Pirâmides na National Geographic (2001)

Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Este é um texto para sempre ser relembrado, já que é um assunto que está em pauta todos os anos e trata-se dos (as) autores (as) da construção das pirâmides, especialmente a do platô de Gizé. Este assunto gera tanta polêmica porque os textos clássicos, mais especificamente os registros de Heródoto, que viveu centenas de anos após a construção, cita a presença de escravos. Contudo, os trabalhos de arqueologia desmentiram tais relatos.

Segue abaixo o artigo da National Geographic, publicado no Brasil em 2001, e que poderá explicar um pouco mais.

 

Os operários das pirâmides (Edição 19/Novembro de 2001)

Novos sítios arqueológicos revelam sinais de que, na verdade, ao invés de escravos, operários construíram as pirâmides do Egito

Por Virginia Morell

Fonte: National Geographic Brasil

Três gerações de egípcios ergueram em Gizé um conjunto de pirâmides, há mais de 4 mil anos.

Ao lado das três grandes pirâmides de Gizé, nas cercanias do Cairo, o egiptólogo Zahi Hawass caminha entre pequenos túmulos feitos de barro e pedra. Algumas das sepulturas têm a forma de domo. Outras são estruturas retangulares escavadas em escarpas rochosas e algumas foram construídas com blocos de calcário cobertos de hieróglifos.

Hawass está acompanhado de uma equipe de escavadores que para ao lado de uma dessas modestas sepulturas, a Tumba 53. É nela que eles vão se concentrar nessa manhã. “Venho pensando nisso há anos”, revela-me Hawass, enquanto os membros de seu grupo começam a escavar o topo da mastaba (o nome desse tipo de sepultura). “Muitas vezes, contemplando as pirâmides, eu me perguntava: ‘E as pessoas que as construíram? Onde foram enterradas? Quem eram os homens e as mulheres por trás desse grande empreendimento?’ Agora, graças a sepulturas como esta, temos afinal alguns indícios dessa gente.” Ao contrário do que se acredita, as pirâmides não foram erguidas por escravos nem por estrangeiros. “Essa idéia surgiu com Heródoto”, prossegue o grisalho Hawass. Por volta de 450 a.C., ou seja, cerca de 2 mil anos após a construção das pirâmides, o historiador grego visitou o Egito, onde lhe disseram que 100 mil homens haviam sido obrigados a trabalhar como escravos na grande pirâmide do faraó Quéops.

A descoberta desse cemitério por Hawass em 1990 e uma escavação realizada nos arredores pelo arqueólogo Mark Lehner – que revelou algo parecido com uma antiga cidade operária – vieram confirmar algo que os egiptólogos já desconfiavam: Heródoto estava mal informado. Foram egípcios comuns que ergueram as pirâmides. Alguns eram convocados por períodos de tempo limitados, outros trabalhavam em tempo integral. Hawass e Lehner estimam que o empreendimento todo – extrair da pedreira, transportar e cortar os 5 milhões de metros cúbicos de blocos de pedra usados nas três pirâmides e nas estruturas adjacentes – foi realizado por uma força de trabalho bem menor, de 20 mil a 30 mil homens.

Cada complexo piramidal (o conjunto que abrange uma pirâmide e os templos e as sepulturas adjacentes) era iniciado assim que um faraó subia ao trono e interrompido apenas em sua morte. As obras em Gizé ocorreram durante a quarta dinastia, nos reinados dos faraós Quéops, Quéfren e Miquerinos (por volta de 2550 até 2470 a.C.), e estenderam-se por cerca de 80 anos.

Ao me acomodar ao lado da Tumba 53, consigo ver a ponta afilada das duas maiores pirâmides, os túmulos de Quéops e de seu filho Quéfren. Suas dimensões, formas e beleza sempre deixaram os visitantes boquiabertos. Elas foram construídas com blocos de calcário e granito cujo peso variava de menos de 1 tonelada até mais de 40 toneladas – todos eles cortados, transportados e colocados em seu lugar por mãos humanas. Os antigos egípcios não dispunham de máquinas complexas nem de animais (tampouco de extraterrestres!) para facilitar qualquer etapa desse trabalho. Além disso, depois de terminarem o núcleo de uma pirâmide eles a revestiam com pedras que se encaixavam perfeitamente. Depois, ainda poliam o monumento até que ele brilhasse ao sol como uma jóia gigantesca.

