Pesquisa de genoma em múmias egípcias aponta parentesco com Oriente Próximo

Ontem (30/05/2017) foi divulgada pela Nature uma pesquisa de genoma com múmias egípcias que tem ilustrado um pouco mais a história desta parte do continente africano.

A pesquisa em questão gerou o artigo Ancient Egyptian mummy genomes suggest an increase of Sub-Saharan African ancestry in post-Roman periods que esclarece que foram recolhidas 166 amostras de 151 múmias que estão separadas em duas coleções de antropologia, uma no University of Tübingen e a outra no Felix von Luschan Skull Collection, em Berlim (Alemanha). Desses 151 indivíduos, eles tiveram sucesso em obter genomas mitocondriais humanos completos de 90 e dados de polimorfismo de nucleotídeo simples de três indivíduos do sexo masculino.

Egyptian Museum Cairo

Rahotep e Nofret. Foto meramente ilustrativa.

Os pesquisadores pontuaram que as amostras recuperadas abrangem cerca de 1.300 anos de história da região, indo do Novo Império até o Período Romano (ou seja, quatro épocas diferentes). A comunidade escolhida foi a de corpos encontrados em Abusir el-Meleq, localizado no Médio Egito. O objetivo era procurar determinar se os habitantes desse assentamento foram afetados a nível genético por conquistas e dominações estrangeiras, especialmente durante os períodos Ptolemaico (332-30 d.E.C.) e Romano (30-395).

Não sabemos muito como se deu a formação do Egito, mas é fato que durante parte da história da era dos faraós o Egito recebeu um grande fluxo de estrangeiros que possivelmente contribuíram geneticamente para a população local. O país teve interações intensas, historicamente documentadas, com áreas culturais importantes na África, na Ásia e na Europa, que iam desde o comércio internacional até a invasão e domínio realizado por líbios, assírios, kushitas, persas, gregos, romanos, árabes, turcos, franceses e finalmente britânicos.

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Musicistas. Foto meramente ilustrativa.

O resultado obtido pela equipe revela que os antigos egípcios compartilhavam mais ancestralidade comum com as pessoas do Oriente Próximo do que os egípcios dos dias atuais, que receberam uma mistura adicional da população subsaariana nos tempos modernos, atribuída ao comércio de escravos trans-saarianos e à expansão islâmica, respectivamente. Embora a existência da escravidão durante o Egito Antigo seja tema de acalorados debates, sabe-se que bem posteriormente cerca de 6 e 7 milhões de sub-saharianos foram escravizados na África do Norte durante um período de cerca de 1.250 anos, atingindo seu ponto alto no século XIX.

9 Guys From Fayum

Máscaras funerárias de Fayum. Foto meramente ilustrativa.

Vale ressaltar que pesquisas da história da população egípcia se baseia em fontes arqueológicas, literárias e deduções derivadas da diversidade genética dos egípcios atuais. Os pesquisadores salientam que todas essas abordagens são cruciais, mas não estão longe de cometer alguns equívocos graças a alguns fatores como, por exemplo, nomes de estrangeiros tais como gregos ou latinos serem vistos como “símbolo de status” e adotados por nativos e outros imigrantes. Desta forma, amostras de DNA tornam-se uma importante correção ou complemento para tais inferências.

Nefertiti

Rainha Nefertiti. Foto meramente ilustrativa.

Porém, existe a grande questão da validade das análises de DNA em corpos antigos advindos de climas quentes e que passaram por um processo químico (no caso a mumificação). Exatamente por isso que esse tipo de análise ainda é visto com tanto ceticismo por muitos pesquisadores. Contudo, a equipe garante que o seu conjunto de dados é confiável e foi obtido usando métodos de sequenciação de DNA de alto rendimento e avaliando a autenticidade do DNA antigo recuperado através de padrões característicos de incompatibilidade de nucleotídeos e testes estatísticos de contaminação. E um ponto beneficiou a equipe: as múmias estão em um bom estado de conservação, o que promove uma possibilidade maior de que não tenha ocorrido uma severa contaminação ao longo dos séculos.

 

Conclusão e o futuro:

A equipe reconhece que a análise de DNA com corpos de uma única comunidade advinda do Médio Egito não é o bastante para caracterizar todo o país. E que as múmias dos indivíduos que viveram mais ao sul podem apresentar marcadores diferentes, recebendo mais influência dos sub-saharianos, a exemplo dos egípcios modernos.

Como os próprios pesquisadores bem salientam também, descobrir que os egípcios podem ter uma identidade genética comum com as populações do Oriente Próximo não é surpreendente, visto a duradoura ligação entre os povos da Crescente Fértil, onde o Egito está incluso, seja através do comércio terrestre e marítimo, diplomacia, imigração, invasão ou deportação.

Essa pesquisa não é um ponto final para a questão da origem ou identidade genética dos egípcios antigos, mas um complemento para as discussões acerca do passado do país e uma oportunidade para que múmias de outras grandes coleções ao redor do mundo possam ser analisadas e complementar ainda mais esse quadro.

Tenha em casa: A Edições Del Prado, uma editora especializada em vendas de fascículos com imagens colecionáveis, possui uma coleção intitulada “Cenas do Egito Antigo”. Uma delas recria um momento durante a mumificação.

Clique aqui para conferir a peça ou aqui para ver as demais cenas.

Referência bibliográfica:

Este post foi baseado integralmente no seguinte artigo:

SCHUENEMANN, Verena J.; PELTZER, Alexander; WELTE, Beatrix; PELT, W. Paul van; MOLAK, Martyna; WANG, Chuan-Chao; FURTWA¨NGLER, Anja; URBAN, Christian; REITER, Ella; NIESELT, Kay; TEBMANN, Barbara; FRANCKEN, Michael; HARVATI, Katerina; HAAK, Wolfgang; SCHIFFELS, Stephan; KRAUSE, Johannes. Ancient Egyptian mummy genomes suggest an increase of Sub-Saharan African ancestry in post-Roman periods . Nature, 30 May, 2017.

 

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro “Uma viagem pelo Nilo”.
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