Sobre leão achado no Egito em 2001

Por Márcia Jamille Costa | @MJamille

Leões são animais nativos das savanas, mas seu culto se fez popular no nordeste da África por representar o poder do faraó. Imagem disponível em < http://www.androidwallpaper.us/animals/african-lion/ leão >. Acesso em 02 de abril de 2012.

Vários foram os animais divinizados no Egito, mas poucos são tão populares nas discussões atualmente. É reconhecida a existência de cultos aos gatos e crocodilos, mas raramente é comentado acerca do culto aos leões, animais tão raros no Egito na época dos faraós, mas que eram de suma importância para pensamento religioso e o discurso monárquico, sendo um dos principais símbolos do poder do governante.

Nativo das savanas africanas, os leões deveriam chegar até o Egito transportados pelo rio Nilo. Assim como outros felídeos de grande porte é possível que alguns deles tenham vivido nos palácios reais, servindo como animal de estima do faraó. Em suma, poucos exemplares foram encontrados em sítios arqueológicos o que dificulta fazer uma estimativa de quantos poderiam ter vivido no Egito. Um destes exemplares foi encontrado em 2001 em Bubastis e transformou-se em uma das ocorrências incomuns da Arqueologia Egípcia.

Bubastis encontrava-se próximo a Aváris e Tânis, na literatura clássica ela era conhecida como Bubasteion, mas dentre os egípcios era chamada de Per-Bastet, “casa de Bastet” ou “pertencente à Bastet” (clique aqui e leia mais sobre Bubastis).

Embora a necrópole de Bubastis seja celebre pelas múmias dos gatos votivos a deusa Bastet, cujo culto tornou-se popular durante a Baixa Época e principalmente período Ptolomaico, também existiam múmias de outros animais, dentre elas, a de um leão, o único exemplar descoberto em Saqqara [1]. Ele foi encontrado na tumba de uma funcionária da casa real chamada Maya, que viveu nos anos finais da XVIII Dinastia servindo ao faraó Tutankhamon como ama de leite.

A tumba de Maya foi descoberta em 1996 pela Missão Arqueológica Francesa (MafB), equipe que trabalha até hoje nas ruínas da antiga capital. Foi esta mesma missão que encontrou o este animal em 2001. O espécime está praticamente intacto, exceto pelo o fato de que o seu crânio está parcialmente esmagado, porém não foi encontrado nenhum sinal de violência que poderia ter causado a morte do animal. A sugestão da equipe é de que ele morreu idoso e de forma natural.

Em seu artigo A lion found in the Egyptian tomb of Maïa, o coordenador da expedição, Alain Zivie (et al), destaca que a primeira vista o esqueleto está em uma posição que lembra as das múmias de gatos, embora a disposição dos membros posteriores esteja diferente.

Desenho da missão de arqueologia. A cor azul e amarela/laranja representam os membros anteriores e posteriores, respectivamente. Imagem disponível em ZIVIE, Alain; SAMZUN, Anaïck; CALLOU, Cécile. “A lion found in the Egyptian tomb of Maïa”. Nature. 15 January 2004, Vol 427.

Nos textos clássicos e inscrições faraônicas os leões são citados como animais sagrados no Egito. As esfinges, por exemplo, era um misto de cabeça humana (ou de carneiro) com o corpo de um leão.

Zivie aponta que o leão pode ser o símbolo do deus Mahes, senhor da coragem, filho da deusa Sekhemet (uma mulher com a cabeça de uma leoa) ou Bastet (geralmente apontada como um lado apaziguado de Sekhemet).

A pesquisa no túmulo demonstrou que o leão, apesar de estar em uma tumba da XVIII Dinastia, pertence ao período Helenístico (anos finais da chamada era faraônica), ou seja, em nada tinha a ver com a Maya ou o seu protetor Tutankhamon.

Membro da equipe de Arqueologia em frente ao corpo do leão encontrado na tumba da ama de leite de Tutankhamon. Embora esteja em uma tumba da XVIII Dinastia o animal pertence ao período Helenístico. Imagem disponível em ZIVIE, Alain; SAMZUN, Anaïck; CALLOU, Cécile. “A lion found in the Egyptian tomb of Maïa”. Nature. 15 January 2004, Vol 427.

[1] Existe outro exemplar, mas datado da Dinastia 0, na época do faraó A-ha.

 

Fontes consultadas:

MÁLEK, J; BAINES, J. Deuses templos e faraós: atlas cultural do Antigo Egito. Barcelona: Ediciones Folio, p 174 – 175. 2008

SILIOTTI, A. Egito. Barcelona: Ediciones Folio, p 59. 2006

ZIVIE, Alain; SAMZUN, Anaïck; CALLOU, Cécile. “A lion found in the Egyptian tomb of Maïa”. Nature. 15 January 2004, Vol 427.

Márcia Jamille

Arqueóloga formada pela UFS com a monografia “Egito Submerso: a Arqueologia Marítima Egípcia” e mestra em Arqueologia também pela UFS com a pesquisa “Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Egito: uma proposta de pesquisa das sociedades dos oásis do Período Faraônico”. É administradora do Arqueologia Egípcia e autora do livro "Uma viagem pelo Nilo". [Leia seu perfil]

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