A Barca Solar do faraó Khufu foi transferida para o Grande Museu Egípcio: conheça todos os detalhes!

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

Para vocês que me seguem nas redes sociais, não é surpresa alguma que a Barca Solar do faraó Khufu tenha sido transferida da área arqueológica das pirâmides do platô de Gizé durante uma pequena, mas solene, passeata para o Grande Museu Egípcio (GME), a 8,5 km de distância. Essa notícia, ao contrário do que ocorreu durante o desfile das múmias reais, foi recebida com mais timidez pelos veículos de imprensa, mas isso não diminui a importância do feito, que teve a duração de 48 horas. Todo o processo de transferência teve início no dia 5 de agosto e só teve fim na manhã do dia 7. 

Khufu Boat Museum, Giza, Egypt.

A embarcação, que tem 43,6 metros de comprimento, 5,9 metros de largura e 45 toneladas, foi posta dentro de um enorme caminhão e saiu do seu local original, no Museu da Barca Solar, que fica ao lado da Grande Pirâmide e seguiu para o seu novo destino, chegando ao Grande Museu Egípcio nas primeiras horas da manhã. 

Mas, afinal, que barco é esse? Por que o Egito está dando tanta importância para ele?

A Barca Solar de Khufu é uma embarcação em madeira que possui mais de 4.600 anos, ou seja, é uma das mais antigas, se não a mais antiga do mundo. Ela foi encontrada desmontada dentro de um fosso escavado ao lado da Grande Pirâmide (sepultura de Khufu) em 1954. Não se sabe exatamente o motivo dessa embarcação (e uma “gêmea” dela, enterrada em um segundo fosso) ter sido sepultada ao lado da pirâmide. Alguns acadêmicos sugerem que ela fez parte de uma frota pessoal do faraó, outros acreditam que ela tem um valor simbólico. Isso porque os antigos egípcios acreditavam que o deus sol navegava pelo céu usando uma barca, fazendo assim a mudança do dia para a noite e vice-versa.

A descoberta e restauro:

A descoberta foi feita durante uma limpeza de rotina nos arredores da Grande Pirâmide. A princípio a equipe tinha pensado se tratar de algum muro que um dia cercou a sepultura, mas, após escavações coordenadas pelo arqueólogo Kamal El Mallakh, descobriram que na verdade estavam olhando para dois fossos. E essas estruturas continham, cada um, um amontoado de madeiras de cedro: eles tinham acabado de encontrar duas barcas pertencentes ao faraó Khufu (O’CONNOR et al., 2007).

Restauro do primeiro barco de Khufu (ano desconhecido). Disponível em < http://skunkincairo.blogspot.com/2007/05/solar-boats.html> acesso em 25 de Junho de 2011.

O passo seguinte foi pensar no trabalho de restauro e montagem, então o restaurador egípcio Hag Ahmed Youssef Moustafa foi o escolhido para a empreitada. E também foi decidido que somente uma das barcas (a Khufu I) seria retirada, enquanto a outra permaneceria em seu local original.

2ª Barca solar de Khufu será revelada

Quando os pesquisadores retiraram todos os pedaços da embarcação, tomaram uma surpresa: ela foi montada com 1224 peças de madeira, cordas de linho e esteiras de junco. Tudo material orgânico, o que tornaria sua conservação um desafio.

No final, sua montagem durou dezesseis anos.   

O polêmico museu e a transferência

Com a embarcação finalmente montada, ela foi posta em exposição em um museu construído exclusivamente para ela, sobre o fosso onde esteve por séculos (O’CONNOR et al., 2007). Entretanto, o Museu da Barca Solar foi alvo de críticas por anos, porque “estragou” a paisagem arqueológica da região, além de não possuir os equipamentos necessários para manter a segurança do grande artefato e sua manutenção. Sobre esse último era imperativa a sua retirada para um lugar devidamente climatizado e com a presença de laboratórios de restauro, já que a madeira da embarcação estava começando a se deteriorar, o que tornava urgente seu envio para o Grande Museu Egípcio. Após a aprovação do Comitê Permanente de Antiguidades do Egito Antigo e seguindo a Lei de Proteção às Antiguidades, a transferência do barco foi aprovada [1]. 

