O enigma dos “Dois Irmãos” do tempo dos faraós

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

O Museu de Manchester (Reino Unido) possui algumas das coleções egípcias mais notáveis. E dentre as peças estão os artefatos funerários e as múmias de dois homens que tinham sido sepultados juntos. Eles foram identificados como Khnum-nakht e Nakht-ankh e as pesquisas revelaram que viveram durante a 12ª Dinastia.

Os ataúdes dos Dois Irmãos. Khnum-nakht é o da esquerda e Nakht-ankh o da direita. 2011.

O túmulo deles foi encontrado em 1907, em Dir Rifeh (próximo do Cairo), por um trabalhador egípcio chamado Erfai.  Ele estava trabalhando para os arqueólogos britânicos Ernest Mackay e Flinders Petrie, que enviaram toda a coleção funerária para Manchester.

Chegando ao museu em 1908 as múmias foram desembrulhadas pela primeira egiptóloga do Reino Unido a trabalhar em uma universidade, a Dra. Margaret Murray. Ela e seu auxiliar concluíram que a morfologia dos esqueletos de ambos os homens era diferente o que a fez sugerir que eles não seriam parentes. A pesquisadora ainda tinha dado uma estimativa de idade onde o Khnum-nakht teria cerca de 40 anos no momento de sua morte e Nakht-ankh cerca de 60.

Dra. Margaret Murray com a sua equipe exumando Nakht-ankh. 1908.

Apesar da conclusão de Margaret de que eles não seriam parentes, os ataúdes de ambos contavam uma outra história. De acordo com os textos eles eram filhos de um governante local com uma mulher chamada Khnum-aa. Por isso do apelido “Dois Irmãos”.

Ainda assim, alguns pesquisadores mais contemporâneos propuseram que um ou os dois homens fossem em verdade adotados.

Para sanar esta dúvida, foram extraídas amostras dos dentes de ambos em 2015 para que um exame de DNA pudesse ser realizado e o resultado saiu este ano (2018) na revista cientifica Journal of Archaeological Science. De acordo com o resultado eles pertenciam ao haplótipo mitocondrial M1a1, sugerindo uma relação maternal, portanto, seriam filhos da mesma mãe. Entretanto, as sequências do cromossomo Y foram menos completas e apresentaram variações entre as duas múmias, indicando que eles tinham pais diferentes, ou seja, muito provavelmente eram meio irmãos.

 

Fonte:

DNA confirms the Two Brothers’ relationship. Disponível em < https://egyptmanchester.wordpress.com/2018/01/16/dna-confirms-the-two-brothers-relationship/ >. Acesso em 17 de janeiro de 2018.

Pesquisa de genoma em múmias egípcias aponta parentesco com Oriente Próximo

Ontem (30/05/2017) foi divulgada pela Nature uma pesquisa de genoma com múmias egípcias que tem ilustrado um pouco mais a história desta parte do continente africano.

A pesquisa em questão gerou o artigo Ancient Egyptian mummy genomes suggest an increase of Sub-Saharan African ancestry in post-Roman periods que esclarece que foram recolhidas 166 amostras de 151 múmias que estão separadas em duas coleções de antropologia, uma no University of Tübingen e a outra no Felix von Luschan Skull Collection, em Berlim (Alemanha). Desses 151 indivíduos, eles tiveram sucesso em obter genomas mitocondriais humanos completos de 90 e dados de polimorfismo de nucleotídeo simples de três indivíduos do sexo masculino.

Egyptian Museum Cairo

Rahotep e Nofret. Foto meramente ilustrativa.

Os pesquisadores pontuaram que as amostras recuperadas abrangem cerca de 1.300 anos de história da região, indo do Novo Império até o Período Romano (ou seja, quatro épocas diferentes). A comunidade escolhida foi a de corpos encontrados em Abusir el-Meleq, localizado no Médio Egito. O objetivo era procurar determinar se os habitantes desse assentamento foram afetados a nível genético por conquistas e dominações estrangeiras, especialmente durante os períodos Ptolemaico (332-30 d.E.C.) e Romano (30-395).

