Antigas fotografias dos templos de Ramsés II e Nefertari em Abu Simbel

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Dois dos maiores templos do Egito, aqueles pertencentes aos famosos Ramsés II e Nefertari, governantes da 19ª Dinastia, estão localizados em Abu Simbel. Mas não é somente a sua magnitude que chama a atenção, mas o fato que entre as décadas de 1960 e 1970 eles foram movidos de seu lugar original para o espaço que se encontram hoje.

— Alinhamento solar no templo de Abu Simbel: 22 de fevereiro e 22 de outubro

Para tal, uma missão milionária movimentou vários países e os templos foram cortados em 1030 pedaços e remontados de tal forma que lembrassem a sua disposição original. Inclusive com a iluminação do seu interior duas vezes no ano pelos raios solares: 22 de fevereiro e 22 de outubro; no nosso canal possuímos um vídeo sobre o assunto:

Mas, que tal conhecer os templos de Abu Simbel antes desta transposição? Abaixo estão algumas fotografias antigas deles:

Templo de Ramsés II antes de 1923

Templo de Ramsés II antes de 1923

Foto do Templo de Ramsés II tirada por William Henry Goodyear antes de 1923

Templo de Nefertari antes de 1923

Interior do Templo de Ramsés II antes de ser limpo. Note a areia cobrindo os pés das estátuas

Foto do templo de Ramsés II tirada por John Beasley Greene em 1854

Foto do templo de Ramsés II tirada por John Beasley Greene em 1854

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As 9 melhores descobertas arqueológicas de 2017 sobre o Egito Antigo

Por Márcia Jamille | Instagram @MJamille

Caso você tenha caído de paraquedas aqui neste post ou simplesmente não tem o habito de ler sites ou blogs: o Arqueologia Egípcia é um site dedicado a trazer textos, vídeos, fotos e notícias sobre as pesquisas relacionadas com o Egito Antigo. Aqui até existe uma aba especial dedicada às novidades. É lá onde se encontram as notícias sobre descobertas arqueológicas associadas com a história egípcia e foi de onde tirei as 9 pesquisas que foram tidas como as mais interessantes, chamativas e legais de 2017.

Contudo, antes de dar início a lista, devo explicar que usei o termo “melhores” no título para resumir as mais magnificas do ponto de vista não só dos acadêmicos, mas do público. Sou da turminha da Arqueologia que considera toda e qualquer descoberta arqueológica passível de ser interessante para o entendimento do passado. Abaixo, as descobertas selecionadas:

 

1: Descoberta de imagens de embarcações:

Uma equipe de arqueólogos encontrou, gravadas na parede de um fosso em Abidos, gravuras representando uma frota egípcia. No local, que fica próximo ao túmulo do faraó Sesostris III (Médio Império; 12ª Dinastia) foram contados nos desenhos 120 navios, desenhados sobre uma superfície de gesso. Alguns são bem detalhados, contendo informações como remos e timões.

Foto: Josef Wegner

Neste caso não se sabe quem fez estas gravuras, mas ao menos duas teorias foram levantadas: a de que foram feitas pelos próprios trabalhadores que construíram o fosso ou que tenha sido a ação de vândalos. É né… Vai que.

 

2: Sepulturas de crianças egípcias revelam desnutrição generalizada:

Esta provavelmente é uma das descobertas mais chocantes. Uma arqueóloga da Universidade de Manchester, em sociedade com a Missão Arqueológica Polaco-Egípcia, fez uma série de descobertas perturbadoras em Saqqara: eles encontraram corpos de crianças que parecem ter sofrido grave anemia, cáries dentárias e sinusite crônica.

Foto: Iwona Kozieradzka-Ogunmakin

Através dos seus estudos, a arqueóloga foi capaz de estabelecer que a criança mais jovem encontrada no cemitério tinha algumas semanas de idade e as mais velhas 12 anos, mas a maioria tinha entre três e cinco anos.

