Seti I: o primeiro ramséssida

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille | Instagram

 

Imagem de Seti I na KV-17. Imagem disponível em . Acesso em 05 de agosto de 2013.

Imagem de Seti I na KV-17. Imagem disponível em < http://www.flickr.com/ photos/oar /52193 11780/ >. Acesso em 05 de agosto de 2013.

Seti I (Sethos, em grego), segundo faraó da 19ª Dinastia (Novo Império), cujo nome de batismo era Seti Mery-en-ptah (Do deus Seth, amado de Ptah) [1], foi filho de Paramessu, um homem proveniente do Delta – território o qual tradicionalmente o deus Seti (Seth) era padroeiro – e sem ligações com a realeza, mas que foi designado, apesar do cargo de vizir, como “príncipe hereditário da terra” pelo faraó Horemheb (Novo Império; 18ª Dinastia), pelo fato do rei não ter tido herdeiros (O’CONNOR  et al (b),  2007).

Ao assumir o trono, Paramessu mudou seu nome para Ramsés (I) e incluiu o seu filho, Seti (I), nos assuntos administrativos do país (O’CONNOR  et al (b), 2007; DESPLANCQUES, 2011), e tornando-o co-regente, de acordo com uma estátua de Medamud [1]. O então príncipe assumiria o trono um ou dois anos depois, devido a morte do pai (O’CONNOR  et al (b), 2007), por este motivo Seti I é considerado o derradeiro fundador da dinastia ramsessida [2].

Ele foi casado com Tuya (Toya), a mãe de Ramsés II, a qual não recebeu muito destaque no seu governo até a morte do esposo, mas com a viuvez ela foi presenteada com construções e um templo em sua honra a mando de seu filho (O’CONNOR  et al (b), 2007). O Casal Real teve mais outras três crianças: um primogênito (mas falecido jovem), Tia e Hanutmiré (que casou-se mais tarde com o irmão Ramsés II) [1].

 

Governo e atividades militares:

Seti I já era nascido, inclusive um oficial e pai de Ramsés (II), quando Horemheb ainda era vivo, e teve educação nas artes bélicas, provavelmente por influencia da distinção que uma carreira militar tinha entre a alta nobreza egípcia. Esta educação foi bem a calhar em seu governo, que era herdeiro de uma ideologia que pregava o discurso de que acima de tudo o faraó deveria proteger as fronteiras do Egito e assim manter a maat.

Imagem de Seti I na KV-17. Imagem disponível em . Acesso em 05 de agosto de 2013.

Imagem de Seti I na KV-17. Imagem disponível em < http://www.flickr.com/photos/soloegipto/4092548965/ >. Acesso em 05 de agosto de 2013.

Em uma inscrição em sua biografia conservada em uma das paredes da sala hipostila de Karnak possuímos a narrativa de uma batalha com o Seti I como protagonista:

Sua majestade exulta no princípio da batalha, compraz-se em participar; seu coração regozija-se com a visão do sangue. Ele corta as cabeças dos dissidentes. Mais que a celebração da vitória, ama o momento de abater o inimigo (O’CONNOR  et al (b), 2007, pág. 17).

Assim como seus antecessores ele entrou em choque com os hititas, batalhando contra o rei Muwatallis, momento em que estabeleceu a fronteira de Kadesh no rio Orontes entre o Líbano e as montanhas do Anti-Líbano [2]. Também ordenou incursões bélicas no norte da Palestina e Síria e fortificou as fronteiras egípcias [2].

 

Algumas construções:

Seti I seguiu a tradição de construtor, mas uma das suas mais emblemáticas obras é o seu templo funerário em Abidos, no Alto Egito, onde se retratou, mais o filho Ramsés (II), como herdeiro legítimo de Amenhotep III, excluindo todos os faraós desde Akhenaton até Ay. Esta atitude provavelmente se deu pela a experiência amarniana que viria a ser condenada por Horemheb, iniciando assim o desmantelamento de templos votivos ao deus Aton e aos sucessores de Akhenaton (O’CONNOR et al (a), 2007; DESPLANCQUES, 2011). Por outro lado, o seu catálogo é impreciso em outro sentido, listando somente 75 monarcas a partir de Meni (Menés, em grego), o qual, de acordo com a tradição egípcia, acreditava-se ser o fundador do Egito unificado e da primeira dinastia (O’CONNOR  et al (b),  2007).

Templo de Seti I em Abidos. Imagem disponível em . Acesso em 05 de agosto de 2013.

Templo de Seti I em Abidos. Imagem disponível em < http://www.flickr.com/photos/soloegipto/5451575592/ >. Acesso em 05 de agosto de 2013.

Também reabriu minas e pedreiras, restaurou templos e capelas que estavam degradados, dando especial atenção aos templos danificados por Akhenaton (18ª Dinastia; Novo Império) e concluindo construções de Tutankhamon (BRAND, 2009). Seus programas de reparos foram gravados com o uso da palavra sm3wymnw, marca de renovação bastante empregada para registrar sua autoria nestes restauros (BRAND, 2009). Ele também ampliou a Grande Sala Hipóstila de Karnak e construiu edifícios para a sua honra também na Núbia (atual Sudão) e na Ásia Ocidental (BRAND, 2009).

