grande atração de Saqqara. “Essa foi a primeira pirâmide construída no mundo”, diz Zahi Hawass, explorador da National Geographic Society. “Seu arquiteto, Imhotep, inspirou-se no protótipo de adobe, mas empilhou as mastabas. E usou pedra na construção.” Esse experimento monumental estimulou a construção de uma centena de sepulturas reais com o formato de pirâmide ao longo do Nilo, das quais quase duas dúzias foram achadas em Saqqara.

Duas rainhas enterradas em Saqqara atraíram recentemente a atenção de Hawass. Ambas foram casadas com o faraó Teti, e não há dúvida que se viam e agiam como rivais. Seus nomes eram Iput e Khuit. As escavações de Hawass na área em torno de suas sepulturas revelaram pistas de que o reinado de Teti muito provavelmente chegou ao fim tal como começou – em convulsão.

Hawass me conduz por uma encosta de cascalho até o local de uma escavação a nordeste da pirâmide de Teti. Caminhando com agilidade por pátios de pedra e corredores de complexos funerários erguidos lado a lado, paramos entre dois montes irregulares de blocos cor de ferrugem e entulho. Despojadas de seu revestimento de calcário branco por trabalhadores que ergueram pirâmides posteriores, essas permaneceram esquecidas sob mais de 6 metros de areia.

“A pirâmide de Iput foi descoberta na década de 1890”, conta ele, indicando o monte à nossa direita. “Todos supunham que ela era a esposa principal de Teti, pois o filho dela, Pepi, herdou o trono. Mas veja o que encontrei sob um grande monte de areia – a pirâmide de Khuit!” Segui o seu olhar para o monte à nossa direita. “Como a pirâmide de Khuit é mais antiga, ela deve ter sido rainha antes de Iput.”

Hawass atravessa uma plataforma estreita entre um muro e o poço de um túmulo cujo fundo se perde na escuridão. Sigo rapidamente atrás dele sem olhar para o abismo e, depois de uma curva fechada, chegamos às ruínas de uma capela mortuária. Nas paredes os relevos mostram fileiras de servos oferecendo ao proprietário do túmulo cestos de alimentos, jarros de cerveja, lombos de boi, fôrmas de pão. Alguns desses relevos ainda trazem resquícios de pintura.

“Também encontrei este complexo funerário, que pertence a Tetiankh-Kem, o Negro Tetiankh”, diz Hawass, diante de uma porta entalhada cujos hieróglifos lê com facilidade. “Ele era filho de Khuit e o herdeiro do faraó Teti. Fizemos um raio X de sua múmia e descobrimos que morreu com cerca de 25 anos de idade.”

Com isso, fiquei confuso: o filho mais velho de Teti morreu jovem. E, no lugar dele, foi Pepi, o filho da segunda esposa, que herdou o trono. Certo? Talvez.

Ou talvez não. É aqui que a história começa a ficar sinistra.

As listas dos faraós mais antigos não são conclusivas. Algumas pulam direto de Teti para Pepi I. Duas delas, porém, incluem um governante – o misterioso Userkare – entre o pai e o filho.

Baseado em suas recentes descobertas e nos fragmentos de indícios escritos, Hawass monta uma seqüência plausível de acontecimentos. “Creio que o filho de Khuit, Tetiankh-Kem, foi morto juntamente com seu pai, o faraó Teti. Talvez Userkare estivesse envolvido na conspiração, mas ele governou apenas até o momento em que a rainha Iput conseguiu pôr seu filho Pepi no trono”, analisa ele.

Outros indícios de uma conspiração para a derrubada de Teti foram encontrados nos túmulos de seus altos funcionários.

Enquanto o vento varre o deserto certa manhã, Naguib Kanawati e eu buscamos abrigo em outra capela mortuária construída por uma pessoa e, depois, ocupada por outra. “Uma vez raspado com formão o nome original, outro foi entalhado no lugar: o de Seshemnefer”, diz Kanawati, apontando uma linha de hieróglifos na depressão causada pela raspagem. “Ele não passava de um funcionário menor e diz que o túmulo lhe fora concedido pelo faraó.”

“Agora dê uma olhada em cima do vão da porta.” Subitamente, os hieróglifos saltam da superfície da pedra. “Este é o nome do proprietário original do túmulo – Hezi, o vizir do rei Teti. Quem quer que estivesse encarregado de alterar os nomes provavelmente deixou este passar”. Tal como eu havia feito. Senti como se estivesse visitando a cena de um crime acompanhada de um mestre detetive.

