(Resenha – Livro) “História do Egito Antigo” de Nicolas Grimal

Resenhado por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

Histoire de L’Égypte Ancienne. Nicolas Grimal.

Lançado em 1988, História do Egito Antigo (Histoire de L’Égypte Ancienne, no original) leva aos leitores os altos e baixos da civilização egípcia desde os períodos Pré-dinásticos até o domínio de Alexandre Magno em 332 antes da Era Cristã. Seu autor, Nicolas Grimal, foi assistente de Egiptologia em Sorbonne entre 1973 e 1977, depois se tornou membro do Institut français d’archéologie orientale do Cairo (1977-1981), do qual recebeu o cargo de diretor entre 1989 e 1999. Com os seus 64 anos, atualmente ele possui uma agenda cheia, realizando cursos e seminários relacionados ao Antigo Egito.

História do Egito Antigo. Nicolas Grimal. 2012.

Um leitor totalmente leigo ou que só possua informações básicas dos pontos mais relevantes acerca dos acontecimentos em cada período pré e pós-dinástico do Egito não deve investir neste livro, pois, para estas pessoas será necessária a leitura de outros títulos para utilizar como base para este, principalmente porque desde a Introdução até o último capítulo Grimal apresenta momentos históricos de forma compactada e por vezes confusa. Somando a isto, existe a necessidade de que se tenha uma noção preliminar da história da Arqueologia (mas não somente da Arqueologia especializada em Egiptologia, mas também da Clássica) e do que se tratam as Ciências Humanas. Isto irá auxiliar, dentre outras coisas, no bom entendimento em especial da Introdução, caso contrário a leitura será artificial e desleixada. Um dos exemplos onde esta necessidade torna-se visível é quando o autor fala de superioridade tecnológica ao comentar sobre os períodos pré-dinásticos (página 22). Este é um termo que deve ser utilizado com cuidado, principalmente porque oferece uma vida linear ao artefato onde ele passa por processos evolutivos em que o mais antigo não é de boa qualidade e o recente é que é um arquétipo de primor. Graças a esta ideia engessada promulgada nos primórdios da Arqueologia é que surgem comentários como “Os egípcios eram evoluídos para a sua época”, o que, consequentemente, interfere na interpretação dos artefatos.

Nicolas Grimal. Imagem disponível em < http://www.college-de-france.fr/site/nicolas-grimal/index.htm >. Acesso em 30 de Janeiro de 2013.

Embora tenha trabalhado no Institut Français d’Archéologie Orientale, Grimal comete alguns equívocos no que diz respeito ao objeto de estudo das (os) arqueólogas (os) e a forma de gerir o trabalho dos mesmos, isto pode ser observado em sua fixação em dar mais importância a dados relacionados especialmente a fontes escritas (o que pode ser uma interferência da sua formação voltada para a Filologia), como é possível se encontrar na página 11:

Torna-se obsoleto o velho antagonismo entre filologia e arqueologia, ao fim do qual só a primeira se revela capaz de dar conta de uma civilização, já que a segunda não passaria de disciplina auxiliar, relegada às tarefas inferiores de coleta documentária (GRIMAL, 2012, pág. 11).

 

Nesta citação o autor fez um desserviço a Arqueologia que por décadas foi considerada uma disciplina auxiliar da História a qual é tida por muitos como única detentora dos conhecimentos das fontes escritas. Somado a isto, as premissas da Arqueologia Clássica e Egípcia eram calcadas na Filologia (o estudo das fontes escritas antigas). Porém, atualmente os debates que ocorrem na Arqueologia demonstram o contrário: A Arqueologia se utiliza tanto das fontes materiais (onde se incluem as fontes escritas) como as imateriais (costumes de uma determinada população já é um ótimo exemplo) e o que a difere da História são as suas metodologias de trabalho. Ambas as disciplinas possuem a necessidade de um trabalho conjunto, isto porque são visões diferentes em relação aos artefatos, desta forma o antagonismo entre ambas é tão antiquado quanto tentar tecer um maior valor para uma ou para a outra.

Sua preferencia em observar o passado da perspectiva da escrita torna-se visível na página 271, quando ele discorre sobre o mito do Êxodo. Nesta parte ele comenta sobre a falta de comentários acerca do “fato” por parte dos egípcios faraônicos, justificando que por se tratar de uma derrota ninguém queria comentar sobre, o que explicaria a ausência de “provas” da ocorrência deste episódio, mas ele só olha do ponto de vista das fontes escritas, o que torna seu argumento incompleto, uma vez que ele ignora outras fontes (para saber mais sobre o Êxodo e a cultura material clique aqui).

Outro ponto negativo do livro tem relação com as citações diretas, onde em algumas ocasiões não está claro a quem pertence tais menções, além disto, são raros os momentos em que são citadas as referencias bibliográficas no meio do texto (o que não ampara no caso do interessado buscar mais sobre o assunto). O livro possui alguns problemas também em relação aos mapas, onde em alguns as informações estão em francês.

Um dos pontos positivos do livro é a necessidade de Grimal em dar exemplos de trabalhos realizados em sítios de contextos e espaços diferentes o que auxilia o leitor a ter conhecimento da existência, mesmo que pífia, de trabalhos realizados além do Vale dos Reis ou Tebas. Porém o nome dos pesquisadores é dado em forma de sigla, o que pode dificultar a identificação de alguns.

 

Considerações Finais:

O leitor que busca um material de teor mais crítico vai se decepcionar com o História do Egito Antigo. Não há debates, pelo contrário, o que será lido é a apresentação de acontecimentos históricos sem muitos questionamentos.

Pelas informações serem dadas de forma extenuante a leitura não é agradável, mesmo para um livro que busca contextualizar de forma geral os acontecimentos ocorridos durante o Período Faraônico, mas ainda assim é um material bem conveniente.

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