“Não há dúvida de que eles tinham muito orgulho de sua obra”, diz Hawass quando comento o evidente cuidado que haviam dedicado às pirâmides. “Eles não estavam apenas erguendo o túmulo de seu soberano. Estavam construindo o Egito. Era um projeto nacional, do qual todos participavam. As pessoas que estamos exumando nestas sepulturas eram parte desse esforço nacional”, acrescenta o pesquisador, apontando com a cabeça a tumba à sua frente. “Muitos deles passaram a vida cortando, movendo e polindo os blocos de pedra.”

Nesse momento, os homens de Hawass já haviam removido as rochas e os tijolos que cobriam a sepultura e alguns deles começavam a cavar com pás a areia que havia embaixo. Outros formam uma fila à beira do fosso com cestos feitos de borracha trançada. A maioria veste túnica longa e turbante. São pouco mais de 8 horas de uma manhã de primavera egípcia, mas o sol já está alto e quente no céu azul. Tento encontrar uma sombra atrás da mastaba. Os operários, acostumados com o calor, a poeira e o suor, avançam e baixam seus baldes na sepultura. Um companheiro chamado Said Saleh cava e enche os recipientes com a terra arenosa, que depois é peneirada por dois arqueólogos. Todos mantêm um ritmo constante enquanto cavam, içam os baldes e despejam a terra – uma versão em pequena escala, imagino, das enormes turmas de operários que empurraram, puxaram e colocaram no lugar os blocos das pirâmides.

Poucos minutos depois, os esforços dos trabalhadores trazem à luz os escuros e empoeirados fragmentos do que havia sido um caixão de madeira. “Isso é raro”, adianta Hawass. “Em geral essa gente era pobre demais para arcar com o custo de um caixão. Talvez seu ocupante trabalhasse numa oficina de marcenaria ou conhecesse algum marceneiro.” Sob os fragmentos do caixão Saleh encontra o crânio e as clavículas e depois o resto do esqueleto. Ele está em posição fetal, como era o costume, com o rosto voltado para o leste, na direção do sol nascente, e o crânio apontando para o norte, aonde o espírito do faraó elevava-se todas as noites para se juntar às estrelas circumpolares.

Com uma escova, Saleh limpa a terra dos ossos. Mais tarde, um antropólogo físico irá retirá-los para estudo. Fiapos de tecido ainda se prendem a alguns ossos, indicando que o indivíduo havia sido enrolado em uma mortalha antes de ser posto no caixão. “Os mais pobres costumavam fazer isso. Era uma espécie de mumificação simbólica”, explica Hawass. “Ninguém tinha condições de pagar por um ritual autêntico. Envolta em uma mortalha, a pessoa pelo menos ficava com a aparência de ter sido mumificada.” Ao lado do esqueleto, Saleh desenterra uma faca feita de sílex amarelo. “Os humildes também eram enterrados com algo que os ajudasse no além. Talvez essa faca fosse usada por ele para cortar carne”, completa o egiptólogo.

Muitos operários também foram enterrados com jarros de cerveja. “Feita de cevada, a cerveja era a bebida de todos os dias. Mesmo após a morte, eles não podiam passar sem ela”, diz Hawass. Um punhado de ossos minúsculos e contas de barro esmaltado ou vidrado brotam da Tumba 53. “Isso indica que o esqueleto provavelmente é de uma mulher, mas só teremos certeza depois que os ossos forem examinados. Todos os egípcios – homens e mulheres – ajudaram a construir as pirâmides”, completa ele.

Quando os arqueólogos começaram a escavar em Gizé, há cerca de 200 anos, evidentemente concentraram-se na investigação das pirâmides dos faraós e das rainhas, dos templos e túmulos circundantes, e na esfinge. Os antigos egípcios ergueram esse complexo durante a quarta dinastia do Antigo Império, uma era gloriosa para a arte e a arquitetura. Ironicamente, a despeito de seus enormes monumentos funerários, sabemos pouco a respeito dos três principais faraós dessa dinastia. Se os egípcios da época registraram as atividades da casa real em rolos de papiro – como foi feito em períodos posteriores –, esses rolos não resistiram ao tempo.