 

3: Fragmentos de uma estátua colossal:

Esta foi um hype! A historinha é a seguinte: Uma missão egípcia-alemã, que está trabalhando em El-Mataria (Cairo), antiga Heliópolis, desenterrou partes de duas estátuas colossais da época ramséssida, no sítio arqueológico de Suq el-Khamis. A princípio acreditou-se que se trataria de Ramsés II, da 19ª dinastia, Novo Império, mas não passou muito tempo até que descobrissem que na verdade era Psamético I, que reinou como rei do Egito durante a 26ª Dinastia, Baixa Época.

Foto: Reuters.

4: Descoberta de tumba de princesa egípcia:

A tumba de uma princesa egípcia foi identificada na pirâmide de Ameny Qemau (13ª Dinastia), na necrópole de Dashur. Nas escavações que revelaram a câmara funerária da princesa foram identificados um sarcófago mal preservado, bandagens e uma caixa de madeira contendo vasos canópicos. Inscrições na caixa indicam que os objetos pertenceram a ela, que por sua vez era uma das filhas do próprio Ameny Qemau.

Foto: MSA

Esta foi uma descoberta que não revelou para a imprensa tantos achados assim, somente informações básicas. Mas o público do site amou muito e compartilhou a notícia extensamente. Então ela está aqui marcando presença.

 

5: Descoberta de faraó pouco conhecido:

Na verdade, esta foi uma descoberta dupla em que a princípio tinha sido encontrada uma pirâmide datada do Segundo Período Intermediário, em Dashur e somente depois foi apontado que ela pertencia a um faraó praticamente desconhecido chamado Ameny Qemau.

Foto: Ministério das Antiguidades do Egito.

Porém, esta história não acaba por aqui: uma outra pirâmide pertencente a esse mesmo governante foi descoberta em 1957, também em Dashur.

 

6: Os mais antigos hieróglifos egípcios:

Uma expedição conjunta entre a Universidade de Yale e o Museu Real de Belas Artes de Bruxelas, que está estudando a antiga cidade egípcia de El kab, descobriu inscrições hieroglíficas com cerca de 5200 anos. São as mais antigas conhecidas.

Foto: MSA.

Os arqueólogos também identificaram um painel de quatro sinais, criados por volta de 3250 aEC e escritos da direita para esquerda — é assim que usualmente os hieróglifos egípcios eram lidos — retratando imagens de animais tais como cabeças de touros em um pequeno poste, seguido por duas cegonhas com alguns íbis acima e entre eles.

 

7: Cabeça de faraó encontrada em Israel:

Uma cabeça de uma estátua retratando um faraó tem intrigado alguns pesquisadores. Isso porque ela foi encontrada em 1995 em Israel na área da antiga cidade de Hazor. Outrora fragmentada ela retrata uma típica imagem de um faraó contendo, inclusive, a serpente ureus, que é uma das insígnias reais egípcias, ou seja, um dos símbolos que demonstram realeza.

Divulgação/Gaby Laron/Hebrew University/Selz Foundation Hazor Excavations.

Em outros anos outras estátuas egípcias também foram encontradas em Hazor e todas fragmentadas no que os pesquisadores concluíram como uma destruição deliberada.

 

8: O maior fragmento de obelisco datado do Antigo Reino:

Uma missão arqueológica — encabeçada por franceses e suíços — que atua em Saqqara encontrou a parte superior de um obelisco datado do Antigo Reino, pertencente à rainha Ankhnespepy II, mãe do rei Pepi II (6ª Dinastia).

Foto: MSA

Ankhnespepy II foi uma das rainhas mais importantes da sua dinastia. Ela foi casada com Pepi I e quando ele morreu casou-se com Merenre, o filho que o seu falecido esposo tinha tido com sua irmã Ankhnespepy I.

 

9: Descoberta da localização de um templo de Ramsés II

A missão arqueológica egípcio-checa descobriu restos do templo do faraó Ramsés II (Novo Império; 19ª Dinastia) durante os trabalhos de escavações realizados em Abusir.

Foto: MSA

A missão já tinha encontrado em 2012 evidências arqueológicas de que existia um templo nesta área, fato que encorajou os pesquisadores a escavar nesta região ao longo dos últimos quatro anos.

