A busca por “espaços vazios” na Grande Pirâmide do Egito continua

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Em 2017 a revista Nature anunciou que físicos descobriram um espaço vazio dentro da Grande Pirâmide de Gizé. De acordo com a matéria, esse espaço foi encontrado através da detecção de múons. A Grande Pirâmide foi o túmulo do faraó Khufu (Queóps), que reinou durante a IV Dinastia (há cerca de 4500 anos) e foi feita com pedra calcária e granito.

Porém, ao contrário do que foi dito pela Nature, muitos veículos de imprensa anunciaram erroneamente que este achado se tratava de uma “câmara oculta”, dando a impressão de que novas salas teriam sido encontradas dentro da tumba. A Grande Pirâmide já possui câmaras identificadas, são elas a “Câmara da Rainha”, a “Câmara do Rei” e as “câmaras de descarga” ou “câmaras de alívio”.  Mas este espaço vazio anunciado em 2017 poderia ser uma série de coisas, inclusive, na pior das hipóteses, uma rachadura na estrutura do edifício. 

A controvérsia diante do anúncio da descoberta de “espaços vazios” na Grande Pirâmide

E agora em 2020 um grupo de pesquisadores japoneses da Universidade de Kyushu planejam realizar novamente a pesquisa com múons para tentar entender o que é este espaço vazio. “A cavidade descoberta anteriormente é muito grande do ponto de vista arqueológico”, disse Sakuji Yoshimura, que lidera o projeto de pesquisa geral envolvendo outras universidades. “Estamos muito interessados ​​em verificar as descobertas.”

Pirâmide de Khufu. Foto: Nina Aldin Thune via Wikimedia Commons.

Espera-se que os resultados dessas pesquisas sejam divulgados por volta do final do ano.

Fonte:

Team to re-scan Great Pyramid of Giza to pinpoint hidden chamber. Disponível em <http://www.asahi.com/ajw/articles/AJ202001110001.html>, acesso em 13 de Janeiro de 2020.

Antiga estátua quebrada em invasão a museu do Egito passou por restauro

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

No ano de 2013, o Egito presenciou tristes acontecimentos. O Museu de Mallawi foi invadido, saqueado e em seguida parcialmente incendiado no início do mês de agosto pelo grupo auto intitulado Irmandade Muçulmana. Vários artefatos foram avariados ou totalmente destruídos, assim como um dos seguranças do local foi assassinado. 

Soma-se a tragédia o roubo de 1040 objetos arqueológicos dos 1089 que estavam no prédio; nos dias seguintes a própria população local saiu em busca das peças roubados, conseguindo recuperar algumas.

Hoje, quase 7 anos após o ocorrido, o Museu de Mallawi continua a se reerguer e até criou atividades, a exemplo da competição do “artefato do mês”. Nela, quatro artefatos estavam competindo nas páginas oficiais do museu nas mídias sociais. A peça vencedora é uma estátua de pedra calcária representado um homem e uma mulher sentados e que remonta à 6ª Dinastia (Antigo Reino). Mas ela tem algo muito especial: é um dos artefatos que tinham sido danificados durante a invasão de 2013

Imagem publicada nas redes sociais do museu.

No nosso post da época é possível ver fotografias tiradas horas após o incêndio ter sido contido e dentre os artefatos avariados ou totalmente destruídos está ela, a estátua em questão. Ela está tombada de lado coberta por cinzas e chamuscada. As faces do homem e da mulher estão quebradas e as partes arrancadas estão espalhadas pelo chão. 

Porém, a equipe de restauro conseguiu cuidar do objeto e dar quase o mesmo brilho que ele tinha antes da invasão. 

Agora, a estátua está disponível para visitação no próprio museu. 

O Museu do Mallawi foi fundado em 23 de junho de 1962 em Minya durante o governo do presidente Gamal Abdel Nasser. Ele tinha dois andares com quatro salas mostrando artefatos da era faraônica e períodos greco-romano, assim como coptas e do Egito medieval. Foram necessários mais de três anos para restaurar o museu, que foi reaberto em 22 de setembro de 2017. Agora ele contém 944 artefatos, incluindo 441 das exposições antigas.