Não sabemos muito como se deu a formação do Egito, mas é fato que durante parte da história da era dos faraós o Egito recebeu um grande fluxo de estrangeiros que possivelmente contribuíram geneticamente para a população local. O país teve interações intensas, historicamente documentadas, com áreas culturais importantes na África, na Ásia e na Europa, que iam desde o comércio internacional até a invasão e domínio realizado por líbios, assírios, kushitas, persas, gregos, romanos, árabes, turcos, franceses e finalmente britânicos.

P1020554.JPG

Musicistas. Foto meramente ilustrativa.

O resultado obtido pela equipe revela que os antigos egípcios compartilhavam mais ancestralidade comum com as pessoas do Oriente Próximo do que os egípcios dos dias atuais, que receberam uma mistura adicional da população subsaariana nos tempos modernos, atribuída ao comércio de escravos trans-saarianos e à expansão islâmica, respectivamente. Embora a existência da escravidão durante o Egito Antigo seja tema de acalorados debates, sabe-se que bem posteriormente cerca de 6 e 7 milhões de sub-saharianos foram escravizados na África do Norte durante um período de cerca de 1.250 anos, atingindo seu ponto alto no século XIX.

9 Guys From Fayum

Máscaras funerárias de Fayum. Foto meramente ilustrativa.

Vale ressaltar que pesquisas da história da população egípcia se baseia em fontes arqueológicas, literárias e deduções derivadas da diversidade genética dos egípcios atuais. Os pesquisadores salientam que todas essas abordagens são cruciais, mas não estão longe de cometer alguns equívocos graças a alguns fatores como, por exemplo, nomes de estrangeiros tais como gregos ou latinos serem vistos como “símbolo de status” e adotados por nativos e outros imigrantes. Desta forma, amostras de DNA tornam-se uma importante correção ou complemento para tais inferências.

Nefertiti

Rainha Nefertiti. Foto meramente ilustrativa.

Porém, existe a grande questão da validade das análises de DNA em corpos antigos advindos de climas quentes e que passaram por um processo químico (no caso a mumificação). Exatamente por isso que esse tipo de análise ainda é visto com tanto ceticismo por muitos pesquisadores. Contudo, a equipe garante que o seu conjunto de dados é confiável e foi obtido usando métodos de sequenciação de DNA de alto rendimento e avaliando a autenticidade do DNA antigo recuperado através de padrões característicos de incompatibilidade de nucleotídeos e testes estatísticos de contaminação. E um ponto beneficiou a equipe: as múmias estão em um bom estado de conservação, o que promove uma possibilidade maior de que não tenha ocorrido uma severa contaminação ao longo dos séculos.

 

Conclusão e o futuro:

A equipe reconhece que a análise de DNA com corpos de uma única comunidade advinda do Médio Egito não é o bastante para caracterizar todo o país. E que as múmias dos indivíduos que viveram mais ao sul podem apresentar marcadores diferentes, recebendo mais influência dos sub-saharianos, a exemplo dos egípcios modernos.

Como os próprios pesquisadores bem salientam também, descobrir que os egípcios podem ter uma identidade genética comum com as populações do Oriente Próximo não é surpreendente, visto a duradoura ligação entre os povos da Crescente Fértil, onde o Egito está incluso, seja através do comércio terrestre e marítimo, diplomacia, imigração, invasão ou deportação.

Essa pesquisa não é um ponto final para a questão da origem ou identidade genética dos egípcios antigos, mas um complemento para as discussões acerca do passado do país e uma oportunidade para que múmias de outras grandes coleções ao redor do mundo possam ser analisadas e complementar ainda mais esse quadro.

Tenha em casa: A Edições Del Prado, uma editora especializada em vendas de fascículos com imagens colecionáveis, possui uma coleção intitulada “Cenas do Egito Antigo”. Uma delas recria um momento durante a mumificação.

Clique aqui para conferir a peça ou aqui para ver as demais cenas.

