(Resenha – Artigo em revista) “Os Mistérios de Tutancâmon”

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Neste mês (novembro), foram comemorados 91 anos de descoberta da tumba do faraó Tutankhamon e para solenizar a revista História Ilustrada publicou o texto “Os Mistérios de Tutancâmon” (Ano 2, n°5 – 2013). Em comemoração ao evento, esta edição veio com uma capa com um desenho ilustrando o faraó através da sua polêmica reconstituição facial lançada em 2005.

Revista História Ilustrada, “Os Mistérios de Tutancâmon”. 2013.

Revista História Ilustrada, “Os Mistérios de Tutancâmon”. 2013.

Para discutir o tema “Tutankhamon”, o editorial dedicou oito páginas para ele, com os pontos de debates bem distribuídos e bem confortáveis para ler, porém, em termos de conteúdo, a matéria possui alguns problemas e são eles:

▸ O artigo inicia com uma chamada equivocada (página 26), afirmando que a tumba do faraó foi encontrada no dia 26 de novembro de 1922, mas neste dia o que ocorreu foi a abertura da parede que levava para a primeira câmara e o pronunciamento da famosa frase do arqueólogo Howard Carter, “Vejo coisas maravilhosas”, quando ele observou o que existia dentro do túmulo pela primeira vez. Em verdade, a tumba foi descoberta semanas antes, no dia 04 de novembro.

▸Tutankhamon não foi o faraó mais jovem a assumir o trono, mas provavelmente Pepi II (VI Dinastia), o qual acredita-se que começou a reinar aos seis anos.

▸ Ao contrário do que a matéria apresenta, a tumba estava perfeitamente identificada já na parede inicial que lacrava o sepulcro. A princípio Carter não sabia a quem pertencia porque não tinha retirado todo o entulho que cobria a primeira parede antes do dia 24 de Novembro.

▸ O resultado dos trabalhos de Hawass, citado na página 30, não saíram em 2012, mas em Fevereiro de 2010.

▸ A múmia da KV-21, no relatório original da pesquisa, não foi confirmada como sendo Ankhesenamon, a esposa de Tutankhamon, mas como alguém de vínculo sanguíneo próximo.

Revista História Ilustrada, “Os Mistérios de Tutancâmon”. 2013. Foto: Márcia Jamille. 2013.

Revista História Ilustrada, “Os Mistérios de Tutancâmon”. 2013. Foto: Márcia Jamille. 2013.

▸ Somente uma das crianças encontradas na KV-62 foi confirmada como sendo filha de Tutankhamon, a outra não tinha material genético suficiente para a análise.

 

Para quem ficou na curiosidade:

▸ Na página 27, no quadro “A Maldição do Faraó”, a lenda da frase com o agouro foi inventada pelos veículos de imprensa, que queriam tirar lucros vendendo histórias sobre a tumba.

Revista História Ilustrada, “Os Mistérios de Tutancâmon”. 2013. Foto: Márcia Jamille. 2013.

Revista História Ilustrada, “Os Mistérios de Tutancâmon”. 2013. Foto: Márcia Jamille. 2013.

▸ Na página 28 o Vale dos Reis é descrito como o local de sepultamento dos reis, mas isto foi somente durante um período (especificamente durante o Novo Império), posteriormente, nos tempos mais tardios, algumas das tumbas seriam reutilizadas por plebeus. Em complemento, mesmo no Novo Império, o local serviu para sepultar também outros membros da realeza e pessoas da nobreza.

▸ Na página 29, a cama ritual apresentada (chamada no texto de “baú”) embora tenha ligação com a deusa Hathor ela é referente a outra divindade chamada Mehet-Weret.

No geral, embora possua estes equívocos, a matéria visualmente é bem convidativa. Alguns dos nomes egípcios não foram convencionados para a grafia adotada no Brasil, o que pode gerar um grande estranhamento. Por fim, vale ressaltar que já surgiram novas teorias de como se deu a morte do faraó e o grau de parentesco das múmias utilizadas nos exames para identificar membros da sua família. Muitas das propostas lançadas por Hawass e sua equipe de 2010, as quais os resultados da pesquisa foram listados na matéria, não são aceitas unanimemente pela a academia e inclusive existe uma série de artigos questionando a viabilidade das conclusões apresentadas. Infelizmente tais réplicas não ganharam espaço na imprensa.

 

Revistas de novembro que serão comentadas:

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro "Uma viagem pelo Nilo". [Leia seu perfil]