Fonte:

Ancient statue damaged by MB restored, exhibited in Malawi Museum. Disponível em < https://www.egypttoday.com/Article/4/79432/Ancient-statue-damaged-by-MB-restored-exhibited-in-Malawi-Museum >. Acesso em 11 de janeiro de 2020. 

Múmia egípcia de 2,5 mil anos chama atenção de cientistas no Brasil

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

A identificação de uma cabeça de uma múmia egípcia no Brasil em 2017 chamou a atenção de pesquisadores. Apelidada de a “Múmia de Cerro Largo” (ou Ireti-Neferet, como os responsáveis pela pesquisa decidiram nomeá-la), esta cabeça permaneceu anônima no museu Centro Cultural 25 de Julho em Cerro Largo, no Rio Grande do Sul. Entretanto, ela foi notada pelo historiador Édison Hüttner, que conseguiu permissão para estudá-la na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

Foto: Bruno Todeschini

Durante um ano ela passou por diferentes tipos de pesquisas, uma delas foi uma análise por radiocarbono feita nos Estados Unidos (no laboratório Beta Analytic). Ela também passou por uma tomografia computadorizada no Instituto do Cérebro da PUCRS. Já a parte da arqueologia ficou por conta do arqueólogo Moacir Elias Santos.

Graças as análises, foi possível descobrir que o crânio pertence a uma mulher que morreu com cerca de 40 anos e que viveu no Egito entre 768 a 476 a.E.C, época situada entre o final do Terceiro Período Intermediário e o início do Período Tardio. 

Também sabe-se que ela não teve uma mumificação de qualidade — ao menos levando em consideração o padrão egípcio — já que não ocorreu a conservação total dos tecidos moles e não foram encontrados resquícios de resina dentro da caixa craniana. 

Outro detalhe importante é que foi descoberto que ela possuía uma incrustação feita em pedra no lugar de um dos olhos, assim como chumaços de linho preenchendo a área dos glóbulos oculares. 

Um rosto milenar

E as pesquisas continuam a avançar: em 2019 o crânio recebeu uma reconstituição facial realizada pelo artista forense Cícero Moraes — responsável também pela reconstituição da face da múmia Thotmea —. 

Reconstituição facial da “Múmia de Cerro Largo”

O resultado foi então apresentado para o público em agosto de 2019, durante o evento “Achados sobre a múmia Ireti-Neferet”, no auditório Ir. José Otão do Hospital São Lucas da PUCRS. E espera-se que em breve uma cópia da reconstituição seja feita e posta em exposição. 

Tem curiosidade em saber como esta múmia veio parar no Brasil? Assista o vídeo abaixo:

Egito está se preparando para inauguração do maior museu de antiguidades do mundo

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Uma das vistas mais emblemáticas do platô de Gizé, onde está a Grande Pirâmide do Egito, é um edifício onde se encontra aquele que será o maior museu do mundo dedicado a uma única civilização: o Grande Museu Egípcio. 

Foto: Dana Smillie

A ideia da criação do Grande Museu Egípcio surgiu como uma tentativa de se criar um museu modelo e aliviar as várias reservas técnicas espalhadas pelo país, que estavam abarrotadas de artefatos arqueológicos.

Depois de anos de construção e incidentes — como um incêndio ocorrido em 2018 —, o sonho da inauguração oficial está cada vez mais próximo.   

O Ministério do Turismo e Antiguidades do Egito anunciou ontem que foram finalizados mais de 90% do Grande Museu Egípcio e que ele deve ser inaugurado no último trimestre deste ano de 2020 (a expectativa é que seja em novembro).

Foto: Dana Smillie

Vários artefatos de grande valor simbólico e histórico já foram transferidos para o Grande Museu, tais como todos os artefatos relacionados ao faraó Tutankhamon e os “recentemente” descobertos 30 ataúdes de madeira encontrados na vila de Al-Assasif (próxima da cidade de Luxor).

Ele também contará como um museu infantil, um centro de artesanato, um espaço dedicado aos Barcos Solares, dentre outras coisas.