Os pesquisadores têm apenas uma vaga idéia da aparência do faraó Quéops, que mandou erguer a maior das três pirâmides. Uma estatueta de marfim é tudo o que restou dele, e mesmo ela pode ter sido esculpida séculos depois de sua morte. Os cientistas, no entanto, sabem ainda menos sobre as pessoas comuns que labutavam nas tumbas e nos templos da elite governante. “É como se toda essa gente tivesse desaparecido”, diz Mark Lehner, que passou a década passada procurando as casas e oficinas dos operários das pirâmides. “Mas como isso pode ocorrer com 100 mil pessoas, se usarmos a estimativa de Heródoto, ou mesmo com 20 mil ou 30 mil pessoas?”

Lehner me conduziu até um dos raros indícios restantes dessa força de trabalho, as pedreiras de calcário que ficam logo abaixo da pirâmide de Miquerinos. “Aqui está uma das fendas que fizeram para retirar um bloco de rocha”, diz ele, agachando-se junto a uma canaleta com 12 centímetros de largura e 7 centímetros de profundidade. “Eles usavam picaretas de pedra e formões de cobre para destacar os blocos, e depois talhavam encaixes para as alavancas de madeira com as quais arrancavam o bloco inteiro, em geral pesando 20 toneladas.” Cada bloco era delineado com tinta vermelha antes que os operários iniciassem o processo de remoção. “Até há poucos anos, ainda dava para ver neles resquícios da tinta vermelha e também um ‘cartucho’ – a moldura onde há um nome próprio inscrito. Era provavelmente a marca da equipe de trabalhadores encarregada de retirar o bloco”, diz Lehner.

Inscrições similares com nomes de equipes foram encontradas no interior das pirâmides. Em dois blocos na câmara mais elevada da de Quéops, por exemplo, uma turma de operários pintou hieróglifos que significam “Amigos de Quéops”. E, no templo funerário de Miquerinos, outra equipe deixou escrita sua insígnia: “Bêbados de Miquerinos”. Apenas esses dois exemplos, comento depois, já bastam para indicar uma mentalidade muito diferente da que essas pessoas teriam se fossem escravas.

Lehner assente com a cabeça. De compleição frágil e na faixa dos 50 anos de idade, ele carrega nos bolsos da camisa e da calça os instrumentos do ofício de arqueólogo: canetas, uma pequena pá, trena, pincel. “Os trabalhadores eram organizados em equipes concorrentes, e isso pode ter sido benéfico em termos psicológicos. É aquela velha história de ‘vamos ver quem consegue cumprir essa tarefa primeiro’”, explica ele.

De qualquer forma, a rotina estava longe de ser agradável. “Imagine trabalhar sob o sol escaldante do Egito, com uma picareta ou um formão de cobre para cortar os blocos de pedra e, em seguida, deslocá-los para formar uma pirâmide. O que motivava essas pessoas? Tudo o que podemos dizer, uma vez que restaram tão poucos textos da época, é que os trabalhadores eram muito religiosos e acreditavam que, ao erguer a tumba do faraó, estavam assegurando não só o renascimento do líder, mas também o deles próprios e o de todo o Egito.”

Para erguer estruturas tão monumentais os egípcios dependiam de uma força de trabalho extremamente organizada. Baseados em inscrições nas tumbas e em instruções aos operários talhadas nas paredes internas da pirâmide de Quéops e no templo funerário de Miquerinos, os pesquisadores podem hoje traçar algo parecido com um organograma dos antigos canteiros de obras. “Cada projeto, como o de construção de uma pirâmide, contava com sua própria mão-de-obra”, explica a egiptóloga Ann Roth. “Cada grupo era responsável por uma parte do complexo. Havia um grupo encarregado dos tetos internos de granito, enquanto outros levantavam as paredes das câmaras.”

As turmas de trabalhadores eram geralmente divididas em quatro ou cinco unidades menores, denominadas phyles (do termo grego para “tribo”) pelos egiptólogos. Cada phyle tinha um nome, como Magnífica ou Verde, e, por sua vez, compreendia equipes menores, de 10 a 20 homens, que também tinham nomes específicos, como Resistência e Perfeição. De acordo com algumas estimativas, para erguer uma pirâmide em 20 anos os operários tinham de colocar sobre ela um bloco de pedra a cada 2 minutos, em média. Um ritmo alucinante.