Referência bibliográfica:

Este post foi baseado integralmente no seguinte artigo:

SCHUENEMANN, Verena J.; PELTZER, Alexander; WELTE, Beatrix; PELT, W. Paul van; MOLAK, Martyna; WANG, Chuan-Chao; FURTWA¨NGLER, Anja; URBAN, Christian; REITER, Ella; NIESELT, Kay; TEBMANN, Barbara; FRANCKEN, Michael; HARVATI, Katerina; HAAK, Wolfgang; SCHIFFELS, Stephan; KRAUSE, Johannes. Ancient Egyptian mummy genomes suggest an increase of Sub-Saharan African ancestry in post-Roman periods . Nature, 30 May, 2017.

 

“Tutankhamon não merece esta profanação do século 21”

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Estas palavras não são minhas, são do Jonathan Jones, jornalista do The Guardian. Ele as proferiu em seu artigo intitulado Tutankhamun does not deserve this 21st-century desecration [1]. Foi o único, entre tantos, que vi criticar em matéria a nova reconstituição do faraó Tutankhamon, desta vez assinada pela BBC, Tutankhamun: The Truth Uncovered (2014), e a qual ele denominou como “grosseira e vulgar”. Faço minha as palavras dele:

Novos métodos de escaneamento e imagens digitais oferecem novas maneiras de ficarmos dentro das múmias egípcias e outras relíquias biológicas, dando face, carne e mesmo órgãos internos para os mortos. Mas igual a qualquer avanço científico, estas técnicas precisam ser usadas com inteligência e sensibilidade. A realização de uma autópsia virtual altamente promovida em Tutankhamon não é uma investigação sensível com a vida, que nos ajuda a imaginar e entender o passado. É um mórbido show de horrores que reduz o mistério deste faraó uma vez esquecido e seu magnífico túmulo em um grosseiro e vulgar material de entretenimento (Tradução nossa).

A BBC está vendendo o seu documentário como uma amostra da verdadeira face de Tutankhamon, extraída de uma autópsia digital de ponta, o que há de mais moderno em tecnologia. Mas aonde vimos algo parecido? Em 2005 quando fomos apresentados para a “real” face de Tutankhamon, ao lado da genuína causa da sua morte que teria sido uma infecção desenvolvida em um ferimento em sua perna. Ou em 2002 quando também nos mostraram o “autêntico” rosto de Tutankhamon e sua terrível morte por assassinato, uma teoria já apresentada anos antes, mas que não tinha tido uma “comprovação” forense.

Nova reconstituição de Tutankhamon. Deu até pena do coitado se apoiando com a bengala do lado errado do corpo. Fonte da imagem: BBC. 2014.

A cada ano estamos (nós público e até mesmo cientistas) incutindo em novos erros em ajudar a propagandear o entretenimento acerca das mazelas que supostamente abateram o faraó Tutankhamon. Estamos levando a diante um mito sobre outro mito a fim de produzir documentários cada vez mais novelísticos, sensacionalistas vestidos como “fidedigno” e cientifico e cada vez mais estamos deixando que seja jogada fora a humanidade de muitos dos nossos mortos, a exemplo do próprio Tutankhamon.

É difícil explicar para o público comum porque muitos desses documentários têm tantas falhas, uma vez que o senso comum acredita fielmente que o que é apresentado é ciência. Os métodos não deixam de ser científicos, mas outros fatores são ignorados, como, por exemplo, o corpo de Tutankhamon passou por um processo tafonomico cruel. A palavra “tafonomia” é estranha para muitos, mas explicando de forma simples tem a ver com as atividades que ocorrem com o corpo após seu sepultamento. No caso do faraó em questão ele foi carbonizado pelos óleos e resinas, o que torna equivocado falar de uma deficiência no seu pé esquerdo e até mesmo a retirada de amostras decentes de DNA para a análise, mas ninguém explicou isto para os espectadores da National Geographic em 2010, quando anunciaram a resposta “conclusiva” para as linhas de parentesco dele e a nova causa “definitiva” da sua morte, a malária.

