A relação entre o uso do betume e a antiguidade egípcia

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

 

Afloramento de betume em Puy de la Poix, França. Imagem disponível em < http://en.wikipedia.org/wiki/File:Puy_de _Poix,_gisement_ bitumeux.JPG >. Acesso em 03 de janeiro de 2014.

Do Antigo Reino até o Período Romano, foram adotadas diferentes ferramentas para a elaboração da mumificação artificial de humanos e dos demais animais. Embora os viajantes gregos Heródoto e Diodorus tenham deixado para nós dicas (SEEHER, 1999), ainda nos são misteriosos alguns dos artigos utilizados para este procedimento, mas é consenso entre os egiptólogos que um dos principais produtos foi a resina advinda da seiva de árvores (SEEHER, 1999). Contudo, tem existido na literatura comum e mesmo acadêmica o constante uso do termo “betume” para designar esta resina (“resina betuminosa”, de acordo com algumas bibliografias).

Nos primórdios da arqueologia egípcia a crença no uso do betume como parte da mumificação foi estabelecida graças a sua cor preta, associada com a cor escura de algumas múmias. No entanto, atualmente temos ciência de que o emprego do termo foi até certo ponto um equívoco, especialmente porque o betume não foi um componente utilizado ao longo de todo o faraônico. Tal confusão provavelmente se deu ainda na antiguidade, como pode ser observado a seguir.

O betume utilizado para fins curativos?

O historiador romano Plinio “O Velho” (23 – 78 dEC) elogiou as virtudes medicinais de um material negro alcatroado lançado espontaneamente de fissuras da terra locadas em várias localidades do que agora chamamos de Oriente Médio, especialmente no moderno Iraque (antiga Pérsia), no território do Dara’gerd.

Este material, o qual nós temos denominado de asfalto ou betume, era chamado de múmiya pelos persas possivelmente porque sua consistência era semelhante a uma cera chamada mûm pelos árabes (HARRIS, 1999; PETTIGREW, 1834 apud AUFDERHEIDE, 2010).

Provavelmente devido a estes dois termos, ao longo dos séculos foram estabelecidos equívocos acerca do suposto uso deste material na mumificação de corpos egípcios. Outro ponto que influenciou para a confusão foi quando o medicamento proveniente do betume ficou extremamente popular após o século 13 e a resina cristalina encontrada nos corpos mumificados do Egito também começou a ser utilizada para o mesmo fim para atender este mercado. Esta relação entre estes produtos foi estabelecida porque pensava-se que se tratavam do mesmo material, até a sua aparência bruta sugeria uma identidade química. Simultaneamente o termo múmiya foi transferido para tal resina (DAWSON, 1927 apud AUFDERHEIDE, 2010).

Múmia egípcia. Foto disponível em . Acesso em 17 de janeiro de 2014.

Múmia egípcia. Foto disponível em < http://www.washingtonpost.com/blogs/wonkblog/wp/2013/03/11/even-mummies-get-heart-disease/ >. Acesso em 17 de janeiro de 2014.

Quando os físicos europeus identificaram a aparente eficácia clínica da resina, os boticários começaram a empregá-la para os mais diversos fins (AUFDERHEIDE, 2010), porém, quando era realizada a coleta nas múmias, fragmentos castanho-claro de músculos frequentemente eram incluídos acidentalmente. Deste fato, mais a onda orientalista da época que ajudava na criação de um Egito Antigo místico cuja mágica ainda estava presente, surgiu a fé de que estas partes trituradas das múmias auxiliavam no seu uso médico-terapêutico. Esta ligação estabelecida com o betume, com a resina e por fim com a pele mumificada fez com que o termo múmiya fosse transferido no século 18 desta vez para os corpos humanos preservados e mais tarde também para todo e qualquer tecido total ou parcialmente conservado.

Mas o betume foi utilizado para a mumificação?

Em 1926 o químico britânico Alfred Lucas (1867-1945) identificou a possível presença do betume do Mar Vermelho em múmias egípcias (SEEHER, 1922), que poderia ter chegado ao Egito através de caravanas advindas do deserto oriental, mais propriamente do Sinai.