Seti I e o jovem Ramsés II em Abidos. Foto: O’CONNOR, David; FREED, Rita; KITCHEN, Kenneth (b). Ramsés II (Tradução de Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Fólio, 2007. Pág. 35.

Seti I e o jovem Ramsés II em Abidos. Foto: O’CONNOR, David; FREED, Rita; KITCHEN, Kenneth (b). Ramsés II (Tradução de Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Fólio, 2007. Pág. 35.

O maior problema em relação a este assunto é se entender a cronologia de acontecimentos dentro do seu reinado, especialmente em relação ao seu programa de construção (BRAND, 2009), uma vez que após a sua morte alguns dos seus predecessores imediatos, especialmente seu filho Ramsés II, dedicaram templos em seu nome (BRAND, 2009).

 

Sepultamento:

Ele governou possivelmente por 13 anos (existindo uma divergência de opiniões que põe seu fim entre 17 e 20 anos de reinado) [1], provavelmente de causas naturais, e foi sepultado no Vale dos Reis, na tumba KV17, descoberta em outubro de 1817, pelo explorador Giovanni Battista Belzoni (1778 — 1823), e se constitui de um dos maiores túmulos da necrópole.

 

Para saber mais:

Livro: The Monuments of Seti I: Epigraphic, Historical and Art Historical Analysis, de Peter J. Brand.

Livro: The Monuments of Seti I.

Livro: The Monuments of Seti I.

Embora caro (€210,00, no valor do título na língua original), este livro é o resultado das pesquisas para a tese de doutorado do professor Brand acerca dos monumentos realizados por Seti I e os que foram associados a ele mesmo após a sua morte. Apresenta metodologias de análises, como o reino de Seti I influenciou na instituição do discurso ramséssida e um ensaio acerca da família do faraó. Não é um livro dedicado para amadores, embora possua uma leitura fácil, mesmo em inglês.

 

Referências:

BRAND, Peter. The Monuments of Seti I: Epigraphic, Historical and Art Historical Analysis. Brill, 2009.

DESPLANCQUES, Sophie. Egito Antigo (Tradução de Paulo Neves). Porto alegre: L&PM, 2011

O’CONNOR, David; FORBES, Dennis; LEHNER, Mark (a). Grandes civilizações do passado: Terra de faraós. (Tradução de Francisco Manhães). Barcelona: Folio, 2007.

O’CONNOR, David; FREED, Rita; KITCHEN, Kenneth (b). Ramsés II (Tradução de Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Fólio, 2007.

[1] “Seti I by Jimmy Dunn”. Disponível em < http://www.touregypt.net/featurestories/seti.htm >. Acesso em 14 de novembro de 2013.

[2] “Seti I”. Disponível em < http://global.britannica.com/EBchecked/topic/536230/Seti-I >. Acesso em 12 de novembro de 2013.

Faraó Merenptah: O 13º filho de Ramsés II

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

 

Ramsés II morreu aos 90 anos, após um reinado de 67, sobrevivendo a doze dos seus filhos mais velhos. Embora sua esposa favorita fosse Nefertari, nenhum dos filhos dela viveram para ter a oportunidade de assumir o trono. Desta forma foi o 13º herdeiro, Merenptah (ou Merneptah) (Novo Império; XIX Dinastia), dos cerca de noventa filhos do faraó, quem recebeu o direito de reinar quando tinha entre cinquenta e sessenta anos de idade. Sua mãe era a rainha Ísis-Nofret (DAVID; DAVID, 1992; O’CONNOR et al, 2007).

 

Faraó Merenptah. Imagem disponível em < http://www.absolutegipto.com/merenptah-el-rey-anciano/ >. Acesso em 03 de junho de 2013.

 

O reinado de Ramsés II é conhecido pelas incursões militares nos primeiros anos do seu governo e a uma aparente paz nos anos tardios, porém, após assumir o trono, Merenptah precisou enfrenta uma ameaça a autoridade egípcia no Canaã e sul da Síria, a qual abafou com o auxilio do exército. Com a sua vitória celebrou o feito em vários relevos nos muros de Karnak (O’CONNOR et al, 2007).

No seu 5º ano de reinado, os líbios (que já tinham tentado tomar o país no reinado de Seti I) e os Povos do Mar (que posteriormente dominariam parte das sociedades do Mediterrâneo) ultrapassaram a fronteira egípcia ocidental, planejando manter assentamento, levando consigo familiares e posses. Eles foram encontrados no Delta (o local especifico não se sabe – ver mapa) pelo exercito do faraó e durante seis horas os estrangeiros sofreram um massacre cujo número de vítimas fatais contou-se cerca de 6 000, de acordo com as fontes egípcias, que levantavam os dados através das mãos cortadas dos circuncisos ou pelos pênis coletados dos incircuncisos (DAVID; DAVID, 1992; O’CONNOR et al, 2007; BAINES; MALEK, 2008).