Somado a isto existe muito dinheiro rondando a imagem de Tutankhamon, não é barato produzir um documentário sobre ele. A Arqueologia hoje tornou-se um bem de consumo e por isso da importância de que seus documentários viralizem. Só para vocês terem uma ideia do quão descabida tornaram-se as pesquisas sobre a causa da morte de Tutankhamon, deem uma olhada nesta modesta lista [2]:

☥ Década de 1920: tumor cerebral;

☥ 1968: golpe na cabeça;

☥ 1993: atropelamento;

☥ 1999: golpe na cabeça, assassinato;

☥ 2002: golpe na cabeça, assassinato. Primeira reconstituição facial;

☥ 2005: ferida infeccionada no joelho esquerdo;

☥ 2010: malária; possível osteonecrose; anemia falciforme;

☥ 2012: epilepsia;

☥ 2014: Deficiência no pé esquerdo.

Dito isto, o que será que teremos para o ano que vem?


[1] Tutankhamun does not deserve this 21st-century desecration. Disponível em < http://www.theguardian.com/commentisfree/2014/oct/21/tutankhamun-desecration-computer-scan-images-pharoah-archaeological >. Acesso em 22 de outubro de 2014.
[2] Mais uma teoria para Tutankhamon. Disponível em < http://arqueologiaegipcia.com.br/2010/06/25/mais-uma-teoria-para-tutankhamon/ >. Acesso em 22 de outubro de 2014.

De acordo com reanálise de DNA a Rainha Tiye e o Faraó Amenhotep III eram primos

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

As investigações que se seguiram após as análises de DNA das múmias reais, publicadas em Fevereiro de 2010, proporcionaram materiais para uma nova árvore genealógica da Família Real do final da XVIII Dinastia.

Após debates acerca da confiabilidade das sugestões laçadas naquela época, um exame minucioso destes resultados levou este ano à conclusão de que alguns elos genéticos não foram notados pela a equipe responsável pelo exame em 2010.

Estátuas de Amenhotep III e Tiye. Salão principal do Museu Egípcio do Cairo. Retirado de: Chapter 20: Amenhotep the Magnificent. Disponível em: . Acesso em 12 de Janeiro de 2011.

Estátuas de Amenhotep III e Tiye. Salão principal do Museu Egípcio do Cairo. Retirado de: Chapter 20: Amenhotep the Magnificent. Disponível em: < http://www.answersingenesis.org/articles/utp/amenhotep-the-magnificent>. Acesso em 12 de Janeiro de 2011.

De acordo com a revisão do estudo, o fato mais significativo é que foi descoberto que Yuya, pai da Grande Esposa Real Tiye, compartilhou com seu genro, Amenhotep III, cerca de 1/3 de herança genética. Como consequência está sendo proposto que Yuya é um tio de Amenhotep III por parte de mãe, o que aponta que em verdade a rainha Tiye era prima de Amenhotep III e não uma plebeia, como muito se afirmou.

Faraó Amenhotep III. Imagem disponível em . Acesso em 12 de outubro de 2013.

Faraó Amenhotep III. Imagem disponível em < http://www.cis.nctu.edu.tw/~ whtsai/Egypt%20Trip/Summary %20of%20Trip/Part%20I%20—%20 Days%2001~04/Part%20I%20—%20By% 20Browsing/page_05.htm >. Acesso em 12 de outubro de 2013.

Rainha Tiye. Imagem disponível em . Acesso em 12 de outubro de 2013.

Rainha Tiye. Imagem disponível em < http://www.pinterest.com/pin/2476 2767948 4031042/ >. Acesso em 12 de outubro de 2013.

Outra sugestão da pesquisa é que a “Jovem Mulher”, encontrada com a múmia da rainha Tiye e já identificada como mãe do faraó Tutankhamon, trata-se de Nefertiti, já que possui um grau de parentesco próximo tanto com Yuya e sua esposa Tuya, como também com Tiye e Amenhotep III. Mas esta última teoria está mais baseada na possibilidade de que Nefertiti poderia ser filha de Ay, que por sua vez poderia ser filho de Yuya e Tuya.

