Entrevista: Pedro Paulo A. Funari

Por Márcia Jamille Costa, estudante de arqueologia na UFS. Entrevista publicada no dia 11/05/2009

No dia 24/04/2009 gentilmente o Dr. Pedro Paulo Funari aceitou o meu convite para uma entrevista. Ele já é um conhecido nosso, teu texto está disponível para leitura na área de artigos e o livro “Arqueologia” já foi indicado no site. Atualmente ele é Professor Titular da UNICAMP além de Coordenador do Núcleo de Estudos Estratégicos da mesma universidade e em sua carreira tem acumuladas dezenas de artigos publicados e é editor de varias revistas cientificas no Brasil e exterior. Confira abaixo a entrevista que abre o nosso novo quadro no site.

Funari é um ícone da arqueologia brasileira e uma das principais bibliografias recomendadas em termos de arqueologia histórica. Foto cedida pelo entrevistado.

Márcia Jamille Costa: Vamos começar pelo o livro Arqueologia (2006) que é usado como bibliografia por muitas pessoas que estão começando, inclusive o indico em meu site, é um material muito pequeno, mas bem explicativo. Como se deu a elaboração dele?

Pedro Paulo Funari: O livro surgiu na década de 1980, para apresentar, de forma clara e didática, a Arqueologia para o público geral e estudantil. Foi publicado pela Ática. No século XXI, o livro foi atualizado, com novas questões e atualizações, mas sempre com essa perspectiva, tanto introdutória, como crítica, ao corrente das discussões no âmbito das Ciências Humanas e Sociais. Sua elaboração contou com literatura, mas também com a experiência de campo e científica, internacional e brasileira.

O que você acha do termo “Arqueologia Histórica”, muitos alunos sentem certa dificuldade em entender do que de fato se trata, deveria haver uma nova definição para este tipo de arqueologia?

P. P. F: O termo surgiu no Estados Unidos, para designar o estudo da cultura material a partir da Idade Moderna, a partir do fim da Idade Média. Na Europa há outras definições, mais ligadas ao estudo das civilizações egípcia, mesopotâmica, grega, romana. Em 1999, publicamos o livro Historical Archaeology, back from the edge (Londres, Routledge), com a participação de estudiosos do mundo todo, propondo uma outra definição: o estudo da cultura material das sociedades com escrita.

Como alguém que participa do corpo editorial de 30 revistas cientificas dentre o nosso país e o exterior, há algum ponto em que a Arqueologia brasileira deveria se espelhar na arqueologia de outros países?

P. P. F: Não se trata de espelhar-se, mas de interagir com a ciência internacional. A Arqueologia brasileira tem, cada vez mais, estado em contato com o que se faz na América Latina, nos Estados Unidos e na Europa, com um grande enriquecimento da disciplina no Brasil. O Brasil, por sua parte, já tem contribuído para a ciência internacional, com a produção de livros e artigos de alcance internacional, em diversos temas e áreas, como no caso da Arqueologia subaquática e na Arqueologia Histórica.

Uma das enciclopédias que você co-edita é a Oxford Encyclopaedia of Archaeology, deve ser uma experiência e tanto!

P. P. F: De fato! Articular autores dos quatro continentes é muito instigante. A diversidade de pontos de vista é impressionante e se aprende muito.

Foto cedida pelo entrevistado.

Quando estive no Rio de Janeiro fiquei sabendo que você estava para dar uma palestra sobre a história militar na antiguidade, sei também da existência de um artigo seu sobre o mundo mulçumano. O arqueólogo se especializar em uma só área seria uma espécie de barreira para explanar varias culturas?

P. P. F: É comum que as pessoas se especializem. Esta é uma tendência da ciência desde o …século XVIII! Contudo, quanto maior a capacidade de tratar de uma diversidade de temas, tanto melhor, pois isto permite que a pesquisa seja mais complexa a abrangente. Hoje, essa tendência é crescente e beneficia estudiosos e público em geral.

Qual você considera sua maior contribuição para a Arqueologia?

P. P. F: A ciência é coletiva e a Arqueologia, em particular, de forma especial. Por isso, qualquer contribuição deve ser entendida como algo coletivo, como parte de um esforço compartilhado. Meu intento sempre foi no sentido do incentivo ao pensamento crítico e independente, de uma Arqueologia integrada à sociedade, antenada com o mundo. Se for para escolher um lema, seria de omnibus dubitandum (“deve duvidar-se de tudo”), pois, como já dizia Sócrates, o pensador grego do século V a.C., só vale viver uma vida de forma crítica.

Entrando agora um pouquinho mais para o tema do site, algumas pessoas que se preparam para se especializar na Arqueologia Egípcia sofrem muitas vezes certa discriminação por ser considerado por alguns como “um tema batido” ou por não ser algum assunto relaciona do ao Brasil. Você tem experiência na área de História Antiga, já sofreu com algo parecido?

P. P. F: Claro! Nem sempre a má fama, contudo, foi sem fundamento. A Antiguidade  reacionária, idealizada ou opressora é terrível. Há quem justifique a opressão das mulheres pela Antiguidade. Contudo e por isso mesmo, o estudo do antigo pode ser muito relevante, pois mostra, pela diferença e semelhança, como podemos viver, hoje, de forma critica,  de modo a transformarmos a sociedade. O Egito Antigo poder servir para tudo isso!

Você trabalha muito com a questão do patrimônio, temos o caso do busto de Nefertiti e da pedra de Roseta, além de muitos outros artefatos egípcios que o Conselho Supremo de Antiguidades do Egito está pedido para que sejam devolvidos. Qual a sua opinião sobre esta atitude?

P. P. F: Franceses e ingleses pilharam o Egito, como tantos outras potências imperiais o fizeram. As antigas colônias ou regiões subjugadas reivindicam que isso seja revisto e isto parece razoável.

Agora a pergunta clichê: Quais caminhos te levaram para a Arqueologia?

P. P. F: Antes de tudo, o que os gregos chamavam de acaso (tykhé) e oportunidade (kairós). Já adolescente, gostava da Arqueologia, como aventura, devorava os livros de Ceram. Contudo, fui levado à Arqueologia por oportunidades concretas, já como estudioso da História, no mestrado.

Gostaria de deixar algum recado para os leitores do arqueologiaegipcia.com.br?

P. P. F: A paixão é o combustível que garante a perseverança necessária para um estudo prazeroso e bem sucedido!

*

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro “Uma viagem pelo Nilo”.
[Leia seu perfil]