Pesquisadores brasileiros analisam múmia egípcia no sul do Brasil

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

No dia 02 de setembro de 2018 o Museu Nacional foi devastado por um incêndio que arruinou o interior do edifício, destruindo as múmias egípcias que faziam parte do acervo. Entretanto, o Brasil ainda possui alguns artefatos do tempo dos faraós que se encontram em diferentes pontos do país e sob diferentes circunstâncias. Um deles é a cabeça de uma múmia que permaneceu praticamente anônima no Rio Grande do Sul, no museu do Centro Cultural 25 de Julho (Cerro Largo). Apelidada de a “Múmia de Cerro Largo”, esta cabeça outrora estava em uma prateleira simples, dentro de uma caixa de vidro e coberta por uma manta. O anúncio de sua permanência aqui no Brasil foi recebida com grande susto, afinal, como uma múmia egípcia parou no interior do Rio Grande do Sul? E como quase ninguém sabia dela?

Foto: Bruno Todeschini

De acordo com uma declaração feita por Guido Henz, integrante do museu 25 de Julho, para uma matéria veiculada no portal Gauchazh: um advogado, cujo nome não foi divulgado, em sua estadia no Rio de Janeiro, supostamente ganhou a peça de presente no início da década de 1950 de um amigo egípcio — também não identificado —. 

Então, ao retornar ao Rio Grande do Sul, sua terra natal, o advogado deixou a peça exposta em uma sala reservada em sua residência. Com a chegada do final da década de 1970 ele a entrega para Henz, a fim de que ela faça parte do museu. Esta doação ocorreu porque sua família não queria mais que a cabeça permanecesse em sua residência, já que acreditavam se tratar de algo amaldiçoado, uma vez que tanto o egípcio, como o advogado faleceram de câncer. 

Mas, antes do egípcio, a quem ela pertenceu? E ele a adquiriu de forma legal? É uma dúvida que até agora paira minha cabeça, já que não é incomum que pedaços de múmias sejam contrabandeadas. Ainda mais na década de 1950 em que as leis contra furtos em sítios arqueológicos ainda não eram levadas tão a sério. Mas, esta é uma questão que a equipe responsável por sua pesquisa só poderá responder com o tempo.

Múmias são encontradas em Aeroporto do Cairo (Egito)

E por não se saber de fato qual a origem deste crânio é praticamente impossível conhecer sua verdadeira identidade. Entretanto, para nossa felicidade a ciência é capaz de apontar alguns detalhes da sua vida tais como idade, sexo, dentre outras informações.

Quando o crânio finalmente cruzou com a ciência:

Tudo começou quando o historiador Édison Hüttner, coordenador do Grupo de Estudo de Identidades Afro-Egípcias da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ), foi convidado em junho de 2017 a ir ao Museu Cerro Largo. Lá viu o crânio e pediu permissão para poder investigá-lo. Com a permissão concedida, ele levou o crânio para a PUCRS (Porto Alegre).

Foto: Bruno Todeschini

Durante um ano foram realizadas diferentes tipos de pesquisas. Uma delas foi uma análise por radiocarbono feita nos Estados Unidos (no laboratório Beta Analytic) se utilizando de um pedaço de um dos dentes da múmia. Assim como análises feitas por um cirurgião bucomaxilofacial e pelo arqueólogo Moacir Elias Santos. 

Foto: Bruno Todeschini

Esta interdisciplinaridade permitiu saber que o crânio pertence a uma mulher que morreu na faixa dos 40 anos e que viveu no Egito entre 768 a 476 a.E.C, época situada entre o final do Terceiro Período Intermediário e o início do Período Tardio. Outro detalhe importante é que ela não teve uma mumificação de qualidade — ao menos levando em consideração o padrão egípcio — já que não ocorreu a conservação total dos tecidos moles e não foi encontrado resquícios de resina dentro da caixa craniana.

Foto: Édison Hüttner/PUCRS

A cabeça também passou por um exame de tomografia no Instituto do Cérebro da PUCRS, onde foi descoberto que ela possuía uma incrustação feita em pedra no lugar de um dos olhos, assim como chumaços de linho preenchendo a área dos glóbulos oculares. No vídeo “Mumificação no Egito Antigo” eu explico um pouco mais sobre este costume de procurar substitutos para os olhos dos falecidos.

Descubra como eram feitas as múmias egípcias    

Mas, os trabalhos não irão parar por aí: ela ainda passará por um exame de DNA que será realizado por um laboratório alemão e por uma análise de fungos no Instituto do Petróleo e Recursos Naturais da PUCRS. Todo cuidado é pouco para proteger um dos dois únicos exemplares de múmias egípcias no Brasil. Ao menos, os que nós conhecemos.  

Fontes:

Múmia egípcia que estava em museu de Cerro Largo tem origem confirmada por universidade gaúcha. Disponível em < https://gauchazh.clicrbs.com.br/tecnologia/noticia/2019/05/mumia-egipcia-que-estava-em-museu-de-cerro-largo-tem-origem-confirmada-por-universidade-gaucha-cjw9efp2z00t601oioqpk40sd.html?fbclid=IwAR04PJodvxSiudQNUlRLBQd6hXpQdPPi9N7ueU_75y_pfP27Ip947fIyO_Y >. Acesso em 19 de junho de 2019.
Múmia egípcia de cerca de 2,5 mil anos é identificada no interior do RS. Disponível em < https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2019/05/29/mumia-egipcia-de-cerca-de-25-mil-anos-e-identificada-no-interior-do-rs.ghtml?fbclid=IwAR1P1L0JjhdH_NcLD-B_P0XjrGkCEAxVJJ6LThroKpk6KnZ85cuQmzLkFWc >. Acesso em 19 de junho de 2019.
Múmia egípcia de mais de 2,5 mil anos tem identidade confirmada por pesquisa. Disponível em < http://www.pucrs.br/blog/mumia-egipcia-de-mais-de-2-5-mil-anos-tem-identidade-confirmada-por-pesquisa/ >. Acesso em 19 de junho de 2019.
Origin of 2,500-year-old Egyptian mummy proven. Disponível em < https://menafn.com/1098589626/Origin-of-2500yearold-Egyptian-mummy-proven >. Acesso em 19 de junho de 2019.


Nota da autora: Este post demorou para sair porque eu esperava receber a resposta de um e-mail enviado a um dos pesquisadores responsáveis pelo estudo do crânio, para tirar algumas dúvidas pontuais. Entretanto, até o momento que estou fechando esta matéria, não recebi uma resposta. 

 

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro "Uma viagem pelo Nilo". [Leia seu perfil]