A última conclusão da análise é que uma das mulheres encontradas na KV-21 se trataria de Mutemuiya, mãe de Amenhotep III.

Referência:

Marc Gabolde, « L’ADN de la famille royale amarnienne et les sources égyptiennes », ENiM 6, 2013, p. 177-203. Disponível em < http://www.osirisnet.net/news/n_09_13.htm  >. Acesso em 10 de Outubro de 2013.

Foram os ossos da irmã de Cleópatra VII encontrados? O mais provável é que não

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

Link enviado por Jacy Martins via Facebook [4].

Na ultima semana de fevereiro (2013), a arqueóloga da Austrian Academy of Sciences, Hilke Thür, durante sua palestra Who Murdered Cleopatra’s Sister? And Other Tales from Ephesus, no Museum of History in Raleigh na Carolina do Norte, afirmou ter identificado os ossos da irmã de Cleópatra VII, Arsinoe IV, princesa que de acordo com a historiografia teria traído a irmã e organizado uma rebelião se proclamando rainha. No entanto, Cleópatra VII venceu Arsinoe IV e com o auxílio de Júlio Cesar a enviou para o exílio, mas por ser uma rival ao trono teria sido assassinada em 41 antes da Era Cristã, sob as ordens da irmã e Marco Antônio.

. Acesso em 14 de março de 2013.” src=”http://arqueologiaegipcia.com.br/wp-content/uploads/imagem_do_ocumentario_cleopatra_o_retrato_corpo_encontrado_em_efeso.jpg” alt=”” width=”446″ height=”251″> Imagem do documentário Cleopatra: Portrait of a Killer (BBC). Disponível em < http://alexiabassi.blogspot.com.br/2010/09/assista-bbc-cleopatra-portrait-of.html >. Acesso em 14 de março de 2013.

Os ossos foram encontrados em 1926 nas ruínas de Éfeso, uma antiga cidade grega na Turquia, especificamente dentro de uma estrutura arquitetônica denominada “O Octógono”, e teve o crânio separado do restante do conjunto. O corpo só foi reencontrado em 1985, já o crânio está desaparecido.

 

Uma polêmica desde 2009:

De acordo com a pesquisa, a mulher, hora identificada pela impressa como uma jovem de 15 a 16 anos, hora como uma de 18 a 20, teria vivido em algum momento no século I antes da Era Cristã, período em que Cleópatra VII viveu, e Éfeso seria o local em que a princesa teria sido exilada. Munida destas informações, Thür deduziu que tais ossos seriam Arsinoe IV porque eles foram sepultados em uma localização ilustre e pelo desenho octogonal da tumba ele remeteria ao formato do farol da ilha de Pharos, o hoje chamado “Farol de Alexandria”. Porém, suas evidencias são circunstanciais.

. Acesso em 03 de março de 2013.” src=”http://arqueologiaegipcia.com.br/wp-content/uploads/ossos_encontrados_em_efeso.jpg” alt=”” width=”224″ height=”426″> Ossos encontrados em Éfeso. Imagem disponível em < http://bonesdontlie.wordpress.com/2013/02/28/have-archaeologists-found-cleopatras-half-sister/ >. Acesso em 03 de março de 2013.

A professora de assuntos clássicos de Cambridge, Mary Beard, confirma que a princesa teria sido assassinada em Éfeso, mais especificamente na escada do templo de Diana, mas este seria o único episódio que a ligaria ao local. Já a tumba octogonal, que não faz inferência nominal acerca de quem a ocupa, não tem o que remeta de fato ao farol de Alexandria [2].

Para aumentar a polêmica, o crânio foi submetido a uma reconstituição facial realizada pela equipe do Scotland’s University Of Dundee. A imagem foi lançada em 2009 no documentário Cleopatra: Portrait of a Killer (BBC), apresentada como sendo Arsinoe IV, mesmo sem nenhum dado conclusivo.