Fonte:

90 percent of GEM work is finished. Disponível em < https://www.egypttoday.com/Article/4/79339/90-percent-of-GEM-work-is-finished >, Acesso em 06 de janeiro de 2020.   

A princesa Ahmanet de “A Múmia” existiu?

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Em 2017 estreou um filme chamado “A Múmia”, que caso você não seja muito antenado no mundo do cinema, faz parte de uma franquia quase centenária. Franquia esta que se apoia em um enredo em que múmias egípcias, por algum acidente ou acaso do destino, acabam sendo trazidas de volta à vida e caminham por aí espalhando o mal ou a destruição.

O primeiro filme “A Múmia” foi lançado 1932 estrelando Boris Karloff e Zita Johann. Nele o sacerdote Imhotep, por meio de um encantamento, acaba sendo trazido de volta a vida e descobre que seu amor do Egito Antigo reencarnou. Nas décadas seguintes a Universal Studios lançou vários filmes usando parte dessa premissa. Dois dos mais famosos é o “A Múmia” de 1999 e “O Retorno da Múmia” de 2001. Neles vemos a reutilização de parte da história e do nome do personagem Imhotep. 

A franquia então ficou no congelador por um tempo até que foi anunciado o novo filme. A proposta era que esse novo “A Múmia” seria a porta de entrada para o Dark Universe; inspirado nas franquias de super-heróis, esperava-se que fosse criado um universo de monstros clássicos da Universal Studios. O filme porém não agradou e o sonho da Dark Universe parece ter descido pelo ralo. 

Nele, temos a personagem Ahmanet interpretada pela Sofia Boutella. Trata-se de uma princesa egípcia que após cometer assassinato é punida sendo enterrada viva. Milênios depois seu sarcófago é encontrado por um uma dupla de soldados que fazem bico como caçadores de tesouros (ou seja são corruptos, por que caça tesouros, nesse caso artefatos arqueológicos, em alguns países é crime). 

E já que falei anteriormente de Imhotep: o nome dele é inspirado em uma personalidade do Egito Antigo e que ao contrário do filme, onde ele é um sacerdote, na vida real ele foi um arquiteto. Mas e a princesa Ahmanet? Ela  foi inspirada em alguém que existiu?

A resposta é não. Em termos de egiptologia não conhecemos ninguém que tenha tido um destino parecido com o dela, mas seu nome provavelmente foi inspirado no da deusa Amonet, que era uma contraparte do Deus Amon, uma das divindades principais do panteão egípcio. Por acaso cheguei a falar sobre Amonet em um vídeo lá do canal, já que ela faz uma pontinha na série Penny Dreadful.

Uma cópia em alta resolução do busto de Nefertiti está disponível para download

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Muitos conhecem a icônica e inacabada imagem da rainha Nefertiti, onde podemos vê-la do pescoço para cima usando uma grande coroa azul. Mas são poucos os que conhecem a história por trás da sua chegada a Alemanha no século 20.

Nefertiti foi uma rainha que reinou durante o período a Amarniano (18ª dinastia) na cidade de Aketaton, atual Amarna. E foi lá, dentro do ateliê de um escultor chamado Tutmés, que a sua mais famosa imagem foi descoberta em dezembro de 1912 por um arqueólogo alemão chamado Ludwig Borchardt.

Na época do achado já vigorava uma lei que proibia a saída de qualquer artefato arqueológico do país sem a permissão expressa do governo. Antes, qualquer um que fosse efetuar explorações em templos e tumbas poderia levar consigo o que encontrou. Foi assim que muitos museus de antiguidades egípcias foram criados na Europa e América. Porém, o Egito, durante o século XX, finalmente conseguiu implantar uma lei que estabelecia que o explorador poderia ficar com metade dos artefatos que encontrou, desde que tais artefatos fossem escolhidos a dedo pelo governo — hoje já não é mais assim, agora todo e qualquer artefato está proibido de deixar o país para compor o acervo permanente de um museu estrangeiro —.

Sabendo disso, Ludwig Borchardt mascarou a estátua de Nefertiti, conseguindo assim que ela não fosse notada durante a inspeção do fiscal do até então Serviço de Antiguidades — atual Ministério das Antiguidades —. O busto foi levado para Europa e permaneceu escondido até que finalmente entrou em exposição, enfurecendo assim os egípcios que agora estavam cientes de que eles tinham sido enganados.