Na parte de fora havia outras pistas. Uma série de estrias desfigura os dois pilares de um pórtico e as cenas com barcos em ambos os lados da porta.

“Hezi fora retratado nestes trechos, mas acabou sendo raspado de maneira muito meticulosa”, diz Kanawati. “As figuras nestes túmulos não são apenas arte. Elas têm uma função. O morto vivia por intermédio delas. Por isso, para punir alguém na vida eterna, era preciso mutilar todas as figuras.”

Hezi sabia que seu ka – sua força vital – podia retornar a este mundo por meio das figuras em seu túmulo. Ele esperava que parentes e sacerdotes fizessem oferendas constantes para sustentar seu ka, mas, caso eles relaxassem ou se esquecessem, ele mandara entalhar na sepultura cenas que poderiam ser úteis à sua força vital. Garantido pelas fórmulas mágicas entalhadas na pedra – alimentos e bebidas, o apoio de servos, a companhia de cantores e dançarinas e oportunidades para pescar e caçar –, o ka continuaria a desfrutar de todos os prazeres do aqui e agora. Ao destruir as figuras na sepultura de Hezi, alguém bloqueou para sempre seu acesso ao mundo dos vivos. O que o vizir havia feito para ser punido de forma tão violenta?

Ele havia conspirado contra o faraó Teti, arrisca Kanawati. O herdeiro que sobreviveu, Pepi I, teria então promovido essa vingança eterna, alterando as inscrições no túmulo de Hezi e concedendo-o a outra pessoa. “Não dá para dizer com certeza que Teti foi assassinado, mas ocorreu algo catastrófico”, diz o professor. “Quanto mais procuramos, mais indícios encontramos de que houve uma enorme conspiração. Muita gente foi punida.”

Provavelmente Hezi era um dos líderes dos conspiradores. Assim como o médico-chefe de Teti e o supervisor do arsenal, os quais receberam a mesma punição. O encarregado da guarda palaciana parece ter desempenhado um papel menor. Somente seu nariz e seus pés foram raspados dos relevos em sua capela mortuária.

As escavações nas proximidades da pirâmide de Pepi I proporcionam intrigas su- ficientes para no mínimo outro capítulo na saga de sua família – e novos personagens. Audran Labrousse, diretor da Missão Arqueológica Francesa, escavou sete novas pirâmides nessa área. Três delas pertencem às esposas de Pepi I, entre as quais Ankhesenpepi II, a mulher mais importante de sua época.

“Ela era uma das duas irmãs originárias de Abydos que se casaram com Pepi I”, diz Labrousse, diante de um café forte na sede da escavação francesa. “O nome dela significa ‘ela vive para Pepi’. O filho de sua irmã, Merenre, tornou-se rei após a morte de Pepi I, mas só governou por alguns anos. Em seguida, o próprio filho de Ankhesenpepi, Pepi II, subiu ao trono. Como se acredita que devia ter apenas 6 anos, sua mãe tornou-se regente. Ela exerceu de fato o poder e isso é visível em seu túmulo.”

Para chegarmos até a pirâmide de Ankhesenpepi, sacolejamos pelo deserto em uma perua até um ponto entre as pirâmides de Pepi I e de Merenre, ambas hoje nada mais que montes de pedras reviradas. Seguimos por uma trilha até o fundo da escavação e nos aproximamos de um muro irregular de pedra que sustenta um monte de rocha e areia. “Isto era uma pirâmide”, diz Labrousse. “Você vai ter de aceitar a minha palavra.”

Desviando-nos de lajes de granito vermelho que antes faziam parte de uma ponte levadiça, subimos por uma escada e engatinhamos por um longo túnel inclinado. “Ela não era um faraó, mas chegou bem perto disso”, comenta Labrousse ao entrarmos na câmara mortuária de Ankhesenpepi. Com uma lanterna, iluminou os hieróglifos que cobrem as paredes de pedra, coluna após coluna entalhada e pintada de verde, a cor do renascimento.

“Esta rainha foi a primeira mulher a ser enterrada com um texto deste tipo”, explica ele, sua voz traindo certo assombro. “Antes dela, as fórmulas sagrados conhecidas como Textos da Pirâmide foram achadas apenas nas tumbas dos faraós. O governante falecido tinha de passar pela morte antes de aceder à vida eterna e, para isso, precisava da ajuda destes textos. Ao pronunciar estas palavras, fazia com que seu corpo revivesse na vida futura.” Neste caso as palavras foram pronunciadas por uma mulher.

