Pesquisa revela que o faraó Senebkay foi brutalmente assassinado

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Senebkay viveu durante o Segundo Período Indeterminado, uma época de descentralização política. A descoberta da sua tumba em Abidos foi anunciada no início de 2014 e nela ele é chamado de “rei do Alto e Baixo Egito”, embora só tenha governado uma parte do país já que pertenceu a chamada “Dinastia de Abidos”, que reinou concomitante a Dinastia Tebana e a Dinastia Hicsa. Sobre esta dinastia escrevi em 2014:

“(…) o faraó em questão fazia parte de uma Dinastia de Abidos cuja existência era fruto de especulações, citados em artefatos muito degradados como uma estela proveniente da já citada Abidos – que possui a denominação de três governantes os quais o nome de batismo tem associação com o nomo tinita – e o Cânone de Turim, de onde conhecemos como advindos desta época dois reis chamados Woser [?] ra. Esta lista faz alusão a outros governantes deste mesmo período, mas seus nomes estão fragmentados.”[1]

Na ocasião da descoberta da sepultura, além de artefatos – como o sarcófago, que na verdade pertencia outrora a alguém chamado Sobekhotep, provavelmente o rei Sobekhotep I (13ª Dinastia, Médio Império) – o corpo do faraó também foi encontrado. Na época foi liberada a informação de que Senebkay tinha 1,75 metros de altura e cerca de 40 a 50 anos de idade no momento de sua morte.

Corpo de Senebkay.

Um ano depois, no mês de fevereiro, foi anunciado que o Senebkay sofreu uma morte violenta, assassinado com 18 apunhaladas. Joseph Wegner (Universidade da Pensilvânia), diretor da missão responsável pela pesquisa, acredita que o governante morreu em campo de batalha. Mas fica a incógnita: Quem eram os inimigos? Ele acredita que foram os hicsos, que governavam o norte do Egito, o que é uma afirmação forte, visto que até a revolta tebana aparentemente estes governos paralelos se toleravam.

A recente análise também diminuiu a idade que ele tinha no momento da sua morte, a colocando agora entre 35 e 40 anos.

De acordo com as bioarqueologas María Rosado e Jane Hill (Universidade de Rowan), que também fazem parte da equipe, dentre tantos golpes violentos o que o matou foi o que ele recebeu em seu crânio, no parietal esquerdo, um ferimento que foi realizado por um instrumento afiado ainda não identificado.

Dada a extensão das feridas o que é possível imaginar do cenário de sua morte é que ele pode ter sido encurralado e atacado ferozmente por um grupo de agressores. Pela descrição do mapa de ferimentos (pernas, sacro, costas, mãos e cabeça) narrado por María Rosado em sua entrevista ao El Mundo, Senebkay ainda estava consciente quando sofreu alguns dos golpes e tentou se salvar movendo as pernas e tentando proteger, inutilmente no final das contas, a cabeça, onde sofreu o golpe final.

A pesquisadora também salienta que pela direção das feridas o rei estava em uma posição elevada em relação aos seus agressores quando foi atacado. “É um dos cenários possíveis porque ele apresenta um corte no tornozelo. Podem tê-lo feito para imobilizá-lo, puxá-lo do cavalo, arrastá-lo e aplicar então o resto das incisões”. Complementa Rosado.

Ela também notou que ele realizava avidamente atividades equestres, “Tem uma pélvis muito mais definida, os músculos das pernas são extremamente fortes e se vê mais pressão no corpo”. Os cavalos foram introduzidos no Egito com os hicsos e saber que Senebkay praticou montaria por anos é um dado importante. Acerca deste assunto Wegner afirmou ao El Mundo que “Nós ainda temos muito a aprender sobre as importantes mudanças tecnológicas que ocorrem durante o período dos hicsos e Senebkay está oferecendo uma nova visão deste momento importante”.

Fontes:

[1] Comentários acerca da descoberta da tumba do até então desconhecido faraó Senebkay. Disponível em < http://arqueologiaegipcia.com.br/2014/01/27/comentarios-acerca-da-descoberta-de-senebkay/ >. Acesso em 28 de fevereiro de 2015.

Las 16 puñaladas que mataron al faraón Senebkay. Disponível em < http://www.elmundo.es/ciencia/2015/02/26/54eef891268e3ef2128b457d.html?intcmp=ULNOH002 >. Acesso em 28 de fevereiro de 2015.

Pharaoh Brutally Killed in Battle, Analysis Shows. Disponível em < http://news.discovery.com/history/archaeology/pharaoh-brutally-killed-in-battle-analysis-shows-150225.htm>. Acesso em 28 de fevereiro de 2015.