Os estudos e debates sobre como ocorreria a transferência se seguiram por cerca de um ano. Cogitou-se, a princípio, desmontar toda a embarcação e remontá-la no GME. Porém, essa ideia se mostrou arriscada. Depois de muita discussão foi visto que mover o barco inteiro era a única solução adequada. 

Depois veio a proposta de se usar um veículo especializado controlado remotamente que foi encomendado diretamente da Bélgica. Ele contém uma tecnologia que absorve vibrações e se adapta às mudanças no terreno [4]. Isso foi feito usando um transportador modular autopropelido (SPMT) e exigiu levar em consideração vários fatores locais, a exemplo da velocidade do vento durante a manobra da relíquia até a gaiola e da gaiola até o caminhão [3]. Ou seja, teve muita ciência envolvida, onde arqueólogos e engenheiros colaboraram entre si.

Foto: Besix-Orascom Construction

Mas, antes da ideia ser posta em prática, três simulações foram realizadas nos últimos meses, para garantir que tudo funcionasse [1] e uma empresa de engenharia, a Besix-Orascom Construction (responsável pela construção do Grande Museu Egípcio), foi contratada para organizar e realizar o transporte que foi feito em meio a rígidas medidas de segurança. 

A barca então foi envolvida como espumas científicas especiais e colocada dentro de uma gaiola de ferro, projetada exclusivamente para ela, para resguardá-la durante o transporte [1], amortecendo qualquer impacto que viesse a ocorrer durante o trajeto.  

Durante a transferência, ruas e pontes foram preparadas e fechadas para a passagem do caminhão que continha a carga preciosa [1][2]. O caminho não é longo, mas ele teve que ser feito lentamente, para proteger a frágil carga de danos. Assim, só a viagem de um museu para o outro durou dez horas, tendo início na sexta à noite e terminando na manhã do sábado [4].  

Foto: Besix-Orascom Construction

Já para colocar a embarcação dentro do novo museu foi uma nova jornada: um guindaste, normalmente utilizado para mover pontes, sobre esteiras de 800 toneladas levantou a gaiola a uma altura de 30 metros para que ela pudesse entrar no edifício pelo telhado e o barco ser instalado em seu novo lugar de exibição [3]. 

Foto: Besix-Orascom Construction

Essa embarcação estará em exibição ao lado de sua gêmea (que foi retirada de seu fosso em 2011), que já está no Grande Museu Egípcio. E tem mais novidades vindo por aí, já que o governo egípcio planeja realizar uma cerimônia de inauguração do barco no novo museu, mas uma data ainda não foi definida. 

Dica de leitura:

Pyramids of Ancient Egypt: https://amzn.to/3B7NAMz

Fontes:

[1] Khufu’s Boat to begin long journey to Grand Egyptian Museum. Disponível em < https://english.ahram.org.eg/NewsContent/1/64/418527/Egypt/Politics-/Khufus-Boat-to-begin-long-journey-to-Grand-Egyptia.aspx >. Acesso em 6 de agosto de 2021. 

[2] King Khufu’s boat to be transferred to GEM Today. Disponível em < https://lomazoma.com/breaking-news/8781553.html >. Acesso em 6 de agosto de 2021. 

In Photos: Egypt transports King Khufu’s first boat to Grand Egyptian Museum. Disponível em < https://english.ahram.org.eg/NewsContent/1/64/418538/Egypt/Politics-/In-Photos-Egypt-transports-King-Khufus-first-boat-.aspx >. Acesso em 7 de agosto de 2021. 

[3] Egyptian engineers harness bridge transport methods to move world’s oldest ship. Disponível em < https://www.newcivilengineer.com/latest/egyptian-engineers-harness-bridge-transport-methods-to-move-worlds-oldest-ship-12-08-2021/ >. Acesso em 12 de agosto de 2021. 

[4]Why King Khufu’s Solar Boat Is on the Move After 4,600 Years. Disponível em < https://www.smithsonianmag.com/smart-news/egypts-ancient-king-khufus-boat-moved-pyramids-giza-new-grand-egyptian-museum-180978413/ >. Acesso em 12 de agosto de 2021. 