Esse é o resumo da história, e olha que eu nem contei a parte em que os egípcios há anos estão tentando repatriar este artefato, sem sucesso algum.

A questão é que a imagem está hoje no Neues Museum, em Berlim, e há alguns anos ela foi digitalizada em 3D. Cópias em 3D de artefatos arqueológicos tem se tornado cada vez mais comuns em laboratórios de museus de arqueologia ao redor do mundo. Vocês poderão assistir um exemplo na prática através deste vídeo:

Contudo, a cópia foi mantida guardada, não sendo liberada nem mesmo para acadêmicos. Foi necessário que um homem chamado Cosmo Wenman conseguisse a sua liberação para o público usando o argumento da liberdade de informação. Mas, para tal, ele teve que tomar três anos de sua vida nesta batalha.

De acordo com o próprio Wenman a Fundação do Patrimônio Cultural da Prússia — organização que supervisiona os museus do estado em Berlim — inicialmente negou o seu pedido. Representantes da fundação alegaram que a liberação da cópia iria interferir nas vendas das réplicas do busto de Nefertiti na loja de presentes do museu.

E após os três anos finalmente a fundação cedeu ao pedido e enviou ao Wenman os arquivos em uma unidade USB, que por sua vez os colocou no Thingiverse, um site para visualizar e imprimir objetos 3D. Qualquer um pode baixá-los agora, desde que os use para fins não comerciais e dê os devidos créditos ao museu.

Imagem digitalizada.

Fontes:

Long-Hidden 3D Scan of Ancient Egyptian Nefertiti Bust Finally Revealed. Disponível em < https://www.livescience.com/nefertiti-bust-3d-scan-revealed.html >. Acesso em 25 de novembro de 2019.

An Official High-Resolution 3D Model of the Bust of Nefertiti Is Available for Download. Disponível em < https://kottke.org/19/11/an-official-high-resolution-3d-model-of-the-bust-of-nefertiti-is-available-for-download >. Acesso em 25 de novembro de 2019.

Descoberta rara: foi encontrada uma Estátua Ka de Ramsés II

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

No início deste mês de dezembro, o Ministério das Antiguidades do Egito anunciou que uma equipe de arqueologia desenterrou uma Estátua Ka feita em granito vermelho e que pertence ao rei Ramsés II (19ª dinastia). O artefato possui 105 cm de altura, 55 cm de largura e 45 cm de espessura.

Descoberta da Estátua Ka de Ramsés II. Foto: Ministério das Antiguidades do Egito

O achado foi realizado durante escavações em terras de propriedade privada na vila de Mit Rahina. Isso ocorreu após denúncias de que o proprietário estava realizando escavações ilegais no local a fim de encontrar artefatos arqueológicos.

Estátua Ka de Ramsés II. Foto: Ministério das Antiguidades do Egito

De acordo com a legislação egípcia (assim como a brasileira) artefatos arqueologicos são bens da União, ou seja, são de responsabilidade do governo. Desenterrar, vender ou manter ilegalmente em casa objetos arqueologicos são considerados crimes.

Saiba mais detalhes sobre esta notícia: 

Um achado extremamente importante

Estátuas Ka, como bem aponta o nome, são artefatos que representam o ka da pessoa retratada. De acordo com a tradição egípcia, o corpo de um indivíduo era dividido em várias partes tais como ba, sah, ankh, etc. E o ka era uma destas partes sendo uma espécie de força vital.

Estátua Ka de Ramsés II. Foto: Ministério das Antiguidades do Egito

E no caso dessa descoberta em questão, ela é importante porque, de acordo com o Ministério das Antiguidades do Egito, só existem duas Estátuas Ka registradas até o momento. A mais famosa é a do rei Hor Awibre, que viveu durante a 13ª dinastia e que no momento está em exposição no Museu Egípcio do Cairo.

Estátua Ka de Hor Awibre. Foto: Getty.

A outra é esta recentemente encontrada e que será exposta em um museu a céu aberto na própria Mit Rahina.