Comentários acerca da descoberta da tumba do até então desconhecido faraó Senebkay

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Desde os primeiros dias deste ano (2014) as mídias da internet têm veiculado a descoberta da tumba de um faraó até então desconhecido, uma ocorrência praticamente rara na Arqueologia Egípcia. Em 2012 soubemos da existência de Senakht-en-Ra (17ª Dinastia), que até aquele ano conhecíamos seu nome somente por três textos escritos um ou dois séculos depois de seu governo, mas nada contemporâneo ao seu reinado.

No caso da descoberta deste ano, o faraó em questão fazia parte de uma Dinastia de Abidos cuja existência era fruto de especulações, citados em artefatos muito degradados como uma estela proveniente da já citada Abidos – que possui a denominação de três governantes os quais o nome de batismo tem associação com o nomo tinita – e o Cânone de Turim, de onde conhecemos como advindos desta época dois reis chamados Woser [?] ra [1]. Esta lista faz alusão a outros governantes deste mesmo período, mas seus nomes estão fragmentados. No entanto, os arqueólogos acreditam que eles também estão sepultados no local e existe uma possibilidade de serem encontrados ao menos quinze deles [1].

Tumba de Senebkay em Abidos. Disponível em . Acesso em 25 de janeiro de 2014.

Tumba de Senebkay em Abidos. Disponível em < http://antrophistoria.blogspot.com.es/2014/01/una-expedicion-descubre-la-tumba-de.html >. Acesso em 25 de janeiro de 2014.

O faraó em questão é Woseribre Senebkay, mas a existência dele não foi nenhuma surpresa para a equipe do Museu Penn, da Universidade da Pennsylvania, e detentora da permissão para escavar no local, uma vez que o seu nome já tinha sido encontrado uma outa vez nesta mesma necrópole no ano passado. No sepulcro ele é identificado como “Rei do Alto e Baixo Egito” e foi encontrado em Sohag, Abidos. Ele reinou durante o Segundo Período Intermediário [2], uma época de turbulência política e descentralização do poder, o que torna interessante o fato dele ter se identificado no seu túmulo como governante das Duas Terras. Ele possivelmente reinou concomitante com a 15 ª, 16 ª e 17 ª Dinastias, pertencentes aos hicsos e os tebanos.

A tumba:

A configuração da tumba revela que o sarcófago encontrado nela pertenceu originalmente a outro faraó, chamado Sobekhotep (provavelmente Sobekhotep I, 13ª Dinastia, Médio Império), que foi sepultado também em Abidos. Além do sarcófago outros aparatos funerários foram retirados de outras sepulturas.  “Isso sugere que o rei tinha desafios econômicos, que tem a ver com o período de luta e fragmentação do reino”, disse o arqueólogo Alexander Wegner, coordenador da equipe [3].

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O túmulo de Senebkay é composto de quatro câmaras, incluindo uma câmara funerária de calcário pintado com imagens coloridas de divindades. Embora para a visão de leigos o túmulo pareça estar em um estado ruim, em verdade em termos de Arqueologia ele está bem preservado.

O corpo do faraó também foi encontrado. A equipe acredita que Senebkay tinha 1,75 metros de altura e cerca de 40 a 50 anos de idade no momento de sua morte.

Corpo de Senebkay. Foto: Jennifer Wegner, Penn Museum.

Corpo de Senebkay. Foto: Jennifer Wegner, Penn Museum.

Descobertas com estas só sustentam a teoria de que ainda se tem muito a descobrir no Egito em termos de Arqueologia, isto se as atitudes imprudentes do governo egípcio não continuarem desfavorecendo os sítios arqueológicos.

Referências:

[1] Mummy of Forgotten Pharaoh Discovered in Ruined Egypt Tomb. Disponível em < http://www.livescience.com/42673-forgotten-pharaoh-discovered.html >. Acesso em 18 de janeiro de 2014.

[2] Mystery pharaoh and his tomb identified in Egypt. Disponível em < http://www.nbcnews.com/science/mystery-pharaoh-his-tomb-identified-egypt-2D11934339 >. Acesso em 18 de janeiro de 2014. A fonte afirma que é esperada a descoberta de 16 tumbas, mas como se acredita que foram 16 reis desta dinastia e um já foi encontrado, me senti livre para fazer esta alteração.

[3] Forgotten Dynasty Discovered in Abydos. Disponível em < http://archaeology.org/news/1729-140116-egypt-abydos-senebkay >. Acesso em 18 de janeiro de 2014.

Valley of the other kings: Lost dynasty found in Egypt.  Disponível em < http://www.independent.co.uk/news/science/archaeology/news/valley-of-the-other-kings-lost-dynasty-found-in-egypt-9065551.html >. Acesso em 18 de janeiro de 2014.

Giant Sarcophagus leads archaeologists to Tomb of a Previously Unknown Pharaoh.  Disponível em < http://www.heritagedaily.com/2014/01/giant-sarcophagus-leads-archaeologists-to-the-tomb-of-a-previously-unknown-pharaoh/100884 >. Acesso em 18 de janeiro de 2014.