BESIX-Orascom Construction: Successful Transport of the King Khufu Solar Boat to the Grand Egyptian Museum. Disponível em < https://press.besix.com/besix-orascom-construction-successful-transport-of-the-king-khufu-solar-boat-to-the-grand-egyptian-museum- >. Acesso em 25 de agosto de 2021. 

MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto (Tradução de Maria da Graça Crespo). Lisboa: Taschen, 1999.

O’CONNOR, D.; FORBES, D.; LEHNER, M. Grandes civilizações do passado: terra de faraós. Tradução de Francisco Manhães. 1ª Edição. Barcelona: Ed. Folio, 2007.

Quer ter camisetas e moletons com o tema Arqueologia e Egito Antigo?

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Recentemente o meu canal, o Arqueologia pelo Mundo, se uniu à Lolja e lançou sua primeira linha de camisetas e moletons, todos com temas de arqueologia, sendo três estampas trazendo elementos do Egito Antigo.

A linha foi lançada há alguns meses e quem ficou responsável pelas ilustrações foi a artista Márcia Sandrine, que não por acaso é a minha irmã. Ela gosta da estetica dos anos 80 e foi daí que retirou a inspiração, “Por que não eles no estilo dos anos 80? Como seria?”, ela me falou, meses depois, enquanto explicava sua visão. Depois disso a ideia veio de imediato com uma estampa sobre o faraó Tutankhamon e logo depois a de Nefertiti. Ela sabia exatamente o que queria alcançar, algo “meio um Daft Punk”, nas palavras dela.

Depois foi a vez da Grande Esfinge, a qual ela queria que rememorasse uma capa de um disco de vinil. Já a icônica frase da estampa? Bom, essa aí é uma outra história! Foi ideia de Chico Camargo, do ScienceVlogs, um amigo meu que em uma tarde, ao ver a estampa, soltou a pérola. E de fato, mais retrô que o Egito Antigo? Impossível!

A quarta estampa foi ideia minha, inspirada em uma seguidora que estava tentando me animar em um dia em que eu estava muito mal após receber ataques xenofobicos na internet. Ela me enviou uma mensagem onde dizia que a alqueologia é a minha bandeia. Isso me marcou, porque eu sentia que era exatamente assim que eu enxergava alguns seguidores do canal. Eu sinto que se temos uma bandeia em comum é essa. Então a estampa possui elementos relacionados com o próprio canal e minha própria carreira acadêmica (o crânio, por exemplo, é porque gosto muito de bioarqueologia). 

Essa linha não ficará por muito tempo disponível, infelizmente… Mas, em breve uma nova chegará. E enquanto isso não acontece, vocês podem conferir todas as cores e modelos disponíveis: https://www.lolja.com.br/creators/arqueologia-pelo-mundo

Hieróglifos: Curso online de Egípcio Clássico

O canal GT de História Antiga lançou de forma online as aulas do Curso de Egípcio Clássico Avançado, que foi lecionado pelo professor Ronaldo Gurgel Pereira e a professora Thais Rocha, ambos egiptologos. O curso foi promovido pelo GTHA-Anpuh e pela Universidade Federal de Santa Catarina. Assista na integra e de forma gratúita:

Dica de leitura: 

Gramática Fundamental de Egípcio Hieroglífico: https://amzn.to/3CBNX3F

Descobertas em Saqqara: o que sabemos sobre os 100 sarcófagos lacrados?

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Sob um sol escaldante no final do ano de 2020, mais especificamente em 14 de novembro, o Ministério de Turismo e Antiguidades do Egito reuniu um pomposo grupo de jornalistas para anunciar aquela que estava sendo definida como a “maior descoberta arqueológica” do ano: o descobrimento em Saqqara de mais de 100 sarcófagos em ótimo estado de conservação… E com o bônus de que ainda estavam lacrados. Essa história eu contei nesse vídeo do Arqueologia pelo Mundo:

Inclusive, durante a conferência de imprensa, a equipe separou uma das múmias encontradas para realizar um exame de raio-x ali mesmo, em frente a todos, para mostrar que na atualidade não existe a necessidade de se exumar (desenfaixar) múmias. Uma clara resposta aos boatos que rondaram a internet naquela época, de que os arqueólogos estavam “perturbando” os mortos. 