Ankhesenpepi deve ter sido uma mulher extraordinária. Antes dela, as esposas dos faraós sempre haviam ficado em segundo plano. Subitamente, ela deu um passo adiante e reivindicou para si a mais poderosa das fórmulas mágicas dos faraós. E isso não foi tudo.

Ao sairmos da pirâmide, Labrousse me leva através das ruínas até um bloco de calcário branco com inscrições. “Antes se pensava que Merenre fosse meio-irmão de Pepi II, mas essa hipótese teve de ser abandonada quando achamos esta inscrição”, diz ele. “Aí está dito claramente que Ankhesenpepi foi esposa de Pepi I, esposa de Merenre e também mãe de Pepi II.”

A genealogia é complicada demais. Balanço a cabeça, incapaz de entender. Labrousse tenta de novo. “A viúva de um faraó não era ninguém. Com a morte de Pepi I, Ankhesenpepi teria voltado ao harém, mas achamos que ela conseguiu seduzir seu sobrinho, Merenre. E felizmente para ela teve um filho, Pepi II.”

Essa mulher era uma espécie de Cleópatra – sedutora, esperta, implacável.

Labrousse está tentando reconstruir a planta-baixa de seu templo mortuário. Por enquanto, tudo de que dispõe é um lintel de granito pesando 15 toneladas, parte de um obelisco de calcário e blocos soltos das paredes. “Ela está enterrada perto de Pepi I, e seu túmulo está posicionado em direção ao de Merenre. Mas onde está a entrada?”, pergunta. “A situação da rainha já é bastante confusa para nós. Imagine como deve ter sido complicado para ela.”

Incluindo a regência de sua mãe, é provável que Pepi II tenha reinado por mais de 90 anos – um período maior que o de qualquer outro faraó egípcio. Na época em que morreu, por volta de 2175 a.C., o governo central estava prestes a entrar em colapso e, nas duas décadas seguintes, os governadores assumiram o controle de suas províncias. Uma prolongada seca provavelmente agravou o tumulto político. Sem chuva não havia água para irrigação, as colheitas foram insuficientes e a fome assolou a população. Com isso a era hoje conhecida como o Antigo Império chegou ao fim.

Os faraós seguintes reunificaram o país e transferiram a capital inúmeras vezes, mas Mênfis continuou sendo um importante centro urbano e religioso. “Era uma espécie de Nova York, uma cidade que já foi capital dos Estados Unidos”, diz David Silverman, professor de egiptologia na Universidade da Pensilvânia, onde o encontrei no intervalo de suas aulas. “A capital foi mudada, mas de algum modo Nova York preservou sua importância.”

Vinculadas à cidade, as atividades em Saqqara passaram a oscilar em função da política. Os novos faraós passaram a ser enterrados em outros locais, mas as antigas tumbas reais ainda tinham o poder de atrair os fiéis. Silverman está estudando os túmulos de dois sacerdotes do Médio Império que faziam parte do culto ao faraó Teti, havia muito falecido mas ainda venerado como um deus.

De um arquivo ele tira uma planta interna pintada dos dois complexos mortuários, situados no outro lado da rua onde fica a pirâmide de Teti – mas há algo surpreendente. Após descerem retos, os poços das tumbas continuam sob a rua, levando às câmaras funerárias que ficam sob o espaço sagrado do próprio Teti. Os sacerdotes, aparentemente, permaneceram em contato com o grande faraó na vida eterna.

Outros faraós não foram tão amados assim. O altos funcionários de Akhenaten, no Novo Império, podem até mesmo ter se mantido a uma certa distância do faraó, de maneira proposital e por bons motivos. Por volta de 1348 a.C., vários anos após iniciar seu reinado, Akhenaton proibiu o culto aos deuses tradicionais e criou uma nova religião em torno de Aton, o disco solar. Também fundou uma nova capital, Akhetaton (a moderna Amarna), no deserto ao sul de Saqqara. “Ele agiu como um maníaco”, diz Maarten Raven, curador da coleção egípcia no Museu Nacional de Antiguidades dos Países-Baixos. “Foi um choque para seus contemporâneos.”

Recentemente Raven desenterrou o túmulo de um desses contemporâneos, um importante sacerdote do templo de Aton em Mênfis. Avançando pelo deserto ao sul da Pirâmide em Degraus, o complexo inclui um poço funerário em um pátio antes repleto de colunas que imitavam caule de papiro.