. Acesso em 27 de fevereiro de 2013.” src=”http://arqueologiaegipcia.com.br/wp-content/uploads/cleopatra_arsinoe_reconstituicao_facial_2009.jpg” alt=”” width=”260″ height=”190″> Reconstituição facial do crânio encontrado na Turquia apresentada no documentário “Cleopatra: Portrait of a Killer” (2009) da BBC. Imagem disponível em < http://www.huffingtonpost.com/2013/02/26/cleopatra-half-sister-bones-murdered_n_2766739.html?utm_hp_ref=fb&src=sp&comm_ref=false >. Acesso em 27 de fevereiro de 2013.

A equipe também tentou aplicar testes de DNA, mas os ossos estão contaminados devido a manipulação por parte de várias pessoas.

De acordo com o classicista David Meadows tal reconstituição foi realizada com dados de medidas do crânio retiradas em 1920 [3], uma vez que sua atual localização é desconhecida desde a Segunda Guerra Mundial. Isto nos dá mais um problema metodológico. Em seu blog www.rogueclassicism.com, em 2009, ele realiza um apanhado de artigos de jornais que comentaram sobre o crânio e fez questão de denotar a importância da impressa para a disseminação equivocada (embora “irresponsável” seja a melhor definição) desta notícia.

 

Minha opinião:

Dado o que foi apresentado pela a equipe é impossível não concordar com os demais pesquisadores que não aceitam a proposta de Thür e seus colegas. As evidencias organizadas são extremamente circunstanciais e deixa uma “dúvida razoável” entre os leigos e isto justamente com um assunto tão polêmico, já que se trata de algo associado com Cleópatra VII.

Quando indagada acerca das críticas que vem recebendo dos colegas, Thür afirma que se trata de ciúmes[1][4]. Inveja na academia é um dos sentimentos mais corriqueiros, mas nesta situação os questionamentos e críticas possuem validade.

David Meadows, ainda em seu post, faz uma abordagem interessante e que precisa ser levada em conta: não se sabe como se deu o sepultamento. Teria sido da forma tradicional egípcia ou não? E aqui deixo o meu complemento: mesmo que ela não tenha recebido um sepultamento egípcio, o acompanhamento funerário poderia dizer algo acerca, no entanto, aparentemente não foi divulgado nada sobre.

Meadows faz outra chamada: de acordo com a descrição o crânio teria sofrido um tratamento de alongamento durante a infância, mas são traços encontrados em crânios da Turquia e Arsinoe IV nasceu e cresceu em Alexandria. Existem debates acerca da prática do alongamento craniano entre os egípcios e até onde posso afirmar nenhum entre sociedades influenciadas pela cultura grega (como foi a família ptolomaica).

O irônico na teoria de Hilke Thür é que ela está se empenhando muito em defender que se trata de Arsinoe IV, mas ignora a possibilidade de que esta descoberta possa vir a esclarecer um pouco da história de outro indivíduo que em nada tem relação com a sociedade egípcia e que graças a esta exploração da história da princesa exilada continuará sem identidade.

 

Fonte da notícia:

[1] Bones Of Cleopatra’s Murdered Half-Sister Identified, Archaeologist Says. Disponível em < http://www.huffingtonpost.com/2013/02/26/cleopatra-half-sister-bones-murdered_n_2766739.html?utm_hp_ref=fb&src=sp&comm_ref=false >. Acesso em 27 de fevereiro de 2013.

[2] The skeleton of Cleopatra’s sister? Steady on. Disponível em < http://timesonline.typepad.com/dons_life/2009/03/the-skeleton-of.html >. Acesso em 02 de março de 2013.

[3] Cleopatra, Arsinoe, and the Implications. Disponível em < http://rogueclassicism.com/2009/03/15/cleopatra-arsinoe-and-the-implications/ >. Acesso em 02 de março de 2013.