Porém, não foram dados muitos detalhes sobre essa descoberta, afinal, aquela conferência de imprensa tinha um outro intuito, que era o de anunciar um documentário que estava sendo produzido para o Smithsonian Channel. Ou seja, basicamente o que foi mostrado na conferência era literalmente um teaser do programa, com direito a um trailer do show rodando ao final da amostra, o que foi, de certa maneira, frustrante. 

Mas, isso meio que acabou explicando o porquê do uso insistente do termo “maior descoberta arqueológica de 2020”. O que pareceu é que isso foi uma tentativa de chamar atenção para o programa.

Não custa nada rememorar que falar que “essa” ou “aquela” descoberta arqueológica é a “maior”, “mais importante”, acaba, por vezes, dando um “valor” não raramente quantitativo para pesquisas de arqueologia (ou seja, quando mais antigo ou quanto mais coisas encontradas, melhor), o que não é legal. 

De qualquer forma, a espera chegou ao fim, já que recentemente saiu no Smithsonian Magazine um artigo dando detalhes do que foi encontrado. Além da estreia da série documental não só nos EUA, como aqui no Brasil, no canal Smithsonian Channel*. 

Confira os principais detalhes desta pesquisa. 

O local da descoberta:

O local onde foi feita a descoberta fica nas proximidades da pirâmide de Djoser, em Saqqara**, famosa não só por sua antiguidade – ela foi construída há mais de 4 mil anos -, mas por ter sido o primeiro edifício em pedra construído na África e possivelmente no restante do mundo, além de ser a primeira pirâmide do Egito. 

E foi não muito longe dela onde no final de 2020 o arqueólogo egípcio Mohammed Youssef adentrou em um poço funerário fechado há mais de 2.000 anos e lá se deparou com a imagem de um deus egípcio, o Ptah- Sokar-Osíris. Para quem não está habituado com os nomes de antigos deuses, Ptah-Sokar- Osíris pode soar como algo estranho, mas essa era uma divindade bastante respeitada durante a antiguidade egípcia. Ele surgiu  de um sincretismo entre os deuses Osíris, Sokar e Ptah e era associado com a criação e a morte.

Restaurador trabalha na estátua do deus Ptah-Sokar-Osiris. Foto: Roger Anis

Mas, esta estátua não estava sozinha lá no poço funerário, nos arredores estavam outras imagens de madeira e máscaras mortuárias douradas. Isso levou os arqueólogos da equipe a achar que tinham se deparado com uma tumba de uma família. Porém, estavam todos enganados. Eles, como perceberam mais tarde, estavam diante de um depósito de múmias: o que foi descoberto nesse poço funerário foram dezenas de ataúdes (o que aqui no Brasil chamamos de “sarcófago”), ainda com corpos dentro, empilhados uns sobre os outros, indo até o teto. Até o chão estava coberto por restos de linho de mumificação e ossos humanos! Outro detalhe curioso é que todos esses ataúdes de madeira estavam sobre quatro grandes sarcófagos de pedra.

Pesquisador analisa um dos ataúdes de madeira encontrados. Foto:Roger Anis
Centenas de ataúdes foram endontrados dentro de um poço funerário. Os arqueólogos ainda não sabem a extenção da descoberta. Foto: Roger Anis

Uma “megatumba”: 

Esse poço funerário, que hoje sabemos que trata-se de uma entrada para câmaras funerárias, recebeu o apelido de “megatumba”, um nome bem apropriado para esses tipos de sepultamentos numerosos que têm sido encontrados nos últimos meses em Saqqara. 

Contudo, esse sepultamento aqui se difere dos demais por conta de um enorme detalhe: o número de ataúdes. Não são 20 ou 50, mas dentro dessa megatumba foram contados mais de 100 caixões e é possível que existam mais.

No final do ano passado, quando ainda não possuíamos muitas informações sobre a descoberta, eu tinha especulado que os arqueólogos poderiam ter encontrado os ataúdes em locais separados (mas ainda estando na área do sítio arqueológico) e somado as descobertas para criar mais impacto na imprensa, mas eu estava enganada.