Para que toda essa mão-de-obra pudesse dar o máximo de si, era indispensável contar com uma sofisticada infra-estrutura de apoio. “Era preciso alimentar e abrigar todos os que garantiam a sobrevivência dos operários, como padeiros, cervejeiros e açougueiros”, avalia Lehner. Em outras palavras, isso só seria possível se houvesse uma cidade. E Lehner acha que a encontrou – ou pelo menos o bairro em que se concentravam as atividades produtivas.

Numa ampla e arenosa planície poucas centenas de metros abaixo do cemitério escavado por Hawass, Lehner e sua equipe desenterraram ruas cuidadosamente traçadas – e pavimentadas –, assim como construções esmeradas, divididas em pequenos aposentos ligados por corredores. No limite norte desse sítio arqueológico, uma maciça muralha de pedra talhada, conhecida como Heit el-Ghorab (Muralha do Corvo), estende-se por cerca de 200 metros. Elevando-se a quase 10 metros e com 10 metros de espessura na base, a muralha possui um portão central encimado por três vergas maciças de calcário. “Ainda não sabemos exatamente quem usava o portão nem o motivo de sua existência”, diz Lehner, perto do local em que vem escavando o que chama de Rua Sul.

“Esta é a terceira rua desse tipo que encontramos, e ela segue paralela a outras duas. Era uma cidade de traçado regular, algo incomum na época.” Antes dessa descoberta, alguns egiptólogos consideravam que, na época do Antigo Império, os povoados não passavam de aldeias ampliadas, com ruas e áreas de trabalho distribuídas de maneira aleatória. “Nós ajudamos a derrubar essa idéia”, completa Lehner, convicto de que vários edifícios eram usados como padaria e cervejaria. Ele só não está totalmente seguro quanto à finalidade geral da área industrial. “Será que servia apenas para alimentar os trabalhadores?”, indaga, agachando-se para limpar a areia de uma minúscula espinha de peixe. “Ou eles usavam essas construções, onde encontramos tantas espinhas de peixe, para preparar as oferendas dos templos?”

Também nesse caso não dispomos de papiros com textos ou inscrições em pedra – nem mesmo grafites antigos – que possam nos esclarecer. Os únicos indícios textuais encontrados no sítio arqueológico estão em minúsculos fragmentos de argila usada nos sinetes das jarras de vinho e óleo ou das sacas de cereais.

Num laboratório próximo ao sítio investigado por Lehner, o egiptólogo John Nolan me empresta uma lupa para que eu examine os detalhes de um desses fragmentos. Plano e de cor marrom-escura, o pedaço de argila traz em sua superfície débeis marcas de hieróglifos – assim como as linhas finas da impressão digital de alguém. Consigo distinguir com clareza o símbolo de um belo falcão com as asas dobradas. “Esse é um sinal de que se trata do nome de um soberano – no caso, Miquerinos”, explica Nolan. “Quer dizer que o indivíduo que fez isso era, sem dúvida, um alto funcionário.”

As marcas foram produzidas pela rolagem de um sinete entalhado sobre o pedaço de argila úmida que servia de autenticação. Após alguém encher um jarro, talvez com vinho, o gargalo era fechado com um pano preso por corda. Então o sinete era aplicado à argila úmida. Os sinetes eram como pequenos rótulos que acompanhavam as mercadorias. “Os artigos autenticados equivaliam ao dinheiro na época. Eles estabeleciam uma cadeia de responsabilidades: havia uma pessoa que podia autenticar e outra autorizada a romper o sinete”, prossegue Nolan. Ele guarda milhares desses fragmentos que ainda precisam ser decifrados. Acondicionados em saquinhos plásticos, cobrem sua mesa como microscópicos contos de mistério. “Sempre existe a possibilidade de acharmos um sinete cujo título seja reconhecível – de outra pessoa que não o faraó. Talvez um deles estabeleça uma ligação direta entre o nosso sítio e o cemitério dos trabalhadores.”

Encontrar um elo desse tipo resolveria as dúvidas sobre os vínculos cronológicos entre o cemitério de Hawass e a cidade de Lehner. As datações revelam que esta pertence ao período que vai de meados ao final da quarta dinastia, e Hawass crê que o cemitério foi usado desde meados da quarta até a quinta dinastia. Mesmo que os dois sítios arqueológicos não apresentem uma estreita conexão temporal, as sepulturas dos trabalhadores já permitem que os arqueólogos tenham uma idéia melhor da organização que dava suporte à construção das pirâmides.

