Múmias raras de leões são encontradas em cemitério do Egito Antigo

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Os egípcios cuidaram, veneraram e mumificaram uma série de diferentes animais. Nesta lista podemos incluir gatos, cães, aves, crocodilos e até escaravelhos. Os motivos eram variados indo desde estima, para servirem de alimentos no além e veneração, afinal, uma variedade de bichinhos eram vistos como mensageiros das divindades ou era uma divindade propriamente dita.

No Egito Antigo os leões representavam a realeza e a força.

Entretanto, apesar de existir uma gama tão extensa de animais que foram mumificados, alguns são mais raros que outros. Um deles é o escaravelho, o inseto mais sagrado para os egípcios antigos. Eles encarnavam o deus Khepri, uma importante divindade solar, e até mesmo compunham nomes de alguns faraós. Mas as suas múmias são extremamente escarças. Por isto foi quase um milagre a descoberta de alguns espécimes mumificados encontrados dentro de um pequeno sarcófago de calcário em 2018.

Outros tipos de múmias de animais raríssimos são as de leões. Bom, estes animais pareciam ter uma posição bastante privilegiada em relação aos símbolos e simbolismos da tradição egípcia antiga, uma vez que eram uma das representações da realeza. Mas, não era só isto! Simbolizavam também a força. É tanto que era uma das caracterizações do deus Mahes, assim como da deusa Sekhmet, uma das divindades mais importantes do panteão egípcio. Eles também integravam partes de animais míticos, tais como as esfinges que usualmente tinham um corpo de leão com a cabeça de um humano ou de um carneiro. Parte de leões formavam igualmente o corpo de Ammut, “A Devoradora” que comia os falecidos que não passassem no teste da pesagem do coração.

Sekhmet, uma deusa com cabeça de leoa, era um símbolo de destruição, mas também de saúde.

Os leões não estavam somente na mitologia, mas também compunham partes de mobiliários, artigos de guerras, etc. Eles estavam literalmente em todo lugar, embora no Egito atual não sejam nem vistos e há alguns anos somente dois corpos remanescentes do Egito Antigo tenham sido encontrados[1]… Até agora.

Ontem foi anunciada oficialmente a notícia de que alguns leões mumificados foram descobertos em uma tumba em Saqqara, na necrópole de Bubasteion. “É a primeira vez que uma múmia completa de um leão ou filhote de leão é encontrada no Egito”, disse o Ministro das Antiguidades em uma coletiva para imprensa [2][3].

Não se sabe ainda se estas são as citadas múmias de leões anunciadas na coletiva de imprensa. Foto: Ministério das Antiguidades.

Bubasteion foi por um período capital do Egito durante a antiguidade e dentre os egípcios era chamada de Per-Bastet, “casa de Bastet” ou “pertencente à Bastet”. Lá se consolidou um forte culto a deusa gata Bastet e consequentemente a cidade ganhou uma necrópole dedicada aos bichanos.

Ainda não se sabe quantos leões foram encontrados, afinal, as múmias ainda estão sob análise, mas o que foi liberado é que foram encontradas múmias de grandes felídeos e que existe 95% de certeza de que dois deles são leões. Esses animais têm cerca de 1 metro de comprimento, o que poderia indicar que ainda não eram adultos quando morreram, talvez até tendo entre oito meses de idade[2][3].

Pesquisador mostra, através de seu celular, fotografia da tomografia de um dos leões.

Foi a Salima Ikram, arqueóloga da Universidade Americana do Cairo, quem realizou a tomografia computadorizada nestas duas múmias e confirmou tratarem-se de leões. Ela disse para a National Geographic que o significado da descoberta é “extremamente importante”, pois dará aos pesquisadores novas ideias sobre como os leões foram capturados no Egito antigo e se foram criados ou comercializados [3].

Outras descobertas na área:

Outras três múmias pertencentes a gatos grandes (a espécie exata ainda não está clara) foram encontradas perto dos dois leões. Elas podem pertencer a leopardos, guepardos ou outras formas de felinos. Isso só o tempo — e naturalmente pesquisas em arqueologia — poderá nos dizer.

Múmias de gatos que foram também encontradas no local. Foto: Ministério das Antiguidades.
Múmia de gato. Foto: Ministério das Antiguidades.