 

Deliberadamente deixei a descoberta do “espaço vazio” da Grande Pirâmide de fora pelos motivos citados no vídeo “Espaço vazio dentro da Grande Pirâmide do Egito: Entenda!”:

Agora é a vez de vocês! Qual é a sua descoberta arqueológica do ano de 2017 favorita?

Arqueólogos descobrem localização de templo de Ramsés II em Abusir

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

A missão arqueológica egípcio-checa descobriu restos do templo do faraó Ramsés II (Novo Império; 19ª Dinastia) durante os trabalhos de escavações realizados em Abusir. A descoberta foi anunciada pelo Dr. Mostafa Waziry, Secretário Geral do Conselho Supremo de Antiguidades.

Foto: MSA

Dr. Waziry explicou que a missão já tinha encontrado em 2012 evidências arqueológicas de que existia um templo nesta área, fato que encorajou os pesquisadores a escavar nesta região ao longo dos últimos quatro anos.

Foto: MSA

O Dr. Mohammed Megahed, diretor-adjunto da missão, disse que o templo tem 32×51 metros de largura e consiste em fundações de tijolos de barro que compõem uma de suas torres e um grande pátio que leva ao pilar cujas algumas partes de seus corredores são pintadas em azul. E na extremidade traseira do pátio, foi encontrada uma escada ou uma rampa para um santuário em que o espaço final é dividido em três câmaras paralelas. Os restos deste edifício foram cobertos por enormes depósitos de areia e cascalhos de pedras que podem conter fragmentos de relevos policromados.

Foto: MSA

O Dr. Miroslav Barta, o chefe da missão checa, explicou que os diferentes títulos do rei Ramsés II foram encontrados gravados em fragmentos de relevos que estão ligados ao culto a deidades solares, a exemplo de Rá. Vale salientar que a adoração do deus do sol “Ra” na região de Abusir começou durante a 5ª dinastia e continuou até o Novo Império. Barta ainda complementa que este templo é a única evidência de Ramsés II na necrópole de Memphis, o que o caracteriza como uma descoberta importante.

 

Fonte:

Czech archaeologists discover Ramses II temple remains south of Cairo. Disponível em < http://luxortimesmagazine.blogspot.com.br/2017/10/czech-archaeologists-discover-ramses-ii.html >. Acesso em 15 de outubro de 2017.

 

Um dos colossos de Ramsés II em Karnak está sendo restaurado

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

O Ministério das Antiguidades do Egito permitiu trabalhos de restauro integral em uma estátua colossal do faraó Ramsés II, que governou o Egito durante a 19ª Dinastia (Novo Império). A imagem, que é feita em granito e possui 10,8 metros de altura, no passado ficava na fachada do primeiro pilone de Karnak, um dos mais famosos complexos de templos do país, juntamente com mais cinco esculturas do rei. Ela sofreu grandes danos após um terremoto que ocorreu em algum momento durante o quarto século após a Era Cristã.

Coroa e parte da cabeça da estátua. Foto: Abdel Razek Ali.

Mostafa Waziri, chefe do Departamento do Ministério de Antiguidades em Luxor, comunicou ao Ahram Online que os trabalhos tiveram início há mais de um mês, e que a previsão é que sejam finalizados em dois meses.

Pedaços da imagem. Foto: Abdel Razek Ali.

A estátua está sendo montada em seu lugar original e certamente será uma bela vista para os turistas que visitarem o templo.

Parte do corpo da estátua. Foto: Abdel Razek Ali.

Fonte:

Egypt’s antiquities ministry restores colossus of Ramsess II at Karnak Temples. Disponível em < http://english.ahram.org.eg/NewsContent/9/40/258581/Heritage/Ancient-Egypt/Egypts-antiquities-ministry-restores-colossus-of-R.aspx >. Acesso em 03 de março de 2017.

A múmia da Rainha Nefertari foi mesmo encontrada?