Após o descobrimento, um laboratório foi montado no local e retiraram o primeiro caixão visível, que estava selado com resina preta. Dentro dele estava um segundo caixão, que possuía uma máscara mortuária folheada a ouro e com os típicos olhos delineados. Já o corpo do caixão é de cor azul, verde e vermelho, com motivos florais e uma representação da deusa céu, Nut, que está com asas estendidas.

E o ataúde também possui hieróglifos, o que deu informações valiosas sobre a pessoa que ainda descansa em seu interior: Trata-se de uma mulher que viveu no início do Período Tardio, entre os séculos VI ou VII, chamada Ta-Gemi-En-Aset.

Seu nome, de acordo com Campbell Price, curador do acervo do Egito Antigo e Sudão do Museu de Manchester (Inglaterra), significa “Aquela que foi encontrada por Ísis”.

Ainda, de acordo com as inscrições, sua mãe era uma cantora e acredita-se que, devido a presença da imagem de um sistro e um chocalho usado em templos, a Ta-Gemi-En-Aset pode ter pertencido a um culto à deusa Ísis.

Outra história do passado também foi revelada por um outro caixão, que dessa vez pertence a um homem. Ele também possuía uma máscara mortuária folheada a ouro, só que aqui o falecido é retratado com uma espessa barba. Seu nome era Psamético, uma possível homenagem aos faraós de nome “Psamético” que reinaram naquele período. 

A princípio se achou que Psamético e Ta-Gemi-En-Aset eram parentes, já que os nomes dos seus pais eram iguais (se chamando Hórus), mas as mães tinham nomes diferentes. É possível que fossem meio-irmãos? Sim, mas quando a equipe de arqueologia pesquisou mais a fundo observou que talvez não fosse esse o caso.

A questão é que o poço funerário levava a uma segunda caverna também cheia de caixões de diferentes tamanhos e estilos, além de entulhos de antigos desmoronamentos. 

Ou seja, essa não era uma tumba familiar, mas um tipo de sepultamento coletivo, algo que não era incomum no Egito Antigo, porém a diferença aqui é que temos uma centena de corpos, algo que não tinha sido visto até então. 

Vários restos humanos esqueletizados foram encontrados no local. Foto: Roger Anis

Mas, porque essas megatumbas existem? E por que estão sendo encontradas justamente em Saqqara?

Durante o Reino Antigo, as elites prezavam por enterros mais privativos, mas, no Período Tardio, 2.000 anos depois, a elite não viu problemas em sepulturas coletivas e lotadas. Isso se deu possivelmente por conta de mudanças políticas ocorridas em meados de 1000 a.E.C, quando o governo dos reis enfrentavam instabilidades durante o que chamamos de Terceiro Período Intermediário. Porém, quando Psamético I assumiu o trono e estabeleceu a ordem, a prática dos sepultamentos coletivos permaneceu. A essa altura não era mais uma necessidade econômica, era algo cultural. 

Por outro lado, isso criou um “negócio dos mortos”, toda uma lucrativa operação comercial, resultando em um mercado de enterros onde a hierarquia estava definindo quão próximo das pirâmides de Saqqara o indivíduo teria direito de estar por toda a eternidade. Já os mais pobres eram relegados à solidão do deserto, enterrados diretamente na areia. Entretanto, aqueles que estavam no meio termo, entre a elite e os desafortunados, tinham como opção os poços funerários compartilhados. Esta era a possibilidade para quem tinha recursos, mas não o bastante para um sepultamento privado próximo de alguma pirâmide.

Por outro lado, isso era algo muito vantajoso para os agentes funerários da época, os sacerdotes encarregados dos enterros, já que não precisavam cavar mais e mais poços funerários, colocando neles o máximo de caixões que pudessem, podendo sempre amontoar os falecidos uns sobre os outros.

Olhando sob a terra:

Atualmente os arqueólogos têm utilizado na área técnicas de geofísica, sonares de varredura lateral, para ver se é possível localizar mais sepulturas sob o solo. Mas, o que foi encontrado superou as expectativas: o arqueólogo Campbell Price identificou restos de vários templos ao longo da rota processional para o Serapeum (necrópole animal dedicada ao Boi Ápis) de Saqqara. Porém, essa técnica ainda não possibilita ler nomes em artefatos ou paredes enterradas, por isso que escavações arqueológicas têm sido realizadas. Até porque os pesquisadores querem entender o lado “social”dos antigos enterros: quem eram aquelas pessoas? Por que foram enterradas lá? Quais suas crenças? Que tipo de gente trabalhava nos templos? Qual era a dinâmica social?