Também foram encontrados no local cerca de 200 artefatos arqueológicos, incluindo múmias. São alguns deles:

☥ 75 estátuas de gatos;

☥ 25 caixas de madeira com gatos mumificados dentro;

☥ Várias estátuas de madeira representando diferentes tipos de animais e divindades;

☥ Um grande escaravelho de pedra;

☥ 2 pequenos escaravelhos de madeira e arenito;

☥ 3 estátuas de crocodilos dentro das quais foram encontrados restos de múmias de pequenos crocodilos;

☥ 73 estatuetas de bronze representando o deus Osíris;

☥ 6 estátuas de madeira do deus Ptah-Sokar;

☥ 11 estátuas de madeira e faiança da deusa leoa Sekhmet;

☥ Uma estátua da deusa Neith.

Foto: Ministério das Antiguidades.
Foto: Ministério das Antiguidades.
Foto: Ministério das Antiguidades.

Também foi descoberto um relevo com o nome de rei Psamético I, além de uma coleção de estátuas de cobras, amuletos de faiança de diferentes formas e tamanhos, máscaras mortuárias de madeira e argila e uma coleção de papiros decorados com desenhos mostrando a deusa Tawert.

Foto: Ministério das Antiguidades.
Foto: Ministério das Antiguidades.
Foto: Ministério das Antiguidades.

Achou que esta descoberta foi incrível? Pois bem, o ministro das antiguidades do Egito prometeu durante a coletiva de imprensa que o anúncio de hoje não foi a última descoberta do ano. Nas próximas semanas, no mês de dezembro, haverá outro anúncio e ele promete que será algo incrível. Basicamente será um presente para as comemorações do Natal.


[1] Um deles é datado da Dinastia 0 e o outro é datado do Período Helenístico e foi encontrado em Saqqara em 2001.

Fonte:

[2] Two Lion Cub Mummies Discovered in Egypt for the First Time

https://www.livescience.com/lion-cub-mummies-saqqara-egypt.html

[3] Very rare lion mummies discovered in Egypt. Disponível em < https://www.nationalgeographic.com/history/2019/11/rare-lion-mummy-discovered-Egypt/ >. Acesso em 23 de novembro de 2019.

In Photos: Cat statues, mummies among large collection unearthed in Saqqara’s animals necropolis. Disponível em < http://english.ahram.org.eg/News/356444.asp >. Acesso em 23 de novembro de 2019.

Details of New Archaeological Discovery in Saqqara (Photos). Disponível em < https://see.news/details-of-new-archaeological-discovery-in-saqqara-photos/?fbclid=IwAR3prCi4q0wkJKtQmoyKl1nHz3bHdB5zm5d2ZD7p8XAlk3I04SBsIuqUJbE >. Acesso em 23 de novembro de 2019.

Festival da Bebedeira no Egito Antigo + Vídeo

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Imagine que dias após a comemoração de virada do ano você está se preparando com a sua família para mais dias de festas com dança, música, comida e muita bebida. Não é um cenário difícil de idealizar, especialmente se você for um folião. Contudo, o que eu pedi para vocês vislumbrar foi um acontecimento comum do período faraônico, o “Festival da Bebedeira”, e não o Carnaval.

Apesar da coincidência, ambas estas festas têm pouquíssimas coisas em comum, uma delas certamente é o motivo da comemoração. O Carnaval, que apesar de ser um evento popular no Brasil, não é uma festa genuinamente brasileira, acredita-se que remonta a Antiguidade, sendo advindo da Mesopotâmia e comemorado até mesmo na Grécia e em Roma [1]. Será?

No caso da Mesopotâmia a principal característica desta festividade era a subversão de papéis sociais, já na Grécia e Roma seria a entrega aos prazeres da carne, tais como a embriagues e as orgias.

Homens totalmente embriagados sendo carregados para fora de uma festa. Beni Hasan. Autor: Desconhecido.

Com o passar dos anos e o poder cada vez mais crescente da Igreja católica estes tipos de festividades começaram a ser vistas como praticas pagãs. Assim, a partir do século VIII, com a criação da Quaresma, tais festas passaram a ser realizadas nos dias anteriores a este período religioso. Ou seja, as pessoas poderiam cometer excessos e se submeter a subcultura e depois teriam a oportunidade de pedir perdão a Deus.

