Anúbis, o senhor das necrópoles

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

Anúbis é uma divindade extremamente antiga e advinda da cidade de Abidos (Sul do Egito). Acredita-se que ele era um filho ilegítimo de Osíris, esposo de Ísis, com Néftis, que por sua vez era conjugue do infértil Seth (GRIMAL, 2012, p. 41).

Deus Anúbis no templo do faraó Seti I, em Abidos. Fonte da imagem: DODSON, Aidan. As pirâmides do Antigo Egito (Tradução de Francisco Manhães, Maria Júlia Braga, Carlos Nougué). Barcelona: Folio. 2007. p. 20.

Este deus possui como avatar um chacal, ou um corpo humano com a cabeça deste canídeo. Acreditamos que tal animal foi escolhido para representar o deus das necrópoles devido a nossa crença de que eles vagavam pelos cemitérios e (é bem possível) que chegassem a desenterrar alguns cadáveres, os quais, graças ao clima seco propício do Egito, eram mumificados naturalmente (o que teria até suscitado na fé egípcia pela a necessidade em se preservar restos mortais). Antes do emprego da mumificação artificial (ou seja, as realizadas pelos sacerdotes egípcios através da manipulação de materiais como a resina e o natrão) os mortos eram sepultados em covas rasas, protegidos por esteiras de juncos ou tecidos, no entanto, como o clima e a areia do Egito são propícios a conservação de matéria orgânica, não era incomum a ocorrência de múmias conservadas de forma natural (sem a intervenção humana).

Como era o deus das necrópoles, Anúbis estava também associado ao processo de mumificação, uma das práticas mais importantes durante os rituais funerários no Egito Faraônico. Sua presença votiva era tão importante para este ritual que um sacerdote presidia o momento do embalsamamento usando uma máscara com a efígie do deus. Anúbis também zelava pelo corpo do falecido, seguindo o seu papel para com o mito da morte de Osíris, quando auxilia Ísis no momento em que ela precisa esconder e vigiar o corpo do marido.

Este exemplar único de uma máscara do deus Anúbis, senhor das necrópoles, possui oitenta quilos, o que leva a crer que fosse só uma amostra para fazer alguma replica mais leve. Possivelmente era um modelo destes o utilizado durante os rituais de embalsamamento pelos sacerdotes. Foto: arquivo fotográfico do Pelizaeus-Museum.

 

Anúbis realizando o ritual de mumificação. MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto. (Tradução de Maria da Graça Crespo) 1ª Edição. Lisboa: Editora Taschen, 1999. p. 151.

 

Anúbis e após o ritual de mumificação. Tumba de Djedhériuefankh. Tebas (Terceiro Período Intermediário). Fonte da imagem: MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto. (Tradução de Maria da Graça Crespo) 1ª Edição. Lisboa: Editora Taschen, 1999. p. 146.

Anúbis auxiliando falecido. Tumba de Sennedjem. Tebas (19ª Dimastia). MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto. (Tradução de Maria da Graça Crespo) 1ª Edição. Lisboa: Editora Taschen, 1999. p. 166.

Anúbis em cerimônia de pesagem do coração do falecido Ani. Papiro de Ani. MARIE, Rose; HAGEN, Rainer. Egipto. (Tradução de Maria da Graça Crespo) 1ª Edição. Lisboa: Editora Taschen, 1999. p. 167.

É difícil precisar quando o culto a Anúbis surgiu, mas um deus anterior, chamado Kbentiamentiu compartilhava semelhanças com ele tendo, inclusive, o mesmo avatar, ou seja, a forma de um cão ou um chacal. Porém, talvez não seja de todo propício afirmar que ele seria um antecessor de Anúbis, uma vez que Kbentiamentiu também possuía atributos de Osíris, como ser representado como uma múmia envolta em bandagens (RICE, 1999, p. xli).

Em Saqqara, a antiga Mênfis, foi encontrado sepulturas de cães e chacais em honra ao deus, seguindo o costume egípcio de se mumificar animais ligados a algumas divindades.

Durante o período Greco-romano ele tornou-se Hermanubis, numa mescla entre o deus grego Hermes mais o próprio Anúbis.

Hermanubis retirado da tumba de Fabia Stratonice. Imagem disponível em < http://www.flickr.com/photos/28433765@N07/3375988731/ >. Acesso em 06 de julho de 2012.

Anúbis (direita da imagem) e Sobek em um estilo Greco-romano. Kom El-Shoqafa (Alexandria). Imagem disponível em < http://uk.memphistours.com/Egypt/Wikis/Catacombs-of-Kom-El-Shoqafa >. Acesso em 07 de julho de 2012.

Referências:

GRIMAL, Nicolas. História do Egito Antigo. (Tradução de Elza Marques Lisboa de Freitas). 1ª Edição. Rio de Janeiro: Editora Forense, 2012.

RICE, Michael. Who’s Who in Ancient Egypt. 1ª Edição. Londres: Editora Routledg. 1999.