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

A rainha Nefertari (Novo Império; 19ª Dinastia) foi uma das esposas do faraó Ramsés II. Ficou famosa graças ao templo dedicado a ela em Abu Simbel e a sua tumba, uma das mais ricamente decoradas do Egito.

Saiba mais: Lindas imagens dos templos de Ramsés II em Abu Simbel

Nefertari

Rainha Nefertari

Descoberta no Vale das Rainhas por Ernesto Schiaparelli em 1904, a QV-66, sua sepultura, foi saqueada ainda na antiguidade. Contudo, foi possível encontrar no lugar alguns objetos quebrados, inclusive um par de pernas mumificadas, que foram levadas para o Museu Egípcio de Turim. Por estarem no sepulcro da governante, foi subentendido que pertenciam a própria rainha (HABICHT, 2016).

Leia também: A restauração na tumba de Nefertari

Quem foi Nefertari?

Existe muita especulação acerca da sua origem, mas é certo que ela se casou com Ramsés II antes da coroação do mesmo. Possivelmente foi mãe de quatro meninas e quatro meninos. Participou da inauguração dos trabalhos em Abu Simbel no 24º ano de reinado de Ramsés II e provavelmente faleceu no mesmo ano ou no seguinte (O’CONNOR et al, 2007; HABICHT et al, 2016).

Nefertari 4

Templo de Nefertari em Abu Simbel

Dentre os seus títulos estavam os “Esposa do Deus”, “Mãe do Deus”, “Dama Adorável”, “Digna de Louvor”, “Bela de Rosto” e “Doce Amor”. E entre os seus deveres estavam os de cumprir papeis relacionados com a política e a religião (O’CONNOR et al, 2007).

A análise dos restos humanos

Esse ano, 2016, um grupo de pesquisadores (Michael E. Habicht, Raffaella Bianucci, Stephen A. Buckley, Joann Fletcher, Abigail S. Bouwman, Lena M. Öhrström, Roger Seiler, Francesco M. Galassi, Irka Hajdas, Eleni Vassilika, Thomas Böni, Maciej Henneberg, Frank J. Rühli) publicou um artigo na Plos One onde apresentaram os resultados de uma pesquisa realizada com as pernas encontradas na QV-66, com a finalidade de tentar descobrir se, de fato, elas são remanescentes da governante. Os restos foram radiografados, medidos e passaram por uma datação em Carbono 14 (HABICHT et al, 2016).

As pernas mumificadas. Foto: Museo Egizio Turin.

Atualmente em exposição no Museu Egípcio de Turim, as pernas foram catalogadas com o tombo Suppl. 5154 RCGE 14467 e consiste em três partes (HABICHT et al, 2016):

  • Uma parte do fêmur, patela e parte da tíbia;
  • Parte de uma tíbia;
  • Pequena parte de um fêmur.

Foi constatado que os restos pertencem a um adulto do sexo feminino e que, inclusive, fez poucos esforços em vida. Por conta das condições clínicas dos ossos a equipe considerou que essa pessoa possuía entre 40 e 60 anos de idade no momento da sua morte. E através da reconstrução antropométrica foi considerado que possuía de 1,65 a 1,68 cm de altura (HABICHT et al, 2016).

Em relação ao exame de DNA, não foi possível tirar amostras viáveis e a datação por Carbono 14 foi inconclusiva (HABICHT et al, 2016).

Afinal, a quem pertenceu essas pernas?

Ao contrário do que alguns sites estão veiculando, na conclusão do artigo a equipe deixa claro que não existe certeza absoluta de que essas pernas pertenceram a Rainha Nefertari, embora os pesquisadores participantes considerem ser ela o cenário mais provável. Ou seja, o caso ainda está em aberto.

Referências bibliográficas:

HABICHT, Michael E.; BIANUCCI, Raffaella; BUCKLEY, Stephen A.; FLETCHER, Joann; BOUWMAN, Abigail S.; ÖHRSTRÖM, Lena M.; SEILER, Roger; GALASSI, Francesco M.; HAJDAS, Irka; VASSILIKA, Eleni; BÖNI, Thomas; HENNEBERG, Maciej; RÜHLI, Frank J. Queen Nefertari, the Royal Spouse of Pharaoh Ramses II: A Multidisciplinary Investigation of the Mummified Remains Found in Her Tomb (QV66) Published: November 30, 2016 http://dx.doi.org/10.1371/journal.pone.0166571

O’CONNOR, David; FREED, Rita; KITCHEN, Kenneth (b). Ramsés II (Tradução de Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Fólio, 2007.