Conhecemos o uso da resina líquida quente em múmias datadas do Antigo Império e ao longo de todo o faraônico, mas o betume só foi adotado tardiamente. Um exemplo do seu uso foi encontrado em restos mortais provenientes da tumba do faraó Djoser (3ª Dinastia), mas que foram datados como pertencentes aos períodos tardios. Nesta ocasião foi constatado que o seu uso foi empregado em uma mistura com a resina, esperando que assim a cultura de micro organismos – responsável pela decomposição cadavérica – no tecido morto fosse desencorajada.

Referências:

AUFDERHEIDE, Arthur. The Scientific Study of Mummies. Nova York: University of Cambridge, 2010.

HARRIS, James. “Scientific study of mummies”.In: BARD, Kathryn.Encyclopedia of the Archaeology of Ancient Egypt. London: Routledge, 1999.

SEEHER, Jurgen. “Ma’adi and Wadi Digla”. In: BARD, Kathryn. Encyclopedia of the Archaeology of Ancient Egypt. London: Routledge, 1999.

Documentário: A Múmia que grita

 

Nova série da Discovery Channel Brasil, Egito Revelado, irá estrear dia 01 de Setembro de 2011.

 

Documentário: A Múmia que grita 

Canal: Discovery Channel (Brasil)

Data: 01 de Setembro de 2011.

Horário: 22h00

 

Sinopse disponibilizada pelo canal:

Egito Revelado: A Múmia que Grita

Há dois séculos, um sarcófago egípcio foi encontrado em uma caverna. Em seu interior, uma múmia de 3 mil anos, com um grito petrificado no rosto. Neste episódio, os recursos mais avançados da ciência moderna tentam solucionar o mistério.

 

Reprise:

 

Data: 02 de Setembro de 2011.

Horário: 01h00

Data: 02 de Setembro de 2011.

Horário: 05h00

Data: 02 de Setembro de 2011.

Horário: 15h00

Data: 04 de Setembro de 2011.

Horário: 10h00

Data: 07 de Setembro de 2011.

Horário: 12h00

 

 

Esteve em foco: Brasileiro salva múmias

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

Em 16 de Setembro de 1990 saiu no Estado de São Paulo uma matéria sobre um esterilizador que reproduz calor por radiação, perfeito para matar o mofo e retirar a acidez (ambos responsáveis pela a deterioração de corpos orgânicos) sem alterar a umidade ou a temperatura do ambiente em que as múmias egípcias se encontram. O destaque da reportagem foi para o inventor do aparelho, o brasileiro Alinthor Fiorenzano Júnior.

O texto foi lançado na época em que o Supremo Conselho de Antiguidades ainda se chamava Organização das Antiguidades Egípcias. O aparelho chegou ao Egito em 1989 por doação da Yashica (distribuidora da máquina) e teve um grande índice de sucesso.

Para quem ficou curioso o nome do aparelho é Sterilair. Se pesquisar sobre ele conhecerá mais sobre alguns dos tesouros que foram inventados por aí no nosso país.

 

Reportagem do Estado de São Paulo (16 de Setembro de 1990). Acervo do Site Arqueologia Egípcia.

A tumba do governador de Bahariya

A tumba de Zed-khons-uef-ankh, governador de Bahariya  

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

Embora o nome oásis evoque a imagem de um pequeno monte de terra com palmeiras no meio do deserto causticante o Bahariya está muito longe disto. Hoje ele comporta um aglomerado de casas e na era faraônica não foi muito diferente.

Por ser uma área de ocupação extensa tanto na atualidade como no passado remoto não são raras situações em que os arqueólogos se depararam com casas atuais em cima de sítios arqueológicos. Foi assim em 1999 quando a equipe sob a liderança do arqueólogo Dr. Zahi Hawass durante um trabalho no bairro Xeque Sabi (cidade de El Bawiti em Bahariya) encontrou uma porta para um sepulcro com o nome “Zed-khons-uef-ankh” que, embora fosse um homem totalmente desconhecido para nós, já era procurado por alguns pesquisadores fazia sessenta anos.

Sarcófago de Zed-khons-uef-ankh. Foto: Kenneth Garrett. 2001.

Dentro do local, visitado pela a primeira vez pela a equipe em 2000, foram encontrados sarcófagos sobrepostos estilo uma boneca russa: o primeiro feito de pedra calcária, o segundo de alabastro e o terceiro de madeira que por sua vez se desfez com o tempo.