Embora a maioria das sepulturas seja de gente pobre, várias delas abrigam restos mortais de funcionários importantes e abastados. Algumas parecem versões em miniatura dos templos dos faraós e das rainhas. De forma retangular e feitas de blocos de calcário, elas apresentam todos os principais elementos encontrados nas tumbas reais: falsas portas entalhadas para que à noite o espírito da pessoa pudesse sair do túmulo, recipientes de pedra para oferendas e uma série de inscrições hieroglíficas com o nome e o título do ocupante, assim como os nomes de sua mulher e de seus filhos. Duas delas possuem até mesmo rampas conduzindo à sua entrada, como as longas passarelas na parte externa das três pirâmides de Gizé.

“Os donos destes dois túmulos queriam que eles se parecessem ao máximo com as tumbas dos faraós”, afirma Hawass. “Este é o túmulo de Weser-Petah, um supervisor dos funcionários.” Ele sobe uma até a pequena e estreita entrada. Preciso me abaixar para entrar na sepultura de rocha talhada. Acima e em ambos os lados da porta falsa vêem-se baixos-relevos mostrando Weser-Petah de perfil, como nas clássicas imagens egípcias. Ao lado e embaixo dos baixo-relevos encontram-se os hieróglifos com seu nome e seu título. Embora não tão complexos quanto as inscrições da elite governante, esses entalhes revelam os cuidados e as preocupações que os egípcios comuns também mantinham em relação a uma boa vida no além.

Alguns passos na direção oeste nos conduzem à rampa e ao túmulo de Ni-ankh-Petah, responsável pelas padarias e confeitarias do faraó. Em um ponto mais elevado está o túmulo de Nefer-Theith, supervisor do palácio. Outras sepulturas adjacentes trazem títulos como “supervisor dos remadores”, “responsável pelas laterais da pirâmide”, “inspetor dos jardins reais” e “mestre do porto”. Até agora a equipe de Hawass descobriu 26 títulos desse tipo. “Os títulos referem-se a funções administrativas de nível intermediário e alto e confirmam a sofisticada organização da força de trabalho no antigo Egito”, observa Hawass.“Foi esse o traço que na verdade marcou a quarta dinastia”, comenta o egiptólogo James Allen. “Não foi o fato de terem aprendido a manusear enormes blocos de pedra, mas sim a descoberta de um modo de organizar uma enorme força de trabalho.”

Muitas mulheres da elite foram enterradas na sepultura de seus maridos e, com freqüência, também seu título e seu nome eram inscritos nas vergas dos falsos portais, como no caso da mulher de Petty, o inspetor dos artesãos. Chamada Nesy-Sokar, ela era sacerdotisa de Hathor, a deusa do amor e da dança. Duas outras mulheres tinham sua própria tumba. Uma delas também era sacerdotisa de Hathor e a outra, de Neith, a deusa da guerra.

Esses funcionários graduados também preservavam a cultura de armazenar vários artigos em sua sepultura. Eles podiam ser enterrados com grandes jarros de cerveja ou miniaturas de pratos de oferendas e taças para beber. Todos artigos muito básicos, mas necessários no além. “Não havia nada de valor nessas sepulturas, por isso elas não foram saqueadas”, argumenta Hawass. Isso não fazia com que seus donos deixassem de se preocupar com os ladrões. Sob as figuras bem esculpidas de Petty e Nesy-Sokar, o casal mandou entalhar várias maldições protetoras, ameaçando quem tentasse perturbar seu descanso eterno: “Qualquer um, homem ou mulher, que fizer algo maléfico contra este túmulo e penetrar em seu interior terá de prestar contas ao crocodilo na água, ao hipopótamo na mesma água e ao escorpião em terra”.

Alguns dos túmulos continham ainda estatuetas de seus ocupantes. A maioria delas, como a de Nefer-ef-Nesu, chefe dos escultores, e de sua mulher, Nefer-Menkhes, foi entalhada em calcário e pintada. A imagem mostra o casal em um banco de “granito rosa” – na verdade calcário pintado de modo a se assemelhar à pedra nobre reservada aos faraós. A mulher usa um vestido de rede, um colar de contas e braceletes, ao passo que seu marido veste uma túnica branca simples. Ambos estão olhando para a frente, com um leve sorriso de felicidade, o braço direito dela sobre o ombro do marido. “Esse é o desejo deles, assim querem permanecer após a morte”, resume o arqueólogo Tarek El-Awady, assistente de Hawass. “Por isso se mostram da melhor maneira possível, com suas melhores roupas e jóias.”