RICE, Michael. Who’s Who in Ancient Egypt. Londres: Routledg. 1999

Lindas imagens dos templos de Ramsés II em Abu Simbel

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

É em Abu Simbel onde encontram-se dois dos mais magníficos templos egípcios advindos da época do Novo Império, período considerado por alguns pesquisadores como a “era de ouro” da antiguidade egípcia. Datados da 19ª Dinastia, ambos foram erguidos a mando do faraó Ramsés II e é votivo a ele mesmo, sua esposa Nefertari e aos deuses Amon, Ptah, Hathor e Ra-Harakhte.

Este complexo foi construído na fronteira do Egito com o Sudão (no passado a Núbia). Um dos edifícios, o maior de todos, é composto por grandes estátuas esculpidas na rocha representando o faraó e em seu interior há um corredor que leva até a imagem do rei, que está acompanhada pelas estátuas dos deuses Ptah, Amon e Ra-Harakhte. Um detalhe interessante acerca desse templo é que duas vezes no ano o Sol ilumina a imagem de Amon, Ra-Harakhte e Ramsés. O próximo alinhamento irá ocorrer amanhã, dia 22 de outubro. Há alguns meses gravei um vídeo falando sobre esse evento. Você pode conferi-lo abaixo:

— Aproveite e leia também: Alinhamento solar no templo de Abu Simbel: 22 de fevereiro e 22 de outubro

Eles realmente são templos incríveis, por isso resolvi selecionar algumas fotografias para mostrá-las a vocês:

Abu Simbel

Abu Simbel - Great Temple

Abu Simbel - Small Temple

Sun Temple, Abu Simbel

Abu Simbel temples

Large hall of Abu Simbel

Statue of gods in Abu Simbel

Temple of Hathor

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Novas descobertas arqueológicas no Cairo apontam para um templo de Ramsés II

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Uma equipe de Arqueologia composta por pesquisadores egípcios e alemães encontrou em um sítio arqueológico em Matariya (vide mapa), no Cairo, novos [1] dados que sugerem a existência de um templo pertencente ao faraó Ramsés II, que reinou durante a 19º Dinastia (Novo Império) [2].

O Dr. Mahmud Afifi, coordenador do setor de antiguidades egípcias do Ministério das Antiguidades do país, apontou que essas evidências foram descobertas por acidente cerca de 450 metros a oeste do Obelisco de Senusret I, o maior monumento preservado da antiga cidade Iunu (chamada entre os gregos de “Heliópolis”) [2].

Foto: Wikimedia Commons (user:Neithsabes).

Mais artefatos relacionados ao rei ramsessida foram descobertos a norte desta área e neles ele é identificado como Paramessu, que, a título de curiosidade, foi o antigo nome do seu avô, Ramsés I.

Nomes de Ramsés II. Foto: MSA.

O pesquisador alemão Dietrich Raue, o co-diretor do projeto, explicou que eles também estão escavando e analisando casas e oficinas do Período Ptolomaico (332 a.C.- 30 d. E. C.), época em que os gregos passaram a viver no Egito. Nesta mesma área se encontra o Templo Solar de Heliópolis, dedicado ao deus Rá, uma das maiores divindades do país na época. Infelizmente, muitos dos seus blocos e obeliscos foram saqueados durante o Período Romano e nas dinastias muçulmanas e utilizados para construir edifícios na antiga Roma, Alexandria e Cairo [3].

Imagem encontrada no sítio. Foto: MSA.