[4] Archaeologist: Bones found in Turkey are probably those of Cleopatra’s half-sister. < http://www.newsobserver.com/2013/02/24/2697973/archaeologist-says-bones-found.html#storylink=rss >. Acesso em 27 de fevereiro de 2013.

Have Archaeologists Found Cleopatra’s Half-Sister?. Disponível em < http://bonesdontlie.wordpress.com/2013/02/28/have-archaeologists-found-cleopatras-half-sister/ >. Acesso em 03 de março de 2013.

Ramsés III foi assassinado com corte na garganta

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

Notícia enviada por Fernando Rocha e Marcelo Hessel via página do Arqueologia Egípcia no Facebook.

Muitos são capazes de lembrar-se de Ramsés III (20ª Dinastia) graças ao famoso episódio da “Conspiração do Harém”, em que Tiye, a segunda esposa do faraó, com o auxílio de cúmplices, arquiteta um plano para assassinar o governante. Esta história é conhecida devido a um papiro (hoje localizado em Turim, Itália) que narra o julgamento dos traidores, mas que infelizmente não deixa claro se afinal Ramsés III foi morto ou não.

. Acesso em 18 de Dezembro de 2012.” src=”http://arqueologiaegipcia.com.br/wp-content/uploads/ramses_III_face.jpg” alt=”” width=”300″ height=”200″> Ramsés III. Disponível em < http://www.lavanguardia.com/cultura/20121218/54358078686/ ramses-iii-murio-golpe-estado-rajaron-garganta.html >. Acesso em 18 de Dezembro de 2012.

O objetivo de Tiye era por no trono seu filho Pentawer, porém, a primeira esposa de Ramsés III, Isís, também possuía um filho, o qual era o principal herdeiro do trono.

Embora para muitos um harém seja considerado um espaço para o prazer sexual, no Egito estes lugares funcionavam como qualquer outro edifício político, com a diferença de que neles eram realizadas parte da educação das princesas e príncipes reais, além de acordos administrativos.

O corpo preservado de Ramsés III foi redescoberto em 1881*, no esconderijo das múmias reais (TT320), em Deir el Barahi. Anos depois, durante a década de 1960, a múmia foi submetida a uma radiografia, porém não foi encontrado nada que indicasse violência [1].

Mais um exame não invasivo na múmia:

Este ano, a múmia foi submetida a outro exame, desta vez com um aparelho de tomografia computadorizada (CT-Scan). A interpretação das imagens foi realizada pelo professor de radiologia Albert Zink (que também já analisou a múmia “Otzi”, da Itália) e uma equipe com outros radiologistas, além de especialistas em análise molecular e um paleopatologista. O único profissional da área de humanas é o arqueólogo egiptólogo Zahi Hawass.

. Acesso em 18 de Dezembro de 2012.” src=”http://arqueologiaegipcia.com.br/wp-content/uploads/ramsesIII_mumia_arqueologia_egiptologia.jpg” alt=”” width=”300″ height=”382″> Múmia de Ramsés III. Imagem disponível em < http://www.bmj.com/content/345/bmj.e8268#aff-4 >. Acesso em 18 de Dezembro de 2012.

A conclusão da equipe parece indicar que os antigos conspiradores conseguiram alcançar o intento: A garganta de Ramsés III apresenta um corte abaixo da laringe que perfurou a traqueia em tal profundidade que provavelmente ocasionou uma morte imediata [1], o esôfago e algumas artérias também foram comprometidas, dificilmente alguém sobreviveria a um ferimento destes. Na ferida foi encontrada um objeto no formato do “Olho de Hórus”[1][2], amuleto com fins curativos e que deve ter sido posto no local para que a lesão fosse curada e o faraó pudesse desfrutar de uma boa saúde física no “Além”.

. Acesso em 18 de Dezembro de 2012.” src=”http://arqueologiaegipcia.com.br/wp-content/uploads/ramses_III_olho_de_horus.jpg” alt=”” width=”376″ height=”510″> Figura da tomografia de Ramsés III. A legenda “Olho de Hórus” é uma alteração posterior do Arqueologia Egípcia. As setas e estrelas são do artigo original mostrando áreas de fratura e intervenção da resina durante a mumificação. Imagem disponível em < http://www.bmj.com/content/345/bmj.e8268#aff-4 >. Acesso em 18 de Dezembro de 2012.