A vida da maioria dos donos desses túmulos extravagantes provavelmente não era muito difícil. Circundado pelo deserto e abençoado com terras férteis e safras abundantes, o Egito do Antigo Império era um local raro: um Estado que desfrutava de paz e estabilidade, com amplo tempo livre e riqueza para a preservação de uma cultura voltada para a vida no além.

Até mesmo os egípcios, contudo, tinham de conviver com a velhice e a morte – algo mais fácil de ser notado entre os operários, que viviam uma rotina pesada. “Isso se nota em seus esqueletos”, diz Azza Mohamed Sarry El-Din, antropóloga física que estuda os ossos exumados do cemitério. “Já examinei 175 esqueletos e quase todos sofriam de artrite. Suas vértebras lombares estavam muito comprimidas, como é de se esperar entre operários de trabalho pesado. Eu já previa isso, mas fiquei surpresa ao encontrar esse tipo de artrite também nas mulheres.” Ela mostra o pescoço e as vértebras lombares de uma mulher que morreu com 30 e poucos anos e depois aponta para as bordas rugosas e gastas dos ossos. “Ela deve ter carregado muito peso na cabeça desde a infância para os ossos ficarrem desse jeito”, diz Azza.

Embora não se conheçam registros ou inscrições mostrando mulheres empurrando pedras ou arrastando estátuas em trenós, o estado dos ossos das mulheres sugere à antropóloga que também elas faziam esse tipo de trabalho. Seus ossos estão mais danificados do que seria de se esperar caso se limitassem às tarefas domésticas.

Alguns dos esqueletos também sugerem que os trabalhadores, a despeito da natureza difícil de suas ocupações, eram bem tratados, embora talvez não tivessem a melhor dieta – as análises preliminares de Azza indicam que alguns eram anêmicos e a maioria raramente comia carne. Curiosamente, a equipe de Mark Lehner exumou grande quantidade de ossos de vaca, de carneiro e de cabra abatidos – mais do que suficiente, segundo ele, para alimentar milhares de operários com uma ração diária de carne. Seriam os animais mortos apenas para as oferendas nos templos? A discrepância entre os ossos, a dieta e a quantidade de carne disponível ainda permanece um mistério.

Por outro lado, os milhares de trabalhadores das pirâmides tinham acesso a cuidados médicos. As análises dos achados nas escavações apontaram que um deles foi gravemente ferido no braço, que teve de ser amputado abaixo do ombro. A operação foi bem-sucedida, assim como uma amputação similar realizada na perna de um funcionário. “Ambos se recuperaram e ainda viveram por muitos anos”, diz Azza. “Alguém se preocupava muito com eles. Operários que movem blocos de pedra de um lado para outro estão sujeitos a acidentes, e é animador ver que seus supervisores sabiam disso e estavam preparados para cuidar deles.”

Apesar da disponibilidade de serviços médicos, a expectativa de vida era baixa. Em média, os homens viviam de 40 a 45 anos; as mulheres, de 30 a 35 anos. “Elas viviam menos provavelmente por causa de seus partos problemáticos”, comenta a antropóloga. “Eram raros, porém, os antigos egípcios que viviam até uma idade que, hoje, consideramos avançada.”

“Acho que eles levavam uma vida bem complicada”, exclama Lehner, de pé sobre uma escarpa arenosa um pouco acima do sítio que está escavando atualmente. “Devia haver centenas de fornos acesos, para assar pão, queimar argila e fabricar e manter afiados os formões de cobre. Havia fumaça por toda parte e longas filas de pessoas arrastando os blocos de pedra para o local da pirâmide, além daquelas que moíam os cereais, abatiam os animais, descarregavam os barcos no porto, que provavelmente ficava perto das pirâmides. Tudo isso exigia um trabalho duro.”

O que os egípcios antigos ganhavam com tanto esforço? Lehner é incisivo: “As pessoas tinham um emprego e participavam de um esforço nacional. E, mais importante, era para eles uma forma de conquistar a vida eterna”.

Disponível em <http://viajeaqui.abril.com.br/materias/egito-piramides?pw=5 >. Acesso em 02/11/2011.

 

 

 

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro "Uma viagem pelo Nilo". [Leia seu perfil]