Estátua Ka de Ramsés II. Foto: Ministério das Antiguidades do Egito

Fontes:

Unique red granite bust of Ramses II unearthed on private land in Giza. Disponível em < http://english.ahram.org.eg/NewsContent/9/40/357585/Heritage/Ancient-Egypt/Unique-red-granite-bust-of-Ramses-II-unearthed-on-.aspx >. Acesso em 12 de dezembro.

Sarcófagos de mulheres são encontrados em cemitério do Egito

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Uma missão coordenada pelo Instituto Francês de Arqueologia Oriental e pela Universidade de Estrasburgo descobriu três ataúdes de madeira no pátio do túmulo de uma pessoa chamada Padiaménopé[1] (TT 33), em Tebas.

Estes caixões são datados da 18ª Dinastia, Novo Império, e estão em um ótimo estado de conservação.

Um deles pertence a uma mulher chamada Ti e mede 1,95 m, o outro pertence a uma mulher chamada Rau e possui 1,90 m. Já o terceiro caixão o sexo do seu dono ainda não foi esclarecido para a imprensa, mas possui 1,80 m.

Como é de se esperar, todos os caixões possuem ilustrações com motivos religiosos e embora sejam desenhos simples, possuem cores vibrantes.

Não foram dadas informações sobre qual será o destino destes ataúdes, se irão permanecer em um armazém ou irão compor a exposição de algum museu. Igualmente não foi dito se eles guardam alguma múmia.


[1] O seu sexo e época em que viveu não foram apontados.

Fonte:

French Archaeologists Unearth Ancient Egyptian Wooden Coffins. Disponível em < http://luxortimes.com/2019/11/french-archaeologists-unearth-ancient-egyptian-wooden-coffins/ >. Acesso em 27 de novembro de 2019.

Múmias raras de leões são encontradas em cemitério do Egito Antigo

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Os egípcios cuidaram, veneraram e mumificaram uma série de diferentes animais. Nesta lista podemos incluir gatos, cães, aves, crocodilos e até escaravelhos. Os motivos eram variados indo desde estima, para servirem de alimentos no além e veneração, afinal, uma variedade de bichinhos eram vistos como mensageiros das divindades ou era uma divindade propriamente dita.

No Egito Antigo os leões representavam a realeza e a força.

Entretanto, apesar de existir uma gama tão extensa de animais que foram mumificados, alguns são mais raros que outros. Um deles é o escaravelho, o inseto mais sagrado para os egípcios antigos. Eles encarnavam o deus Khepri, uma importante divindade solar, e até mesmo compunham nomes de alguns faraós. Mas as suas múmias são extremamente escarças. Por isto foi quase um milagre a descoberta de alguns espécimes mumificados encontrados dentro de um pequeno sarcófago de calcário em 2018.

Outros tipos de múmias de animais raríssimos são as de leões. Bom, estes animais pareciam ter uma posição bastante privilegiada em relação aos símbolos e simbolismos da tradição egípcia antiga, uma vez que eram uma das representações da realeza. Mas, não era só isto! Simbolizavam também a força. É tanto que era uma das caracterizações do deus Mahes, assim como da deusa Sekhmet, uma das divindades mais importantes do panteão egípcio. Eles também integravam partes de animais míticos, tais como as esfinges que usualmente tinham um corpo de leão com a cabeça de um humano ou de um carneiro. Parte de leões formavam igualmente o corpo de Ammut, “A Devoradora” que comia os falecidos que não passassem no teste da pesagem do coração.

Sekhmet, uma deusa com cabeça de leoa, era um símbolo de destruição, mas também de saúde.

Os leões não estavam somente na mitologia, mas também compunham partes de mobiliários, artigos de guerras, etc. Eles estavam literalmente em todo lugar, embora no Egito atual não sejam nem vistos e há alguns anos somente dois corpos remanescentes do Egito Antigo tenham sido encontrados[1]… Até agora.

Ontem foi anunciada oficialmente a notícia de que alguns leões mumificados foram descobertos em uma tumba em Saqqara, na necrópole de Bubasteion. “É a primeira vez que uma múmia completa de um leão ou filhote de leão é encontrada no Egito”, disse o Ministro das Antiguidades em uma coletiva para imprensa [2][3].