São muitas as perguntas, mas, ao menos uma coisa os pesquisadores já sabem: que esses cemitérios não eram lugares silenciosos e sinistros, mas centros econômicos vibrantes, onde o caminho para a eternidade estava disponível, ao menos dependendo do quanto você pudesse pagar.

Fonte:

Inside the tombs of Saqqara. Disponível em < https://www.smithsonianmag.com/history/inside-tombs-saqqara-180977932/https://www.smithsonianmag.com/history/inside-tombs-saqqara-180977932/ >. Acesso em 16 de julho de 2021. 

Dicas de leitura:

“Arqueologia”, de Pedro Paulo Funari: https://amzn.to/3yoAE3N

“História do Egito Antigo”, de Nicolas Grimal: https://amzn.to/3frWcW1

“Egito Antigo”, de Sophie Desplancques: https://amzn.to/2Vq8yXm 

*Todos os detalhes dessa descoberta foram mostradas no documentário “Tomb Hunters”, uma série com quatro capítulos do Smithsonian Channel.

** Foi em Saqqara onde em 2018 a tumba de um sacerdote egípcio chamado Wahtye foi descoberta. Ele, inclusive, virou “figura principal” do documentário “Os Segredos de Saqqara” da Netflix (2020).

Documentário sobre faraó Tutankharmon será narrado por Iggy Pop

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Saiu essa semana a notícia de que a estrela do rock Igg Pop emprestará sua voz para narrar um documentário sobre o Tutankhamon. De acordo com o portal Variety, o programa se chamará “Tutankhamun: The Last Exhibition” e nos mostrará um pouco da história da descoberta da tumba desse rei, ocorrida em 1922. Também iremos acompanhar os bastidores da exposição, ocorrida em Los Angeles (EUA) em 2019, que teve como tema principal esse faraó. Ela contou com mais de 150 artefatos provenientes da sua tumba, o maior número já exibido fora do Egito. Essa exposição deveria estar em turnê até 2023, mas os planos precisaram ser cancelados devido a pandemia da COVID-19. A produção do documentário também foi impactada: originalmente ele deveria ser lançado em 2020.

O documentário foi produzido na Itália pelo proeminente fotógrafo de antiguidades Sandro Vannini. Na versão italiana o filme será narrado pelo músico Manuel Agnelli e para a versão internacional optaram pelo Iggy Pop. “Estávamos procurando alguém que pudesse dar um apelo diferente à narração do filme. E pensamos em [Pop] e ele aceitou”, disse Rosella Gioffre da Nexus Digital, produtora parceira do documentário. “Quando ouvimos sua voz pela primeira vez dissemos que era a voz”, falou Vanini em entrevista,” Essa é a voz que precisamos para esse filme. A voz de Igg é simplesmente incrível. Quando ele leu a história que iria narrar, ele imediatamente desejou trabalhar conosco”. 

Com o atraso da produção, a nova data de estreia passou para o ano de 2022, quando, a propósito, será comemorado o centenário da descoberta da tumba de Tutankhamon, encontrada no Vale dos Reis.

Fonte: 

Tutankhamun’s documentary ‘The Last Exhibition’ to be narrated by Iggy Pop. Disponível em < https://www.aninews.in/news/entertainment/music/tutankhamuns-documentary-the-last-exhibition-to-be-narrated-by-iggy-pop20210711111558/ >. Acesso em 12 julho de 2021. 

A inauguração do Grande Museu Egípcio será tão impressionante quanto o Desfile das Múmias Reais, diz ministro

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

O ministro de turismo e antiguidades do Egito, Khaled el-Anani, recentemente deu detalhes do que espera-se para a cerimônia de inauguração oficial do Grande Museu Egípcio. Primeiramente ele salientou que a data da inauguração será definida de acordo com a situação geral da pandemia, ou seja, de uma perspectiva mundial. Eles querem que o evento seja adequado para todos, não somente para os egípcios.

