Perguntas de final de ano para Márcia

Respostas datadas no dia 31/12/2011 por Márcia Jamille N. Costa.

Primeiramente quero agradecer a todos que enviaram suas questões. Senti ter que excluir algumas, mas durante as avaliações foi tomada como meta escolher as que se tornavam uma dúvida comum e as mais ousadas, afinal, é uma postagem de final de ano e não há nada mais importante do que transformar este dia em um momento diferente. Quando abro momentos como este é extremamente gratificante, pois me sinto mais próxima a vocês de alguma forma. O Arqueologia Egípcia em fim torna-se um diálogo e não uma explanação única e simplesmente.

Fiz um sorteio para saber quantas perguntas escolher, desta forma teria que responder seis questões. Para manter o mesmo número do ano passado resolvi sortear a sétima.

Vejamos as escolhidas:

1ª pergunta (Ingrid):

Eu gostaria de saber se é muito difícil conseguir emprego em arqueologia no Brasil quando se é recém graduado.

Oi Ingrid. Quando terminei minha graduação não procurei por emprego, mas outros colegas sim, e alguns já estão empregados, inclusive um amigo que acabou de se formar já está com o emprego praticamente garantido em uma empresa de consultoria em Arqueologia. A idéia é não ficar em casa esperando alguém ligar com a proposta, é ir atrás. Fique de olho nos boletins da Sociedade de Arqueologia Brasileira (SAB) para saber como ficará a situação dos graduados em Arqueologia no nosso país.

Outra coisa importante: invista no seu currículo. Vá para eventos e produza artigos ou ensaios. Não espere para fazer estas coisas durante o mestrado. Este importante detalhe vai te valorizar.

2 ª pergunta (Thatyane):

Olá!

Gostaria de saber como faz para estudar egiptologia no Egito.

Provas, a universidade que aceita estrangeiros, se tem como fazer um intercambio, e se precisa de algum diploma para poder entrar (feito aqui no Brasil).

Obrigada!

Oi, tudo bom? Não sei dizer em quantas Universidades no Egito você pode estudar Egiptologia, nem como entrar, mas na Americana do Cairo, por exemplo, teve um processo de seleção neste final de ano em que para ingressar dois dos pré-requisitos básicos era ser PHD e saber traduzir Hieróglifos. Você tem que buscar pelos Editais. Outra coisa, nem todas as Universidades são unanimes (darei exemplos de fora do Egito), algumas estão pedindo experiência na área de História, outras querem Artes, outras a Arqueologia e outras conservação in situ, depende muito da finalidade do programa. A forma de ingresso também consta em Edital. O diploma é uma questão que deve ser vista com a própria Universidade de interesse já que da mesma forma que alguns dos nossos diplomas não são válidos fora os de fora também podem não ter validade aqui.

Meu conselho totalmente pessoal é que se quer investir em uma educação em Egiptologia fora do nosso país é que procure Universidades nos EUA ou alguma na França ou Inglaterra, pois além da língua ser mais acessível o corpo de Egiptologia é mais experiente em termos de ter uma tradição com pesquisa em campo. No Egito tudo ainda está muito novo e os recém formados de lá estão em choque com as autoridades porque não estão recebendo experiência de campo.

3ª pergunta (Anônimo):

Com um diploma de graduação em Arqueologia Brasileira eu posso trabalhar no Egito?

Trabalhar no Egito exige uma série de questões, algumas de teor político.  Nunca trabalhei lá, mas temos profissionais brasileiros que mesmo sem uma formação ampla em Egiptologia (ampla para o contexto brasileiro é se formar com uma monografia, dissertação ou tese relacionadas ao Antigo Egito em uma instituição reconhecida pelo MEC e desenvolver uma vida acadêmica sobre) escavam no Egito com equipes estrangeiras. Às vezes são contatos estabelecidos ou indicações. Talvez se tivéssemos um corpo forte de Arqueologia Egípcia isto não seria algo tão “segregado”. Entendo que sua pergunta seja exclusivamente trabalhar em escavações, mas a Arqueologia não se resume a isto. Você pode trabalhar com acervos, catálogos, escrever livros ou matérias para o publico leigo ou amador. O museu Britânico possui inclusive programas para estrangeiros que necessitam de treino. Existem possibilidades para se preparar para o mercado de trabalho, mas é preciso procurar e se dedicar.

4 ª pergunta (Jayna Melo)

Na sua visão, há uma maior valorização/interesse da arqueologia egípcia por se tratar de dinastias, múmias; enfim, uma grandeza arquitetônica e uma riqueza de materiais, em detrimento da arqueologia brasileira que praticamente se resume a questão indígena?