Mulher vomitando após beber em excesso. Autor: Desconhecido.

Porém a “Festa da Bebedeira” tinha uma proposta integralmente religiosa. Ela rememorava o mito de Hathor-Tefnut ou Hathor-Sekhmet, filha do deus Rá, deus Sol criador, que a pedido do pai foi ao Egito dar uma lição na humanidade (JUNKER 1911 apud POO, 2010): Rá estava extremamente descontente com as ações torpes dos humanos e solicitou que a sua filha resolvesse a situação. Porém, ela usou da violência e realizou um verdadeiro massacre. Este não era o objetivo de Rá, que para apaziguar a sua filha verteu vinho no Nilo para confundi-la — ela pensaria que ali seria sangue humano ou o tom avermelhado da água após as inundações —. O plano deu certo, ao saciar sua sede no grande Rio a deusa ficou extremamente embriagada, deixando os humanos em paz (POO, 2010).

Apesar dos nomes Hathor-Tefnut ou Hathor-Sekhmet serem utilizados para definir a tal deusa, convencionou-se a chamá-la de Hathor ou Sekhmet. Apesar destas duas terem propriedades bem diferentes, elas foram sincretizadas em vários momentos (POO, 2010).

A Festa da Bebedeira era comemorada logo após o início do ano egípcio — que na antiguidade ocorria no segundo semestre do nosso calendário — porque, de acordo com o mito, a chegada de Hathor-Sekhmet ao Egito correspondia com a Estação Aket, ou seja, a subida das águas do Nilo, como um texto religioso afirma:

“É o pai de [Hathor], Rá, quem criou isto para ela quando ela voltou da Núbia, de modo que inundações são dadas para o Egito” (POO, 2010).

Esta comemoração era realizada no dia seguinte ao fim do Festival Wag, que por sua vez era celebrado no início das enchentes em Thot (primeiro mês da Estação Aket) (SCHOTT 1950 apud POO, 2010) e que objetivava a celebração da ressurreição da vida trazida pela inundação.

A embriaguez estava aberta para todos e a bebida era distribuída pelo Estado. Em um dia comum a intoxicação por álcool não era vista como algo tão desprezível (embora existam alguns textos moralistas acerca), mas neste evento em questão era totalmente aceitável. Logo as ruas e templos abertos ficavam cheios de pessoas embriagadas não só em homenagem à deusa, mas em agradecimento a chegada das cheias do Nilo (POO, 2010).

— Saiba mais: A cerveja no Egito Antigo: desde a intoxicação ao seu uso religioso

Em soma, muitos líquidos eram sagrados durante o faraônico, dentre eles o vinho e a cerveja, por isso que durante este festival também ocorriam as libações (POO, 2010). Sabemos que durante a oferta da cerveja o seguinte trecho de uma música poderia ser cantado:

“Tome a cerveja para apaziguar seu coração. Para o seu Ka conforme seu desejo, como eu faço música antes de você” (POO, 2010).

Ao final do festival, todos retornavam para casa para curar a ressaca e planejar o início do ano, mas a saga pela sobrevivência não tinha terminado. Outras festas religiosas pedindo por um bom plantio ou pelo fortalecimento da vida ainda viria, mas nenhuma era comparável a intoxicação do Festival da Bebedeira.

Abaixo está um vídeo onde comento sobre o festival:

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Fonte:

[1] PINTO, Tales Dos Santos. “História do carnaval e suas origens”; Brasil Escola. Disponível em <http://brasilescola.uol.com.br/carnaval/historia-do-carnaval.htm>. Acesso em 04 de fevereiro de 2016.

POO, Mu-chou. “Liquids in Temple Ritual”. In: DIELEMAN, Jacco; WENDRICH, Willeke; FROOD, Elizabeth; BAINES, John. UCLA Encyclopedia of Egyptology. Los Angeles: UC Los Angeles, 2010.

TALLET, Pierre. A culinária no Antigo Egito (Tradução de Francisco Manhães, Maria Júlia Braga, Joana Bergman). Barcelona: Folio, 2006.


  • As imagens neste post não são ilustrações do Festival da Bebedeira, mas de outras festas. São meramente ilustrativas.