Será neste museu onde os artefatos da tumba de Tutankhamon ficarão juntos pela primeira vez desde sua descoberta em 1922. Tratam-se de mais de 5.000 artefatos de cunho militar, doméstico e ritual. A múmia do rei, entretanto, permanecerá no Vale dos Reis, como explica o arqueólogo Zahi Hawass nesse vídeo:

O Grande Museu foi construído nas proximidades de Gizé, onde estão a Grande Pirâmide e a Grande Esfinge. Sua inauguração foi cancelada várias vezes, mas, agora com 98% do edifício pronto, especialistas do mundo inteiro e curiosos estão ansiosos com sua abertura oficial.

A arqueologia egípcia e a COVID-19:

Dada a crise causada pela pandemia, o Egito, a priori, cancelou todas as atividades turísticas no país e depois a liberou, mas com uma série de restrições. Porém, o governo não parou de anunciar descobertas arqueológicas (o que criou algumas polêmicas, como no caso da descoberta dos 59 sarcófagos). O ministro admite que essa ampla divulgação de descobertas tem como objetivo deixar o Egito vivo na cabeça das pessoas, para mantê-las com vontade de conhecer o país após o fim da pandemia.

Fonte:

Grand Egyptian Museum opening to be as impressive as Royal Mummies Parade: El-Anani. disponível em < https://dailynewsegypt.com/2021/05/16/grand-egyptian-museum-opening-to-be-as-impressive-as-royal-mummies-parade-el-anani/ >. Acesso em 17 de maio de 2021.

Conheça detalhes da descoberta da tumba de Tutankhamon em evento online

Você já ouviu falar da fabulosa descoberta da tumba do faraó Tutankhamon? Ela ocorreu há quase 100 anos, no dia 4 de novembro de 1922. Realizada pelo arqueólogo inglês Howard Carter, seu descobrimento é importante devido a uma série de motivos: um deles é que por ter sido uma tumba encontrada praticamente intacta ela permitiu que pudéssemos conhecer alguns artefatos provenientes do Egito Antigo. Artefatos esses que antes ou eram conhecidos somente devido a ilustrações que enfeitavam paredes de tumbas ou que nem sequer se sabia de sua existência.

O outro ponto que torna essa descoberta tão importante é que ela foi tão amplamente registrada pela equipe que trabalhou nela que podemos refazer muitos dos passos desses pesquisadores. Dentre esses registros estava o fotográfico.

Quer saber um pouco sobre tudo isso? Então vem comigo, porque além de conhecer sobre a história da descoberta da tumba de Tutankhamon, você entenderá as aplicações de fotografias em trabalhos de arqueologia.

E de quebra comprando a entrada para essa palestra, você ajudará a patrocinar o vídeo do Arqueologia pelo Mundo sobre a descoberta da sepultura desse faraó. Caso queira comprar seu ingresso, clique no “+” (para definir o número de ingressos) e depois no botão verde “COMPRAR INGRESSOS:

Formas de pagamento:

Como assistir essa palestra?

A palestra será veiculada exclusivamente de forma online através da plataforma Zoom (por isso já baixe o programa — que é gratuito — com antecedência). O Sympla enviará um e-mail onde estarão detalhes de como acessar a sala. Você poderá assistir ao evento pelo computador, smatphone ou tablet.
Caso você não possa estar presente no momento da palestra, não se preocupe, ela será gravada e disponibilizada para todos os inscritos, assim, você poderá assisti-la depois com calma.

Não se preocupem! O Sympla disponibiliza certificados! Notem que só receberá o certificado quem fizer o check-in na hora do evento. Veja algumas das fotografias da época:

O livro “Coffin Commerce” está gratuito para baixar

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

A versão digital do livro “Coffin Commerce: How a Funerary Materiality Formed Ancient Egypt” da egiptóloga Kara Cooney está gratuito para baixar até o dia 2 de Junho. Publicado pela Cambridge Elements, o livro discute aspectos funerários do Egito Antigo, especificamente sobre os ataúdes (que aqui no Brasil se popularizou chamar de “sarcófagos”), apontando questões econômicas em relação à morte no Egito Antigo.