Não se sabe ainda se estas são as citadas múmias de leões anunciadas na coletiva de imprensa. Foto: Ministério das Antiguidades.

Bubasteion foi por um período capital do Egito durante a antiguidade e dentre os egípcios era chamada de Per-Bastet, “casa de Bastet” ou “pertencente à Bastet”. Lá se consolidou um forte culto a deusa gata Bastet e consequentemente a cidade ganhou uma necrópole dedicada aos bichanos.

Ainda não se sabe quantos leões foram encontrados, afinal, as múmias ainda estão sob análise, mas o que foi liberado é que foram encontradas múmias de grandes felídeos e que existe 95% de certeza de que dois deles são leões. Esses animais têm cerca de 1 metro de comprimento, o que poderia indicar que ainda não eram adultos quando morreram, talvez até tendo entre oito meses de idade[2][3].

Pesquisador mostra, através de seu celular, fotografia da tomografia de um dos leões.

Foi a Salima Ikram, arqueóloga da Universidade Americana do Cairo, quem realizou a tomografia computadorizada nestas duas múmias e confirmou tratarem-se de leões. Ela disse para a National Geographic que o significado da descoberta é “extremamente importante”, pois dará aos pesquisadores novas ideias sobre como os leões foram capturados no Egito antigo e se foram criados ou comercializados [3].

Outras descobertas na área:

Outras três múmias pertencentes a gatos grandes (a espécie exata ainda não está clara) foram encontradas perto dos dois leões. Elas podem pertencer a leopardos, guepardos ou outras formas de felinos. Isso só o tempo — e naturalmente pesquisas em arqueologia — poderá nos dizer.

Múmias de gatos que foram também encontradas no local. Foto: Ministério das Antiguidades.

Múmia de gato. Foto: Ministério das Antiguidades.

Também foram encontrados no local cerca de 200 artefatos arqueológicos, incluindo múmias. São alguns deles:

☥ 75 estátuas de gatos;

☥ 25 caixas de madeira com gatos mumificados dentro;

☥ Várias estátuas de madeira representando diferentes tipos de animais e divindades;

☥ Um grande escaravelho de pedra;

☥ 2 pequenos escaravelhos de madeira e arenito;

☥ 3 estátuas de crocodilos dentro das quais foram encontrados restos de múmias de pequenos crocodilos;

☥ 73 estatuetas de bronze representando o deus Osíris;

☥ 6 estátuas de madeira do deus Ptah-Sokar;

☥ 11 estátuas de madeira e faiança da deusa leoa Sekhmet;

☥ Uma estátua da deusa Neith.

Foto: Ministério das Antiguidades.

Foto: Ministério das Antiguidades.

Foto: Ministério das Antiguidades.

Também foi descoberto um relevo com o nome de rei Psamético I, além de uma coleção de estátuas de cobras, amuletos de faiança de diferentes formas e tamanhos, máscaras mortuárias de madeira e argila e uma coleção de papiros decorados com desenhos mostrando a deusa Tawert.

Foto: Ministério das Antiguidades.

Foto: Ministério das Antiguidades.

Foto: Ministério das Antiguidades.

Achou que esta descoberta foi incrível? Pois bem, o ministro das antiguidades do Egito prometeu durante a coletiva de imprensa que o anúncio de hoje não foi a última descoberta do ano. Nas próximas semanas, no mês de dezembro, haverá outro anúncio e ele promete que será algo incrível. Basicamente será um presente para as comemorações do Natal.


[1] Um deles é datado da Dinastia 0 e o outro é datado do Período Helenístico e foi encontrado em Saqqara em 2001.

Fonte:

[2] Two Lion Cub Mummies Discovered in Egypt for the First Time

https://www.livescience.com/lion-cub-mummies-saqqara-egypt.html

[3] Very rare lion mummies discovered in Egypt. Disponível em < https://www.nationalgeographic.com/history/2019/11/rare-lion-mummy-discovered-Egypt/ >. Acesso em 23 de novembro de 2019.