 

Provável local de confronto do faraó Merenptah contra os líbios e os Povos do Mar. Mapa: Márcia Jamille Costa. 2013.

 

De acordo este mesmo relato o líder líbio, Merire, conseguiu escapar. As fontes descrevem o que teria ocorrido:

O miserável chefe dos líbios tinha o coração paralisado pelo medo, parou, ajoelhou-se e deixou o arco, a alijava e suas sandálias para trás (O’CONNOR et al, 2007).

Aproveitando desta batalhavam no norte, os servos núbios ao sul, que permaneceram acalmados nas últimas décadas por Ramsés II, se rebelaram contra o faraó (O’CONNOR et al, 2007). Os povos núbios da antiguidade eram descritos como exímios soldados, especialmente graças aos kermanos. Foi esta tradição bélica e as frequentes rebeliões contra os seus mestres egípcios que levaria estes povos sulistas a tomar o poder das duas terras posteriormente, durante o chamado Terceiro Período Intermediário.

 

Esfinge do faraó Merenptah no Penn Museum. Imagem disponível em < http://edtrayes.com/2011/03/lower-egyptian-gallery-penn-museum-philadelphia-pennsylvania-usa/dsc_9883-original-exposure-slphinx-lion-with-human-head-palace-of-merenptah-memphis-egypt-penn-museum-philadelphia-pennsylvania-usa/ >. Acesso em 03 de junho de 2013.

 

Aparentemente Merenptah teve sucesso em sufocar todos os motins que precisou enfrentar em sua gestão, mas embora viesse a ser conhecido como o faraó que liquidou os invasores do norte ele fez questão de deixar registrado um ato de caridade, ao realizar uma doação de cereal aos hititas durante um período de fome (BAINES; MALEK, 2008).

Um dos seus palácios encontrava-se em Mit Rahina, na colina Kom el-Qala, o qual atualmente só existem ruínas. Ele foi escavado por Clarence Stanley Fisher (1876 – 1941) e a missão de arqueologia do University Museum, da Filadélfia (BAINES; MALEK, 2008).

 

Sucessão:

Merenptah reinou por dez anos e foi substituído por Amenemés, que possivelmente não era seu herdeiro direto, mas um dos filhos ainda vivos de Ramsés II ou descendente dos mesmos. De todo modo uma das características do governo de Amenemés foram as constantes lutas familiares e após quatro anos de administração ele foi substituído por Seti-Merenptah, coroado como Seti (II), cujo trono foi herdado por sua esposa Tauseret, que foi coroada faraó (DAVID; DAVID, 1992; O’CONNOR et al, 2007; BAINES; MALEK, 2008).

 

Sepultamento:

Originalmente Merenptah teria sido sepultado em Tebas, na KV-8, mas a sua múmia foi encontrada pelo arqueólogo francês Vitor Loret (1859-1946) em 1898 no esconderijo real locado na tumba do faraó Amenhotep II, no Vale dos Reis (DAVID; DAVID, 1992). Um dos seus sarcófagos foi reutilizado por Psusene I e só foi identificado porque dentre os seus cartuchos apagados somente um na tampa ainda possuía o nome do antigo dono (O’CONNOR et al, 2007).

 

Fragmentos do sarcófago de granito vermelho do faraó Merenptah. Foto disponível em O’CONNOR, David; FREED, Rita; KITCHEN, Kenneth. Ramsés II (Tradução de Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Fólio, 2007. Pág. 138.

 

A “Estela de Merenptah”:

Em seu templo mortuário foi encontrada uma estela comemorativa enaltecendo as vitórias do faraó em batalhas contra países estrangeiros. Presunçosamente ela é chamada de “Estela de Israel” devido a imagem de dois hieróglifos que representam um homem e uma mulher caminhando e foi deduzido que se trataria de uma comunidade nômade. Permanecendo no caráter subjetivista, foi sugerido que poderia se tratar do povo de Israel, porém a teoria permanece uma especulação.

 

Estela de Merenptah. Retirado de Merneptah Stele. Disponível em < http://www.flickr.com/photos/frankrytell/2155909119/ > Acesso em 24 de Abril de 2011.

 

Originalmente esta estela pertencia ao faraó Amenhotep III (Amenofis III), da XVIII dinastia.

 

Referências:

BAINES, John; MALEK, Jaromir. Deuses, templos e faraós: Atlas cultural do Antigo Egito (Tradução de Francisco Manhães, Maria Julia Braga, Michael Teixeira, Carlos Nougué). Barcelona: Fólio, 2008.

DAVID, Rosalie; DAVID, Antony. A Biographical Dictionary of Ancient Egypt. London: Steaby, 1992.

O’CONNOR, David; FREED, Rita; KITCHEN, Kenneth. Ramsés II (Tradução de Francisco Manhães, Marcelo Neves). Barcelona: Fólio, 2007.