Por muito pouco pensei que era a professora Janaina Mello quem tinha redigido esta pergunta. Ela está fazendo aniversário hoje (Parabéns para ela! Muitos anos de vida!). E em fim: Por parte do público comum sim. Frequentemente vejo pessoas se referirem a Arqueologia Egípcia como a verdadeira Arqueologia não só por sua antiguidade em termos de constituição de sociedade e cultura, mas em termos de artefatos os quais consideram mais “evoluídos” o que tornaria o Egito faraônico extraordinário. Recentemente comentei em meu blog que as pessoas se apegam mais as questões de gestão dos artefatos egípcios do que aos artefatos do seu próprio país e finalizei com um “basta refletimos acerca dos motivos”, mas na verdade eu já tinha dado a resposta, a mídia de certa forma tem sua parcela de culpa, todos os anos temos especiais sobre a Antiguidade Egípcia, mas quase não temos nenhum sobre Arqueologia Brasileira e neste caso quando são produzidos recebem pouca divulgação. Já que mencionou a questão indígena temos a Arqueologia Amazônica, poucos eram os brasileiros que ouviam falar até que começaram a aparecer documentários e matérias de revistas sobre a Terra Preta de Índio. A Amazônia, desde então, parece ter virado a Meca da Arqueologia Brasileira, muito se fala sobre ela e seus sítios. Os próprios arqueólogo brasileiros também são culpados já que alguns levantam como Arqueologia somente o que relacionam com a “Pré-História” e tudo o que tem a ver com as sociedades com escrita como o objeto de estudo da História, desta forma a Arqueologia Histórica no nosso continente vem sofrendo um bocado com isto inclusive na sua constituição. Voltando a questão egípcia parte do público observa tudo de uma forma lúdica o que acaba refletindo na busca por um passado glorioso (é tanto que não é estranho encontrarmos no Brasil tantas pessoas que se dizem reencarnações de rainhas e faraós) e normalmente para a nossa sociedade infelizmente o índio é visto como o símbolo da inferioridade, uma semente ruim, um passado de decadência. É mais propício se relacionar a faraós do que com índios, a pena é que a Arqueologia dos índios do Brasil tem tanto a mostrar, as últimas pesquisas têm indicado coisas incrivelmente maravilhosas, mas infelizmente o público vê com pouco interesse.

 

5ª pergunta (Natália):  

Primeiro queria deixar claro que amei a idéia de ver isso de novo, e que agora vou conseguir participar… Mas vamos lá…

Se você tivesse a oportunidade de falar cinco minutos com (vou usar meu favorito aki ^^ he he) Tutankhamon,o que diria a ele?

Oi Natália! Tudo bom? Creio que é a Natália que sempre aparece por aqui! Feliz Ano Novo!

O Tutankhamon é quase meu garoto propaganda, é a foto dele que está como background no meu Twitter, ele abre o meu mural no Facebook e é minha imagem de assinatura aqui no Arqueologia Egípcia. Foi graças a ele que me interessei de vez pela Arqueologia. Teríamos quase uma relação de cumplicidade se mais de 3000 anos não nos separasse, desta forma, cinco minutos jamais daria para falar muito, porém tentaria dizer que hoje em dia ele é quase uma estrela do Rock, por incrível que pareça ele possui groupies e é muito amado pelas crianças, fora as pessoas que o tomam como objeto de culto e outros que se inspiram nele. Embora o tratem como irrelevante para a Arqueologia é incrível ver como existem pessoas que se iluminam ao ver os artefatos ligados a ele, as crianças, por exemplo, se encantam profundamente, neste último caso já cheguei a ler um comentário de que é porque existe uma identificação, mas nunca vi uma criança se encantar com o garoto por ele ter sido um faraó jovem, mas pelas imagens, para os adultos é só um rapaz que morreu drasticamente e foi enterrado com as suas coisas, para as crianças é uma pessoa que parecia ser legal e os seus artefatos é um playground para conhecer coisas novas. Parece bem uma atração muito afetuosa.

6ª pergunta (Jane Viana):

Quando é que você vai trazer um curso deste de egiptologia ou religião egípcia para UFS? Ou para SE? Estamos aguardando!

Pessoal, a Jane é uma das alunas da graduação em Arqueologia na UFS.

Jane! Primeiramente feliz Ano Novo e estude muito para quando voltar para o próximo período. Obrigada por enviar uma pergunta que embora descarada (gente, ela sempre me importuna com esta pergunta =D ) é válida. Ainda não tirei meu mestrado, mas até lá só sobra os eventos e o próximo período, pois nele tenho que fazer minha livre docência, então, quem sabe…

7ª pergunta (Eugênio – Brusque –SC)

Márcia, parabéns

Admiro o seu trabalho, e gostaria de te conhecer, e dividir o nosso amor pelo Egito.

Bom 2011, vida, prosperidade e saúde

Esta foi a pergunta sorteada, não é bem uma pergunta, mas vamos lá:

Eugênio, fico feliz que tenha enviado uma mensagem já que nos últimos meses tem participado bastante aqui no Arqueologia Egípcia. Realmente seu interesse pela sociedade egípcia tem sido admirável.

Um dia espero que cada cidade do Brasil tenha sua cota de egiptólogos e que montem mais eventos pelo território. Quem sabe não nos vemos em um destes.

Ankh, Wdja, Seneb* e até o próximo ano!

E para todos os leitores do Arqueologia Egípcia: Tenham o início de um Ano Novo Feliz!

Vale dos Reis. Imagem disponível em < http://www.touristspots.org/the-valley-of-the-kings-in-thebes-egypt/ >. Acesso em 09 de novembro de 2011.

(*Vida, prosperidade e saúde)

 

 

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro "Uma viagem pelo Nilo". [Leia seu perfil]

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