Comentários sobre a “nova” teoria para a construção das pirâmides

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

 

Recebi entre ontem e hoje (02/05 e 03/05) sugestões de um link divulgando os resultados de uma pesquisa publicada no Physical Review Letters, onde é apresentada uma “nova” teoria de como teriam sido movidas as pedras que foram utilizadas para construir as pirâmides. Porém a notícia está equivocada. Segue abaixo o texto na integra:

 

Cientistas descobrem como os egípcios moveram pedras gigantes para formar as pirâmides

Por: Andrew Tarantola

1 de maio de 2014 às 11:38

Uma civilização antiga, sem a ajuda de tecnologia moderna, conseguiu mover pedras de 2,5 toneladas para compor suas famosas pirâmides. Mas como? A pergunta aflige egiptólogos e engenheiros mecânicos há séculos. Mas agora, uma equipe da Universidade de Amsterdã acredita ter descoberto o segredo – e a solução estava na nossa cara o tempo todo.

Tudo se resume ao atrito. Os antigos egípcios transportavam sua carga rochosa através das areias do deserto: dezenas de escravos colocavam as pedras em grandes “trenós”, e as transportavam até o local de construção. Na verdade, os trenós eram basicamente grandes superfícies planas com bordas viradas para cima.

Quando você tenta puxar um trenó desses com uma carga de 2,5 toneladas, ele tende a afundar na areia à frente dele, criando uma elevação que precisa ser removida regularmente antes que possa se ​​tornar um obstáculo ainda maior.

A areia molhada, no entanto, não faz isso. Em areia com a quantidade certa de umidade, formam-se pontes capilares – microgotas de água que fazem os grãos de areia se ligarem uns aos outros -, o que dobra a rigidez relativa do material. Isso impede que a areia forme elevações na frente do trenó, e reduz pela metade a força necessária para arrastar o trenó. Pela metade.

Ou seja, o truque é molhar a areia à frente do trenó. Como explica o comunicado à imprensa da Universidade de Amsterdã:

Os físicos colocaram, em uma bandeja de areia, uma versão de laboratório do trenó egípcio. Eles determinaram tanto a força de tração necessária e a rigidez da areia como uma função da quantidade de água na areia. Para determinar a rigidez, eles usaram um reômetro, que mostra quanta força é necessária para deformar um certo volume de areia.

Os experimentos revelaram que a força de tração exigida diminui proporcionalmente com a rigidez da areia… Um trenó desliza muito mais facilmente sobre a areia firme [e úmida] do deserto, simplesmente porque a areia não se acumula na frente do trenó, como faz no caso da areia seca.

Estas experiências servem para confirmar o que os egípcios claramente já sabiam, e o que nós provavelmente já deveríamos saber. Imagens dentro do túmulo de Djehutihotep, descoberto na Era Vitoriana, descrevem uma cena de escravos transportando uma estátua colossal do governante do Império Médio; e nela, há um homem na frente do trenó derramando líquido na areia. Você pode vê-lo na imagem acima, à direita do pé da estátua.

Agora podemos finalmente declarar o fim desta caçada científica. O estudo foi publicado na Physical Review Letters. [Universidade de Amsterdã via Phys.org via Gizmodo en Español]

 

Antes é necessário esclarecer que não existia escravidão no Egito, o arquétipo de servidão durante o período faraônico seguia um modelo diferente do clássico, então não é correto afirmar que o país se utilizava de um sistema de trabalho escravo, especialmente durante a construção das pirâmides onde já está mais do que comprovado que foram feitas por trabalhadores livres, alguns dos quais foram sepultados próximos a esses edifícios.

O segundo problema é que a teoria apresentada já é antiga. O que há de novo provavelmente é a forma como foi conduzido o experimento, mas a sugestão de que as pedras eram empurradas com o auxílio de trenós friccionados com o solo molhado já é bem antiga, é tanto que em uma entrevista que realizei este ano para O Almanaque a comentei, falando que duas, das muitas teorias existentes, sugerem que as pedras foram arrastadas com o uso de trenós sem rodas ou com o uso de toras de madeira no lugar das rodas. Contudo, ou esqueci de falar, ou foi cortado durante a edição, que os trenós sem rodas eram empurrados sobre o solo molhado.

Existem até documentários que já abordaram isto e testaram na prática, então, em resumo, esta pesquisa não tem nada de novo, exceto que foi realizado o experimento abordado.

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro “Uma viagem pelo Nilo”.
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11 comentários sobre “Comentários sobre a “nova” teoria para a construção das pirâmides

  1. Márcia,

    Admiro muito seu trabalho e quero deixar aqui meus sinceros parabéns!!!
    Aproveito para felicitá-la pelo seu livro “Uma Viagem pelo Nilo”. Não vejo a hora de tê-lo em mãos!!
    Também quero alertá-la para um pequeno erro de edição do seu texto, quando você diz que “os trenós sem rodas eram empurrados sob o solo molhado.”
    Claramente você quiz dizer “sobre o solo molhado”!
    Continue com seu excelente trabalho.
    Forte abraço!

  2. Desculpe fugir do assunto do topico, mas preciso muito saber…….

    Os celtas tinham os druidas, os persas tinham os magos, os indianos tem os bramanes……

    Os antigos egipcios tinham algum nome especifico pra seus sacerdotes, ou era apenas sacerdote?

  3. Adorei a matéria, espero que um dia possamos compreender a construção das piramides por completo.

    Agora, falando da servidão, fico triste que nem um autor romancista que eu conheça tenha ambientado uma obra nesse período.

    Eu costumo ler os romances históricos do Bernard Cornwell, neles é possível acompanhar os personagens da antiguidade inglesa e compreender como a guerra era organizada, de forma sazonal por conta da agricultura. A servidão ocorria nesse período.

  4. É, além de não ser nada nova esta teoria, há de convir que é um tanto quanto ultrapassada, não é ?

    Afinal, o problema não é só de empurrar por tantos KMs tais pedras, mas também, como ergue-las tantos metros do solo ?

    Acho que só podemos ter certeza de uma coisa… Não temos a mínima ideia de como foram feitas!!!

    Parabéns pelo blog!

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