A tumba do governador de Bahariya

A tumba de Zed-khons-uef-ankh, governador de Bahariya  

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

Embora o nome oásis evoque a imagem de um pequeno monte de terra com palmeiras no meio do deserto causticante o Bahariya está muito longe disto. Hoje ele comporta um aglomerado de casas e na era faraônica não foi muito diferente.

Por ser uma área de ocupação extensa tanto na atualidade como no passado remoto não são raras situações em que os arqueólogos se depararam com casas atuais em cima de sítios arqueológicos. Foi assim em 1999 quando a equipe sob a liderança do arqueólogo Dr. Zahi Hawass durante um trabalho no bairro Xeque Sabi (cidade de El Bawiti em Bahariya) encontrou uma porta para um sepulcro com o nome “Zed-khons-uef-ankh” que, embora fosse um homem totalmente desconhecido para nós, já era procurado por alguns pesquisadores fazia sessenta anos.

Sarcófago de Zed-khons-uef-ankh. Foto: Kenneth Garrett. 2001.

Dentro do local, visitado pela a primeira vez pela a equipe em 2000, foram encontrados sarcófagos sobrepostos estilo uma boneca russa: o primeiro feito de pedra calcária, o segundo de alabastro e o terceiro de madeira que por sua vez se desfez com o tempo.

Muito pouco foi encontrado do espólio funerário de Zed-khons-uef-ankh, ao contrário do da sua esposa, a dama Naes, que foi sepultada na mesma galeria que o marido. Ela acabou tendo mais sorte, quase todos os seus amuletos funerários permaneceram no lugar, exceto um colar roubado por saqueadores agressivos que ao puxá-lo de seu corpo quebrou o pescoço da múmia.

Sarcófago de Naes sendo examinado por Mansour Boriak. Foto: Kenneth Garrett. 2001.

Não se sabe muito sobre Zed-khons-uef-ankh, que possivelmente foi alguém muito poderoso em vida, uma vez que, em um dos relevos em seu sepulcro ele se faz retratar maior que o próprio faraó. No entanto, apesar do esforço e dinheiro investido, Zed-khons-uef-ankh não teve sorte na sua tentativa de ingressar no além-vida, sua múmia se degradou antes mesmo da chegada dos arqueólogos, um fim trágico para alguém que equiparava o seu poder ao do próprio rei.

Curiosidades:

– Agora mundialmente conhecido pela a descoberta das “múmias douradas” na verdade Bahariya era importante por outros motivos no passado: o oásis foi um respeitável ponto para o comércio entre o Egito, a Líbia e Sudão;

– Foi identificado excesso de ferro em um dos poços de abastecimento de água do oásis. O envenenamento por este elemento pode causar uma morte prematura, o que explicaria uma faixa etária de 30 a 35 anos de vida entre alguns dos indivíduos das catacumbas do período Ptolomaico.

– Com o descobrimento da tumba subterrânea as casas que estavam ligeiramente acima precisaram ser destruídas, mas não antes dos moradores serem indenizados com outra residência.

Para saber mais:

HAWASS, Z. After 2,600 years a desert oasis yields the long-sought tombs of its legendary governor and his family. http://ngm.nationalgeographic.com/ngm/data/2001/09/01/html/ft_20010901.2.html. Acesso em: 27/09/2010

Cidades Ocultas: as tumbas perdidas do Cairo. Este documentário distribuído pela The History Channel Brasil tem um bloco dedicado ás “múmias douradas”. O programa, que ainda está sendo veiculado pelo canal, é exclusivo para falar dos subterrâneos que existem embaixo das grandes cidades.

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro “Uma viagem pelo Nilo”.
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