Iunu: a cidade sagrada

Conhecida entre dos gregos como Heliopolis (Helios “Sol” + Polis “Cidade”) e chamada na Bíblia de On, a cidade de Iunu possuía templos de destaque dedicados ao deus Rá, Rá-Aton/ Rá-Harakhty. Ela foi considerada um dos locais mais notáveis do ponto de vista religioso, sendo destacada por sua importância na organização da história religiosa e política do país (BAINES; MALEK, 2008). Isso tem relação com a chamada “cosmogonia heliopolitana”, um dos antigos mitos da criação egípcio que aponta Atum (uma das formas do deus Sol) como surgido do Num (oceano primordial) sob um monte de terra (o Benben) na própria Iunu (LESKO, 2002).

Fontes:

[2] Unos bloques enormes excavados en el barrio de Matariya muestran al célebre rey egipcio venerando a una divinidad. Disponível em < http://www.nationalgeographic.com.es/historia/actualidad/hallan-vestigios-templo-ramses-noreste-cairo_10733/3 >. Acesso em 28 de setembro de 2016.

[3] Arqueólogos descubren indicios de un templo de Ramsés II en El Cairo. Disponível em < http://www.abc.es/cultura/arte/abci-arqueologos-descubren-indicios-templo-ramses-cairo-201609271959_noticia.html >. Acesso em 28 de setembro de 2016.

[4] Descubren nuevas evidencias de un templo de Ramses II en un barrio de El Cairo. Disponível em < https://es.noticias.yahoo.com/descubren-evidencias-templo-ramses-ii-barrio-cairo-171839076.html >. Acesso em 28 de setembro de 2016.

New discovery in Matariya points to a King Ramses II temple. Disponível em < http://english.ahram.org.eg/NewsContent/9/40/244730/Heritage/Ancient-Egypt/New-discovery-in-Matariya-points-to-a-King-Ramses-.aspx >. Acesso em 28 de setembro de 2016.

BAINES, John; MALEK, Jaromir. Deuses, templos e faraós: Atlas cultural do Antigo Egito (Tradução de Francisco Manhães, Maria Julia Braga, Michael Teixeira, Carlos Nougué). Barcelona: Folio, 2008.

LESKO, Leonard. “Cosmogonias e Cosmologia do Antigo Egito”. In: SHAFER, Byron; BAINES, John; LESKO, Leonard; SILVERMAN, David. As religiões no antigo Egito (Tradução de Luis Krausz). São Paulo: Nova Alexandria, 2002.


[1] Já se conheciam restos de edificações neste lugar.

(Vídeo) Alinhamento Solar no Templo de Abu Simbel

Por Márcia Jamille | Instagram | @MJamille

O complexo de templos de Abu Simbel foi construído na divisa entre as terras do Egito e o antigo território núbio (hoje Sudão), por Ramsés II a partir de algum momento durante as três primeiras décadas do seu governo. Tratam-se de estruturas gigantes cavadas nas rochas na margem ocidental do Nilo: uma menor dedicada à rainha Nefertari e uma maior, para o próprio Ramsés II. E é deste que comento no vídeo.

Wikimedia Commons | User: Przemyslaw “Blueshade” Idzkiewicz.

Este evento solar ocorre duas vezes no ano e usualmente reuni várias pessoas para testemunhar esta ocorrência. Além do vídeo abaixo, também já escrevi sobre ele aqui no Arqueologia Egípcia: — Alinhamento solar no templo de Abu Simbel: 22 de fevereiro e 22 de outubro.

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(Artigo) Tebas durante el período Ramésida

Tebas durante el período Ramésida: redistribución y circulación de bienes | Andrea Paula Zingarelli | Espanhol

La historia económica de Egipto antiguo ha sido abordada en consonancia con la historia política estatal y comprendida en términos de continuidad y unidad. Esta imagen monolítica ha restringido los abordajes hasta décadas recientes, donde se ha dado lugar a nuevas perspectivas de análisis. En esta última línea interpretativa, inscribimos la propuesta de considerar la existencia de prácticas pseudo-privadas en Egipto durante el período Ramésida.
El presente trabajo se propone analizar la documentación del área tebana durante el período Ramésida, relativa a la producción y circulación de bienes. En particular se considerará el tipo de producción y las relaciones de trabajo en la aldea de trabajadores de Deir el-Medina, así como su conexión con las instituciones estatales. Respecto de la circulación de bienes en Tebas se discurrirá acerca de la existencia del beneficio/lucro, la posible existencia de “dinero” y de precios y la acumulación de excedentes extrainstitucionalmente.