. Acesso em 18 de Dezembro de 2012.” src=”http://arqueologiaegipcia.com.br/wp-content/uploads/amuleto_horus_ramses_iii.jpg” alt=”” width=”300″ height=”302″> Figura retirada da tomografia de Ramsés III. Devido ao formato foi deduzido que se trata de um ‘Wedjat’, ou seja, um “Olho de Hórus”. Imagem disponível em < http://www.bmj.com/content/345/bmj.e8268#aff-4 >. Acesso em 18 de Dezembro de 2012.

Exemplos de Wedjat (Olho de Hórus) encontrados em outros sítios arqueológicos. Estes artefatos eram encontrados em estilos diferentes, mas sempre com a mesma ideia em relação a forma. Imagem disponível em ANDREWS, Carol. Amulets of Ancient Egypt. Londres: British Museum Press, 1994. Pág. 39

No mesmo esconderijo em que foi encontrada a múmia de Ramsés III estava o do “Homem Desconhecido E”, conhecido no Brasil como “A Múmia que Grita”, graças ao programa “Egito Revelado”, da Discovery Channel. Uma análise de DNA, também realizada durante esta pesquisa, apontou que ele era filho de Ramsés III e devido a forma desonrosa como foi sepultado (coberto com uma pele de carneiro e com uma mumificação deficiente) arqueólogos e historiadores acreditam que se trata de Pentawer.

. Acesso em 18 de Dezembro de 2012. ” src=”http://arqueologiaegipcia.com.br/wp-content/uploads/desconhecido_e_a_mumia_que_grita.jpg” alt=”” width=”300″ height=”217″> O “Homem Desconhecido E”. A cor da fotografia foi alterada em respeito a alguns dos leitores. Imagem disponível em < http://anubis4_2000.tripod.com/UnknownManE/ManE.htm >. Acesso em 18 de Dezembro de 2012.

A conclusão do trabalho:

Durante a discussão no artigo publicado pela a equipe, é dado a entender que de fato os conspiradores conseguiram matar Ramsés III, porém é importante que fique claro aqui para os leitores que não existe a certeza de que foi justamente este grupo que assassinou o faraó. O papiro da conspiração pode estar narrando só um evento isolado.

Os resultados da pesquisa foram publicados no British Medical Journal, um dos periódicos mais importantes do Reino Unido.

==============================================

* Este é o ano oficial, mas o esconderijo real tinha sido encontrado anteriormente por ladrões de tumbas e só posteriormente o governo egípcio teve conhecimento do local.

[1]  Sale a la luz un asesinato de hace 3.000 años: a Ramsés III lo degollaron. Disponível em < http://www.google.com/hostednews/afp/article/ALeqM5jRyz9S3tVD3G5WCsq4sAfBcDP6Dg?docId=CNG.555d7b219611e73447652f3bdad00f78.631 >. Acesso em 18 de Dezembro de 2012.

[2] Ramses III murió tras un golpe de Estado en el que le rajaron la garganta. Disponível em < http://www.lavanguardia.com/cultura/20121218/54358078686/ramses-iii-murio-golpe-estado-rajaron-garganta.html >. Acesso em 18 de Dezembro de 2012.

Tomografia revela que faraó egípcio teve garganta cortada. Disponível em < http://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2012/12/tomografia-revela-que-farao-egipcio-teve-garganta-cortada.html >. Acesso em 18 de Dezembro de 2012.

Tomografia inédita revela que faraó Ramsés 3º teve garganta cortada. Disponível em < http://noticias.br.msn.com/mundo/tomografia-in%C3%A9dita-revela-que-fara%C3%B3-rams%C3%A9s-3%C2%BA-teve-garganta-cortada  >. Acesso em 18 de Dezembro de 2012.