Kara Cooney

O link para baixar: https://www.cambridge.org/core/elements/coffin-commerce/6FA3A77D23B6EAA404A635232133D0B9

Infelizmente muitos dos melhores livros de egiptologia estão em língua estrangeira, contudo, possuímos alguns exemplos raros de bons livros traduzidos. Aqui no Arqueologia Egípcia temos uma lista com dicas. Clique aqui e confira.

Arqueologia pelo Mundo: moletons e camisetas com tema “Egito Antigo”

Há algumas semanas foi lançada a linha de camisetas do canal Arqueologia pelo Mundo. Dentre as estampas três remetem à Antiguidade Egípcia, porém, com um toque aesthetic e anos 80. As ilustrações são da Márcia Sandrine e remetem justamente ao saudosismo e nostalgia em relação ao passado, seja ele de uns 30 anos atrás ou de 3.000 anos atrás.


E aproveitando o sucesso da campanha passada a Lolja, site parceiro do Arqueologia pelo Mundo, voltou com a promoção “compre 1 moletom, leve 1 camiseta” onde no ato da compra de um moletom você pode aplicar o cupom UMACAMISETA e você receberá uma camiseta de sua escolha de forma totalmente gratuita.

Conheça a coleção: https://www.lolja.com.br/creators/arqueologia-pelo-mundo/

  • Note que nem todas as marcas estão participando dessa promoção;
  • A promoção não é cumulativa;
  • O cupom é válido até somente o dia 23/05 (domingo), então aproveite.

O Egito está planejando outro desfile real: agora com a máscara de Tutankhamon

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

Depois do sucesso estrondoso que foi o desfile das múmias reais, ocorrido no último dia 3 de abril de 2021, o Egito planeja repetir a dose, dessa vez com a máscara de ouro de Tutankhamon. Esse anúncio foi realizado durante um simpósio intitulado “Royal Mummies” ocorrido no dia seguinte à parada.

Tutankhamon é um faraó cuja tumba foi encontrada praticamente intacta em 1922 no Vale dos Reis, famosa necrópole onde foram sepultados alguns dos faraós do Novo Império e membros da alta realeza.

A proposta do evento é tanto transferir a máscara mortuária do rei, como um dos sarcófagos dele (não foi esclarecido qual dos três) para o Grande Museu Egípcio. Na verdade a ideia é que a transferência ocorra dias antes da inauguração desse museu, cuja data ainda não foi definida.

Ao longo dos últimos meses artefatos pertencentes a Tutankhamon foram transferidos para o Grande Museu Egípcio, o que proporcionou algumas descobertas inusitadas. Uma delas foi a de uma caixa encontrada no Museu de Luxor, onde em seu interior estavam peças de artefatos encontrados na tumba do rei, mas que tinham sido dados como desaparecidos em 1973.

Espera-se que o evento da transferência da máscara equipara-se, ou até seja maior do que o das múmias, cujo desfile teve boa recepção mundial e ampla cobertura da mídia.

Existe certa possibilidade de que a transferência seja realizada em alguma data em 2022, justamente para entrar nas comemorações do centenário da descoberta da sepultura. Contudo, não existe nenhuma confirmação disso.

Para saber mais:

Palestra “Tutankhamon: Entendendo a descoberta de sua tumba através de fotografias históricas da época”

Você já ouviu falar da fabulosa descoberta da tumba do faraó Tutankhamon? Ela ocorreu há quase 100 anos, no dia 4 de novembro de 1922. Realizada pelo arqueólogo inglês Howard Carter, seu descobrimento é importante devido a uma série de motivos: um deles é que por ter sido uma tumba encontrada praticamente intacta ela permitiu que pudéssemos conhecer alguns artefatos provenientes do Egito Antigo. Artefatos esses que antes ou eram conhecidos somente devido a ilustrações que enfeitavam paredes de tumbas ou que nem sequer se sabia de sua existência.

Fonte:

Egypt plans another royal parade, this time for King Tut’s gold mask. Disponível em < https://www.al-monitor.com/originals/2021/04/egypt-plans-another-royal-parade-time-king-tuts-gold-mask >. Acesso em 2 de maio de 2021.