Obtenha o artigo Tebas durante el período Ramésida: redistribución y circulación de bienes.

(Comentários) Novela “Os 10 Mandamentos” (Brasil)

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Desde o início deste ano a Rede Record está veiculando a novela “Os Dez Mandamentos”, cujo enredo baseia-se no mito bíblico do êxodo hebreu, que narra os passos de Moisés, um escravo hebreu que é adotado por uma princesa egípcia e que anos depois liberta o seu povo e os lidera em uma fuga pelo Deserto Oriental. Eu assisti a obra em suas primeiras semanas e ao contrário de “José do Egito” o roteiro me agradou muito, ocorreram até alguns momentos de piadas com termos egípcios, misturando com os nossos, como uma fala da personagem de Yunet, “eu não nasci quando Rá nasceu na manhã de ontem”. Entretanto, com o tempo a história ficou um pouco massante e se estava difícil acompanhar tantos erros históricos, pior ainda estava ter que ver o núcleo feminino dos hebreus falando da importância de casar… Todo o tempo. Abandonei a novela e desde então não tive vontade de voltar a assistir.

Cena da coroação do personagem Ramsés II, interpretado por Sergio Marone. Imagem: Reprodução.

Porém, resolvi escrever este post porque a novela está fazendo um grande desserviço para a Egiptologia; é impressionante o número de gente que está escrevendo para mim com as mais variadas perguntas, algumas sem muito sentido. Vale lembrar que esta novela, assim como “José do Egito” trata-se de uma obra de ficção e que muita coisa apresentada não corresponde com a realidade do Egito faraônico. O próprio mito do Êxodo já é um ponto complicado, porque há alguns anos alguns pesquisadores e teólogos resolveram encaixa-lo no início da 19ª Dinastia, porém esta proposta trata-se de especulação, arqueologicamente falando não existe indícios de escravidão hebreia no Egito (para saber mais leia o texto Êxodo hebreu no Egito: aconteceu ou não?). Mas, ignorando a ausência de indícios, entre esses pesquisadores convencionou-se a encaixar a vida de Moisés no reinado de Seti I e Ramsés II, ponto de vista que foi popularizada por obras cinematográficas, inclusive a própria novela em questão.

Então, para fazer um resumo simples, abaixo estão as atrizes e os atores e os respectivos personagens inspirados em figuras históricas que estão representando (por favor, não caiam no erro da achar que todos os atos deles na trama realmente aconteceram):

Com o enredo planejado com a 19ª Dinastia como plano de fundo, vemos então em “Os Dez Mandamentos” uma série de equívocos na trama, são alguns deles:

☥ Coroação de Seti I: no início da novela temos Seti I reinando enquanto, se não me falha a memória, Ramsés era só uma criança de colo. A realidade é que quando ele foi coroado o príncipe já tinha cerca de nove anos de idade;

☥ Filhas de Seti I: Henutmire não é filha única do casal real (embora alguns pesquisadores nem sequer achem que ela era de fato filha deles), existia ainda outra conhecida, Tyie;

☥ Os pais de Nefertari: Este foi mais um devaneio da obra, já que não conhecemos os nomes e os cargos dos seus pais. Esclarecendo: os personagens Yunet e Paser não existiram;

☥ Dança do Ventre: Esta é uma visão orientalista e anacrônica, totalmente irreal. A Dança do Ventre não tem relação alguma com a antiguidade egípcia;

☥ A Grande Esposa Real e a coordenação de trabalhos domésticos: Checar se a limpeza do quarto do rei estava em ordem não era o trabalho de uma rainha.

☥ Coroação e casamento de Ramsés II: Antes de ser coroado faraó, Ramsés II já possuía duas esposas e vários filhos. Inclusive já era casado com Nefertari.