Muito pouco foi encontrado do espólio funerário de Zed-khons-uef-ankh, ao contrário do da sua esposa, a dama Naes, que foi sepultada na mesma galeria que o marido. Ela acabou tendo mais sorte, quase todos os seus amuletos funerários permaneceram no lugar, exceto um colar roubado por saqueadores agressivos que ao puxá-lo de seu corpo quebrou o pescoço da múmia.

Sarcófago de Naes sendo examinado por Mansour Boriak. Foto: Kenneth Garrett. 2001.

Não se sabe muito sobre Zed-khons-uef-ankh, que possivelmente foi alguém muito poderoso em vida, uma vez que, em um dos relevos em seu sepulcro ele se faz retratar maior que o próprio faraó. No entanto, apesar do esforço e dinheiro investido, Zed-khons-uef-ankh não teve sorte na sua tentativa de ingressar no além-vida, sua múmia se degradou antes mesmo da chegada dos arqueólogos, um fim trágico para alguém que equiparava o seu poder ao do próprio rei.

Curiosidades:

– Agora mundialmente conhecido pela a descoberta das “múmias douradas” na verdade Bahariya era importante por outros motivos no passado: o oásis foi um respeitável ponto para o comércio entre o Egito, a Líbia e Sudão;

– Foi identificado excesso de ferro em um dos poços de abastecimento de água do oásis. O envenenamento por este elemento pode causar uma morte prematura, o que explicaria uma faixa etária de 30 a 35 anos de vida entre alguns dos indivíduos das catacumbas do período Ptolomaico.

– Com o descobrimento da tumba subterrânea as casas que estavam ligeiramente acima precisaram ser destruídas, mas não antes dos moradores serem indenizados com outra residência.

Para saber mais:

HAWASS, Z. After 2,600 years a desert oasis yields the long-sought tombs of its legendary governor and his family. http://ngm.nationalgeographic.com/ngm/data/2001/09/01/html/ft_20010901.2.html. Acesso em: 27/09/2010

Cidades Ocultas: as tumbas perdidas do Cairo. Este documentário distribuído pela The History Channel Brasil tem um bloco dedicado ás “múmias douradas”. O programa, que ainda está sendo veiculado pelo canal, é exclusivo para falar dos subterrâneos que existem embaixo das grandes cidades.

(Documentário) Impérios da África Antiga

Discovery na Escola: Impérios da África Antiga

Canal: Discovery Channel (Brasil)

Data: 28 de Setembro

Horário: 11h00

Examine o nascimento e crescimento da civilização egípcia ao longo das margens do Rio Nilo. Arqueólogos acreditam que uma múmia desfigurada descoberta recentemente pode ser de uma mulher poderosa do antigo Egito. (sinopse oferecida pelo canal)

(Filme) As múmias do faraó (2010)

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

 

 

Embora esteja previsto para ser lançado agora em setembro, pouco se tem falado do filme “As múmias do faraó” – Les Aventures Extraordinaires d´Adèlec Blanc-Sec (As Aventuras Extraordinárias de Adèlec Blanc-Sec), (2010)- que foi dirigido por Luc Besson e estreou em 1º lugar na França. Baseado em uma série de histórias em quadrinhos do cartunista Jacques Tardi, o filme, ao menos pelo o que deu para ver pelo o trailer, está recheado das velhas estórias de câmaras secretas e misticismo, mesmo assim talvez seja um bom divertimento para o final de semana.  Sua chegada aos cinemas brasileiros está prevista para o dia 24 de setembro.

 

 

Dando uma breve sinopse, Adèlec quer encontrar uma cura para a doença da irmã, para isto ela vai ao Egito em busca da tumba de um faraó. Quando retorna para a França coisas misteriosas ocorrem em um museu de Paris: múmias voltam à vida assim como um animal pré-histórico.

 

 

Veja o trailer:

 

 

OBS: a total diferença entre o cabeçalho brasileiro e o original é mais uma prova de que os produtores do nosso país sabem escolher um péssimo título para filmes estrangeiros, vide “A Lenda da Lapide de Esmeralda” [The Curse Of King Tut’s Tomb (A maldição da tumba do rei Tut) – 2006]. Felizmente não pecaram com “A Rainha Sol” (2005).