In Photos: Cat statues, mummies among large collection unearthed in Saqqara’s animals necropolis. Disponível em < http://english.ahram.org.eg/News/356444.asp >. Acesso em 23 de novembro de 2019.

Details of New Archaeological Discovery in Saqqara (Photos). Disponível em < https://see.news/details-of-new-archaeological-discovery-in-saqqara-photos/?fbclid=IwAR3prCi4q0wkJKtQmoyKl1nHz3bHdB5zm5d2ZD7p8XAlk3I04SBsIuqUJbE >. Acesso em 23 de novembro de 2019.

A múmia de Akhenaton foi encontrada?

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Akhenaton foi um faraó que reinou durante o Novo Império, na 18ª Dinastia, inaugurando o Período Amarniano. Ele foi casado com a rainha Nefertiti e com ela teve seis filhas. Ambos reinaram juntos em uma cidade chamada Aketaton, na atual Amarna, onde está localizada a tumba dele. Mas na época em que o sepulcro foi descoberto ele estava vazio. O seu corpo não foi encontrado lá.

Akhenaton

Nefertiti e Akhenaton

Em verdade não tínhamos corpos comprovados de pessoas advindas desta época, exceto Tutankhamon e suas filhas. Contudo, existia certa desconfiança em relação a um esqueleto encontrado em uma sepultura localizada em 1912, a KV-55. Dentro dela foram encontrados vários artefatos remanescentes do Período Amarniano, dentre eles um sarcófago sem identificação, mas que continha um esqueleto em seu interior. Para variar todas as áreas do caixão onde ficaria o nome do falecido estão destruídas, aparentemente propositalmente.

Ataúde encontrado na KV-55

Esta parte danificada era onde deveria estar o nome do falecido.

Durante as últimas décadas pesquisadores divergiram sobre quem poderia ser este indivíduo. Alguns sugeriram que poderia ser uma mulher idosa, outros que seriam uma mulher jovem e hoje existe um consenso de que é um homem, até porque estes ossos passaram por um exame de DNA coordenado pelo arqueólogo Zahi Hawas entre 2007 e 2009.

Zahi Hawass e o esqueleto da KV-55

Durante o exame estes ossos tiveram seu material genético comparados com outros dez corpos, dentre eles a múmia de Tutankhamon. São eles:

☥ Os dois bebês encontrados na tumba de Tutankhamon;

☥ Os avôs de Akhenaton: Yuya e Tuya;

☥ Duas múmias de identidades desconhecidas encontradas em uma tumba chamada KV-21;

☥ E três corpos encontrados em um esconderijo da KV-35.

O resumo é que a equipe identificou os ossos da KV-55 e uma das múmias da KV-21 como sendo os pais de Tutankhamon. Mas, como escrevi anteriormente, não sabemos a identidade de quem foi sepultado na KV-55, já que os nomes no caixão foram arrancados.

Então, de onde o Zahi Hawass tirou que ali trata-se de Akhenaton? Ele e sua equipe apontam que estes ossos só poderiam ser de Akhenaton por conta de uma inscrição encontrada em um pedaço de relevo na atual em El Ashmunein, antiga área de Hermópolis.

A inscrição fala de Tutankhamon, que é apontado como “o filho do corpo do rei”, relacionando-o, obviamente, a algum faraó, no entanto, não temos a parte do nome do rei. Porém, temos o resto da inscrição, só que desta vez está falando da esposa do Tutankhamon, Ankhesenamon, e é dito “a filha do rei, do seu corpo, seu grande desejo do rei das Duas Terras”. Desta forma, devido a ambos terem a paternidade mencionada no mesmo parágrafo, foi sugerido que fossem filhos do mesmo pai.

Tutankhamon e Ankhesenamon

No entanto, alguns pesquisadores defendem que a análise osteológica — o estudo dos ossos — do corpo encontrado na KV-55 aponta que esta pessoa teria falecido ainda quando era jovem.  Este poderia ser um indicativo de que os ossos da KV-55 não era Akhenaton, mas um outro rei que governou antes de Tutankhamon: Smenkhará.

Ou seja: para alguns a dúvida ainda paira no ar.