☥ Quando ocorria o casamento real? O Casal Real casava no dia da coroação.

Outra questão problemática são as roupas, as quais a maioria são casos anacrônicos (não esquecerei tão cedo os biquínis e as roupas de Dança do Ventre), com cores que não eram usadas, cortes e costuras inexistentes na época. Acredito que estes erros grosseiros relacionados com o vestuário tem uma explicação: acho que a ideia era criar uma variedade de imagens, “Os Dez Mandamentos” nunca teve uma finalidade educativa, esta é a realidade, os produtores não estão servindo a um propósito de Educação Patrimonial, é entretenimento. Entretanto, por mais que as roupas egípcias ao longo do faraônico não tenham tido uma variedade de cores, existia uma boa variedade de cortes que poderiam ter sido aproveitados, mas que ironicamente nem sequer aparecem na obra. Uma pena, porque esta seria uma ótima oportunidade de mostrar para as pessoas que a moda egípcia não era monótona. Abaixo alguns exemplos absurdos:

A personagem Nefertari (Camila Rodrigues) e sua mãe Yunet (Adriana Garambone). A roupa da Nefertari tem um corte irreal, mas a da Yunet desconsidere totalmente; do corte a cor, nada disso existia. Imagem: Reprodução.

A princesa Henutmire (Vera Zimmermann) e seu pai e faraó Seti I (Zécarlos Machado). Principalmente nela: ignore toda a roupa. Imagem: Reprodução.

Yunet e Seti I. A roupa dele ainda vai, mas a roupa dela é totalmente século XX, desde a roupa de Dança do Ventre ao chador. Puro orientalismo. Imagem: Reprodução.

Um segurança da guarda real e Seti I. Ainda não sei porque insistem em por armaduras nos soldados, enfim. Já a roupa de Seti I… Esta capa já diz tudo. Imagem: Reprodução.

Mais uma vez tudo errado. Sem brincadeira, o que se salva mesmo aí são os leques de pena. Imagem: Reprodução.

Mais uma vez uma capa, mas não bastava, tinha que ser azul. Meus olhos de arqueóloga verteram lágrimas de sangue. Destaque também para estes arbustos que me lembram árvores de festa natalina. Imagem: Reprodução.

As maquiagens femininas também deprimem. O uso de sombras coloridas provavelmente foi inspirado no Egito Hollywoodiano do filme “Cleópatra” de 1963.

Em relação as joias eu devo tecer alguns elogios; nos primeiros dias da novela eu senti uma pobreza em termos de ligação com a antiguidade e até um erro no mínimo engraçado, onde Seti I aparece usando uma tiara igual ao do Tutankhamon, o que é irônico, visto que Seti I o excluiu da lista de faraós, e ver a personagem do faraó usando um artefato réplica de alguém que ele desvinculou da linhagem real é até cômico. Contudo, com o passar da trama a produção começou a por mais elementos ricos, como peitorais com imagens de deuses, tiaras representando flores, etc. Nesse sentido até que fizeram um bom trabalho.

Esse peitoral usado pelo Ramsés II é perfeito. Ele representa o deus Hórus segurando o símbolo “ouro” em ambas as suas patas. Imagem: Reprodução.

Outro aspecto que foi modificado e para o qual também deixo o meu elogio é sobre a tolerância religiosa: No início era retratado um maniqueísmo entre o povo egípcio e os hebreus, mas com o passar da trama o enredo começou a ficar mais brando e até a explicar um pouco sobre a religião egípcia. Achei ótimo, isto mostra para o público deles que nem todos seguem a mesma religião e que isso não é justificativa para destratar uns aos outros.

Eu tentei assistir a novela mais algumas vezes, mas sinceramente não dá mais. O enredo começou a ficar tolo e nem mesmo os personagens mais cômicos salvam do desastre que são os diálogos sexistas, figurinos e cenários que parecem ter saído de algum filme de gosto duvidoso da década de 1930 a 60 e tantas idéias orientalistas que merecem serem analisadas em algum artigo científico.