O dono dessa tumba era um indivíduo chamado Meryneith, ou pelo menos foi com esse nome que começou sua carreira. No que parece ter sido uma incessante luta pela sobrevivência política, Meryneith mudou de nome duas vezes – primeiro para Meryre, depois de volta a Meryneith. Seu túmulo, construído em três etapas, confirma as oscilações de sua carreira.

Na seção mais antiga, concluída antes da revolução de Akhenaton, o batente das portas do santuário recebeu inscrições com o nome original do funcionário. “Meryneith significa ‘o amado da deusa Neith’”, explica Raven, passando o dedo indicador sobre os dois arcos de caça, com as pontas cruzadas em ambas as extremidades, que simbolizam a divindade.

O signo, porém, foi alterado na segunda etapa da construção. Um círculo, o símbolo do Sol, foi entalhado sobre os arcos e aplicado gesso sobre suas extremidades. “Podemos ver aqui que ele mudou seu nome para Meryre, ‘o amado do Sol’”, prossegue Raven. “Dá a impressão de que Meryneith sentiu que seria melhor para sua carreira se abandonasse a referência à velha deusa e adotasse um novo nome, politicamente mais correto.”

Caminhamos até o fragmento de um relevo de parede que antes retratou o dono da sepultura e sua esposa. Tudo o que resta de Meryneith é um braço, pintado de marrom avermelhado, mas os hieróglifos são legíveis – dois arcos, as pontas cruzadas, claramente entalhados na pedra. “Isto foi feito durante a terceira fase de decoração”, conclui Raven. “Assim que Akhenaton morreu, Meryneith retomou sua antiga identidade de politeísta.”

Meryneith tentava mais uma vez avançar sua carreira, distanciando-se do faraó herético que foi renegado após a morte? Seja como for, tudo isso foi em vão. Ele não chegou a terminar seu túmulo – talvez não tenha conseguido escapar de seus vínculos passados e acabou sendo expulso desse local de sepultamento da elite egípcia.

Já o túmulo vizinho foi construído por um homem chamado Horemheb, que sobreviveu aos tumultos políticos da época de Akhenaton. Ele foi tão bem-sucedido que se tornou faraó, erguendo outra tumba mais adequada à sua realeza e deixando essa sepultura para uma de suas esposas. Se Horemheb conheceu Meryneith, “o que achava deste – que não passava de um vira-casaca?”, imagina Raven. “Por outro lado, pouco se sabe sobre as atividades de Horemheb durante o período de Akhenaton.”

As pistas sobre o relacionamento desses dois homens podem estar escondidas sob o espaço que separa seus complexos mortuários – os quais Raven pretende escavar na primavera.

Não será nada fácil, porém, extrair algum sentido do material que vai encontrar. Tal como no resto de Saqqara, essa área está repleta de sepulturas de pessoas comuns de outras épocas – e os saqueadores já abriram incontáveis túneis entre os poços dos túmulos.

“O subsolo aqui é como um queijo suíço”, comenta Raven. “Isso torna ainda mais difícil este quebra-cabeça.”

A longuíssima seqüência de faraós chegou ao fim com a conquista do Egito por Alexandre Magno, em 332 a.C. A partir de então, os costumes estrangeiros minaram a majestosa civilização das margens do Nilo, mas os monumentos no deserto permaneceram – e a vida cotidiana ainda prosseguiu por séculos tal como antes.

No final de uma tarde escalo os restos maltratados pelo tempo de um palácio de adobe erguido em Mênfis nos derradeiros anos do domínio faraônico. De seu topo contemplo o vilarejo moderno de Mit Rahina, onde roupas secam nas janelas de sobrados de tijolo vermelho e as crianças correm pelas vielas empoeiradas. Agricultores retornam dos campos circundantes no lombo de burros e pastores de pastos distantes com seus animais. Ao longo do horizonte ocidental vejo as mesmas coisas que viram os antigos egípcios – as pirâmides de Abusir, Saqqara, Dahshur. Por fim, bem ao lado da Pirâmide em Degraus, o Sol desaparece para se encontrar com Osíris durante a noite.

Disponível em < http://viajeaqui.abril.com.br/materias/egito-nilo-farao?pw=1 >. Acesso em 21/07/2015.

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro “Uma viagem pelo Nilo”.
[Leia seu perfil]